David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade
Seção V
Das impressões dos sentidos e da memória
Nesse tipo de raciocínio por causalidade, portanto, empregamos
materiais de natureza mista e heterogénea, que, embora conectados,
são essencialmente diferentes uns dos outros. Todos os nossos argumentos concernentes a causas e efeitos consistem tanto em uma impressão da memória ou dos sentidos como na ideia daquela existência
que produz o objeto da impressão, ou que é por ele produzida. Temos
aqui, portanto, três coisas a explicar: em primeiro lugar, a impressão
original; em segundo, a transição para a ideia da causa ou do efeito
conectados; e, em terceiro, a natureza e as qualidades dessa ideia.
Quanto às impressões provenientes dos sentidos, sua causa última
é, em minha opinião, inteiramente inexplicável pela razão humana, e
será para sempre impossível decidir com certeza se elas surgem imediatamente do objeto, se são produzidas pelo poder criativo da mente, ou ainda se derivam do autor de nosso ser. Tal questão, diga-se de
passagem, não tem nenhuma importância para nosso propósito presente. Podemos sempre fazer inferências partindo da coerência de nossas percepções, sejam estas verdadeiras ou falsas, representem elas
a natureza de maneira correta ou sejam meras ilusões dos sentidos.
Quando buscamos a característica que distingue a memória da imaginação, devemos imediatamente perceber que ela não pode estar nas
ideias simples que aquela nos apresenta, pois ambas as faculdades
retiram suas ideias simples das impressões, e nunca podem ir além
dessas percepções originais. As duas faculdades tampouco se distinguem pela disposição de suas ideias complexas. Porque, embora seja
uma propriedade peculiar da memória preservar a ordem e posição
originais de suas ideias, enquanto a imaginação as transpõe e altera
a seu bel-prazer, essa diferença não é suficiente para distingui-las em
suas operações ou para nos permitir discernir uma da outra. Pois é
impossível recordar impressões passadas a fim de compará-las com
nossas ideias presentes, e dessa forma ver se sua ordenação é exatamente igual. Como, portanto, a memória não é conhecida nem pela
ordem de suas ideias complexas nem pela natureza de suas ideias simples, segue-se que a diferença entre ela e a imaginação está em sua
força e vividez superior. Um homem pode dar vazão a sua fantasia
imaginando-se como personagem de uma cena passada de aventuras. E não haveria possibilidade de distinguir essa cena de uma lembrança de um tipo semelhante, se as ideias da imaginação não fossem
mais fracas e obscuras.[É frequente acontecer que, quando dois homens estiveram envolvidos em um episódio, um deles se lembre dele muito melhor que o outro, e tenha a maior dificuldade do mundo para fazer que seu companheiro se lembre também. Enumera em vão diversas circunstâncias, menciona o momento, o lugar, as pessoas que estavam presentes, o que foi dito, o que cada um fez, até que, finalmente, toca em uma circunstância feliz, que faz reviver o conjunto todo, dando a seu amigo uma memória perfeita de cada detalhe. Aqui, a pessoa que esqueceu recebe inicialmente do discurso da outra todas as ideias, com as mesmas circunstâncias de tempo e lugar, mas as considera como meras ficções da imaginação. Entretanto, assim que é mencionada a circunstância que toca sua memória, exatamente as mesmas ideias aparecem sob nova luz, produzindo como que uma sensação [feeling] diferente daquela que antes produziam. Sem qualquer outra alteração além dessa na sensação [feeling], elas se tornam imediatamente ideias da memória, e recebem nosso assentimento.
Portanto, como a imaginação é capaz de representar todos os mesmos objetos que a memória pode nos oferecer, e já que essas faculdades só se distinguem pela maneira diferente como sentimos as ideias que nos apresentam, talvez seja apropriado considerar qual a natureza dessa sensação [feeling]. E, aqui, acredito que todos concordarão imediatamente comigo, que as ideias da memória são mais fortes e mais vividas que as da fantasia.] Um pintor que quisesse representar uma paixão ou emoção qualquer tentaria observar uma pessoa movida por uma emoção semelhante, a fim de avivar suas ideias e dar-lhes uma força e vividez superiores às encontradas nas ideias que são meras ficções da fantasia. Quanto mais recente essa memória, mais clara a ideia; e quando, após um longo intervalo, o pintor voltasse a contemplar seu objeto, sempre acharia a ideia deste bastante enfraquecida, senão apagada por completo. Frequentemente, quando as ideias da memória se tornam muito fracas e pálidas, ficamos indecisos a seu respeito; e não sabemos como determinar se uma imagem procede da fantasia ou da memória, quando não está pintada com as cores vivas que distinguem esta última faculdade. Acho que me lembro de tal acontecimento, diz alguém, mas não tenho certeza. Um longo intervalo de tempo quase o apagou de minha memória, e não sei dizer se é ou não um mero produto de minha fantasia.
E assim como uma ideia da memória, ao perder sua força e vividez, pode degenerar a ponto de ser tomada por uma ideia da imaginação, assim também, em contrapartida, uma ideia da imaginação pode adquirir tal força e vividez que chega a passar por uma ideia da memória, simulando seus efeitos sobre a crença e o juízo. Isso pode ser notado no caso dos mentirosos, que, pela frequente repetição de suas mentiras, acabam finalmente por acreditar nelas, e lembram-se mesmo delas como realidades. Neste caso, como em muitos outros, o costume e o hábito exercem sobre a mente a mesma influência que a natureza, fixando a ideia com igual força e vigor.
Vemos, assim, que a crença ou assentimento que sempre acompanha a memória e os sentidos não consiste senão na vividez das percepções que ambos apresentam, e que somente isso os distingue da imaginação. Crer, nesse caso, é sentir uma impressão imediata dos sentidos, ou uma repetição dessa impressão na memória. É simplesmente a força e a vividez da percepção que constituem o primeiro ato do juízo e estabelecem o fundamento do raciocínio que construímos com base nela, quando traçamos a relação de causa e efeito.
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
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