quarta-feira, 30 de junho de 2021

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quinto - A Descida — IV

Victor Hugo - Os Miseráveis



Primeira Parte - Fantine

Livro Quinto — A Descida



IV — O senhor Madelaine de luto


Em princípios do ano de 1821, os jornais deram a notícia da morte de Monsenhor Myriel, bispo de Digne, apelidado de Monsenhor Bemvindo, o qual falecera com oitenta e dois anos, com reputação de santidade. O bispo de Digne, para acrescentar aqui um pormenor que os periódicos omitiram, quando morreu, havia muitos anos que estava cego, mas vivendo satisfeito com a sua cegueira, por ter a irmã junto de si.

Digamo-lo de passagem, ser cego e ser amado, é com efeito, neste mundo, onde nada é completo, uma das formas mais estranhamente esquisitas da felicidade. Ter de contínuo ao pé de si uma mulher, uma filha, uma irmã, um ser encantador, que está ali porque lhe é preciso, porque não pode passar sem ele, saber que é indispensável ao ente que lhe é necessário, poder incessantemente medir a sua afeição pelas horas que o tem na sua presença e dizer consigo: «Uma vez que me consagra todo o seu tempo é porque possuo todo o seu coração». Ver-lhe o pensamento, à falta de lhe poder ver o rosto, ter a certeza da fidelidade de uma criatura no eclipse de um mundo, pressentir o roçagar de um veseido, como se fosse um ruído de asas, ouvi-la falar, cantar, andar de um lado para outro e pensar que é o centro daquelas falas, daquele cantar, daqueles passos; manifestar a todos os instantes a sua própria atração, sentir-se tanto mais poderoso quanto mais fraco é, e torna-se na escuridão e pela escuridão, o astro em torno do qual gravita aquele anjo; poucas felicidades há no mundo iguais a esta.

A suprema felicidade da vida é a convicção de que somos amados, mas amados por nós mesmos, ou antes, a despeito de nós mesmos; esta convicção tem-na o cego. No meio da sua desdita, ser servido é ser acariciado. Falta-lhe alguma coisa? Não. Quando se conserva o amor não se perde a luz. E que amor! Um amor inteiramente formado de virtudes. Não há cegueira onde exista certeza. A alma procura às apalpadelas a alma e encontra-a. E esta alma, que tem já passado por todas as provas, é uma mulher. Quando um cego sente a mão do seu guia, é a sua; os lábios que lhe tocam a fronte, sãos os seus lábios; a respiração que sente junto de si, pertence-lhe.

Receber dela tudo, desde o culto à compaixão, não ser nunca esquecido, ter sempre o socorro da sua doce fraqueza, apoiar-se num vime inabalável, tocar com as próprias mãos a Providência e poder tomá-la nos braços! Deus palpável! Que encanto! O coração, essa celeste flor obscura, entra então em misteriosa expansão. Ninguém trocaria uma tal sombra por toda a claridade! A alma anjo está sempre ali; se acaso se afasta é para voltar de novo; desvanece-se como o sonho e reaparece como a realidade.

É certa a sua presença, quando se sente a aproximação de um calor benéfico. O coração transborda de serenidade, de alegria e de êxtase; e o cego torna-se um esplendor no meio da noite. E depois, mil cuidadozinhos, mil desvelos. Nadas que são enormes num tal vácuo como a cegueira.

Os mais inefáveis sons da voz feminina empregam-se em embalar o cego e suprem para ele o Universo desaparecido. O cego é acariciado pela alma. Não vê, mas sente-se adorado. A cegueira é um paraíso de sombras. Fora deste paraíso que Monsenhor Bemvindo passara para o outro.

No dia seguinte ao da notícia em que a sua morte foi reproduzida pelo jornal da localidade, o senhor Madelaine apresentou-se vestido de preto e com fumo no chapéu.

Aquele luto tornou-se reparado na cidade, tirando daí cada um o tema para mais ou menos acertadas conjecturas.

— Este fato parecia vir deitar um raio de luz nas sombras em que se escondia a origem do senhor Madelaine. Concluiu-se daí que tinha algumas relações de parentesco com o venerável bispo. «Anda de luto pelo bispo de Digne», dizia-se nos salões. Este fato realçou muito o senhor Madelaine, dando-lhe subitamente certa consideração entre a nobreza de Montreuil-sur-mer O microscópico bairro Saint-Germain da localidade, lembrou-se então de pôr fim à quarentena do senhor Madelaine, tornado parente provável dum bispo.

O maire notou a consideração que obtivera pelos mais frequentes cumprimentos das senhoras velhas e pelo sorriso das novas. Um dia, uma decana daquela sociedadezinha aristocrata, curiosa por direito de antiguidade, arriscou-se a perguntar-lhe:

— O senhor maire era sem dúvida primo do falecido bispo de Digne?

— Não, minha senhora — respondeu ele.

— Mas — tornou a decana — como tomou luto por ele?

— É porque na minha mocidade fui lacaio da sua família.

Havia ainda quem notasse mais uma coisa e era que, todas as vezes que pela cidade passava algum jovem saboiano, oferecendo-se para limpar as chaminés, o senhor maire mandava-o chamar, perguntava-lhe o nome e dava-lhe dinheiro. Os saboianas que por ali passavam contavam isto aos outros e resultava daqui aparecerem muitos na cidade.



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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.


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Leia também:

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine I — O abade Myriel
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine II — O abade Myriel torna-se Monsenhor Bem-vindo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine III — A bom bispo, mau bispado
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine IV — As palavras semelhantes às obras
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine V — Como Monsenhor Bem-vindo poupava as suas batinas
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine VI — Quem guardava a casa do prelado
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine VII — Gravatte, o salteador
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine VIII — Filosofia de sobremesa
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine IX — O caráter do irmão descrito pela irmã
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine X — O bispo em presença de uma luz desconhecida 1
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine X — O bispo em presença de uma luz desconhecida 2
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XI — Restrição
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XII — Solidão de Monsenhor Bemvindo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XIII — Quais eram as crenças do bispo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XIV — O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda I — No fim de um dia de marcha
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda I — No fim de um dia de marcha (2)
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda II — A prudência aconselha a sabedoria
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda III — Heroísmo da obediência passiva
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, IV — Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, V — Tranquilidade
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VI — Jean Valjean
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VII — O interior do desespero
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VIII — A onda e a sombra
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, IX — Novos agravos
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, X — O hóspede acordado
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XI — O que ele faz
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XII — O bispo trabalha
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XIII — O pequeno Gervásio
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, I — O ano de 1817
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, II — Quatro pares
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, III — A quatro e quatro
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, IV — A alegria de Tholomyés é tão grande que até canta uma canção espanhola
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, V — Em casa de Bombarda
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VI — Capítulo consagrado ao amor
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VII — Prudência de Tholomyés
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VIII — Morte dum cavalo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, IX — Alegre fim de festa
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quarto - Confiar é por vezes abandonar  — I
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quarto - Confiar é por vezes abandonar  — II
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quinto - A Descida  — IV


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Victor Hugo

OS MISERÁVEIS

Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira (1851-1888)


domingo, 27 de junho de 2021

Los Poetas del Amor... Oliverio Girondo (Argentina)

 Los Poetas del Amor (79)




se olham, se sentem, se desejam,
se acariciam, se beijam, se despem,
se respiram, se deitam, se cheiram,
se penetram, se chupam, se mudam,
se adormecem, se acordam, se iluminam,

A noite, navegando
como ontem,
como sempre,
através das águas do silêncio,
da calma,
de mistério,

Tudo era amor ... amor!
Não havia nada mais do que amor.
O amor estava em toda parte.





12 (Los Amantes)


Se miran, se presienten, se desean,
se acarician, se besan, se desnudan,
se respiran, se acuestan, se olfatean,
se penetran, se chupan, se demudan,
se adormecen, despiertan, se iluminan,
se codician, se palpan, se fascinan,
se mastican, se gustan, se babean,
se confunden, se acoplan, se disgregan,
se aletargan, fallecen, se reintegran,
se distienden, se enarcan, se menean,
se retuercen, se estiran, se caldean,
se estrangunlan, se aprietan, se estremecen,
se tantean, se juntan, desfallecen,
se repelen, se enervan, se apetecen,
se acometen, se enlazan, se entrechocan,
se agazapan, se apresan, se dislocan,
se perforan, se incrustan, se acribillan,
se remachan, se injertan, se atornillan,
se desmayan, reviven, resplandecen,
se contemplan, se inflaman, se enloquecen,
se derriten, se sueldan, se calcinan,
se desgarran, se muerden, se asesinan,
resucitan, se buscan, se refriegan,
se rehúyen, se evaden y se entregan.











7


La noche, navegando
como ayer,
como siempre,
por aguas de silencio,
de calma,
de misterio,
Y el campo, las ciudades,
los árboles,
lo inmóvil,
rodando por el aire,
como ayer,
como siempre,
a miles de kilómetros,
hacia el sol,
hacia el día,
para seguir de nuevo,
sin descanso,
sin tregua,
el mismo derrotero
de oscuridad,
de estrellas.

¡Qué motivo de asombro!
¡Cuánta monotonía!










¡Todo Era Amor!


¡Todo era amor... amor!
No había nada más que amor.
En todas partes se encontraba amor.
No se podía hablar más que de amor.
Amor pasado por agua, a la vainilla,
amor al portador, amor a plazos.
Amor analizable, analizado.
Amor ultramarino.
Amor ecuestre.
Amor de cartón piedra, amor con leche...
lleno de prevenciones, de preventivos;
lleno de cortocircuitos, de cortapisas.
Amor con una gran M, con una M mayúscula,
chorreado de merengue,
cubierto de flores blancas...
Amor espermatozoico, esperantista.
Amor desinfectado, amor untuoso...
Amor con sus accesorios, con sus repuestos;
con sus faltas de puntualidad, de ortografía;
con sus interrupciones cardíacas y telefónicas.
Amor que incendia el corazón de los orangutanes,
de los bomberos.
Amor que exalta el canto de las ranas bajo las ramas,
que arranca los botones de los botines,
que se alimenta de encelo y de ensalada.
Amor impostergable y amor impuesto.
Amor incandescente y amor incauto.
Amor indeformable. Amor desnudo.
Amor amor que es, simplemente, amor.
Amor y amor... ¡y nada más que amor!





Llorar a Lágrima Viva...


Llorar a lágrima viva.
Llorar a chorros.
Llorar la digestión.
Llorar el sueño.
Llorar ante las puertas y los puertos.
Llorar de amabilidad y de amarillo.
Abrir las canillas,
las compuertas del llanto.
Empaparnos el alma, la camiseta.
Inundar las veredas y los paseos,
y salvarnos, a nado, de nuestro llanto.
Asistir a los cursos de antropología, llorando.
Festejar los cumpleaños familiares, llorando.
Atravesar el África, llorando.
Llorar como un cacuy, como un cocodrilo...
si es verdad que los cacuíes y los cocodrilos
no dejan nunca de llorar.
Llorarlo todo, pero llorarlo bien.
Llorarlo con la nariz, con las rodillas.
Llorarlo por el ombligo, por la boca.
Llorar de amor, de hastío, de alegría.
Llorar de frac, de flato, de flacura.
Llorar improvisando, de memoria.
¡Llorar todo el insomnio y todo el día!








Noite 2


Debaixo do travesseiro
uma mão,
minha mão,
que cresce,
cresce
inexoravelmente,
para emergir, de
repente,
na noite mais alta,
sair da cama,
atravessar as paredes,
misturar-se com as sombras,
espalhar-se nas ruas
e cobrir os telhados de casas sonâmbulas.
Através de minhas pálpebras
contemplo seus dedos,
gentis,
calmos,
falanges ciclópicas;
os milhares de rios em
ziguezague e
ressecados
que correm pela palma deserta daquela mão,
desproporcionais,
enormes,
apegados à insônia,
ao meu braço,
ao meu
corpinho,
perdido
no meio dos lençóis;
sem me explicar como essa mão
é a minha mão,
nem saber por que insiste em me diminuir.







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Oliverio Girondo - nasceu em Buenos Aires em 1891 e se dedicou à poesia e ao jornalismo, onde participou de revistas como: Proa, Prisma e Martín Fierro, das quais também participou Jorge Luis Borges.
Entre suas obras poéticas estão: "Vinte poemas para ler no bonde" (1922), Stickers (1925), Espantalho de 1932, Interlunio (1937), Persuasão dos dias (1942), Nosso campo (1946).
Vale ressaltar que seus poemas foram lidos no filme "O Lado Negro do Coração", do qual também participou Mario Benedetti.
Oliverio morreu em 1967.


sábado, 26 de junho de 2021

Dostoiévski - O Idiota: Primeira Parte (5c.) Até então estivera contemplando Agláia...

O Idiota



Fiódor Dostoiévski


Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira


Primeira Parte


5c.



Até então estivera contemplando Agláia com um sorriso gentil e tímido. Mas ao fazer tal afirmativa deu uma risada, passando a olhá-la com jovialidade.

- Isso é que é ser modesto...

O tom da voz de Agláia tendia para a irritação.

- Gosto de ver moças corajosas. Conto-lhes uma destas e não se impressionam! Pois eu fiquei estarrecido com o que esse homem me contou... Essa coisa de dividir os seus últimos cinco minutos... Palavra, tenho até sonhado com essa história...

Tornou a olhar para as suas ouvintes, examinando-as uma por uma.

- Ficaram zangadas comigo, por alguma coisa que eu tenha feito sem querer?

Olhava-as agora bem no rosto, parecendo um tanto embaraçado, assim de repente.

- Zangadas? Nós? Por quê? - exclamaram as três, surpreendidas.

- Ora.., por haver eu assumido todo este tempo um ar de quem recita um sermão...

Elas riram muito.

- Pelo amor de Deus, não me tomem por pretensioso. Sei por experiência própria que tenho vivido menos do que os outros e que conheço a vida muito menos do que qualquer outra pessoa. Natural, pois, que às vezes eu diga tolices.

E perturbou-se completamente.

- Se é feliz, conforme disse, deve ter vivido mais e nunca menos do que os outros. Não vejo por que haja de nos pedir desculpas - redarguiu Agláia, com timbre irritado. - E não suponha, por favor, que nos esteve pregando um sermão. E nem se trata, da sua parte, de nenhum sinal de superioridade, pois, com esse seu quietismo, fácil lhe é encher de felicidade um século de existência. Ou lhe mostrem uma execução, ou lhe façam um aceno com um simples dedo, para o senhor tanto faz, pois qualquer dos casos lhe dará margem para fazer edificantes reflexões, aperfeiçoando seu estado de beatitude. Ora, assim a vida é muito fácil.

- Não, compreendo, Agláia, que você esteja sempre “de ponta” com o que lhe dizem - disse a generala ao reparar no feitio do príncipe. Tampouco entendo o que você está aí a retrucar. Dedo de quem? Qual dedo? Não diga asneiras. O príncipe falou magnificamente; pena que o assunto tenha sido um pouco triste. Qual o motivo de pretender descoroçoá-lo? Quando começou, ele estava risonho; agora está sombrio.

- Está muito bem, mamãe. Escute, príncipe, que pena o senhor não ter assistido a uma execução... porque eu gostaria de lhe perguntar uma coisa.

Mas Míchkín prontamente respondeu:

- Já assisti a uma.

- Já? - entusiasmou-se Agláia. Bem me pareceu. Isso é o cúmulo! Se já assistiu a uma coisa dessas como é que tem a coragem de declarar que sempre foi feliz? Não estou eu dizendo uma verdade que o contradiz?

- Mas então, na sua aldeia, havia execuções? quis saber Adelaída.

- Vi uma, mas foi em Lião. Estava de visita à cidade, com Schneider. E ele me levou. Tivemos essa oportunidade logo que acabamos de chegar.

- Bem. Gostou? O que viu foi edificante e instrutivo? - persistia Agláia.

- Absolutamente não gostei e até adoeci depois. Devo confessar que fiquei pregado ali, no lugar, sem poder tirar os olhos daquilo.

- Eu faria o mesmo - afirmou Agláia. - Eles implicam com as mulheres que vão assistir. Os jornais até censuram.

- É lógico. E se consideram que não é próprio para mulheres, inferem que o é para os homens. Justifica-se.

- Congratulo-me com essa lógica! E naturalmente também pensa assim, príncipe!?

Adelaída interrompeu, perguntando:

- Como foi essa execução?

- Não me sinto muito inclinado agora a contar.

Míchkin estava meio atarantado, de sobrancelhas franzidas.

- Por que essa má vontade em nos relatar isso? - indagou Agláia, com certo ar escarninho.

- É que ainda agora mesmo acabei de descrever essa execução.

- Agora mesmo? A quem? Ora essa!

- Ao lacaio da entrada, enquanto esperava.

- Qual? - ouviu ele de todos os lados.

- Um que fica na saleta, que tem os cabelos meio encanecidos e a cara vermelha; enquanto estive sentado na antecâmara, esperando falar com Iván Fiódorovitch

- Que despropósito! Isso é até original! - sentenciou a generala.

- Ora, o príncipe é um democrata - sublinhou Agláia. Bem, se contou a Aleksiéii como há de recusar a nós outras?

- Já estou preparada para Ouvir - disse Adelaída.

E Michkin começou, dirigindo-se a esta:

- Ainda agora me veio ao espírito um pensamento, quando me pediu um assunto para o seu quadro (Míchkin animava-se logo, confiante): sugerir-lhe que pintasse o rosto de um homem condenado! Um momento antes da guilhotina cair, quando ele ainda estivesse de pé no cadafalso, antes de se curvar sobre o cepo.

- O rosto? Só o rosto? - interessou-se Adelaída. Seria um tema estranho. E que espécie de quadro produziria isso?

- Não sei. Mas, por que não pintar? - insistiu Míchkin com ardor. Vi uma tela mais ou menos assim, em Basiléia, não há muito tempo. Gostaria de descrevê-la para as senhoritas. Um dia destes o farei. Impressionou-me como quê!

- Não deixe de nos contar depois como era esse quadro de Basiléia - disse Adelaída. Mas, por hoje, nos explique como devo pintar a execução. Poderia dizer-me como é que o senhor próprio a imaginaria? A cabeça como deve ser? E tem de ser só a cabeça? Como é o rosto?

- Praticamente tem de ser no minuto que antecede à morte - começou Míchkin, com muita presteza, servindo-se de suas recordações e dando até mostras de aflição, como não querendo esquecer nenhuma minúcia de importância relativa ao caso.

- O momento em que ele acabou de subir a escadinha e parou sobre o cadafalso. Bem nesse instante ele olhou na minha direção. Olhei para a sua face e compreendi tudo. Será possível contar isso? Desejo, sim, desejo muito que a senhorita ou qualquer outra pessoa pinte isso. Melhor se fosse a senhorita. Já me veio a ideia de que a senhorita fizesse bem um quadro desse gênero. Mas, veja bem, tem-se de imaginar tudo quanto sucedeu antes, tudo, tudo! O condenado estava na prisão e pensava que a execução seria dentro de uma semana, contava com as formalidades de praxe e calculava que os papéis levariam uma semana para voltar. Mas, por uma circunstância fortuita, o prazo foi reduzido. Às cinco da manhã ele estava dormindo. Fins de outubro. As cinco da manhã ainda é frio e escuro. O superintendente da prisão chega sem nenhum rumor acompanhado do guarda, e lhe toca o ombro, com muito cuidado. Ele se apoia no cotovelo e se ergue um pouco. Vê a lanterna. Pergunta: “Que é?”. “A execução será às dez horas”. Não pôde apanhar bem o sentido disso, por estar apenas semi- acordado, mas acabou objetando que a sentença demoraria no mínimo uma semana em seus trâmites. Nisto acordou de todo, deixou de protestar, ficou mudo. Assim me contaram. Depois falou: “É duro assim de repente! E de novo se calou, não falando daí em diante mais nada. As três ou quatro horas seguintes foram esgotadas nos usuais preparativos: receber o sacerdote, depois o almoço, no qual lhe serviram vinho, café e carne (não é isso um escárnio? Pensem na crueldade disso! E dizer-se que, afinal, esses inocentes funcionários agem de boa-fé, convencidos de que estão praticando um último ato de humanidade!) e depois a toilette (sabem que é isso?); só então é que o levaram através da cidade, para o suplício. Penso que também este homem, como aquele outro, deve ter imaginado, enquanto era levado através da cidade, que ainda lhe sobrava um tempo sem fim para viver. Devia ir pensando, pelo caminho: “Pois não é que ainda falta muito tempo! Tenho três ruas! Devo passar por esta, até o fim, depois ainda tem a próxima antes de chegar a terceira; à esquerda há um padeiro, na terceira rua... sim... à esquerda. Ainda falta muito para chegar diante da casa do padeiro... Em torno da carreta, multidão, barulho e exclamações. E ele tinha de suportar dez mil faces, vinte mil olhos! E, pior do que isso, tinha de suportar o pensamento seguinte: “São dez mil, mas nenhum deles vai ser executado; eu é que vou ser executado”. Bem, todo esse preparativo. Agora, rente ao cadafalso, uma escadinha. Diante desses três degraus, começou a chorar, ele que tinha sido um forte, que fora um grande criminoso, segundo me disseram. O sacerdote não o deixava um só momento; acompanhou-o desde a carroça e não deixou de lhe falar todo o tempo. Duvido que tenha escutado. E se começou a escutar não deve ter apreendido mais do que duas palavras. Deve ter sido assim. E eis que começou a subir os degraus. Suas pernas estavam ligadas uma à outra, de maneira que teve de subir dando uns pulinhos lúgubres. O sacerdote, que era um homem inteligente, deixou de lhe falar, só lhe dando a cruz para que a beijasse. Ao pé da escada, ele estava lívido e, quando chegou à plataforma do cadafalso, parou e estava tão branco como papel, como papel imaculado sobre que se escreve. As suas pernas devem ter fraquejado, depois devem ter endurecido como paus. Eu pensava comigo que ele devia estar se sentindo tão mal como se uma coisa na garganta o sufocasse fazendo-lhe uma espécie de êmbolo. As senhoritas nunca sentiram isso, quando estão com temor, ou nos momentos terríveis em que conservamos toda a nossa razão, mas ela não tem mais nenhum poder? Penso que quem quer que se defronte com a destruição inevitável, por exemplo, ao perceber que uma casa vai desabar, deve sentir um desejo só, instantâneo e imediato: sentar-se e fechar os olhos, à espera... venha o que vier... Quando essa fraqueza estava chegando, o sacerdote em silêncio e em um movimento lépido lhe chegou a cruz aos lábios, erguendo-a até ele, uma pequena cruz de prata maciça, conservando-a assim à altura dos lábios, muito tempo. Cada vez que a cruz lhe tocava os lábios, ele reabria os olhos e parecia vir à vida por uns poucos segundos; e as suas pernas se moviam. Tornava a beijar a cruz, veementemente Beijava-a com pressa, como para não se esquecer de se munir de alguma coisa de que muito necessitava, muito embora eu duvide que naquele momento lhe viessem sentimentos religiosos propriamente. E assim foi, até que o levaram para o cepo. É incrível, como são raríssimas as pessoas que desfalecem nesse momento. Pelo contrário, o cérebro fica tão aguçado que decerto trabalha em uma progressão tremendamente centuplicada, qual máquina em alta velocidade. Quer me parecer que nessa hora sobrevenha um agudo tumultuar de ideias de toda sorte, sempre inacabadas e também absurdas, completamente gratuitas e inadequadas. “Aquele homem está me olhando. Tem uma verruga na cara. Um dos botões do casaco do algoz está enferrujado”. E uma porção de outras coisas que nessa hora vêm à tona... Há um ponto que se grava indelével, um eixo ao qual a pessoa não se pode eximir, já que tudo o mais roda à sua volta. E pensar que tem de ser assim até o último quarto de segundo, quando a cabeça já está sobre o cepo, à espera... e sabe! Subitamente ouve em cima de si o retinir do aço. Sim, tem de ouvir isso. Se eu estivesse lá, curvado, ficaria bem atento a fim de ouvir e de escutar! Dura apenas a décima parte de um segundo, mas a pessoa sabe que escutará. E calculem que ainda é ponto de controvérsia saber se, um segundo depois de cortada, a cabeça sabe que foi cortada! Que ideia! E se eu lhes disser que cinco segundos depois ela ainda sabe!? Pinte o cadafalso de maneira que só o último degrau possa ser visto distintamente. No primeiro plano, o criminoso tendo acabado de o subir. Pinte-lhe a cabeça e o rosto, branco como papel; o sacerdote erguendo a cruz. O homem vorazmente estendendo os lábios azuis e olhando... e com que olhos! E ciente de tudo. Uma cruz e uma cabeça, mais nada, eis o quadro. O rosto do sacerdote e o do carrasco. Os seus dois ajudantes. E umas poucas cabeças e olhos, embaixo, pintados, se quiser, no plano posterior, em meia luz, assim como guarnição viva de tela... Eis o quadro!

Cessando de falar, Míchkin ficou olhando para elas.

- Não me digam que isso é quietismo - comentou consigo mesma Aleksándra.

Mas Adelaída disse alto:

- E agora nos conte como foi que o senhor se apaixonou...

O príncipe olhou-a, admirado.

- Escute - tornou Adelaída, de modo um tanto veemente - o senhor nos prometeu falar sobre a tela de Basiléia, mas eu preferia que nos contasse agora os seus namoros. Não negue que já esteve apaixonado! Além disso, logo que começa a descrever qualquer coisa, deixa de ser um filósofo.

E nisto Agláia observou, inesperadamente:

- Mal o senhor acaba de contar qualquer coisa fica assim como se estivesse envergonhado... Por que é isso?

- Que despautério, menina!... - ralhou a mãe.

E Aleksándra concordou:

- Que falta de propósito!...

- Não acredite em Agláia, príncipe - pediu a Sra. Epantchiná, virando-se para ele. - Ela faz isso de caso pensado, por malícia; todavia não a eduquei assim tão mal. Oh! Não pense mal delas por estarem mexendo com o senhor desse jeito. Não pense que seja maldade. Eu sei que elas já estão gostando do senhor. Conheço o rosto de cada uma delas.

- Eu também conheço - disse o príncipe com uma ênfase toda especial.

- Como assim? - perguntou Adelaída, com curiosidade.

- Que sabe o senhor a respeito de fisionomias? - debicaram as outras duas também.

Míchkin, porém, não respondeu e ficou sério. Todas aguardavam a sua resposta.

- Eu direi mais tarde - disse, com delicadeza e seriedade.

- O senhor está mais é querendo suscitar a nossa curiosidade - exclamou Agláia. - E para que essa solenidade?

- Ora bem - interveio outra vez Adelaída, com precipitação. - Se deveras é um conhecedor de rostos, certamente já teve algum amor, e a minha conjetura, ainda há pouco, foi certa. Conte-nos, então...

- Não, nunca me apaixonei - respondeu o príncipe tão gentilmente como antes e com o mesmo ar grave. - Eu fui feliz, mas de um modo diferente.

- Como? Em quê?

- Então, se querem, está bem, vou contar - disse.

E se concentrou, meditando profundamente.


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D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L2 Capitulo IX: o valente biscainho e o famoso D. Quixote...

D. Quixote de la Mancha



Miguel de Cervantes

Vol 1



O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 

Miguel de Cervantes



PRIMEIRA PARTE

LIVRO SEGUNDO

CAPÍTULO IX


Em que se conclui a estupenda batalha que o galhardo biscaínho e o valente manchego tiveram.



DEIXAMOS no capítulo antecedente o valente biscainho e o famoso D. Quixote com as espadas altas e nuas, ameaçando descarregar dois furibundos fendentes, e tais, que, se em cheio acertassem, pelo menos os rachariam de alto a baixo como duas romãs. Naquele ponto tão duvidoso parou, ficando-nos truncada tão saborida história, sem nos dar notícia o autor donde se poderia achar o que nela faltava.

Causou-me isto grande pena, porque o gosto de ter lido aquele pouco se me devolvia em desgosto, pensando no mau caminho que se oferecia para se achar o muito que em meu entender faltava ainda a tão saboroso conto.

Parecia-me coisa impossível, e fora de todo o bom costume, que a tão bom cavaleiro tivesse faltado algum sábio, que tomasse a cargo escrever as suas nunca vistas façanhas; coisa que não minguou a nenhum dos cavaleiros andantes, dos que as gentes dizem que se vão às suas aventuras, pois cada um deles tinha um ou dois sábios, que pareciam talhados para isso mesmo, os quais não somente escreviam os seus feitos, senão que pintavam até os seus mínimos pensamentos e ninharias, por mais ocultas que fossem. Como havia de ser tão desditado um cavaleiro tão excelente, que a ele lhe faltasse o que sobrou a Platir e outros que tais?

Assim não podia inclinar-me a crer que tão galharda história tivesse ficado manca, e já atirava a culpa à malignidade do tempo devorador e consumidor de todas as coisas, que ou tinha aquilo oculto, ou o desbaratara e perdera.

Por outra parte me parecia, que, pois entre os seus livros se tinham achado alguns tão modernos como Desengano de zelos, e Ninfas e Pastores de Henares, também a sua história devia de ser moderna e, se não estivesse escrita, estaria na memória da gente da sua aldeia, e das aldeias circunvizinhas.

Estas fantasias me traziam confuso e desejoso de saber real e verdadeiramente toda a vida e milagres do nosso famigerado espanhol D. Quixote de la Mancha, luz e espelho da cavalaria manchega, e o primeiro que, em nossa idade e nestes tão calamitosos tempos, se pôs ao trabalho e exercício das andantes armas, e ao de desfazer agravos, socorrer viúvas, amparar donzelas, daquelas que andavam de açoite em punho, montadas em seus palafréns, e com toda a sua virgindade à sua conta, de monte em monte, e de vale em vale, que (a não ser forçá-las algum valdevinos, ou algum vilão de machada e morrião, ou algum descomunal gigante) donzela houve nos passados tempos, que, ao cabo de oitenta anos, sem ter dormido uma só vez debaixo de telha, se foi tão inteira à sepultura, como a mãe a parira.

Digo, pois, que, por estes e outros muitos respeitos, é merecedor o nosso galhardo D. Quixote de contínuos e memoráveis louvores; a mim não se devem eles negar pelo trabalho e diligência que pus em buscar o fim desta agradável história, ainda que sei bem que, se o céu, o acaso, e a fortuna, me não ajudassem, o mundo ficaria falto do passatempo e gosto que poderá ter por quase duas horas a pessoa que atentamente a ler. O modo da achada foi o seguinte:

Estando eu um dia no Alcana de Toledo, apareceu ali um muchacho a vender uns alfarrábios e papéis velhos, a um mercador de sedas. Como eu sou amigo de ler até os papéis esfarrapados das ruas, levado da inclinação natural, tomei um daqueles cartapácios, e pela escrita reconheci ser árabe (posto o não soubesse decifrar).

Espalhei os olhos à procura de algum mourisco algaraviado, que o deletreasse. Depressa me apareceu intérprete, pois de melhor e mais antiga língua que o eu necessitasse, facilmente por ali se me depararia. Enfim atinei com um, que, ouvindo o que eu desejava, pegando no livro o abriu pelo meio, e, lendo nele um pouco, se começou a rir.

Perguntei-lhe de que se ria, e respondeu-me que de uma coisa que ali vinha escrita na margem como anotação. Pedi-lhe que a decifrasse, e ele, sem interromper o riso, continuou:

— O que se lê aqui nesta margem, ao pé da letra, é o seguinte: Esta Dulcinéia del Toboso, tantas vezes mencionada na presente crônica, dizem que para a salga dos porcos era a primeira mão de toda a Mancha.

Quando eu ouvi falar de Dulcinéia del Toboso, fiquei atônito e suspenso, porque logo se me representou que no alfarrábio se conteria a história de D. Quixote. Neste pressuposto, roguei-lhe que me lesse o princípio do livro em linguagem cristã, o que ele fez traduzindo de repente o título arábigo em castelhano deste modo: História de D. Quixote de la Mancha, escrita por Cid Hamete Benengeli, historiador arábigo.

Muita prudência me foi mister para dissimular o contentamento que me tomou, quando semelhante título me chegou aos ouvidos; e antes que o rapaz apresentasse o livro ao homem das sedas, lhe comprei toda a papelada e os alfarrábios por uns reles cobres, que, se ele fora mais previsto, e soubesse a grande melgueira que me trazia ali, bem podia ter feito comigo veniaga para mais de seis reales.

Retirei-me logo com o mourisco para o claustro da igreja maior, e lhe pedi me trocasse em vulgar todos aqueles alfarrábios, que tratavam de D. Quixote, sem omitir nem acrescentar nada, oferecendo-lhe a paga que ele quisesse.

Contentou-se com duas arrobas de passas, e duas fangas de trigo, e prometeu traduzi-los bem e fielmente com muita brevidade. Mas eu, para facilitar mais o negócio, e não largar da mão tão bom achado, o trouxe para minha casa, onde em pouco mais de mês e meio traduziu tudo exatamente como aqui se refere.

Estava no primeiro cartapácio debuxada mui ao natural a batalha de D. Quixote com o biscainho, na mesma postura em que os descreve a história, de espadas altas, um coberto da sua rodela, o outro da almofada, e a mula do biscainho tão ao vivo, que a distância de tiro de besta se conhecia ser de aluguer. Tinha o biscainho por baixo uma inscrição que dizia: D. Sancho de Azpeytía, que sem dúvida devia ser o seu nome, e aos pés do Rocinante estava outra que dizia: D. Quixote.

Vinha o Rocinante maravilhosamente pintado, tão delgado e comprido, tão descarnado e fraco, com arcabouço tão ressaído, e tão desenganado ético, que bem mostrava quanto à própria se lhe tinha posto o nome de Rocinante.

Ao pé dele estava Sancho Pança com o burro pelo cabresto, com outro letreiro que dizia: Sancho Zancas, o que havia de ser, pelo que a pintura mostrava, por ter a barriga bojuda, a estatura baixa, e as ancas largas, do que lhe viria o nome de Pança e Zancas, que por ambas estas alcunhas o designa algumas vezes a história.

Algumas outras miudezas se poderiam notar, mas são todas de pouca importância, e não fazem ao caso para a verdade da narrativa, que no ser verdadeira é que cifra a sua bondade.

Se aqui se pode pôr alguma dúvida por parte da veracidade, será só o ter sido o autor arábigo, por ser mui próprio dos daquela nação serem mentirosos, ainda que, por outra parte, em razão de serem tão nossos inimigos, antes se pode entender que mais seriam apoucados que sobejos nos louvores de um cavaleiro batizado. A mim assim me parece, pois, podendo deixar correr à larga a pena no encarecer os merecimentos de tão bom fidalgo, parece que de propósito os remete ao escuro; coisa mal feita e piormente pensada, por deverem ser os historiadores muito pontuais, verdadeiros, e nada apaixonados, sem que nem interesse, nem temor, nem ódio, nem afeição, os desviem do caminho direito da verdade, que é a filha legítima de quem historia, êmula do tempo, depósito dos feitos, testemunha do passado, exemplo e conselho do presente, e ensino do futuro.

Nesta sei eu que se achará tudo que porventura se deseje na mais aprazível; e se alguma coisa boa lhe falecer, para mim tenho que foi culpa do perro do autor, antes que por míngua da matéria.

Enfim, a sua segunda parte, prosseguindo na tradução, começava desta maneira:

Postas e levantadas em alto as cortadoras espadas dos dois valorosos e enojados combatentes, não parecia senão que estavam ameaçando céu, terra, e abismo; tal era o seu denodo e aspecto!

O primeiro que descarregou o golpe foi o colérico biscainho; e com tal força e fúria o descarregou, que, a não se voltar nos ares o ferro, bastara aquela cutilada para dar fim à sua rigorosa contenda, e a todas as aventuras do nosso cavaleiro. Mas a boa sorte, que para maiores coisas o guardava, torceu a espada do inimigo, por modo que, posto lhe acertasse no ombro esquerdo, lhe não fez outro dano senão desarmá-lo daquela banda, levando-lhe de caminho grande parte da celada, com a metade da orelha, que tudo aquilo veio a terra com espantosa nina, deixando-o muito mal tratado.

Valha-me Deus! quem haverá aí que bem possa contar agora a raiva que entrou no coração do nosso manchego, vendo-se posto naquela miséria? bastará dizer que se aprumou de novo nos estribos; e, apertando mais a espada nas mãos, com tamanho ímpeto descarregou sobre o biscainho, acertando-a em cheio na almofada e cabeça, que, não lhe valendo tão seguro reparo, foi como se lhe caíra em cima uma montanha; começou logo a deitar sangue pelos narizes, pela boca, e pelos ouvidos, e a dar mostras de cair da mula abaixo; e sem falta cairia, a se não abraçar ao pescoço do animal. Mas, apesar de tudo, desentralhou os pés dos estribos, soltou os braços, e a mula, espantada com o tremendo golpe, deu a correr pelo campo; e a poucos corcovos pregou com o seu dono em terra.

Contemplava D. Quixote tudo com muito sossego; e, logo que o viu caído, saltou do seu cavalo, e com muita ligeireza se chegou; e, metendo-lhe aos olhos a ponta da espada, lhe disse que se rendesse, ou lhe cortaria a cabeça.

Estava o biscainho tão fora de si, que não podia responder palavra; e mal passaria à vista da cegueira de D. Quixote, se as damas do coche, que até então tinham com grande desacordo presenciado a pendência, não corressem para onde ele estava, pedindo-lhe com as maiores instâncias lhes fizesse a infinita mercê de perdoar a morte àquele seu escudeiro; ao que D. Quixote respondeu com o maior entono e gravidade:

— À fé, formosas senhoras, que sou mui contente de fazer o que me pedis; mas há-de ser com uma condição; a saber: que este cavaleiro me há-de prometer que irá ao lugar de Toboso, e se há-de apresentar da minha parte à sem par D. Dulcinéia, para que faça dele o que for mais de sua vontade.

As medrosas e desconsoladas, sem entrar em explicações do que D. Quixote exigia, e sem perguntarem quem vinha a ser D. Dulcinéia, lhe prometeram que o escudeiro executaria quanto de sua parte lhe fosse mandado.

— Pois, fiado nessa promessa, não lhe farei mais prejuízo, ainda que bem o tenha merecido.


continua página 60...


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Leia também:


D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Prólogo
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Ao Livro de D. Quixote de la Mancha
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo I
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo II
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo III
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo IV
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo V
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VI
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VII
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VII
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VIII
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L2 Capitulo IX
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L2 Capitulo X

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D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho


Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
eBooksBrasil.com 

Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com



quinta-feira, 17 de junho de 2021

Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações

Moby Dick


Herman Melville




Em sinal 
de minha admiração por seu gênio, 
este livro é dedicado 
a 
NATHANIEL HAWTHORNE.





ETIMOLOGIA
(Fornecida pelo finado funcionário tuberculoso de um ginásio)


O lívido funcionário de casaco tão surrado quanto seu coração, corpo e cérebro; vejo-o agora. Estava sempre espanando o pó de seus velhos dicionários e gramáticas, com um lenço estranho, grotescamente enfeitado com as alegres bandeiras de todas as nações conhecidas do mundo. Gostava de espanar suas antigas gramáticas; de certo modo, isso o fazia lembrar tranquilamente de sua mortalidade.

“Ao tentar educar os outros, ensinar-lhes o nome por que se designa em nosso idioma um peixe-baleia, omitindo por ignorância a letra H de whale, que por si só dá significação à palavra, comunica-se algo que não é verdadeiro.”

HACKLUYT


“WHALE (BALEIA). Sueco e dinamarquês hvalt. Este animal recebe esse nome por ser redondo e roliço; pois em dinamarquês hvalt significa “arqueado” ou “abobadado.”

DICIONÁRIO WEBSTER


“WHALE. Provém de forma mais direta do holandês e do alemão Wallen; aqui Walw-ian: girar, rolar.”

DICIONÁRIO RICHARDSON.


Hebraico.                   דה
Χητος                               Grego.
CETUS                             Latim.
WHOEL                                      Anglo-saxão.
HVALT                                        Dinamarquês.
WAL                                      Holandês.
HWAL                              Sueco.
WHALE                              Islandês.
WHALE                          Inglês.
BALEINE                          Francês.
BALLENA                            Espanhol. 
PEKEE-NUEE-NUEE       Fidjiano.
PEKEE-NUEE-NUEE                  Erromangoano.



EXCERTOS 
(Fornecidos por um sub-sub-bibliotecário) 


Ver-se-á que este laborioso investigador e escrevinhador, um pobre coitado subsub, parece ter percorrido as intermináveis Vaticanas e bancas da terra, colhendo todas as alusões esparsas sobre as baleias que encontrou em todos os tipos de livros, sagrados ou profanos. Por essa razão, não se deve entender, ou ao menos nem sempre se deve entender que as afirmações confusas, embora autênticas, feitas sobre as baleias nestes excertos sejam um verdadeiro evangelho da cetologia. Pelo contrário. No que diz respeito aos autores antigos de um modo geral, assim como aos poetas que aqui aparecem, estes excertos são apenas valiosos ou divertidos enquanto oferecem uma visão panorâmica do que foi dito, pensado, imaginado e cantado, de modo promíscuo, por muitas nações e gerações, inclusive a nossa, sobre o Leviatã. 

Portanto, passai bem, pobre-diabo sub-sub, sobre quem teço comentários. Pertenceis a essa tribo pálida e perdida, que nenhum vinho da terra poderá esquentar; e ante quem até o branco xerez seria rosado demais; mas junto a quem às vezes é bom se sentar e se sentir coitado também; e ficar alegre com as lágrimas e dizer-lhes simplesmente, com os olhos cheios e os copos vazios, com uma tristeza não de todo desagradável: Desisti, sub-subs! Pois, quanto mais vos esforceis para agradar ao mundo, mais ficareis sem agradecimentos! Se para vós eu pudesse abrir o caminho para Hampton Court e para as Tulherias! Mas engoli vossas lágrimas e correi para o topo do mastro com vossos corações; pois para a vossa chegada vossos amigos que já se foram estão esvaziando os sete céus e transformando em fugitivos Gabriel, Miguel e Rafael, por tanto tempo mimados. Aqui só podereis tocar corações estilhaçados, mas lá, lá tocareis os cristais inquebráveis! 





Citações



“E Deus criou as grandes baleias.” GÊNESIS

“Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.” JÓ

“Ora, Jeová providenciou um grande peixe para engolir Jonas.” JONAS

“Ali andam os navios; e o Leviatã que formaste para nele folgar.” SALMOS

“Naquele dia o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o Leviatã, a serpente fugitiva, e o Leviatã, a serpente tortuosa; e matará o dragão que está no mar.” ISAÍAS

“E qualquer outra coisa que chegar ao caos da boca deste monstro, seja besta, barca ou pedra, irá imediatamente abaixo, por meio de seu enorme e asqueroso gole, e morrerá no abismo sem fundo de sua barriga.” ESCRITOS MORAIS DE PLUTARCO, MORALIA (trad. de Holland)

“O oceano Índico gera a maior parte dos peixes e os mais volumosos que existem: entre eles há as Baleias e os Redemoinhos, chamados Balaenae, que chegam a ter uma extensão de quatro acres ou jeiras de terra.” PLÍNIO (trad. de HOLLAND)

“Mal estávamos dois dias no mar, quando, ao nascer do sol, apareceram várias Baleias e outros monstros do mar. Entre as primeiras havia uma de tamanho monstruoso… Veio em nossa direção, com a boca aberta, levantando ondas de todos os lados e agitando o mar diante de si, formando espuma.” LUCIANO (trad. de TOOKE, A Verdadeira História)

“Visitou também este país para capturar baleias-cavalo, que tinham por dentes ossos valiosos, dos quais levou alguns ao rei… As melhores baleias eram capturadas em seu próprio país, das quais umas mediam quarenta e oito jardas de comprimento, outras cinquenta. Disse que era um dos seis que haviam matado sessenta em dois dias.” RELATO ORAL DE OTHER, OU OCTHER, ANOTADO PELO REI ALFREDO, A.D. 890

“E, enquanto todas as outras coisas, besta ou embarcação, entram naquele abismo horroroso da boca do monstro (da baleia) e são engolidas, perdendo-se na mesma hora, o caboz marinho se retira com grande segurança e dorme ali.” MONTAIGNE, APOLOGIA DE RAIMOND SEBOND

“Fujamos, fujamos! Que o diabo me leve se não se trata do Leviatã descrito pelo nobre profeta Moisés na vida do paciente Jó.” RABELAIS

“O fígado daquela baleia enchia duas carroças.” STOWE, ANAIS

“O grande Leviatã que fazia o mar borbulhar como uma panela fervendo.” LORD BACON, VERSÃO DOS SALMOS

“Em relação a esse monstruoso volume da baleia ou orca, nada certo chegou a nós. Engordam excessivamente, tanto que uma quantidade incrível de óleo pode ser extraída de uma baleia.” LORD BACON, HISTÓRIA DA VIDA E DA MORTE

“O remédio mais soberano na terra para uma lesão interna é o espermacete.” REI HENRIQUE

“Muito semelhante a uma baleia.” HAMLET

E como nenhuma destreza poderia ajudá-lo na arte da percolação /
Volta-se para o causador da ferida, que, com dardo certeiro, /
Seu peito escavou, provocando implacável comoção /
Como a baleia ferida que através do oceano foge à praia.” SPENSER, A RAINHA DAS FADAS

“Imensos como baleias, os movimentos daqueles corpos enormes em perfeita calmaria podem agitar o oceano até que borbulhe.” SIR WILLIAM DAVENANT, PREFÁCIO PARA GONDIBERT

“O que é o espermacete, os homens podem não saber, visto que o erudito Hofmannus em sua obra de trinta anos diz francamente: Nescio quid sit.” SIR T. BROWNE, DO ESPERMACETE E DA BALEIA (VIDE SEU V.E.)

“Como o Talus de Spencer com seu moderno mangual, / 
Ameaça ruína com sua cauda magistral. / 
Traz os dardos fixados na lateral, / 
E nas costas mostra um matagal.” WALLER, A BATALHA DAS ILHAS SUMMER

“Por meio de um artifício é criado esse grande Leviatã, chamado Nação ou Estado (em latim, Civitas), que não é outra coisa a não ser um homem artificial.” SENTENÇA DE ABERTURA DO LEVIATÃ DE HOBBES

“O tolo Mansoul engoliu sem mastigar, como se fosse uma sardinha na boca de uma baleia.” BUNYAN, O CAMINHO DO PEREGRINO

“Aquela fera marinha, /
O Leviatã, de todas as obras criadas por Deus é a maior das criaturas vivas /
Que nada nas correntes do oceano.” MILTON, PARAÍSO PERDIDO

“Aquele Leviatã, a maior das criaturas vivas, nas profundezas, /
Estirado como um promontório, dorme ou nada, /
E parece a terra em movimento; e com suas guelras /
Inala, e sua respiração exala um oceano.” Ibidem.

“As poderosas baleias que nadam em um oceano de águas e têm um oceano de óleo nadando dentro delas.” FULLER, O ESTADO PROFANO E SAGRADO

“Perto de algum promontório jaz /
O imenso Leviatã cuidando de suas presas, /
Sem lhes dar oportunidade as engole, /
E elas se perdem nas mandíbulas abertas.” DRYDEN, ANNUS MIRABILIS

“Enquanto a baleia flutua à popa do navio, eles cortam sua cabeça e a rebocam com um bote para tão perto da praia quanto possível; mas ela fica encalhada em doze ou treze pés de água.” THOMAS EDGE, DEZ VIAGENS A SPITZBERGEN, EM PURCHAS

“No caminho viram muitas baleias divertindo-se no oceano, enquanto pulverizavam a água com seus respiradouros e ventas que a natureza colocou em seus ombros.” VIAGENS DE SIR T. HERBERT PARA ÁSIA E ÁFRICA, HARRIS COLL.

“Avistaram ali um bando tão imenso de baleias, que foram forçados a prosseguir com muita cautela, por medo de que o navio fosse abalroado por alguma delas.” SCHOUTEN, SEXTA CIRCUNAVEGAÇÃO

“Partimos do Elba, vento NE, no navio chamado Jonas na Baleia. (…)
Dizem alguns que a baleia não pode abrir a boca, mas isso é uma fábula. (…)
Sobem com frequência aos mastros para ver se avistam a baleia, pois o primeiro a descobrir recebe um ducado pelo esforço. (…)
Contaram-me de uma baleia aprisionada perto de Hitland, que tinha mais de uma barrica de arenques na barriga. (…)
Um de nossos arpoadores contou-me haver apanhado uma baleia em Spitzbergen que era toda branca.” UMA VIAGEM À GROENLÂNDIA, A.D. 1671, HARRIS COLL.

“Várias baleias vieram a esta costa (Fife). Em 1652, uma baleia medindo oitenta pés de comprimento, que (assim me informaram) além de uma grande quantidade de óleo, proporcionou 500 pesos de ossos. As mandíbulas servem de portão para o jardim de Pitfirren.” SIBBALD, FIFE AND KINROSS

“Concordei em tentar dominar e matar este Cachalote, pois jamais soube que algum dessa espécie tivesse sido morto por algum homem, tal a sua ferocidade e rapidez.” CARTA DAS BERMUDAS DE RICHARD STRAFFORD. PHIL. TRANS. A.D. 1668.

“As baleias no mar /
À voz de Deus obedecem.” N. E. PRIMER, Cartilha da Nova Inglaterra

“Vimos também uma abundância de baleias enormes, havendo em maior quantidade nestes Mares do Sul, se assim posso dizer, na proporção de cem para uma; do que as há ao norte de nós.” A VIAGEM AO REDOR DO MUNDO DO CAPITÂO COWLEY, A.D. 1729.

“e o hálito da baleia é frequentemente acompanhado de um cheiro tão insuportável que causa uma perturbação no cérebro.” ULLOA, A AMÉRICA DO SUL

“A cinquenta sílfides de destaque /
E de saias, o importante dever foi confiado. /
Soubemos ter o muro de sete dobras sucumbido ao ataque, /
Apesar de com aros forrado e em ossos da baleia armado.” [POPE,] A MECHA ROUBADA

“Se compararmos a magnitude dos animais da terra com os que vivem nas profundezas, veremos que parecerão desprezíveis na comparação. A baleia é sem dúvida o maior animal da criação.” GOLDSMITH, HISTÓRIA NATURAL

“Se escreveres uma fábula para os peixinhos, faz com que falem como grandes baleias.” GOLDSMITH A JOHNSON

“À tarde vimos o que parecia ser um rochedo, mas descobrimos ser uma baleia morta, que alguns asiáticos haviam matado e estavam rebocando para a praia. Eles pareciam se esforçar para se esconder atrás da baleia, para não serem vistos por nós.” COOK, VIAGENS

“As maiores baleias eles raramente ousam atacar. Eles têm tanto medo de algumas delas, que receiam dizer seus nomes e quando vão ao mar levam estrume, calcário, junípero e outras coisas do mesmo tipo em seus botes para assustá-las e impedir que se aproximem.” UNO VON TROIL, CARTAS SOBRE A VIAGEM DE BANKS E SOLANDER À ISLÂNDIA EM 1772

“O cachalote encontrado pelos nativos de Nantucket é um animal feroz e agitado, que exige uma enorme coragem e audácia dos pescadores.” MEMORIAL SOBRE A BALEIA, DE THOMAS JEFFERSON PARA O MINISTRO FRANCÉS EM 1778

“E pergunto-vos, senhor, que se lhe pode comparar nesse mundo?” EDMUND BURKE, REFERÊNCIA NO PARLAMENTO À PESCA DE BALEIAS EM NANTUCKET

“A Espanha: uma grande baleia ancorada nas praias da Europa.” EDMUND BURKE (EM ALGUMA PARTE)

“Um décimo dos rendimentos regulares do rei, que se dizem baseados no fato de ele guardar e proteger os mares dos piratas e ladrões, é o direito aos peixes reais, que são a baleia e o esturjão. Estes, quando atirados à praia ou apanhados perto da costa, são propriedade do rei.” BLACKSTONE

“Em breve para o jogo da morte se dirige a tripulação: /
Rodmond levanta sobre a cabeça com exatidão, /
Atento ao seu objetivo, o arpão de aço.” FALCONER, O NAUFRÁGIO

“Luziam o telhado, o pináculo e o campanário /
E no céu voava um foguete, /
Para suspender seu fogo efêmero /
Em toda a abóbada celeste. / /
Assim, comparando o fogo com a água, /
O oceano nas alturas /
Levantado pela baleia, /
Para expressar sua estranha alegria.” COWPER, SOBRE A VISITA DA RAINHA A LONDRES

“De quarenta a sessenta litros de sangue são lançados do coração de uma vez, com enorme velocidade.” RELATO DE JOHN HUNTER SOBRE A DISSECCAÇÃO DE UMA BALEIA (PEQUENA)

“A aorta da baleia é de diâmetro maior do que o cano principal do sistema hidráulico da Torre de Londres, e a água que passa por ali tem menos ímpeto e velocidade do que o sangue que jorra de seu coração.” PALEY, TEOLOGIA

“A baleia é um animal mamífero sem patas traseiras.” BARÃO CUVIER

“A 40 graus de latitude sul avistamos os cachalotes, mas não pegamos nenhum antes do primeiro de maio, quando o mar estava coberto deles.” COLNETT, VIAGEM COM O PROPÓSITO DE FOMENTAR A PESCA DOS CACHALOTES

“No livre elemento sob mim nadavam, /
Deslizavam e mergulhavam, brincando, caçando, brigando /
Peixes de todas as cores, formas e tipos; /
Que a língua não pode pintar e os marinheiros /
Nunca tinham visto; desde o terrível Leviatã /
Até os milhões de insetos que povoam as ondas: /
Reunidos em imensos cardumes, como ilhas flutuantes, /
Levados por misteriosos instintos através da erma /
E isolada região, embora de todos os lados /
Os atacassem inimigos vorazes, /
Baleias, tubarões e monstros armados na cabeça ou na boca, /
Com espadas, serrotes, chifres em espirais ou presas curvas.” MONTGOMERY, O MUNDO ANTES DO DILÚVIO

“Io! Peã! Io! Cantai. / Ao rei do povo písceo. /
Cachalote mais poderoso /
Não há em todo o vasto Atlântico; /
Nenhum peixe mais portentoso, /
Circula ao redor do mar Ártico.” CHARLES LAMB, O TRIUNFO DA BALEIA

“No ano de 1690, algumas pessoas estavam numa colina observando baleias a correr e a brincar, quando alguém, apontando para o mar, disse: ali é o pasto verde onde os netos de nossos filhos irão se alimentar.” OBED MACY, HISTÓRIA DE NANTUCKET

“Construí uma casa para Susan e para mim, e fiz um portão com a forma de um arco gótico, usando os ossos da mandíbula da baleia.” HAWTHORNE, CONTOS NARRADOS DUAS VEZES

“Ela veio encomendar um monumento para seu primeiro amor, morto por uma baleia, no oceano Pacífico, há não menos de quarenta anos.” Ibidem

“Não, senhor, é uma baleia franca, respondeu Tom. Eu a vi cuspir, lançou para o ar um lindo par de arco-íris, desses que qualquer cristão gostaria de ver. Uma verdadeira barrica de óleo era ela!” COOPER, O PILOTO

“Trouxeram os jornais e lemos na Berlin Gazette que as baleias tinham sido encenadas ali.” ECKERMANN, CONVERSAS COM GOETHE

“Meu Deus! Sr. Chace, o que está acontecendo?” Respondi, “acabamos de ser destroçados por uma baleia.” NARRATIVA DO NAUFRÁGIO DA BALEEIRA ESSEX DE NANTUCKET, QUE FOI ATACADA E POR FIM DESTRUÍDA POR UM ENORME CACHALOTE NO OCEANO PACÍFICO. POR OWEN CHACE DE NANTUCKET, PRIMEIRO PILOTO DO REFERIDO NAVIO. NOVA YORK, 1821

“Certa noite pôs-se na enxárcia um marinheiro, /
O vento soprava ameno; /
Ora claro, ora apagado, o luar estava pálido, /
E o fósforo brilhava na esteira da baleia, /
Enquanto ela se afastava oceano afora.” ELIZABETH OAKES SMITH

“A quantidade de corda retirada dos botes encarregados de capturar aquela única baleia era de 10.440 jardas ou quase seis milhas inglesas. (…) Às vezes a baleia agita sua enorme cauda no ar, que, semelhante a um açoite, ressoa a uma distância de três ou quatro milhas.” SCORESBY

“Enlouquecido pela agonia sofrida nos renovados ataques, o furioso cachalote fica rolando; levanta sua enorme cabeça e com a mandíbula escancarada abocanha tudo à sua volta; atira a cabeça contra os botes, que são empurrados para a frente com enorme rapidez e às vezes são totalmente destruídos.

(…) É motivo de grande espanto que as considerações sobre os hábitos de um animal tão interessante e tão importante do ponto de vista comercial (como o cachalote) tenham sido tão negligenciadas, ou que tenham exercido tão pouca curiosidade nos inúmeros e, muitos deles, competentes observadores, que nos últimos anos têm tido as mais abundantes e mais adequadas oportunidades de testemunhar os seus costumes.” THOMAS BEALE, HISTÓRIA DO CACHALOTE, 1839

“O Cachalot (cachalote) não só está mais bem armado do que a Baleia Franca (Baleia da Groenlândia ou verdadeira), por ter uma arma formidável em cada extremidade do corpo, como também demonstra freqüentemente a disposição de empregar tais armas de modo ofensivo, a um tempo tão astuto, arrojado e maldoso, que pode ser julgado o ataque mais perigoso de todas as espécies conhecidas de baleias.” FREDERICK DEBELL BENNETT, VIAGEM DE CAÇA ÀS BALEIAS AO REDOR DO MUNDO, 1840

13 de Outubro.
“Lá ela sopra”, gritaram do mastro.
“Onde?”, perguntou o capitão.
“A três pontos da proa, a sotavento, senhor.”
“Segura o leme. Firme!”
“Firme, senhor.”
“Gajeiro! Ainda avistas a baleia?”
“Sim, sim, senhor! Um baleal! Lá ela sopra! Lá ela irrompe!”
“Grite! Grite todas as vezes!”
“Sim, sim, senhor! Lá ela sopra! lá – lá – lá ela sopra – sopra – so-p-ra!”
“A que distância?”
“Duas milhas e meia.”
“Trovão e relâmpagos! Tão perto! Chama todos os marinheiros.” J. ROSS BROWNE, GRAVURAS DE UMA VIAGEM BALEEIRA, 1846

“A baleeira Globe, a bordo da qual se passaram os horríveis acontecimentos que vamos narrar, pertencia à ilha de Nantucket.” NARRATIVA DO GLOBE FEITA PELOS SOBREVIVENTES LAY E HUSSEY. A.D. 1828.

“Sendo uma vez perseguido por uma baleia que tinha ferido, ele evitou o ataque por algum tempo com uma lança; mas o monstro furioso afinal precipitou-se sobre o bote, e ele e os companheiros só escaparam porque se jogaram na água quando perceberam que o ataque era inevitável.” TYERMAN E BENNETT, DIÀRIO DAS MISSÕES.

“Nantucket”, disse o Sr. Webster, “é uma região muito surpreendente, especial e de interesse nacional. A população é de oito ou nove mil pessoas vivendo no mar, contribuindo anualmente, de forma significativa, para a riqueza nacional, por meio da indústria mais corajosa e perseverante de todas.” REGISTRO DO DISCURSO DE DANIEL WEBSTER NO SENADO DOS ESTADOS UNIDOS SOBRE A PETIÇÃO PARA QUE SE FIZESSE UM QUEBRA-MAR EM NANTUCKET. 1828.

“A baleia caiu em cima dele e provavelmente o matou no mesmo instante.” “A BALEIA E SEUS CAPTURADORES, OU AS AVENTURAS DOS BALEEIROS E A BIOGRAFIA DA BALEIA, NO CRUZEIRO DE VOLTA DO COMODORO PREBLE.” PELO REV. HENRY T. CHEEVER.

“Se fizeres qualquer barulho”, disse Samuel, “te mando para o inferno.” VIDA DE SAMUEL COMSTOCK (O REVOLTOSO), POR SEU IRMÃO, WILLIAM COMSTOCK. OUTRA VERSÃO DA NARRATIVA DA BALEEIRA GLOBE

“As viagens dos holandeses e ingleses no oceano Boreal com o objetivo de descobrir uma passagem para a Índia, embora fracassassem no seu intuito principal, iniciaram as perseguições às baleias.” MCCULLOCH, DICIONÁRIO COMERCIAL

“Essas coisas são recíprocas; a bola volta para ir de novo para a frente; ao iniciar as perseguições às baleias, os baleeiros parecem ter encontrado indiretamente novas oportunidades para a mesma passagem mística a noroeste.” DE “ALGO” INÉDITO

“É impossível encontrar uma baleia sem ficar impressionado com sua aparição tão próxima. Com as velas colhidas e os vigias no topo dos mastros, olhando, ansiosos, toda a extensão à sua volta, a embarcação tem uma aparência completamente diferente dos barcos em viagens comuns.” CORRENTES E PESCA DA BALEIA. EX. EX. DOS EUA

“Pedestres nos arredores de Londres ou em outros lugares talvez se lembrem de ter visto enormes ossos curvados enterrados na terra, em forma de arcos sobre os portões, ou sobre as entradas de alcovas, e talvez alguém lhes tivesse dito que eram costelas de baleias.” CONTOS DE UM VIAJANTE BALEEIRO NO OCEANO ÁRTICO

“Só quando os botes voltaram da caça às baleias foi que os brancos viram seu navio na posse sangrenta dos selvagens que embarcaram com a tripulação.” NOTÍCIA DE JORNAL SOBRE A TOMADA E A RETOMADA DA BALEEIRA HOBOMACK

“Sabe-se que das tripulações que compõem os navios baleeiros (norte-americanos) muito poucos voltam a bordo dos mesmos navios em que partiram.” CRUZEIRO EM UMA BALEEIRA

“De repente uma massa poderosa emergiu das águas e se lançou perpendicularmente no ar. Era uma baleia.” MIRIAM COFFIN OU O PESCADOR DE BALEIAS

“A Baleia é arpoada, certo; mas pense em como você lidaria com um poderoso potro indomável que estivesse com apenas uma simples corda amarrada na raiz de seu rabo.” UM CAPÍTULO SOBRE A PESCA DE BALEIAS EM RIBS AND TRUCKS

“Em certa ocasião vi dois desses monstros (baleias), provavelmente um macho e uma fêmea, nadando devagar, um após o outro, a menos de uma pedrada de distância da praia” (Terra do Fogo), “sobre a qual uma faia estendia suas ramagens.” DARWIN, VIAGEM DE UM NATURALISTA

“‘Todos à popa!’ exclamou o piloto, quando, ao virar a cabeça, viu as mandíbulas escancaradas de um enorme cachalote próximo à ponta do bote, ameaçando-o de imediata destruição: ‘Todos à popa, por suas vidas!’” WHARTON, O MATADOR DE BALEIAS

“Sempre alegres, rapazes, não percam a veia, /
Enquanto o bravo arpoador a baleia golpeia!” CANÇÃO DE NANTUCKET

“Oh, preciosa baleia, com vento ou temporal, /
Sempre no oceano seu lar /
Será um gigante de força descomunal, /
E a Soberana do infinito mar.” CANÇÃO DA BALEIA 



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Leia também:

Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações
Moby Dick: 1 Miragens


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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851,

O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.

O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.

A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura. 

E você com que se identifica?




Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (3.1) - ... puberdade antes de superar os hábitos infantis

Cem Anos de Solidão


Gabriel Garcia Márquez


(3.1)



para jomí garcía ascot 

e maría luisa elío





AURELIANO BUENDÍA E Remedios Moscote casaram-se num domingo de março, diante do altar que o Padre Nicanor Reyna fez construir na sala de visitas. Foi o clímax de quatro semanas de sobressaltos na casa dos Moscote, pois a pequena Remedios chegara à puberdade antes de superar os hábitos infantis. Apesar da mãe tê-la instruído sobre as mudanças da adolescência, numa tarde de fevereiro, irrompeu aos gritos de trine na sala onde as irmãs conversavam com Aureliano, e mostrou-lhes a calcinha manchada de uma pasta cor de chocolate. Marcou-se o prazo de um mês para o casamento. Mal houve tempo de ensiná-la a se lavar e se vestir sozinha, e a entender dos assuntos elementares de um lar. Fizeram-na urinar em tijolos quentes, para corrigir-lhe o hábito de molhar a cama. Deu trabalho convencê-la da inviolabilidade do segredo conjugal, porque Remedios estava tão aturdida e ao mesmo tempo tão maravilhada com a revelação que queria comentar com todo mundo os pormenores da noite de núpcias. Foi um esforço extenuante, mas na data prevista para a cerimônia a menina era tão experimentada nas coisas do mundo quanto qualquer das sua irmãs. O Sr. Apolinar Moscote levou-a de braço dado pela rua enfeitada de flores e guirlandas, entre o estampido dos foguetes e a música de várias bandas, e ela cumprimentava com a mão e agradecia com um sorriso aos que das janelas lhe desejavam boa sorte. Aureliano, vestido de fazenda negra, com as mesmas botinas de verniz com argolas metálicas que haveria de usar poucos anos depois diante do pelotão de fuzilamento, estava de uma palidez intensa e com um bolo duro na garganta, quando recebeu a noiva na porta da casa e a levou ao altar. Ela se comportou com tanta naturalidade, com tanta discrição, que não perdeu a compostura nem sequer quando Aureliano deixou cair a aliança ao tentar colocá-la no seu dedo. No meio do burburinho e princípio de confusão dos convidados, ela manteve levantado o braço com a mitene de renda e permaneceu com o anular estendido até que o seu noivo conseguiu parar a aliança com a botina, para que não continuasse rolando até a porta, e voltou ruborizado ao altar. A mãe e as irmãs sofreram tanto com o medo de que a menina incorresse em alguma falta durante a cerimônia que no final foram elas que cometeram a impertinência de pegá-la no colo para dar-lhe um beijo. Desde aquele dia revelou-se o senso de responsabilidade, a graça natural, o calmo domínio que sempre haveria de ter Remedios ante as circunstâncias adversas. Foi ela quem, por sua própria iniciativa, separou a melhor porção que cortou do bolo de noiva e a levou num prato com um garfo para José Arcadio Buendía. Amarrado ao tronco do castanheiro, encolhido num banquinho de madeira sob a coberta de sapé, o enorme ancião desbotado pelo sol e pela chuva teve um vago sorriso de gratidão e comeu o bolo com os dedos, mastigando um salmo ininteligível. A única pessoa infeliz naquela celebração estrepitosa, que se prolongou até o amanhecer de segunda-feira, foi Rebeca Buendía. Era a sua festa frustrada. Pelo arranjo de Úrsula, o seu casamento se devia celebrar na mesma data, mas Pietro Crespi recebera na sexta-feira uma carta com a notícia morte iminente de sua mãe. O casamento foi adiado. Pietro Crespi seguiu para a capital da província uma hora depois receber a carta, e no caminho cruzou com a mãe, que chegou pontualmente na noite de sábado e cantou no casamento de Aureliano a ária triste que tinha preparado para o casamento do filho. Pietro Crespi regressou à meia-noite do domingo para varrer as cinzas da festa, depois de ter arrebentado cinco cavalos no caminho, tentando chegar a tempo para o casamento. Nunca se averiguou quem escrevera a carta. Atormentada por Úrsula, Amaranta chorou de indignação e jurou inocência diante do altar que os carpinteiros não tinham anda acabado de desarmar.

O Padre Nicanor Reyna — que o Sr. Apolinar Moscote havia trazido do pantanal para que oficiasse o casamento — era um ancião endurecido pela ingratidão do ofício. Tinha a pele triste, quase colada aos ossos, e o ventre pronunciado e uma expressão de anjo velho que era mais de inocência que de bondade. Tinha o propósito de voltar à sua paróquia logo depois do casamento, mas se espantou com a aridez dos habitantes de Macondo, que prosperavam no escândalo, sujeitos à lei natural, sem batizar os filhos nem santificar os feriados. Pensando que em nenhuma terra fazia tanta falta a semente de Deus, decidiu ficar mais uma semana, para cristianizar circuncisos e gentios, legalizar concubinários e sacramentar moribundos. Mas ninguém lhe deu importância. Respondiam-lhe que durante muitos anos tinham ficado sem padre, arranjando os negócios da alma diretamente com Deus, e haviam perdido a malícia do pecado mortal. Cansado de pregar no deserto, o Padre Nicanor se dispôs e empreender a construção de um templo, o maior do mundo, com santos em tamanho natural e vidros de cores nas paredes, para que viesse gente até de Roma honrar a Deus no centro da impiedade. Andava por todas as partes pedindo esmolas com um pratinho de cobre. Davam-lhe muito, mas ele queria mais, porque o templo deveria ter um sino cujo clamor fizesse boiar os afogados. Suplicou tanto que perdeu a voz. Seus ossos começaram a se encher de ruídos. Num sábado, não tendo recolhido nem sequer o valor das portas, deixou-se confundir pelo desespero. Improvisou um altar na praça e, no domingo, percorreu o povoado com uma campainha, como nos tempos da insônia, convocando para a missa campal. Muitos foram por curiosidade. Outros por nostalgia. Outros para que Deus não fosse tomar como ofensa pessoal o desprezo pelo seu intermediário. De modo que às oito da manhã estava metade do povo na praça, onde o Padre Nicanor cantou os evangelhos com a voz quebrada pela súplica. No fim, quando os assistentes começaram a debandar, levantou os braços em sinal de atenção.

— Um momento — disse. — Agora vamos presenciar uma prova irrefutável do infinito poder de Deus.

O rapaz que tinha ajudado a missa levou-lhe unia xícara de chocolate espesso e fumegante que ele tomou sem respirar. Depois limpou os lábios com um lenço que tirou da manga, estendeu os braços e fechou os olhos. Então o Padre Nicanor se elevou doze centímetros do nível do chão. Foi um recurso convincente. Andou vários dias de casa em casa, repetindo a prova da levitação mediante o estímulo do chocolate, enquanto o coroinha recolhia tinto dinheiro numa urna que em menos de um mês se iniciou a construção do templo. Ninguém pôs em dúvida a origem divina da demonstração, salvo José Arcadio Buendía, que observou sem se comover o bando de gente que certa manhã se reuniu sob o castanheiro para assistir mais uma vez à revelação. Mal se endireitou um pouco no banquinho e sacudiu os ombros quando o Padre Nicanor começou a se levantar do chão junto com a cadeira em que estava sentado.

Hoc est simplicisstmum: — disse José Arcadio Buendía — homo iste statum quartum materiae invenit.

O Padre Nicanor levantou a mão, e as quatro pernas da cadeira pousaram em terra ao mesmo tempo.

— Nego — disse. — Factum hoc existentiam Dei pro bat sine dubio.

Foi assim que se soube que era latim a endiabrada gíria de José Arcadio Buendía. O Padre Nicanor aproveitou a circunstância de ter sido a única pessoa que pudera se comunicar com ele para tratar de infundir a fé no seu cérebro transtornado. Todas as tardes se sentava junto ao castanheiro, predicando em latim, mas José Arcadio Buendía se aferrou em não admitir meandros retóricos nem transmutações de chocolate e exigiu como única prova o daguerreótipo de Deus. Nicanor levou-lhe então medalhas e figurinhas e até uma reprodução da fazenda da Verônica, mas José Arcadio Buendía repeliu-os por serem objetos artesanais sem fundamento científico. Era tão teimoso que o Padre Nicanor renunciou aos seus propósitos de evangelização e continuou a visitá-lo apenas por sentimentos humanitários. Mas então foi José Buendía quem tomou a iniciativa e tentou quebrantar a fé do sacerdote com artimanhas racionalistas. Certa ocasião em que o Padre Nicanor levou ao castanheiro um tabuleiro e uma caixa de pedras para convidá-lo a jogar damas, Arcadio Buendía não aceitou, segundo disse, porque nunca pôde entender o sentido de uma contenda entre dois adversários que estavam de acordo nos princípios. O Padre Nicanor, que nunca tinha encarado desse modo o jogo de damas, não pôde voltar a jogar. Cada vez mais assombrado com a lucidez de José Arcadio Buendía, perguntou-lhe como era possível que o mantivessem amarrado numa árvore.

Hoc est simplicissimum: — respondeu ele — porque estou louco.

Desde então, preocupado com a sua própria fé, o padre não voltou a visitá-lo e se dedicou inteiramente a apressar a construção do templo. Rebeca sentiu renascer a esperança. O futuro estava condicionado ao término da obra, desde um domingo em que o Padre Nicanor almoçava com eles e toda família sentada na mesa falou da solenidade e do esplendor que teriam os atos religiosos quando se construísse o templo. “A mais afortunada será Rebeca”, disse Amaranta. E como Rebeca não entendeu o que ela estava querendo dizer, explicou-lhe com um sorriso inocente:

— Caberá a você inaugurar a igreja com o casamento.

Rebeca tratou de se antecipar a qualquer comentário. No passo em que ia a construção, o templo não estaria terminado antes de dez anos. O Padre Nicanor não concordou: a crescente generosidade dos fiéis permitia fazer cálculos mais otimistas. Diante da surda indignação de Rebeca, que não conseguiu acabar de almoçar, Úrsula celebrou a ideia de Amaranta e contribuiu com um acréscimo considerável para que se apressassem os trabalhos. O Padre Nicanor considerou que com outro auxílio como esse o templo estaria pronto em três anos. A partir daí Rebeca não voltou a dirigir a palavra a Amaranta, convencida de que o seu palpite não tinha tido a inocência que ela soubera aparentar. “Era o que eu podia fazer de menos grave”, replicou Amaranta na violenta discussão que tiveram aquela noite. “Assim não vou ter que te matar nestes próximos três anos.” Rebeca aceitou o desafio.

Quando Pietro Crespi soube do novo adiamento, sofreu uma crise de desilusão, mas Rebeca lhe deu uma prova definitiva de lealdade. “A gente foge quando você quiser”, disse. Pietro Crespi, entretanto, não era homem de aventuras. Carecia do temperamento impulsivo da sua noiva e considerava o respeito à palavra empenhada como um capital que não se podia desbaratar. Então Rebeca recorreu a métodos mais audazes. Um vento misterioso apagava as luzes da sala de visitas e Úrsula surpreendia os noivos se beijando no escuro. Pietro Crespi lhe dava explicações atrapalhadas sobre a má qualidade das modernas lâmpadas de alcatrão e até ajudava a instalar na sala sistemas de iluminação mais seguros. Mas outra vez falhava o combustível ou entupiam as mechas, e Úrsula encontrava Rebeca sentada nos joelhos do noivo. Acabou por não aceitar nenhuma explicação. Depositou na índia a responsabilidade da padaria e se sentou numa cadeira de balanço para vigiar a visita do noivo, disposta a não se deixar vencer por manobras que já eram velhas na sua juventude. “Coitada de mamãe”, dizia Rebeca com sarcástica indignação, vendo Úrsula bocejar de sono nas visitas. “Quando morrer vai sair penando nesta cadeira de balanço.” Ao fim de três meses de amores vigiados, amolado com a lentidão da obra que passara a inspecionar todos os dias, Pietro Crespi resolveu dar ao Padre Nicanor o dinheiro que faltava para terminar o templo. Amaranta não se impacientou. Enquanto conversava com as amigas que todas as tardes iam bordar ou tricotar na varanda tratava de conceber novas artimanhas. Um erro de cálculo botou a perder a que considerou mais eficaz: tirar as bolinhas de naftalina que Rebeca tinha colocado no seu vestido noiva antes de guardá-lo na cômoda do quarto. Fê-lo quando faltavam menos de dois meses para o término do templo. Mas Rebeca estava tão impaciente diante da proximidade do casamento que quis preparar o vestido com mais antecipação que havia previsto Amaranta. Ao abrir a cômoda e desembrulhar primeiro os papéis e depois o pano protetor, encontrou o cetim do vestido e a renda do véu e até a coroa de flor laranjeira pulverizados pelas traças. Embora estivesse certa de ter colocado no embrulho dois punhados de bolinhas de naftalina, o desastre parecia tão acidental que não se atreveu a culpar Amaranta. Faltava menos de um mês para o casamento, mas Amparo Moscote se comprometeu a costurar um novo vestido em uma semana. Amaranta sentiu-se desfalecer naquele meio-dia chuvoso em que Amparo entrou em casa envolta numa espumarada de renda, para que Rebeca fizesse a última prova do vestido. Perdeu a voz e um fio de suor gelado desceu pelo leito da sua espinha dorsal. Durante longos meses tinha tremido de pavor esperando aquela hora, porque se concebia o obstáculo definitivo para o casamento de Rebeca, estava certa de que no último instante, quando tivessem falhado todos os recursos da sua imaginação, teria coragem de envenená-la. Nessa tarde, enquanto Rebeca sufocava de calor dentro da couraça de cetim que Amparo Moscote ia formando no seu corpo com mil alfinetes e uma paciência infinita, Amaranta errou várias vezes os pontos do crochê e espetou o dedo na agulha, mas decidiu com terrível frieza que a data seria a última sexta-feira antes do casamento, e a maneira seria uma dose de ópio no café.

Um obstáculo maior, tão inevitável quanto imprevisto, obrigou-os a um novo e indefinido adiamento. Uma semana antes da data marcada para o casamento, a pequena Remédios acordou à meia-noite, ensopada por um caldo quente que explodira nas suas entranhas com uma espécie de arroto rasgante, e morreu três dias depois, envenenada pelo próprio sangue, com um par de gêmeos atravessados no ventre. Amaranta sofreu uma crise de consciência. Tinha suplicado a Deus com tanto fervor que algo de pavoroso acontecesse para não ter de envenenar Rebeca que se sentiu culpada pela morte de Remedios. Não era esse o obstáculo por que tinha suplicado tanto. Remedios tinha levado para a casa um sopro de alegria. Instalara-se com o marido perto da oficina numa alcova que decorou com as bonecas e brinquedos da sua infância recente, e a sua alegre vitalidade transbordava as quatro paredes da alcova e passava como uma ventania de boa saúde pelo corredor das begônias. Cantava desde o amanhecer. Foi ela a única pessoa que se atreveu a servir de mediadora nas discussões entre Rebeca e Amaranta. Tomou a seu cargo a dispendiosa tarefa de cuidar de José Arcadio Buendía. Levava-lhe os alimentos, assistia-o nas suas necessidades cotidianas, lavava-o com sabão e bucha, mantinha limpos de piolhos e lêndeas os cabelos e a barba, conservava em bom estado o telhadinho de sapé e o reforçava com lonas impermeáveis nos tempos de tempestades. Nos últimos meses tinha conseguido se comunicar com ele por frases em latim rudimentar. Quando nasceu o filho de Aureliano e Pilar Ternera e foi levado para a casa e batizado em cerimônia íntima com o nome de Aureliano José, Remedios decidiu que fosse considerado como seu filho mais velho. Seu instinto maternal surpreendeu Úrsula. Aureliano, por outro lado, encontrou nela a justificativa que lhe faltava para viver. Trabalhava todo o dia na oficina e Remedios lhe levava na metade da manhã uma caneca de café sem açúcar. Ambos visitavam todas as noites os Moscote. Aureliano jogava com o sogro intermináveis partidas de dominó, enquanto Remedios conversava com as irmãs ou tratava com a mãe de assuntos de gente grande. O vínculo com os Buendía consolidou no povoado a autoridade do Sr. Apolinar Moscote. Em freqüentes viagens à capital da província, conseguiu que o governo construísse uma escola para que a administrasse Arcadio, que tinha herdado o entusiasmo didático do avô. Por meio da persuasão, convenceu a maioria dos habitantes de que suas casas deviam ser pintadas de azul para a festa da independência nacional. A instâncias do Padre Nicanor, ordenou a mudança da taberna de Catarino a uma rua afastada e fechou vários lugares de escândalo que prosperavam no centro da povoação. Certa vez regressou com seis guardas armados de fuzis a quem encomendou a manutenção da ordem, sem que ninguém se lembrasse do compromisso original de não ter gente armada no povoado. Aureliano se comprazia com a eficácia do sogro. “Você vai ficar tão gordo quanto ele”, diziam os amigos. Mas o sedentarismo, que acentuou as suas maçãs do rosto e concentrou o fulgor dos seus olhos, não aumentou o seu peso nem alterou a parcimônia do seu temperamento, e pelo contrário endureceu nos seus lábios a linha reta da meditação solitária e da decisão implacável. Tão profundo era o carinho que ele e sua esposa tinham conseguido despertar na família de ambos que, quando Remedios anunciou que ia ter um filho, até Rebeca e Amaranta fizeram uma trégua para tricotar com lã azul, para o caso de vir um menino, e com lã rosa, para o caso de ser menina. Foi ela a última pessoa em quem Arcadio pensou, poucos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento. Úrsula ordenou um luto de portas e janelas fechadas, sem entrada nem saída para ninguém a não ser para assuntos indispensáveis; proibiu falar em voz alta durante um ano, e pôs o daguerreótipo de Remedios no lugar em que se velou o cadáver, com uma fita negra em diagonal e uma lâmpada de azeite acesa para sempre. As gerações futuras, que nunca deixaram apagar a lâmpada, haveriam de se desconcertar diante daquela menina de saia pregueada, botinhas brancas e laço de organdi na cabeça, que não conseguiam fazer coincidir com a imagem acadêmica de uma bisavó. Amaranta tomou conta de Aureliano José. Adotou-o como um filho que haveria de compartilhar da sua solidão e aliviá-la do ópio involuntário jogaram as suas súplicas desatinadas no café de Remedios. Pietro Crespi entrava na ponta dos pés ao anoitecer, com a fita negra no chapéu, e fazia uma visita silenciosa a uma Rebeca que parecia perder o sangue dentro do vestido negro com mangas até os punhos. Teria sido tão irreverente a simples ideia de pensar em nova data para o casamento que o noivado se converteu numa relação eterna, um amor de cansaço em que ninguém voltou a pensar, como se os apaixonados que em outros tempos estragavam as lâmpadas para se beijar tivessem sido abandonados ao arbítrio da morte. Perdido o rumo, completamente desmoralizada, Rebeca voltou a comer terra.



continua página 58...


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