Livro 1
Do Entendimento
Parte 1
Das ideias, sua origem, composição,
conexão, abstração, etc.
Seção VI
Dos modos e substâncias
Gostaria de perguntar aos filósofos que fundamentam
tantos dos seus raciocínios na distinção entre substância e
acidente, imaginando que temos de uma e outra ideias
claras, se a ideia de substância provém das impressões de
sensação ou das impressões de reflexão. Se ela nos é transmitida pelos sentidos, pergunto por qual e de que maneira.
Se é percebida pelos olhos, deve ser uma cor; se pelos
ouvidos, um som; se pelo paladar, um sabor, e assim por
diante quanto aos outros sentidos. Mas creio que ninguém afirmará que a substância é uma cor, um som, ou um sabor.
A ideia de substância deve portanto provir de uma impressão de reflexão, se ela na realidade existe. Ora as impressões
de reflexão reduzem-se às nossas paixões e emoções,
nenhuma das quais com certeza pode representar uma
substância. Portanto não temos uma ideia de substância distinta da de urna colecção de qualidades particulares, nem
queremos dizer outra coisa quando falamos ou raciocinamos sobre ela.
A ideia de substância, assim como a de modo, não é
senão uma coleção de ideias simples unidas pela imaginação, às quais se deu um nome determinado, que nos permite evocar, quer para nós próprios, quer para os outros,
essa coleção. Mas a diferença entre estas ideias consiste em
que as qualidades particulares que formam uma substância
são usualmente relacionadas com algo desconhecido, a que
se supõe serem inerentes; ou, não se aceitando esta ficção,
supõe-se pelo menos que estas qualidades estão estreita e
indissoluvelmente unidas pelas relações de contiguidade e
causalidade. Em consequência disto, qualquer nova qualidade simples que descubramos ter a mesma conexão com
as restantes, é imediatamente por nós incluída entre elas,
embora não entrasse na nossa primeira concepção dessa
substância. Assim a nossa ideia do ouro pode a princípio ser
a cor amarela, o peso, a maleabilidade, a fusibilidade; mas
quando descobrimos a sua solubilidade na aqua regia acrescentamos esta qualidade às outras e consideramo-la como
pertencente a essa substância, exatamente como se a sua
ideia tivesse desde o princípio feito parte da ideia composta.
Sendo o princípio de união considerado o elemento principal da ideia complexa, ele permite a entrada de qualquer
qualidade que se apresente posteriormente e abrange-a tal
e qual como as outras que se apresentaram desde início.
Que isto mesmo não pode dar-se com os modos,
torna-se evidente considerando a natureza deles. As ideias simples, de que se formam os modos, ou representam qualidades que não estão unidas por contiguidade ou causalidade, mas se encontram dispersas em diferentes objetos;
ou então, se as qualidades estão todas reunidas, o princípio
unificador não é considerado o fundamento da ideia complexa. A ideia de uma dança exemplifica a primeira espécie de modos; a ideia de beleza é exemplo da segunda.
É evidente a razão pela qual tais ideias complexas não
podem receber nenhuma ideia nova, sem mudar o nome
que distingue o modo.
continua na página 52...
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
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