quinta-feira, 21 de maio de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção VII)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção VII
Das ideias abstratas
     
     Levantou-se um problema muito importante com relação às ideias abstratas ou gerais, a saber, se elas são gerais ou particulares quando a mente as concebe. Um grande filósofo¹ contestou a opinião estabelecida sobre este assunto e afirmou que todas as ideias gerais não são senão ideias particulares adstritas a um certo termo que lhes dá um significado mais extenso e faz que evoquem ocasionalmente outros indivíduos a elas semelhantes. Visto que na minha opinião esta é uma das maiores e mais valiosas descobertas feitas recente mente na república das letras, tentarei aqui confirmá-la mediante alguns argumentos que, segundo espero, a porão fora de qualquer dúvida e controvérsia.

[1] Berkeley.

     É evidente que, quando formamos a maior parte, se não a totalidade, das nossas ideias gerais, fazemos abstração de todos os graus particulares de quantidade e qualidade; e que um objeto não deixa de pertencer a uma determinada espécie em razão de qualquer pequena alteração na sua extensão, duração e outras propriedades. Poder-se-á portanto pensar que existe aqui um dilema evidente, decisivo em relação à natureza daquelas ideias abstratas que têm proporcionado tanta especulação aos filósofos. A ideia abstrata de homem representa homens de todas as estaturas e de todas as qualidades, o que, conforme se depreende, ela não pode fazer senão representando igualmente todas as estaturas e todas as qualidades possíveis, ou não representando nenhuma em particular. Ora tendo-se considerado absurdo defender a primeira destas proposições, pois implica que a mente é dotada de capacidade infinita, concluiu-se geralmente pela segunda; e admitiu-se que as nossas ideias abstratas não representam qualquer grau particular de quantidade ou de qualidade. Mas vou tentar fazer ver que esta conclusão é errônea, primeiro provando que é absolutamente impossível conceber uma quantidade ou qualidade qualquer sem formar uma noção precisa dos seus graus; segundo, mostrando que, embora a capacidade da mente não seja infinita, podemos contudo formar simultaneamente uma noção de todos os graus possíveis de quantidade e qualidade, pelo menos de tal modo que, não obstante a sua imperfeição, a referida noção possa servir a todos os fins da reflexão e da conversação.
     Começando pela primeira proposição, que a mente não pode formar qualquer noção de quantidade ou qualidade sem formar uma noção precisa dos respectivos graus: podemos prová-la mediante os três argumentos seguintes. Primeiro, observamos que todos os objetos que são diferentes são também distinguíveis, e que todos os objetos que são distinguíveis são separáveis pelo pensamento e imaginação. E podemos aqui acrescentar que também é verdadeiro a recíproca destas proposições: que todos os objetos que são separáveis são também distinguíveis, e que todos os objetos que são distinguíveis são também diferentes. Pois como poderíamos separar o que não é distinguível, ou distinguir o que não é diferente? Portanto, para sabermos se a abstração implica uma separação, temos apenas de considerá-la desta perspectiva e examinar se todas as circunstâncias de que fazemos abstração nas nossas ideias gerais são tais que sejam distinguíveis e diferentes das que retemos como partes essenciais destas mesmas ideias. Mas é imediatamente evidente que o comprimento exato de uma linha não é diferente nem distinguível da própria linha, nem o grau exato de uma qualidade o é da própria qualidade. Por conseguinte, estas ideias não são mais susceptíveis de separação do que de distinção e diferença. Portanto elas estão conjugadas umas com as outras na concepção e a ideia geral de uma linha, não obstante todas as nossas abstrações e subtilezas tem, ao surgir na mente, um grau exato de quantidade e qualidade, muito embora possamos fazê-la representar outras que têm diferentes graus de ambas.
     Segundo, temos de reconhecer que nenhum objeto pode aparecer aos sentidos ou, por outras palavras, que nenhuma impressão pode tornar-se presente ao espírito sem ser determinada nos seus graus tanto de quantidade como de qualidade. A confusão em que por vezes são envolvidas as impressões tem origem apenas na sua fraqueza e instabilidade, e não em qualquer capacidade da mente para receber qualquer impressão que na sua existência real não possua grau ou proporção particulares. Isto é uma contradição nos termos, e implica mesmo a mais manifesta de todas as contradições, a saber, que a mesma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo.
     Ora uma vez que todas as ideias se originam de impressões e não são senão cópias e representações delas, tudo o que é verdade acerca de umas, deve reconhecer-se como verdadeiro acerca das outras. As impressões e as ideias diferem apenas quanto à força e à vivacidade. A conclusão anterior não assenta em qualquer grau particular de vivacidade. Não pode pois ser afetada por qualquer variação quanto a este aspecto. Uma ideia é uma impressão mais fraca, e, visto que uma impressão forte necessariamente deve ter quantidade e qualidade determinadas, o mesmo se deve aplicar à sua cópia ou representante.
     Terceiro, é um princípio geralmente aceito em filosofia que tudo na natureza é individual e que é totalmente absurdo admitir a existência real de um triângulo cujos ângulos e lados não tenham proporções exatas. Se pois isto é absurdo de fato e na realidade, também deve ser absurdo em ideia, visto que não é absurda nem impossível uma coisa de que podemos formar uma ideia clara e distinta. Mas formar a ideia de um objeto e formar uma ideia simplesmente é a mesma coisa, pois que a referência da ideia a um objeto é uma denominação extrínseca de que a ideia não contém em si qualquer marca ou carácter. Ora, sendo impossível formar a ideia de um objeto que possua quantidade e qualidade, sem contudo as possuir num grau determinado, segue-se que é igualmente impossível formar uma ideia que não seja limitada e determinada nestes dois aspectos. As ideias abstratas são portanto em si mesmas individuais, embora possam tornar-se gerais na sua representação. A imagem na mente é apenas a de um objeto particular, embora a sua aplicação nos nossos raciocínios seja a mesma que se ela fosse universal.
     Esta aplicação das ideias para além da natureza das mesmas procede do fato de juntarmos todos os seus graus possíveis de quantidade e qualidade de maneira suficientemente imperfeita para poder servir a todos os fins da vida, o que é a segunda proposição que me proponho explicar. Depois de termos descoberto uma semelhança entre vários objetos que nos ocorrem frequentemente, aplicamos a todos eles o mesmo nome, quaisquer que sejam as diferenças que possamos observar nos seus graus de quantidade e qualidade, e quaisquer que sejam outras diferenças que entre eles possam surgir. Após adquirirmos um hábito deste tipo, ouvir esse nome desperta a ideia de um desses objetos e leva a imaginação a concebê-lo em todas as suas circunstâncias e proporções particulares. Mas como se supõe que a mesma palavra foi frequentemente aplicada a outros indivíduos que em muitos aspectos diferem da ideia imediatamente presente à mente; consequentemente essa palavra, não podendo despertar as ideias de todos estes indivíduos, por assim dizer apenas toca a alma, e desperta o hábito que adquirimos ao examiná-los. Eles não estão realmente e de fato presentes na mente, mas apenas potencialmente; e não os evocamos todos distintamente na imaginação, mas conservamo-nos prontos para examinar qualquer deles, conforme a tal sejamos levados pelo projeto ou necessidade do momento. A palavra faz surgir uma ideia individual juntamente com um certo hábito, e esse hábito produz qualquer outra ideia individual propiciada pela ocasião. Mas, como na maioria dos casos é impossível a produção de todas as ideias às quais pode aplicar-se o nome, abreviamos este trabalho limitando o nosso exame e notamos que poucos inconvenientes resultam dessa abreviação para o nosso raciocínio.
     É na verdade um dos fatos mais extraordinários desta matéria que depois de a mente ter produzido uma ideia individual, sobre a qual raciocinamos, o hábito conjunto, despertado pelo termo geral ou abstrato, prontamente sugere qualquer outro indivíduo, se por acaso formarmos qualquer raciocínio que não concorde com ela. Assim, se mencionarmos a palavra triângulo e formarmos a ideia de um determinado triângulo equilátero para lhe corresponder, e se em seguida afirmarmos que os três ângulos de um triângulo são iguais entre si, os outros indivíduos como o triângulo escaleno ou o isósceles, que a princípio nos passaram despercebidos, ocorrem-nos imediatamente e fazem-nos ver a falsidade dessa proposição, não obstante a sua veracidade relativamente à ideia que tínhamos formado antes. Se a mente nem sempre sugere estas ideias na ocasião adequada, tal se deve a qualquer imperfeição das suas faculdades; e semelhantes imperfeições dão muitas vezes origem a falsos raciocínios e a sofismas. Mas isto dá-se principalmente com as ideias abstrusas e compostas. Nos outros casos o hábito é mais completo e é raro cairmos em tais erros.
     Sim, é tão completo o hábito, que exatamente a mesma ideia pode ligar-se a várias palavras diferentes e empregar-se em diferentes raciocínios sem qualquer perigo de erro. Assim, a ideia de um triângulo equilátero de uma polegada de altura pode servir-nos para falarmos de uma figura, de uma figura retilínea, de uma figura regular, de um triângulo e de um triângulo equilátero. Portanto neste caso todos esses termos são acompanhados da mesma ideia mas, como temos o hábito de os empregar com uma extensão maior ou menor, eles despertam os seus hábitos próprios e dessa forma conservam a mente preparada para vigiar no sentido de que não se forme nenhuma conclusão contrária às ideias normalmente abrangidas por eles.
     Antes de estes hábitos se tornarem inteiramente perfeitos, poderá talvez a mente não se contentar com formar a ideia de um só indivíduo, mas percorrer várias ideias afim de chegar a compreender o seu próprio significado, e a extensão da coleção que pretende exprimir pelo termo geral. Para fixar o significado da palavra figura podemos revolver na nossa mente as ideias de círculos, quadrados, paralelogramos, triângulos de diferentes dimensões e proporções, sem nos fixarmos numa só imagem ou ideia. Como quer que seja, é certo que formamos a ideia de indivíduos sempre que empregamos qualquer termo geral; que raramente ou nunca conseguimos esgotar estes indivíduos, e que aqueles que permanecem são apenas representados por meio desse hábito mediante o qual os evocamos de cada vez que as circunstâncias do momento o exigem. Tal é pois a natureza das nossas ideias abstratas e dos nossos termos gerais, e é desta maneira que damos conta do paradoxo anterior, que algumas ideias são particulares pela sua natureza, mas gerais pela sua representação. Uma ideia particular torna-se geral quando se une a um termo geral, isto é, a um termo que, por uma conexão habitual, tem relação com muitas outras ideias particulares e prontamente as evoca na imaginação.
     A única dificuldade que pode restar quanto a este assunto será com relação àquele hábito que evoca tão prontamente qualquer ideia particular de que possamos necessitar, e que é despertado por qualquer palavra ou som a que correntemente o ligamos. Na minha opinião, o método mais apropriado para esclarecer satisfatoriamente este ato mental consiste em apresentar outros exemplos análogos, e outros princípios que facilitem a sua operação. Não se podem explicar as causas últimas das nossas ações mentais. Basta que possamos dar delas uma explicação suficientemente fundamentada na experiência e na analogia.
     Noto então primeiro que quando mencionamos um número elevado qualquer, por exemplo mil, geralmente a mente não possui dele uma ideia adequada; possui apenas o poder de apresentar tal ideia mediante a ideia adequada que tem dos decimais em que o número está incluído. Contudo esta imperfeição das nossas ideias jamais se verifica nos nossos raciocínios, o que parece ser um caso paralelo ao caso presente das ideias universais.
     Segundo, temos várias exemplos de hábitos que uma simples palavra pode despertar. Assim, quando uma pessoa sabe de cor partes de um discurso ou um certo número de versos, a simples palavra ou expressão inicial chamar-lhe-á à memória o conjunto de que não consegue lembrar-se.
     Terceiro, julgo que qualquer pessoa que examine a situação da sua mente ao raciocinar concordará comigo que nós não ligamos ideias completas e distintas a todos os termos que empregamos; quando falamos de governo, igrejanegociação, conquista, raramente expomos nas nossas mentes todas as ideias simples de que se compõem estas ideias complexas. Pode contudo notar-se que, não obstante esta imperfeição, podemos evitar fazer afirmações disparatadas sobre estes pontos e podemos perceber qualquer contra dição nas ideias exatamente como se delas tivéssemos plena compreensão. Assim., se em vez de dizer que na guerra os mais fracos podem recorrer sempre às negociações, disséssemos que podem recorrer sempre às conquistas, o hábito que adquirimos de atribuir às ideias certas relações continua a acompanhar essas palavras e leva-nos imediatamente a ver o absurdo de tal proposição; do mesmo modo que uma ideia particular pode servir-nos para raciocinarmos sobre outras ideias, qualquer que seja a diferença entre uma e outras.
     Quarto, visto que os indivíduos são agrupados e colocados sob um termo geral em razão da semelhança que apresentam entre si, esta relação deve facilitar o seu aparecimento na imaginação e fazer que elas sejam mais facilmente sugeridas quando necessário. E na verdade se considerarmos o progresso normal do pensamento, quer na reflexão, quer na conversação, acharemos boas razões para ficar satisfeitos quanto a este ponto. Nada há mais admirável do que a prontidão com a qual a imaginação sugere as suas ideias e as apresenta no momento exato em que elas se tornam necessárias ou úteis. A fantasia corre de um extremo a outro do universo para reunir as ideias pertinentes a qualquer assunto. Pensar-se-ia que todo o mundo intelectual das ideias já alguma vez esteve perante a nossa visão, e que não fizemos mais do que escolher as mais apropriadas à nossa finalidade. Pode contudo não haver outras ideias presentes além daquelas que são assim reunidas por uma espécie de faculdade mágica da alma, a qual, embora seja sempre muito perfeita nos maiores gênios, e sendo ela própria aquilo que chamamos gênio, é no entanto inexplicável, não obstante os maiores esforços do entendimento humano.
     Talvez estas quatro reflexões ajudem a remover todas as dificuldades da hipótese por mim proposta relativamente às ideias abstratas, tão contrária à que até aqui prevaleceu em filosofia. Mas, para falar verdade, deposito a minha maior confiança no que já provei quanto à impossibilidade das ideias gerais, segundo o método geralmente empregado para as explicar. Devemos certamente procurar sobre este assunto um novo sistema, e é manifesto que não há outro além do que propus. Se as ideias forem particulares na sua natureza e ao mesmo tempo em número finito, só pelo hábito podem tornar-se gerais na sua representação e conter no seu âmbito um número infinito de outras ideias.
     Antes de abandonar este assunto utilizarei os mesmos princípios para explicar aquela distinção de razão de que tanto se fala e tão pouco se entende nas escolas. É deste gênero a distinção entre a figura senção e o corpo figurado, entre o movimento e o corpo movido. A dificuldade de explicar esta distinção surge do princípio já exposto de que todas as ideias diferentes são separáveis. Pois daqui resulta que, se a figura for diferente do corpo, as suas ideias têm de ser separáveis bem como distinguíveis; se não forem diferentes, as suas ideias não podem ser nem separáveis, nem distinguíveis. Que se entende pois por distinção de razão, uma vez que ela não implica nem diferença, nem separação?
     Para remover esta dificuldade temos de recorrer à anterior explicação das ideias abstratas. É certo que a mente jamais sonharia em distinguir a figura do corpo figurado, pois na realidade eles não são distinguíveis, nem diferentes, nem separáveis, se não tivesse observado que, ainda mesmo nesta simplicidade, podem estar contidas numerosas semelhanças e relações diversas. Assim, quando nos é apresentado um globo de mármore branco, apenas recebemos a impressão de uma cor branca distribuída numa certa forma, e somos incapazes de separar e distinguir a cor da forma. Mas observando depois um globo de mármore preto e um cubo de mármore branco e comparando-os com o nosso primeiro objeto, encontramos duas semelhanças separadas no que a princípio parecia, e realmente é, perfeitamente inseparável. Após um pouco mais de prática deste gênero, começamos a distinguir a figura da cor, por uma distinção de razão; isto é, consideramos a figura e a cor em conjunto, visto que efetivamente elas são idênticas e indistinguíveis; contudo vêmo-las sob diferentes aspectos, conforme as semelhanças que podem admitir. Quando queremos considerar apenas a figura do globo de mármore branco, na realidade formamos uma ideia tanto da figura como da cor, mas tacitamente encaminhamos o nosso olhar para a sua semelhança com o globo de mármore preto; e, do mesmo modo, quando queremos considerar somente a cor, dirigimos a nossa vista para a semelhança com o cubo de mármore branco. Por este meio acompanhamos as nossas ideias com uma espécie de reflexão que em grande parte nos passa despercebida, por força do hábito. A pessoa que deseje que consideremos a figura de um globo de mármore branco sem pensar na cor dele, deseja o impossível; mas a intenção dessa pessoa é que consideremos conjuntamente a cor e a figura, conservando contudo sob o nosso olhar a semelhança com o globo de mármore preto, ou com qualquer outro globo de qualquer cor ou substância.

continua na página 63...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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