terça-feira, 30 de março de 2021

Dom Casmurro: Um Substituto

 Machado de Assis


Dom Casmurro






Capítulo XCVI

Um Substituto




Expus a Capitu a ideia de José Dias. Ouviu-me atentamente, e acabou triste.

– Você indo, disse ela, esquece-me inteiramente.

– Nunca!

– Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e a Itália principalmente. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá outro meio? D. Glória está morta para que você saia do seminário.

– Sim, mas julga-se presa pela promessa.

Capitu não achava outra ideia, nem acabava de adotar esta. De caminho, pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.

– Juro.

– Por Deus?

– Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.

– Mas se o Papa não tiver ainda soltado a você?

– Mando dizer isso mesmo.

– E se você mentir?

Esta palavra doeu-me muito, e não achei logo que lhe replicasse. Capitu meteu o negócio à bulha, rindo e chamando-me disfarçado. Depois, declarou crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda assim não consentiu logo; ia ver se não haveria outra coisa, e eu que visse também por meu lado.

Quando voltei ao seminário, contei tudo ao meu amigo Escobar, que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos, de costume fugidios, quase me comeram de contemplação. De repente, vi-lhe no rosto um clarão; um reflexo de ideia. E ouvi-lhe dizer com volubilidade:

– Não, Bentinho, não é preciso isso. Há melhor, – não digo melhor, porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo, – mas há coisa que produz o mesmo efeito.

– Que é?

– Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você...

– Entendo, entendo, é isto mesmo.

– Não acha? continuou ele. Consulte sobre isto o protonotário; ele lhe dirá se não é a mesma coisa, ou eu mesmo consulto, se quer; e se ele hesitar, fala-se ao senhor bispo.

Eu, refletindo:

– Sim, parece que é isso; realmente, a promessa cumpre-se, não se perdendo o padre.

Escobar observou que, pelo lado econômico, a questão era fácil; minha mãe gastaria o mesmo que comigo, e um órfão não precisaria grandes comodidades. Citou a soma dos aluguéis das casas, 1:070$000, além dos escravos...

– Não há outra coisa, disse eu.

– E saímos juntos.

– Você também?

– Também eu. Vou melhorar o meu latim e saio; nem dou teologia. O próprio latim não é preciso; para que, no comércio?

In hoc signo vinces, disse eu rindo.

Sentia-me pilhérico. Oh! como a esperança alegra tudo. Escobar sorriu, parecendo gostar da resposta. Depois ficamos a cuidar de nós mesmos, cada um com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os dele estavam assim, quando tornei de longe, e agradeci de novo o plano lembrado; não podia havê-lo melhor. Escobar ouviu-me contentíssimo.

– Ainda uma vez, disse ele gravemente, a religião e a liberdade fazem boa companhia.


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Texto de referência:

Obras Completas de Machado de Assis, vol. I,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.

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Leia também:

Capítulo XCIII / Um Amigo por um Defunto
Capítulo XCVI / Um Substituto
Capítulo XCVII / A Saída

Memórias Póstumas de Brás Cubas: A causa secreta

 Machado de Assis






CAPÍTULO XCIV / A causa secreta




Como está a minha querida mamãe?

— A esta palavra, Virgília amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma janela, sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei no nosso filho, amuou-se. Não gostava de semelhante alusão, aborreciam-lhe as minhas antecipadas carícias paternais. E eu, para quem ela era já uma pessoa sagrada, uma âmbula divina, deixava-a estar quieta. Supus a princípio que o embrião, esse perfil do incógnito, projetando-se na nossa aventura, lhe restituirá a consciência do mal. Enganava-me. Nunca Virgília me parecera mais expansiva, mais sem reservas, menos preocupada dos outros e do marido. Não eram remorsos. Imaginei também que a concepção seria um puro invento, um modo de prender-me a ela, recurso sem longa eficácia, que talvez começava de oprimi-la. Não era absurda esta hipótese; a minha doce Virgília mentia às vezes com tanta graça!

Naquela noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, dava-lhe já imaginariamente os calafrios do patíbulo. Quanto ao vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos hábitos da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lho a entender, repreendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pai. Virgília fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito incrédulo.



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Leia também:


Capítulo LXII / O travesseiro
Capítulo LXIII / Fujamos!
Capítulo: LXIV / A transação
Capítulo LXV / Olheiros e Escutas
Capítulo LXVI / As pernas
Capítulo LXVII / A casinha
Capítulo LXVIII / O vergalho
Capítulo LXIX / Um grão de sandice
Capítulo LXX / Dona Plácida
Capítulo LXXI / O senão do livro
Capítulo LXXII / O bibliômano
Capítulo LXXIII / O luncheon
Capítulo LXXIV / História de Dona Plácida
Capítulo LXXV / Comigo
Capítulo LXXVI / O estrume
Capítulo LXXVII / Entrevista
Capítulo LXXVIII / A presidência 
Capítulo LXXIX / Compromisso
Capítulo LXXX / De secretário
Capítulo LXXXI / A reconciliação
Capítulo LXXXII / Questão de botânica
Capítulo LXXXIII / 13
Capítulo LXXXIV / O conflito
Capítulo LXXXV / O cimo da montanha
Capítulo LXXXVI / O mistério
Capítulo LXXXVII / Geologia
Capítulo LXXXVIII / O enfermo
Capítulo LXXXIX / In extremis
Capítulo XC / O velho colóquio de Adão e Caim
Capítulo XCI / Uma carta extraordinária
Capítulo XCII / Um homem extraordinário
Capítulo XCIV / A causa secreta


Pedagogia do Oprimido - 4. A teoria da ação antidialógica (d)

 Paulo Freire 




“educação como prática da liberdade”: 
alfabetizar é conscientizar 







AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO 
E AOS QUE NELES SE 
DESCOBREM E, ASSIM 
DESCOBRINDO-SE, COM ELES 
SOFREM, MAS, SOBRETUDO, 
COM ELES LUTAM. 



4. A teoria da ação antidialógica



A TEORIA DA AÇÃO ANTIDIALÓGICA E SUAS
CARACTERÍSTICAS: A CONQUISTA, DIVIDIR
PARA MANTER A OPRESSÃO, A
MANIPULAÇÃO E A INVASÃO CULTURAL


Destas considerações gerais, partamos, agora, para uma análise mais detida a propósito das teorias da ação antidialógica e dialógica.

A primeira, opressora; a segunda, revolucionário-libertadora.


CONQUISTA



O primeiro caráter que nos parece poder ser surpreendido na ação antidialógica é a necessidade da conquista.

O antidialógico, dominador, nas suas relações com o seu contrário, o que pretende é conquistá-lo, cada vez mais, através de mil formas. Das mais duras às mais sutis. Das mais repressivas as mais adocicadas, como o paternalismo.

Todo ato de conquista implica num sujeito que conquista e num objeto conquistado. O sujeito da conquista determina suas finalidades ao objeto conquistado, que passa, por isto mesmo, a ser algo possuído pelo conquistador. Este, por sua vez, imprime sua forma ao conquistado que, introjetando-o, se faz um ser ambíguo. Um ser, como dissemos já, “hospedeiro” do outro.

Desde logo, a aço conquistadora, ao “reificar” os homens, é necrófila.

Assim como a ação antidialógica, de que o ato de conquistar é essencial, é um simultâneo da situação real, concreta, de opressão, a ação dialógica é indispensável à, superação revolucionária da situação concreta de opressão. Não se é antidialógico ou dialógico no “ar”, mas no mundo.

Não se é antidialógico primeiro e opressor depois, mas simultaneamente. O antidiálogo se impõe ao opressor, na situação objetiva de opressão, para, pela conquista, oprimir mais, não só economicamente, mas culturalmente, roubando ao oprimido conquistado sua palavra também, sua expressividade, sua cultura.

Instaurada a situação opressora, antidialógica em si, o antidiálogo se torna indispensável para mantê-la.

A conquista crescente do oprimido pelo opressor aparece, pois, como um traço marcante da ação antidialógica. Por isto é que, sendo a aço libertadora dialógica em si, não pode ser o diálogo um a posteriori seu, mas um concomitante dela. Mas, como os homens estarão sempre libertando-se, o diálogo [1] se torna um permanente da ação libertadora.


[1] Isto não significa, da maneira alguma, segundo salientamos no capítulo anterior, que, instaurado o poder popular revolucionário, a revolução contradiga o seu caráter dialógico, pelo fato de o não ter o dever ético, inclusive, de reprimir toda tentativa de restauração do antigo poder opressor.

O desejo de conquista, talvez mais que o desejo, a necessidade da conquista, acompanha a ação antidialógica em todos os seus momentos.

Através dela e para todos os fins implícitos na opressão, os opressores se esforçam por matar nos homens a sua condição de “ad-miradores” do mundo. Como não podem consegui-la, em termos totais, é preciso, então, mitificar o mundo.

Daí que os opressores desenvolvam uma série de recursos através dos quais propõem à “ad-miração” das massas conquistadas e oprimidas um falso mundo. Um mundo de engodos que, alienando-as mais ainda, as mantenha passivas em face dele. Daí que, na ação da conquista, não seja possível apresentar o mundo como problema, mas, pelo contrário, como algo dado, como algo estático, a que os homens se devem ajustar.

A falsa “ad-miração” não pode conduzir à verdadeira práxis , pois que é a pura espectação das massas, que, pela conquista, os opressores buscam obter por todos os meios. Massas conquistadas, massas espectadoras, passivas, gregarizadas. Por tudo isto, massas alienadas.

É preciso, contudo, chegar até elas para, pela conquista, mantê-las alienadas. Este chegar até elas, na ação da conquista, não pode transformar-se num ficar com elas. Esta “aproximação”, que não pode ser feita pela comunicação, se faz pelos “comunicados”, pelos “depósitos” dos mitos indispensáveis à manutenção do status quo.

O mito, por exemplo, de que a ordem opressora é uma ordem de liberdade. De que todos são livres para trabalhar onde queiram. Se não lhes agrada o patrão, podem então deixá-lo e procurar outro emprego. O mito de que esta “ordem” respeita os direitos da pessoa humana e que, portanto, é digna de todo apreço. O mito de que todos, bastando não ser preguiçosos, podem chegar a ser empresários – mais ainda, o mito de que o homem que vende, pelas ruas, gritando : “doce de banana e goiaba” é um empresário tal qual o dono de uma grande fábrica. O mito do direito de todos à educação, quando o número de brasileiros que chegam às escolas primárias do país e o do que nelas conseguem permanecer é chocantemente irrisório. O mito da igualdade de classe, quando o “sabe com quem está falando?” é ainda uma pergunta dos nossos dias. O mito do heroísmo das classes opressoras, como mantenedoras da ordem que encarna a “civilização ocidental e cristã, Que elas defendem da “barbárie materialista”. O mito de sua caridade, de sua generosidade, quando o que fazem, enquanto classe, é assistencialismo, que se desdobra no mito da falsa ajuda que, no plano das nações, mereceu segura advertência de João XXIII [2]. O mito de que as elites dominadoras, “no reconhecimento de seus deveres”, são as promotoras do povo, devendo este, num gesto de gratidão, aceitar a sua palavra e conformar- se com ela. O mito de que a rebelião do povo é um pecado contra Deus. O mito da propriedade privada, como fundamento do desenvolvimento da pessoa humana, desde, porém, que pessoas humanas sejam apenas os opressores. O mito da operosidade dos opressores e o da preguiça e desonestidade dos oprimidos. O mito da inferioridade “ontológica” destes e o da superioridade daqueles [3].


[2] Mater et Magistra.
[3] “By his acusation, (diz Memmi, referindo-se ao perfil que o colonizador faz do colonizado), the colonizer establishes the colonized as being lazy. He decides that lazinesse is constitutional in the very nature of the colonized.” Ob. cit., p. 81.

Todos estes mitos e mais outros que o leitor poderá acrescentar, cuja introjeção pelas massas populares oprimidas é básica para a sua conquista, são levados a elas pela propaganda bem organizada, pelos slogans, cujos veículos são sempre os chamados “meios de comunicação com as massas” [4]. Como se o depósito deste conteúdo alienante nelas fosse realmente comunicação.

[4] Não criticamos os meios em si mesmos, mas o uso que se lhes dá.

Em verdade, finalmente, não há realidade opressora que não seja necessariamente antidialógica, como não há antidialogicidade em que o polo dos opressores não se empenhe, incansavelmente, na permanente conquista dos oprimidos.

Já as elites dominadoras da velha Roma falavam na necessidade de dar “pão e circo” às massas para conquistá-las, amaciando-as, com a intenção de assegurar a sua paz. As elites dominadoras de hoje, como as de todos os tempos, continuam precisando da conquista, como uma espécie de “pecado original”, com “pão e circo” ou sem eles. Os conteúdos e os métodos da conquista variam historicamente, o que não varia, enquanto houver elite dominadora, é esta ânsia necrófila de oprimir.
 


continua página 079...



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PAULO FREIRE

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

23ª Reimpressão

PAZ E TERRA


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Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (1)
Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (2)
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Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (4)
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Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (6)
Pedagogia do Oprimido - Primeiras Palavras
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Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (b)
Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (c)
Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (d)
Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (e)

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© Paulo Freire, 1970
Capa
Isabel Carballo
Revisão
Maria Luiza Simões e Jonas Pereira dos Santos
(Preparação pelo Centro de Catalogação -na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)


Freire, Paulo
F934p Pedagogia do oprimido, 17ª. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987
(O mundo, hoje, v.21)


1. Alfabetizaço – Métodos 2. Alfabetizaço – Teoria I. Título II. Série
CDD-374.012
-371.332
77-0064 CDD-371.3:376.76

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Conselho Editorial
Antonio Candido
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(licenciado)
1994

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Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; e Pedagogia do Oprimido



"Quem atua sobre os homens para, doutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os dominadores." 




domingo, 28 de março de 2021

mulheres descalças: usdois contra cadum

 mulheres descalças



usdois contra cadum
Ensaio 127Bzu – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

as ferida da crueza endurece as vontade do curação qui num tá agradado nele mesmo, vira uso conformado o fingimento disê feliz, disfarçá só faz desparecê com desembaraço as vontade ditá junto com afeição e estima

usóio fica mais fora qui dentro, as mão fica mais guardada qui perto – inté quius dois tá em tudo quié lugá, menos onde devia tá junto, falta vontade, carece gosto tá perto um dotro –, usdois contra cadum e cadum é embaraço dusdois, as agrura da vida sem vontade ditá junto

o casco da bengala bate no chão, parece querê avisá quia cicatriz do tombo ainda num sarô, vai tê demora pra sê apagada, Vosmecê aqui... como uma qualquer da Villa, fofocando a desgraça alheia?

as palavra dusiô augusto num é estranheza pra dona rosinha – ele num tem nenhum afligimento com a desgraça dusotro, muntu menó é o interesse pelo negrinho –, ela sabe quiele separa com gosto as palavra ruim e injusta qui solta, udois sofre do curação preso no fingimento, Continuo escrava... a escrava enfeitada que tem um negra escrava. Durmo sozinha – e bendigo isso – em linho adamascado que podia estar estendido à mesa com talheres em prata banhados e louça azul com pombinhos. Temos frango com linguiça, farofa, paca assada, arroz de forno, tutú de feijão, vinho português, sangria, limonada, laranjada. E sempre uma doçura depois da almoçarada. Vassouras de alecrim, panos de linho branco e sabão para as limpezas da antônia. Uma casa limpinha e bem arrumada.

cadum qui vive precisa lembrá qui vivê é uma fortuna e num devia sê usada pra depreciá nem dominá otras vida, nem pra esbravejá quia sua vida é meió e mais valiosa quias otras vida, tudo dito sem vergonha e alegria, a falta de tristeza pra dô dusotro mostra qui uma vida infame afoga os pensamento em rios de bosta, Faz tempo que venho lhe treinando para enxergar como são as mulheres casadas, lembra? A casa e a esposa é o lugar do sossego do homem, as águas tranquilas da Villa. Mulher casada não olha para outro homem, nem sai sem estar acompanhada. Espera em casa o touro cobrir a vaca, dona rosinha precisô força das vontade pra continuá presa nas gritaria da praça, continuá vencida e conformada na janela, Não esqueça, dona Rosinha: Deus não é mulher, ele mija em pé! Uma boa esposa precisa ser paciente, forte, trabalhadora, zelar pelos filhos, agradar o marido, saber lidar com a escrava, casar virgem – lembra? também elogiei a virgindade da menina Rosinha, vosmecê respirou assustada, e lhe avisei que não precisava ficar preocupada –, autocontrole nas mulheres é tudo. É preciso lutar contra a vontade ruim de fazer o que não deve. Uma esposa decente tem cuidado com as pernas, os olhares que faz e as coisas que pensa. Uma mulher puríssima nos pensamentos é uma joia calada e caseira, sem inveja, rancor e amargura ressentida. Assim, nunca vai ter do que se arrepender. É melhor fingir que falar bobagens!

dona rosinha continuava grudada na praça, num queria achá defeito nela mesma, já tinha virtude demais prusóio dusiô augusto, e cada virtude nusóio dele era um desmerecimento nusóio dela, sabia quia continuá na vida qui tinha, num iatê otra, A Mãezinha está escutando? Os detalhes são muito importantes, mesmo depois de tantos anos e avisos...

O quê, Paizinho... Ah, sim... sim...


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é bão lê, tumbém... sequisé:


histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
histórias de avoinha: Bagaço hipócrita!
histórias de avoinha: a vaga de marido
histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples
mulheres descalças: na solidão sozinha
mulheres descalças: usdois contra cadum
mulheres descalças: fofocando comigo mesma

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quinto - A Descida — III

 Victor Hugo - Os Miseráveis



Primeira Parte - Fantine

Livro Quinto — A Descida



III — Somas depositadas na casa Laffite


Era ainda, porém, o mesmo homem bondoso e simples de outro tempo. Tinha os cabelos grisalhos, o olhar grave, a tez morena de um operário e o rosto pensativo de um filósofo. Trazia habitualmente um chapéu de abas largas e uma comprida sobrecasaca de pano grosso, abotoada até ao pescoço. Exercia as suas funções de maire, mas fora disso vivia isolado, convivendo com pouca gente, furtando-se a cumprimentos e troca de finezas, saudando de passagem, esquivando-se rápido, sorrindo para se dispensar de conversar e dava para se dispensar de sorrir. As mulheres quando falavam a seu respeito, exclamavam: «Que grande urso!»

Um dos seus maiores prazeres era passear sozinho pelos campos. Comia sempre só, tendo diante de si um livro aberto em que ao mesmo tempo ia lendo. Tinha a paixão dos livros e possuía uma pequena biblioteca muito bem guarnecida. Os livros são amigos imparciais e fiéis. A medida que a fortuna lhe ia dando mais descanso parecia que o aproveitava para cultivar o espírito. Notava-se que desde que residia em Montreuil-surmer, a sua linguagem se tornava de ano para ano mais polida e agradável.

Nos seus frequentes passeios, levava às vezes uma espingarda, de que raro se servia, mas quando isso por acaso sucedia, atirava com uma infantilidade de assustar. Nunca matava um animal inofensivo, nunca atirava a um passarinho.

Conquanto já não fosse novo, dizia-se ser dotado de prodigiosa força. Dava sempre a ajuda do seu braço a quem dele precisava; levantava um cavalo, impelia uma roda atolada e segurava pelas pontas um touro fugido. Quando saía de casa levava sempre os bolsos cheios de dinheiro, mas ao recolher vinha com eles vazios. Se passava por alguma aldeia, as crianças esfarrapadas corriam alegremente atrás dele e rodeavam-no como uma nuvem de mosquitos.

Acreditava-se que aquele homem tinha outrora vivido a vida dos campos, porque conhecia toda a qualidade de segredos úteis, com que instruir os camponeses. Explicava-lhes o modo de destruir o morrão dos trigos, regando o celeiro e inundando as fendas do soalho com uma dissolução de Sal comum; a preservá-los do gorgulho, suspendendo por toda a parte, nas paredes e nos tetos, nas pastagens e nas casas, a planta que o afugenta. Sabia «receitas» para extirpar de um campo o joio, a alforra, a ervilhaca, todas as ervas parasitas nocivas ao trigo. Defendia uma coelheira dos ratos, simplesmente com o cheiro de um pequeno porco da Barbaria, que nela introduzia.

Um dia, estando a observar uns aldeões muito atarefados a arrancar urtigas, olhou para o montão de plantas arrancadas e já secas, dizendo: «Agora já estão inutilizadas.» Não obstante seriam aproveitáveis se soubessem servir-se delas. Quando a urtiga é nova, a sua folha é um legume excelente; depois de velha, tem filamentos e fibras, como o linho e o cânhamo. O tecido de urtiga é tão bom como o fabricado de linho. Cortada, é excelente para a criação; pisada, é boa para os animais cornígeros. A semente da urtiga misturada na comida do gado faz-lhe o pelo luzidio, e a raiz misturada com sal produz uma bela cor amarela, além de ser ainda um excelente pasto, que se pode segar duas vezes. E o que exige a urtiga? Um pedaço de terra, nenhum cuidado, nenhuma cultura. Só o que custa é colher a semente, porque vai caindo, consoante vai amadurecendo; e eis tudo. com mais algum trabalho, a urtiga tornar-se-ia útil; desprezam-na, por isso se torna nociva e então destroem-na. Quantos homens há que se assemelham às urtigas! E depois de uma pausa, acrescentou: Meus amigos, tomai bem sentido nisto: não há ervas más, nem maus homens, o que há são maus cultivadores.

As crianças também o amavam, porque ele fazia-lhes bonitas coisas de palha e casca de coco.

Quando via a porta duma igreja armada de preto, entrava; este homem procurava um enterro, como outros procuram um batizado. Atraía-o o espetáculo da viuvez e da desventura alheia, por efeito da grande doçura do seu carácter; misturava-se com os amigos em luto, com as famílias vestidas de preto, com os sacerdotes, gemendo em volta de um féretro. Parecia dar voluntariamente por texto aos seus pensamentos os salmos fúnebres, em que transparecia a visão de um outro mundo.

Escutava com os olhos voltados para o céu e uma espécie de aspiração para todos os mistérios do infinito, aquelas vozes tristes que cantam à beira do escuro abismo da morte.

Praticava uma infinidade de boas ações, ocultando-se delas, como outros se ocultam para praticar as más. De noite, introduzia-se furtivamente nalgumas casas, subindo cautelosamente as escadas, como um ratoneiro noturno que procura, a coberto da noite, lançar a mão criminosa.

De modo que, um pobre homem, ao recolher-se para o seu miserável tugúrio, encontrava às vezes a porta aberta, ou até com indícios de lha terem forçado, durante a sua ausência e exclamava: «Andaram aqui os ladrões!» Porém, ao entrar, a primeira coisa que via era uma moeda de oiro em cima de algum móvel. O «malfeitor» que andara por ali, era o senhor Madelaine.

Era um homem afável e triste, o que fazia o povo dizer: «Ali está um rico que não tem ar de soberba, como muitos. É um homem feliz, com cara de quem não vive satisfeito.» Pretendiam alguns que era um personagem misterioso e afirmavam não entrar ninguém no seu quarto, o qual era uma verdadeira cela de anacoreta, mobilada de ampulhetas com asas e adornada com caveiras e tíbias dispostas em cruz. Dizia-se isto com tanta certeza, que algumas jovens e elegantes senhoras de Montreuil-sur-mer, foram um dia a sua casa e disseram-lhe:

— Senhor maire, deixe-nos ver o seu quarto, todos dizem que parece uma gruta.

O maire sorriu e conduziu-as imediatamente à sua «gruta». Foram punidas pela sua curiosidade, porque viram simplesmente um quarto guarnecido de móveis, de acaju, feios como todos os móveis deste gênero e com as paredes forradas de papel de doze soldos. O que ali viram de mais notável foram dois castiçais de feitio muito antigo, dispostos sobre a pedra do fogão e que pareciam ser de prata, porque tinham a marca de contraste. Mas isto não obstou, todavia, a que se continuasse a dizer que no quarto dele não entrava ninguém, porque era uma caverna de eremita, uma toca, um túmulo.

Segredava-se também que tinha somas «enormes» depositadas na casa Laffite, com a particularidade de que estava sempre à sua imediata disposição; de tal modo, acrescentavam, que o senhor Madelaine podia chegar num dia a casa daquele banqueiro, assinar um recibo e trazer consigo dois ou três milhões. A verdade era que aqueles dois ou três milhões, como já dissemos, reduzia-se a seiscentos e trinta ou a seiscentos e quarenta mil francos.



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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.


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Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VI — Capítulo consagrado ao amor
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VII — Prudência de Tholomyés
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VIII — Morte dum cavalo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, IX — Alegre fim de festa
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Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quarto - Confiar é por vezes abandonar  — II
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Victor Hugo

OS MISERÁVEIS

Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira (1851-1888)


Los Poetas del Amor... Julio Herrera y Reissig (Uruguay)

Los Poetas del Amor (78)



Os rebanhos gemeram. Os caminhos
Eles foram preenchidos com procissões sombrias;
um desgosto de velhas ofertas queimadas
afogou os silêncios camponeses.

memórias de felicidade nas quais estou abrigado,
Eu encontrei um caminho matinal de estrelas,
em tua saia ilusão rosa claro.

silenciou nossas almas até o fundo ...
e como um cálice profundo e angustiado
minha boca pegou a última gota.

Eu nunca vivi como naquela morte,
Nunca te amei assim como naquele minuto!





El camino de las lágrimas

Citándonos, después de oscura ausencia,
tu alma se derretía en largo lloro,
a causa de quién sabe qué tesoro
perdido para siempre en tu existencia.

Junto a los surtidores, la presencia
semidormida de la tarde de oro,
decíate lo mucho que te adoro
y cómo era de sorda mi dolencia.

Pesando nuestra angustia y tu reproche,
toda mi alma se pobló de noche...
Y al estrecharte murmurando aquellas

remembranzas de dicha a que me amparo,
hallé un sendero matinal de estrellas,
en tu falda ilusión de rosa claro.





La gota amarga

Soñaban con la Escocia de tus ojos
verdes, los grandes lagos amarillos;
y engarzó un nimbo de esplendores rojos
la sangre de la tarde en tus anillos.

En la bíblica paz de los rastrojos
gorjearon los ingenuos caramillos,
un cántico de arpegios tan sencillos
que hablaban de romeros y de hinojos.

¡Y dimos en sufrir! Ante aquel canto
crepuscular, escintiló tu llanto...
Viendo nacer una ilusión remota,

callaron nuestras almas hasta el fondo...
y como un cáliz angustioso y hondo
mi boca recogió la última gota.





La sombra dolorosa

Gemían los rebaños. Los caminos
llenábanse de lúgubres cortejos;
una congoja de holocaustos viejos
ahogaba los silencios campesinos.

Bajo el misterio de los velos finos,
evocabas los símbolos perplejos,
hierática, perdiéndote a lo lejos
con tus húmedos ojos mortecinos.

Mientras unidos por un mal hermano,
me hablaban con suprema confidencia
los mudos apretones de tu mano,

manchó la soñadora transparencia
de la tarde infinita el tren lejano,
aullando de dolor hacia la ausencia.









Amor sádico

Ya no te amaba, sin dejar por eso
de amar la sombra de tu amor distante.
Ya no te amaba, y sin embargo el beso
de la repulsa nos unió un instante...

Agrio placer y bárbaro embeleso
crispó mi faz, me demudó el semblante.
Ya no te amaba, y me turbé, no obstante,
como una virgen en un bosque espeso.

Y ya perdida para siempre, al verte
anochecer en el eterno luto,
-mudo el amor, el corazón inerte-,

huraño, atroz, inexorable, hirsuto...
¡Jamás viví como en aquella muerte,
nunca te amé como en aquel minuto!


________________


Julio Herrera y Reissig, nasceu em Montevidéu em 9 de janeiro de 1875, faleceu na mesma capital em 18 de março de 1909. Filho do Dr. Manuel Herrera y Obes e sobrinho do ministro, e posteriormente Presidente da República Dr. Julio Herrera y Obes, foi Membro de família patrícia uruguaia, com confortável situação econômica e importantes vínculos no âmbito social e cultural.
O único fator determinante material para Julio Herrera e Reissig era sua saúde precária. Em 1892, aos dezessete anos, teve que abandonar os estudos formais por causa de uma cardiopatia congênita, agravada pela contração de febre tifoide. Esta circunstância também impede qualquer tipo de viagem, exceto uma breve estada em Buenos Aires e breves visitas a cidades do interior uruguaio.
Torna-se um ávido leitor, e a partir de 1900, conduz reuniões literárias em sua mansão particular em Montevidéu, conhecida como A Torre dos Panoramas por causa das vistas importantes de lá ao Rio da Prata
Começa aí a evolução do romantismo para a vanguarda modernista e surrealista que o tornaria postumamente referência obrigatória da poesia latino-americana da época, ao lado de Leopoldo Lugones, Ricardo Jaimes Freyre e Salvador Diaz Mirón.
Morreu em Montevidéu com a idade de 35 anos, enquanto a publicação de suas obras e o conseqüente reconhecimento literário ocorreria anos depois. O escritor e crítico literário uruguaio Ángel Rama (1926-1983) expressou o seguinte: “Em pouco menos de dez anos e ainda se movendo no mais ruidoso e superficial bazar art nouveau, ele criou uma letra de sutil sensibilidade moderna, de impecável linguística precisão. "
Herrera y Reissig escreveu ficção, ensaios políticos e muitas outras obras, mas é fundamentalmente conhecido e reconhecido pela sua produção poética.

La Torre de los Panoramas


quarta-feira, 24 de março de 2021

Dostoiévski - O Idiota: Primeira Parte (5b.) Um jumento? Isso é originalíssimo!

 O Idiota



Fiódor Dostoiévski


Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira


Primeira Parte


5b.



- Um jumento? Isso é originalíssimo! - observou a generala. Aliás, pensando bem, não há nada de estrambótico nisso! Qualquer de nós pode sem mais aquela ficar gostando de um jumento! - anuiu ela lançando um olhar impaciente às filhas, que se tinham posto a rir. - Já aconteceu na mitologia. Adiante, príncipe.

- Fiquei, desde então, gostando terrivelmente de jumentos. Eles têm uma atração toda especial por mim. Comecei a me informar bem, a respeito deles, pois antes nunca tinha visto nenhum e imediatamente compreendi que criatura útil ele é; industrioso, forte, paciente, barato, resignado... Foi, pois, através desse jumento, que a Suiça começou a me fascinar, a ponto da minha melancolia passar completamente.

- Isto tudo é formidável, mas passemos além do jumento. Passemos a outra coisa. Por que é que você continua rindo, Agláia? E você, Adelaída? O que o príncipe nos contou sobre o jumentinho foi deveras magnífico. Ele viu, ao passo que vocês não viram nunca nenhum. Vocês ainda não estiveram no estrangeiro!

- Eu já vi um Jumento, mamãe - asseverou Adelaída. E eu também já ouvi um - garantiu Agláia.

E as três moças riram-se, outra vez. O príncipe riu com elas.

- Isso não fica bem para vocês - ralhou a mãe. - Deve desculpá-las, príncipe; são sempre assim, alegres. Por mais que eu zangue gosto muito delas. São teimosas, são umas cabeças tontas. Por quê? - e Míchkin ria. - Eu faria o mesmo, no lugar delas. Mas voltemos ao jumentinho. Trata-se de uma criatura muito útil e de muito bom coração. E o senhor, príncipe, tem o senhor também bom coração? Pergunto por curiosidade.

Riram se todas, de novo.

- Mas.., outra vez esse aborrecido jumento?! Já não estava pensando mais nesse bicho. Acredite-me, príncipe, falei sem nenhuma insinuação?...

- Oh! Eu sei! - e o príncipe desandou a rir.

- Já que, em vez de se zangar, o senhor ri, fico mais à vontade. Vejo que é um moço de muito bom coração - afirmou Lizavéta Prokófievna.

- Nem sempre, nem sempre!... - avisou Míchkin.

- Pois eu sou - garantiu categoricamente a dona da casa. -Ou, se prefere, vou lhe mostrar. É o meu único defeito, pois não convém ter sempre bom coração. Muitas vezes zango com estas meninas e ainda mais com Iván Fiódorovitch, mas o pior é que quando me zango é que verifico que tenho bom coração. Ainda agora, antes do senhor chegar, eu estava zangada e achava que não seria capaz de compreender coisa alguma. Sou assim, às vezes. Sou como uma criança. Obrigada pela lição, Agláia. Mas não estou dizendo inconveniência nenhuma. Não sou nenhuma maluca, como pareço, e como estas minhas filhas gostam de me fazer crer que eu seja. Tenho uma vontade própria e não me envergonho à toa. E digo isso sem malícia. Agláia, venha cá me dar um beijo, aqui.. Agora, basta de carinhos - disse depois de Agláia beijá-la com ternura nos lábios e na mão. - Adiante, príncipe. Vamos a ver se o senhor se lembra de qualquer coisa mais interessante do que um jumento.

- Não sei como se possa falar assim por encomenda - raciocinou Adelaída. - Eu, nem pensar direito poderia.

- Não se incomode, que o príncipe pode pensar por nós todas. pois é muito inteligente; pelo menos dez vezes mais esperto do que vocês, provavelmente mesmo umas doze vezes. Espero que não levem muito tempo para se darem conta disso, pois ele já lhes vai provar imediatamente. Não é, príncipe? Continue. E pode, por enquanto, deixar de lado o jumento. Que viu mais o senhor no estrangeiro além do jumento?

- Mas o jumento já bastou para provar que ele é bem esperto - redarguiu Aleksándra. - E foi bem interessante o que nos contou da sua condição de doente e como um golpe exterior fez com que as coisas todas o agradassem. Sempre me interessou saber como se perde a razão e como é que se recupera depois. Mormente quando ela volta sem se esperar.

- Sim, sim - gritou a mãe, impetuosamente. - Também sei que vocês, quando querem, são espertas. Bem, parem, chega de rir. O senhor ia falar sobre o cenário da Suíça, creio eu! E então?

- Chegamos a Lucerna e fiquei arrebatado pelo lago. Ao mesmo tempo que tal beleza me arrebatou, me deprimiu - confessou o príncipe.

- Mas... por quê? - indagou Aleksándra.

- Não sei por quê. Toda a paisagem fora do comum sempre me perturba e me deprime pela primeira vez - observou o príncipe. -Sinto ao mesmo tempo felicidade e angústia. Mas isso se dava mais quando eu estava doente.

- Como eu gostaria de ver o lago! - ponderou Adelaída. - Não sei por que ainda não fomos ao estrangeiro. Aqui, não há meios de obter assuntos para pintar, principalmente nestes dois últimos anos. O Oeste e o Sul já os pintei há muito. Príncipe, dê-me assunto para um quadro.

- De pintura, que sei eu? Mas me parecia que bastava olhar e pintar.

- Mas olhar, como? Não sei como olhar as coisas.

- Por que continua você a falar através de enigmas? - interrompeu-a a mãe. - Eu não sou capaz de baralhar as coisas assim. Que quer você dizer com essa história de não saber como olhar? Não tem olhos? Sirva-se deles! Se aqui você não pode ver, que fará no estrangeiro? Príncipe, acho que vai ser necessário o senhor nos explicar como é que se veem as coisas!

- Sim, é melhor mesmo - reforçou Adelaída. - O príncipe aprendeu a ver as coisas no estrangeiro.

- Acho que não. Apenas me dei melhor lá. Se aprendi a ver as coisas, isso não sei. Mas, quase todo o tempo, fui muito feliz.

- Feliz? O senhor sabe como ser feliz? - exclamou Agláia. -E tem a coragem de dizer que não sabe se aprendeu a ver as coisas? O senhor pode até nos ensinar!

- Então, ensine! - riu Adelaída.

- Eu não posso ensinar nada. - e o príncipe também riu. - Passei quase todo o tempo que estive no estrangeiro, na mesma aldeia, uma aldeia suíça. Raramente fazia excursões e, essas mesmo, ali por perto. Que lhes hei de eu pois ensinar? No começo fui ficando menos obtuso e logo comecei a ficar mais forte. E pouco a pouco cada dia foi se tornando mais precioso para mim, à medida que o tempo ia passando e eu me dava conta disso direitinho. Deitava-me feliz e mais feliz me levantava. Explicar-lhes, porém, por que, não sei.

- Então não sentia vontade de sair? De ir a algum lugar? - perguntou Aleksándra.

- No começo, bem no começo, tive, sim. E até me tornei agitado. Estava continuadamente preocupado com a vida que devia levar. Queria saber o que era que a vida me tinha reservado. Ficava intoleravelmente ansioso, às vezes. A solidão, as senhoras sabem, dá isso. Havia lá uma pequena cascata. Era um fio de água, muito delgado, quase perpendicular, que se despenhava da montanha, espumoso, branco, espargindo gotículas em volta. Apesar de cair de uma grande altura não dava a impressão de ser alta. Estava longe de meia verstá, mas parecia estar a uns cinquenta passos. A noite gostava de ouvir o seu barulho. Em tais momentos eu estava sempre dominado por uma grande angústia. Às vezes, também, eu pasmava a encarar as geleiras ao meio-dia, sozinho, a meio caminho do cume da montanha, cercado por imensos pinheirais resinosos. Na crista da rocha, um castelo medieval em ruínas; lá embaixo, ao longe, no vale, a nossa pequenina aldeia, tenuemente visível; muita claridade solar; amplo céu azul. E um terrível silêncio. Então eu sentia que alguma coisa estava me subjugando e ficava a imaginar que se fosse andando sempre, até bem longe, sempre para diante. até alcançar aquela linha onde o céu e a terra se encontram e se tocam, então, lá sim, é que eu acharia a chave do mistério. Lá é que eu veria uma vida mil vezes mais rica e turbulenta do que a nossa. Sonhava com uma grande cidade, como Nápoles, por exemplo, cheia de palácios, ruídos, bramidos e vida. Sim; não sonhava pouco!... E depois concluía que até em uma prisão se pode encontrar uma vida afortunada!...

- Já li essa sua última reflexão, aliás tão edificante, no meu livro de leituras, quando eu tinha doze anos - desconcertou-o Agláia.

E Aleksándra disse: - Isso tudo é filosofia. O senhor é um filósofo e, quem sabe? Talvez tenha chegado aqui para ensinar.

- Talvez tenha razão - sorriu o príncipe - talvez seja eu um filósofo e saiba ensinar a pensar... É bem possível; é verdade. Talvez seja assim.

- E a sua filosofia é como a de Evlámpia Nikoláievna - interpôs Agláia. - Trata-se da viúva de um funcionário público que vem ver-nos mais como parenta pobre. Viver barato é o seu único objetivo na vida. Viver tão singelamente quão possível for, mas não fala senão de dinheiro. E tem dinheiro. É uma simuladora. É como a riqueza da vida do senhor dentro de uma prisão. Ou como os seus quatro anos de felicidade nos vales que o senhor trocaria por Nápoles. E olhe lá que teria ganho na troca, embora fosse um lucrozinho à-toa.

- Pode haver duas opiniões a respeito de prisão - sentenciou o príncipe. - Certo homem que viveu doze anos em uma prisão me disse uma coisa, depois. Ele era, como eu, um dos clientes do meu professor. Também tinha ataques e, às vezes, ficava excitado; chorava, queria matar-se. A sua vida na cadeia foi uma vida miserável asseguro-lhes, mas não, absolutamente, sem sentido. Imaginem que seus únicos amigos eram uma aranha e uma árvore que crescia debaixo da sua janela gradeada. Mas o melhor é deixar de lado este caso e lhes contar como vim a encontrar, no ano passado, um outro homem em cuja vida houve uma circunstância bem estranha, pelo fato de ser daquelas que raramente acontecem. Esse homem fora, uma vez, conduzido com mais outros ao cadafalso, levado por uma sentença de morte. Ia ser fuzilado por causa de uma ofensa política. Vinte minutos mais tarde, porém, lhe era lida a comutação da pena de morte pela de degredo. Todavia, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos, ou talvez um quarto de hora, teve ele a convicção firme de que ia morrer. Sempre o escutei sequiosamente, quando se punha a recordar as sensações dessa ocasião e. muitas vezes, depois, eu o interrogava a respeito. Lembrava-se de tudo com perfeita exatidão e costumava dizer que lhe era impossível esquecer aqueles vinte minutos. A vinte passos do cadafalso, a cuja volta soldadesca e povaréu permaneciam, havia três postes fincados no chão, pois se tratava de vários condenados. Os três primeiros foram conduzidos até aos postes e amarrados, com a túnica dos condenados (um camisolão branco), os capuzes puxados bem por sobre os olhos para que nada vissem, sendo que então uma companhia de vários soldados se postou diante de cada poste. O meu amigo era o oitavo da lista e portanto tinha de ser um dos do terceiro turno. O padre se acercou de cada um, com a cruz. Ele só dispunha de cinco minutos mais para viver. Contou-me que aqueles cinco minutos lhe pareceram um infinito e vasto tesouro. Sentia tantas vidas naqueles cinco minutos que não precisava se incomodar com o último momento, tanto mais que havia subdividido o seu tempo da seguinte maneira: dois minutos para se despedir dos companheiros. Outros dois para o seu último pensamento geral. E, depois, o último, o quinto, para olhar em redor de si pela derradeira vez. Lembrava-se muito bem dessa extravagante subdivisão do seu tempo. Ia morrer aos vinte e sete anos, moço, forte e em plena saúde. Ao se despedir dos camaradas ocorreu-lhe perguntar a um deles qualquer coisa inadequada à circunstância, e achou muito curiosa a resposta. Após as despedidas, vieram os tais dois minutos que reservara para pensar em si mesmo. Sabia de antemão em que devia pensar. Desejava atinar, da maneira mais clara e pronta possível, como é que estava existindo agora, isto é, vivendo, e como é que dentro de três minutos seria qualquer outra coisa, alguém ou nada! E isso, como e onde? Resolvera solucionar tudo, de vez, naqueles dois únicos e últimos minutos. Não longe dali havia uma igreja cuja cúpula dourada cintilava aos raios solares. Como se lembrava de se ter posto a fixar, fascinado, aquela cúpula fulgurante de luz! Não podia tirar os olhos de lá! Era como se aqueles raios fossem já a sua outra futura natureza, visto como, dentro de três minutos, ele de um certo modo se iria fundir neles... A incerteza e um como que sentimento de pavor pelo mistério em que já estava quase ingressando foram terríveis. Disse-me, porém, que nada foi tão cruel naquele momento como este contínuo pensamento em forma de interrogação: “E se eu não morrer? Se eu for devolvido à vida? Ah! Que eternidade! Tudo seria meu! Eu transformaria cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçaria um segundo sequer! Contaria cada minuto que fosse passando, sem desperdiçar um único!” Disse-me que esta ideia lhe veio com tal furor, que desejou ser imediatamente fuzilado, logo, logo!...

Subitamente, Míchkin interrompeu o que estava contando. E elas ficaram à espera de que ele prosseguisse e tirasse qualquer conclusão.

- Acabou? - perguntou Agláia.

- Como?! Ah! Sim - disse Míchkin, despertando de um sonho momentâneo.

- Mas, para que nos contou esta história?

- É que qualquer coisa em nossa conversa me fez recordá-la...

- O senhor fala muito abruptamente... - observou Aleksándra. - Provavelmente quis dizer, príncipe, que nenhum momento da vida deve ser considerado como insignificante e que, muitas vezes, cinco minutos são um precioso tesouro. Isto tudo é muito louvável; mas deixe que lhe pergunte, já que esse amigo que contou tais horrores foi perdoado e teve a pena comutada, havendo sido presenteado portanto com essa “eternidade de vida”. Que fez ele dessa riqueza, depois? Viveu, de fato, contando cada minuto?

- Qual nada! Disse-me depois. Eu também tive curiosidade em saber e perguntei. Muito pelo contrário: perdeu muitos e muitos minutos.

- Ainda bem que isso prova que é impossível viver “contando cada minuto”. Por algum motivo é isso impossível.

- Sim, alguma razão deve haver - confirmou o príncipe. - Também eu penso assim e, no entanto, não acredito que...

- Acha então que vive mais sabiamente do que qualquer outro? - indagou Agláia.

- Sim, muitas vezes julgo assim.

- E não muda de opinião?

- Penso sempre do mesmo modo.




continua página 055...



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terça-feira, 23 de março de 2021

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VIII: Do bom sucesso ...

 D. Quixote de la Mancha



Miguel de Cervantes

Vol 1



O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 

Miguel de Cervantes



PRIMEIRA PARTE

LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULO VIII


Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação




Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que D. Quixote os viu, disse para o escudeiro:

— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.

— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.

— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.

— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.

— Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.

Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, os que ia acometer. Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado:

— Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe.

Levantou-se neste comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto D. Quixote, disse:

— Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu, heis-de mo pagar.

E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora.

Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu asno; e quando chegou ao amo, reconheceu que não se podia menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo.

— Valha-me Deus! — exclamou Sancho — Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros?

— Cala a boca, amigo Sancho — respondeu D. Quixote; — as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que aquele sábio Frestão, que me roubou o aposento e os livros, transformou estes gigantes em moinhos, para me falsear a glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem; mas ao cabo das contas, pouco lhe hão-de valer as suas más artes contra a bondade da minha espada.

— Valha-o Deus, que o pode! — respondeu Pança.

E ajudando-o a levantar, o tornou a subir para cima do Rocinante, que estava também meio desasado.

Conversando no passado sucesso, continuaram caminho para Porto Lápice, porque por ali (dizia D. Quixote) não era possível que se não achassem muitas e diversas aventuras, por se sítio de grande passagem. Que pesar o ver-se então sem lança! (como ele dizia ao escudeiro). Mas dizia-lhe também logo:

— Recordo-me ter lido que outro cavaleiro espanhol, por nome Diogo Peres de Vargas, tendo-se-lhe numa batalha quebrado a espada, esgalhou de uma azinheira uma pesada arranca, e só com ela fez tais coisas naquele dia, e a tantos mouros machucou, que lhe ficou de apelido “o Machuca”; e assim ele como os seus descendentes se ficaram nomeando desde aquele dia Vargas e Machuca. Refiro-te isto, porque a primeira azinheira ou carvalho que se me depare, tenciono sacar-lhe outro pau tão bom como aquele, e fazer com ele tais façanhas, que te julgues bem afortunado por teres chegado a presenciá-las, e poderes ser testemunha de coisas tão convizinhas do impossível.

— Por Deus, senhor D. Quixote — disse Sancho — creio tudo que Vossa Mercê me diz; mas olhe se se endireita um poucochinho, que parece ir descaindo para a banda; há-de ser do trambolhão que apanhou.

— E é verdade — respondeu D. Quixote; — e se me não queixo com a dor, é porque aos cavaleiros andantes não é dado lastimarem-se de feridas, ainda que por elas lhes saiam as tripas.

— Sendo assim, já estou calado — respondeu Sancho; — mas sabe Deus se eu não achava melhor que Sua Mercê se queixara quando lhe doesse alguma coisa. De mim sei eu, que, em me doendo seja o que for, hei-de por força berrar, se é que a tal regra, de não dar mostras de sentir, não chega também aos escudeiros da cavalaria andante.

Não deixou de se rir D. Quixote da simpleza do seu pajem; e declarou-lhe que podia queixar-se quantas vezes quisesse, com vontade ou sem ela, que até aquela data nunca lera proibição disso nos livros de cavalaria.

Advertiu-lhe Sancho que reparasse em que eram horas de comer. Respondeu-lhe o amo que por enquanto lhe não era necessário; que embora comesse ele, se lhe parecia.

Com esta licença, ajeitou-se Pança o melhor que pôde sobre o seu jumento, e tirando dos alforjes o que para eles tinha metido, ia caminhando e comendo atrás do amo com todo o seu descanso; e de quando em quando empinava a borracha com tanto gosto, que faria inveja ao mais refestelado bodegueiro de Málaga. E enquanto ia assim amiudando os tragos, não se lembrava de nenhuma promessa que o amo lhe tivesse feito; nem tinha por trabalho, antes por vida mui regalada, o andar buscando as aventuras, por perigosas que fossem.

Em suma, aquela noite passaram-na entre umas árvores; de uma delas desgalhou D. Quixote uma das pernadas secas, que lhe podia pouco mais ou menos suprir a lança, e nela pôs o ferro da que se lhe tinha quebrado.

Em toda a noite não pregou olho, pensando na sua senhora Dulcinéia, para se conformar com o que tinha lido nos seus livros, quando os cavaleiros passavam sem dormir muitas noites nas florestas e despovoados, enlevados na lembrança de suas amadas.

Já Sancho Pança a não passou do mesmo modo; como levava a barriga cheia (e não de água de chicória) levou-a toda de um sono; e se o amo o não chamara, não bastariam para acordá-lo os raios do sol que lhe vieram dar na cara, nem as cantorias das aves, que em grande número saudavam com alvoroço a vinda do novo dia.

Ao erguer-se, deu mais um beijo na borracha, e achou-a seu tanto mais chata que a noite de antes; com o que se lhe apertou o coração, pensando em que não levavam caminho de se remediar tão depressa aquela falta.

Não quis D. Quixote desjejuar-se, porque, segundo já dissemos, lhe deu em sustentar-se de saborosas memórias. Prosseguiram no seu começado caminho de Porto Lápice, e pela volta das três do dia deram vista dele.

— Aqui — disse D. Quixote — podemos, Sancho Pança amigo, meter os braços até aos cotovelos no que chamam aventuras; mas adverte, que, ainda que me vejas nos maiores perigos do mundo, não hás-de meter mão à espada para me defender, salvo se vires que os que me agravam são canalha e gente baixa, que nesse caso podes ajudar-me; porém se forem cavaleiros, de modo nenhum te é lícito, nem concedido nas leis da cavalaria, que me socorras, enquanto não fores armado cavaleiro.

— Decerto — respondeu Sancho — que nessa parte há-de Sua Mercê ser pontualmente obedecido, e mais, que eu sou de meu natural pacífico, e inimigo de intrometer-me em arruídos e pendências. É verdade, que, no que tocar em defender cá a pessoa, não hei-de fazer muito caso dessas leis, porque as divinas e humanas permitem defender-se cada um de quem lhe queira mal.

— Não digo menos disso — respondeu D. Quixote — porém no ajudar-me contra cavaleiros hás-de ter mão nos teus ímpetos naturais.

— Afirmo-lhe que assim o farei — respondeu Sancho; — esse preceito hei-de o guardar como os dias santos e os domingos.

Estando nestas práticas, viram vir pelo caminho dois frades da ordem de S. Bento, cavalgando sobre dois dromedários (que não eram mais pequenas as mulas em que vinham). Traziam seus óculos de jornada, e seus guarda-sóis.

Atrás seguia um coche com quatro ou cinco homens de cavalo, que o acompanhavam, e dois moços de mulas a pé. Vinha no coche, como depois se veio a saber, uma senhora biscainha, que ia a Sevilha, onde estava seu marido, que passava às Índias com um mui honroso cargo. Não vinham os frades com ela, ainda que traziam o mesmo caminho; mas apenas D. Quixote os divisou, quando disse para o escudeiro:

— Ou me engano, ou esta tem de ser a mais afamada aventura que nunca se viu, porque aqueles vultos negros, que ali aparecem, devem ser alguns encantadores, que levam naquele coche alguma Princesa raptada; e é forçoso, que, a todo o poder que eu possa, desfaça esta violência.

— Pior será esta, que a dos moinhos de vento — disse Sancho; — repare, meu amo, que são frades de S. Bento, e o coche deve ser de alguma gente de passagem; veja, veja bem o que faz, não seja o diabo que o engane.

— Já te disse, Sancho — respondeu D. Quixote — que sabes pouco das maranhas que muitas vezes se dão nas aventuras. O que eu digo é verdade, e agora o verás.

Dizendo isto, adiantou-se e pôs-se no meio do caminho por onde vinham os frades; e, chegando a distância que a ele lhe pareceu o poderiam ouvir, disse em alta voz:

— Gente endiabrada e descomunal, deixai logo no mesmo instante as altas Princesas que nesse coche levais furtadas; quando não, aparelhai-vos para receber depressa a morte, por justo castigo das vossas malfeitorias.

Detiveram os frades as rédeas, admirados, tanto da figura como dos ditos de D. Quixote, e responderam:

— Senhor cavaleiro, nós outros não somos nem endiabrados nem descomunais; somos dois religiosos beneditinos, que vamos nossa jornada; e não sabemos se nesse coche vêm, ou não, algumas Princesas violentadas.

— Falas mansas cá para mim não pegam — disse D. Quixote — que já vos conheço, fementida canalha.

E sem aguardar mais resposta, picou o Rocinante, e de lança baixa arremeteu com o primeiro frade com tanta fúria e denodo, que, se o frade se não deixasse cair da mula, ele o faria ir a terra contra vontade, e até mal ferido, se não morto.

O segundo religioso, que viu o que se tinha feito ao companheiro, meteu pernas à sua acastelada mula, e desatou a correr por aquele campo, mais ligeiro que o próprio vento.

Sancho Pança, que viu por terra o frade, apeou-se do burro com a maior pressa, arremeteu a ele, e começou-lhe a tirar os hábitos. Acudiram dois moços dos frades, e perguntaram-lhe por que o despia. Respondeu-lhes Sancho Pança, que a fatiota lhe pertencia a ele legitimamente, como despojos da batalha, que seu amo D. Quixote havia ganhado. Os moços, que não entendiam de xácaras, nem percebiam aquilo de despojos e batalhas, vendo já afastado dali D. Quixote em conversação com as damas do coche, investiram com Sancho, e deram com ele em terra, arrancaram-lhe as barbas, moeram-no a coices, e o deixaram estendido como coisa morta.

O frade caído não se demorou um instante; todo temeroso e acovardado, ergueu-se, montou, e, logo que se viu a cavalo, picou atrás do companheiro, que a bom pedaço dali estava esperando em que pararia aquele ataque.

Não quiseram esperar mais pelo desfecho, e seguiram o seu caminho, fazendo mais cruzes, que se levassem o diabo atrás de si.

Estava D. Quixote, como já se disse, falando com a senhora do coche, dizendo-lhe:

— A Vossa formosura, senhora minha, pode fazer da sua pessoa o que mais lhe apeteça, porque já a soberba de vossos roubadores jaz derribada em terra por este meu forte braço; e para que vos não raleis de não saber o nome do vosso libertador, chamo-me D. Quixote de la Mancha, cavaleiro andante, e cativo da sem par em formosura D. Dulcinéia del Toboso; e em paga do benefício que de mim haveis recebido, nada mais quero senão que volteis a Toboso, e que da minha parte vos apresenteis a ela, e lhe digais o que fiz para vos libertar.

Tudo que D. Quixote dizia, estava-o escutando um escudeiro dos que acompanhavam o coche, e que era biscainho, o qual, vendo que o cavaleiro não queria deixar ir o coche para diante, mas teimava que havia de desandar logo para Toboso, fez frente a D. Quixote, e, agarrando-lhe na lança, lhe disse em mau castelhano e pior biscainho o que pouco mais ou menos vinha a parar nisto:

— Anda, cavaleiro, que mal andas; pelo Deus que me criou, que, se não deixas o coche, morres tão certo como ser eu biscainho.

Entendeu-o muito bem D. Quixote, e com muito sossego lhe respondeu:

— Se foras cavaleiro, assim como o não és, já eu teria castigado a tua sandice e atrevimento, criatura reles.

Ao que respondeu o biscainho lá pelo seu dialeto:

— Não sou cavaleiro eu? juro a Deus que mentes, tão certo como ser eu cristão; se arrojas lança ou arrancas espada, verás como te vai tudo pelo pó do gato; biscainho por terra, fidalgo por mar, fidalgo com os diabos; e, se o negares, mentiste.

— Agora o veremos, como dizia Agrages — respondeu D. Quixote.

E, atirando a lança ao chão, desembainhou a espada, embraçou a rodela, e arremeteu ao biscainho, de estômago feito para lhe arrancar a vida. O biscainho, que assim o viu sobrevir-lhe, ainda que se quisesse apear da mula, que, por ser das de alugar, não era das boas, nem havia que fiar nela, o mais que pôde foi sacar da espada; e foi-lhe dita achar-se junto ao coche, donde pôde tomar uma almofada que lhe serviu de escudo; e logo se foram um para o outro como dois mortais inimigos.

A demais gente bem quisera pô-los em paz, mas não pôde, porque dizia o biscainho nas suas descosidas razões que, se o não deixassem acabar a batalha, ele próprio mataria a sua ama e a quantos lho estorvassem.

A senhora do coche, pasmada e temerosa do que via, disse ao cocheiro que se desviasse algum tanto dali, e se pôs de longe a admirar a pavorosa contenda.

No decurso dela, deu o biscainho uma grande cutilada a D. Quixote, acima de um ombro por sobre a rodela, que, a dar-lha sem defensa, o abrira até à cintura. D. Quixote, que sentiu o peso daquele desaforado golpe, deu um grande berro, dizendo:

— Ó senhora da minha alma, Dulcinéia, flor da formosura, socorrei a este vosso cavaleiro, que, para satisfazer a vossa muita bondade, se acha em tão rigoroso transe.

O dizer isto, apertar a espada, cobrir-se bem com a rodela, e arremeter ao biscainho, foi tudo um, indo determinado de aventurar tudo num só golpe. O biscainho, vendo-o vir assim contra ele, bem entendeu por aquele denodo a coragem do inimigo, e determinou fazer o mesmo que ele; pelo que se deteve a esperá-lo bem coberto com a almofada, sem poder rodear a mula, nem a uma nem outra parte, que já de puro cansaço, e não afeita a semelhantes brinquedos, não podia dar um passo.

Vinha, pois, como dito é, D. Quixote contra o acautelado biscainho, com a espada em alto, determinado a abri-lo em dois; e o biscainho o aguardava assim mesmo, com a espada erguida, e escudado com a sua almofada.

Todos os circunstantes estavam temerosos e transidos à espera do que se poderia seguir de golpes tamanhos, com que de parte a parte se ameaçavam. A senhora do coche, e as suas criadas, faziam mil votos e promessas a todas as imagens e igrejas de Espanha, para que Deus livrasse ao seu escudeiro e a elas daquele tão grande perigo.

O pior que tudo é que, neste ponto exatamente, interrompe o autor da história esta batalha, dando por desculpa não ter achado mais notícias desta façanha de D. Quixote, além das já referidas.

Verdade é que o segundo autor desta obra não quis crer que tão curiosa história estivesse enterrada no esquecimento, nem que houvessem sido tão pouco curiosos os engenhos da Mancha, que não tivessem em seus arquivos ou escritórios alguns papéis que deste famoso cavaleiro tratassem; e assim, com esta persuasão, não perdeu a esperança de vir a achar o final desta aprazível narrativa, o qual por favor do céu se lhe deparou como ao diante se contará.



continua página 57...


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Leia também:


D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Prólogo
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Ao Livro de D. Quixote de la Mancha
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo I
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo II
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo III
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo IV
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo V
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VI
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VII
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VII
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo VIII
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L2 Capitulo IX

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D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho


Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
eBooksBrasil.com 

Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com