segunda-feira, 13 de julho de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção V.b)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção V
Continuação do mesmo tema
.continuando...

     Eis aqui, portanto, três relações entre aquela distância que trans mite a ideia de extensão e essa outra, que não é preenchida por nenhum objeto colorido ou sólido. Os objetos distantes afetam os sentidos da mesma maneira, não importando qual das duas distâncias os separa. A segunda espécie de distância se mostra capaz de acolher a primeira; e ambas diminuem igualmente a força de todas as qualidades.
     Essas relações entre os dois tipos de distância nos proporcionam uma razão simples para explicar por que as duas têm sido tão frequentemente confundidas uma com a outra, e por que imaginamos ter uma ideia de extensão mesmo sem a ideia de um objeto qualquer da visão ou do tato. De fato, podemos estabelecer como uma máxima geral nessa ciência da natureza humana que, sempre que há uma relação estreita entre duas ideias, a mente apresenta uma forte tendência a confundi-las, e a usar uma em lugar da outra em todos os seus discursos e raciocínios. Esse fenómeno ocorre em tantas ocasiões e tem consequências tão consideráveis que não posso deixar de parar um momento para examinar suas causas. Minha única premissa será que devemos distinguir exatamente entre o próprio fenômeno e as causas que a ele atribuirei; e qualquer incerteza que possa existir nessas causas não nos deve fazer imaginar que o fenómeno seja igualmente incerto. O fenómeno pode ser real, mesmo que minha explicação seja quimérica. A falsidade daquele não é consequência da falsidade desta; embora, ao mesmo tempo, possamos observar que é muito natural extrairmos tal consequência, o que, aliás, é um exemplo manifesto do próprio princípio que tento explicar.
     Quando admiti as relações de semelhança, contiguidade e causalidade como princípios de união entre ideias, sem examinar suas causas, foi antes para seguir minha primeira máxima, de que devemos em última instância nos contentar com a experiência, que pela falta de alguma coisa especiosa e plausível que eu pudesse ter apresentado sobre esse tema. Teria sido fácil fazer uma dissecção imaginária do cérebro, e mostrar por que, ao concebermos determinada ideia, os espíritos animais se espalham por todas as vias contíguas, despertando as outras ideias relacionadas à primeira. Entretanto, embora eu tenha desprezado qualquer vantagem que teria podido extrair dessas considerações para explicar as relações de ideias, receio que devo aqui recorrer a elas, a fim de dar conta dos erros provenientes dessas relações. Observarei portanto que, como a mente é dotada do poder de despertar qualquer ideia que lhe aprouver, quando ela envia os espíritos animais para a região do cérebro em que está localizada tal ideia, esses espíritos sempre a despertam, penetrando precisamente nas vias apropriadas e vasculhando o compartimento a ela pertencente. Mas o movimento dos espíritos animais raramente é direto; ao contrário, ele se desvia naturalmente um pouco para um lado ou para outro. Por essa razão, ao penetrarem nas vias contíguas, os espíritos apresentam outras ideias relacionadas em lugar daquela que a mente de início desejava considerar. Nem sempre percebemos essa troca. Continuamos com a mesma cadeia de pensamentos, e fazemos uso da ideia relacionada que se nos apresenta, empregando-a em nosso raciocínio, como se fosse a mesma que aquela que buscávamos. Essa é a causa de tantos erros e sofismas presentes na filosofia- como se poderia naturalmente imaginar, e como seria fácil mostrar se houvesse ocasião para tal.
     Das três relações acima mencionadas, a de semelhança é a fonte mais fértil de erros. De fato, poucos são os erros presentes nos raciocínios que não se devem em grande parte a essa origem. Não apenas as ideias semelhantes são relacionadas, como também as ações mentais que realizamos para considerar cada uma delas diferem tão pouco umas das outras que não somos capazes de as distinguir. Esta última circunstância tem consequências importantes. Podemos observar em geral que, sempre que as ações da mente pelas quais formamos duas ideias quaisquer são iguais ou semelhantes, temos uma forte tendência a confundir tais ideias, tomando uma pela outra. Veremos vários exemplos disso no decorrer deste tratado. Entretanto, embora a semelhança seja a relação que mais facilmente produz um equívoco nas ideias, as outras relações, de contiguidade e causalidade, podem igual mente contribuir para esse mesmo efeito. Poderíamos apresentar as figuras poéticas e retóricas como provas suficientes do que acaba de ser mencionado - se fosse tão comum como é razoável, nas questões metafísicas, extrair nossos argumentos desse domínio. Mas como os metafísicos talvez considerem tal procedimento abaixo de sua dignidade, extrairei minha prova de algo que pode ser observado na maioria de seus discursos, a saber, que é muito comum que os homens utilizem palavras em lugar de ideias e, em seus raciocínios, falem ao invés de pensar. Utilizamos palavras em lugar de ideias, por que elas normalmente estão conectadas de forma tão estreita que a mente as confunde com facilidade. E essa também é a razão de utilizarmos a ideia de uma distância que não é considerada nem como visível nem tangível, em lugar da extensão, que não é mais que uma composição de pontos visíveis ou tangíveis dispostos em uma certa ordem. As relações de semelhança e de causalidade concorrem para causar esse erro. Como a primeira espécie de distância se mostra conversível na segunda, ela constitui, nesse sentido, uma espécie de causa; e a similaridade da maneira como as duas afetam os sentidos e diminuem todas as qualidades forma a relação de semelhança.
     Com essa série de raciocínios e explicações de meus princípios, estou agora preparado para responder a todas as objeções que me foram apresentadas, sejam elas derivadas da metafísica ou da mecânica. A frequência das discussões acerca de um vácuo, ou extensão sem matéria, não prova a realidade da ideia sobre a qual se discute. Pois nada é mais comum que ver os homens enganarem a si mesmos sobre esse ponto, especialmente quando se apresenta uma outra ideia estreitamente relacionada, capaz de ocasionar seu erro.
     Podemos dar uma resposta quase igual à segunda objeção, derivada da conjunção das ideias de repouso e aniquilação. Quando todas as coisas dentro do aposento são aniquiladas e as paredes continuam imóveis, o aposento deve ser concebido de uma maneira muito próxima à maneira como é concebido agora, quando o ar que o preenche não é um objeto dos sentidos. Essa aniquilação deixa aos olhos a distância fictícia revelada pelas diferentes partes desse órgão que são afetadas e pelos graus de luz e sombra; e deixa ao tato aquela outra distância, que consiste na sensação de um movimento na mão ou em outro membro do corpo. Em vão buscaríamos algo além disso. De qualquer lado que examinemos este assunto, veremos que essas são as únicas impressões que tal objeto é capaz de produzir após a suposta aniquilação. E já observamos que as impressões só podem originar ideias que a elas se assemelhem.
     Uma vez que se pode supor que um corpo interposto entre dois outros seja aniquilado sem produzir nenhuma mudança nos que o ladeiam, é fácil conceber como esse mesmo corpo pode ser recriado, produzindo tão pouca alteração como no caso anterior. Ora, o movimento de um corpo tem quase o mesmo efeito que sua criação. Os corpos distantes não são mais afetados em um caso que no outro. Isso é suficiente para satisfazer a imaginação, provando que não há incompatibilidade nesse movimento. Posteriormente, entra em jogo a experiência, persuadindo-nos de que dois corpos situados da maneira acima descrita têm realmente uma tal capacidade de acolher algum corpo entre eles, e que não há obstáculo à conversão da distância invisível e intangível em uma distância visível e tangível. Por mais natural que possa parecer essa conversão, só podemos ter certeza de que é factível depois de ter tido experiência dela.
     Parece-me que, com isso, respondi às três objeções menciona das, embora, ao mesmo tempo, eu tenha consciência de que poucos ficarão satisfeitos com essas respostas, e que novas objeções e dificuldades serão imediatamente propostas. Dir-se-á provavelmente que meu raciocínio é irrelevante, e que eu explico somente a maneira como os objetos afetam os sentidos, sem dar conta de sua natureza e ope rações reais. Ainda que não haja nada visível ou tangível interposto entre dois corpos, vemos pela experiência que esses corpos podem estar situados da mesma maneira em relação ao olho, e exigir que a mão faça o mesmo movimento para passar de um a outro como se estivessem separados por algo visível e tangível. A experiência também mostra que essa distância invisível e intangível possui a capacidade de acolher algum corpo, ou seja, de se tornar visível e tangível. Essa seria a totalidade de meu sistema. E em nenhuma parte dele teria eu explicado a causa que separa os corpos dessa maneira, dando-lhes a capacidade de acolher outros corpos entre eles, sem sofrer nenhum impacto ou penetração.
     Respondo a essa objeção confessando-me culpado, e admitindo que minha intenção nunca foi penetrar na natureza dos corpos ou explicar as causas secretas de suas operações. Além de isso estar fora de meu propósito presente, receio que tal empresa ultrapasse o alcance do entendimento humano, e que nunca poderemos conhecer os corpos senão por meio das propriedades externas que se mostram aos sentidos. Quanto àqueles que tentam algo além disso, não poderei lhes dar crédito até ver que tiveram sucesso em pelo menos um caso. No momento, contento-me em conhecer perfeitamente a maneira como os objetos afetam meus sentidos e as conexões que eles mantêm entre si, até onde a experiência disso me informa. Esse conhecimento basta para a condução da vida; e basta também para minha filosofia, que pretende explicar tão-somente a natureza e as causas de nossas percepções, ou seja, de nossas impressões e ideias.
     Concluirei esse tema da extensão com um paradoxo, que será facilmente explicado com base no raciocínio anterior. O paradoxo consiste em que, se quisermos dar à distância invisível e intangível, ou, em outras palavras, à capacidade de se tornar uma distância visível e tangível, o nome de vácuo, então extensão e matéria são a mesma coisa, e entretanto existe o vácuo. Se não quisermos dar-lhe tal nome, o movimento é possível no pleno, sem nenhum impacto transmitido ao infinito, sem retornar em círculos, e sem penetração. Porém, como quer que nos expressemos, devemos sempre confessar que não possuímos nenhuma ideia de uma extensão real se não a preenchemos com objetos sensíveis, e se não concebemos suas partes como visíveis e tangíveis.
     Quanto à doutrina de que o tempo não é senão a maneira pela qual certos objetos reais existem, podemos observar que ela está sujeita às mesmas objeções que a doutrina similar a respeito da extensão. Se o fato de discutirmos e raciocinarmos acerca de um vácuo fosse uma prova suficiente de que temos essa ideia, então, pela mesma razão, deveríamos ter uma ideia de tempo, ainda que na ausência de qualquer existência mutável - pois não há objeto de discussão mais frequente e comum. Entretanto, é certo que não temos realmente tal ideia. Pois de onde ela seria derivada? Surgiria ela de uma impressão de sensação ou de reflexão? Mostrai-nos distintamente essa impressão, para que possamos conhecer sua natureza e suas qualidades. Mas se não fordes capazes de nos mostrar uma tal impressão, podeis estar certos de vosso engano, quando imaginais possuir uma tal ideia.
     De todo modo, mesmo que seja impossível mostrar a impressão de que deriva a ideia de um tempo sem existência mutável, podemos facilmente apontar as aparências que nos fazem imaginar que temos essa ideia. Podemos observar que existe uma sucessão contínua de percepções em nossa mente, de modo que a ideia de tempo está sempre presente em nós. E, quando consideramos um objeto estável às cinco horas, e voltamos a olhá-lo às seis, tendemos a aplicar a ele essa ideia, como se cada momento fosse distinguível por uma posição diferente ou por uma alteração no objeto. A primeira e a segunda aparições do objeto, ao serem comparadas com a sucessão de nossas percepções, parecem tão afastadas entre si como se o objeto houvesse realmente mudado. A isso podemos acrescentar algo que nos é mostrado pela experiência, a saber, que o objeto poderia ter sofrido um tal número de alterações entre essas aparições; como também que a duração imutável ou antes fictícia tem o mesmo efeito sobre todas as qualidades, aumentando-as ou diminuindo-as, que aquela sucessão que é evidente para os sentidos. E em razão dessas três relações que tendemos a confundir nossas ideias, imaginando que somos capazes de formar a ideia de um tempo e de uma duração sem nenhuma mudança ou sucessão.

continua na página 89...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IVa. / Seção IVb. / Seção Va. / Seção Vb. /             
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

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