sábado, 25 de julho de 2015

Histórias de avoinha: em nome do Pai Filho e do Santo. amém


Ensaio 57B – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



Respirô com desafogo quando saiu da loja consagradora dos hôme de boa vontade em bode, a rua da Igreja tava toda iluminada com as lamparina pública nas parte alta da Villa. Cumprimentô um qui otro qui tumbém saia e seguia no pavimento da rua. Num tava disposto pra fazê conversa mole, queria mais é sabê de tê uma qui otra conversa bem dura com as moça da Maria Cobra. Tava apressado. Nada lhe deixava mais firme, esquisito e entusiasmado qui os perfume das moça carregado nos pé. Gostava de sentí as moça caminhando, os pé piquinino adoçado com brandura indo e vindo. O peso dos pé lhe usando com estrada.

Apressô os passo qui dava e levava inté o prazê das moça. Quanto mais andava mais tolerante ficava com os pensamento mais ansioso. Engolia as pedra da estrada. Avivava os esconderijo qui carregava embiocado. Fez mais um ou dois ou três cumprimento nas despedida. Perdeu as conta, parô de contá. Num lembrava mais os qui tinha feito ou desfeito, nenhuma zumbaia importava mais qui chegá no seu destino. Mirô na direção da rua dos Pecado, colocô nas vista o caminho qui precisava fazê. Mais despedida mais desatenção, tava cego de vontade. Prometeu qui ia corrê os perigo qui fosse preciso. O menino piquinino qui vestia como conde, juramentado de bode, tava descontrolando dos costume no favô das vontade. A cacunda do bode continuô o seu trajeto de fome

Boas noites, obrigado. boa noite, sinhô Conde. boas noites, que Deus lhe acompanhe, e se foi no rumo da rua da Ponte. Desceu. Num passiava, voava. Pra baixo todo santo ajuda, já na subida é preciso uma reza mais fervorosa. É na subida qui se conhece os inimigo. Passô com ligêreza pelo beco do Fanha, oiô pru céu, num tinha chuva pra caí nem lua pra iluminá. Era preciso se contentá com a brilhatura daquela noite escurinha.

Atravessô a rua da Ponte inté a rua da Praia, dobrô na direção da Arsenal. Ia com asa nos pé e um assovio piquinino evaporando nos lábio fino. Tava na direção certa, evocava as lembrança do caminho conhecido. Chegô apostá com ele mesmo qui arrumava jeito de percorrê aquela trama de rua e beco, terra e buraco e esterco, com as vista tapada meió qui as esquina de porta e janela, quarto e sala e cozinha, do casarão da siá Casta. O coelho e a couve. Mais, depois do acontecido na loja da Irmandade, deixô de lado o desafio de camiá na rua como um cego. Num era tempo de corrê risco com brincadêra e fazê o caminhô errado. Num era boa hora pra tê morte violenta e misteriosa. Um hôme qui num vê os próprio passo corre muito risco, o maió é precisá creditá nos passo daquele qui diz qui vê. E tem o cego das ideia qui ele tumbém num queria sê, gostava de repetí nos pensamento próprio, um hôme qui num pensa antes de sabê o qui precisa fazê é um cego qui num sabe se num tá guiado pra continuá cego. Tinha veiz qui dava pra escutá as conversa, não vou mais ser o cego das brincadeiras. o pior cego é aquele que não quer ver, o bode e o conde enfeitiçado. Um queria vê antes de fazê, o otro queria fazê antes de vê, os dois só combinado qui num queria iluminá os caminho

Não acredito em bruxas nem preciso perguntar se elas existem. é bom deixar o qui é de lá, por lá, e o que é de cá, por cá, o siô conde tava com feitiço qui num credita, o siô bode nunca desacreditô. Sagrado era as moça qui um e otro queria tocá com as mão, sentí o perfume sem chiliqui, apreciá o gosto comendo e bebendo desabalado, essas hora num era encontro de atendimento com pôco caso, um homem que é homem precisa cultivar o senso do sagrado. pelo fato, que o sagrado pode ajudá-lo a ser homem. essas moças me tratam como a um rei, me dão o que eu quero mais do que eu peço. cuidado com os excessos, a conta é muito dispendiosa. ocê fala como um bode e esquece que sou um conde, um homem consagrado. a ser um bode.

Continuava na direção certa. Os pensamento e a melodia era o mesmo canto. Levô uma das mão na cintura, sentiu mais força e decisão quando reconheceu o cabo do rêio, aquela arma tinha mais força de usança qui a pólvora. Uma matava. Uma dominava. Num gostava de matá. Uma coisa insana de fazê, matar é um desperdício de riqueza. um homem que não tudo faz como se estivesse para morrer, no dia seguinte, não vale dois. a morte é certa, e não tem tempo, aumentô a melodia qui fez crescê os passo, daqui cem anos estaremos todos mortos. uns bem antes, outros nem tanto.

Ele tinha plano, mesmo no caso de morrê no otro dia. Havia de tê continuação. A siá Casta tava devendo essa elegância de pai qui os fiô dá. Precisava tê um plano pra consertá essa dívida, um homem precisa continuar o seu nome. quase sempre dá para continuar. e quando não dá? é preciso encontrar outra solução, as conversa do conde com o bode mais vinha do qui ia, vou ser um bom pai, vou ensinar o que aprendi. isso é um descaso da siá Casta. depois eu penso um desfecho aceitável. bobagem, isso só pode ter um arremate satisfatório. depois. O propósito agora era visitá as moça da Maria Cobra, muié de muntu valô, muntu jeito com as mão, esse é um assunto de urgência. não é assunto para tratar com a Maria Cobra. tanto pouco com um bode.

Sentia qui o coração corria adiantado. Animava os passo na medida qui o vigô saia da moleza e se apresentava mais decidido. Avivava. Numa hora assim, achava qui o amanhã durava mais cem ano, num podia sê mais curto qui cem ano, num era caminho pra tê medo de vivê. Precisava planejá sua sucessão de herança na moldura branca. Essas coisa sempre se ajeita, era hora de tê desistência numa ou otra, num dava pra fazê as duas bem-feita e no mesmo tempo. Siá Casta ia tê qui esperá.

Os bode da Villa qui desse perdão no caso de querê perdoá, nada é maior nem tem gosto melhor que a vida na cama do amor, sorriu e aumentô o assovio. Os bode véio ia precisá tê paciência, a esperteza e a resistência dessas moças é insuperável. a quem te referes? elas têm um amor interessado para cada paroquiano. quem? as putas, quem seria? aham, o assovio e os pensamento corria na frente, avançava mais rápido e puxava os passo de conde, a andadura de bode. Nada parecia andá a esmo, nem a vontade de camiá. Eles seguia as melodia solta dos lábio, já estou sentindo. o quê? o perfume do amor. como vosmecê consegue? o gosto da memória cura qualquer tristeza ou esquecimento. cura o desapego? não posso crer que alguém não se interesse, tem veiz qui o siô conde parece qui pensa meió qui o siô bode, otras veiz parece sê o contrário, mais é bobice separá um dotro. É tudo do mesmo bicho, fiô da criação qui foi vendo e copiando. Um hôme castrado de sê hôme só pensa como macho, qui num leva nada da vida, nadica de nada, só as vestimenta de festa num corpo frio, duro de cera, descolorindo, então, ele devora tudo. Num qué sabê de futuro, busca tê a glória sem encanto, sem luz ou viveza da vida. Meió ia sê ele deixá as coisa boa da vida e levá nas costa as ruim feita, nem assim é certeza qui ia aprendê.

O assovio continuava evaporando junto com a moldura branca inacabada.

Fiô inté tinha, mais bastardo num dava de colocá na moldura branca. Num tinha lugá na sala o fiô da pele preta, precisava um fiô com a máscara branca, escuta. estou escutando. não levamos nem as lágrimas das putas. defunto é defunto. não tem que levar nada. tem defunto que nem suspiro de adeus. uma maldição. vosmecê trate de cuidar melhor da família. estou providenciando. como? do meu jeito. cuida, se vosmecê não faz uso de mulher com siá Casta, quem haverá de fazer? estou lhe desconhecendo os modos. depois da arca fechada e o adeus para sempre, tudo fede, depois seca, viram pó as lágrimas, as lembranças, até que um vento qualquer assopra tudo. e o lugar não fica mais vazio. isso, o siô da Hora aumentô a força do assovio, parecia querê emudecê a voz do siô bode e do siô conde. Num precisava sê lembrado qui vai chegá um tempo qui as coisa fica com otro feitio: as história de ocê num é mais as história de ocê, é os enredo e as confusão de ocê contada com a boca de qualqué bode.

Lembrava e deslembrava os aconseiamento do pai conforme as conveniência das impertinência feita, o que é isso? não se desacalme. vem bicho do demônio! calma, siô conde, é o Camará Farol, o preto acendedô das iluminação das rua sabe qui é preciso tê acautelamento. Tratô de acalmá o siô da Hora, num queria assustá o relho e a arma de atirá do bode. Saiu do poste e foi pra clareza

Você, negro! Estais me seguindo?

Num tenho tempo pra perdê no trabáio nem pra usá do feitiço, continuô o serviço de acendê e repará as lanterna

E o negrinho?

Foi durumi, qui num é mais tempo da escuridão prum minino piquinino ficá catingando de cera e fogo.

O serviço não terminou?

Num termina inté o sol nascê pra modo de escondê a escuridão, deixá tudo num lugá sem nome, embaixo do teto das estrela inté chegá novo encantamento.

O dia é depois da noite que vem depois do dia. Isso é assim mesmo, não é nenhuma bruxaria.

Quem disse qui num é? Vô andando qui o escurecimento do dia num espera. Nesse lugá, é preciso sê mais desembaraçado qui a escuridão, passô sem desviá ou trombá. Foi dum lado pru otro. O siô da Hora podia jurá qui o preto atravessô ele e a sua brancura de conde com a laterna e a vela acessa, mais num creditô qui viu o qui viu e num sentiu, não se engane, idiota. eu sei das bruxarias. esses negros esfolam e matam com maldade, não se tem tempo para pedidos de socorro. entendi. vá em frente, negro. não olhe para trás

Você, negro! Responda-me, o acendedô já caminhava com o minino piquinino na direção das lanterna da reparação. Parô. Virô-se

O qui falta o siô sabê?

Estou no caminho certo?

O acendedô e o muriquinho ergueu os ombro, num tinha resposta pra dá, se tinha num queria se metê, pode qui sim ou pode qui num tá...

Isso não é resposta, negro!

Nada contece como se qué.

Bobagem, negro! O que eu quero acontece.

Então, fecha os óio e caminha o caminho meió. O caminho qui o siô qué, faz do seu feitio, desvirô e caminhô dali. o hôme branco num viu o muriquinho. pur qui num viu? o qui se vê e num dá pra entendê, dá medo, é meió num vê.

O bode tumbém desviô. Voltô soltá os assovio. O canto assoprado evaporando os caminho da frente. Abrindo. A mão enfiada na casaca acariciava a garrafa com o vinho, será melhor apreciado com as moças da Maria Cobra do que com os bodes da freguesia.

O conde avançava na rua da Praia carregando as vontade dos hôme do mundo, sentia qui a moleza lhe abandonô. Gostava da sua reação de dureza, sabia qui num era assim pra sempre, precisava tomá agora o qui queria tê. Enfiá com gosto de dono inté o martelo caí da mão. Derramado. Os passo aumentava sem tê conta qui aumentava, é assim mesmo, quando estamos caminhando com prazer. o caminho parece mais longo. não se pode aproveitar o caminho e ao mesmo tempo correr. nem caminhar demais. a vontade de correr é grande. cuidado com a pressa, ela é o infausto da perfeição. nem sempre, nem sempre.

O siô conde tava indo e carregava de arrastô o bode qui num sabia o qui ia encontrá. E se sabia, fazia fingimento de num sabê. Quando se tá indo assim, a vontade de chegá é maió qui gostá de caminhá. As delícia lá da frente voltava pra chamá o curação qui já num tava mais no peito, batia desacomodado logo abaixo do umbigo, o amor não é o coração. ele é o quê? ele para de pulsar quando te alivias. até pulsar, novamente. e o que fazer com esse amor quando se está aliviado? ele volta ao peito. ele cuida das coisa do dia, todo dia, dia após dia, até morrer. uma morte lenta. é necessária a resignação e engordar. o amor não é real, o siô da Hora soltô mais assovio. Num se importava de sabê o lugá do amô, ele precisava tá no lugá qui tinha qui tá, quente e duro inté se aliviá, mesmo qui num dava de colocá na moldura. Ele tava nas mão do curação qui latejava mais perto dos pé qui da cabeça. Da terra do qui do céu.

A saudade daquele prazê derramado deixava o siô conde nervoso, as rua ficava feito estrada com mais tempo qui alento de pobre, sofrimento qui só termina nu céu. Nunca acaba na vida. É preciso vivê a morte pra sossegá. O siô conde num queria sossego, mais sê o vento nas árvore. Queria sê tudo, derrubando tudo mais rápido qui os passo, na vida é preciso encurtar o tempo. diminuir as distâncias e fazer de tudo. muito bem, bode, mas ter tudo é pouco, é preciso ser tudo. tudo? caso o bode não faça, outro fará e ficará com tudo.

O assovio avivava os lugá qui ia passá, na frente, os caminho. Avisando. Mostrando. O siô da Hora enfiava e desenfiava as mão do bolso. Conversava os pensamento da cabeça e do umbigo com o siô conde e o siô bode, deixo ou não um bigode abaixo do nariz? por que um bigode? assim tenho um lugar para desviar o nervosismo das mãos. ninguém percebe porque ele não aparece no escuro. um bigode dá mais respeito. se o caso é respeito, melhor seria deixar crescer a barba. um conde barbudo não dá respeito ao bode. nem um bode barbudo vira conde. bobagem, o respeito e o medo da Villa se ganha com a pose e as posse.

O decisório sobre o bigode ficô pra depois da usança das moça, não se toma nada por decidido em caminho de tanta agitação. concordo, isso é decisão para depois. agora, é outra trama. bem assim, não interessa o bigode, mas o tamanho do bolso.

Deixô o faro desembuchá, fungô fundo e soltô junto os assovio. Tinha um siná sonoro indo, pelos caminho, um otro qui chegava com os rastro do faro da diantêra. O tino do nariz se o caçadô tem costume de usá pode alargá a trilha. Foi quando presentiram os perigo da obra santa, esse fedor da negrada é inconfundível. estamos mais perto do que longe, um abrandô os passô e segurô o otro. Um parô os assovio. O otro de fungá. Eles sabia onde tava. Levô a mão direita, a mesma qui empunha o relho, inté a testa, depois foi no peito, ombro esquerdo, e no fim de todo aquele respeito, chegô no direito, em nome do Pai Filho e do Santo. Amém. Num encarô a obra santa. A esquerda ficô trancada no bolso, num sabia se saia ou ficava, acabô ficando, num tinha uso.

O siô da Hora atravessô na frente da obra santa protegido, num gostava de pensá nas coisa qui podia contecê, agora ou depois, na falta do siná de respeito e acobertamento, afinal, o amparo para o custeio que a obra recebe tem um bom pedaço do meu ajutório. está certo, um pedacinho carrego de volta. gosto de pensar que é um pequeno imposto devido pelo sinhô Padre. mas o que fica deve ter algum valor na contabilidade do céu, levô os dedo inté o bigode, sorriu, ia sê bão se aliviá durante a dominguêra, malandro agoniza, mas não morre.

Voltô apressá a caminhadura.




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