sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Elis - Me Deixas Loucooooo

Me Deixas Louca




"O lendário clipe do Fantástico que foi vetado pela Globo"









Quando caminho pela rua lado a lado com você
Me deixas louca
E quando escuto o som alegre do teu riso
Que me dá tanta alegria
Me deixas louca

Me deixas louca quando vejo mais um dia
Pouco a pouco entardecer
E chega a hora de ir pro quarto escutar
As coisas lindas que começas a dizer
Me deixas louca

Quando me pedes por favor que nossa lâmpada se apague
Me deixas louca
Quando transmites o calor de tuas mãos
Pro meu corpo que te espera
Me deixas louca

E quando sinto que teus braços se cruzaram em minhas costas
Desaparecem as palavras
Outros sons enchem o espaço
Você me abraça, a noite passa
E me deixas louca




"quando ela sorri, olhando a câmera, estou sorrindo daqui também..."










inteligente politizada sensível... amava o que fazia e fazia muito bem






Composição: Armando Manzanero 
Versão: Paulo Coelho 
Ano: 1981

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Raul Seixas - O início, o Fim e o Meio

Uma lenda...
e sobre lendas não se contam histórias, elas são as histórias



Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar



Ouro de tolo





Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome
Por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "E daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social

Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador

Ah!
Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador



O início, o Fim e o Meio







Raul Seixas- ao vivo Praia do Gonzaga-Santos
13 fevereiro 1982



sábado, 16 de outubro de 2021

O Brasil Nação - V2: § 87 – Da materialidade à corrupção integral - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil Nação volume 2



SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


capítulo 8


A Revolução Republicana



§ 87 – Da materialidade à corrupção integral



Fechada na concepção de riqueza, com a inspiração soberana da prosperidade material, a gerência republicana acabou em processos consentâneos da materialidade, e que deram em decomposição moral, sucumbindo até aquela tradição de desinteresse, plantada na política nacional com os Andradas, Feijó, Lino Coutinho... com a intransigente limpeza de mãos, constante até ontem. Limitados ao influxo da mentalidade política portuguesa, os que tentaram fazer a soberania nacional brasileira acharam-se prisioneiros dessa mesma mentalidade, mas o coração era-lhes livre, naturalmente adverso ao influxo de imoralidade em que se caracterizara a gestão da metrópole. E foi assim que tivemos, naqueles primeiros tempos, a torpe improbidade pecuniária do Conde dos Arcos, Barbacena, José Clemente, Ledo, Carneiro, o próprio Pedro I, a contrastar com a rigidez de honestidade trazida ao governo pelos Andradas, e que se impôs ao mesmo Vilela Barbosa, para ser intransigente virtude em Feijó e os companheiros, até constituir-se em indefectível tradição ao longo de todo o segundo Império. Aí, porém, lavrava a corrupção em toda a vida política, afrouxando-se tanto as molas da moralidade que, finalmente, já era efeito imediato da honestidade pessoal do monarca, por dignidade íntima, um tanto calculada, talvez. Era preciso isto, em todo caso, para conservar-se a tradicional limpeza de mão dos homens de governo. E tanto que, retirado esse último freio, a política nacional veio até a integral impureza. Nos primeiros tempos, um Floriano ainda foi a imaculada figura, não suspeitada nem pelos mais encarniçados e odientos adversários. Mas, este mesmo, em atos e gestos bem explícitos, já teve necessidade de atacar e descascar a improbidade de homens públicos, emporcalhados em dinheirices. No alto posto, destacados na posição, nos primeiros tempos da República, a maior parte dos políticos terá sido de limpos, por timidez, cálculo, ou mesmo honestidade essencial. E não tardou, porém, que a vida política decaísse, com o espetáculo de cupidez que vai até a desonestidade qualificada, até a concussão manifesta.

E
 a gerência republicana se faz como ruptura de todos os diques de moralidade, para a torrente de bandalheiras, maior fecundidade do regime. Nem podia ser de outro modo. Sem chama de ideal, sem qualquer outra concepção de grandeza além da pujança material; na nulidade das exigências morais, incaracterizados para as formas de dignidade pessoal, com a identidade de apetites; quando os antagonismos são raros grunhidos em ameaça ao que comeu demais, os profissionais da governança oligárquica tinham que chegar a isto, que já é a confessada corrupção de todos os processos em uso, franco desbarato de reputações. Em verdade, a política atual ostenta-se num repugnante repasto de suínos: a lavagem-ração, que focinhos vorazes revolvem à cata do mais sólido e mais volumoso, para os molares a que nada resiste e que de nada refugam. Sobe o fartum, tresanda o azedume, e as mandíbulas mais trituram, para a insaciável deglutição. Contemplem-se as chamadas campanhas políticas: disputas enfezadas, fúria de vilipêndio, no galgar o poder, para onde avançam faces escancaradas, ou o olhar lampejante, de quem antevê a comezaina. Ambição de gozo rasteiro, cegueira na paixão de poderio, levam-lhe as almas nesses mesmos instantes que parecem de desprendida luta. E marcham sem embaraços de escrúpulos, indiferentes ao asco, sem hesitações de lealdade, através de todos os contatos... No mais, no normal da carreira, passam ao influxo da máxima universalmente aceita: Não firas, não te atormentes, não lutes, não propugnes!... Busca o que comer... Vê onde há o que tirar, tira!... Só há uma inferioridade – a mesquinhez de meios... Então, a grande e essencial ambição cabe num caderno de cheques, e a dignidade maior leva-se numa limousine. O clássico adoequatio rei et intelectus traduziu-se como aproveitar e encher, porque dissolvida a política no dinheiro, desnudada a miséria mental, já não há vileza que os acabrunhe: qualquer que seja a crosta imunda a romper, levam-lhe as mãos, e trazem o bocado. Orgulho de si mesmo, um dos donos, fala da causa como política sem rancores e sem prevenções, numa pátria destinada a realizar o sonho da fraternidade humana... Também a bacorinhada no cocho é de irmãos... e, empanzinada, sonha, o seu sonho de fartura...

De transigências e conluios, os políticos republicanos passaram naturalmente a traficâncias, preço do prestígio falso em que se elevam como chefes rapaces, de um oligarquismo cruamente parasitário. Na contemplação da vida pública, pensa-se numa ceva de salteadores covardes, ladrões que se aproveitassem de um desastre para instância das suas façanhas. Quando se irritam da desigualdade na partilha, é o espetáculo das retaliações entre quadrilheiros desleais na própria quadrilha. Sim: numa política de despudorado assalto às posições, os mais ousados se confundem, a cada passo, com os assaltantes apanhados pela polícia. A própria carreira de politicagem se faz em estágios bem-definidos: garantir o estômago a coberto de esforços, acima da incapacidade pessoal; dar emprego aos da família, igualmente incapazes; fazer negociata em arredondadas quantias; alcançar o poder incontrastável, superior a tudo, até a moral. E o povo já não pode separar, em cada um deles, no conjunto da vida, o que é crapulismo político da conduta pessoal. A nação sente-se vencida nas suas resistências orgânicas, depauperada nessa desenvolvida rapacidade, cuja realidade lhe é oferecida ao liquidarem-se os quadriênios, em exposições financeiras que são traslados de falências morais. Estas páginas se multiplicariam em volumes, se fora para transcrever quanto provadamente tem sido referido de desonestas negociatas, cujo líquido vai, em uma boa parte, para o bolso dos grandes prestígios políticos. Já ninguém se espanta do faminto da véspera, hoje montado na fortuna, graças a qualquer parentesco de acaso, numa qualquer das touceiras oligárquicas. Pobretões de ontem, ou de anteontem, ei-los, quase todos, em ostensiva abastança, quando não preclara riqueza. Aquela orgulhosa pobreza, que uma tradição extinta ligava ao nome de republicano – Feijó... Floriano; tal seria descrédito nesta República de afortunados e de endinheirados. A origem das súbitas abastanças, ninguém a pede. Quando se admitia a geração espontânea, era nas infusões podres que ela se dava: quem negará que a política republicana está em grau de geração espontânea?... O Brasil é uma terra de paz, e o povo está convencido de que, quaisquer outros que venham será para pior ainda; então, tapa as narinas, e deixa para aí a decomposição. Os oligarcas de acaso fazem do mando prestígio: empoleirados, pregam os filhos nos altos bons lugares, fomentam os bons negócios para os genros, e não esquecem os mais parentes. É a solidariedade de sangue, essencial, primitiva... Quando os ratos tiverem uma política será certamente, assim, nesse padrão.

Os nomes e o concreto dos fatos nada mais provariam, quando a generalidade da ignomínia já é convicção na consciência de todos. E se o intuito aqui é o de achar remédio para a miséria, mais vale evitar o escândalo da menção literal, em particularizações que seriam, nesta queda de tônus moral, para mais desmoralização. Todavia, se um caso pode ser expressão bastante da conjunta degradação, é dever citá-lo, sobretudo porque ele tem a significação de um símbolo; foi a negociata a que a voz oficial chamou de o maior escândalo do mundo. Pois bem, os negociadores desse maior escândalo do mundo eram da judicatura, e fizeram o seu ninho no seio da suprema corte de justiça da República. Todos sabemos que há ali juízes pessoalmente impecáveis; é possível, mesmo, que nenhum dos juízes-ministros tenha sentido o contato da dinheirama da nação, roubado daquele canal: nem por isso é menos simbólico – aquele recinto convertido em caverna. E a probidade individual do juiz perde significação nessa preamar, que, afogando todos os escrúpulos, fez de um serviço do Tribunal o pretexto de escândalo arranjado às escancaras, sem que ninguém, dos que faziam o prestígio do mesmo Tribunal, contra o escândalo protestasse. Houve que vedar o escândalo anulado, de fato, pela desproporção do saque, que já não podia passar no orçamento. O Estado fez confiscar o que tinha sido fraudado – dezenas de milhares de contos, a título de publicação de atos do Tribunal... E ficou nisso, livres os negociadores, com o que ainda lhes ficou pelos dedos, de acionarem o Estado, para reaver o confisco...

O ostensivo e livre desfrutar da economia da nação, essa política converteu o Estado em multiplicada manjedoura, onde todo provento é forragem, para a ração que desafia o asco, e cuja contemplação trava o pensamento, com a emoção, que é dó, revolta, ódio, lancinante compaixão, desespero... No reflexo desta miséria sobre a vida ambiente, criaram-se as gírias correntes – pirata, cavação, bancar, comer, transação... para dizer tudo em que a vida comum repete a política geral, percebida numa criadagem infiel, a espiar, delatar, trair, roubar... no espetáculo de uma trama viva, de larvas entre bolores.

Como implícita justificação, os nossos politiqueiros fazem correr a fama da desmoralização dos homens políticos, todos a explorarem o poder em proveito próprio... Só a inteira ignorância, refinada em má-fé, poderia sustentar que os homens de governo, nas verdadeiras democracias – Inglaterra, França, Estados Unidos... sejam criaturas que consentissem sujar a reputação em negócios escusos. Não que a alma do político profissional não seja a mesma – vendida ao sucesso; mas, por toda parte onde há opinião pública, necessária sanção do sucesso, os políticos definidores, os homens de governo, são rigorosamente limpos de mãos. Quando haviam suspeitado de Lloyd George, o temível político a desafiar adversários pôde francamente patentear a lisura da sua conduta em negócios de dinheiro; Caillaux, na insofismável situação de quem, em plena guerra, é suspeito de conivência com o inimigo, a tratar com adversários temíveis e implacáveis, se não pôde livrar-se da condenação, acintosamente acusado de enriquecimento, demonstrou irrecusavelmente, aos mesmos inimigos, a pureza dos seus haveres, apenas herdados. Ali mesmo, o tenaz perseguidor de Caillaux, Clemenceau, nunca poupado, mais de uma vez apontado como amigo dos ingleses, meio século de culminante prestígio político, chefe de governo, ou oposição, a tombar ministérios; é o intelectual que tem de escrevinhar em jornais para fazer recursos de vida e habitar o modestíssimo rés do chão da Rua Franklin, cuja melhor ornamentação são as belíssimas fotografias da Acrópole, que lhe circundam a sala de trabalho. Nos Estados Unidos, o país dos dólares vencedores, onde negócio é soberano, a minar todos os veios, a política governamental tem tratado sempre de ser inacessível ao poder da corrupção. Pouco importa um Melon, ou um Hughes, arquimilionários chamados à confiança do chefe da nação: aí, governo, eles isolam-se completamente da burra onde capitalizam para a honra superior de gerir os negócios do Estado. E, tanto, que um puro homem de ciência, puro em tudo, puro principalmente na política, Wiliam James, num livro de pura ciência, a dar um exemplo de processos psíquicos, o sentimento de honra, deixa a fórmula, ali invariável: “Um juiz, um homem de Estado devem à honra da sua toga não misturar-se a negócios de dinheiro, perfeitamente compatíveis com a honra dos simples particulares”.[1] Sim: há uma consciência pública, e, na formidável disputa democrática das posições, ai daquele que desliza!... O adversário o precipita sem contemplações... Agora mesmo, com o banco dos réus para o ministro que consentiu no assalto às reservas do petróleo...


[1] Psycikigy, I, cap. XII.

Neste particular, apodrecemos totalmente, quando nos Estados realmente democráticos ainda subsiste um cerne inacessível à corrupção. É destino do Brasil, em vista da péssima qualidade dos dirigentes, haver, da civilização, os males e vícios em que ela degenera, antes de aproveitar as vantagens e benefícios que nela se encontram. Apodrecemos, antes de feitos. Quando Roma começa a corromper-se, Momsen, sem hesitação, define-lhe a causa: “... Por sobre, tudo, a essencial imoralidade, inerente a um regime de puro capital, devorava o coração da sociedade e da República, e substituía os sentimentos de humanidade e patriotismo por um absoluto egoísmo”.[2] Aqui, se as riquezas ainda são vasqueiras, a respectiva corrupção já vai alastrada e profunda. É certo que ainda não há uma potente concentração de capitais brasileiros, mas já nos alcançaram, agravadas em abandono, as mazelas e penas que formam a atmosfera do capitalismo. Somos um dos países de escolha do capital cosmopolita, o mais implacável, aqui desinteressado de tudo que não seja a crua espoliação, no caso, mais privilegiado que o capital nacional de qualquer dos pujantes e infelizes povos ricos. Convencidos de uma só superioridade, a riqueza e grandeza material, ansiosos de fartas receitas, que formam o seu uso-fruto, os nossos dirigentes fazem todas as facilidades ao capital estrangeiro, que seja francamente o senhor, contanto que venha, e não tenha cerimônias, nem hesite na espoliação e no domínio, ainda que, finalmente, venha a constituir-se dreno de toda a economia nacional, um Estado no Estado, em incontrastável tirania.

[2] Op. cit., III, 337.

E aí estão as arquipotentes, como arquissugadoras, empresas estrangeiras, a que foram deixados os mais importantes e rentosos serviços públicos municipais dos principais centros urbanos do país, inclusive as grandes capitais – Rio-São Paulo. De fato, Bond and chair, Light and Power, são senhoras incontrastáveis da parte mais povoada, mais rica do Brasil. A receita das duas é mais forte que a do Estado – União. Força, luz, transportes, gás, águas... tudo está nas suas gavetas. É bem de ver que tal desenfreio de exploração não seria possível se as poderosas empresas não conhecessem os meios próprios a obter que os nossos dirigentes não lhes contivessem a ganância, e se os não empregassem bem a propósito. Quem poderá dizer quantos aparentados de políticos prestigiosos são nominalmente empregados da Light?... e da Bond and Chair... O já citado universitário americano, Coolidge, falando do ponto de vista americano, houve de consignar, todavia, que no Porto Rico, já a legislação teve de intervir para proteger a população contra a exploração das empresas congêneres, que por lá funcionam. Aqui, essas empresas ganharam até a imprensa, com voz, apenas, para cantar a perfeição dos serviços em que os cariocas são sugados pelas multiplicadas hirudíneas. Desse coro participa a própria imprensa independente.

Sim: à medida que a política republicana mergulhava na ignomínia, surgia uma imprensa independente, vingadora do brio nacional. E foi de ver como o brio vingador aproveitava das misérias vingadas. O escândalo como programa-chamariz veio a ser a nudez de ignomínias em que tudo se desmoralizou. Vendido A., ladrão B., concussionário F... e F., B., A., mesmo quando não fossem bem exatas as acusações, já definitivamente vilipendiados, emudeciam, na inutilidade de qualquer defesa, ou alegavam calúnia. Para o público, já afrontado com os atos menos lisos, a deslavada campanha de impropérios era a mesma escola de desmoralização. O tom exclusivamente pessoal das críticas; a ausência de qualquer critério – moral, político, ou social, nas odientas acusações; a sensível nota de despeito, inveja, maldade; a inclemência dos ataques no viso patente do escândalo interesseiro; tudo tornava absolutamente suspeita a mesma imprensa, absolutamente ineficaz para curar a política periclitante, e que, também, já era escândalo. E, assim, como decaía a política, avolumava a tiragem da imprensa que, em escândalo, explorava os escândalos dos dirigentes. Se a política se tornava um balcão, a imprensa vingadora estendia-lhe em face o balcão do anúncio, tão ufano sobre ela como a corrupção governamental sobre a outra imprensa. E, agora, se cotejamos – jornal submetido ao balcão do anúncio e jornal submisso, a mando do governo, só se destaca, para pior o que tanto depende do governo como aceita a brida do anúncio. Então, entre balcão e interesses governamentais, como haver campanhas realmente purificantes, em vista da simples justiça, que não subvenciona, nem anuncia?...






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"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira

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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).


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Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-ii-manoel-bonfim/


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Leia também:

O Brasil nação - v1: Prefácio - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário
O Brasil Nação - v2: Prefácio - Manoel Bomfim, o educador revolucionário (fim)
O Brasil Nação - v2: § 50 – O poeta - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 51 – O influxo da poesia nacional - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 52 – De Gonçalves Dias a Casimiro de Abreu... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 53 – Álvares de Azevedo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 54 – O lirismo brasileiro - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 55 – De Casimiro de Abreu a Varela - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 56 – O último romântico - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 57 – Romanticamente patriotas - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 58 – O indianismo - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 59 – O novo ânimo revolucionário - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 60 – Incruentas e falhas... - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 61 – A Abolição: a tradição brasileira para com os escravos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 62 – Infla o Império sobre a escravidão - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 63 – O movimento nacional em favor dos escravizados - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 65 – Os escravocratas submergidos - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 66 – Abolição e República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana (2) - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 68 – A revolução para a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 69 – Mais Dejanira... e nova túnica - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - v2: § 70 – A farda na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 71 – O positivismo na República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 72 – A reação contra a República - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73 – A Federação brasileira - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 73-a – Significação da tradição de classe  - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 74 – A descendência de Coimbra - Manoel Bomfim
O Brasil Nação - V2: § 75 – Ordem... - Manoel Bomfim

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

OS SERTÕES, Euclides da Cunha - O Homem: III ... Tradições

OS SERTÕES 


Euclides da Cunha

Volume 1



O HOMEM




Tradições

Volvem os vaqueiros ao pouso e ali, nas redes bamboantes, relatando as peripécias da vaquejada ou famosas aventuras de feira, passam as horas matando, na significação completa do termo, o tempo, e desalterando-se com a umbuzada saborosíssima, ou merendando a iguaria incomparável de jerimum com leite.

Se a quadra é propícia, e vão bem as plantações da vazante, e viça o panasco e o mimoso nas soltas dilatadas, e nada revela o aparecimento da seca, refinam a ociosidade nos braços da preguiça benfazeja. Seguem para as vilas se por lá se fazem festas de cavalhadas e mouramas, divertimentos anacrônicos que os povoados sertanejos reproduzem, intactos, com os mesmos programas de há três séculos. E entre eles a exótica encamisada, que é o mais curioso exemplo do aferro às mais remotas tradições. Velhíssima cópia das vetustas quadras dos fossados ou arrancadas noturnas, na Península, contra os castelos árabes, e de todo esquecida na terra onde nasceu, onde a sua mesma significação é hoje inusitado arcaísmo, esta diversão dispendiosa e interessante, feita à luz de lanternas e archotes, com os seus longos cortejos de homens a pé, vestidos de branco, ou à maneira de muçulmanos, e outros a cavalo em animais estranhamente ajaezados, desfilando rápidos, em escaramuças e simulados recontros, é o encanto máximo dos matutos folgazãos.



Danças

Nem todos, porém, a compartem. Baldos de recursos para se alongarem das rancharias, agitam-se, então, nos folguedos costumeiros. Encourados de novo, seguem para os sambas e cateretês ruidosos, os solteiros, famanazes no desafio, sobraçando os machetes, que vibram no choradinho ou baião, e os casados levando toda a obrigação, a família. Nas choupanas em festas recebem-se os convivas com estrepitosas salvas de rouqueiras e como em geral não há espaço para tantos, arma-se fora, no terreiro varrido, revestido de ramagens, mobiliado de cepos, e troncos, e raros tamboretes, mais imenso, alumiado pelo luar e pelas estrelas, o salão do baile. Despontam o dia com uns largos tragos de aguardente, a teimosa. E rompem estridulamente os sapateados vivos.

Um cabra destalado ralha na viola. Serenam, em vagarosos meneios, as cablocas bonitas. Revoluteia, “brabo e corado”, o sertanejo moço.



Desafios

Nos intervalos travam-se os desafios.

Enterreiram-se, adversários, dous cantores rudes. As rimas saltam e casam-se em quadras muita vez belíssimas.

Nas horas de Deus, amém,
Não é zombaria, não!
Desafio o mundo inteiro
Pra cantar nesta função!

O adversário retruca logo, levantando-lhe o último verso da quadra:

Pra cantar nesta função,
Amigo, meu camarada,
Aceita teu desafio
O fama deste sertão!

É o começo da luta que só termina quando um dos bardos se engasga numa rima difícil e titubeia, repinicando nervosamente o machete, sob uma avalanche de risos saudando-lhe a derrota. E a noite vai deslizando rápida no folguedo que se generaliza, até que as barras venham quebrando e cantem as sericóias nas ipueiras, dando o sinal de debandar ao agrupamento folgazão.

Terminada a festa volvem os vaqueiros à tarefa rude ou à rede preguiçosa.

Alguns, de ano em ano, arrancam dos pousos tranquilos para remotas paragens. Transpõem o S. Francisco; mergulham nos gerais enormes do ocidente, vastos planaltos indefinidos em que se confundem as bacias daquele e do Tocantins em alagados de onde partem os rios indiferentemente para o levante e para o poente, e penetram em Goiás, ou, avantajando-se mais para o norte, as serras do Piauí.

Vão à compra de gados. Aqueles lugares longínquos, pobres e obscuros vilarejos que o Porto Nacional extrema, animam-se, então, passageiramente, com a romaria dos baianos. São os autocratas das feiras. Dentro da armadura de couro, galhardos, brandindo a guiada, sobre os cavalos ariscos, entram naqueles vilarejos com um desgarre atrevido de triunfadores felizes. E ao tornarem — quando não se perdem para todo o sempre sem tino na travessia perigosa dos descampados uniformes — reatam a mesma vida monótona e primitiva...

De repente, uma variante trágica.

Aproxima-se a seca.

O sertanejo adivinha-se e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo.

Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará.

Buckle, em página notável, assinala a anomalia de se não afeiçoar nunca, o homem, às calamidades naturais que o rodeiam. Nenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano; e no Peru as crianças ao nascerem têm o berço embalado pelas vibrações da terra.

Mas o nosso sertanejo faz exceção à regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estoico. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível.

Com os escassos recursos das próprias observações e das dos seus maiores, em que ensinamentos práticos se misturam a extravagantes crendices, tem procurado estudar o mal, para o conhecer, suportar e suplantar. Aparelha-se com singular serenidade para a luta. Dous ou três meses antes do solstício de verão, especa e fortalece os muros dos açudes, ou limpa as cacimbas. Faz os roçados e arregoa as estreitas faixas de solo arável à orla dos ribeirões. Está preparado para as plantações ligeiras à vinda das primeiras chuvas.

Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas, atenta longamente nos quadrantes; e perquire os traços mais fugitivos das paisagens...

Os sintomas do flagelo despontam-lhe, então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as “chuvas do caju” em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... Do mesmo passo nota que os dias, estuando logo ao alvorecer, transcorrem abrasantes, à medida que as noites se vão tornando cada vez mais frias. A atmosfera absorve-lhe, com avidez de esponja, o suor na fronte, enquanto a armadura de couro, sem mais a flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos ombros, esturrada, rígida, feito uma couraça de bronze. E ao descer das tardes, dia a dia menores e sem crepúsculos, considera, entristecido, nos ares, em bandos, as primeiras aves emigrantes, transvoando a outros climas...

É o prelúdio da sua desgraça.

Vê-o, acentuar-se, num crescendo, até dezembro.

Precautela-se: revista, apreensivo, as malhadas. Percorre os logradouros longos. Procura entre as chapadas que se esterilizam várzeas mais benignas para onde tange os rebanhos. E espera, resignado, o dia 13 daquele mês. Porque em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a Providência.

É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo.

Esta experiência é belíssima. Em que pese ao estigma supersticioso tem base positiva, e é aceitável desde que se considere que dela se colhe a maior ou menor dosagem de vapor d’água nos ares, e, dedutivamente, maiores ou menores probabilidades de depressões barométricas, capazes de atrair o afluxo das chuvas.

Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de S. José, 19 de março, procura novo augúrio, o último.

Aquele dia é para ele o índice dos meses subsequentes. Retrata-lhe, abreviadas em doze horas, todas as alternativas climáticas vindouras. Se durante ele chove, será chuvoso o inverno; se, ao contrário, o Sol atravessa abrasadoramente o firmamento claro, estão por terra todas as suas esperanças.

A seca é inevitável.



Insulamento no deserto

Então se transfigura. Não é mais o indolente incorrigível ou o impulsivo violento, vivendo às disparadas pelos arrastadores. Transcende a sua situação rudimentar. Resignado e tenaz, com a placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoercível; e reage. O heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas. Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém descreve — a insurreição da terra contra o homem. A princípio este reza, olhos postos na altura. O seu primeiro amparo é a fé religiosa. Sobraçando os santos milagreiros, cruzes alçadas, andores erguidos, bandeiras do Divino ruflando, lá se vão, descampados em fora, famílias inteiras — não já os fortes e sadios senão os próprios velhos combalidos e enfermos claudicantes, carregando aos ombros e à cabeça as pedras dos caminhos, mudando os santos de uns para outros lugares. Ecoam largos dias, monótonas, pelos ermos, por onde passam as lentas procissões propiciatórias, as ladainhas tristes. Rebrilham longas noites nas chapadas, pervagantes, as velas dos penitentes... Mas os céus persistem sinistramente claros; o sol fulmina a terra; progride o espasmo assombrador da seca. O matuto considera a prole apavorada; contempla entristecido os bois sucumbidos, que se agrupam sobre as fundagens das ipueiras, ou, ao longe, em grupos erradios e lentos, pescoços dobrados, acaroados com o chão, em mugidos prantivos “farejando a água”; — e sem que se lhe amorteça a crença, sem duvidar da Providência que o esmaga. Murmurando às mesmas horas as preces costumeiras, apresta-se ao sacrifício. Arremete de alvião e enxada com a terra, buscando nos estratos inferiores a água que fugiu da superfície. Atinge-os às vezes; outras, após enormes fadigas, esbarra em uma lajem que lhe anula todo o esforço despendido; e outras vezes, o que é mais corrente, depois de desvendar tênue lençol líquido subterrâneo, o vê desaparecer um, dous dias passados, evaporando-se sugado pelo solo. Acompanha-o tenazmente, reprofundando a mina, em cata do tesouro fugitivo. Volve, por fim, exausto, à beira da própria cova que abriu, feito um desenterrado. Mas como frugalidade rara lhe permite passar os dias com alguns manelos de paçoca, não lhe afrouxa, tão de pronto, o ânimo.

Ali está, em torno, a caatinga, o seu celeiro agreste. Esquadrinha-o. Talha em pedaços os mandacarus que desalteram, ou as ramas verdoengas dos juazeiros que alimentam os magros bois famintos; derruba os estípites dos ouricuris e rala-os, amassa-os, cozinha-os, fazendo um pão sinistro, o bró, que incha os ventres num enfarte ilusório, empanzinando o faminto: atesta os jiraus de coquilhos; arranca as raízes túmidas dos umbuzeiros, que lhe dessedentam os filhos, reservando para si o sumo adstringente dos cladódios do xiquexique, que enrouquece ou extingue a voz de quem o bebe, e demasia-se em trabalhos, apelando infatigável para todos os recursos, — forte e carinhoso — defendendo-se e estendendo à prole abatida e aos rebanhos confiados a energia sobre-humana.

Baldam-se-lhe, porém, os esforços.

A natureza não o combate apenas com o deserto. Povoa-a, contrastando com a fuga das seriemas, que emigram para outros tabuleiros e jandaias, que fogem para o litoral remoto, uma fauna cruel. Miríades de morcegos agravam a magrém, abatendo-se sobre o gado, dizimando-o. Chocalham as cascavéis, inúmeras, tanto mais numerosas quanto mais ardente o estio, entre as macegas recrestadas.

À noite, a suçuarana traiçoeira e ladra, que lhe rouba os bezerros e os novilhos, vem beirar a sua rancharia pobre.

É mais um inimigo a suplantar.

Afugenta-a e espanta-a, precipitando-se com um tição aceso no terreiro deserto. E se ela não recua, assalta-a. Mas não a tiro, porque sabe que desviada a mira, ou pouco eficaz o chumbo, a onça, “vindo em cima da fumaça”, é invencível.

O pugilato é mais comovente. O atleta enfraquecido, tendo à mão esquerda a forquilha e à direita a faca, irrita e desafia a fera, provoca-lhe o bote e apara-a no ar, trespassando-a de um golpe.

Nem sempre, porém, pode aventurar-se à façanha arriscada. Uma moléstia extravagante completa a sua desdita — a hemeralopia. Esta falsa cegueira é paradoxalmente feita pelas reações da luz; nasce dos dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo ondular dos ares em fogo sobre a terra nua. É uma pletora do olhar. Mal o sol se esconde no poente a vítima nada mais vê. Está cega. A noite afoga-a, de súbito, antes de envolver a terra. E na manhã seguinte a vista extinta lhe revive, acendendo-se no primeiro lampejo do levante, para se apagar, de novo, à tarde, com intermitência dolorosa.

Renasce-lhe com ela a energia. Ainda se não considera vencido. Restam-lhe, para desalterar e sustentar os filhos, os talos tenros, os mangarás das bromélias selvagens. Ilude-os com essas iguarias bárbaras.

Segue, a pé agora, porque se lhe parte o coração só de olhar para o cavalo, para os logradouros. Contempla ali a ruína da fazenda: bois espectrais, vivos não se sabe como, caídos sob as árvores mortas, mal soerguendo o arcabouço murcho sobre as pernas secas, marchando vagarosamente, cambaleantes; bois mortos há dias e intactos, que os próprios urubus rejeitam, porque não rompem a bicadas as suas peles esturradas; bois jururus, em roda da clareira de chão entorroado onde foi a aguada predileta; e, o que mais lhe dói, os que ainda não de todo exaustos o procuram, e o circundam, confiantes, urrando em longo apelo triste que parece um choro.

E nem um cereus avulta mais em torno; foram ruminadas as últimas ramas verdes dos juás...

Trançam-se, porém, ao lado, impenetráveis renques de macambiras. É ainda um recurso. Incendeia-os, batendo o isqueiro nas acendalhas das folhas ressequidas para os despir, em combustão rápida, dos espinhos. E quando os rolos de fumo se enovelam e se diluem no ar puríssimo, vêem-se, correndo de todos os lados, em tropel moroso de estropiados, os magros bois famintos, em busca do último repasto...

Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo assoberbado de reveses, dobra-se afinal.

Passa certo dia, à sua porta, a primeira turma de “retirantes”. Vê-a, assombrado, atravessar o terreiro, miseranda, desaparecendo adiante, numa nuvem de poeira, na curva do caminho... No outro dia, outra. E outras. É o sertão que se esvazia.

Não resiste mais. Amatula-se num daqueles bandos, que lá se vão caminho em fora, debruando de ossadas as veredas, e lá se vai ele no êxodo penosíssimo para a costa, para as serras distantes, para quaisquer lugares onde o não mate o elemento primordial da vida.

Atinge-os. Salva-se.

Passam-se meses. Acaba-se o flagelo. Ei-lo de volta. Vence-o saudade do sertão. Remigra. E torna feliz, revigorando, cantando; esquecido de infortúnios, buscando as mesmas horas passageiras da ventura perdidiça e instável, os mesmos dias longos de transes e provações demorados.


continua 058...


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Os Sertões, de Euclides da Cunha

Fonte: CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante). 

Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.


parábolas de uma professora: acertou, ele mesmo...

 parábolas de uma professora



acertou, ele mesmo...
Ensaio 017B – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




não há isenção em nada do que fazemos; não acredito em destino, mas na escolha de menosprezar ou não as pessoas, o monólogo da dominação é tentador, ele se repete não como se a história estivesse se repetindo, ele se replica como erros que não conseguimos evitar; assim, temos nazistas e fascistas revigorados em nosso convívio, parecemos sempre perdendo as vidas humanas dos sonhos para vaidades e intolerância

O momento merece uma pequena reflexão se o senhor me permite, o Paulo continua disposto a ir ao passado para voltar ao presente, não existe o agora sem o que aconteceu antes, a Educação Moral e Cívica e a OSPB surgiram em contextos de pura “ideologia neutra”, portanto, jamais foram, ou como requer o querido professor, nunca foram disciplinas neutras. Inclusive, no período da ditadura cívico-militar, foram utilizadas para diminuírem o ensino da História e da Geografia, que tinham uma posição de criar um pensamento crítico nos alunos e alunas. Alguma similaridade com os dias atuais? Uma cópia autenticada do passado da educação e a desconstrução do pensamento crítico.

E vocês acreditam nessa baboseira de direitos políticos e a identidade que o trabalho dá ao trabalhador ralé? O pobre se serve do trabalho para sobreviver! Não está interessado em direitos políticos, essa gente só quer comer, mesmo que sejam ossos, farelo ou pés de galinha! Sobreviver, essa é a urgência!

Mas então, Cabayba, não entendo essa sua contradição, esse seu discurso contra a alimentação na escola...

Eu não sou contra, apenas afirmo que a prioridade dessa gente não é estudar, é comer! É quando concordo com o Rodolfo, a identidade com o trabalho é a identidade da sobrevivência, “Não gosto do que faço, mas preciso levar o pão pra mesa”, a Cabayba parecia ter um esquematismo de nuances de explicações ou ausências de desculpas e muitas acusações, e me respondam, qual a memória que os filhos da fome herdam e reconstroem em suas vidas?

talvez, uma memória que os filhos e filhas da abastança desprezem, ao mesmo tempo que pregam a farsa do amor ao trabalho, o lugar em que alguns exploram muitos e muitas enquanto se fortalecem sobre os sobreviventes

É disso que eu falo, o Rodolfo parecia um morto que se sucede em camadas de vivos, não existe uma conspiração. É isso, e pronto. O circo, o pão e bundas cantando bastam para ficarem bestificados, é uma apatia coletiva de violência incorporada ao nosso dia após dia. Qual a saída? A escola? A teimosia? Eu desisto, vou ficar no meu feijão e arroz, quer estudar? Estuda. Não quer? Tudo bem...

Um minuto, por favor. Gostaria de continuar, aqui não vou mencionar as caras e caretas que vi sendo jogadas para o Paulo

Por favor, professor Paulo, continue. Se possível seja mais objetivo, o fio da navalha de administrar uma escola democrática, um desafio que nos salva? talvez

Obrigado, professora Rachel. Vou tentar  ser mais direto. Não quero parecer enfadonho nem melodramático, muito menos repetitivo, já sendo, mas não acho que possa ser tão sintético. De qualquer maneira, quero fazer uma pergunta a todos e todas, nesta sala de aula. É à toa que retiram, novamente!, a Filosofia das escolas públicas? É ao acaso que o tamanho das horas da História e Geografia diminuíram para alguns minutos enquanto aumentam as horas da matemática e português?

É claro que não, Paulo!, respondi intempestiva e, imediatamente, senti um rubor aquecer meu rosto, ainda não rompi a barreira com o poder, mais ou menos como deixar de escrever por ter medo das vírgulas, tenho pavor das vírgulas

Obrigada, Anita. Devido ao tempo, vou tentar esclarecer esse desejo abastado de ver e querer a escola pública como parte desse circo, já citado pelo professor Rodolfo. Lá atrás, nos anos 60, não queriam pensamento crítico, e agora, também... não.

o Marko não se contém e solta o grito que trás engasgado, tenho vontade de gritar junto

Acordem! Esse patriotismo de arrepios interessa a quem? A liberdade só é liberdade quando é para libertar os explorados da exploração e da fome. Esse patriotismo que luta por essa causa de menos História e Geografia – e mais português e matemática –, menos pensamento e mais trabalho, trabalho, trabalho, pensa que pensa, mas quem pensa é o dono do dinheiro, do trabalho e da informação. Eu concordo com a professora Cabayba, a fome é ideológica, trazer, novamente, o Brasil para o mapa da fome é ideológico, mas a professora precisa se decidir se luta contra a fome, ou não. O patriotismo e o nacionalismo sempre são discursos ideológicos, mesmo que quem os use não diga, “Ame o Brasil do nosso jeito, ou deixe-o!”

Isso, Marko. Se você me permite, esse é o ponto em que eu quero chegar. Lembram? Esse foi um dos principais discursos da ditadura civil-militar. Pois é, podemos perguntar aos exilados ou as famílias dos desaparecidos e mortos pelos militares sobre o seu patriotismo, talvez, essas pessoas tenham outra visão de amor pelo país, mas infelizmente não tiveram chance de ver esse amor reconhecido. Aliás, aulinha grátis de História: o nacionalismo também foi um dos principais discursos utilizados por Hitler! Também por Vargas durante a ditadura do Estado Novo. Ah, também foi usado durante o Brasil Império, num contexto de escravização e tentativa de branquear a população, por acharem que negros e indígenas estavam “atrasando o País”, sabe o que fizeram? Trouxeram imigrantes europeus para criarem uma “Nação de Verdade”! Uma nação branca e elitista! Só alguns exemplos históricos, queridos professores e professoras, sobre a importância de desvelar esse discurso nacionalista e patriótico anticorrupção. A história não se repete, apenas cometemos os mesmos erros, é simples. A gravidade desse momento exige denunciar que os arrepios e bandeiras deste patriotismo nacionalista nunca foi neutro ou bonzinho, mas acredito que os colegas e as colegas já sabiam disso tudo, não é?

o grande susto do professor Rodolfo foi encontrar alguém que já sabia o que ele escondia debaixo do seu colchão, uma visão distorcida dos fatos reais, uma ficção onde não haveria vida além da vida dele e seus iguais, um mundo de fingimento ético, cultural e social, um faz de conta da sua bravura desperdiçada nos almoços da mesa grande, e na tardinha, à volta para casa, entre acomodado e revoltado por ter que retornar amanhã, um mormaço de resmungões reprimidos, até o dia que pudessem levantar à sua moda o colchão grotesco das maldades genocidas do bem

Não podemos mais amar o nosso País e querer o melhor para Ele?

Claro, Rodolfo. Podemos e devemos, respondeu o Marko, afinal, o país somos todos e todas nós, não é mesmo?

E desde quando reproduzir Hinos e Símbolos da Pátria virou tempestade?

Não virou, professor. O que discutimos é a apropriação de um discurso histórico de ficção para uma plateia passiva e alheia aos dramas do passado, reproduzindo hinos e símbolos na intenção de apagar a diversidade, querendo um único tipo de nação, isso é extremamente perigoso. Aliás, sabe quem deve adorar essas disciplinas de OSPB e Moral e Cívica? Isso mesmo... acertou, ele mesmo... lord voldemort





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parábolas: ensaio 017B / acertou, ele mesmo...

sábado, 9 de outubro de 2021

Stendhal - O Vermelho e o Negro: Seria ele um Dalton? (XII)

Livro II 


Ela não é galante,
não usa ruge algum.

Sainte-Beuve



Capítulo XII

SERIA ELE UM DALTON?




A necessidade de ansiedade, tal era o caráter da bela Marguerite de Valois, minha tia, que logo desposou o rei de Navarra, o qual vemos hoje reinar na França com o nome de Henrique IV. A necessidade de jogar formava todo o caráter dessa princesa amável; daí suas brigas e reconciliações com os irmãos desde os dezesseis anos de idade. Ora, o que pode uma moça pôr em jogo? O que ela tem de mais precioso: sua reputação, a consideração de toda a sua vida.

MEMÓRIAS DO DUQUE DE ANGOULÊME,
filho natural de Carlos IX


ENTRE MIM E JULIEN não há assinatura de contrato, não há notário, tudo é heroico, tudo será fruto do acaso. Com exceção da nobreza, que lhe falta, esse é o amor de Marguerite de Valois pelo jovem La Mole, o homem mais distinto de seu tempo. Será minha culpa se os jovens da corte são tão partidários do conveniente, empalidecendo à simples ideia de uma aventura um pouco singular? Uma viagenzinha à Grécia ou à África é para eles o máximo da audácia, e mesmo assim só sabem andar em bando. Tão logo se veem sozinhos, sentem medo, não da lança do beduíno, mas do ridículo, e esse medo os enlouquece.
O meu Julien, ao contrário, só gosta de agir sozinho. Nunca, nessa criatura privilegiada, a menor ideia de buscar apoio e amparo nos outros! Ele despreza os outros, por isso não o desprezo.
Se, com sua pobreza, Julien fosse nobre, meu amor seria apenas uma tolice vulgar, uma vulgar aliança desigual; eu não o aceitaria; não haveria aquilo que caracteriza as grandes paixões: a enorme dificuldade a vencer e a completa incerteza do êxito.
A srta. de La Mole tinha a mente tão ocupada desses pensamentos que, no dia seguinte, sem notar, enaltecia Julien ao marquês de Croisenois e ao irmão. Sua eloquência foi tão longe que os irritou.

– Tome cuidado com esse jovem que tem tanta energia, exclamou o irmão; se a Revolução recomeçar, eles nos mandará guilhotinar a todos.

Ela evitou responder, apressando-se a gracejar com o irmão e o marquês sobre o medo que lhes causava a energia. No fundo, é somente o medo de encontrar o imprevisto, o temor de estacar ante a presença do imprevisto...

– Sempre, senhores, o medo do ridículo, monstro que, por infelicidade, morreu em 1816.

Não há mais ridículo, dizia o sr. de La Mole, num país onde há dois partidos. Sua filha compreendera essa ideia.

– Assim, senhores, ela dizia aos inimigos de Julien, vocês terão medo a vida inteira, e depois alguém lhes dirá: não era um lobo, era apenas sua sombra.

Mathilde logo os deixou. A frase do irmão a horrorizava e a inquietou muito; mas, já no dia seguinte, via nela o mais belo dos louvores.
Neste século, em que toda energia está morta, a energia dele os amedronta. Direi a ele a frase de meu irmão, quero ver a resposta que dará. Mas escolherei um dos momentos em que seus olhos brilham. Então não poderá mentir.

– Seria ele um Danton?, indagou-se, depois de um longo e indistinto devaneio. Nesse caso, a Revolução teria recomeçado. Que papéis desempenhariam então Croisenois e meu irmão? Está escrito antecipadamente: a resignação sublime. Seriam carneiros heroicos, deixando-se decapitar sem dizer uma palavra. O único medo deles, ao morrerem, seria ainda o mau gosto. Meu Julien arrebentaria os miolos do jacobino que viesse prendê-lo, se tivesse a esperança de salvar se. Ele não tem medo do mau gosto.

Esta última frase deixou-a pensativa; ela suscitava penosas lembranças e tirou-lhe toda a sua ousadia. Essa frase lembrava-lhe os gracejos dos srs. Caylus, Croisenois, de Luz e de seu irmão. Estes reprovavam unanimemente a Julien seu jeito de padre: humilde e hipócrita.

– Mas, ela pensou em seguida, com os olhos brilhantes de alegria, o amargor e a frequência de seus gracejos provam, a despeito deles, que Julien é o homem mais distinto que vimos neste inverno. Que importam seus defeitos, seus ridículos? Ele tem grandeza, o que lhes deixa chocados, a eles, tão bons e indulgentes. Não esconde que é pobre e que estudou para ser padre; eles são chefes de esquadrão e não precisaram estudar; é mais cômodo.

Apesar de todas as desvantagens do eterno traje preto e da fisionomia de padre, que o pobre rapaz precisa ter sob pena de morrer de fome, seu mérito os amedronta, não resta a menor dúvida. E essa fisionomia de padre, ele a abandona assim que estamos juntos e a sós. E quando esses senhores dizem uma frase que acreditam fina e imprevista, não é para Julien que olham primeiro? Notei isso bastante bem. No entanto, eles sabem perfeitamente que ele jamais lhes fala, a não ser quando interrogado. É somente a mim que dirige a palavra, julga-me de alma elevada. Só responde às objeções deles o suficiente para ser polido, retomando em seguida a atitude de respeito. Comigo ele discute horas a fio, não está seguro de suas ideias enquanto nelas descubro a menor objeção. Enfim, neste inverno não houve hostilidade entre nós, apenas troca de palavras para chamar a atenção. Além disso, meu pai, homem superior, e que levará longe a fortuna de nossa casa, respeita Julien. Os demais o odeiam, todos têm medo dele, exceto as devotas amigas de minha mãe.
O conde de Caylus tinha ou fingia ter uma grande paixão por cavalos; passava o tempo todo na estrebaria, com frequência almoçava lá. Essa grande paixão, aliada ao hábito de nunca rir, dava-lhe muita consideração entre os amigos: ele era a águia de seu pequeno grupo. Quando este reuniu-se, no dia seguinte, atrás da bergère da sra. de La Mole, e não estando Julien presente, o sr. de Caylus, sustentado por Croisenois e por Norbert, atacou vivamente a opinião favorável que Mathilde tinha de Julien, e isso sem motivo, e quase no primeiro momento em que viu a srta. de La Mole. Esta logo compreendeu tal atitude e ficou encantada.
Ei-los coligados, pensou, contra um homem de gênio que não possui dez luíses de renda e que só lhes pode responder quando interrogado. Têm medo dele sob seu traje preto. Que não seria se usasse dragonas?
Nunca ela estivera mais brilhante. Desde os primeiros ataques, cobriu Caylus e seus aliados de sarcasmos divertidos. Quando o ímpeto desses brilhantes oficiais se extinguiu, ela disse ao sr. de Caylus:

– Se amanhã um fidalgote das montanhas do Franco-Condado descobrir que Julien é seu filho natural e der-lhe um nome e alguns milhares de francos, em seis semanas ele estará usando bigode como vocês, senhores; em seis meses será oficial dos hussardos como vocês, senhores. E então a grandeza do caráter dele não será mais ridícula. Vejo-o reduzido, senhor futuro duque, a esta antiga e injusta razão: a superioridade da nobreza de corte sobre a nobreza de província. Mas que razão lhe restará, se eu levar a hipótese ao extremo e tiver a malícia de dar por pai a Julien um duque espanhol, prisioneiro de guerra em Besançon no tempo de Napoleão, e que, por escrúpulo de consciência, o reconhece em seu leito de morte?

Todas essas suposições de nascimento não legítimo foram julgadas como de muito mau gosto pelos srs. de Caylus e Croisenois. Eis tudo o que eles viram no argumento de Mathilde.
Ainda que Norbert estivesse dominado, as palavras da irmã eram tão claras que ele assumiu um ar grave que combinava muito mal, é preciso que se diga, com sua fisionomia sorridente e amável. Ele ousou dizer algumas palavras.

– Está doente, meu querido?, respondeu-lhe Mathilde com um fingido ar sério. Não deve estar muito bem para responder com moral a gracejos. Moral! Você está pleiteando algum cargo de governador?

Mathilde logo esqueceu a irritação do conde de Caylus, o mau humor de Norbert e o desespero silencioso do sr. de Croisenois. Precisava tomar um partido ante uma ideia fatal que acabava de apoderar-se de sua alma.
Julien é bastante sincero comigo, pensou; em sua idade, com uma fortuna inferior, infeliz como ele é por uma ambição espantosa, há a necessidade de uma amiga. Eu talvez seja essa amiga; mas não percebo amor nele. Com a audácia de seu caráter, teria me falado desse amor.
Essa incerteza, essa discussão consigo mesma, que a partir de então ocupou cada um dos instantes de Mathilde, e para a qual, sempre que Julien lhe falava, ela trazia novos argumentos, expulsou completamente aqueles momentos de tédio aos quais era tão sujeita.
Filha de um homem de espírito que podia tornar-se ministro e devolver ao clero suas terras, a srta. de La Mole fora objeto de adulações as mais excessivas, no convento do Sacré-Coeur. Essa desgraça jamais se compensa. Haviam-na persuadido que, por causa de suas vantagens de nascimento, de fortuna etc., devia ser mais feliz que as outras. Essa é a origem do tédio dos príncipes e de todas as suas loucuras.
Mathilde não escapara à funesta influência dessa ideia. Ninguém é imune aos dez anos de idade, por mais inteligente que seja, às lisonjas de todo um convento, e aparentemente tão justificadas.
A partir do momento em que decidiu que amava Julien, ela não se entediou mais. Diariamente felicitava-se pela decisão de consentir-se uma grande paixão. Esse divertimento tem muitos perigos, pensava. Melhor assim! mil vezes melhor assim!
Sem grande paixão, eu definhava de tédio no momento mais belo da vida, dos dezesseis aos vinte anos. Já perdi meus mais belos anos, obrigada a ouvir, como único prazer, as bobagens das amigas de minha mãe que, em Coblentz, em 1792, não eram de modo algum, ao que fiquei sabendo, tão severas quanto suas palavras de hoje.
Enquanto essas grandes incertezas agitavam Mathilde, Julien não compreendia seus longos olhares que se detinham nele. Ele notava uma maior frieza nas maneiras do conde Norbert e um novo acesso de arrogância nas dos srs. de Caylus, de Luz e de Croisenois. Estava acostumado a essa reação, que lhe sucedia às vezes após uma noitada em que brilhara mais do que convinha à sua posição. Sem a acolhida particular que lhe dava Mathilde e a curiosidade que esse grupo lhe inspirava, ele teria evitado juntar-se àqueles brilhantes jovens de bigode, quando, depois da janta, acompanhavam no jardim a srta. de La Mole.
Sim, é impossível negar, dizia-se Julien, a srta. de La Mole olha-me de um jeito singular. Porém, mesmo quando seus belos olhos azuis, postos em mim, parecem entregar-se, leio sempre neles um traço de exame, de sangue-frio e de maldade. É possível que isso seja amor? Que diferença, em comparação aos olhares da sra. de Rênal!
Certa noite, depois do jantar, Julien, que acompanhara o sr. de La Mole a seu gabinete, ao voltar rapidamente ao jardim e aproximando-se sem precaução do grupo de Mathilde, surpreendeu algumas palavras pronunciadas em voz alta. Ela discutia com o irmão. Julien ouviu duas vezes seu nome pronunciado distintamente. Apareceu; um silêncio profundo estabeleceu-se de repente e foram em vão os esforços para quebrá-lo. A srta. de La Mole e o irmão estavam muito agitados para encontrarem outro assunto de conversa. Os srs. de Caylus, de Croisenois, de Luz e mais um amigo deles pareceram a Julien de uma frieza glacial. Ele afastou-se.


continua página 221...

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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.

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Henri-Marie Beylemais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.
Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.
Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.
"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.
Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.
Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.
Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.
Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.
O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.

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Leia também:

Stendhal - O Vermelho e o Negro: Seria ele um Dalton? (XII)