David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo
Seção V
Continuação do mesmo tema
.continuando...
Eis aqui, portanto, três relações entre aquela distância que trans
mite a ideia de extensão e essa outra, que não é preenchida por nenhum objeto colorido ou sólido. Os objetos distantes afetam os sentidos da mesma maneira, não importando qual das duas distâncias
os separa. A segunda espécie de distância se mostra capaz de acolher a primeira; e ambas diminuem igualmente a força de todas as
qualidades.
Essas relações entre os dois tipos de distância nos proporcionam
uma razão simples para explicar por que as duas têm sido tão frequentemente confundidas uma com a outra, e por que imaginamos
ter uma ideia de extensão mesmo sem a ideia de um objeto qualquer
da visão ou do tato. De fato, podemos estabelecer como uma máxima geral nessa ciência da natureza humana que, sempre que há uma relação estreita entre duas ideias, a mente apresenta uma forte tendência a confundi-las, e a usar uma em lugar da outra em todos os
seus discursos e raciocínios. Esse fenómeno ocorre em tantas ocasiões e tem consequências tão consideráveis que não posso deixar
de parar um momento para examinar suas causas. Minha única premissa será que devemos distinguir exatamente entre o próprio fenômeno e as causas que a ele atribuirei; e qualquer incerteza que possa
existir nessas causas não nos deve fazer imaginar que o fenómeno
seja igualmente incerto. O fenómeno pode ser real, mesmo que minha explicação seja quimérica. A falsidade daquele não é consequência da falsidade desta; embora, ao mesmo tempo, possamos observar
que é muito natural extrairmos tal consequência, o que, aliás, é um
exemplo manifesto do próprio princípio que tento explicar.
Quando admiti as relações de semelhança, contiguidade e causalidade como princípios de união entre ideias, sem examinar suas causas,
foi antes para seguir minha primeira máxima, de que devemos em
última instância nos contentar com a experiência, que pela falta de
alguma coisa especiosa e plausível que eu pudesse ter apresentado
sobre esse tema. Teria sido fácil fazer uma dissecção imaginária do
cérebro, e mostrar por que, ao concebermos determinada ideia, os
espíritos animais se espalham por todas as vias contíguas, despertando as outras ideias relacionadas à primeira. Entretanto, embora
eu tenha desprezado qualquer vantagem que teria podido extrair dessas considerações para explicar as relações de ideias, receio que devo
aqui recorrer a elas, a fim de dar conta dos erros provenientes dessas
relações. Observarei portanto que, como a mente é dotada do poder
de despertar qualquer ideia que lhe aprouver, quando ela envia os
espíritos animais para a região do cérebro em que está localizada tal
ideia, esses espíritos sempre a despertam, penetrando precisamente
nas vias apropriadas e vasculhando o compartimento a ela pertencente. Mas o movimento dos espíritos animais raramente é direto; ao
contrário, ele se desvia naturalmente um pouco para um lado ou para
outro. Por essa razão, ao penetrarem nas vias contíguas, os espíritos apresentam outras ideias relacionadas em lugar daquela que a mente de início desejava considerar. Nem sempre percebemos essa troca. Continuamos com a mesma cadeia de pensamentos, e fazemos
uso da ideia relacionada que se nos apresenta, empregando-a em
nosso raciocínio, como se fosse a mesma que aquela que buscávamos. Essa é a causa de tantos erros e sofismas presentes na filosofia- como se poderia naturalmente imaginar, e como seria fácil mostrar
se houvesse ocasião para tal.
Das três relações acima mencionadas, a de semelhança é a fonte
mais fértil de erros. De fato, poucos são os erros presentes nos raciocínios que não se devem em grande parte a essa origem. Não apenas
as ideias semelhantes são relacionadas, como também as ações mentais que realizamos para considerar cada uma delas diferem tão pouco
umas das outras que não somos capazes de as distinguir. Esta última
circunstância tem consequências importantes. Podemos observar em
geral que, sempre que as ações da mente pelas quais formamos duas
ideias quaisquer são iguais ou semelhantes, temos uma forte tendência a confundir tais ideias, tomando uma pela outra. Veremos vários
exemplos disso no decorrer deste tratado. Entretanto, embora a semelhança seja a relação que mais facilmente produz um equívoco nas
ideias, as outras relações, de contiguidade e causalidade, podem igual
mente contribuir para esse mesmo efeito. Poderíamos apresentar as
figuras poéticas e retóricas como provas suficientes do que acaba de
ser mencionado - se fosse tão comum como é razoável, nas questões metafísicas, extrair nossos argumentos desse domínio. Mas
como os metafísicos talvez considerem tal procedimento abaixo de
sua dignidade, extrairei minha prova de algo que pode ser observado
na maioria de seus discursos, a saber, que é muito comum que os
homens utilizem palavras em lugar de ideias e, em seus raciocínios, falem ao invés de pensar. Utilizamos palavras em lugar de ideias, por
que elas normalmente estão conectadas de forma tão estreita que a
mente as confunde com facilidade. E essa também é a razão de utilizarmos a ideia de uma distância que não é considerada nem como visível nem tangível, em lugar da extensão, que não é mais que uma
composição de pontos visíveis ou tangíveis dispostos em uma certa
ordem. As relações de semelhança e de causalidade concorrem para
causar esse erro. Como a primeira espécie de distância se mostra conversível na segunda, ela constitui, nesse sentido, uma espécie de causa; e a similaridade da maneira como as duas afetam os sentidos e
diminuem todas as qualidades forma a relação de semelhança.
Com essa série de raciocínios e explicações de meus princípios,
estou agora preparado para responder a todas as objeções que me
foram apresentadas, sejam elas derivadas da metafísica ou da mecânica. A frequência das discussões acerca de um vácuo, ou extensão sem
matéria, não prova a realidade da ideia sobre a qual se discute. Pois
nada é mais comum que ver os homens enganarem a si mesmos sobre
esse ponto, especialmente quando se apresenta uma outra ideia estreitamente relacionada, capaz de ocasionar seu erro. Podemos dar uma resposta quase igual à segunda objeção, derivada da conjunção das ideias de repouso e aniquilação. Quando todas as coisas dentro do aposento são aniquiladas e as paredes continuam imóveis, o aposento deve ser concebido de uma maneira muito
próxima à maneira como é concebido agora, quando o ar que o preenche não é um objeto dos sentidos. Essa aniquilação deixa aos olhos a
distância fictícia revelada pelas diferentes partes desse órgão que são
afetadas e pelos graus de luz e sombra; e deixa ao tato aquela outra
distância, que consiste na sensação de um movimento na mão ou em
outro membro do corpo. Em vão buscaríamos algo além disso. De
qualquer lado que examinemos este assunto, veremos que essas são
as únicas impressões que tal objeto é capaz de produzir após a suposta aniquilação. E já observamos que as impressões só podem originar ideias que a elas se assemelhem.
Uma vez que se pode supor que um corpo interposto entre dois
outros seja aniquilado sem produzir nenhuma mudança nos que o
ladeiam, é fácil conceber como esse mesmo corpo pode ser recriado,
produzindo tão pouca alteração como no caso anterior. Ora, o movimento de um corpo tem quase o mesmo efeito que sua criação. Os
corpos distantes não são mais afetados em um caso que no outro.
Isso é suficiente para satisfazer a imaginação, provando que não há
incompatibilidade nesse movimento. Posteriormente, entra em jogo
a experiência, persuadindo-nos de que dois corpos situados da maneira acima descrita têm realmente uma tal capacidade de acolher algum corpo entre eles, e que não há obstáculo à conversão da distância invisível e intangível em uma distância visível e tangível. Por mais
natural que possa parecer essa conversão, só podemos ter certeza de
que é factível depois de ter tido experiência dela.
Parece-me que, com isso, respondi às três objeções menciona
das, embora, ao mesmo tempo, eu tenha consciência de que poucos
ficarão satisfeitos com essas respostas, e que novas objeções e dificuldades serão imediatamente propostas. Dir-se-á provavelmente que
meu raciocínio é irrelevante, e que eu explico somente a maneira como
os objetos afetam os sentidos, sem dar conta de sua natureza e ope
rações reais. Ainda que não haja nada visível ou tangível interposto
entre dois corpos, vemos pela experiência que esses corpos podem estar situados da mesma maneira em relação ao olho, e exigir que a mão
faça o mesmo movimento para passar de um a outro como se estivessem separados por algo visível e tangível. A experiência também
mostra que essa distância invisível e intangível possui a capacidade de
acolher algum corpo, ou seja, de se tornar visível e tangível. Essa seria
a totalidade de meu sistema. E em nenhuma parte dele teria eu explicado a causa que separa os corpos dessa maneira, dando-lhes a capacidade de acolher outros corpos entre eles, sem sofrer nenhum
impacto ou penetração.
Respondo a essa objeção confessando-me culpado, e admitindo
que minha intenção nunca foi penetrar na natureza dos corpos ou
explicar as causas secretas de suas operações. Além de isso estar fora
de meu propósito presente, receio que tal empresa ultrapasse o alcance do entendimento humano, e que nunca poderemos conhecer
os corpos senão por meio das propriedades externas que se mostram aos sentidos. Quanto àqueles que tentam algo além disso, não poderei lhes dar crédito até ver que tiveram sucesso em pelo menos um
caso. No momento, contento-me em conhecer perfeitamente a maneira como os objetos afetam meus sentidos e as conexões que eles
mantêm entre si, até onde a experiência disso me informa. Esse conhecimento basta para a condução da vida; e basta também para minha filosofia, que pretende explicar tão-somente a natureza e as causas de nossas percepções, ou seja, de nossas impressões e ideias.
Concluirei esse tema da extensão com um paradoxo, que será
facilmente explicado com base no raciocínio anterior. O paradoxo consiste em que, se quisermos dar à distância invisível e intangível, ou,
em outras palavras, à capacidade de se tornar uma distância visível e
tangível, o nome de vácuo, então extensão e matéria são a mesma
coisa, e entretanto existe o vácuo. Se não quisermos dar-lhe tal nome,
o movimento é possível no pleno, sem nenhum impacto transmitido
ao infinito, sem retornar em círculos, e sem penetração. Porém, como
quer que nos expressemos, devemos sempre confessar que não
possuímos nenhuma ideia de uma extensão real se não a preenchemos com objetos sensíveis, e se não concebemos suas partes como
visíveis e tangíveis.
Quanto à doutrina de que o tempo não é senão a maneira pela
qual certos objetos reais existem, podemos observar que ela está sujeita às mesmas objeções que a doutrina similar a respeito da extensão. Se o fato de discutirmos e raciocinarmos acerca de um vácuo
fosse uma prova suficiente de que temos essa ideia, então, pela mesma razão, deveríamos ter uma ideia de tempo, ainda que na ausência
de qualquer existência mutável - pois não há objeto de discussão mais
frequente e comum. Entretanto, é certo que não temos realmente tal
ideia. Pois de onde ela seria derivada? Surgiria ela de uma impressão
de sensação ou de reflexão? Mostrai-nos distintamente essa impressão, para que possamos conhecer sua natureza e suas qualidades. Mas
se não fordes capazes de nos mostrar uma tal impressão, podeis estar
certos de vosso engano, quando imaginais possuir uma tal ideia.
De todo modo, mesmo que seja impossível mostrar a impressão
de que deriva a ideia de um tempo sem existência mutável, podemos
facilmente apontar as aparências que nos fazem imaginar que temos
essa ideia. Podemos observar que existe uma sucessão contínua de
percepções em nossa mente, de modo que a ideia de tempo está sempre presente em nós. E, quando consideramos um objeto estável às
cinco horas, e voltamos a olhá-lo às seis, tendemos a aplicar a ele essa
ideia, como se cada momento fosse distinguível por uma posição diferente ou por uma alteração no objeto. A primeira e a segunda aparições do objeto, ao serem comparadas com a sucessão de nossas percepções, parecem tão afastadas entre si como se o objeto houvesse
realmente mudado. A isso podemos acrescentar algo que nos é mostrado pela experiência, a saber, que o objeto poderia ter sofrido um
tal número de alterações entre essas aparições; como também que a
duração imutável ou antes fictícia tem o mesmo efeito sobre todas as
qualidades, aumentando-as ou diminuindo-as, que aquela sucessão
que é evidente para os sentidos. E em razão dessas três relações que
tendemos a confundir nossas ideias, imaginando que somos capazes de formar a ideia de um tempo e de uma duração sem nenhuma
mudança ou sucessão.
continua na página 89...
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
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