domingo, 30 de setembro de 2018

histórias de avoinha: praça pública é lugar de vagabundo!!

mulheres descalças

praça pública é lugar de vagabundo!! 
Ensaio 127Bb – 2ª edição 1ª reimpressão

baitasar


continuando...


a praça virada do avesso pru barão, as costa pra mãe áfrica, num era dança nem briga, era cortejo pra dá chute, soco, tapa e cuspida no camaradinhu

a praça parô, mais num parô pruqui queria escutá as resposta do mito moringue, eles tudo sabe uqui ele tem pra dizê, num escapa de trêis ou quatro dito do mito matá, torturá, mentí e traí, sabê as resposta num interessava pras gritaria do deboche e provocação, Não solta o negro, não! Chuta a cara do criolo!

o berrêro acusatório sem desafogo num tinha fome da verdade pruqui quem uiva e ruge só tem alegria na amargura assustada dos otro, Manda cortar uma das orelhas! Isso ou cortar o nariz!

é gente qui gosta de brincá de fazê coisa ruim e ensaiá o cacoete do ódio, tirano num cansa de brigá tanto, Mais vale um negro atado que dez pulando de galho em galho!

os berro é pra surrá os assustado inté eles ficá manso, Assim a praça estraga a mercadoria! É só fazer o negro obedecer, É só fazer uso do vergalhão, corrente e tronco!

o moringue procurô com as vista o rumo da voz atrevida qui anunciô aquela purugunta petulante e abusada, Mas o que fez esse rapaz, repetiu a purugunta com deboche enquanto oiava entre os curioso, na volta dele mesmo, os insulto desalentado continuava, E vosmecê com isso, Se não se usa mão forte os criolos tomam conta, Escravo bom vive para o seu serviço e nada mais, Vive a vida assim até morrer, Essa Villa tem dono!

Mas o que fez esse rapaz, o barão voltô puruguntá pra praça pública

É assunto que não diz respeito a vosmecê!

e do meio dos vagabundo público aboiô o aviso do amedrontamento, O criolo e o metido a perguntador precisam uma boa tunda!

E um nabo bem ardido!

a provocação qui vem da turba é incerta inté o ajuste do desimpedimento qui faz colocá as garra no sofrente sem a vigilância da decência, sem as formalidade das lei

Vizinho, é simples de explicar. Preste atenção: O criolo é vagabundo, é vagabundo porque é criolo! Entendeu, vizinho?

o barão oiô na sua volta, tumbém oiêi na volta, os abicu tava quase tudo ali, atento e preocupado com os cordêro da missa, gente temente à deus, mais o deus qui eles tem medo parece sê um deus demente; oiava duma cara pra otra, a praça demente a deus gritava animada o ódio acusatório de ouví dizê isso, ouví dizê aquilo; o deus qui tá solto nas boca da praça num é um deus misericordioso, e os cordêro parece gostá de sê o advogado do diabo em nome da cruz

parece qui prus cordêro das missa num bastô um crucificado sem culpa, eles precisa de mais sangue pra sutentá seu desamô, é no medo qui eles se apóia e confirma o seu testemunho

o piano tumbém parô

a moça, qui tumbém tava desajustada entre as harmonia e a melodia, cansada das própria lamúria instrumentista, foi inté a janela atiçada pelos ruído dos grito

ela oiava pra movimentação enlouquecida na praça sem sabê uqui fazê. num sentia nada da cintura pra cima ou pra baixo, achava tudo muntu estranho, Muito alvoroço para tão pouco perigo, foi terminá de pensá qui tudo aquilo era menó qui parecia sê e viu o chute na boca qui o pretu levô sem retrucá, depois de tá dominado com as corrente. ela começô sangrá, descia na perna o mesmo sangue qui descia do pretu

a violência num era coisa muntu estranha pra ela, apesá do pai da pianística num deixá a rua chegá perto da janela, Saia da janela, minha filha amada, ele continuava parado no meio do salão pianístico, ela continuava com usóio na praça, em silêncio, as vista na direção do pretu enfiado nas corrente, subindo a rua na direção da sua janela

Olhe lá fora, papai!

o pai deu os passo qui faltava pra chegá inté a janela e tê uqui vê, pra tê uqui conversá. a fia oiô o pai qui oiava da janela, sentiu a ponta dos dedo ficá ungida, É só mais um negro bêbado tentando levantar. E não vai conseguir, é uma pena. Nunca me criaram problemas e, se vocês duas querem saber, eu não lucro com eles. Acho que alguns são um péssimo exemplo e não são de confiança, mas não justifica tanta veemência, a guria respirô de alívio quando percebeu qui ele num tava zangado, ele só tava enfastiado, ela tava mais assustada qui devia

Por que será que as pessoas se comportam assim, a purugunta qui a moça pianística fez pareceu tê dado eco no curação frio do pai, ficô animada pra continuá, apesá de sabê qui o pai num ia deixá a vida antiga, por que gritam tanto? Não existe outra maneira de resolver isso tudo? Por que tanta raiva?

Seres humanos, somos apenas seres humanos, respondeu pra fia, e podia mais tê dito se meió tivesse examinado a questão da purugunta, anunciando pra fia qui usqui tão ali é gente cheia de raiva contra a sina da vida quié morrê, eles procura alongá a vida morrendo nosotro, é como oferecê a vida dum resto de gente em nome da sua continuação na vida

a pianística sentiu um cansaço imenso, uma vontade desmembrada do próprio corpo, o medo da própria mudez das ideia

o pai continuava parado na janela, quando ele ficava zangado ou distraído num ia nem pra frente nem pra tráis; muntu menos, prus lado, ele ficava fincado no chão enquanto o nariz fungava forte. era o feitio dele pra tê mais tempo, mostrá a própria presença na volta dele, mais parece qui num era o caso de brabeza, ele tava atento com os movimento na praça; num vê nada engraçado nem achava justo, e tumbém, num ia fazê nada pra impedí aquela alcateia, a turba num podia sê parada só pela vontade dum hôme, Veja, minha filha, somos assim, Não, papai, Sim, minha filha, somos parte desta brabeza, a guria num queria sê daquilo, deu dois passô pra tráis

Minha filha, o que temos na praça além do negro? Vagabundos, bêbados, animais, burros fúnebres, lodaçal nas chuvas, poeira ao sol, olhares maliciosos do diabo, descampado, casinhas de aspecto simples, pobres, e gente de bem, parô a língua destravada pruqui sabe quias palavra dita sem pensá, no meió da fúria, sem a quietude do mormaço, no fundo, mostra os segredo do faladô

a ruga qui se fez na sua testa mostrava qui ele procurava as lembrança das palavra já dita sem a meditação dos pensamento, algum rompante qui possa tê soltado da garganta e sê usado prum mal-entendido

durante a vida qui construiu naquela casa, ele fez crescê um muro com parede alta na volta da sua família, lugá sagrado da consagração, ninguém entra ou sai sem a vontade do chefe da família, ele, um comandante com vontade firme qui pode oferecê um bofetão na cara atrevida ou um abraço iluminado nas submissa muié à sua vontade de dono de tudo


naquela casa com muro alto ele era o dono de tudo

depois da medição das palavra própria, puruguntô, Esqueci alguma coisa? É isso, minha filha... Praça pública é lugar de gente vagabunda.



continua...

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Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (01)

 Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1


1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



O Baile de Sceaux

A Henri Balzac, [46] seu irmão

Honoré

(Parte 1)




O conde de Fontaine, chefe de uma das mais antigas famílias do Poitou, servira à causa dos Bourbons com inteligência e coragem durante a guerra da Vendeia.[47] Depois de ter escapado a todos os perigos que ameaçaram os chefes realistas durante esse tormentoso período da história contemporânea, ele dizia jovialmente: 

— Sou um dos que se fizeram matar sobre os degraus do trono! 

Esse gracejo não deixara de ter seu fundo de verdade para um homem deixado por morto entre os que caíram na sangrenta jornada de Quatre-Chemins. Embora arruinado pelas confiscações, esse fiel vendeano recusou constantemente os postos lucrativos que o imperador Napoleão mandou oferecer-lhe. Invariável na sua religião aristocrática, seguira-lhe cegamente as máximas quando achou conveniente casar-se. Não obstante as seduções de um rico arrivista, disposto a pagar por alto preço uma tal união, ele casara-se com uma srta. de Kergarouët sem fortuna, mas cuja família era uma das mais antigas da Bretanha. 

A Restauração veio encontrar o sr. de Fontaine carregado de numerosa família. Conquanto o generoso gentil-homem não abrigasse a ideia de solicitar favores, cedeu contudo aos desejos da esposa, deixou sua propriedade, cuja módica renda supria escassamente as necessidades dos seus filhos, e foi para Paris. Contristado diante da avidez com a qual seus antigos companheiros avançavam nos postos e honrarias constitucionais, ia voltar para casa quando recebeu uma carta ministerial, na qual uma excelência bastante conhecida lhe comunicava sua nomeação ao posto de marechal de campo, em virtude da ordenança que permitia aos oficiais dos exércitos católicos contar os vinte primeiros anos inéditos do reinado de Luís xviii como anos de serviço. Alguns dias depois, o vendeano recebeu também, sem que o tivesse solicitado e por condutos oficiais, a cruz da ordem da Legião de Honra e a de São Luís. Abalado em sua resolução por esses favores que julgou dever à gratidão do monarca, não mais se contentou em levar a família todos os domingos para gritar “Viva o rei!” na sala dos marechais, nas Tulherias,[48] quando os príncipes iam para a capela, mas também solicitou uma entrevista particular. Essa audiência, prontamente concedida, nada teve de particular. O salão régio estava repleto de velhos servidores, cujas cabeças empoadas, vistas de certa altura, se assemelhavam a um tapete de neve. Ali, o gentil-homem tornou a encontrar antigos companheiros que o acolheram com certa frieza; mas os príncipes pareceram-lhe adoráveis, expressão de entusiasmo que lhe escapou quando o mais amável dos seus senhores, do qual o conde não se julgava conhecido a não ser de nome, veio apertar-lhe a mão e o proclamou o mais puro dos vendeanos. 

Apesar dessa ovação, nenhuma das augustas pessoas teve a lembrança de perguntar-lhe o montante de seus prejuízos nem o do dinheiro tão generosamente doado à caixa dos exércitos católicos. Um pouco tarde compreendeu que fizera a guerra à sua própria custa. No fim da tarde, julgou poder arriscar uma alusão espirituosa ao estado de suas finanças, semelhantes às de numerosos outros fidalgos. Sua Majestade riu gostosamente, porquanto toda palavra de cunho espirituoso tinha o dom de agradar-lhe; porém replicou com um desses gracejos reais cuja doçura é mais de temer do que a aspereza de uma reprimenda. Um dos mais íntimos confidentes do rei não demorou em se aproximar do vendeano calculador, ao qual fez compreender por uma frase sutil e polida que não era ainda chegado o momento de contar com os senhores; havia sobre a mesa memorandos muito mais antigos que o dele e que sem dúvida deviam servir à história da Revolução. O conde prudentemente retirou-se do grupo venerável que descrevia um respeitoso semicírculo diante da augusta família. Em seguida, depois de ter, não sem trabalho, desvencilhado a espada de entre as pernas finas onde ela se havia imiscuído, dirigiu-se a pé, através do pátio das Tulherias, ao fiacre que deixara no cais. Com o espírito insubmisso que caracteriza a nobreza de velha estirpe, na qual a recordação da Liga e das Barricadas[49] ainda subsiste, queixou-se, no carro, em altas vozes e de modo a se comprometer, das mudanças sobrevindas na corte. “Antigamente”, comentava ele para si mesmo, “todos falavam livremente ao rei dos seus assuntos particulares, senhores podiam à vontade pedir-lhe favores e dinheiro, e hoje não se pode obter, sem escândalo, o reembolso de quantias que foram emprestadas para o seu serviço! Caramba! A cruz de São Luís e o posto de marechal de campo não valem as trezentas mil libras que eu, ali contadinhas, gastei pela causa monárquica. Quero tornar a falar ao rei, frente a frente, e no seu gabinete.” 

Essa cena esfriou tanto mais o zelo do sr. de Fontaine quanto seus pedidos de audiência ficaram sempre sem resposta. Viu, além disso, os intrusos do Império alcançar alguns dos postos que na antiga monarquia eram reservados às melhores casas. 

— Está tudo perdido — disse ele uma manhã. — Decididamente o rei nunca foi outra coisa senão um revolucionário.[50] Sem Monsieur,[51] que é incapaz de derrogar e consola seus fiéis servidores, não sei em que mãos irá cair um dia a coroa de França, a continuar esse regime. Este maldito sistema constitucional é o pior de todos os governos e jamais poderia convir à França. Luís XXVIII e o senhor Beugnot nos estragaram tudo em Saint-Ouen.[52] 

O conde, desesperado, preparava-se para voltar à sua propriedade, desistindo nobremente de suas pretensões a qualquer indenização. Nesse momento, os acontecimentos do Vinte de Março[53] anunciaram uma nova tempestade que ameaçava tragar o rei legítimo e seus defensores. Tal como essas pessoas generosas que não mandam embora um servidor em tempo de chuva, o sr. de Fontaine contraiu um empréstimo sobre sua propriedade para acompanhar a monarquia em fuga, sem saber se essa cumplicidade de emigração lhe seria mais propícia do que sua dedicação passada. Mas tendo observado que os companheiros de exílio estavam mais nas boas graças do que os valentes que, outrora, tinham protestado, de armas na mão, contra o estabelecimento da República, talvez esperasse achar, nessa viagem ao estrangeiro, mais proveitos do que num serviço ativo e perigoso no interior. Seus cálculos de cortesão não foram uma dessas vãs especulações que prometem no papel resultados soberbos e arruínam pela execução. Foi, pois, segundo dito do mais espirituoso e hábil de entre os nossos diplomatas, um dos quinhentos fiéis servidores que partilharam o exílio da corte em Gand,[54] e um dos cinquenta mil que de lá voltaram. 

Durante essa breve ausência da realeza, o sr. de Fontaine teve a sorte de ser empregado por Luís XVIII e achou mais de uma oportunidade de dar ao rei provas de grande probidade política e de sincera dedicação. Uma noite em que o monarca nada de melhor tinha a fazer, lembrou-se do dito do sr. de Fontaine nas Tulherias. O velho vendeano não deixou escapar uma ocasião tão a propósito e narrou sua história com bastante espírito para que esse rei, que nada esquecia, pudesse lembrar-se dela no momento oportuno. O augusto literato notou o feitio elegante dado a alguns apontamentos, cuja redação fora cometida ao discreto gentil-homem. Esse pequeno mérito inscreveu o sr. de Fontaine na memória do rei entre os mais leais servidores da Coroa. Na segunda volta, o conde foi um desses enviados extraordinários que percorreram os departamentos, com a missão de julgar soberanamente os culpados de rebelião, tendo, entretanto, usado moderadamente de seu terrível poder. Logo que terminou essa temporária jurisdição, o grande preboste sentou-se numa das poltronas do conselho de Estado, foi deputado, falou pouco, ouviu muito e mudou consideravelmente de opinião. Algumas circunstâncias, ignoradas pelos biógrafos, fizeram com que ele penetrasse profundamente na intimidade do príncipe, a tal ponto que um dia o malicioso monarca, ao vê-lo entrar, o interpelou desta forma: 

— Meu amigo Fontaine, não me passaria pelo espírito nomeá-lo diretor-geral, nem ministro! Nem o senhor, nem eu, se fôssemos empregados, poderíamos conservar o lugar, por causa de nossas opiniões. O governo representativo tem isso de bom, que nos poupa o trabalho que tínhamos antigamente, de despedirmos, nós mesmos, os nossos secretários de Estado. Nosso conselho é uma verdadeira hospedaria para onde a opinião pública nos manda muitas vezes viajantes singulares. Mas afinal sempre poderemos saber onde colocar os nossos fiéis servidores. 

Essa tirada zombeteira foi seguida de uma ordenança que dava ao sr. de Fontaine uma administração nos domínios extraordinários da Coroa. Em consequência da inteligente atenção com a qual ele ouvia os sarcasmos de seu real amigo, seu nome estava sempre nos lábios de Sua Majestade, todas as vezes que era preciso criar uma comissão cujos membros deviam ser lucrativamente remunerados. Teve o bom-senso de não apregoar o favoritismo com que o monarca o honrava e soube mantê-lo por um modo malicioso de narrar, em uma dessas palestras familiares de que Luís XXVIII gostava tanto quanto dos bilhetes espirituosamente redigidos, as anedotas políticas e, se me permitem a expressão, dos diz que diz que diplomáticos ou parlamentares, tão abundantes naquela época. Sabe-se que os detalhes de sua governamentabilidade, termo adotado pelo augusto trocista, o divertiam infinitamente. Graças ao bom-senso, ao espírito e à habilidade do sr. conde de Fontaine, todos os membros de sua numerosa família, por mais moços que fossem, acabaram, como ele dizia graciosamente ao seu senhor, por se colocar como um bicho-da-seda sobre as folhas do orçamento. Por essa forma, graças à bondade do rei, seu filho mais velho alcançou um posto eminente na magistratura inamovível. O segundo, simples capitão na Restauração, obteve uma legião imediatamente depois da sua volta de Gand; depois, graças aos movimentos de 1815,[55] durante os quais foram desprezados os regulamentos, ele passou para a guarda real, tornou a passar para a guarda pessoal, voltou para as tropas de linha e viu-se tenente-general com um comando na guarda, depois do incidente do Trocadero.[56] O filho mais moço, nomeado subprefeito, foi feito, pouco tempo depois, referendário e diretor de uma administração municipal da cidade de Paris, onde se achava ao abrigo das tormentas legislativas. Esses favores sem ressonância, secretos como o favoritismo do conde, choviam despercebidamente. Embora o pai e os três filhos tivessem todos um bom número de sinecuras, que lhes permitia gozar de uma renda orçamentária quase tão considerável quanto a de um diretor-geral, a fortuna política deles não despertava inveja a ninguém. Nesses tempos de primeiros ensaios do sistema constitucional, poucas pessoas tinham ideias precisas no que se referia às serenas esferas do orçamento, onde espertos favoritos souberam achar o equivalente das abadias destruídas. O sr. conde de Fontaine, que antes se gabava de não ter lido a “Carta”[57] e tanto se irritava com a avidez dos cortesãos, não tardou em mostrar ao seu augusto senhor que compreendia tão bem quanto ele o espírito e os recursos do representativo. Entretanto, não obstante a segurança das carreiras abertas para seus três filhos, não obstante as vantagens pecuniárias que resultavam da acumulação de quatro cargos, o sr. de Fontaine achava-se à frente de uma família demasiado numerosa para poder pronta e facilmente restabelecer sua fortuna. Seus três filhos eram ricos de futuro, de favor e de talento; ele, porém, tinha três filhas e temia cansar a bondade do monarca. Resolveu, pois, não lhe falar senão de uma única dessas virgens apressadas em acender o facho do himeneu. O rei tinha demasiado bom gosto para que pudesse deixar sua obra imperfeita. O casamento da primeira com um recebedor-geral foi concluído por uma dessas frases de rei que nada custam e valem milhões. Uma noite em que o monarca estava aborrecido, sorriu ao ter notícia da existência de uma outra srta. de Fontaine, que ele fez casar com um jovem magistrado de origem burguesa, é verdade, mas rico, de muito talento e a quem fez barão. Quando, no ano seguinte, o vendeano falou da srta. Emília de Fontaine, o rei respondeu-lhe com sua voz acidulada: 

Amicus Plato, sed magis amica natio.[58] 

Alguns dias depois presenteou seu amigo Fontaine com um quarteto bastante inofensivo a que denominava de epigrama e no qual gracejava sobre as três filhas tão habilmente apresentadas sob a forma de uma trindade. Se devemos crer nas crônicas, o monarca fora buscar sua pilhéria na unidade das três pessoas divinas. 

— Se o rei se dignasse em transformar seu epigrama num epitalâmio? — disse o conde, tentando tirar proveito daquele gracejo. 

— Se vejo a rima, não lhe vejo a razão[59] — respondeu asperamente o rei, a quem não agradou o gracejo feito sobre sua poesia, por mais suave que fosse. 

A partir desse dia, suas relações com o sr. de Fontaine tornaram-se menos amistosas. Os reis gostam mais do que se julga das contradições. 

Como quase todos os filhos que chegam por último, Emília de Fontaine era um benjamim mimado por todos. A frieza do soberano causou, pois, tanto mais pesar ao conde, porquanto jamais houvera casamento tão difícil de ser ajustado como daquela filha querida. Para conceber todos os obstáculos que havia, cumpre penetrar no interior do belo palacete onde se alojava o administrador à custa da Lista Civil. Emília passara a infância na propriedade de Fontaine, gozando dessa abundância com que os primeiros anseios da mocidade se satisfazem. Seus menores desejos eram leis para as suas irmãs, para os irmãos, para a mãe e mesmo para o pai. 

Todos os seus parentes tinham loucura por ela. Ao chegar à idade da razão, precisamente no momento em que sua família fora cumulada com os favores da sorte, o encanto de sua vida continuou. O luxo de Paris pareceu-lhe tão natural quanto a riqueza em flores e frutas a que estivera habituada, opulência campestre que fizera a felicidade de seus primeiros anos. Da mesma forma que jamais sofrera qualquer contrariedade na infância, quando queria satisfazer seus alegres desejos, assim se viu obedecida quando na idade de catorze anos foi lançada no turbilhão da sociedade. Acostumada, por esse modo, gradativamente, aos gozos da fortuna, os requintes da toilette e a elegância dos salões dourados e das carruagens tornaramse-lhe tão necessários como os cumprimentos sinceros ou falsos da lisonja, como as festas e vaidades da corte. 

Seus defeitos cresceram com ela, e seus pais iam, em breve, colher os frutos amargos dessa funesta educação. Aos dezenove anos, Emília de Fontaine não quisera ainda fazer escolha entre os numerosos rapazes que a política do sr. de Fontaine reunia em suas festas. Conquanto moça ainda, gozava em sociedade de toda a liberdade de espírito que uma mulher ali pode ter. 

Semelhante aos reis, não tinha amigos e por toda parte se via objeto de uma complacência, à qual uma melhor índole do que a sua talvez não resistisse. Nenhum homem, nem mesmo um ancião, tinha força para contradizer as opiniões de uma moça de quem um único olhar bastava para reanimar o amor num coração frio. Educada com cuidados que suas irmãs não tiveram, pintava bastante bem, falava italiano e inglês, tocava piano de modo desesperador; finalmente, sua voz, aperfeiçoada pelos melhores professores, tinha um timbre que dava ao seu canto seduções irresistíveis. 

Espirituosa e versada em todas as literaturas, ela dava a impressão, como diz Mascarille,[60] de que as pessoas de bom nascimento vêm ao mundo sabendo tudo. Discutia com facilidade sobre pintura italiana ou flamenga, sobre a Idade Média ou a Renascença; julgava a torto e a direito os livros antigos ou recentes e fazia sobressair com uma graça cruel os defeitos de uma obra. A mais simples das suas frases era recebida pela multidão idólatra como uma fetfa[61] do sultão pelos turcos. Por essa forma deslumbrava as pessoas superficiais; quanto às pessoas profundas, seu tato natural auxiliava-a a reconhecê-las e, para elas, empregava todo o seu coquetismo, de tal forma que, graças às suas seduções, escapava à análise delas. Esse verniz sedutor recobria um coração despreocupado, a opinião comum a muitas moças de que ninguém habitava uma esfera bastante elevada para poder compreender a excelência de sua alma e um orgulho que se escudava tanto no seu berço quanto na sua beleza. Na ausência do violento sentimento que cedo ou tarde devasta o coração de uma mulher, ela exercia seu jovem ardor numa paixão imoderada pelas honrarias e manifestava o mais profundo desprezo à plebe. Muito impertinente com a nobreza de fresca data, empregava todos os seus esforços para que seus parentes marchassem a par das mais ilustres famílias do faubourg SaintGermain.[62] 

Tais sentimentos não escaparam aos olhares observadores do sr. de Fontaine, o qual, por mais de uma vez, por ocasião do casamento das suas duas filhas mais velhas, tivera de suportar os sarcasmos e as piadas de Emília. As pessoas sensatas admirar-se-ão de o velho vendeano ter dado sua primeira filha a um recebedor-geral que, embora possuísse algumas terras senhoriais, não tinha o nome precedido da partícula, à qual o trono devera tantos defensores, e a segunda a um magistrado muito recentemente “embaronizado” para que pudesse fazer esquecer que o pai vendera lenha. Essa notável mudança nas ideias do nobre conde, no momento em que atingia seu sexagésimo aniversário, época na qual raramente os homens modificam suas crenças, não era devida unicamente à deplorável residência na moderna Babilônia, onde todos os provincianos acabam por perder sua rudeza. A nova consciência política do conde de Fontaine era também o resultado dos conselhos e da amizade do rei. Esse príncipe filósofo divertia-se em converter o vendeano às ideias que exigiam a marcha do século xix e a renovação da monarquia. Luís xviii queria fundir os partidos da mesma forma que Napoleão fundira as coisas e os homens. O rei legítimo, talvez de tanto espírito quanto o seu rival, atuava em sentido contrário. O último chefe da dinastia dos Bourbon era tão solícito em satisfazer o Terceiro Estado e a gente do Império, refreando o clero, quanto o primeiro Napoleão era interessado em atrair para junto de si os grão-senhores ou em dotar a Igreja. Confidente dos pensamentos reais, o conselheiro de Estado tornara-se insensivelmente um dos mais influentes chefes, e dos mais ponderados, desse Partido Moderado que desejava ardentemente, em nome do interesse nacional, a fusão das opiniões. Pregava os dispendiosos princípios do governo constitucional e secundava com todo o seu poder a oscilação da balança política que permitia ao seu senhor governar a França em meio das agitações. É possível que o sr. de Fontaine tivesse a esperança de conquistar o pariato[63] por um desses pés de vento legislativos, cujos efeitos tão estranhos surpreendiam na época os mais velhos políticos. Um dos seus princípios mais fixos consistia em não reconhecer mais em França outra nobreza além do pariato, cujas famílias eram as únicas que tinham privilégios. 

— Uma nobreza sem privilégios — dizia ele — é um cabo sem ferramenta.



Continua...



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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.

Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844.[1] Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).

Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava.[1] De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850. 
          A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac;                            orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São                  Paulo: Globo, 2012. 

          (A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1                    0.000 kb; ePUB 

1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série. 

12-13086                                                                               cdd-843 

Índices para catálogo sistemático: 
1. Romances: Literatura francesa 843

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[46] A respeito do irmão de Balzac, ver A vida de Balzac, neste volume, p. 10. 
[47]A Guerra de Vendeia ou, antes, as guerras de Vendeia surgiram durante a Revolução Francesa e levantaram contra o resto da França a população, sobretudo a nobreza e o clero da referida região, em nome do princípio monárquico. Os insurgentes, depois de sucessos iniciais consideráveis — entre os quais a batalha de Quatre Chemins, em 13 de dezembro de 1793, a que o autor faz uma referência mais adiante —, foram vencidos pelos generais Kléber, Marceau e Hoche. Balzac romanceou esse episódio sangrento da história quase contemporânea em sua primeira obra de real valor, A Bretanha em 1799, em que vemos aparecer o conde de Fontaine como um dos chefes do movimento vendeano sob o nome de “Grande Jacques”. 
[48]Tulherias: antiga residência, em Paris, dos reis da França. 
[49]A recordação da Liga e das Barricadas: movimentos da nobreza francesa. É com o nome de Liga que a história lembra a união política dos nobres no fim do século XVI, formada para combater os protestantes e defender a supremacia do catolicismo. Por outro lado, o nome do “dia das Barricadas” dá-se a duas insurreições de Paris, a primeira contra Henrique IV em 1588, a segunda contra Mazarin, em 1684. 
[50]Decididamente o rei nunca foi outra coisa senão um revolucionário: referem-se estas palavras mal-humoradas do conde a certas manifestações liberais de Luís XVIII que lembraremos a seguir. Entretanto, como veremos no decorrer da história, o sr. de Fontaine mudará brevemente de opinião e aceitará ele mesmo as ideias “revolucionárias” do rei. 
[51]Monsieur era o título dado, em França, ao mais velho dos irmãos do rei. Aqui se refere ao conde de Artois, irmão de Luís XVIII, a quem o veremos suceder, dentro do lapso de tempo compreendido em O baile de Sceaux, sob o nome de Carlos x. O conde de Artois, desde sua volta à França após a queda de Napoleão, mostrava-se decididamente hostil a toda e qualquer reforma liberal, incentivando uma série de medidas reacionárias. 
[52] Foi em Saint-Ouen que, ao voltar de seu exílio em 1814, acompanhado de seu ministro Claude Beugnot, Luís XVIII fez uma proclamação solene, em que deu a conhecer os princípios em virtude dos quais pretendia governar, princípios bastante liberais, mas que nunca chegaram a ser postos em prática. 
[53] Os acontecimentos de vinte de março de 1815 foram o abandono de Paris por Luís XVIII e sua fuga para o norte após a vitoriosa investida de Napoleão redivivo, que, de volta da ilha de Elba, desembarcara na Provença no dia 1º de março. 
[54] O exílio da corte em Gand verificou-se nesse mesmo ano durante os “cem dias” do segundo e último reinado de Napoleão. 
[55]A volta de Napoleão e os cem dias de seu segundo reinado. 
[56]O incidente do Trocadero deu-se em 1823, quando tropas francesas, entradas na Espanha sob o comando do duque de Angoulême para derrubar o governo liberal das cortes, assediaram e tomaram a famosa fortaleza da península de Cádiz antes da data esperada. 
[57] A Carta era o documento constitucional outorgado por Luís XVIII em 4 de junho de 1814 e revisado depois da Revolução de 1830. 
[58] Amicus Plato, sed magis amica natio, frase latina que significa: “Platão é meu amigo, porém a nação é mais minha amiga”, alteração do ditado Amicus Plato, sed magis amica veritas, “Platão é meu amigo, porém a verdade é mais minha amiga”, cujo original grego é atribuído a Sócrates. 
[59] Se vejo a rima, não lhe vejo a razão. Observe-se que as palavras francesas épigramme et épithalame rimam, o que não acontece com seus equivalentes portugueses. 
[60]Mascarille é o tipo do criado velhaco, insolente e manhoso, na comédia francesa dos séculos XVII e XVIII. 
[61] Uma “fetfa” do sultão é uma decisão dogmática, que reveste força de artigo de fé. 
[62]Faubourg Saint-Germain: bairro aristocrático de Paris. 
[63]Conquistar o pariato: Durante a Restauração na França (1814-1839), chamavam-se pares os membros da Câmara aristocrática, criada em 1814 para exercer o poder legislativo conjuntamente com a Câmara dos Deputados; eram nomeados em caráter perpétuo pelo rei, e sua dignidade era hereditária de filho a filho varão. A Câmara dos Pares, modificada em sua composição em 1830, foi definitivamente suprimida em 1848.

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