David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade
Seção III
Por que uma causa é sempre necessária
Comecemos pela primeira questão, a respeito da necessidade de
uma causa. Trata-se de uma máxima geral da filosofia que tudo que
começa a existir deve ter uma causa para sua existência. Costuma-se pressupor essa máxima em todos os raciocínios, sem se fornecer ou exigir prova alguma. Ela supostamente está fundada na intuição, sendo
uma dessas máximas que, embora possam ser negadas verbalmente, não podem ser sinceramente postas em dúvida pelos homens. Mas
se a examinarmos segundo a ideia de conhecimento anteriormente
explicada, não descobriremos nela nenhuma marca de uma tal certeza intuitiva. Ao contrário, veremos que sua natureza é bastante alheia
a essa espécie de convicção.
Toda certeza provém da comparação de ideias e da descoberta de
relações que permanecem inalteráveis enquanto as ideias continuam
iguais. Essas relações são a semelhança, as proporções de quantidade e
de número, os graus de uma qualidade e a contrariedade - nenhuma das
quais está implicada na proposição de que tudo que tem um começo deve
ter uma causa para sua existência. Essa proposição, portanto, não é intuitivamente certa. Ou, ao menos, qualquer pessoa que queira afirmar que é intuitivamente certa deverá negar que essas sejam as únicas relações infalíveis, e deverá descobrir alguma outra relação desse
tipo implicada naquela proposição - e então será o momento adequado de examiná-la.
Mas eis aqui um argumento que prova de uma só vez que a pro
posição precedente não é nem intuitiva nem demonstrativamente certa. Nunca poderíamos demonstrar a necessidade de uma causa para
toda nova existência ou para toda nova modificação de existência sem
mostrar, ao mesmo tempo, a impossibilidade de que alguma coisa comece a existir sem algum princípio produtivo. E se esta última pro
posição não puder ser provada, deve-se perder qualquer esperança
de jamais provar a primeira. Ora, que a última proposição é inteiramente
incapaz de receber uma prova demonstrativa é algo de que podemos nos convencer considerando que, como todas as ideias distintas são
separáveis entre si, e como as ideias de causa e de efeito são evidentemente distintas, é fácil conceber que um objeto seja não-existente
neste momento e existente no momento seguinte, sem juntar a ele a
ideia distinta de uma causa ou princípio produtivo. Portanto, a separação da ideia de uma causa da ideia de um começo de existência é
claramente possível para a imaginação. Uma vez, portanto, que não
implica contradição ou absurdo, a separação real desses objetos é possível, e por isso não pode ser refutada por nenhum raciocínio baseado nas meras ideias. E, sem isso, é impossível demonstrar a necessidade de uma causa.
Por conseguinte, o exame das demonstrações já apresentadas a
favor da necessidade de uma causa mostrará que são todas falaciosas
e sofísticas. Alguns filósofos¹ dizem que todos os pontos do tempo e
do espaço em que podemos supor que um objeto começa a existir
são em si mesmos equivalentes. A menos que haja alguma causa que
seja peculiar a um momento e a um lugar, determinando e fixando
dessa maneira a existência, esta deverá permanecer eternamente em
suspenso; e o objeto nunca poderá começar a existir, em por falta de
alguma coisa que fixe seu começo. Mas eu pergunto: será mais difícil
supor que o tempo e o espaço sejam fixados sem uma causa do que supor que a existência seja determinada dessa mesma maneira? A primeira pergunta que se coloca a esse respeito é sempre se o objeto irá
ou não existir; a pergunta seguinte é quando e onde ele começará a
existir. Se, no primeiro caso, for intuitivamente absurdo suprimir
toda causa, também deve ser assim no segundo; mas se, no primeiro caso, esse absurdo não ficar claro sem uma prova, esta também
será necessária no segundo. Portanto, o absurdo de uma suposição jamais pode servir de prova do absurdo da outra - pois elas
estão na mesma condição, sendo confirmadas ou refutadas pelo mesmo raciocínio.
O segundo argumento² que vi ser utilizado a propósito dessa
questão enfrenta a mesma dificuldade. Tudo deve ter uma causa, dizem; pois, se alguma coisa carecesse de causa, ela seria produzida por
si mesma, isto é, existiria antes de existir, o que é impossível. Esse raciocínio, porém, é claramente inconcludente. Ele supõe que, ao negarmos uma causa, estamos ainda admitindo aquilo que negamos expressamente, a saber, que deve haver uma causa - a qual, portanto, é
tida como o próprio objeto. Isso, sem dúvida, é uma evidente contra
dição. Mas dizer que alguma coisa é produzida, ou, para me exprimir
de maneira mais apropriada, dizer que uma coisa passa a existir sem
uma causa, não é afirmar que ela é sua própria causa. Ao contrário,
ao excluirmos todas as causas externas, excluímos também afortiori
a própria coisa criada. Um objeto que existe absolutamente sem nnhuma causa, com certeza não é sua própria causa. Sustentar o contrário seria supor aquilo mesmo que está em questão, tomando como
certo que é inteiramente impossível que alguma coisa possa começar a existir sem uma causa, e que, se excluirmos um princípio produtivo, teremos sempre de recorrer a outro.
[2] Dr. Clarke e outros.
Exatamente o mesmo se passa com o terceiro argumento² utilizado para demonstrar a necessidade de uma causa. Tudo que é produzido sem causa é produzido por nada;* ou, em outras palavras, tem como causa o nada. Mas o nada nunca poderia ser uma causa, assim como não pode ser alguma coisa, ou ser igual a dois ângulos retos. A mesma intuição que nos leva a perceber que o nada não é igual a dois ângulos retos, ou que não é alguma coisa, leva-nos a perceber que jamais poderia ser uma causa. Consequentemente, devemos perceber que a existência de todo objeto possui uma causa real.
[2] Sr. Locke.
[2] Dr. Clarke e outros.
Exatamente o mesmo se passa com o terceiro argumento² utilizado para demonstrar a necessidade de uma causa. Tudo que é produzido sem causa é produzido por nada;* ou, em outras palavras, tem como causa o nada. Mas o nada nunca poderia ser uma causa, assim como não pode ser alguma coisa, ou ser igual a dois ângulos retos. A mesma intuição que nos leva a perceber que o nada não é igual a dois ângulos retos, ou que não é alguma coisa, leva-nos a perceber que jamais poderia ser uma causa. Consequentemente, devemos perceber que a existência de todo objeto possui uma causa real.
[2] Sr. Locke.
[*] "Whatever is produc’d without any cause, is produc’d by nothing”. A frase gramaticalmente correta em português seria “Tudo que é produzido sem causa não é produzido por
nada", mas isso deixaria sem sentido o raciocínio de Hume. (N.T)
Creio que não precisarei ser muito prolixo para mostrar a fraqueza desse argumento, após o que eu já disse acerca do argumento anterior. Os dois estão fundados na mesma falácia e derivam do mesmo modo de pensar. Basta apenas observar que, ao excluirmos todas
as causas, nós realmente as excluímos, e não supomos nem que o
nada nem que o objeto mesmo sejam as causas da existência deste.
Consequentemente, não podemos extrair do absurdo dessas suposições nenhum argumento para provar o absurdo daquela exclusão.
Se tudo deve ter uma causa, segue-se que, ao excluirmos outras causas, devemos aceitar que o próprio objeto ou o nada são causas. Mas
o que está em questão é justamente se tudo deve ou não ter uma
causa. Portanto, de acordo com todas as regras do bom raciocínio,
isso é algo que nunca se deve dar por suposto.
São ainda mais levianos aqueles que dizem que todo efeito deve
ter uma causa porque a ideia de causa está implicada na ideia mesma
de efeito. Todo efeito pressupõe necessariamente uma causa, já que
efeito é um termo relativo, cujo correlato é causa. Mas isso não prova que todo ser tenha de ser precedido por uma causa, assim como,
do fato de que todo marido deve ter uma esposa não se segue que,
por isso, todo homem tenha de ser casado. A verdadeira questão é se
todo objeto que começa a existir deve ter sua existência atribuída a
uma causa. E isso eu afirmo que não é nem intuitiva nem demonstrativamente certo, como espero haver provado de maneira suficiente pelos argumentos precedentes.
Uma vez que não é do conhecimento ou de um raciocínio científico que derivamos a opinião de que uma causa é necessária para
toda nova produção, tal opinião deve vir necessariamente da observação e da experiência. A questão seguinte, portanto, deveria naturalmente ser: como a experiência dá origem a um tal princípio? Mas penso
que o mais conveniente será embutir essa questão na seguinte, a
saber: por que concluímos que tais causas particulares devem necessariamente ter tais efeitos particulares, e por que realizamos uma inferência
daquelas para estes últimos? Esse, portanto, será o tema de nossa próxima investigação. Talvez acabemos descobrindo que a mesma res
posta serve para ambas as questões.
continua na página 107...
______________
Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3
___________________
4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário