Moby Dick
Herman Melville73 - Stubb e Flask matam uma baleia Franca; e depois conversam a respeito dela
É preciso ter em mente que, durante todo esse tempo, tivemos uma
prodigiosa cabeça de Cachalote balançando no costado do Pequod. Mas
será preciso deixá-la ali pendurada por algum tempo até que tenhamos
condições de lhe dar atenção. No momento, outros são os assuntos
urgentes, e o melhor que podemos fazer pela cabeça, por ora, é rezar aos
céus para que as talhas aguentem.
Ora, durante a noite e pela manhã, o Pequod havia sido levado aos
poucos para um mar que, por suas áreas ocasionais de brit amarelo,
revelava indícios inusitados da presença de Baleias Francas nos arredores,
uma espécie do Leviatã que poucos imaginavam àquela época estar se
movendo em quaisquer imediações. Embora, em geral, os marinheiros
desprezassem a captura daquelas criaturas inferiores; embora o Pequod
não estivesse autorizado a persegui-las, e embora tivesse encontrado
várias delas perto das ilhas Crozet sem ter descido os botes; no entanto,
uma vez que um Cachalote havia sido levado para o navio e decapitado,
para a surpresa de todos, foi anunciado que uma Baleia Franca deveria ser
capturada naquele dia, caso houvesse oportunidade.
E a oportunidade não tardou. Jatos altos foram vistos a sotavento; e
dois botes, os de Stubb e Flask, foram destacados para a perseguição.
Vogando sempre para longe, eles por fim ficaram praticamente invisíveis
para os homens no topo do mastro. Mas subitamente, a distância,
avistaram uma grande quantidade de água branca em movimento, e em
seguida notícias do topo informavam que um dos botes ou ambos deviam
estar indo depressa. Passado um tempo, os botes surgiram inteiros aos
olhos dos gajeiros, ambos arrastados em direção ao navio pela baleia
rebocadora. Tão perto a baleia chegou do casco que, de início, parecia que
tinha intenções malignas; mas afundando de repente num redemoinho, a
cerca de cinquenta pés das pranchas, ela desapareceu completamente da
vista, como se mergulhasse sob a quilha. “Cortar, cortar!”, foi o grito que
saiu do navio para os botes, que, por um instante, pareciam a ponto de se
chocar mortalmente contra o costado do veleiro. Mas, havendo linha
suficiente nas selhas, e a baleia não tendo mergulhado muito depressa,
soltaram a corda em abundância e, ao mesmo tempo, remaram com toda
a força para ficar à frente do navio. Por alguns minutos, a luta foi
intensamente travada; pois, enquanto ainda afrouxavam a linha esticada
em uma direção, e ainda impunham aos remos a contrária, a tração
conflituosa ameaçava afundá-los. Mas ganhar alguns metros na dianteira
era tudo o que queriam. E insistiram até que os ganharam; quando,
subitamente, se sentiu um breve tremor correndo como um relâmpago ao
longo da quilha, enquanto a ostaxa esticada, arranhando a base do navio,
reapareceu de repente sob a proa, estalando e vibrando; e lançando tão
violentamente suas gotas d’água que elas caíam como cacos de vidro na
água, enquanto a baleia mais adiante também reaparecia, e mais uma vez
os botes ficavam livres para correr. Mas a baleia cansada diminuiu a
velocidade e, alterando seu rumo às cegas, deu a volta na popa do navio
rebocando os dois botes, de forma que percorreram um circuito completo.
No entretempo, eles puxaram mais e mais suas ostaxas, até que,
flanqueando a baleia de perto pelos dois lados, Stubb e Flask
arremessaram suas lanças; e assim, a batalha continuou, dando voltas no
Pequod, enquanto as multidões de tubarões que antes nadavam em torno
do corpo do Cachalote correram para o sangue fresco que derramava,
bebendo-o com sede a cada novo corte, como os ávidos Israelitas o fizeram
nas fontes novas que brotaram da rocha fendida.
Por fim seu sopro ficou espesso e, com um tranco e um vômito
horrível, a baleia virou de costas, um cadáver.
Enquanto os dois oficiais se ocupavam de amarrar as cordas à cauda da
baleia, nesse sentido cuidando para que a massa pudesse ser rebocada,
iniciaram uma conversa.
“O que será que o velho deseja com esse monte de banha fétida?”, disse
Stubb, não sem alguma aversão à ideia de ter de lidar com um Leviatã tão
desprezível.
“O que deseja?”, disse Flask, enrolando a ostaxa sobressalente na proa
do bote, “você nunca escutou falar que desde que um navio traga a cabeça
de um Cachalote pendurada a estibordo, e ao mesmo tempo a de uma
Baleia Franca a bombordo; Stubb, você nunca escutou que esse navio
nunca mais poderá naufragar?”
“Por que não?”
“Eu não sei, mas escutei Fedallah, aquele fantasma amarelo, dizer isso e
parece que sabe tudo a respeito de feitiços de navios. Mas às vezes acho
que ele vai enfeitiçar o navio com maldade. Não gosto nem um pouco
daquele sujeito, Stubb. Você já percebeu que aquela presa dele parece
entalhada na cabeça de uma cobra, Stubb?”
“Afogue-o! Nunca olho para ele; mas se eu tiver uma oportunidade,
numa noite escura, e ele estiver ocupado em sua vigília na amurada, com
ninguém por perto; olha lá, Flask” – apontando para o mar com um gesto
específico de ambas as mãos – “Sim, eu o faço! Flask, tenho para mim que
Fedallah é o demônio disfarçado. Você acredita naquela história sem pé
nem cabeça de que ele veio a bordo como clandestino? Ele é o demônio,
vá por mim. A gente só não vê o rabo dele porque ele o esconde; acho que
enrolado em seu bolso. Maldito seja! Pensando nisso, ele sempre pede
estopa para colocar na ponta das suas botas.”
“Ele dorme em suas botas, não é? Ele não tem rede; mas eu já dei com
ele deitado sobre um rolo de cordame.”
“Sem dúvida, e isso é por causa de seu maldito rabo; ele o deixa
enrolado no olho do cordame.”
“O que será que o velho tanto quer com ele?”
“Uma troca ou uma barganha, creio.”
“Barganha? – de quê?”
“Ora, preste atenção, o velho está empenhado na caça da Baleia Branca,
e o diabo está tentando envolvê-lo, aliciá-lo em troca de seu relógio de
prata, ou de sua alma, ou de qualquer coisa do gênero, para depois lhe
entregar Moby Dick.”
“Ora essa! Stubb, você está de brincadeira; como Fedallah pode fazer
uma coisa dessas?”
“Não sei, Flask, mas o diabo é um sujeito curioso e bem malvado, posso
lhe garantir. Pois bem, dizem que certa vez foi dar um passeio numa velha
nau capitânia, abanando a cauda de modo diabólico e cavalheiresco e
perguntando se o velho comandante estava em casa. Bem, ele estava em
casa e perguntou ao diabo o que queria. O diabo, batendo os cascos, se
levanta e diz, ‘Quero o John’. ‘Para quê?’, pergunta o velho comandante. ‘O
que você tem com isso?’, disse o diabo, ficando irritado, – ‘Quero usá-lo!’.
‘Leve-o’, diz o comandante – e, pelo amor de Deus, Flask, se o diabo não
castigou John com a cólera Asiática antes de acabar com ele, eu como essa
baleia em uma bocada. Mas cuidado – você ainda não ‘tá pronto? Bem,
puxe daí, e vamos deixar a baleia ao longo do costado.”
“Acho que me lembro de uma história como essa que você contou”,
disse Flask, quando, por fim, os dois botes avançavam lentamente com a
carga em direção ao navio, “mas não consigo me lembrar de onde.”
“Nos Três espanhóis? As aventuras dos três soldados sanguinários? Você
leu ali, Flask? Acho que sim.”
“Não: nunca vi tal livro; já ouvi falar dele, de todo modo. Mas agora me
diga uma coisa, Stubb, você acha que o diabo de quem você estava falando
agora é o mesmo que você diz estar a bordo do Pequod?”
“Sou o mesmo homem que ajudou a matar essa baleia? O diabo não
vive para sempre? Quem já ouviu falar que o diabo morreu? Você já viu
algum padre enlutado por causa do diabo? Se o diabo tem uma chave de
cadeado para entrar na cabine do almirante, você não acha que ele pode
rastejar pela vigia? Responda, senhor Flask.”
“Quantos anos você acha que Fedallah tem, Stubb?”
“Você está vendo o mastro principal ali?”, apontando para o navio;
“bem, esse é o número um; agora pegue todos os aros do porão do Pequod
e os coloque enfileirados atrás do mastro, no lugar dos zeros, entendeu?
Bem, isso não daria para o começo da idade de Fedallah. Nem todos os
toneleiros trabalhando juntos poderiam oferecer aros em número
suficiente para tantos zeros.”
“Mas vê bem, Stubb, agora mesmo achava você um pouco cheio de
bravata, quando disse que jogaria Fedallah ao mar, se houvesse
oportunidade. Ora, se ele é tão velho quanto esses seus aros dizem, se ele
vai viver para sempre, de que adiantaria jogá-lo ao mar – quer me dizer?”
“Ele ao menos ganharia um bom mergulho.”
“Mas ele voltaria.”
“E que ele mergulhasse de novo; e assim continuasse, mergulho após
mergulho.”
“E se ele tivesse a ideia de fazer você mergulhar também – sim, e afogá-lo –, e então?”
“Gostaria de vê-lo tentar; eu lhe daria dois olhos tão roxos que ele não
ousaria mais mostrar seu rosto na cabine do almirante por um bom
tempo, muito menos naquele bailéu, onde ele vive, e no tombadilho, por
onde se move sorrateiro. Dane-se o diabo, Flask; você pensa que tenho
medo do diabo? Quem tem medo dele, a não ser o velho comandante, que
não ousa agarrá-lo e algemá-lo, como merece, mas o deixa andar por aí
roubando pessoas? Sim, e assinou um contrato com ele permitindo que
fritasse todas as pessoas que tivesse roubado. Que comandante!”
“Você acredita que Fedallah queira roubar o Capitão Ahab?”
“Se acredito? Logo vai saber, Flask. Mas agora vou ficar de olho nele; e,
se eu vir alguma coisa suspeita acontecendo, vou agarrá-lo pelo colarinho
e dizer – Olha aqui, Belzebu, você não vai fazer isso; e se ele fizer algum
estardalhaço, juro por Deus que tiro o rabo dele do bolso, levo para o
cabrestante e dou-lhe tantos puxões e trancos que seu rabo vai ficar tão
pequeno quanto um coto – entendeu? E depois disso, creio que quando se
vir atracado daquele jeito esquisito, decepado, vai rastejar daqui sem nem
ao menos sentir alegria de ter o rabo entre as pernas.”
“E o que você vai fazer com o rabo, Stubb?”
“O que vou fazer? Vendê-lo como um chicote de boi quando voltarmos
para casa – o que mais?”
“Ora, você está falando a sério? Você está falando a sério desde o
começo, Stubb?”
“Sério ou não, agora chegamos ao navio.”
Os botes foram chamados para rebocar a baleia para o costado de
bombordo, onde correntes para a cauda e outros apetrechos haviam sido
preparados para prendê-la.
“Não falei?”, disse Flask; “sim, em breve você vai ver a cabeça dessa
baleia franca pendurada do lado oposto à do Cachalote.”
Não muito depois, as palavras de Flask provaram ser verdadeiras. Antes
o Pequod havia se inclinado abruptamente na direção da cabeça do
Cachalote; agora, com o contrapeso das duas cabeças, a quilha retomou a
posição de sempre; embora isso lhe custasse muito esforço, acredite.
Assim, quando você iça de um lado a cabeça de Locke, vai-se para esse
lado; mas então erga a cabeça de Kant do outro lado, e você volta à
posição anterior; mas num estado deplorável. Desse modo, certas mentes
estão sempre tentando retomar o prumo. Ó, insensatos! Jogai ao mar
todas essas cabeças retumbantes e navegareis direto e reto.
Arrumando o corpo de uma baleia franca, quando trazida para o
costado do navio, segue-se o mesmo procedimento preliminar dedicado
ao Cachalote; apenas, no caso do último, a cabeça é cortada por inteiro,
enquanto no primeiro lábios e língua são retirados e pendurados
separadamente no convés, com a conhecida barbatana escura presa à
chamada coroa. Mas, nesse caso, nada disso foi feito. As carcaças das duas
baleias foram deixadas para trás; e o navio levando as duas cabeças
parecia uma mula carregando dois cestos muito pesados.
Enquanto isso, Fedallah olhava tranquilamente para a cabeça da baleia
franca, e, de vez em quando, seus olhos passavam das rugas profundas do
animal para as linhas de sua própria mão. E Ahab estava numa posição tal,
que o Parse ocupava sua sombra; enquanto, se é que o Parse tinha uma
sombra, esta se fundiu com a de Ahab, encompridando-a. Enquanto os
marinheiros trabalhavam, faziam conjecturas Lapônicas a respeito de
todas as coisas acontecidas.
continua na página 357...
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Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1 - Miragens
73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.E você com o quê se identifica?