terça-feira, 12 de maio de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção VI)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção VI
Dos modos e substâncias
     
     Gostaria de perguntar aos filósofos que fundamentam tantos dos seus raciocínios na distinção entre substância e acidente, imaginando que temos de uma e outra ideias claras, se a ideia de substância provém das impressões de sensação ou das impressões de reflexão. Se ela nos é transmitida pelos sentidos, pergunto por qual e de que maneira. Se é percebida pelos olhos, deve ser uma cor; se pelos ouvidos, um som; se pelo paladar, um sabor, e assim por diante quanto aos outros sentidos. Mas creio que ninguém afirmará que a substância é uma cor, um som, ou um sabor. A ideia de substância deve portanto provir de uma impressão de reflexão, se ela na realidade existe. Ora as impressões de reflexão reduzem-se às nossas paixões e emoções, nenhuma das quais com certeza pode representar uma substância. Portanto não temos uma ideia de substância distinta da de urna colecção de qualidades particulares, nem queremos dizer outra coisa quando falamos ou raciocinamos sobre ela.
     A ideia de substância, assim como a de modo, não é senão uma coleção de ideias simples unidas pela imaginação, às quais se deu um nome determinado, que nos permite evocar, quer para nós próprios, quer para os outros, essa coleção. Mas a diferença entre estas ideias consiste em que as qualidades particulares que formam uma substância são usualmente relacionadas com algo desconhecido, a que se supõe serem inerentes; ou, não se aceitando esta ficção, supõe-se pelo menos que estas qualidades estão estreita e indissoluvelmente unidas pelas relações de contiguidade e causalidade. Em consequência disto, qualquer nova qualidade simples que descubramos ter a mesma conexão com as restantes, é imediatamente por nós incluída entre elas, embora não entrasse na nossa primeira concepção dessa substância. Assim a nossa ideia do ouro pode a princípio ser a cor amarela, o peso, a maleabilidade, a fusibilidade; mas quando descobrimos a sua solubilidade na aqua regia acrescentamos esta qualidade às outras e consideramo-la como pertencente a essa substância, exatamente como se a sua ideia tivesse desde o princípio feito parte da ideia composta. Sendo o princípio de união considerado o elemento principal da ideia complexa, ele permite a entrada de qualquer qualidade que se apresente posteriormente e abrange-a tal e qual como as outras que se apresentaram desde início.
     Que isto mesmo não pode dar-se com os modos, torna-se evidente considerando a natureza deles. As ideias simples, de que se formam os modos, ou representam qualidades que não estão unidas por contiguidade ou causalidade, mas se encontram dispersas em diferentes objetos; ou então, se as qualidades estão todas reunidas, o princípio unificador não é considerado o fundamento da ideia complexa. A ideia de uma dança exemplifica a primeira espécie de modos; a ideia de beleza é exemplo da segunda. É evidente a razão pela qual tais ideias complexas não podem receber nenhuma ideia nova, sem mudar o nome que distingue o modo.

continua na página 52...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

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