segunda-feira, 30 de setembro de 2019

ZUMBI

ZUMBI - ASSOCIAÇÃO PASSO A PASSO 

- 21/12/2013 - Teatro Clara Nunes













Memórias Póstumas de Brás Cubas: O estrume

Machado de Assis





CAPÍTULO LXXVI / O estrume





Súbito deu-me a consciência um repelão, acusou-me de ter feito capitular a probidade de Dona Plácida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu tinha-a baixado a esse ofício, à custa de obséquios e dinheiros. Foi o que me disse a consciência; fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da gratidão desta, enfim da necessidade. Notou a resistência de Dona Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso, até vencê-la. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso. 

Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de Dona Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação. Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã. A consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgília.





__________________________

Leia também:

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXII / O travesseiro

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXIII / Fujamos!

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo: LXIV / A transação

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXV / Olheiros e Escutas

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXVI / As pernas

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXVII / A casinha

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXVIII / O vergalho

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXIX / Um grão de sandice

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXX / Dona Plácida

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXXI / O senão do livro

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXXII / O bibliômano

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXXIII / O luncheon

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXXIV / História de Dona Plácida

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXXV / Comigo

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Capítulo LXXVII / Entrevista

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Prólogo e AO LEITOR


domingo, 29 de setembro de 2019

Teatro, Ser ou não ser... a burrice nos tornaria mais felizes?

Hamlet

a consciência nos impedirá da entrega alegre e fascinada ao mito?



Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas 
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, 
Ou insurgir-nos contra um mar de provações 
E em luta pôr-lhes fim? 
Morrer.. dormir: não mais.





HAMLET-Ato III - Cena I - "SER O NO SER"
Laurence Olivier





Gabriela Toscano






"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas 
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, 
Ou insurgir-nos contra um mar de provações 
E em luta pôr-lhes fim? 
Morrer.. dormir: não mais. 
Dizer que rematamos com um sono a angústia 
E as mil pelejas naturais-herança do homem: 
Morrer para dormir... é uma consumação 
Que bem merece e desejamos com fervor. 
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo: 
Pois quando livres do tumulto da existência, 
No repouso da morte o sonho que tenhamos 
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita 
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios. 
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, 
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, 
Toda a lancinação do mal-prezado amor, 
A insolência oficial, as dilações da lei, 
Os doestos que dos nulos têm de suportar 
O mérito paciente, quem o sofreria, 
Quando alcançasse a mais perfeita quitação 
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos, 
Gemendo e suando sob a vida fatigante, 
Se o receio de alguma coisa após a morte, 
– Essa região desconhecida cujas raias 
Jamais viajante algum atravessou de volta 
 Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos? 
O pensamento assim nos acovarda, e assim 
É que se cobre a tez normal da decisão 
Com o tom pálido e enfermo da melancolia; 
E desde que nos prendam tais cogitações, 
Empresas de alto escopo e que bem alto planam 
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo 
De se chamar ação."



Carolina Floare





Kaique Cavalcante






Leandro Karnal








"um livro que tenta nos agradar - um best seller - é um livro que tenta ocupar o nosso tempo por duas horas". shakespeare não precisa nos agradar



sábado, 28 de setembro de 2019

Sergei Polunin

Leve-me à Igreja 

(ao vivo no Bravo Awards 2019)



porque dançar é isso...
pequenas orações coloridas flutuando do próprio corpo
ah, o corpo...
o riso
            e os olhares
                                e os suspiros
amém










Mikhail Baryshnikov





Rudolf Nureyev








Sentado a beira do caminho

Roberto e Erasmo Carlos




Vem a chuva molha o meu rosto
E então eu choro tanto
Minhas lagrimas
E os pingos dessa chuva
Se confundem com o meu pranto












Eu não posso mais ficar aqui
A esperar
Que um dia de repente
Você volte para mim


Vejo caminhões
E carros apressados
A passar por mim
Estou sentado a beira
De um caminho
Que não tem mais fim


Meu olhar se perde na poeira
Dessa estrada triste
Onde a tristeza
E a saudade de você
Ainda existe


Esse sol que queima
No meu rosto
Um resto de esperança
De ao menos ver de perto
O seu olhar
Que eu trago na lembrança


Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo
Que eu existo que eu existo


Vem a chuva molha o meu rosto
E então eu choro tanto
Minhas lagrimas
E os pingos dessa chuva
Se confundem com o meu pranto


Olho pra mim mesmo e procuro
E não encontro nada
Sou um pobre resto de esperança
A beira de uma estrada


Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo
Que…











Sentado a beira do caminho -1971






parábolas de uma professora: civismo cínico

parábolas de uma professora


civismo cínico
Ensaio 006A – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




ofélia não parece querer sair do seu civismo cínico e torpor natural, zombaria e indiferença marcam suas ideias – e ela as tem, e sabe o que fazer com sua falta de compromisso e ignorância com o conhecimento da realidade no lugar onde está, por exemplo, detesta a escola pública com seus alunos que chama de famintos, desbocados e indisciplinados, ou simplesmente, a educação pública lhe é indiferente, Qual a utilidade de ensinar além de ler, escrever, somar e subtrair, em quê a famosa fórmula de báskara vai servir ao pedreiro, faxineira, zelador de condomínio, lixeiro, guardinha da rua, cozinheira? Nada! Só atrapalha a vida deles porque quanto mais instrução menos querem trabalhar! Isso é fato, Camila. Essa gente precisa de emprego. Precisam trabalhar! Chega desse Enem, que volte o vestibular! Estamos nos afogando em universidades e não acho uma faxineira! Só os melhores preparados nas universidades: nossos filhos. Outra coisa que ia esquecendo, não somos racistas, as pessoas boas da Villa não são racistas. Chega de vitimismo! E a escravidão na Villa foi amena, o negro quase não sentiu. O problema é o negro que só quer jogar bola, alguns fazem isso muito bem, ou bater tambor, também são ótimos nisso, mas não servem para consertar nada além de requebrar aquelas bundas maravilhosas, meu Deus! São lindas! A minha metade má sente muita vontade de sair requebrando junto, mas também é só o que me falta: virar mulata e pacifista, desculpe, passista! A vida dessa gente um pouco quem escreve é Deus, o outro pouco é a preguiça. É preciso virtude para não acabar escravo. Ah, sou a favor do casamento gay, quem tem que aceitar, ou não, é a bichinha que foi pedida em casamento. Eu sou aquela que respeita, mas, por favor, sem beijinhos e mãos dadas em público, né? O modo de vocês não é normal. Mas tudo bem, cada um com seu porão de coisas estranhas. Só acho que não precisam ficar se refrescando nos parques e cinemas, no shopping tá um nojo, o erro está em fazer isso, por aí. Os cubanos não são médicos! Ela é feia, sim! E o Lula é ladrão!

ela trama suas palavras com um pequeno e frio sorriso, não morre de amor por ensinar, muito menos, tem paixão em aprender, mas é professora em uma destas escolas públicas que detesta, vai seguir se enganando com o humor rouco da sua voz e olhar sem esperança, sem jardim, sem flores e com suas absurdas certezas, Camila, os sonhos até podem ser para todos, mas nem todos são capazes ou merecem os sonhos que sonham. Na verdade, quase ninguém merece. Você consegue entender? Estamos obrigadas a ensinar gente feia, desdentada, mal vestida, ignorante, gente que não sabe o que pode ou não sonhar, e não sabe ser gente. Coitados, essa gente não tem exemplos confiáveis. O pai abandonou a mulher e os filhos. Eu sei, eu sei, mas eu não sou mãe nem pai substituta de ninguém. A família educa e eu ensino. As mães que eduquem seus filhos. Agora, acho que esses políticos de merda vão baixar para quatorze anos. Não quer estudar, então vai trabalhar, fazer alguma coisa de útil. Eu com a idade dessas crianças já ajudava em casa, lavava a louça do almoço – a louça da janta ficava por conta da mamãe – e limpava a casa toda enquanto mamãe lavava a roupa no tanque, isso mesmo, tanque no inverno e verão. E não fiquei traumatizada ou infeliz, acho que nem mamãe. Ajudava estender a roupa no varal: camisas e blusas presas no arame pelas costuras do sovaco, assim evitava as marcas nas camisas e blusas. As roupas sem marcas não precisam ser passadas a ferro. Tinha o maior cuidado recolhendo as roupas do varal. Dobrava uma por uma. E não me caiu as mãos. Aprendi que tudo se economiza. Odiava, mas sempre fiz. Cuidava dos meus irmãos... duas pestinhas. Papai nunca deixou faltar comida na nossa mesa. Não tínhamos fartura, mas fome jamais. Ele saia cedo, a casa toda dormindo. Ele e sua marmita de guisado, arroz e feijão. Papai foi um boia fria. Quando voltava já estávamos dormindo, foi assim, por muitos anos, segunda à sábado. No domingo, ele e a mamãe dormiam até o meio-dia. Eu cuidava dos pestinhas até eles levantarem. E eu estou aqui, não estou? Isso só mudou quando papai foi demitido. Tempos difíceis, mas não faltou comida na mesa. Todas as semanas, durante os anos que o papai ficou desempregado, o vô e a vó faziam um pequeno rancho que o papai ia buscar. Chegava com as três sacolas carregadas na bicicleta, os olhos para sempre tristes. Roubou um enxada – ele dizia que achou, E achado não é roubado, minha filha. , a tesoura de aparar grama pediu emprestada, a vassoura pegou no quintal de casa, e saiu pelas ruas da Villa oferecendo-se com jardineiro. Vovô já tinha sido papeleiro. Quase sempre as pessoas respondiam através do vidro da janela das casas, apenas um balanço negativo da cabeça. A maioria tinha medo de abrir a janela. Saia cedo e voltava tarde. Foi quando começou a beber. A vida ficou mais difícil.

ofélia virou-se para mim, continuo calada, nos olhamos e não sentimos nada uma da outra, a vida da ofélia não foi diferente da minha, mas somos tão diferentes e nunca seremos aliadas

a camila me socorre, ela está sempre pronta para a tarefa do conflito

Sim, Ofélia. É nossa tarefa educar o cidadão e a cidadã que nossa sociedade precisa.

E o que a Villa precisa, Camila?

nesse tempo de acirramentos insanos, nossa tarefa é organizar o conflito da ação dialógica porque o diálogo não pode excluir o conflito, numa sociedade de classes toda educação é classista e querer um diálogo doce e ingênuo é manter os oprimidos como cordeiros no altar dos sacrifícios

olho para camila, e sei, eu sei a resposta, quase posso antecipar suas palavras

Ofélia, não sei se você vai entender... eu espero que sim...

sem um diálogo crítico e libertador é como gemer sem ninguém por perto, não tem sentido, só você sofre, é desnecessário gemer para você mesma, se você não conseguir sair da prisão dentro de você mesma para se escutar, ninguém mais escuta, mas enfim, você continua gemendo, é o que você consegue fazer

Uau, não vejo a hora de banhar-me em tanta sabedoria...

dialogar nunca é fácil, é mais seguro e cômodo conversar, a conversa pode ser mais animada, ou não, mas raramente considera que o outro irá rejeitar suas palavras maravilhosas e divertidas, e se acontecer, não tem importância porque elas serão esquecidas ao virar à esquina; no diálogo, as palavras não são jogadas aleatórias, estão comprometidas com a vida histórica, existiu antes e pretende seguir existindo, lúcida e profundamente

Então, vejamos se me faço entender. É nossa tarefa histórica conscientizar e lutar contra a ordem de classes, arruinar essas conversas que escondem a luta de classes imposta pelo protagonismo do macho branco, dono de tudo. As disparidades sócio econômicas, o antagonismo, os interesses dissimulados da classe dominante, o civismo cínico e a crueldade são os subprodutos que sufocam todas as formas de viver diferente.

ela sabe que é assim, mas não ousa tratar do assunto com seriedade, não sente nenhum arrepio pelo corpo, e se sente, ignora porque não vai desistir da sensação de se manter na sua zona de conforto dos conteúdos programáticos, o medo modela sua vida, seu modelo de vida é a ordem já estabelecida enquanto não se sente perdendo mais que suporta perder

Então, não precisamos mais de médicos, engenheiros, advogados, professoras...

o mesmo papo-furado que a vida e a educação não se misturam e que quando estamos envolvidas com a educação não estamos envolvidas com a vida, como se estivéssemos envolvidas com a vida só quando cortamos a grama ou varremos a calçada, eu digo que é preciso varrer a calçada, mas é preciso ensinar nossas crianças a ler com mais amorosidade e respeito, a vida agradece, não precisa ser no mesmo tempo, mas de muitos jeitos diferentes

Sim, precisamos... mas também precisamos uma educação que não se perca na contemplação acima das lutas contra as desigualdades nem no ideal da ciência e da técnica.

Tudo a seu tempo, Camila.

E qual é o tempo, Ofélia? Você mesma argumentou que precisamos de médicos, advogados, engenheiros e professoras. E nem se deu conta que o seu discurso reforça que existe o mundo do homem e o mundo da mulher. Percebe?

Você é mais uma destas feministas? O feminismo e o machismo estão estragando tudo.

Sim, o feminismo está estragando esse silêncio cínico, cúmplice e covarde sobre a violência contra as mulheres, mulheres pobres, mulheres pretas, mulheres pretas e pobres, mulheres indígenas. E vamos continuar denunciando essas e todas as outras violências contra a vida.

então, quem quer se comprometer? quem quer agir e refletir além dos seus conteúdos? quem se reconhece no mundo e como se reconhece? você se reconhece capaz não apenas de sobreviver, mas de transformar e transgredir os limites impostos pelo dono de tudo?






parábolas: ensaio 005A / amar para se deliciar junto
parábolas: ensaio 006A / civismo cínico
parábolas: ensaio 007A / o compromisso

Una de esas noches sin final

Una de esas noches sin final


Inma Cuesta e Javier Limón




Y otra vez te besaré como besa esta mujer antes de decir te quiero
Pero al alba yo te cantaré la misma copla de amor valiente










Una de esas noches sin final
Me trae tu voz cada mañana
Y otra vez me vuelve a despertar suave rumor de tus palabras
Son tus labios dulces como un mar de leche y miel, canela y cielo
Y en tus ojos cada amanecer parecer arder mi piel de fuego


No puedo pensar vivir sin el ancho
de tu espalda sobre mi sabana inquieta
Mirándote sonreír cuando tu boca se escapa para que yo me la beba
Cuando vuelva amanecer otra vez te escucharé decir mi nombre sin miedo
Y otra vez te besaré como besa esta mujer antes de decir te quiero

Pasarán los siglos y quizá seremos más lentos amando
Seguro tardaremos más en inventar nuevos abrazos
Y el relieve sobre nuestra piel será cruel desobediente
Pero al alba yo te cantaré la misma copla de amor valiente

No puedo…




br />



sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Pedagogia do Oprimido - Ninguém Liberta Ninguém, Ninguém se Liberta Sozinho (6)

Paulo Freire





“educação como prática da liberdade”:
alfabetizar é conscientizar 






AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO 
E AOS QUE NELES SE 
DESCOBREM E, ASSIM 
DESCOBRINDO-SE, COM ELES 
SOFREM, MAS, SOBRETUDO, 
COM ELES LUTAM. 




1. Justificativa da «pedagogia do oprimido» 


NINGUÉM LIBERTA NINGUÉM, NINGUÉM SE LIBERTA SOZINHO: OS HOMENS SE LIBERTAM EM COMUNHÃO  




É este caráter de dependência emocional e total dos oprimidos que os pode levar a manifestações que Fromm chama de necrófilas. De destruição da vida. Da sua ou da do outro, oprimido também. 

Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos, superando, assim, sua “conivência” com o regime opressor. Se esta descoberta não pode ser feita em nível puramente intelectual, mas da ação, o que nos parece fundamental, é que esta não se cinja a mero ativismo, mas esteja associada a sério empenho de reflexão, para que seja práxis.

O diálogo critico e libertador, por isto mesmo que supõe a ação, tem de ser feito com os oprimidos, qualquer que seja o grau em que esteja a luta por sua libertação. Não um diálogo às escâncaras, que provoca a fúria e a repressão maior do opressor.

O que pode e deve variar, em função das condições históricas, em função do nível de percepção da realidade que tenham os oprimidos é o conteúdo do diálogo. Substituí-lo pelo anti-diálogo, pela sloganização, pela verticalidade, pelos comunicados é pretender a libertação dos oprimidos com instrumentos da “domesticação”. Pretender a libertação deles sem a sua reflexão no ato desta libertação é transformá -los em objeto que se devesse salvar de um incêndio. É fazê-los cair no engodo populista e transformá -los em massa de manobra.

Os oprimidos, nos vários momentos de sua libertação, precisam reconhecer-se como homens, na sua vocação ontológica e histórica de Ser Mais. A reflexão e a aço se impõem, quando não se pretende, erroneamente, dicotomizar o conteúdo da forma histórica de ser do homem.

Ao defendermos um permanente esforço de reflexão das oprimidos sobre suas condições concretas, não estamos pretendendo um jogo divertido em nível puramente intelectual. Estamos convencidos, pelo contrário, de que a reflexão, se realmente reflexão, conduz à prática.

Por outro lado, se o momento já é o da ação, esta se fará autêntica práxis se o saber dela resultante se faz objeto da reflexão critica. Neste sentido, é que a práxis constitui a razão nova da consciência oprimida e que a revolução, que inaugura o momento histórico desta razão, não possa encontrar viabilidade fora dos níveis da consciência oprimida.

A não ser assim, a aço é puro ativismo.

Desta forma, nem um diletante jogo de palavras vazias – quebra-cabeça intelectual – que, por não ser reflexão verdadeira, não conduz à ação, nem ação pela ação. Mas ambas, ação e reflexão, como unidade que não deve ser dicotomizada.

Para isto, contudo, é preciso que creiamos nos homens oprimidos. Que os vejamos como capazes de pensar certo também.

Se esta crença nos falha, abandonamo s a ideia ou não a temos, do diálogo, da reflexão, da comunicação e caiamos nos slogans, nos comunicados, nos depósitos, no dirigismo. Esta é uma ameaça contida nas inautênticas adesões à causa da libertação dos homens.

A ação política junto aos oprimidos tem de ser, no fundo, "ação cultural” para a liberdade, por isto mesmo, ação com eles. A sua dependência emocional, fruto da situação concreta de dominação em que se acham e que gera também a sua visão inautêntica do mundo, não pode ser aproveitada a não ser pelo opressor. Este é que se serve desta dependência para criar mais dependência.

A ação libertadora, pelo contrário, reconhecendo esta dependência dos oprimidos como ponto vulnerável, deve tentar, através da reflexão e da ação, transformá-la em independência. Esta, porém, não é doação que uma liderança, por mais bem intencionada que seja, lhes faça. Não podemos esquecer que a libertação dos oprimidos é libertação de homens e não de “coisas”. Por isto, se não é auto libertação – ninguém se liberta sozinho, também não é libertação de uns feita por outros.

Não se pode realizar com os homens pela “metade” [1]. E, quando o tentamos, realizamos a sua deformação, Mas, deformados já estando, enquanto oprimidos, não pode a ação de sua libertação usar o mesmo procedimento empregado para sua deformação.


[1] Referimo -nos à reduço dos oprimidos à condiço de meros objetos da aço libertadora que, assim, é realizada mais sobre e para eles do que com eles, como deve ser.


O caminho, por isto mesmo, para um trabalho de libertação a ser realizado pela liderança revolucionário não é a “propaganda libertadora”. Não está no mero ato de “depositar” a crença da liberdade nos oprimidos, pensando conquistar a sua confiança, mas no dialogar com eles.

Precisamos estar convencidos de que o convencimento dos oprimidos de que devem lutar por sua libertação não é doação que lhes faça a liderança revolucionária, mas resultado de sua conscientização.

É necessário que a liderança revolucionária descubra esta obviedade: que seu convencimento da necessidade de lutar, que constitui uma dimensão indispensável do saber revolucionário, não lhe foi doado por ninguém, se é autêntico. Chegou a este saber, que não é algo parado ou possível de ser transformado em conteúdo a ser depositado nos outros, por um ato total, de reflexão e de ação.

Foi a sua inserção lúcida na realidade, na situação histórica, que a levou à crítica desta mesma situação e ao ímpeto de transformá-la.

Assim também é necessário que os oprimidos, que hão se engajam na luta sem estar convencidos e, se não se engajam, retiram as condições para ela, cheguem, como sujeitos, e não como objetos, a este convencimento. É preciso que também se insiram criticamente na situação em que se encontram e de que se acham marcados. E isto a propaganda não faz. Se este convencimento, sem o qual, repitamos, não é possível a luta, é indispensável à liderança revolucionária, que se constitui a partir dele, o é também aos oprimidos. A não ser que se pretenda fazer para eles a transformação e não com eles – somente como nos parece verdadeira esta transformação [2].


[2] No Capítulo IV voltaremos detidamente a estes pontos.


Ao fazermos estas considerações, outra coisa não estamos tentando senão defender o caráter eminentemente pedagógico da revolução.

Se os líderes revolucionários de todos os tempos afirmam a necessidade do convencimento das massas oprimidas para que aceitem a luta pela libertação – o que de resto é óbvio – reconhecem implicitamente o sentido pedagógico desta luta. Muitos, porém, talvez por preconceitos naturais e explicáveis contra a pedagogia, terminam usando, na sua ação, métodos que são empregados na “educação” que serve ao opressor. Negam a ação pedagógica no processo de libertação, mas usam a propaganda para convencer...

Desde o começo mesmo da luta pela humanização, pela superação da contradição opressor-oprimidos, é preciso que eles se convençam de que esta luta exige deles, a partir do momento em que a aceitam, a sua responsabilidade total. É que esta luta não se justifica apenas em que passem a ter liberdade para comer, mas “liberdade para criar e construir, para admirar e aventurar-se”. Tal liberdade requer que o indivíduo seja ativo e responsável, não um escravo nem uma peça bem alimentada da máquina. Não basta que os homens não sejam escravos; se as condições sociais fomentam a existência de autômatos, o resultado não é o amor à vida, mas o amor à morte. Os oprimidos que se "formam” no amor à morte [3], que caracteriza o clima da opressão, devem encontrar, na sua luta, o caminho do amor à vida, que não está apenas no comer mais, se bem que implique também nele e dele não possa prescindir.


[3] Erich Fromn, op. cit., pp. 54-5.


É como homens que os oprimidos têm de lutar e não como "coisas”. É precisamente porque reduzidos a quase “coisas” , na relação de opressão em que estão, que se encontram destruídos. Para reconstruir- se é importante que ultrapassem o estado de quase “coisas”. Não podem comparecer à luta como quase "coisas”, para depois ser homens. É radical esta exigência. A ultrapassagem deste estado, em que se destroem, para o de homens, em que se reconstroem, não é “a posteriori”. A luta por esta reconstrução começa no auto- reconhecimento de homens destruídos.

A propaganda, o dirigismo, a manipulação, corno armas da dominação, não podem ser instrumentos para esta reconstrução [4].


[4] No Capítulo IV voltaremos pormenorizadamente a este tema. 


Não há outro caminho senão o da prática de uma pedagogia humanizadora, em que a liderança revolucionária, em lugar de se sobrepor aos oprimidos e continuar mantendo -os como quase “coisas”, com eles estabelece uma relação dialógica permanente.

Prática pedagógica em que o método deixa de ser, como salientamos no nosso trabalho anterior, instrumento do educador (no caso, a liderança revolucionária), com o qual manipula os educandos (no caso, os oprimidos) porque é já a própria consciência.

“O método é, na verdade (diz o professor Álvaro Vieira Pinto), a forma exterior e materializada em atos, que assume a propriedade fundamental da consciência: a sua intencionalidade. O próprio da consciência é estar com o mundo e este procedimento é permanente e irrecusável. Portanto, a consciência é, em sua essência, um ‘caminho para’ algo que não é ela, que está fora dela, que a circunda e que ela apreende por sua capacidade ideativa. Por definição, continua o professor brasileiro, a consciência é, pois, método, entendido este no seu sentido de máxima generalidade. Tal é a raiz do método, assim como tal é a essência, da consciência, que só existe enquanto faculdade abstrata e metódica.” [5]


[5] Álvaro Vieira Pinto, Ciência e Existência, R. J., Paz e Terra, 1986, 2ª ed. Deixamos aqui o nosso agradecimento ao mestre brasileiro por nos haver permitido citá- lo antes da publicação de sua obra. Consideramos o trecho citado de grande importância para a compreensão de uma pedagogia da problematização, que estudaremos no capítulo seguinte. 

Porque assim é, a educação a ser praticada pela liderança revolucionária se faz co-intencionalidade.

Educador e educandos (liderança e massas), co-intencionados à realidade, se encontram numa tarefa em que ambos são sujeitos no ato, não só de desvelá- la e, assim, criticamente conhecê-la, mas também no de re-criar este conhecimento. 

Ao alcançarem, na reflexão e na ação em comum, este saber da realidade, se descobrem como seus refazedores permanentes.

Deste modo, a presença das oprimidos na busca de sua libertação, mais que pseudo-participação, é o que deve ser: engajamento.



___________________

PAULO FREIRE
PEDAGOGIA DO OPRIMIDO
23ª Reimpressão
PAZ E TERRA

___________________

Leia também:

Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (1)

Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (2)

Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (3)

Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (4)

Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (5)

Pedagogia do Oprimido - Aprender a dizer a sua palavra (6)

Pedagogia do Oprimido - Primeiras Palavras

Pedagogia do Oprimido - 1. Justificativa da «pedagogia do oprimido» 

Pedagogia do Oprimido - A Contradição Opressores-Oprimidos. Sua Superação (1)

Pedagogia do Oprimido - A Contradição Opressores-Oprimidos. Sua Superação (2)

Pedagogia do Oprimido - A Contradição Opressores-Oprimidos. Sua Superação (3)

Pedagogia do Oprimido - A Situação concreta de Opressão e os Opressores (4)

Pedagogia do Oprimido - A Situação concreta de Opressão e os Oprimidos (5)

Pedagogia do Oprimido - 2. A concepção «bancária» da educação como instrumento da opressão.

___________________


© Paulo Freire, 1970
Capa
Isabel Carballo
Revisão
Maria Luiza Simões e Jonas Pereira dos Santos
(Preparaço pelo Centro de Catalog aço -na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)



Freire, Paulo

F934p      Pedagogia do oprimido, 17ª. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1987

(O mundo, hoje, v.21)

1.   Alfabetizaço – Métodos 2. Alfabetizaço – Teoria I. Título II. Série

CDD-374.012
-371.332

77-0064                          CDD-371.3:376.76

___________________


Direitos adquiridos pela
EDITORA PAZ E TERRA S/A
Rua do Triunfo, 177
01212 – São Paulo, SP
Tel. (011) 223- 6522
Rua São José, 90 – 11º andar
20010 – Rio de Janeiro, RJ
Tel. (021) 221- 4066
Conselho Editorial
Antonio Candido
Fernando Gasparian
Fernand Henrique Cardoso  
(licenciado) 
1994

___________________


Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; e Pedagogia do Oprimido

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, X — O hóspede acordado

Victor Hugo - Os Miseráveis


Primeira Parte - Fantine

Livro Segundo - A Queda



X — 
O hóspede acordado 




Soavam duas horas da manhã no relógio da catedral, quando Jean Valjean acordou. 

O que o acordou foi justamente a boa cama que a bondade do bispo lhe dera. Havia quase vinte anos que ele não dormia numa cama e, conquanto não se vesse despido, a sensação de semelhante contraste fora em extremo nova para que deixasse de lhe perturbar o sono. Dormira mais de quatro horas. Fora o necessário para se recompor da fadiga, além de que estava habituado a descansar poucas horas. 

Abriu os olhos, olhou um momento a escuridão que fazia em volta dele e fechou-os novamente para tornar a adormecer. 

Quando muitas sensações diversas nos agitam durante o dia, quando o espírito se encontra a braços com numerosos motivos de preocupações, podemos adormecer, mas uma vez acordados, impossível será tornar a conciliar o sono, que vem com mais facilidade do que volta. Foi o que sucedeu a Jean Valjean. Como não pudesse tornar a adormecer, pôs-se a meditar Jean Valjean encontrava-se num desses momentos em que as ideias se nos amontoam confusamente no espírito. Sena no cérebro uma espécie de vai-vêm tumultuoso. As recordações do passado, as lembranças do presente, flutuavam-lhe em tropel, cruzavam-se confusamente nele, perdendo as formas, tomando vulto descomunal, para em seguida desaparecerem de súbito como que numa pouca de água lodacenta e agitada. Numerosos pensamentos lhe ocorriam ao espírito, porém havia um que o assaltava de contínuo e expelia todos os outros. Esse pensamento, digamo-lo já, era o dos seis talheres de prata e da colher de sopa que Magloire pusera na mesa e que lhe havia prendido a atenção. 

Aqueles seis talheres de prata obcecavam-no Encontravam-se ali, a dois passos. Na ocasião em que ele passara pelo quarto imediato para vir para aquele em que se encontrava, vira a criada a arrumá-los num armário que ficava à cabeceira da cama do bispo. 

Os talheres eram de prata maciça, juntamente com a colher de sopa, dariam, pelo menos, duzentos francos. O dobro do que ele tinha ganho em dezanove anos. É verdade que teria ganho mais, se a administração o não tivesse «roubado». 

O seu espírito oscilou mais de uma hora em reflexões incessantes, entremeadas de certo esforço renitente. Neste momento, soaram três horas Jean Valjean reabriu os olhos, ergueu-se de chofre, estendeu o braço, procurou às apalpadelas a mochila, a qual tinha arrumado perto da cama, deixou pender as pernas, pousou os pés no chão e achou-se, quase sem saber como, sentado na beira da cama. 

Após haver permanecido durante algum tempo nesta atitude, com ar pensativo, que teria parecido sinistra a quem assim o visse, acordado no meio da escuridão, numa casa em que todos dormiam, agachou-se de súbito, descalçou os sapatos, pô-los cautelosamente no capacho ao pé da cama, voltou à primitiva posição pensava e ficou imóvel. 

No meio das suas pavorosas meditações, as ideias que acima indicamos tumultuavam-lhe de contínuo no cérebro, entravam, saíam, tornavam a entrar, oprimiam-no como se carregasse um peso sobre ele, no meio de tudo isto, ocorria-lhe maquinalmente ao espírito, com singular pertinácia, a lembrança de um forçado chamado Brevet que ele conhecera nas galés, que usava as calças seguras apenas por um suspensório de algodão trabalhado a agulha de meia. Não se lhe afastava do espírito o desenho em xadrez daquele suspensório. 

Conservava-se, pois, nesta posição e permaneceria nela indefinidamente até amanhecer, se não ouvisse o som do relógio, dando um quarto ou meia hora. 

Dir-se-ia que aquela badalada lhe dissera: «Vamos!», porque se pôs logo de pé, hesitou ainda um instante, escutou, e, sentindo o mais completo silêncio em casa, encaminhou-se cautelosamente para a janela, que apenas entrevia A noite não estava muito escura, mas no céu corriam algumas nuvens impelidas pelo vento. Este estado do firmamento produzia, fora, alternavas de sombra e claridade, eclipses, por assim dizer, totais, e em seguida momentos do mais límpido luar; dentro de casa havia uma espécie de crepúsculo. Este crepúsculo, intermitente em virtude das nuvens, mas suficiente para distinguir os objetos, assemelhava-se à baça claridade que penetra pelo respiradouro de um subterrâneo, no meio da qual se refletem as sombras dos que passam. 

Jean Valjean aproximou-se da janela e examinou-a. Não tinha grades, deitava para o jardim e, segundo o uso da terra, era apenas fechada por uma simples aldraba. Abriu-a, mas como no quarto penetrasse repentinamente uma rajada de vento frio, tornou logo a fechá-la, tendo previamente olhado para o jardim com olhar mais de investigação e estudo, do que de simples observação. 

Viu neste exame que o jardim era cercado por um muro caiado, extremamente baixo e fácil de escalar. Além do muro, distinguiu a copa de algumas árvores igualmente espaçadas, o que indicava haver ali uma avenida ou rua arborizada. 

Depois deste exame, fez um movimento como de quem tomou a sua resolução, dirigiu-se para a cama, pegou na mochila, abriu-a, revolveu-a, tirou de dentro qualquer coisa, que pôs em cima da cama, meteu os sapatos num bolso, atou o saco, deitou-o ao ombro, pôs o boné na cabeça, descendo a pala para os olhos, procurou o cajado às apalpadelas, foi pô-lo ao canto da janela, voltou outra vez para junto da cama e pegou resolutamente no objecto que tinha poisado sobre ela, e que parecia uma barra de ferro curta, aguçada como um chuço numa das extremidades. 

Seria difícil perceber na escuridão o fim para que fora assim preparado aquele pedaço de ferro. Seria para servir de alavanca? Seria para servir de maça? 

Visto à claridade, reconhecer-se-ia que não era mais do que um instrumento de cabouqueiro. Como então empregavam às vezes os forçados em extrair pedras das altas colinas que circundavam Toulon, não era raro que vessem à sua disposição ferramentas daquele gênero. 

Pegou no ferro com a mão direita e encaminhou-se para a porta do quarto imediato que era o do bispo, contendo a respiração e abafando os passos para não ser pressentido. Chegado à porta, encontrou-a entreaberta. O bispo não a tinha fechado.




__________________


Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.


_________________________

Leia também:






Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine X — O bispo em presença de uma luz desconhecida 1

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine X — O bispo em presença de uma luz desconhecida 2

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XI — Restrição

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XII — Solidão de Monsenhor Bemvindo

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XIII — Quais eram as crenças do bispo

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XIV — O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda I — No fim de um dia de marcha

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda I — No fim de um dia de marcha (2)

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda II — A prudência aconselha a sabedoria 

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda III — Heroísmo da obediência passiva 

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, IV — Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier 

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, V — Tranquilidade 

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VI — Jean Valjean

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VII — O interior do desespero

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VIII — A onda e a sombra

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, IX — Novos agravos 

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XI — O que ele faz

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana (2) - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim


O Brasil Nação volume 2




SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


capítulo 8



A Revolução Republicana



§ 67 – A propaganda republicana


continuando...



Como justificativa da imprensa republicana, criam-se para mais do dobro de clubes ou associações de propaganda, como o Club e Tiradentes, ou o Centro Acadêmico do Rio de Janeiro, em que se destacava Lopes Trovão, ainda estudante. E porque o movimento se afirmou vibrante, logo em fevereiro de 1873, fez o governo imperial, pela sua polícia da corte, empastelar “A República”. A réplica dos republicanos foi o aparecimento do “Globo”, desde logo célebre, pelo nome, já feito nas letras e na imprensa, de Quintino Bocaiuva. No ano seguinte, aparece, como jornal partidário da República, a “Província de São Paulo”, e que subsiste no atual Estado de São Paulo. Ali mesmo, São Paulo, logo em 1871, reúne-se um congresso republicano, de que participam Campos Sales, Prudente de Morais, Rangel Pestana. Em 1873, publicam esses republicanos o seu manifesto. A Faculdade de Direito, onde fulgurara o poeta republicano dos escravos, era um foco de irradiação das suas ideias. Daí partem os que vão, logo em 1884, organizar o vigoroso partido republicano rio-grandense. Já em 1881, os republicanos paulistas haviam pleiteado as eleições gerais, sendo Campos Sales derrotado apenas por 7 votos!... Nas eleições seguintes, são eleitos dois republicanos em São Paulo, e um em Minas. Há distritos em que liberais e conservadores têm que unir-se para evitar a eleição do candidato republicano... Finalmente, nas vésperas de cair o Império, há, no Brasil, cerca de setenta periódicos francamente republicanos, notando-se, ainda, que todos os diários de opinião livre, feitos nas simpatias do público, como a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, tornam-se órgãos de demolição do regime imperial. 

No entanto, tais resultados sobre a alma nacional se faziam num país sem tradições de lutas de opinião, como sem prática de verdade eleitoral: o país das câmaras unânimes, para cada novo ministério a quem se dava invariavelmente a dissolução. Ora, isto demonstra que o Brasil queria a República, e que a tarefa da propaganda foi, por isso, grandemente facilitada: tratava-se de convencer e arrastar um povo já efetivamente adepto da República. Destarte, como não era preciso nenhum esforço mental para fazer aceitar a República, e não tínhamos outro modelo de dialética política senão a penúria de pensamento dos dirigentes consagrados, aí, na mentalidade deles, moldou-se a propaganda republicana, que resultou, por tudo isto, num verbalismo fofo, de antemão estéril, nulo e pedante como ideologia, incompleto e desconjuntado como preparo do novo regime. Quem vem daqueles dias – de propaganda, [27] nas vésperas já da República, recorda, envergonhado e triste, a pulhice, o obsoleto, a mesquinhez e o anacronismo das prédicas e das colunas impressas, gastas em repetir as cediças tiradas de 1789 e 1830. E há muita coisa já reclamada pelos convencionais e os revolucionários contra Luiz-Filipe, que não desponta nas reivindicações apagadas dos nossos de 1870-89. Tanto é assim que quando essas criaturas se encontram com o triunfo das suas ideias, e as realizam em estatutos políticos e jurídicos, não vão além do que haviam feito os moderados radicais em 1832. Bem rebuscando nas concretizações, haveria, em Feijó, mais radicalismo com realidade de progresso social, do que nos inefáveis revolucionários republicanos de 1889. 


[27] Quem escreve estas páginas assistiu ao mais vivo, nos últimos dias de propaganda republicana, e, mocidade de estudante, fez parte de associações, onde esperava encontrar as fórmulas da nova organização... Foram decepções a abater e abafar os sonhos de juventude. É óbvio que tal não é citado para notar qualquer nobreza de propaganda, visto que a propaganda era esse vazio. A historicidade da República brasileira, será nobreza de intuitos nos poucos que realmente se sacrificaram, mas não é nenhuma grandeza de pensamento.


Como explicar tal insuficiência? A aspiração de democracia republicana estava na massa da nação; mas valia, apenas, como instinto. No esforço de conquista política, era mister, antes de tudo, dar forma consciente às mesmas aspirações, precisar os motivos, e, com isto, formular as realizações que definiriam, em funções, as nossas necessidades essenciais. E, agora, ou surgiria da massa mesma um desses iluminados – gênio político como intuição e ação, ou as formas tinham de ser definidas em mentalidades já educadas no pensamento político, e com afinidades nas aspirações revolucionárias, e que substituiriam a intuição genial pelo treino dialético. No Brasil, infelizmente, esse treino era o da classe dirigente, inválida como significação política, morbidez de concepção na perspectiva das legítimas aspirações nacionais, toda ela profundamente viciada em vista da tradição bragantina em que se formara. E foi com isto que a propaganda republicana se afinou. Naqueles dias, quando, havia decênios, já, eram conhecidas as concepções de Carl Max, esses aspectos sociopolítico não existem, no entanto, para os revolucionários que pregaram a República brasileira, como não existiam, para os propagandistas e organizadores da nossa República, os aspectos socioeconômicos dentro dos quais se formulavam noutras partes as reivindicações realmente republicanas, e para as quais gravitava, já, a nova política do mundo ocidental. O ano de 1870, data do célebre manifesto republicano, foi a da formidável tentativa da Comuna de Paris... E os do Brasil ficaram tão contidos nessa prova vazia, que, quatorze anos depois, Prudente de Morais, deputado, julgou-se dispensado de dar um programa do novo regime: O nosso programa está no manifesto. Naquele momento, como primeiro grito, sobretudo como revivescência da velha tradição, a voz de 1870 podia bastar mas que a propaganda consecutiva não saísse daí... De fato, a ideologia com que se pregou a República, e o movimento em que esta se preparou, não correspondem à época, nem procuram inspirar-se nas legítimas necessidades desta pátria, em ânsia de liberdade e de justiça. Tudo não passou de serôdios e ineficientes liberalismos, dissolvidos no molho pobre de um positivismo cego. Uma abstrata separação da Igreja do Estado, com absoluta anulação deste em face da ação pertinaz da Igreja histórica na nação; a atoleimada liberdade de profissões, incompatível com a forma legal dos mais importantes serviços públicos; a nominal secularização dos cemitérios; o abandono da instrução essencial do povo à inexistência dos poderes municipais; e outras menores e contraproducentes franquias, esgotaram a capacidade reparadora dos revolucionários brasileiros do fim do século XIX. Mais distantes da alma popular, e alheios a ela do que os de 1831, eles deixaram intactas, apenas despertadas e irritantes, todas as ânsias em que o Brasil manifestava a sua fome e sede de justiça. Nem os casos e as necessidades meramente políticos, como a realidade da federação; nem isto eles souberam compreender, pelo que consagraram na sua obra toda a monstruosa distribuição circunscricional do país, qual arranjara, nos seus fins de espoliação e tirania, a metrópole sobre a colônia, tal a conservara, por serem os mesmos interesses, o Império sobre a nação. E resultou da federação herdada da colônia e do Império, mais ignóbil despotismo sobre as populações do que nos dias dos capitães-mores. 

Um pertinaz coimbrismo reduzia todo discorrer político ao vazio do bacharelismo jurídico, enquanto o Brasil fechava a sua vida social e política no que a mentalidade de juristas, continuadores dos de 1808, podia descortinar. Por maior desgraça, as contingências da situação geral, agravadas na incapacidade dos políticos do Império, engastaram a República na contenda que os militares travaram com o mesmo regime imperial. A propaganda abolicionista havia aluído as velhas instituições, a propaganda republicana oferecia uma nova ordem no sentido das tendências políticas mais patentes na história do país, e antes que os republicanos intentassem deveras a conquista do poder, o Império se entregava. [28] E há, também, que, como depreciação do regime monárquico, ocorreu o eficacíssimo concurso dos monárquicos sem fé, nem sinceridade para com os princípios que aparentemente professavam, e que, ao menor despeito, atacavam e desprestigiavam o trono, fornecendo à propaganda republicana o melhor dos argumentos concretos.


[28] Pronunciada a declaração ministerial de Afonso Celso, (que viera salvar a monarquia contra os republicanos), tal se manifestou o grande liberal, que o seu correligionário Cesario Alvim prefere declarar-se pela República:... “prefiro a democracia pura... não posso depositar confiança no novo ministério... com um estandarte que só pode ser empunhado pelos adversários...” Joaquim Nabuco, não aceitando a política do novo ministério, concita-o, todavia – “a inspirar-se no seu patriotismo, a fim de que o ministério não seja o último da monarquia.” Depois, o mesmo Nabuco confirmará: “Tudo indicava que nos aproximávamos, por uma gravitação irresistível, da hora da substituição.” Na tribuna dos diplomatas, houve quem exclamasse: “Está perdida a monarquia.” Atribuíram a Dantas, ao sair da memorável sessão, o conceito: “... o que resta é abrir o caminho para que a República entre sem abalo.” O bispo do Pará, que a tudo assistira, comentou: “... os dias da monarquia estão contados...” Diz-se, então, que Saraiva, foi propositadamente a Petrópolis, levar ao imperador a sua opinião: “O que V. M. deve fazer é findar o seu reinado entregando à nação o trono que em 31 ela lhe deu...” “E a minha filha? Perguntou angustiado o pacato Pedro II. Ela é muito religiosa, e se resignará.” Pode ser que tanto não seja verdade, mas que o afirmassem demonstra como se considerava serem aqueles os últimos dias da monarquia.


________


"Manoel Bomfim morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."


Cecília Costa Junqueira



_______________________


Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).


_______________________

Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-ii-manoel-bonfim/


_______________________




Leia também:






O Brasil Nação - v2: § 52 – De Gonçalves Dias a Casimiro de Abreu... - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 53 – Álvares de Azevedo - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 54 – O lirismo brasileiro - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 55 – De Casimiro de Abreu a Varela - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 56 – O último romântico - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 57 – Romanticamente patriotas - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 58 – O indianismo - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 59 – O novo ânimo revolucionário - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 60 – Incruentas e falhas... - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 61 – A Abolição: a tradição brasileira para com os escravos - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 62 – Infla o Império sobre a escravidão - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 63 – O movimento nacional em favor dos escravizados - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 65 – Os escravocratas submergidos - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 66 – Abolição e República - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 67 – A propaganda republicana - Manoel Bomfim

O Brasil Nação - v2: § 68 – A revolução para a República - Manoel Bomfim