quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Brasil Nação - v2: § 56 – O último romântico - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim


O Brasil Nação volume 2




SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


capítulo 6
novo ânimo



§ 56 – O último romântico





Castro Alves, que fecha deslumbrantemente o ciclo dos românticos brasileiros, reproduz a carreira trágica de Álvares de Azevedo. Esta aproximação não significa, todavia, admitir que o poeta de Vozes d’África repita o estro encantado do romântico de Noites da Taberna. Sentindo a morte, no seus dezoito anos, Álvares de Azevedo, imediatamente inspirado do segundo romantismo, infundiu de morbidez a sua musa, de tal sorte que a sua poesia é uma floração de melancolia ativa, por entre tonalidades de emoção, num fundo de pesar que a mocidade mal disfarçava. Mas, tal é o vigor do seu estro que a dolência envolvente dos seus cantos deixa de ser queda de tônus e palidez morta, para impor-se numa lividez luminosa, luxuriante. Castro Alves nunca foi um melancólico. É o seu traço pessoal, no lirismo soluçante que vem de Gonçalves Dias a Varela. A sua lírica amorosa são transes de afetos realmente sentidos, vivamente pessoais, e, com isso, sucedem-se as estâncias de saudades, ciúmes, coração dilacerado... O poeta, porém, não gemerá... senão que desatará em gritos de despeito, uivos de dó, rugidos de desespero, contorções de uma sensibilidade túrgida de paixões... E assim passam os momentos que seriam para lamentos e tórpida dolência.


Ciúme! dor! sarcasmo! – Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas a tormenta ulula
    Um uivo de agonia!...
     ................................
Sinto que vou morrer! Posso por tanto
A verdade dizer-te santa e nua:
Não quero mais teu amor!... Porém minh’alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua...


O poeta de Dama Negra afirmou o seu estro como a consciência de um amor terminante, efetivo, vivido, na mente e na realidade. A imaginação alteava-se em voos de condor, mas sempre túrgida de sensualidade. E, com isto, foi o temperamento mais poderoso na vida do nosso lirismo. A sua poesia, franca, potente, iluminada de ideal, foi também um mundo de sensações onde palpitavam paixões reais. Outros terão sido eco sublime de almas abstratas; ele, não: sempre pensou, e sentiu, e experimentou o que escreveu:

Adeus! Para sempre adeus! Quando alta noite,
Encostado à amurada do navio...
As vagas tristes... que nos viram juntos
Perguntarem por ti num beijo frio...
................................
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doido afago dos meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Das teclas do teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros bebo atento!
Ai, canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...


Um tal concreto de gozo, como a evocação de detalhes assim, não poderia ser puro imaginar. Reproduzindo a tragédia de Álvares de Azevedo, gênio abatido em plena juventude, Castro Alves distingue-se, no entanto, porque pôde dar a medida do seu valor. Viveu mais quatro anos do que o outro, quatro anos da quadra decisiva para um poeta. Viveu mais, e mais completamente, pois que viveu, de fato, a exaltação e a sensualidade do seu amor, ao passo que em Álvares de Azevedo a sensualidade não passa de voluptuosidade vazia. Castro Alves teria produzido muito mais, em tom de mais profundo pensamento, talvez, mas não traria novos traços ao seu feitio mental, nem daria outras notas na sua lira. E, como definição explícita do seu engenho, ele foi a expressão plena do lirismo romântico brasileiro, derramando-se, ainda pela epopeia, com energias de apostolado. Como sentiu o amor e a poesia, amou a justiça, a liberdade, o seu Brasil. Desaparecido aos vinte e quatro anos, Castro Alves realizou o sublime, numa existência de poeta – aspiração, sonho, paixão, popularidade, prestígio, glória... para efeitos intelectuais, políticos, sociais. Amado dos deuses, numa vida que eram vagas de amor, não teve possibilidade, nem teoricamente, de conhecer o tédio, o desânimo, a descrença. As suas penas foram, tão somente, as das vicissitudes de amoroso, que pôde, sempre, passar de uma paixão para outra. 

Longo, penetrante, extenso... tal se considera o efeito da poesia de Castro Alves na alma brasileira. Afrânio Peixoto, com o seu livro – Castro Alves, escreveu um parágrafo documentado, eloquente e sentido, da evolução mental e da nacionalidade. Colocando o poeta no seu tempo; acentuando o influxo profundo dos seus cantos, e o prestígio miraculoso da sua lira, que era a de um jovem apenas estudante, Afrânio nos faz compreender Euclides, quando perora para mostrar que o estro de Castro Alves emanava diretamente das energias essenciais desta pátria, sobre a qual reinou incontrastavelmente. O lirismo do poeta de Aves de Arribação é o mesmo de Gonçalves Dias a Varela, como possibilidades de que não se suspeitaria, a deduzir do cantar dos outros. Nas suas poesias de 1863 a 65, raramente se encontrará novidade de inspiração; todavia, a sinceridade de uma viva sensibilidade já lhe dá às imagens toques inconfundíveis:


Todo o amor que em meu peito repousava,
Como orvalho das noites ao relento,
Ao teu peito se elevou, como as névoas,
Que se prendem no azul do firmamento...
................................
Sem ela o que é a vida?...
Eu sou a flor pendida,
Que espera a luz do sol............


E não tarda o lirismo estuante, orgasmo de poesia, novo pelo fulgor das tintas e a intensidade dos afetos.


É o derradeiro suspirar das crenças
Que se despedem das visões de amor...
................................
Mas tu vieste... E acreditei na vida...
Abri os braços – caminhei para luz...
O tronco morto – refloriu de novo,
Ergueu-se vivo, perfumado, em flor...


A sua influência parece antecipar-se, tão precoce lhe vem a plenitude do estro. Aos vinte anos, já Castro Alves tem a luminosa consciência do seu lirismo. São dessa idade as túrgidas estrofes de Sub Tegmine Fagi:


Vem! do mundo leremos o problema...
................................
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo.
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto...
................................
Cantava o ninho, suspirava o lago;
Larga harmonia embalsamava os ares...


Encontraremos, depois, nos metros de outros, os mesmos recursos. O amor será objeto constante no lirismo de Castro Alves; mas, plantando-o na natureza, com o relevo das imagens em que natureza e amor são evocados, quase esquecemos o eu que canta, porque, na sua lira, vibram as energias eternas do amor ideal, com todo o fulgor da paisagem em que desfilam as suas emoções.


... minh’alma... um dia adormeceste
Na floresta ideal da ardente mocidade.
Abria a fantasia, a pétala celeste...
Zunia o sonho d’ ouro em doce obscuridade...


Ou, então:


............ O bardo se alevanta,
Pega da lira... canta... uma canção de amor...
Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa
Alonga pela ogiva um raio de langor!...


Não é de estranhar, então, se nessa intensidade da alma, ele atinge a espiritualidade das estrofes Pelas Sombras, que seriam misticismo, se não fosse o puro afeto ideal, ungindo o pensamento que perscruta:


Senhor! A noite é brava............
Senhor! um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... Oh! Deus! Dá-me um clarão!...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
“Acende, Oh! viajor! – o facho da razão!”
................................
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma,
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo passam n’alma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
................................
Mas ai! que a treva interna – a dúvida constante –
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
Acende, Oh! viajor! a fé no coração!...


Contudo, mesmo arrebatado, em transes d’alma, o lírico se mantém em contato com a vida e a natureza: os seus anseios traduzem-se em imagens bem sensíveis, e temperam-se de formas tangíveis, que não irritam como não alucinam. O seu temperamento, eco maravilhoso dos fragores humanos, multiplica-os e enriquece-os tanto, que os motivos cantados, mesmo pessoais, não nos parecem, nunca, excessivos, nem descabidos. Último do romantismo, ele resiste melhor do que os nossos líricos à moléstia da agonia incerta, em que se consumiu a portentosa escola de renovação literária. Musset, que assim a qualifica, teria sido uma das mais assinaladas vítimas do mal, pois que a sua inspiração, ao mesmo tempo exigente e vacilante, deixava-o nas vascas dessa vertigem, que é a oscilação entre a sensação falha, o imagicionismo ardente e difuso, a sensibilidade exigente, sem assimilação efetiva das almas e da natureza. Nenhum tão representativo, e, nestas condições, torna-se evidente a fadiga da percepção artística, que se trai no poeta por uma como angústia de vazio. Patente em Álvares de Azevedo, essa agonia incerta não pôde atingir o gênio de Castro Alves. Com uma imaginação bem coerente e sensível, regenerada por ideal próprio, em formas maleáveis e potentes, o seu lirismo se desenvolve numa associação perfeitamente equilibrada – transes afetivos, interesses humanos e desdobrar de imagens. Sadia coordenação de estímulos, sem contradições de motivos, que turbem a esplêndida convergência de efeitos. E os corações brasileiros, atraídos pela sua musa, aproximaram-se – para o concertante de sentimentos em que ele se exaltava. A vida e a natureza, alimento substancial das suas imagens, tornavam-nas igualmente sedutoras, potentes, sugestivas, encantadoras, no simples relevo da primeira representação, antes de qualquer análise estética. Tomado pelo amor, porque é vida, Castro Alves, amou, de amor sublime, a pátria, a justiça, a bondade, em toda a extensão do respectivo poder, e deu às suas palavras o mesmo ardor dos afetos. Por isso, a expressão, eminentemente apaixonada, era absolutamente verdadeira, real, espontânea, como a própria paixão, e, assim livre, instintiva, empolgante, dominadora... Daí, resultam os desenvolvidos efeitos sociais da sua obra, e, por isso, torna-se indispensável o exaustivo arrolamento dos mesmos efeitos. 

Não é fácil notar as instâncias originais, na poesia de Castro Alves. Genial, os seus dons se disseminam por todas as rimas, e afere-se, como valor total, pela ressonância na alma brasileira. Todas as belezas de sentimento, todas as correntes de pensamento se juntam e harmonizam na sua obra, com uma intensidade espiritual de que não há exemplo em nenhum outro escritor brasileiro. Esta será a primazia incontestável do grande lírico baiano. Ardente, audacioso, as suas afirmações se fazem sempre com nobreza de atitudes, fulgor de ideias, segurança e elevação de pensamento... Ele mesmo debuxou a imagem, de como nos aparece a musa – alva, grande, ideal, lavada em luz estranha, na destra suspendendo a estrela da manhã... Plantando-se entre o Homem e o Universo, os seus cantos, transes de dramas íntimos, clangor de apóstolo, ou simples enlevo de lírico, desenvolvem-se em símbolos portentosos, com intuições de profeta, numa espiritualidade irradiante e ativa, com um frescor que se reanima em recurso de que a poesia dispõe. Por tudo isto, o seu influxo foi o inverso dos efeitos do byronismo, por um patético mais humano do que romântico. Só a linguagem tinha essa qualidade genuína. Com todas as diferenças de época, formação e raça, Castro Alves foi um focalizador de energias afetivas, sociais e mentais comparável a Shelley, pela atração nacional. Melhor diríamos se reconhecêssemos no lírico d’A Volta da Primavera uma antecipação do neorromantismo, e que é esse simbolismo ardente, arrebatado de humanidade, reação do temperamento emotivo sobre o estetismo estéril dos puros buriladores. Aliás, nunca os tivemos assim. De fato, Castro Alves presente Witthead, e, de certo modo, precede Swinburne, Morris, Gustavo Khan: evocações luxuriantes, riqueza verbal, temas humanos, misticismo, ardor patético, poder sugestivo... 

Se a poesia é pensamento sentido, ninguém foi mais poeta do que o lírico baiano:


Abre-me o seio. Oh! madre natureza!
Regaços da floresta americana...
................................
E se devo expirar... se a fibra morta
Reviver já não pode a tanto alento...
Companheiro! uma cruz na selva corta
E planta-a no meu tosco monumento!...
Da chapada nos ermos... (o qu’importa)
Melhor o inverno chora... e geme o vento,
E Deus para o poeta o céu desata
Semeado de lágrimas de prata!...


Com imagens assim Castro Alves invade-nos o coração, para dominar toda a simpatia, e Hino ao Sono passa a ser da nossa própria sensibilidade: Mata-me esta saudade; apaga-me esta dor. Já havíamos seguido, solícitos, os ingênuos arroubos do amante de dezenove anos, fazendo deles grandes motivos para emoções da meiguice d’O Laço de Fita, a estonteante evocação da Adormecida, a volúpia de Boa-Noite, a desilusão d’O Adeus de Tereza... Nem pode ser de outra forma, quando um simples renovar de afetos assim apresenta:


... teu riso me penetra n’alma
Como a harmonia de uma orquestra santa;
... teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia... tanta!
Que eu digo ao ver tua celeste fronte:
O eco consola toda dor que existe...


Exaurido, arruinado o coração na trivialidade de um amor banalíssimo, mas sempre ávido de paixão, ele tem modificações para trazer encanto, ainda, à trivialidade:


É tarde! É muito tarde!...
................................
E tu, visão do céu!............
Não queiras os restos do banquete!
................................
Sabes? Meu beijo te manchará os lábios
     Num beijo profanado.
A flor do lírio de celeste alvura
Quer da Lucíola o pudico afago...


As suas saudades são humanas, tensas, confortantes:


Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte,
O teu perfume predileto exala...


E o seu desespero?!... É preciso o esplendor do gênio, para sabida a história, depois de esgotado o Adeus, ainda haver lágrimas para responder-lhe ao Onde Estás?

Adeus! Para sempre adeus!...
................................
Eu vim cantando a mocidade e os sonhos,
Eu vim sonhando a felicidade e a glória!...
Ai! primavera que fugiu para sempre...
................................
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do norte...
Oh! minha amante, onde estás?...


Romântico sadio, ele deixou a legítima definição do poeta:


Dos seios às vagas – pede um outro amor.
Alma sedenta de ideal na terra
Busca apagar aquela sede atroz!
Pede a harmonia divinal, que encerra
Do ninho o chilro... da tormenta a voz!...


E assim se explica como a pressão social, sobre o seu pensamento comovido, o inclinou definitivamente para a grande simpatia humana, tanto que ele fosse, sobretudo, o épico do ideal. Em verdade, o seu lirismo passa como orgasmo amoroso. Qualquer que seja o valor dos poemas: Boa-Noite, Os Perfumes, Durante um Temporal, Os Anjos, Meia Noite... a realidade do seu gênio se patenteia em A Cruz da Estrada, Ao Romper d’Alva, Navio Negreiro, Vidente, Vozes d’África, Deusa Incruenta... No entanto, se de Castro Alves só existissem as estrofes de amor, ainda ele seria um grande poeta, tanto é o poder desse atavismo que leva os nossos líricos a sublimarem os próprios afetos, enastrando-os nas pompas desta natureza. Por isso, o poeta d’A Cachoeira de Paulo Afonso ungiu a sua epopeia de um tal lirismo que quase a suplanta:


Adeus! palavra sombria!
Não digas adeus, Maria!
Ou não me fales de amor!...



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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."


Cecília Costa Junqueira



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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).


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Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-ii-manoel-bonfim/


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Leia também:







O Brasil Nação - v2: § 52 – De Gonçalves Dias a Casimiro de Abreu... - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 53 – Álvares de Azevedo - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 54 – O lirismo brasileiro - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 55 – De Casimiro de Abreu a Varela - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 57 – Romanticamente patriotas - Manoel Bomfim


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Dia Seguinte (XVI)

Livro I 

A verdade, a áspera verdade. 
Danton 


Capítulo XVI

O DIA SEGUINTE

He turn’d his lips to hers, and with his hand 
Called back the tangles of her wandering hair.

DON JUAN, C. I, est. 170




FELIZMENTE, PARA A GLÓRIA DE JULIEN, a sra. de Rênal ficara por demais agitada, por demais espantada, para perceber a tolice do homem que num instante tornara-se tudo no mundo para ela. 

Instava-o a retirar-se, ao ver despontar o dia: 

– Oh! Meu Deus, dizia, se meu marido ouviu um ruído, estou perdida. 

Julien, que tinha tempo de compor frases, lembrou-se desta: 

– Lamentaria perder a vida? 

– Ah! Muito, neste momento! Mas não lamentaria ter conhecido você. 

Julien achou que convinha à sua dignidade retirar-se, de propósito, com imprudência e à luz do dia. 

A atenção contínua com que estudava suas menores ações, na ideia insana de parecer um homem experiente, só teve uma vantagem; quando tornou a ver a sra. de Rênal no almoço, sua conduta foi uma obra-prima de prudência. 

Quanto a ela, não podia olhar para ele sem corar intensamente, e não podia ficar um instante sem observá-lo; percebia a perturbação dele, aumentada pelos esforços para ocultá-la. Julien levantou os olhos somente uma vez para ela. Primeiro, a sra. de Rênal admirou sua prudência. Logo, vendo que esse único olhar não se repetia, ficou alarmada: Será que não me quer mais? pensou. Ai, sou muito velha para ele, tenho dez anos mais que ele. 

Ao passar da sala de jantar para o jardim, ela apertou a mão de Julien. Na surpresa que lhe causou uma prova de amor tão extraordinária, ele a olhou com paixão, pois ela lhe parecera muito bonita durante o almoço e, embora ele baixasse os olhos, passara o tempo a imaginar seus encantos. Esse olhar consolou a sra. de Rênal; não lhe tirou todas as inquietudes, mas suas inquietudes tiravam-lhe quase todo o remorso em relação ao marido. 

No almoço, este nada percebera; o mesmo não aconteceu com a sra. Derville: ela julgou a sra. de Rênal na iminência de sucumbir. Durante todo o dia, sua amizade ousada e incisiva não deixou de mostrar, em meias palavras e sob cores medonhas, o perigo que a outra corria. A sra. de Rênal ansiava por ficar sozinha com Julien; queria perguntar-lhe se ainda a amava. Apesar da doçura inalterável de seu caráter, esteve várias vezes a ponto de dar a entender à amiga o quanto esta era importuna. À noite, no jardim, a sra. Derville arranjou as coisas de tal modo que se colocou entre a sra. de Rênal e Julien. A sra. de Rênal, que fizera uma imagem delicio​sa do prazer de apertar a mão de Julien e de levá-la a seus lábios, não pôde sequer dirigir-lhe uma palavra.

Esse contratempo aumentou sua agitação. Estava devorada por um remorso. Repreendera tanto a Julien pela imprudência de ir a seu quarto na noite anterior que temia que ele não fosse, nesta. Deixou bastante cedo o jardim e foi recolher-se no quarto. Mas, não contendo a impaciência, veio colar o ouvido contra a porta de Julien. Apesar da incerteza e da paixão que a devoravam, não ousou entrar. Esse ato parecia-lhe a última das baixezas, pois serve de tema a um ditado da província. 

Os criados estavam todos deitados. A prudência obrigou-a finalmente a voltar a seu quarto. Duas horas de espera pareceram dois séculos de tormentos. 

Mas Julien era muito fiel ao que ele chamava o dever para deixar de executar ponto por ponto o que se prescrevera. 

Quando soou uma hora, ele saiu de mansinho de seu quarto, certificou-se de que o dono da casa dormia profundamente e entrou no quarto da sra. de Rênal. Nessa noite, encontrou mais felicidade junto da amante, pois pensou menos constantemente no papel a desempenhar. Teve olhos para ver e ouvidos para ouvir. O que a sra. de Rênal lhe disse de sua idade contribuiu para dar-lhe uma certa tranquilidade. 

– Ai! Tenho dez anos mais que você! como pode me amar?, ela repetia sem motivo, e porque essa ideia a oprimia. 

Julien não compreendia esse desgosto mas viu que era real, e esqueceu quase todo o seu temor de ser ridículo. 

A ideia tola de ser visto como um amante subalterno, por causa de seu nascimento obscuro, desapareceu também. À medida que seus transportes tranquilizavam sua tímida amante, esta readquiria um pouco de felicidade e a capacidade de julgar Julien. Nessa noite, felizmente, ele não tinha aquele ar fingido que fizera do encontro da véspera uma vitória, mas não um prazer. Se ela tivesse notado sua preocupação em desempenhar um papel, essa triste descoberta lhe teria tirado para sempre toda a felicidade. Ela não teria podido ver nisso outra coisa senão um triste efeito da desproporção das idades. 

Embora a sra. de Rênal jamais tivesse pensado nas teorias do amor, a diferença de idade é, depois da de fortuna, um dos grandes lugares-comuns das pilhérias de província, sempre que se fala do amor. 

Em poucos dias, entregue ao ardor de sua idade, Julien sentiu-se perdidamente apaixonado. 

É preciso convir, ele pensava, que ela tem uma bondade de alma angélica, e é impossível ser mais bonita. 

Ele perdera quase inteiramente a ideia do papel a desempenhar. Num momento de abandono, confessou a ela inclusive todas as suas inquietudes. Essa confidência levou ao auge a paixão que ele inspirava. Então não tive rival feliz!, pensava a sra. de Rênal com delícias. Ousou interrogá-lo sobre o retrato pelo qual demonstrara tanto interesse; Julien jurou-lhe que era o de um homem. 

Quando tinha bastante tranquilidade para refletir, a sra. de Rênal não se refazia do espanto de que tal felicidade existisse, sem que dela jamais suspeitasse. 

Ah!, dizia-se, se eu tivesse conhecido Julien dez anos atrás, quando ainda podia ser considerada bonita!

Julien estava muito distante desses pensamentos. Em seu amor havia ainda ambição; era a alegria de possuir, ele, uma pobre criatura infeliz e desprezada, uma mulher tão nobre e tão bela. Seus atos de adoração, seus trans​​portes diante dos encantos da amiga, acabaram por tranquilizá-la um pouco sobre a diferença de idade. Se ti​vesse um pouco daquela educação que uma mulher de trinta anos possui nos lugares mais civilizados, ela temeria pela duração de um amor que parecia viver apenas de surpresa e de exaltação do amor-próprio. 

Em seus momentos de esquecimento da ambição, Julien admirava com enlevo até os chapéus e os vestidos da sra. de Rênal. Não se cansava do prazer de sentir seu perfume. Abria o armário de espelho e ficava horas inteiras admirando a beleza e o arranjo de tudo que ali encontrava. Sua amiga, apoiada sobre ele, olhava-o, enquanto ele olhava aquelas joias, aqueles enfeites que, na véspera de um casamento, enchem uma corbelha de núpcias. 

Eu podia ter casado com esse homem!, pensava às vezes a sra. de Rênal; que alma de fogo! Que vida arrebatadora com ele! 

Quanto a Julien, ele jamais estivera tão perto desses terríveis instrumentos de artilharia feminina. É impossível, dizia a si mesmo, que em Paris haja alguma coisa mais bela! Então, não encontrava objeção à sua felicidade. Com frequência, a sincera admiração e os transportes de sua amante faziam-no esquecer a vã teoria que o tornara tão comedido e quase tão ridículo nos primeiros momentos dessa ligação. Houve momentos em que, apesar de seus hábitos de hipocrisia, sentia uma doçura extrema em confessar a essa grande dama que o admirava sua ignorância de uma porção de pequenas práticas. A condição social de sua amante parecia elevá-lo acima de si mesmo. A sra. de Rênal, por seu lado, sentia a mais doce das volúpias morais em instruir assim, numa série de pequenas coisas, esse jovem cheio de talento e que era visto por todos como tendo um grande futuro. Mesmo o subprefeito e o sr. Valenod não podiam deixar de admirá-lo, no que lhe pareciam então menos tolos. Quanto à sra. Derville, ela estava longe de poder exprimir os mesmos sentimentos. Desesperada com o que acreditava adivinhar, e vendo que seus sábios conselhos tornavam-se odiosos a uma mulher que, literalmente, perdera a cabeça, deixou Vergy sem dar uma explicação, que se abstiveram de pedir-lhe. A sra. de Rênal derramou algumas lágrimas, mas logo lhe pareceu que sua felicidade redobrava. Com essa partida, via-se quase o dia inteiro a sós com seu amante. 

Julien entregava-se tanto mais à doce companhia de sua amiga porque, quando ficava sozinho por muito tempo, a proposta fatal de Fouqué voltava a agitá-lo. Nos primeiros dias dessa nova vida, houve momentos em que ele, que jamais amara, que jamais fora amado por ninguém, encontrou um prazer tão delicioso em ser sincero que esteve a ponto de confessar à sra. de Rênal a ambição que até então fora a essência mesma de sua existência. Chegou a querer consultá-la sobre a estranha tentação suscitada pela proposta de Fouqué, mas um pequeno acontecimento impediu qualquer franqueza.




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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.


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Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.


Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.

Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.

"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.

Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.

Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.

Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.

Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.

O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.



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Leia também:

Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Dia Seguinte (XVI)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Primeiro Adjunto (XVII)


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (06)

 Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1


1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



O Baile de Sceaux
A Henri Balzac, [46] seu irmão

Honoré

(Parte 6)


continuando...



Chegou o dia do baile: Clara Longueville e o irmão, que os lacaios teimavam em agraciar com a nobre partícula, foram dele os heróis. Pela primeira vez na vida, a srta. de Fontaine viu com prazer o triunfo de uma moça. Prodigalizou com sinceridade a Clara essas carícias graciosas e as pequenas atenções que as mulheres só se tributam, geralmente, entre si, para excitar o ciúme dos homens. Mas Emília tinha uma finalidade: queria descobrir segredos. A reserva da srta. Longueville foi pelo menos igual à do irmão, mas na sua qualidade de moça mostrou, talvez, mais sutileza e espírito do que ele, porquanto nem sequer teve a aparência de ser discreta e soube manter a conversa em torno de assuntos estranhos aos interesses materiais, conquanto pondo neles uma tão grande sedução que a srta. de Fontaine concebeu um quê de inveja e apelidou Clara de Sereia. Embora Emília tivesse formado o propósito de fazer Clara falar, foi Clara quem interrogou Emília. Esta queria julgar a menina e de fato foi julgada por ela. Ficou por vezes despeitada por ter deixado transparecer seu caráter através de algumas respostas que lhe foram arrancadas maliciosamente por Clara, cujo ar modesto e cândido afastava qualquer suspeita de perfídia. Houve um momento em que a srta. de Fontaine pareceu aborrecida por ter invectivado imprudentemente os plebeus, em consequência a uma provocação feita por Clara. 

— Senhorita — disse a encantadora criatura —, tanto ouvi Maximiliano falar na senhorita, que tinha o mais ardente desejo de conhecê-la pelo bem que quero a ele; mas querer conhecê-la não é querer amá-la? 

— Minha querida Clara, tinha medo de lhe ter desagradado falando daquela forma das pessoas que não são nobres. 

— Oh! Tranquilize-se. Hoje essa espécie de discussão não tem razão de ser. Quanto a mim, não me atingem, estou à margem do assunto. 

Por mais pretensiosa que fosse a resposta, a srta. de Fontaine experimentou uma alegria profunda, porquanto, como todas as pessoas apaixonadas, ela interpretou como se interpretam os oráculos, no sentido que se harmonizava com os seus desejos. Voltou para as danças mais satisfeita do que nunca, contemplando Longueville, cujas formas e cuja elegância sobrepujavam talvez as do seu tipo imaginário. Sentiu mais uma satisfação considerando que ele era nobre; seus olhos cintilaram, dançou com todo o prazer que se acha na dança, quando em presença do ser a quem se ama. Nunca os dois namorados se compreenderam melhor do que naquele momento, e, por mais de uma vez, ambos sentiram a extremidade dos dedos fremir e tremer, quando as regras da contradança os uniam. 

Esse belo par chegou aos começos do outono por entre festas e prazeres do campo, deixando-se suavemente levar pela corrente do mais doce sentimento que há na vida, fortificando-o por mil pequenos incidentes que todos podem imaginar. Os amores sempre se parecem em alguns pontos. Quer um, quer outro, estudavam-se reciprocamente na medida em que isso é possível quando se ama. 

— Enfim, nunca um namoro se encaminhou tão prontamente para um casamento de inclinação — dizia o velho tio, que observava os dois jovens, como um naturalista examina um inseto ao microscópio. 

Aquela expressão assustou o sr. e a sra. de Fontaine. O velho vendeano acabou com sua indiferença em relação ao casamento da filha, não obstante a promessa anteriormente feita. Foi a Paris em busca de informações e não as obteve. Inquieto com aquele mistério e não sabendo ainda qual o resultado do inquérito que mandara fazer por um administrador parisiense a respeito da família Longueville, julgou de seu dever prevenir a filha para que andasse com prudência. A observação paterna foi recebida com fingida obediência, na qual havia muita ironia. 

— Pelo menos, Emília, se o amas não lho confesses! 

— É verdade, meu pai, que o amo, mas só lhe confessarei meu amor com a sua autorização. 

— Entretanto, Emília, deves lembrar-te que ignoras ainda tudo o que diz respeito à família dele e à sua situação. 

— Sim, é verdade que ignoro. Mas, papai, o senhor manifestou desejos de me ver casar, deu-me liberdade de escolha; esta já está feita irrevogavelmente, que mais falta? 

— Falta saber, filha, se o homem que escolheste é filho de um par de França — respondeu ironicamente o velho fidalgo. 

Emília ficou um momento calada. Daí a pouco ergueu a cabeça, olhou para o pai e disse-lhe um tanto inquieta: 

— Mas a família Longueville?... 

— Extinguiu-se com o velho duque de Rostein-Limbourg, o qual pereceu no cadafalso em 1793. Era o último descendente do último ramo mais moço. 

— Mas, papai, há ótimas casas que descendem de bastardos. A história de França está cheia de príncipes que punham barras nos seus escudos. [79] 

— Vejo que tuas ideias se têm modificado bastante — disse o velho gentil homem, sorrindo. 

O dia seguinte era o último que a família Fontaine devia passar no pavilhão Planat. Emília, a quem as palavras do pai haviam preocupado muito, esperou com viva impaciência a hora em que o jovem Longueville costumava vir, para dele obter uma explicação. Saiu depois do jantar e foi passear sozinha no parque, dirigindo-se para o pequeno bosque das confidências, onde sabia que o solícito rapaz a iria procurar, e, enquanto caminhava apressadamente, ia pensando no melhor modo de surpreender, sem comprometer-se, tão importante segredo, o que era coisa bastante difícil! Até o momento presente nenhuma declaração direta tinha sancionado o sentimento que a ligava ao desconhecido. Como Maximiliano, ela havia gozado das delícias de um primeiro amor, mas, tão altivos um quanto o outro, parecia que cada um deles tivesse receio de confessar seu amor. 

Maximiliano Longueville, a quem Clara inspirara suspeitas bastante fundamentadas relativamente ao caráter de Emília, via-se, alternativamente, arrastado pela violência de uma paixão de rapaz e retido pelo desejo de conhecer e pôr à prova a mulher a quem deveria confiar sua felicidade. Seu amor não o impedira de verificar em Emília os preconceitos que estragavam aquele jovem caráter; mas desejava saber se era amado por ela antes de os combater, pois não queria arriscar a sorte de seu amor, tampouco a de sua vida. Mantivera-se, pois, constantemente, num silêncio que seus olhares, sua atitude e suas menores ações desmentiam. Por outro lado, o orgulho natural numa moça, aumentado ainda na srta. de Fontaine pela tola vaidade que lhe davam seu nascimento e sua beleza, impediu-a de provocar uma declaração que sua paixão crescente a induzia por vezes a solicitar. Por esse motivo os dois namorados tinham compreendido instintivamente sua situação, sem explicar um ao outro seus secretos motivos. Há momentos na vida em que a indecisão seduz as almas jovens. Pelo próprio fato de terem ambos tardado em falar, parecia que um e outro se compraziam no jogo cruel da sua expectativa. Ele procurava descobrir se era amado através do esforço que uma confissão custaria à amada; ela esperava ver a todo momento quebrado aquele silêncio demasiado respeitoso.

Sentada num banco rústico, Emília rememorava os acontecimentos decorridos naqueles três meses encantadores. As suspeitas manifestadas pelo pai eram os últimos temores que a podiam atingir, e ela própria os suprimiu, mediante dois ou três desses argumentos de rapariga inexperiente, argumentos que lhe pareceram decisivos. Antes de mais nada, conveio consigo mesma ser impossível ter se enganado. Durante toda a estação no campo, não pudera descobrir em Maximiliano nem um único gesto, nem uma só palavra que indicassem uma origem ou ocupações vulgares; muito pelo contrário, seu modo de discutir revelava um homem interessado pelos altos destinos do país. “Ademais”, dizia ela a si mesma, “um homem de escritório, um financeiro ou um comerciante não teria tido lazeres para ficar durante toda uma estação a fazer-me a corte, em pleno campo, à sombra dos matos, deixando o tempo correr, como os nobres que têm por diante uma vida livre de afazeres.” Estava entregue a uma meditação bem mais interessante para ela do que esses pensamentos preliminares quando um leve rumorejar da folhagem fez-lhe saber que fazia algum tempo Maximiliano a estava contemplando, sem dúvida nenhuma, com admiração. 

— Não sabe que é muito malfeito surpreender dessa forma uma moça? — disse-lhe ela sorrindo. 

— Principalmente quando ela está meditando em seus segredos — respondeu Maximiliano, com sutileza. 

— E por que não terei eu os meus? Acaso o senhor não tem os seus? 

— Estava então realmente pensando em seus segredos? — replicou ele rindo. 

— Não, estava pensando nos seus. Os meus, eu os conheço

— Mas — exclamou com ternura o rapaz, tomando o braço de Emília e pondo-o sob o seu — é bem possível que meus segredos sejam os seus, e os seus, os meus! 

Depois de darem alguns passos, chegaram junto a um maciço de arbustos que as tonalidades do acaso envolviam como em uma nuvem vermelha e parda. Essa magia natural imprimiu uma certa solenidade àquele momento. O ato vivo e livre do rapaz e, principalmente, a agitação de seu coração que fervia e cujas pulsações precipitadas falavam ao braço de Emília, atiraram esta numa exaltação tanto mais penetrante quanto não era excitada senão pelos mais simples e inocentes acidentes. A reserva em que vivem as moças da alta sociedade dá uma força incrível às explosões de seus sentimentos e constitui um dos maiores perigos que as podem ameaçar quando encontram um namorado ardentemente apaixonado. Nunca os olhos de Emília e de Maximiliano haviam dito tantas dessas coisas que não se ousam dizer. Empolgados por essa embriaguez, esqueceram com facilidade as pequenas estipulações do orgulho e as frias considerações da desconfiança. Chegaram mesmo a ponto de, no começo, não se poderem exprimir, a não ser por meio de um aperto de mãos que serviu de intérprete dos seus risonhos pensamentos. 

— Senhor, tenho uma pergunta a fazer-lhe — disse a srta. de Fontaine, trêmula e com voz emocionada, depois de um longo silêncio e de ter dado alguns passos com lentidão significativa. — Mas lembre-se, por favor, de que essa pergunta me é imposta de algum modo pela situação bastante estranha em que me vejo em relação à minha família. 

Uma pausa aterradora para Emília sucedeu a essas palavras que ela proferira quase gaguejando. Durante o momento que durou o silêncio, essa moça tão altiva não ousou sustentar o olhar brilhante do homem a quem amava, porquanto tinha um secreto sentimento da baixeza das seguintes palavras que acrescentou: 

— É nobre? Apenas proferidas essas palavras, desejou mergulhar no fundo de um lago. 

— Senhorita — replicou com gravidade Longueville, cujo semblante alterado evidenciou uma espécie de dignidade severa —, prometo-lhe responder sem rodeios a essa pergunta quando a senhora tiver respondido com sinceridade à que lhe vou fazer. 

Soltou o braço da moça, que repentinamente se julgou só na vida. 

— Qual a sua intenção — perguntou ele — ao indagar de meu nascimento? 

Ela permaneceu imóvel, fria e calada. 

— Senhorita, não sigamos adiante se não nos entendemos. Amo-a — acrescentou com voz profunda e enternecida. — E então — disse a seguir, com ar alegre, quando ouviu a exclamação de felicidade que a moça não pôde conter —, por que me pergunta se sou nobre? 

“Falaria ele desse modo se não o fosse?”, exclamou uma voz interior que Emília julgou brotar do fundo do coração. Ergueu graciosamente a cabeça, como que hauriu uma nova vida no olhar do rapaz, e deu-lhe novamente o braço como para pactuar uma nova aliança. 

— O senhor acreditou que eu fazia muita questão de honrarias? — perguntou com maliciosa expressão.

— Não tenho títulos para oferecer à minha mulher — respondeu ele meio sério, meio rindo. — Mas, se a vou buscar numa classe elevada e entre aquelas que a fortuna paterna habituou ao luxo e aos prazeres da opulência, sei bem ao que me obriga essa escolha. O amor — acrescentou ele, alegremente — dá tudo, mas unicamente aos amantes. Quanto aos esposos, precisam de mais alguma coisa do que a cúpula celeste e o tapete dos prados. 

“É rico”, pensou ela. “Quanto aos títulos, talvez seja para me experimentar! Devem ter-lhe dito que tenho a preocupação da nobreza e que eu queria casar-me com um par de França. As hipócritas de minhas irmãs devem ter-me pregado essa peça.” — Asseguro-lhe, senhor — disse em voz alta —, que tive ideias bem exageradas a respeito da vida e da sociedade, mas hoje — continuou ela intencionalmente e lançando-lhe um olhar capaz de o enlouquecer — sei onde estão, para uma mulher, as verdadeiras riquezas. 

— Tenho necessidade de crer que está falando sinceramente — respondeu ele com terna gravidade. — Mas este inverno, querida Emília, talvez daqui a menos de dois meses, sentir-me-ei orgulhoso do que lhe poderei oferecer, se almeja os gozos da fortuna. Será esse o único segredo que conservarei aqui — disse ele apontando para o coração —, pois desse êxito dependerá a minha felicidade, não me animo a dizer a nossa. 

— Oh! Diga, diga! 

Foi por entre ternos murmúrios que, a passos lentos, voltaram para reunir-se no salão. Nunca a srta. de Fontaine achou seu pretendente mais amável nem mais espirituoso; suas formas esbeltas, seus modos insinuantes pareceram-lhe ainda mais encantadores, depois de uma conversação que vinha, de algum modo, confirmar-lhe a posse de um coração digno de ser invejado por todas as mulheres. Cantaram um dueto italiano com tanta expressão que toda a assistência aplaudiu com entusiasmo. A despedida foi feita sob uma aparência convencional que ocultava a felicidade de ambos. Enfim, aquele dia tornou-se para a jovem como uma corrente que a prendia mais estreitamente ainda ao destino do desconhecido. A força e a dignidade que ele demonstrara, na cena em que se haviam revelado seus sentimentos, tinham, talvez, imposto à srta. de Fontaine esse respeito sem o qual não existe verdadeiro amor. Quando ficou só no salão com o pai, o venerável vendeano dirigiu-se a ela, tomou-lhe afetuosamente as mãos e perguntou-lhe se obtivera qualquer esclarecimento a respeito da fortuna e da família do sr. Longueville. 

— Sim, meu querido pai, sou mais feliz do que poderia desejar. Numa palavra, o senhor Longueville é o único homem que me convém para marido. 

— Está bem, Emília, sei o que me resta a fazer. 

— Sabe de algum obstáculo? — perguntou ela com verdadeira ansiedade. 

— Minha querida filha, esse moço é absolutamente desconhecido, mas, a menos que seja um tratante, uma vez que o amas, ele me é tão caro como um filho. 

— Um tratante? — replicou Emília. 

— É coisa que não me passa pela cabeça. Meu tio, que foi quem o apresentou, poderá responder por ele. Diga, querido tio, foi ele alguma vez aventureiro, pirata, corsário? 

— Eu bem vi que ia meter-me nessa — exclamou o velho marinheiro, despertando. 

Percorreu o salão com o olhar, mas a sobrinha tinha desaparecido como um fogo de santelmo, segundo sua expressão habitual. 

— E então, meu tio — indagou o sr. de Fontaine —, como pôde ocultar-nos tudo o que sabia a respeito desse rapaz? Entretanto, deve ter visto a nossa inquietação. O sr. de Longueville é de boa família? 

— Não o conheço nem por parte de Eva nem por parte de Adão! — exclamou o conde de Kergarouët. — Fiando-me no tato dessa louquinha, trouxe-lhe o seu SaintPreux [80] por um meio cá do meu conhecimento. Sei que esse rapaz atira de pistola admiravelmente, caça muito bem, joga bilhar maravilhosamente e também xadrez e gamão; faz esgrima e monta a cavalo como o falecido cavaleiro de SaintGeorges. [81] Tem uma sólida erudição sobre os nossos vinhedos. Calcula como Barême, [82] desenha, dança e canta bem. Com os diabos, que querem mais vocês? Se isso não é um perfeito gentil-homem, mostrem-me um burguês que saiba tudo isso, procurem um homem que viva tão nobremente como ele! Trabalha ele em qualquer coisa? Compromete ele sua dignidade correndo pelas repartições, curvando-se diante desses arrivistas que vocês denominam diretores-gerais? Ele marcha em linha reta. É um homem. Mas, afinal, acabo de encontrar no bolso do meu colete o cartão de visita que ele me deu quando pensou que eu queria cortar-lhe o pescoço, pobre inocente! A mocidade de hoje não é nada esperta. Tome, aqui está. 

— Rue du Sentier, nº 5 — disse o sr. de Fontaine, procurando lembrar-se, entre as informações que recebera, da que se podia referir ao jovem desconhecido. — Que diabo isso pode significar? Os senhores Palma, Werbrust e companhia, cujo negócio principal é o de musselinas, telas de algodão e fazendas estampadas por atacado moram lá. Bem, já sei: Longueville, o deputado, tem interesse na casa. Sim, mas Longueville, pelo que sei, só tem um filho de trinta e dois anos, que não se parece em nada ao nosso e ao qual ele dá cinquenta mil libras de renda, a fim de o fazer casar com a filha de um ministro; como todos, quer ser par de França. Nunca o ouvi falar desse Maximiliano. Terá ele uma filha? Quem é essa Clara? Ademais, qualquer aventureiro pode chamar-se Longueville. Mas a casa Palma, Werbrust e companhia não está meio arruinada por uma especulação no México ou na Índia? Vou esclarecer isso tudo. 

— Estás falando sozinho como se estivesses num teatro e pareces considerar-me um zero — disse o velho marujo, de repente. — Não sabes acaso que se ele é gentil-homem tenho nas minhas escotilhas mais de um fardo para compensar a sua falta de fortuna? 

— Quanto a isso, se ele é filho de Longueville, não precisa de nada; mas — continuou o sr. de Fontaine meneando a cabeça — o pai dele nem sequer comprou sabão para começar a tirar a casca de plebeu. [83] Antes da Revolução ele era procurador, e o “de” que ele agregou ao nome depois da Restauração pertence-lhe tanto como a metade da fortuna que tem. 

— Ora, ora! Felizes aqueles cujos pais foram enforcados — exclamou alegremente o marujo.




Continua...



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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.

Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844.[1] Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).

Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava.[1] De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850. 
          A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac;                            orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São                  Paulo: Globo, 2012. 

          (A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1                    0.000 kb; ePUB 

1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série. 

12-13086                                                                               cdd-843 

Índices para catálogo sistemático: 
1. Romances: Literatura francesa 843

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[79]Príncipes que punham barras nos seus escudos: a barra ou contrabanda era usada para denotar bastardia. Consiste num listão que atravessa diagonalmente o escudo, do ângulo superior esquerdo para a direita da ponta. 
[80]Saint-Preux: herói da Nova Heloísa de Rousseau, é o tipo do amante apaixonado. 
[81]O cavaleiro de Saint-Georges: personagem real, era um homem de cor, de estatura imponente e feições bonitas, capitão de guardas, muito popular, principalmente por sua habilidade na música e na esgrima. Na novela anterior, no entanto, o sr. Guillaume se queixa das peças que ele pregou à casa “Chat-qui-pelote”, deixando de pagar as fazendas que lá comprara. 
[82]Barême era o autor de um livro de cálculos já prontos, publicado em 1670, e que se tornou tão popular que o nome do autor ficou, na língua, como substantivo comum para designar qualquer livrinho de cálculos feitos, de uso prático. 
[83] Sabão para tirar a casca de plebeu: tradução da conhecida expressão francesa “savonnette à vilain”, que servia para designar certos cargos acessíveis aos parvenus, mediante pagamento e comprados por estes para se enobrecerem e apagarem a mancha de sua origem modesta. 


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Leia também:






Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada - Ao "Chat-Qui-Pelote" (fim)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (01)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (02)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (03)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (04)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (05)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (07)