quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (e) ... Do parágrafo anterior

Capítulo 4



continuando...


Do parágrafo anterior, contudo, não se deve presumir que o gênio (mas essa doença está agora extinta nas ilhas Britânicas, e diz-se que o finado Lorde Tennyson foi sua última vítima) esteja sempre iluminado, pois assim poderíamos ver claramente todas as coisas e talvez corrêssemos o risco de morrer durante o processo. Ele mais se assemelha a um farol em funcionamento, que envia um raio e depois para por algum tempo; com a diferença de que o gênio é muito mais caprichoso em suas manifestações e pode lançar seis ou sete raios em rápida sucessão (como fizera o sr. Pope naquela noite) e depois cair na escuridão por um ano ou para sempre. Guiar-se pelos seus raios é, portanto, impossível, e na fase de escuridão os homens de gênio, diz-se, são muito semelhantes às outras pessoas.

Felizmente para Orlando — embora a princípio decepcionante — que assim fosse, pois ela agora começava a conviver mais com os homens de gênio. Eles não eram tão diferentes de nós, como se poderia supor. Addison, Pope, Swift gostavam de chá — ela descobriu. Gostavam de caramanchões. Colecionavam pequenos pedaços de vidro colorido. Adoravam grutas. Não detestavam honrarias. Apreciavam elogios. Um dia usavam ternos cor de ameixa, e no outro cinzentos. O sr. Swift tinha uma bonita bengala de junco. O sr. Addison perfumava seus lenços. O sr. Pope sofria de dor de cabeça. Um pouco de mexerico não os contrariava. Nem deixavam de ser ciumentos. (Estamos anotando algumas reflexões que ocorreram a Orlando desordenadamente.) A princípio ela se aborrecia consigo mesma por observar tais ninharias e mantinha um livro para escrever o que eles dissessem de memorável, mas a página permanecia vazia. Mesmo assim, entusiasmou-se e começou a rasgar os convites para as grandes reuniões; mantinha as tardes livres; começou a viver na expectativa da visita do sr. Pope, do sr. Addison, do sr. Swift — e assim por diante. Se o leitor quiser consultar O rapto da madeixa, O espectador, As viagens de Gulliver, compreenderá precisamente o que significam essas misteriosas palavras. Na verdade, biógrafos e críticos poderiam poupar seu trabalho se os leitores seguissem este conselho. Pois, quando lemos:

Se a Ninfa quebrar a lei de Diana,
Ou lascar o frágil jarro de porcelana,
Ou manchar sua honra ou seu novo brocado,
Esquecer a oração ou faltar à mascarada.
Perder o coração ou o colar num baile,


— sabemos, como se o escutássemos, como a língua do sr. Pope vibrava como a de um camaleão, como seus olhos brilhavam, como sua mão tremia, como ele amava, como mentia, como sofria. Em síntese, todos os segredos da alma de um escritor, todas as experiências de sua vida, todas as qualidades de seu espírito estão expressos em suas obras, e mesmo assim precisamos de críticos para explicar uns e de biógrafos para expor outros. A única explicação para esse monstruoso crescimento é que as pessoas estão enfadadas.

Assim, depois de lermos uma ou duas páginas do Rapto da madeixa, sabemos exatamente por que Orlando estava tão alegre e assustada, e com as faces e os olhos tão brilhantes naquela tarde.

A sra. Nelly bateu então à porta para dizer que o sr. Addison desejava ver a sua senhora. Com isso, o sr. Pope se levantou com um sorriso enviesado, despediu-se e partiu manquejando. O sr. Addison entrou. Enquanto ele se senta, vamos ler a seguinte passagem do Espectador:

Considero a mulher um animal belo e romântico, que pode ser adornado com peles e plumas, pérolas e diamantes, metais e sedas. O lince lançara sua pele a seus pés para lhe fazer uma peliça; o pavão, o papagaio e o cisne contribuirão para o seu regalo; o mar será explorado por suas conchas e as rochas por suas gemas, e todas as partes da natureza fornecerão quotas para o embelezamento da criatura que é a sua obra suprema. Tudo isso eu perdoo, mas, quanto à saia de que venho falando, não posso nem quero aprovar.

Mantemos este cavalheiro, de tricórnio e tudo na palma da mão. Olhemos uma vez mais pelo cristal. Não se vê claramente até a prega de sua meia? Não estão expostos para nós cada ondulação e cada curva de seu talento, e sua bondade, e sua timidez, e sua urbanidade, e o fato de vir a casar com uma condessa e por fim morrer muito respeitavelmente? Tudo isso é claro. E, quando o sr. Addison acabou a sua fala, ouviu-se uma tremenda pancada à porta, e o sr. Swift, que tinha maneiras autoritárias, entrou sem ser anunciado. Um momento, onde estão As viagens de Gulliver? Aqui estão! Vamos ler um trecho da Viagem a Houyhnhnms:

Gozei perfeita Saúde de Corpo e Tranquilidade de Espírito; não encontrei a Traição nem a Inconstância de um Amigo, nem as Injúrias de um Inimigo secreto ou declarado. Não tive ocasião de subornar, adular ou alcovitar para obter Favor de qualquer grande Homem nem de seu Favorito. Não necessitei de nenhuma Trincheira contra Fraude ou Opressão; aqui não havia Médico para destruir o meu Corpo nem Advogado para arruinar minha Fortuna; nem Informante de Aluguel para vigiar minhas Palavras e Ações, nem para forjar Acusações contra mim; aqui não havia Zombadores, Censores, Caluniadores, Ladrões, Salteadores, Assaltantes, Juízes, Cafetinas, Bufões, Jogadores, Políticos, Talentos, Faladores, Rabugentos e Cansativos...

Mas para, para tua saraivada férrea de palavras, ou seremos esfolados vivos e tu também! Nada pode ser mais óbvio do que este homem violento. Ele é tão grosseiro e ao mesmo tempo tão límpido; tão brutal e tão bondoso; despreza o mundo inteiro, embora fale com uma menina em linguagem infantil, e morrerá num manicômio — quem duvida?

Assim, Orlando servia chá para todos; e às vezes, quando o tempo estava bom, levava-os consigo para o campo e oferecia-lhes banquetes régios no Salão Redondo, onde pendurara todos os seus retratos em círculo, de modo que o sr. Pope não pudesse dizer que o sr. Addison vinha antes dele, ou vice-versa. Eles eram muito talentosos, também (mas o talento está todo em seus livros), e ensinavam-lhe a parte mais importante do estilo, que é o curso natural da voz que fala — uma qualidade que ninguém sem tê-la ouvido pode imitar, nem mesmo Greene, com toda a sua habilidade; pois nasce do ar e quebra-se como uma onda sobre a mobília, rola e desaparece, e não é para ser recapturada nunca, menos ainda por aqueles que tentam, aguçando os ouvidos meio século depois. Eles lhe ensinaram isso simplesmente pela cadência de suas vozes ao falar; de modo que seu estilo mudou um pouco, e ela escreveu alguns versos agradáveis e talentosos e alguns personagens em prosa. E assim ela esbanjou o seu vinho com eles, colocou dinheiro sob seus pratos ao jantar — que guardavam muito cordialmente — e aceitou suas dedicatórias, e sentiu-se altamente honrada com a troca.

Assim passava o tempo, e Orlando frequentemente dizia para si mesma, com ênfase que podia parecer talvez um pouco suspeita para o ouvinte: “Por minha alma, que vida é esta!” (pois ela ainda estava à procura desse artigo). Mas as circunstâncias logo forçaram-na a considerar o assunto mais minuciosamente.

Um dia estava servindo chá para o sr. Pope, que — como qualquer pessoa pode inferir dos versos citados acima — a observava com olhos brilhantes, sentado enroscado numa cadeira ao seu lado.

“Senhor”, pensou enquanto erguia a pinça de açúcar, “como as mulheres dos tempos futuros me invejarão! E no entanto”, fez uma pausa, pois o sr. Pope precisava de sua atenção. E no entanto — vamos completar o pensamento para ela — quando alguém diz: “como o futuro me invejará” é razoável dizer que se sente extremamente desconfortável no presente. Seria esta vida tão excitante, tão lisonjeira, tão gloriosa quanto parece na obra do escritor de memórias? Por um lado, Orlando positivamente detestava chá; por outro, o intelecto, divino como é, e todo adorável, tem o hábito de se alojar nas carcaças mais cheias de sementes e frequentemente — ai de nós — age como um canibal entre as outras faculdades, de modo que muitas vezes, quando o Espírito é grande, o Coração, os Sentidos, a Magnanimidade, a Caridade, a Tolerância, a Bondade e o resto dificilmente encontram espaço para respirar. Por isso a alta conta que os poetas têm de si mesmos; por isso a baixa conta que têm dos outros; por isso as inimizades, injúrias, invejas e ofensas em que estão constantemente envolvidos; por isso a volubilidade que se permitem; por isso a avidez com que demandam simpatia; tudo isso, pode-se murmurar desde que os intelectuais não nos ouçam, tornando o servir o chá uma ocupação mais arriscada e mais árdua do que geralmente se imagina. Acrescente-se a isso (e de novo murmuramos para que as mulheres não nos ouçam) que há um pequeno segredo que os homens compartilham entre si; Lorde Chesterfield murmurou a seu filho com as mais severas recomendações de segredo “As mulheres são apenas crianças grandes... Um homem inteligente apenas se diverte com elas, brinca com elas, agrada-as e elogia-as”, e, como as crianças sempre ouvem aquilo que não devem, e às vezes crescem e podem deixar escapar algo, toda a cerimônia de servir o chá é curiosa. Uma mulher sabe bem disso, embora um gênio lhe envie seus poemas, elogie seu julgamento, solicite sua crítica e tome o seu chá, isso de modo algum significa que ele respeite suas opiniões, admire sua compreensão ou recuse, embora o espadim lhe seja negado, trespassá-la com sua pena. Tudo isso, por mais baixo que murmuremos, pode transpirar; de modo que, mesmo com uma jarra de creme suspensa e as pinças de açúcar estendidas, as senhoras podem se sentir cansadas, olhar um pouco pela janela, bocejar um pouco, e deixar o açúcar cair com um grande ploc — como Orlando fez agora — no chá do sr. Pope. Nunca houve um mortal tão pronto a suspeitar de um insulto nem tão rápido em vingá-lo como o sr. Pope. Virou-se para Orlando e presenteou-a imediatamente com um esboço imperfeito de um famoso verso dos “Retratos de Mulheres”. Muito polimento lhe foi dado posteriormente, mas mesmo no original era bastante ferino. Orlando recebeu com uma reverência. O sr. Pope partiu, com uma mesura. Orlando — para refrescar as faces, pois se sentia como se o homenzinho tivesse batido nela — vagou pelo bosque de nogueiras, ao fundo do jardim. Em breve a brisa fresca produziu seus efeitos. Para seu espanto, descobriu que se sentia grandemente aliviada de estar só. Contemplou os alegres barcos de carga subindo o rio. Sem dúvida, a visão recordou-lhe um ou dois acontecimentos de sua vida passada. Sentou-se em profunda meditação sob um lindo salgueiro. Ali ficou sentada até que as estrelas surgissem no céu. Então levantou-se, voltou e entrou na casa, onde dirigiu-se para o seu quarto e fechou a porta. Em seguida abriu um armário onde ainda se encontravam muitas roupas que havia usado quando era um rapaz da moda e dentre elas escolheu um traje de veludo preto ricamente bordado com renda veneziana. Estava um pouco fora de moda, na verdade, mas caiu-lhe perfeitamente, e, nele vestida, parecia a própria imagem de um nobre Lorde. Deu uma ou duas voltas diante do espelho para se certificar de que suas saias não tinham prejudicado a desenvoltura das pernas e então saiu secretamente da casa.

Era uma linda noite do início de abril. Miríades de estrelas, misturando-se com a luz da lua em forma de foice, ainda reforçada pelos lampiões de rua, produziam uma luz infinitamente favorável à fisionomia humana e à arquitetura do sr. Wren. Todas as coisas apareciam com o seu mais suave aspecto e, quando estavam prestes a se dissolver, uma gota de prata as reavivava e animava. Assim é que deveria ser a conversação, pensou Orlando (permitindo-se sonhos absurdos); deveria ser a sociedade, deveria ser a amizade, deveria ser o amor. Pois — os céus saberão por quê —, quando perdemos a fé nas relações humanas, a disposição casual de celeiros e de árvores ou de montes de feno e de um vagão se nos apresenta como um tão perfeito símbolo do inatingível que recomeçamos a procurar.

Entrava em Leicester Square enquanto fazia estas observações. Os prédios tinham uma simetria formal e etérea, que não possuem durante o dia. A abóbada celeste parecia ter sido muito cuidadosamente lavada, para completar o perfil dos telhados e das chaminés. Uma jovem tristemente sentada sob um plátano no meio da praça, com um braço caído para um lado e o outro repousando no colo, parecia a própria imagem da graça, da simplicidade e da desolação. Orlando deu uma barretada com o chapéu, como um galanteador corteja uma dama da moda num lugar público. A jovem ergueu a cabeça. Era belíssima. A jovem ergueu os olhos. Orlando viu neles um brilho, tal como às vezes se vê nos bules de chá, mas raramente num rosto humano. Através desse brilho de prata a jovem fitou-o (pois para ela era um homem) suplicante, esperançosa, trêmula, medrosa. Levantou-se; aceitou o seu braço. Pois — precisamos esclarecer? — ela era da tribo que todas as noites lustra sua mercadoria e arruma-a no balcão, à espera do melhor freguês. Conduziu Orlando ao quarto que lhe servia de alojamento, em Gerrard Street. Senti-la apoiada levemente, embora suplicante, em seu braço despertou em Orlando todos os sentimentos próprios de um homem. Olhava, sentia, falava como homem. Contudo, tendo sido ultimamente ela própria mulher, suspeitava que a timidez da moça, e suas respostas hesitantes, e seu desajeitamento com a chave na fechadura e com a dobra do seu casaco, e a languidez de sua mão, tudo isso fosse para agradar a sua masculinidade. Subiram, e o trabalho que a pobre criatura tivera para decorar o seu quarto e esconder o fato de que não possuía outro não enganou Orlando por um momento sequer. A decepção provocava-lhe desprezo; a verdade provocava-lhe compaixão. Uma coisa insinuando-se através da outra deu origem à mais estranha mistura de sentimentos, de modo que não sabia se ria ou se chorava. Enquanto isso, Nell, que era o nome da moça, desabotoou as luvas; cuidadosamente escondeu o polegar da mão esquerda, que estava descosturado; depois, esgueirou-se por trás de um biombo, onde talvez coloriu as faces, arrumou as roupas, colocou um outro lenço ao redor do pescoço, tagarelando o tempo todo como fazem as mulheres para distrair seus amantes, embora Orlando pudesse jurar pelo tom de sua voz, que seus pensamentos estavam noutro lugar. Quando tudo estava pronto reapareceu preparada — mas aí Orlando não pôde mais suportar. Num estranho acesso de raiva, alegria e piedade, arrancou todos os disfarces e admitiu que era uma mulher
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continua pag 87...


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Virginia Woolf, escritora inglesa, nasceu em 1882, no seio de uma família da alta sociedade londrina. Após a morte de seus pais, ela e os irmãos se mudaram para uma casa no bairro de Bloomsbury, onde realizavam encontros com personalidades e poetas da época, como como T. S. Elliot e Clive Bell. Virginia começou a escrever em 1905, inicialmente para jornais. Dez anos depois, ela lançou seu primeiro livro “A Viagem”.
No período entre a 1ª e 2ª Guerra Mundial, Virginia Woolf se tornou uma figura conhecida na sociedade inglesa. Em 1941, ela cometeu suicídio se jogando no rio Ouse, perto da residência onde morava com seu marido, o crítico literário Leonardo Woolf, em Sussex. Mas, a obra de Virginia se imortalizou. Usando com excelência a técnica do fluxo de consciência, a escritora criou livros inovadores, que lhe fizeram ser conhecida como a maior romancista lírica do idioma inglês.
A Universidade de Adelaide, uma das instituições de ensino mais antigas da Austrália, disponibilizou online toda a obra de Virginia Woolf para download gratuito. Ao todo, são dez romances e dois livros de contos que podem ser baixados em três formatos: Zip, ePub e Kindle (para dispositivos Amazon). Entre os arquivos, estão algumas das obras mais famosas da escritora inglesa, como “Mrs. Dalloway” (1925), “Rumo ao Farol” (1927), “Os Anos” (1937) e “A Marca na Parede” (1944).
As obras estão em inglês. Para fazer o download, basta clicar sobre o título e escolher a opção “download. Também estão disponíveis ensaios de Virginia Woolf, como “O Leitor Comum” (1925), no qual ela reflete sobre a arte literária com base em obras-primas de outros autores renomados.


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Leia também:

Virgínia Woolf - Orlando : Apresentação e Prefácio
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(b) - Talvez fosse culpa de Orlando...
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(c) ... A princesa prosseguiu
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(d) ... Toda a cor, salvo o vermelho
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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (b) ... Felizmente, a srta. Penelope Hartopp, filha do general
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (c) ... O som das trombetas diminuiu
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (a) ... Com alguns guinéus
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (b) ... Ninguém manifestou a menor suspeita
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (c) ... Para fazer justiça a ela
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (d) ... Orlando atirou a segunda meia
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (e) ... Do parágrafo anterior

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[1] Em francês no original: mot, palavra, dito de espírito. (N.E.)

[2] Estes ditos são conhecidos demais para requererem repetição, e, além disso, são todos
encontrados nas suas obras completas. (N.A.)


Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 4. (4)

 Diante da Dor dos Outros


para David

… aux vaincus!
Baudelaire

A sórdida mentora, a Experiência...
Tennyson


4..


continuando...


Com relação aos nossos mortos, sempre vigorou uma proibição enérgica contra mostrar o rosto descoberto. As fotos tiradas por Gardner e O’Sullivan ainda chocam porque os soldados da União e dos Confederados jazem de costas, com o rosto de alguns claramente visível. Nenhuma publicação importante, durante muitos anos, voltou a mostrar soldados americanos tombados em campo de batalha, senão, a rigor, a partir da foto capaz de demolir tabus, tirada por George Strock e publicada pela revista Life em setembro de 1943 — antes, a foto fora retida pelos censores militares —, de três soldados mortos numa praia durante um desembarque na Nova Guiné. (Embora “Pracinhas mortos na praia de Buna” seja sempre apresentada como uma foto de três soldados de rosto virado para baixo sobre a areia molhada, um dos três está deitado de barriga para cima, mas o ângulo de que a foto foi tirada esconde sua cabeça.) Por ocasião do desembarque na França — 6 de junho de 1944 — apareceram fotos de baixas americanas anônimas em várias revistas, sempre de bruços, ou cobertas, ou com o rosto virado para outro lado. Quando se trata dos outros, essa dignidade não é tida como necessária.

Quanto mais remoto ou exótico o lugar, maior a probabilidade de termos imagens frontais completas dos mortos e dos agonizantes. Assim, a África pós-colonial existe na consciência do público em geral no mundo rico — além da sua música sensual — sobretudo como uma sucessão de fotos inesquecíveis de vítimas com olhos esbugalhados, desde as imagens da fome em Biafra, no fim da década de 1960, até os sobreviventes do genocídio de quase 1 milhão de tútsis em Ruanda, em 1994 e, poucos anos depois, as crianças e os adultos cujas pernas e braços foram amputados durante a campanha de terror em massa promovida pela ruf, um movimento rebelde de Serra Leoa. (Mais recentemente, as fotos mostram famílias inteiras de aldeões indigentes que morrem de Aids.) Essas imagens trazem uma mensagem dupla. Mostram um sofrimento ultrajante, injusto e que deveria ser remediado. Confirmam que esse é o tipo de coisa que acontece naquele lugar. A ubiquidade dessas fotos e desses horrores não pode deixar de alimentar a crença na inevitabilidade da tragédia em regiões ignorantes ou atrasadas — ou seja, pobres — do mundo.

Crueldades e infortúnios comparáveis aconteceram também na Europa, em outros tempos; crueldades que ultrapassam, em volume e em monstruosidade, qualquer coisa que se possa mostrar, agora, nas regiões pobres do mundo ocorreram na Europa há não mais de sessenta anos. Mas o horror parece haver deixado a Europa, e deixado por tempo suficiente para que a atual ordem pacificada pareça inevitável. (O fato de poder haver campos de extermínio, um sítio a uma cidade e o massacre de milhares de civis que depois foram jogados em valas comuns, em solo europeu, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, deu à guerra na Bósnia e à campanha de extermínio promovida pelos sérvios em Kosovo um interesse especial e anacrônico. Mas uma das maneiras principais de entender os crimes de guerra cometidos no Sudeste da Europa na década de 1990 consistiu em dizer que os Bálcãs, afinal, nunca fizeram de fato parte da Europa.) Em geral, os corpos com ferimentos graves que aparecem em fotos publicadas são da Ásia ou da África. Essa praxe jornalística é herdeira do costume secular de exibir seres humanos exóticos — ou seja, colonizados: africanos e habitantes de remotos países da Ásia foram mostrados, como animais de zoológico, em exposições etnológicas montadas em Londres, Paris e outras capitais europeias, desde o século XVI até o início do XX. Em A tempestade, o primeiro pensamento de Trinculo ao encontrar-se com Calibã é que ele poderia ser apresentado em uma exposição, na Inglaterra: “muitos tolos de fim de semana, por lá, pagariam uma moeda de prata [...] podem não abrir mão de um vintém para aliviar os sofrimentos de um mendigo aleijado, mas pagam dez para ver um indiano morto”. A exibição, em fotos, de crueldades infligidas a pessoas de pele mais escura, em países exóticos, continua a promover o mesmo espetáculo, esquecida das ponderações que impedem essa exposição quando se trata de nossas próprias vítimas da violência; pois o outro, mesmo quando não se trata de um inimigo, só é visto como alguém para ser visto, e não como alguém (como nós) que também vê. Porém, sem dúvida, o soldado talibã ferido que implora pela sua vida, cuja sorte foi mostrada com destaque em The New York Times, também tinha esposa, filhos, pais, irmãs e irmãos, alguns dos quais podem, um dia, topar com fotos coloridas do seu marido, pai, filho e irmão ao ser massacrado — se é que já não as viram.



continua pág 200...


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"Quando o mundo estiver unido
na busca do conhecimento, e
não mais lutando por dinheiro e
poder, então nossa sociedade
poderá enfim evoluir a um novo
nível."


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"... conversar me dá a chance de saber o que penso...,
mas se não escutar continuo conversando comigo mesmo."


Susan Sontag - O Mundo-Imagem (02)

 Sobre fotografia


Ensaios


Susan Sontag



O MUNDO-IMAGEM (02)



Um sentido do real decididamente mais complexo cria seus próprios fervores e simplificações compensatórios, entre os quais o mais viciante é tirar fotos. É como se os fotógrafos, em reação a um sentido de realidade cada vez mais esvaziado, procurassem uma transfusão — viajar para novas experiências, revigorar as antigas. Suas atividades ubíquas redundam na mais radical, e mais segura, versão da mobilidade. A premência de novas experiências se traduz na premência de tirar fotos: a experiência em busca de um modelo à prova de crises.

Assim como tirar fotos parece quase obrigatório para aqueles que viajam, a paixão de colecioná-las tem um apelo especial para os que se acham confinados — por opção, incapacidade ou coerção. As coleções de fotos podem ser usadas para criar um mundo substituto, em harmonia com imagens enaltecedoras, consoladoras ou provocantes. Uma foto pode ser o ponto de partida de um romance (o Judas de Hardy já se apaixonara pela foto de Sue Bridehead antes de conhecê-la pessoalmente), mas é mais comum que uma relação erótica seja não só criada por fotos mas entendida como limitada a fotos. Em Les enfants terribles, de Cocteau, o irmão e a irmã narcisistas partilham a cama, seu “quarto secreto”, com imagens de boxeadores, astros do cinema e assassinos. Isolando-se em seu covil para viver sua lenda particular, os dois adolescentes guardam essas fotos, um panteão privado. Numa parede da cela 46 na prisão de Fresnes no início da década de 1940, Jean Genet colou as fotos de vinte criminosos que ele havia recortado de jornais, vinte rostos em que discernia “o sinal sagrado do monstro”, e em sua honra escreveu Nossa Senhora das Flores; eles lhe serviram de musas, modelos, talismãs eróticos. “Eles velam minhas pequenas rotinas”, escreve Genet — devaneios fluidos, masturbação e escrever —, e “são a única família que tenho e meus únicos amigos”. Para os que ficam em casa, os prisioneiros e os que confinam a si mesmos, viver entre fotos de estranhos glamourosos é uma reação sentimental ao isolamento e um desafio insolente que a ele dirigem.

O romance Crash (1973), de J. G. Ballard, descreve uma coleção de fotos mais especializada, a serviço de uma obsessão sexual: fotos de acidentes de carro que Vaughan, amigo do narrador, coleciona enquanto prepara a própria morte em um acidente de carro. A realização de sua visão erótica da morte num automóvel é antegozada, e a própria fantasia é ainda mais erotizada mediante o exame atento e repetido dessas fotos. Numa ponta do espectro, as fotos são dados objetivos; na outra, são elementos de ficção científica psicológica. E assim como se pode localizar um imperativo sexual mesmo na mais assustadora, ou aparentemente neutra, realidade, também a foto-documento mais banal pode transformar-se num emblema do desejo. A foto do criminoso é uma pista para o detetive e um fetiche erótico para um colega ladrão. Para Hofrat Behrens, em A montanha mágica, os raios X dos pulmões de seus pacientes são instrumentos para o diagnóstico. Para Hans Castorp, que cumpre uma sentença por tempo indeterminado no sanatório de tuberculosos de Behren e caiu de amores pela enigmática e inatingível Clavdia Chauchat, “o raio X de Clavdia, que mostra não seu rosto mas a delicada estrutura óssea da parte superior de seu corpo e os órgãos da cavidade torácica, cercados pelo pálido e espectral invólucro de carne”, é o mais precioso dos troféus. O “retrato transparente” é um vestígio muito mais íntimo de sua amada do que a pintura de Clavdia que Hofrat possui, esse “retrato exterior”, que Hans certa vez contemplou com tamanho desejo.

Fotos são um meio de aprisionar a realidade, entendida como recalcitrante, inacessível; de fazê-la parar. Ou ampliam a realidade, tida por encurtada, esvaziada, perecível, remota. Não se pode possuir a realidade, mas pode-se possuir imagens (e ser possuído por elas) — assim como, segundo Proust, o mais ambicioso dos prisioneiros voluntários, não se pode possuir o presente, mas pode-se possuir o passado. Nada poderia ser mais discrepante da faina autossacrificante de um artista como Proust do que a falta de esforço presente no ato de tirar fotos, provavelmente a única atividade capaz de criar obras de arte respeitadas na qual um simples movimento, um toque do dedo, produz uma obra completa. Enquanto a faina proustiana supõe que a realidade esteja distante, a fotografia subentende um acesso instantâneo ao real. Mas os resultados dessa prática de acesso instantâneo são outro modo de criar distância. Possuir o mundo na forma de imagens é, precisamente, reexperimentar a irrealidade e o caráter distante do real.

A estratégia do realismo de Proust presume a distância daquilo que é normalmente experimentado como real, o presente, a fim de reanimar aquilo que em geral se pode alcançar apenas de forma remota e nebulosa, o passado — que é onde o presente se torna real no sentido de Proust, ou seja, algo que pode ser possuído. Nesse esforço, fotos não ajudavam em nada. Toda vez que Proust menciona fotos, o faz de modo depreciativo: como sinônimo de uma relação superficial com o passado, exclusiva e excessivamente visual, e meramente voluntária, cujo resultado é insignificante quando comparado com as profundas descobertas a ser feitas ao reagir às sugestões oriundas de todos os sentidos — a técnica que ele chamou de “memória involuntária”. É inadmissível imaginar que no fim do preâmbulo de No caminho de Swan o narrador se visse diante de uma foto da igreja paroquial de Combray, e que o sabor dessa migalha visual, em vez do gosto da humilde madeleine embebida no chá, erguesse diante de seus olhos toda uma parte de seu passado. Mas a razão para tal não está na incapacidade de uma foto de evocar memórias (ela é capaz disso, dependendo antes dos predicados do espectador do que da foto), mas sim naquilo que Proust esclarece acerca de suas próprias exigências no que se refere à recordação imaginativa, ou seja, que ela não se mostre apenas ampla e acurada mas dê a textura e a essência das coisas. E ao considerar as fotos apenas na medida em que podia usá-las, como um instrumento da memória, Proust como que entende de forma errada o que são fotos: não tanto um instrumento da memória como uma invenção dela, ou um substituto.

Não é a realidade que as fotos tornam imediatamente acessível, mas sim as imagens. Por exemplo, hoje todos os adultos podem saber com exatidão como eles, seus pais e seus avós eram quando crianças — um conhecimento que não era acessível antes da invenção da câmera, nem mesmo para aquela pequena minoria em que era costume encomendar pinturas de seus filhos. A maioria desses retratos era menos informativa do que qualquer instantâneo. E mesmo os muito ricos tinham, em geral, apenas um retrato de si mesmos e de seus antepassados quando crianças, ou seja, uma imagem de um momento da infância, ao passo que hoje é comum a pessoa ter muitas fotos de si mesma em todas as idades, uma vez que a câmera oferece a possibilidade de um registro completo. O sentido dos retratos convencionais na residência burguesa dos séculos XVIII e XIX era confirmar um ideal de modelo (proclamar a posição social, embelezar a aparência pessoal); em vista desse propósito, fica claro o motivo por que seus proprietários não sentiam necessidade de ter mais de um retrato. A foto-registro, mais modestamente, confirma apenas que o tema existe; portanto, por mais fotos que a pessoa tenha, elas nunca serão demais.

O temor de que a singularidade de um tema fosse nivelada ao ser fotografado nunca se exprimiu com mais frequência do que na década de 1850, anos em que a fotografia de retrato deu o primeiro exemplo de como as câmeras podiam criar modas fugazes e indústrias duradouras. Em Pierre, de Melville, publicado no início daquela década, o herói, outro campeão fervoroso do isolamento voluntário,

refletia sobre a infinita presteza com que, agora, o retrato mais fiel de qualquer pessoa podia ser tirado pelo da guerreótipo, ao passo que em tempos anteriores um retrato fiel só estava ao alcance do poder dos endinheirados, ou dos aristocratas mentais da terra. Portanto, era bastante natural a inferência de que, em vez de imortalizar um gênio, como nos velhos tempos, um retrato agora apenas dializava um imbecil. Além do mais, quando todos têm seu retrato publicado, a verdadeira distinção consiste em não ter nunca seu retrato publicado.
Mas se fotos rebaixam, pinturas distorcem no sentido oposto: engrandecem. A intuição de Melville é de que todas as formas de retratar na civilização dos negócios são espúrias; pelo menos, assim parece a Pierre, modelo de sensibilidade alienada. Da mesma forma como uma foto é muito pouco numa sociedade de massas, uma pintura é demais. A natureza de uma pintura, observa Pierre, torna-a
mais habilitada a reverenciar do que um homem; porquanto nada de desairoso pode ser imaginado com respeito ao retrato, ao passo que muitas coisas inevitavelmente desairosas podem ser concebidas quando se trata de um homem.
Embora tais ironias possam ser vistas como diluídas no completo triunfo da fotografia, a diferença principal entre uma pintura e uma foto no que se refere ao retratismo ainda perdura. Pinturas invariavelmente resumem; fotos, em geral, não o fazem. Imagens fotográficas são peças comprobatórias numa biografia ou numa história em andamento. E uma foto, ao contrário de uma pintura, implica a existência de outras.

“Sempre — o Documento Humano mantém o presente e o futuro em contato com o passado”, disse Lewis Hine. Porém aquilo que a fotografia fornece não é apenas um registro do passado mas um modo novo de lidar com o presente, como atestam os efeitos dos incontáveis bilhões de documentos fotográficos contemporâneos. Enquanto fotos velhas preenchem nossa imagem mental do passado, as fotos tiradas hoje transformam o que é presente numa imagem mental, como o passado. As câmeras estabelecem uma relação inferencial com o presente (a realidade é conhecida por seus vestígios), proporcionam uma visão imediatamente retroativa da experiência. Fotos fornecem formas simuladas de posse: do passado, do presente e até do futuro. Em Invitation to a beheading [Convite a uma decapitação] (1938), de Nabokov, o prisioneiro Cincinnatus vê o “foto-horóscopo” de uma criança elaborado pelo sinistro M’sieur Pierre: um álbum de fotos da pequena Emmie quando bebê, depois como criança, depois como pré-púbere, tal como é no momento, e depois — por meio de retoques e de fotos da mãe — imagens da Emmie adolescente, noiva, com trinta anos e, por fim, uma foto de Emmie já aos quarenta anos de idade, em seu leito de morte. Uma “paródia da obra do tempo”, assim Nabokov denomina esse artefato exemplar; é também uma paródia da obra da fotografia.



continua página 93...

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Susan Sontag (16 de janeiro de 1933, Nova Iorque — 28 de dezembro de 2004) foi uma escritora, crítica de arte e ativista dos Estados Unidos.

Graduou-se na Universidade de Harvard e destacou-se por sua defesa dos direitos humanos. Publicou vários livros, entre eles Styles of Radical Will, The Way We Live Now, Against Interpretation e In America, pelo qual recebeu em 2000 um dos mais importantes prémios do seu país, o National Book Award.

Publicou artigos em revistas como The New Yorker e The New York Review of Books e no jornal The New York Times.

Num de seus últimos artigos, publicado em maio de 2004 no jornal The New York Times, Sontag afirmou que "a história recordará a Guerra do Iraque pelas fotografias e vídeos das torturas cometidas pelos soldados americanos na prisão de Abu Ghraib. Ela faleceu aos 71 anos de idade de síndrome mielodisplásica seguida de uma leucemia mielóide aguda em 28 de Dezembro de 2004.



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Nota de esclarecimento da LêLivros


Sobre a obra: A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo
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Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.link ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.
"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."


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Copyright © 1973, 1974, 1977 by Susan Sontag
Este livro foi publicado originalmente em 1977, nos Estados Unidos,
pela Farrar, Straus & Giroux

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
que entrou em vigor no Brasil em 2009.

Título original
On photography

Capa
Angelo Venosa

Foto de capa
Fotógrafo americano anônimo (c. 1850). /
Coleção Virginia Cuthbert Elliot, Buffalo, Nova York

Preparação
Otacílio Nunes Jr.

Revisão
Denise Pessoa
Ana Maria Barbosa

Atualização ortográfica
Página Viva

ISBN 978-85-8086-579-0

Todos os direitos desta edição reservados à
editora schwarcz ltda.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Las Poetisas del Amor - Gisela Galimi (Argentina)

Gisela Galimi  - (25)





A mi madre, por sus versos no escritos
A mi madre, por ser en nuestras vidas, la poesía misma





PRINCIPIO DEL PRINCIPIO

Puedo soltarme el pelo
abandonarme en vos
estarme quieta.
Desordenar el sol en nuestra casa
volver sobre mi
y encontrarte.
Dejar el equipaje,
disfrutarlo:
mi tierra prometida son tus manos.






GENEALOGÍA

Una estirpe de espada
y de rosa
azul linaje de sueños.
Mi abuelo, mosquetero y poesía
mi padre, esgrimista y poeta.
Yo, escritora de armas blancas
duelista de palabras y silencios.






DE ENTRECASA

No es la gran soledad
son los pequeños vacíos
horas en que la oficina
te fagocita,
exprime.
El tiempo que el niño duerme
su frágil siesta de hilo
y yo administro la rutina
cotidiana y doméstica,
malabarismos de la nada.
No son los grandes dolores
son las pequeñas frustraciones
el diario sin leer
las uñas hace tres días sin pintar
el no poder hacer el dobladillo del vestido de salir
ni necesitarlo.







POESÍA

Si la poesía es agua clara,
dulce caricia a los sentidos
quimera y ronda
sueño azul de rima y ritmo,
entonces
ya no soy
poesía.
Pero si es lengua
y sangre,
y grito,
y pozo,
y llamarada.
Si es aquelarre de palabras
que liberan del hechizo,
entonces más que nunca
soy poeta.
Aunque mis versos
no me reconozcan.






FIN

Mi cuerpo se abre,
se desgrana.
Fruta sin árbol caí,
porque otoñesía,
porque estaba madura
o porque ya no tenía ganas de quedarme.






Claroscuro y Colorado



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Gisela Galimi nació en Lobos, provincia de Buenos Aires, en 1968. Recibió su licenciatura en Periodismo en la Universidad del Salvador. Es poeta y profesora del taller de Comunicación Oral y Escrita de la Facultad de Ciencias Económicas de la Universidad de Palermo. A los 16 años ganó el premio Givre, de la poesía joven. A los 17 participó en el programa "Primavera en Libertad". Ha trabajado en Buenos Aires en los diarios: Ambito Financiero, La Prensa y Clarín. También ha colaborado en las revistas: Nueva, Prensa Económica, y Target; como periodista económica y turistica. Desde hace dos años participa en el taller de María del Carmen Colombo. Es autora del Libro Claroscuro y Colorado, Editorial Tierra Firme.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Lima Barreto - O Triste fim de Policarpo Quaresma: 2ª Parte III(a) - Golias

 O triste fim de Policarpo Quaresma 



Lima Barreto




A João Luiz Ferreira 
Engenheiro Civil 

Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la routine vulgaire. 

Renan, Marc-Auréle 





SEGUNDA PARTE


III - Golias
  



No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e giboso Genelício, glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga casara-se. A cerimônia correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.

Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquele ato, mas, aparentemente, nenhuma vontade estranha à sua influíra para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo médico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal título um foral de nobreza, equivalente àqueles com que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. 

Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”. Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo título, mas pela sua simulação de inteligência, de amor à ciência, de desmedidos sonhos de sábio. Tal imagem que dele fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inércia da sociedade, a sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ela, de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a ele igual, e o melhor era não adiar. 

Era por isso que ela não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela. 

Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não obstante as origens puramente europeias, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, ereto, com uma fisionomia irradiante de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia dentro do vestido, dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. De resto, a sua beleza não era a grande beleza - aquela que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas clássicas. 

No seu rosto, nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha, ou também dessa majestade de ópera lírica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda e própria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quase cobriam toda a cavidade orbitária, fazia fulgurar o seu rosto móbil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade. 

Ao contrário do costume, não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro. Quaresma não fora à festa, mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. O sítio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se começasse a desertar da batalha. 

O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veio distraí-lo um pouco, sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas. Passou um mês com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo o município o disputava e festejava. 

O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planícies e rios em toscas pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da velha com a estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico. À esquerda da estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Câmara Municipal. 

Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro estilo mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média. 

Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado. 

Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos, presidente da Câmara, festa que teria lugar na quarta-feira próxima. 

Chegara sábado e fora passear à vila domingo. 

Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o Doutor Campos. 

Era o médico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de “aranha” com a sua filha, Nair, assistir o ofício religioso. 

O trovador e o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. 

Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil. À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem que o major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. As consequências desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. Continuavam as suas ideias profundamente arraigadas, tão-somente ele as escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens.  

Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos estrangeiros. 

Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Doutor Campos, Presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã até esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito: 

- Major, foi uma boa ideia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir... 

- Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas. 

- Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha? 

- Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra. 

- Até aí não vou. Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo, você vai ser deputado”, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os treinos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vaza, major. 

- Cada um tem as suas teorias. 

- Decerto. Outra cousa, major: conhece o Doutor Campos? 

- De nome. 

- Sabe que ele é presidente da Câmara? 

Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou: 

- Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele. 

- Fazes bem. 

- Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui? 

- Podes. 

Um camarada do Doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além do Anastácio, que não era bem um empregado, mas agregado, admitira o Felizardo. 

Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura. Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros. Esvoaçavam tiés-vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham saído à luz, não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza. Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma aparência de fraqueza muscular, não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isto era um tagarela incansável. De manhã, quando chegava, aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município. 

O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte do sítio, que o capão invadira. Obtido ele, o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos batatas-inglesas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele removia para longe, onde então queimaria em coivaras pequenas. 

Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas prometia dar um rendimento maior ao plantio. 

Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem cante, ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção. 

- Essa gente anda acesa por aí, disse Felizardo logo que o major chegou. 

Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras não. Anastácio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hierática de uma pintura mural tebana. O major perguntou ao Felizardo: 

- Que é que há, Felizardo? O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante: 

- Negócio de política... “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”. 

- Onde? - Na estação. 

- Por quê? 

- Negócio de partido. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô Campo” é pelo “senadô”... Um “sarcero”, patrão! 

- E você, por quem é? 

Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a remover. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador. 

Respondeu afinal: 

- Eu! Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro “sinhô”. 

- Eu sou como você, Felizardo. 

- Quem me dera, meu “sinhô”. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”. 

Afastou-se com o pau; e, quando voltou, Quaresma indagou assustado: 

- Quem disse? 

- Não sei, não “sinhô”. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol, tanto assim que “doutô Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade. 

- Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguém... Qual amigo! 

- “Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão “tá” é varrendo a testada. 

Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a ideia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano. “Conheci-o no meu emprego” - dizia o major; Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.” 

Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos; os entusiasmos dele, entretanto, junto à vontade de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele. 

Dona Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se à cabeceira; Quaresma à direita e à esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador. 

- Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo? 

Não havia meio dela dizer “seu”. A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia usar esse plebeísmo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portuguesa, dizer “senhor” e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente. 

- Muito. Que lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração. E ele tomava aquela atitude de arroubo; uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada. 

- Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma. 

- Hoje acabei uma modinha. 

- Como se chama? indagou Dona Adelaide. 

- “Os lábios da Carola”.  

- Bonito! Já fez a música? 

Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo à boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção: 

- A música, minha senhora, é a primeira cousa que faço. 

- Hás de no-la cantar logo. 

- Pois não, major. 




continua na página 51...

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Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 1881, sete anos antes da assinatura da Lei Áurea. Trabalhando como jornalista, valeu-se de uma linguagem objetiva e informal, mais tarde valorizada por seus contemporâneos e pelos modernistas, para relatar o cotidiano dos bairros pobres do Rio de Janeiro como poucos…

Definida pelo próprio autor como “militante”, sua produção literária está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais. Em muitas obras, como no seu célebre romance Triste Fim de Policarpo Quaresma e no conto O Homem que Sabia Javanês, o método escolhido por Lima Barreto para tratar desse tema é o da sátira, cheia de ironia, humor e sarcasmo.



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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional 
Departamento Nacional do Livro


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Leia também:

O Triste fim de Policarpo Quaresma: 1ª Parte I - A Lição de Violão
O Triste fim de Policarpo Quaresma: 1ª Parte II(a) - Reformas Radicais
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LVII - Entre Luz e Sombra

Cruz e Sousa


Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos



DISPERSAS 




   
ENTRE LUZ E SOMBRA

           Ao dia 7 de Setembro
           Libertas Lux Dei!!...


Surge enfim o grande astro
Que se chama Liberdade!...
Dos sec’los na imensidade
Eterno perdurará!...
Como as dúlias matutinas
Que reboam nas colinas,
Nas selvas esmeraldinas
Em honra ao celso Tupá!...

Eram só cinéreas nuvens
Os brasíleos horizontes!
Curvadas todas as frontes
Caminhavam no descrer! –
As brisas nem murmuravam...
Os bosques nem soluçavam...
Os peitos nem se arroubavam...
– Estava tudo a morrer!...

De repente, o sol formoso
Vai as nuvens esgarçando.
As almas vão palpitando,
Cintilam magos clarões!...
E o Índio fraco, indolente
Fazendo esforço potente
Dos pulsos quebra a corrente,
Biparte os acres grilhões!...

Por terra tomba gemendo
O vão, atroz servilismo...
Rui a dobrez no abismo...
Eis a verdade de pé!...
Enfim!... exclama o silvedo
Enfim!... lá diz quase a medo
Selvagem, nu Aimoré!...

Assim, brasílea coorte,
Falange excelsa de obreiros,
Soberbos, almos luzeiros
De nossa gleba gentil,
Quebrai os elos d’escravos
Que vivem tristes, ignavos,
Formando delas uns bravos
– P’ra glória mais do Brasil!...

Lançai a luz nesses crânios
Que vão nas trevas tombando
E ide assim preparando
Uns homens mais p’ro porvir!
Fazei dos pobres aflitos
Sem crenças, lares, proscritos,
Uns entes puros, benditos
Que saibam ver e sentir!...

Do carro azul do progresso
Fazei girar essa mola!
Prendei-os sim – mas à escola
Matai-os sim – mas na luz!
E então tereis trabalhado
O negro abismo sondado
E em nossos ombros levado
Ao seu destino essa cruz!!...

Fazei do gládio alavanca
E tudo ireis derribando;
Dormi, co’a pátria sonhando
E tudo a flux se erguerá!
E a funda treva cobarde
Sentindo homérico alarde,
Embora mesmo que tarde
Curvada assim fugirá!...

Enfim!... os vales soluçam
Enfim!... os mares rebramam
Enfim!... os prados exclamam
Já somos livre nação!!...
Quebrou-se a estátua de gesso...
Enfim!... – mas não... estremeço,
Vacilo... caio, emudeço...
Enfim de tudo inda não!!...






SETE DE SETEMBRO

Liberdade! Independência!...
Eis os brados grandiosos
Que quais raios luminosos
Fulguraram lá nos céus!...
Eis a mágica Odisseia
Que duns lábios rebentando,
Foi o povo transformando,
Foi rompendo os negros véus!...

As colinas, prados, montes,
As florestas seculares
– Os sertões, os próprios mares
Exultaram com fervor!
E os brados retumbaram
Pela lúcida devesa,
Pela virgem natureza
Com homérico clangor!...

Qual artista consumado,
Qual um velho estatuário
Do Brasil no azul sacrário,
Essa data vos traçou,
– O triunfo mais pujante,
A eleita das ideias,
A maior das epopeias
– Qu’inda igual não se gerou!...

Mas embora, meus senhores,
Se festeje a Liberdade,
A gentil Fraternidade
Não raiou de todo, não!...
E a pátria dos Andradas,
Dos Abreu, Gonçalves Dias
Inda vê nuvens sombrias,
Vê no céu fatal bulcão!...

Muito embora Rio Branco,
Esse cérebro profundo
Que passou por entre o mundo,
Do Brasil como um Tupã!...
Muito embora em catadupas
Derramasse o verbo augusto,
Da nação no enorme busto
Inda a mancha existe, há!...

É preciso com esforço,
Colossal, estranho, ingente,
Ir o cancro, de repente,
Esmagar que nos corrói!...
É preciso que essa Deusa,
A excelsa Liberdade,
Raie enfim na Imensidade
Mais altiva como sói!...

Sai da larva a borboleta
Com as asas auriazuis
E um disco vai – de luz
A deixar onde passou!
No entanto o grande berço
Das façanhas de Cabrito
Inda espera um novo grito
Como o – Basta – de Waterloo!...

Eu bem sei que Guttemberg
Que esse Fulton primoroso
Faust, Kepler grandioso
Trabalharam té vencer!
Mas embora tropeçassem
Acurando os seus eventos,
Tinham sempre tais portentos
A vontade por poder!...

Eia! sim! – p’ra Liberdade
Irrompei qual verbo eterno,
Como o – Fiat – superno
Pelos ares a rolar!
Eia! sim! – que nossa pátria
Só precisa – mas de bravos...
E em prol desses escravos
Seu dever é trabalhar!!...

Somos filhos dessa gleba
Majestosa aonde o gênio
Como o astro do proscênio
Solta as asas, mui febril!
Dos selvagens Tiaraiús
E dos brônzeos Guaicurus...
Somos filhos do Brasil!...

Esperemos, tudo embora!...
Pois que a sã locomotiva,
Do progresso imagem viva
Não se fez a um sopro vão!...
Aguardemos o momento
Das mais altas epopeias,
Quando o gládio das ideias
Empunhar toda a nação!...

Esperemos mais um pouco
Qu’inda há almas brasileiras
Que se lembrarão, sobranceiras,
Que é preciso progredir!...
Inda há peitos valerosos
Que combatem descobertos
Por florestas, por desertos,
Mas c’os olhos no porvir!...

Inda há lúcidas falanges,
Lutadores denodados
Que se erguem transportados
Burlando a sã razão!...
Inda há quem se recorde
Do Egrégio Tiradentes
Que do sangue as gotas quentes
Derramou pela nação!!...

Já nas margens do Ipiranga
Patrióticos acentos
Vão alados como os ventos
Pelos páramos azuis!!...
Vamos! Vamos! – eia! exulta,
Jovem pátria dos renomes...
– Vibra a lira, Carlos Gomes!
Bocaiúva, espalha luz!!...






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Leia também:

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LVII - Entre Luz e Sombra

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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.


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Organização e Estudo
Lauro Junkes
Presidente da Academia Catarinense de Letras


© Copyright 2008
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Projeto Gráfico, Editoração e Capa
ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA.
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Fone/Fax: (48) 3028.7799

Revisão Linguístico-Ortográfica
PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES
PROF. Dr. LAURO JUNKES

Impressão e Acabamento
Avenida Gráfica e Editora Ltda.

Formato
14 x 21cm


FICHA CATALOGRÁFICA

Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167



S725o      Sousa, Cruz e, 1861-1898

                        Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
                  e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
                         v. 1 (612 p.)

                         Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
                  traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.

                            1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
                  Junkes, Lauro. II. Titulo.

                                                                                      CDU: 869.0(816.4)-1



"A gente só tem saída na poesia."