sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Prof. Tiago Marques : Praia, natação e conchas: os Sambaquis

Praia, natação e conchas: os Sambaquis




Prof. Tiago Marques - Sujeito Histórico



No vídeo de hoje, iremos aprender um pouco sobre os primeiros habitantes do litoral brasileiro, os sambaquianos. Além de terem grandes habilidades no nado e no remo, eles são responsáveis por construir os sambaquis, estruturas que encontramos nos dias de hoje ao longo das nossas praias! Quer saber de que eles são feitos e quem era esse grupo? Então aperta o play e vem aprender junto!









Referências:

Documentário Sambaqui Sociedade Redescoberta: https://www.youtube.com/watch?v=eb3VN...

Arqueologia do Rio Grande do Sul - Pedro Inácio Schmitz. Instituto Anchietano de Pesquisas (UNISINOS).

História do Brasil Colônia - Maria Angélica Zubaran; Juliane Puhl Gomes; Arilson dos Santos Gomes.

História do Brasil - Bóris Fausto.

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Passe álcool gel, lave as mãos e, se puder, fique em casa.

Beijos e abraços históricos!



Sarau... La Vida Según Galeano: Mujeres (Eduardo Galeano)

La Vida Según Galeano: Mujeres


Mujeres


Eduardo Galeano


Puntos de vista

"Se as Santas - e não, os Santos - tivessem escrito os Evangelhos como seria a primeira noite da Era Cristã?"




Serie del canal Encuentro de Argentina, donde Eduardo Galeano nos cuenta con su manera hermosa y peculiar las historias que nunca oímos. Esta vez nos habla de mujeres



histórias davóinha: becos sem saída (I) 06bs - o vazio da botina

becos sem saída

(I) o descolocado
06bs – o vazio da botina

baitasar



Guria, essa papelada que está comigo agora é sua, a miúda não parecia querer nem aparentava vontade de carregar outro peso morto, já bastava ter que se carregar de nenhum lugar para lugar algum, Papelada é pra quem sabe ler. Eu não sei o que fazer com isso e nem quero saber. O acontecido  se é que aconteceu mesmo  não vai ser mudado. Eu sou o que sou e o velho é o que é: um perneta com uma ignorante, isso não vai mudar.

o velho faz silêncio, parece não saber o que dizer nem responder a pergunta que se faz noite depois de dia, dia depois de noite, É preciso sentir na própria carne pra dá importância,  lembra seus dias de febre pelo metal amarelo, longe, no meio do mato, doente, fugindo e apodrecendo, sem dormir, entre mulas e gente que não era mais gente, comendo bicho e folha, subindo e descendo, carregando o vazio escavado, arrastando o corpo para cima e abaixo da terra, perdendo os dentes e a vontade, até o dia que os garimpeiros decidiram fechar a ponte sobre o rio, Nesse dia, a polícia veio e perdi aquela parte que fica entre o joelho e o pé. No relatório da polícia fui acusado de colocar a perna na frente do cano do fuzil. Queria esquecer, mas não posso. O vestígio daqueles dias é a ausência. Fiquei lá, em pé sem o pé, olhando o vazio entre o pé dentro da botina embarrada e o joelho pendurado no vazio.

ele se considera com sorte, outros tiveram o azar de serem presos, Nunca mais foram vistos ou se teve notícia da vida ou da morte... desapareceram, as lembranças daqueles dias ainda assustavam o velho, não deixaram nem um pedaço qualquer pra contar como foi ser preso em nome do bom nome da mineradora. Fui poupado pra servir de aviso e aceitei ser o morto-vivo em nome do senso comum de ficar vivo, separado das ideias e opiniões que pudesse vir a ter. Um morto-vivo que tem sempre o mesmo sonho que carrega comigo, escondido de mim mesmo. Durante o entrevero, eu consigo o conserto a botina, mas é preciso enfiar a mão e descalçar o pé. Não tenho como recuperar a parte perdida, então jogo o pé fora e fico com o vazio da botina. O meu azar é que foi perdido o pé que não mancava.



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Leia também:

becos sem saída (I) 01bs - as águas que vêm e vão
becos sem saída (I) 02bs - histórias desamarradas e borradas
becos sem saída (I) 03bs - sobre nós e histórias borradas
becos sem saída (I) 04bs - cacete pra todo lado!
becos sem saída (I) 05bs - as mãos amarradas
becos sem saída (I) 06bs - o vazio da botina


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

histórias davóinha: Josino (I05j - o fogo nas gota do choro)

Josino: I - a aparição da vida

o fogo nas gota do choro
Ensaio 05j – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



Meu hôme me chama, Milagres, Chama de novo, Milagres...

a muié qui foi batizada com nome de gabriela pelo siô clemente a deus 
 A negrinha precisa ter nome de gente , uqui mais queria era sê chamada milagres, É assim qui gosto disê... 

Uqui ocê tem pra me dizê?

as lágrima dusóio e o suô quente encarnado nas costa lascada se juntava, agora era o tempo de chorá a sudade assim, um nos braço dotro, depois ia tê o tempo de chorá sudade sem sabê da volta qui podia num voltá mais nem mandá novidade de aviso, Queria sê só alegria e dança pruseu sóio, meu pretu. Mostrá eu sempre qui quero vê useu sóio guloso, oiá sempre quié do gosto diêu vê a belezura do meu pretu. Adoro lambiscá ocê cusóio, prová duseu gosto com as mão, engoli o seu aroma qui me qué, lambê a boca qui chama eu, chama de novo, Milagres, Chama de novo, Milagres, Agora, é só abrí usóio, meu pretu.

Ocê vê, pruguntô josino, usóio grudado nos sonho da escuridão estrelada, a lua qui atende toda terra do amô?

Vejo ocê, respondeu milagres, usóio grudando as vontade da vida, qui se entra todo com seu amô.

A lua, muié... óia lá pra cima... óia a lua, apontava com o dedo espichado pra lua crescendo, viu? Tá parecendo nossa rede do amô, ocê reparô? Ela tá ali, oiando sozinha, pendurada na escuridão, a barriga avolumando, as ponta da rede agarrada nas mão zelosa de Oxum. E ocê mais eu esparramando as coisa do amô na lua.

milagres colocô a mão na boca do hôme e pediu pra acalmá as palavra, agora qui eles tava junto queria as palavra dentro dela, as mão lambiscando gulosa o seu desenho de muié, Agora chega de oiá pra lua. Já tá na hora ditê sua lavação.

o fogo nas gota do choro da milagres aquentô a água inté fervê e ensopá as erva, tava com as planta da cura nas mão, socava elas do modo qui aprendeu com os mais antigo, inté podê fazê uma papa, depois acomodava o ensopado das erva nas ferida das costa

e cantava, Esse é o meu amô, quero brincá diamô, num mundo diamô, chega lua, chega de caçoá, deixa o amô chegá, abre os caminho, ninguém sabe das mágoa, só ocê sabe ó lua qui num sei esquecê esse meu amô.

e ficava verde clara, tava como as água iluminada qui revela as areia do fundo enquanto lambia as buniteza do seu hôme 




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é bão lê tumbém...

histórias de avoinha: Josino (I01j - o beijo da terra)
histórias de avoinha: Josino (I02j - a belezura na escuridão estrelada)
histórias de avoinha: Josino (I03j - fada ruim)
histórias de avoinha: Josino (I04j - quando vai mudá?)

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 18 — Outros Homens

Edgar Allan Poe - Contos



Aventuras de Arthur Gordon Pym 
Título original: Narrative of A. G. Pym 
Publicado em 1837





18 — Outros Homens




18 de janeiro. — Esta manhã continuámos a nossa rota para Sul com um tempo tão bom como nos dias precedentes. O mar estava completamente calmo, o vento soprava de Nordeste e a temperatura do ar era suficientemente quente e a da água marcava 53° F. Recomeçámos com as sondagens e, com uma corda de 150 braças, encontrámos uma corrente em direção ao Polo a uma velocidade de uma milha por hora. Esta tendência constante do vento e da corrente para Sul provocaram reflexões e até alarme entre a tripulação, e vi perfeitamente que causara forte impressão no espírito do capitão Guy. Felizmente, tinha muito receio do ridículo e consegui que se risse das suas próprias apreensões. A variação era agora quase insignificante. Durante o dia vimos algumas baleias e numerosos bandos de albatrozes sobrevoaram o navio. Apanhámos também uma espécie de arbusto com bagas vermelhas como as do espinheiro e o corpo de um animal terrestre, de aspecto muito estranho. Tinha três pés de comprimento por seis polegadas de altura, quatro pernas muito curtas, os pés com longas garras de um vermelho brilhante e semelhantes ao coral. A cauda era afilada como a de um rato e com cerca de um pé e meio de comprimento. A cabeça lembrava a de um gato, exceto nas orelhas que eram reviradas e pendentes como as de um cão. Os dentes eram do mesmo vermelho vivo das garras. O corpo estava revestido por um pelo sedoso e compacto, perfeitamente branco.

19 de janeiro. — Encontrando-nos a 83° 20’ de latitude e a 43° 5’ de longitude Oeste (o mar tinha um tom escuro extraordinário), o vigia avistou terra de novo e, depois de um exame atento, descobrimos que se tratava de uma ilha pertencente a um grupo de ilhas mais extensas. A costa era a pique e o interior parecia bastante arborizado, circunstância que nos causou grande alegria. Cerca de quatro horas depois de ter avistado terra, lançámos a âncora a dez braças de profundidade, com um fundo de areia, a uma légua da costa, porque uma forte ressaca, com remoinhos em várias direções, tornava a aproximação perigosa. Recebemos ordem para levar duas das embarcações maiores, e um destacamento bem armado, de que eu e Peters fazíamos parte, foi encarregado de encontrar uma abertura no recife que parecia circundar a ilha. Depois de termos procurado durante algum tempo, descobrimos uma passagem, por onde íamos entrar, quando avistámos quatro grandes canoas que largavam da margem, cheias de homens que pareciam bem armados. Deixámo-los aproximar e, como navegavam com grande velocidade, em breve estavam ao alcance da voz. O capitão Guy içou então um lenço branco na ponta de um remo. Os selvagens pararam e de repente começaram a tagarelar numa algaraviada muito alta e a gritar estranhas palavras, entre as quais distinguimos: Anamoo-moo! e Lama-Lama! Continuaram com aquela algazarra durante uma boa meia hora, em que pudemos observar, à vontade, as suas fisionomias.

Nas quatro canoas, que deviam ter cinquenta pés de comprimento e cinco de largura, havia ao todo cento e dez selvagens. Tinham uma estatura semelhante à dos europeus, mas mais musculosa e carnuda. A sua pele era de um negro de jade e os cabelos longos espessos e encarapinhados. Estavam vestidos com a pele de um animal negro desconhecido que tinha longos e sedosos pelos. A pele era ajustada ao corpo, com o pelo voltado para dentro, exceto à volta do pescoço, nos punhos e nos tornozelos. As suas armas consistiam principalmente em paus de madeira preta, de aparência muito dura. No entanto, também distinguimos algumas lanças de ponta de sílex e algumas fundas. O fundo das canoas estava coberto de pedras negras do tamanho de um ovo grande.

Quando terminaram aquela discursata (pois era evidente que aquela algaraviada se dirigia a nós), um deles, que parecia o chefe, pôs-se de pé na proa da sua canoa e fez-nos repetidos sinais para que nos aproximássemos. Fingimos que não percebíamos o que ele queria, pensando que era mais sensato manter, tanto quanto possível, um espaço razoável entre nós, porque eles eram quatro vezes mais do que nós. Adivinhando o nosso pensamento, o chefe pediu às outras três canoas para o seguirem enquanto ele avançava com a sua. Assim que nos alcançou, saltou para bordo do bote maior e sentou-se ao lado do capitão Guy, ao mesmo tempo que apontava para a escuna repetindo as palavras: Anamoo-moo! Lama-Lama! Regressámos ao navio, seguidos a alguma distância pelas quatro canoas.

Ao chegar junto do costado, o chefe mostrou sinais de uma surpresa e prazer extremos, batendo palmas, batendo nas coxas e no peito e soltando gargalhadas ensurdecedoras. Todos os seus súbditos, que o seguiam, uniram a sua alegria à do chefe, fazendo uma tremenda algazarra. Feliz por regressar ao seu navio, o capitão Guy ordenou que içassem as embarcações como medida de precaução e deu a entender ao chefe, cujo nome em breve descobrimos que era Too-wit, que só podia receber a bordo vinte homens de cada vez. Este pareceu aceitar perfeitamente esta sugestão e transmitiu algumas ordens para as canoas, uma das quais se aproximou, enquanto as outras permaneciam a cerca de cinquenta jardas de distância. Subiram a bordo vinte selvagens que começaram a bisbilhotar por toda a parte, a trepar pelos mastros, como se estivessem em casa, e examinando todos os objetas com a maior curiosidade.

Era mais que evidente que nunca tinham visto um indivíduo de raça branca. Aliás a nossa cor parecia inspirar-lhes grande repugnância. Julgavam que a Jane era um ser vivo e dir-se-ia que receavam atingi-la com as pontas das lanças que levantavam cuidadosamente. Houve um momento em que toda a tripulação se divertiu bastante com a conduta de Too-wit. O cozinheiro estava a partir lenha perto da cozinha, quando, por acidente, cravou o machado na coberta, onde fez um entalhe bastante fundo. O chefe ocorreu imediatamente e, empurrando o cozinheiro com força, soltou um gemido, quase um grito, que demonstrava bem quanto sofria com as dores da escuna; depois, começou a acariciar e a esfregar a ferida com a mão e lavá-la com um pouco de água do mar que estava perto. Demonstrava tamanha ignorância, para a qual não estávamos preparados, que eu não pude deixar de pensar que ali havia um pouco de fingimento.

Quando os nossos visitantes satisfizeram completamente a sua curiosidade em relação à coberta, foram conduzidos ao interior, onde a sua admiração ultrapassou todos os limites. A sua estupefação parecia demasiado forte para se exprimir por palavras, pois observavam tudo em silêncio, emitindo apenas algumas exclamações. As armas devem-lhes ter dado que pensar e permitimos lhes que as examinassem à vontade. Penso que não tinham a mínima suspeita da sua utilidade, tomando-as por ídolos, vendo o cuidado que tínhamos e a atenção com que os olhávamos enquanto eles lhes mexiam. O seu espanto redobrou ao verem os canhões. Aproximaram-se fazendo as maiores demonstrações de veneração e de terror, mas não quiseram examiná-los minuciosamente. Havia no camarote dois grandes espelhos e isso foi o cúmulo do seu espanto. Too-wit foi o primeiro a aproximar-se e já se encontrava no meio do camarote de frente para um e de costas para o outro, mas ainda não os tinha notado. Quando o selvagem levantou os olhos e se viu refletido no espelho, julguei que ia enlouquecer; mas ao voltar-se para fugir, voltou a ver-se no espelho oposto e então julguei que ia morrer. Nada o levou a olhar-se de novo, pois todos os meios de persuasão foram inúteis. Atirou-se para o chão, escondeu a cabeça entre as mãos e permaneceu imóvel, até que resolvemos levá-lo para a coberta.

Todos os selvagens foram recebidos a bordo em grupos de vinte, mas Toowit permaneceu todo o tempo no navio. Não descobrimos neles nenhuma propensão para o roubo e depois da sua partida não demos pela falta de nada. Enquanto durou a visita, mostraram-se sempre muito cordiais. No entanto, havia alguns traços na sua conduta que nos foi impossível compreender, como por exemplo nunca conseguimos que se aproximassem de alguns objetas inofensivos, tais como as velas da escuna, um ovo, um livro aberto ou uma chávena de farinha. Tentámos saber se possuíam alguns artigos para comerciar ou trocar, mas tivemos grande dificuldade em nos fazer compreender. No entanto, soubemos, com grande surpresa, que nas ilhas abundavam as grandes tartarugas da espécie Galápagos, e vimos uma na canoa de Too-wit. Vimos também um escombro de mar nas mãos de um selvagem que o devorava cru com a maior avidez.

Estas anomalias, ou pelo menos aquilo que considerámos anomalias relativamente à latitude, levaram o capitão Guy a tentar uma exploração completa da região, na esperança de encontrar algo lucrativo. Pela minha parte, desejoso como estava de levar mais longe a descoberta, só tinha um objetivo, só pensava em prosseguir viagem em direção ao sul, sem mais demoras. O tempo estava bom, mas ninguém sabia quanto iria durar e, uma vez que já estávamos no paralelo 84, com um mar completamente livre à nossa frente, uma corrente forte arrastando para Sul e bom tempo, não podia estar de acordo com nenhuma proposta de permanência naquelas paragens mais tempo do que o necessário para refazer a saúde da tripulação e reabastecermos o navio em provisões e combustível. Fiz ver ao capitão que nos seria fácil aportar àquelas ilhas no nosso regresso e que até lá podíamos, passar o inverno, no caso de os gelos nos barrarem a passagem. Acabou por seguir o meu conselho (porque, não sei como, tinha adquirido grande influência sobre ele) e, por fim, foi decidido que, mesmo que encontrássemos escombros do mar em abundância, apenas ali ficaríamos uma semana, para nos restabelecermos, e que seguiríamos para Sul assim que fosse possível.

Assim, fizemos todos os preparativos necessários e, depois de conduzirmos com êxito, seguindo as indicações de Too-wit, a escuna através dos recifes, lançamos a âncora a cerca de uma milha da costa, numa excelente baía, muito fechada, na costa Sudeste da ilha principal, sobre dez braças de água, num fundo de areia negra. Disseram-nos que, na extremidade da baía, desaguavam três riachos de água excelente e verificámos que as redondezas eram muito arborizadas. As quatro canoas seguiam-nos, mas sempre a uma distância respeitosa. Quanto a Too-wit, ficou a bordo e depois de lançarmos a âncora, convidou-nos a acompanhá-lo a terra e a visitarmos a sua aldeia no interior. O capitão Guy aceitou e, tendo ficado a bordo com dez selvagens como reféns, doze homens da nossa tripulação prepararam-se para seguir o chefe. Tivemos o cuidado de irmos bem armados, mas sem deixar transparecer a mínima desconfiança. Na escuna tinham sido tomadas todas as precauções para evitar qualquer surpresa, colocando os canhões nas portinholas e içando as redes de filarete. Foi especialmente recomendado ao imediato que não recebesse ninguém a bordo durante a nossa ausência e que, no caso de não estarmos de volta daí a doze horas, enviasse a chalupa, armada com um canhão pedreiro, à nossa procura em volta da ilha.

A cada passo que dávamos naquela terra, cada vez mais nos convencíamos que estávamos numa região completamente diferente das que até hoje foram visitadas por homens civilizados. Nada do que víamos nos era familiar. As árvores não se pareciam com as existentes nas zonas tórridas, nas zonas temperadas ou nas zonas frias do Norte, e diferiam essencialmente das existentes nas latitudes meridionais que acabávamos de atravessar. As próprias rochas nos eram desconhecidas, no volume, na cor e na contextura; e os cursos de água, por mais estranho que possa parecer, assemelhavam-se tão pouco aos de outros climas, que hesitámos em beber dessa água e tivemos grande dificuldade em nos convencermos que as suas qualidades eram puramente naturais. No primeiro riacho que apareceu no caminho, Too-wit e a sua comitiva pararam para beber. Devido ao aspecto estranho daquela água, recusámo-nos a beber, supondo que era insalubre, e só mais tarde compreendemos que todos os cursos de água do arquipélago eram assim. Realmente não sei como vos dar uma ideia clara da natureza daquele líquido e não sou capaz de o fazer, sem utilizar muitas palavras. Embora esta água rolasse com rapidez por todas as encostas como qualquer outra água, só nas quedas e cascatas adquiria a habitual aparência de limpidez. Porém, devo dizer que era tão límpida como qualquer água calcária e a diferença que existia era apenas aparente. À primeira vista, e especialmente nos casos em que o declive era pouco acentuado, parecia um pouco, quanto a consistência, uma espessa dissolução de goma-arábica em água vulgar. Mas esta era apenas uma das suas extravagantes qualidades. Não era incolor, mas não tinha uma cor uniforme, e ao deslizar apresentava à vista todas as tonalidades possíveis da púrpura, como reflexos e cambiantes de seda furta-cores. Para dizer a verdade, esta variação da tonalidade efetuava-se de uma maneira que produzia nos nossos espíritos uma surpresa tão profunda como a dos espelhos no espírito de Too-wit. Enchendo uma bacia com esta água e deixando-a assentar, verificámos que toda a massa de líquido era constituída por um certo número de veios distintos de uma cor especial, que estes veios não se misturavam e que a sua coesão era perfeita, relativamente às moléculas que os formavam, e imperfeita quanto aos veios próximos. Fazendo passar a ponta de uma faca através dos veios, a água fechava-se imediatamente atrás da ponta e, quando a retirávamos, todos os vestígios da passagem da faca desapareciam por completo. Mas, se a faca interceptava cuidadosamente dois veios, operava-se uma separação completa, que o poder de coesão não reconstituía logo. Os fenómenos desta água formaram o primeiro elo definido de uma vasta cadeia de milagres aparentes, que me foram envolvendo.


continua na página 241...

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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


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Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 



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Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (1) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 13 (2) — Enfim Salvos!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (1) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 14 (2) — Albatrozes e Pinguins
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 15 — As Ilhas que não se encontram
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 16 — As Explorações do Polo Sul
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 17 — Terra!
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 19 — Klock - Klock


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Prof. Tiago Marques : Gaúchos originários? Os indígenas pampeanos

Gaúchos originários? Os indígenas pampeanos



Prof. Tiago Marques - Sujeito Histórico




"No dia 20 de setembro se comemorou o "dia do gaúcho", um personagem muito relacionado à região dos pampas no sul do Brasil. Mas tu sabe quem foram os primeiros grupos que viveram na região dos pampas? Sabe sobre sua cultura, suas práticas e o que aconteceu com eles? Bom, se tu quer saber mais, se liga no vídeo de hoje!"






Referências:

Arqueologia do Rio Grande do Sul - Pedro Inácio Schmitz. Instituto Anchietano de Pesquisas (UNISINOS).

História do Brasil Colônia - Maria Angélica Zubaran; Juliane Puhl Gomes; Arilson dos Santos Gomes.

História do Brasil - Bóris Fausto.


Charruas nos dias de hoje: https://www.bbc.com/portuguese/brasil....


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Passe álcool gel, lave as mãos e, se puder, fique em casa.

Beijos e abraços históricos!


Ballet Nacional de España - CAMBALACHE (2007)

CAMBALACHE (2007)


Ballet Nacional de España.




Assim como o flamenco nasce da troca de culturas, José Antonio convidou Antonio Canales a retornar ao Ballet Nacional da Espanha em 2007 para criar essa homenagem à miscigenação que chamou de Cambalache? 
Partilhamos o Sintra soleá incluído neste espetáculo. 
#BNEHistory




Coreografia: Antonio Canales.
Música: Livio Gianola, Antonio Canales e Diego Losada.
Projeto de iluminação: Joan Teixidó.
Figurino: Yvonne Blake.
Assistente de figurino: Anselmo Gervolés.
Criação de figurinos: Petra Porter (mulher), González (homem), Maty (bata de cola).
Calçado: Arte FyL.

Lista completa da estreia: http: //balletnacional.mcu.es/compania


Flamenco - Melina Najjar dança Farruca com Yazan Ibrahim

 Melina Najjar 



- Dança flamenca Farruca com Yazan Ibrahim




"O flamenco é um poema visual, pois cada movimento e gesto expressa um sentimento ou uma ideia. A pureza da dança nos dá uma expressão única por seu ritmo. Por isso escolhi a dança Farruca para ser a minha primeira expressão artística depois de muitos anos de estudos do flamenco.
Originalmente, a dança Farruca era uma dança masculina, mas a conexão entre o pé e o chão misturava o gênero. uma das coisas bonitas do flamenco é que você se torna um com suas velhas raízes, com sua verdadeira identidade, sem diferenças de raça, religião e gênero.
Muitos desses passos de dança foram inspirados por meu Maestro Angel Atienza em sua brilhante escola Ados em Sevilla, Espanha."
Melina Najjar






Para colaborações:

Melina.najar@gmail.com
Facebook- Melina Najjar
Instagram- Melinajar

Guitarrista Yazan Ibrahim
Diretor de vídeo Firas Rouby

Obrigado por transformar minha visão em realidade, Fundação Al qattan por sua bolsa de estudos na Espanha.

Editor de vídeo Eskandar Hilwi
Sound Fadi Mabjish
Masterização de som Omri Bitton
Stills photography Sicilia Hashoul
Maquiagem Chris Sahoury
Roupas Khach Karakochyan
Localização Estúdio Naim Haifa


O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)

 Simone de Beauvoir




02. A Experiência Vivida




O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR




PRIMEIRA PARTE

FORMAÇÃO
                              ______________________________________________________




CAPÍTULO II
A   M O Ç A





DURANTE toda a infância foi a menina reprimida e mutilada; entretanto, percebia-se como um indivíduo autônomo; em suas relações com os pais, os amigos, em seus estudos e jogos, descobria-se no presente como uma transcendência: nada fazia senão sonhar sua futura passividade. Uma vez púbere, o futuro não somente se aproxima, instala-se em seu corpo, torna-se a realidade mais concreta. Conserva o caráter fatal que sempre teve; enquanto o adolescente se encaminha ativamente para a idade adulta, a jovem aguarda o início desse período novo, imprevisível, cuja trama já se acha traçada e para o qual o tempo a arrasta. Já desligada de seu passado de criança, o presente só se lhe apresenta como uma transição; ela não descobre nele nenhum fim válido, mas tão somente ocupações. De uma maneira mais ou menos velada, sua juventude consome-se na espera. Ela aguarda o Homem. 

Sem dúvida, o adolescente também sonha com a mulher, deseja-a; mas ela será apenas um elemento de sua vida: não resume seu destino. Desde a infância, tenha querido realizar-se como mulher ou superar as limitações de sua feminilidade, a menina esperou do homem realização e evasão: ele tem o semblante deslumbrante de Perseu, de São Jorge, é o libertador, é tão rico e poderoso que detém em suas mãos as chaves da felicidade: é o príncipe encantado. Ela pressente que sob suas carícias será levada pela grande corrente da Vida, como no tempo em que repousava no ventre da mãe; submetida à sua doce autoridade, encontrará a mesma segurança que tinha nos braços do pai: a magia dos amplexos e dos olhares transformá-la-á novamente em ídolo. Sempre esteve convencida da superioridade viril; esse prestígio dos homens não é uma miragem pueril. Tem bases econômicas e sociais; são indiscutivelmente os senhores do mundo, tudo persuade a adolescente de que é de seu interesse tornar-se vassala; seus pais a incitam: o pai orgulha-se dos êxitos da filha a mãe neles vê as promessas de um futuro próspero; as colegas invejam e admiram a que conquista mais numerosas homenagens masculinas; nos colégios norte-americanos o standard de uma estudante é medido pelo número de dates que acumula. O casamento não é apenas uma carreira honrosa e menos cansativa do que muitas outras: só ele permite à mulher atingir a sua dignidade social integral e realizar-se sexualmente como amante e mãe. É sob esse aspecto que os que a cercam encaram seu futuro e que ela própria o encara. Admite-se unanimemente que a conquista de um marido — em certos casos, de um protetor — é para ela o mais importante dos empreendimentos. No homem encarna-se a seus olhos o Outro, como este para o homem se encarna nela; mas esse Outro apresenta-se a ele como o essencial e ela se apreende perante ele como o inessencial. Ela se libertará do lar paterno, do domínio materno e abrirá o futuro para si, não através de uma conquista ativa e sim entregando-se, passiva e dócil, nas mãos de um novo senhor.

Afirmou-se amiúde que se se resignava a essa demissão é porque física e moralmente ela se torna então inferior aos rapazes e incapaz de rivalizar com eles: renunciando a uma vã competição, confiaria a um membro da casta superior o cuidado de lhe assegurar a felicidade. Em verdade, não é de uma inferioridade dada que provém sua humildade; esta, ao contrário, é que engendra todas as insuficiências; tem sua fonte no passado da adolescente, na sociedade que a cerca e, precisamente, nesse futuro que lhe é proposto.

Sem dúvida, a puberdade transforma o corpo da jovem. Faz- -se ele mais frágil do que antes: os órgãos são vulneráveis, seu funcionamento delicado; insólitos e incômodos, os seios são um fardo; lembram sua presença nos exercícios violentos, tremem, doem. Daí por diante a força muscular, a resistência, a agilidade da mulher tornam-se inferiores às do homem. O desequilíbrio das secreções hormônicas cria uma instabilidade nervosa e vasomotora. A crise menstrual é dolorosa: dores de cabeça, dos músculos e do ventre tornam penosas e até impossíveis as atividades normais; a esses incômodos acrescem-se muitas vezes perturbações psíquicas; nervosa, irritável, é comum que a mulher passe mensalmente por um estado de semi-alienação; o controle do sistema nervoso e do sistema simpático não é mais assegurado pelos centros; as perturbações da circulação, certas autointoxicações fazem do corpo uma parede estanque entre a mulher e o mundo, uma bruma ardente que pesa sobre ela, que a abafa e a separa: através dessa carne dolente e passiva, o universo inteiro é um fardo por demais pesado. Oprimida, submergida, ela se torna estranha a si mesma pelo fato de ser estranha ao resto do mundo. As sínteses desagregam-se, os instantes não se ligam mais, o outro não é mais reconhecido senão mediante um reconhecimento abstrato; e embora permaneçam intatos como nos delírios melancólicos, o raciocínio e a lógica são entretanto colocados a serviço das evidências passionais que se produzem no seio do desnorteamento orgânico. Tais fatos são extremamente importantes: mas é por sua maneira de tomar conhecimento deles que a mulher lhes dá o peso que têm.

É por volta dos 13 anos que os meninos fazem um verdadeiro aprendizado da violência, que desenvolvem sua agressividade, sua vontade de poder, seu gosto pelo desafio; é exatamente nesse mesmo momento que a menina renuncia aos jogos brutais. Alguns esportes continuam a ser-lhes acessíveis; mas o esporte, que é especialização, submissão a regras artificiais, não oferece a equivalência de um recurso espontâneo e normal à força; situa- -se à margem da vida: não informa acerca do mundo e de si mesmo tão intimamente quanto um combate desordenado, uma escalada imprevista. A esportista não sente nunca o orgulho conquistador de um menino que fez o outro encostar os ombros no chão. Demais, em muitos países as moças não têm nenhum treinamento esportivo. Sendo-lhes proibidas as brigas, as escaladas, atêm-se a suportar o corpo passivamente; muito mais nitidamente do que na infância, cumpre-lhes renunciar a emergir além do mundo dado, a afirmar-se acima da humanidade; é-lhes proibido explorar, ousar, recuar os limites do possível. Em particular, a atitude do desafio, tão importante nos rapazes, é-lhes quase desconhecida. Por certo as mulheres se comparam, mas o desafio é diferente dessas confrontações passivas: duas liberdades se defrontam na medida em que têm sobre o mundo um domínio cujas limitações desejam diminuir; subir mais alto do que um colega, dobrar um braço, é afirmar sua soberania sobre toda a terra. Essas condutas conquistadoras não são permitidas à moça, a violência principalmente não lhe é permitida. Sem dúvida no universo dos adultos a força brutal não desempenha, em períodos normais, um grande papel; mas, entretanto, ela o obsidia, muitas são as condutas masculinas que se apoiam num fundo de violência possível: em todos os cantos de rua brigas e disputas se esboçam; na maioria das vezes abortam; mas basta ao homem sentir em seus punhos sua vontade de afirmação de si mesmo para sentir- -se confirmado em sua soberania. Contra toda afronta, contra toda tentativa de reduzi-lo a objeto, tem o homem o recurso de bater, de se expor aos golpes: não se deixa transcender por outrem, reencontra-se no seio de sua subjetividade. A violência é a prova autêntica da adesão de cada um a si mesmo, a suas paixões, a sua própria vontade, recusá-la radicalmente é recusar-se toda verdade objetiva, é encerrar-se numa subjetividade abstrata; uma cólera, uma revolta que não passam pelos músculos são coisas imaginárias. É terrível frustração não poder inscrever os movimentos de seu coração na face da terra. No Sul dos Estados Unidos é rigorosamente impossível a um negro usar de violência contra os brancos; essa regra é que é a chave da misteriosa "alma negra". A maneira pela qual o negro se sente no mundo branco, as condutas mediante as quais a ele se adapta, as compensações que busca, todo o seu modo de sentir e agir explicam-se tendo em vista a passividade a que é condenado. Durante a ocupação, os franceses que tinham resolvido não se entregar a atos violentos contra as ocupantes, mesmo em caso de provocação — fosse por prudência egoísta ou porque tinham deveres peremptórios — sentiam sua situação profundamente transtornada neste mundo: dependia do capricho de outrem que fossem transformados em objetos, sua subjetividade não tinha mais meios de se exprimir concretamente, não passava de um fenômeno secundário. Assim, tem o universo um aspecto inteiramente diferente para o adolescente a quem se permite testemunhar imperiosamente de si mesmo e para a adolescente cujos sentimentos se acham privados de eficiência imediata. Um pode pôr o mundo em discussão sem cessar, pode a cada instante insurgir-se contra o dado e tem portanto a impressão, quando o aceita, de o confirmar ativamente; a outra não faz senão suportá-lo: o mundo define-se sem ela e tem um aspecto imutável. Essa impotência física traduz-se por uma timidez mais geral: ela não acredita numa força que não experimentou em seu corpo; não ousa empreender, revoltar-se, inventar: votada à docilidade, à resignação, não pode senão aceitar, na sociedade, um lugar já preparado. Ela encara a ordem das coisas como dada. Uma mulher contava-me que durante toda a sua mocidade negara com selvagem má-fé sua fraqueza física. Admiti-la, fora perder a vontade e a coragem de empreender o que quer que fosse, ainda que apenas nos domínios intelectuais e políticos. Conheci uma jovem educada como um rapaz e excepcionalmente vigorosa que se imaginava tão forte quanto um homem; embora fosse muito bonita, embora tivesse todos os meses regras dolorosas, não tomava em absoluto consciência de sua feminilidade: tinha o rompante, a exuberância de vida, as iniciativas de um menino. E também as ousadias, não hesitando em intervir na rua a socos, se via molestarem uma criança ou uma mulher. Uma ou duas experiências infelizes revelaram-lhe que a força brutal está com os homens. Quando mediu sua fraqueza, boa parte da confiança que tinha em si mesma esvaiu-se. Foi o início de uma evolução que a levou a se feminilizar, a realizar-se como passividade, a aceitar a dependência. Não ter mais confiança no corpo é perder confiança em si próprio. Basta ver a importância que os rapazes dão a seus músculos, para compreender que todo indivíduo julga o corpo como sua expressão objetiva.

No rapaz, os impulsos eróticos só confirmam o orgulho que tira de seu corpo: neste ele descobre o sinal de sua transcendência e de seu poder. A moça pode conseguir assumir seus desejos mas eles permanecem o mais das vezes vergonhosos. Seu corpo inteiro é aceito com embaraço. A desconfiança que, desde menina, ela sentia em relação a seus "interiores" contribui para dar à crise menstrual o caráter suspeito que a torna odiosa. É pela atitude psíquica que suscita que a servidão menstrual constitui um pesado handicap. A ameaça que pesa sobre a jovem, durante certos períodos, pode parecer-lhe tão intolerável que ela renunciará a expedições e a prazeres, de medo que sua desgraça seja conhecida. O horror que esta lhe inspira repercute lhe no organismo e aumenta- lhe os incômodos e as dores. Viu-se que uma das características da fisiologia feminina é a estreita ligação das secreções endócrinas com o equilíbrio nervoso: há uma ação recíproca; um corpo de mulher — e principalmente de moça — é um corpo "histérico", no sentido de que não há, por assim dizer, distância entre a vida psíquica e sua realização fisiológica. O cataclismo que acarreta à jovem a descoberta das perturbações da puberdade exaspera-a. Como o corpo lhe é suspeito, ela o espia com inquietação: parece-lhe doente, é doente. Viu-se que, efetivamente, esse corpo é frágil e que há desordens orgânicas que nele se produzem; mas os ginecologistas concordam em dizer que nove décimos de suas pacientes são doentes imaginárias, isto é, ou seus incômodos não têm nenhuma realidade fisiológica, ou a desordem orgânica é, ela própria, motivada por uma atitude psíquica. É em grande parte a angústia de ser mulher que corrói o corpo feminino.

Vê-se que, se a situação biológica da mulher constitui um handicap, é por causa da perspectiva em que ela se apreende. A fragilidade nervosa, a instabilidade vasomotora, quando não se tornam patológicas, não lhe vedam nenhum ofício: entre os próprios homens há uma grande diversidade de temperamentos. Uma indisposição de um ou dois dias por mês, mesmo dolorosa, não é tampouco um obstáculo; na realidade, numerosas mulheres acomodam- se a isso, e em particular as que a "maldição" mensal poderia atrapalhar mais: esportistas, viajantes, mulheres que exercem tarefas pesadas. A maioria das profissões não reclama uma energia superior à que a mulher pode desenvolver. E nos esportes, o fim visado não é um êxito independente das aptidões físicas: é a realização da perfeição peculiar a cada organismo. O campeão de peso-pena vale tanto quanto o de peso pesado; uma campeã de esqui não é inferior ao campeão mais rápido do que ela: pertencem a duas categorias diferentes. São precisamente as esportistas que, positivamente interessadas em sua própria realização, se sentem menos inferiorizadas em relação ao homem. Contudo, a fraqueza física não permite à mulher conhecer as lições da violência: se lhe fosse possível afirmar-se em seu corpo e emergir no mundo de outra maneira, essa deficiência seria facilmente compensada. Que escale picos, que nade, que pilote um avião, que lute contra os elementos, que assuma riscos e se aventure, não sentirá ela, diante do mundo, a timidez de que falei. É no conjunto de uma situação, que deixa muito poucas possibilidades, que tais singularidades assumem seu valor, e não imediatamente, mas confirmando o complexo de inferioridade por ela desenvolvido desde a infância.





continua página 71...

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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.




"O que é uma mulher?"



mulheres descalças: até quando

mulheres descalças

até quando
Ensaio 127Bzj – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



num sentia embaraço nem remorso – e num via razão pra num se sentí assim, desembaraçado e justamente beneficiado –, lembrava com contentamento sossegado, tirô tudo qui podia tê tirado e usado da compra do corpo fresco e novo da preta antônia açunta

na verdade, tava jubiloso e saldado da compra e do uso qui fez, num via necessidade de revendê, Foi um bom investimento que se consumiu com o tempo. No final das contas, é verdade, tudo tem prazo de validade.

e como pru siô augusto a vida duspretu num é pra tê justeza – nem é mais qui um pedaço da carne pra sê usada inté onde dá pra sê usada, mercadoria pra uso sem dá trabáio indevido ou despesa descabida –, ele num tava preocupado com a destinação do futuro da antônia açunta, queria fazê o descarte com a menó incomodação permitida nas lei da boa convivência na villa risonha

foi do azedume consigo mesmo – quando se assustô divê qui antônia açunta tava sem demora uma preta inútil pra uso – inté o contentamento pruqui só ele sabia toda reparação qui ele arrancô de cada moeda usada na compra da mercadoria, É tudo que o bom comprador pede depois de acertar o preço com o vendedor. É muito bom saber vender, é muito bom saber comprar, mas melhor ainda, é saber usar. Muito sofrimento seria evitado se todo comprador de criolo fosse como eu, nunca pensei em compra para revender. O meu pensamento sempre foi de usar o máximo que pudesse ser usada a mercadoria, respirava aliviado, sentô no banco da pianística sem tê dado conta qui sentô no banco qui sentô

tava tão satisfeito dele mesmo qui achava vantajoso voltá pras confusão e embaraço da cama – merecia se dá um prêmio –, num procurava mais contentamento ou reparação no amô, tumbém num lembrava mais se já teve dia qui procurô dona rosinha como o cupim procura lenha depois de muntu esvoacá e fuçá inté sê queimado junto de barriga cheia

tumbém num se imaginava um beija-flô qui beliscava a doçura pra seu alimento, se contentava continuá desaparecido no marasmo dusdia qui num tira a bunda do banco enquanto usa e abusa da garganta cínica qui ameaça e fingi quié bão

nunca foi apaixonada das palavra carinhosa – num credita na vida com a formosura bunita feita com as palavra – nem acha relevante tê respeito com as muié da casa, Aquilo que já foi feito vai continuar sendo feito, num queria mudá uqui tava feito e num queria pensá qui podia sê dotro jeito uqui tava sendo feito, Essa daí, num tem mais utilidade...

sentado no banco da pianística oiava dona rosinha debruçada na janela, oiando prus movimento da caçada dupretu, E essa... até aquando vai ter mais utilidade qui desassossego?



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Julio Verne - A Volta ao Mundo em 80 Dias, Capítulo XXIV

 Júlio Verne



A Volta ao Mundo em 80 Dias





CAPÍTULO XXIV

DURANTE O QUAL SE REALIZOU A TRAVESSIA DO OCEANO PACÍFICO




O que aconteceu quando chegaram perto de Shangai, já se sabe. Os sinais feitos pela Tankadère tinham sido notados pelo paquete para Yokohama. O capitão, vendo uma bandeira a meio pau, dirigira-se para a pequena goleta. Instantes depois Phileas Fogg, pagando as passagens pelo preço combinado, punha no bolso do patrão John Bunsby quinhentas e cinquenta libras (13.750 F). Depois, o respeitável gentleman, Mrs. Aouda e Fix tinham subido a bordo do vapor, que logo se pôs a caminho para Nagasaki e Yokohama. 

Tendo chegado naquela mesma manhã, 14 de novembro, Phileas Fogg, deixando Fix ir tratar de seus assuntos, tinha ido até o Carnatic e lá soube, para grande felicidade de Mrs. Aouda — e talvez a sua, mas que não deixou transparecer — que o francês Passepartout havia efetivamente chegado na véspera em Yokohama.

Phileas Fogg, que devia partir naquela mesma noite para São Francisco, começou imediatamente a procurar o criado. Dirigiu-se, mas em vão, aos agentes consulares francês e inglês, e, depois de ter percorrido inutilmente as ruas de Yokohama, já perdia a esperança de encontrar Passepartout, quando o acaso, ou talvez uma espécie de premonição, o fez entrar na tenda do respeitável Batulcar. Não teria, por certo, reconhecido seu servidor sob a ridícula roupa de arauto; mas Passepartout, em sua posição deitada, avistou o patrão na galeria. Não pôde conter um movimento de seu nariz. Daí a quebra do equilíbrio e tudo o que se seguiu.

Eis o que Passepartout ouviu da própria boca de Mrs. Aouda, que lhe contou então como fora feita a travessia de Hong Kong para Yokohama, em companhia de um tal Mr. Fix, na goleta Tankadère.

Ao ouvir o nome de Fix, Passepartout nem pestanejou. Pensou que ainda não chegara o momento de dizer ao patrão o que se passara entre o inspetor de polícia e ele. Assim, ao narrar suas aventuras, acusou-se e pediu desculpa somente por ter sido surpreendido pelo entorpecimento do ópio numa taverna de Hong Kong.

Mr. Fogg escutou friamente este diálogo, sem responder; depois abriu ao criado um crédito suficiente para que este comprasse no navio trajes mais convenientes. E, com efeito, não passara ainda uma hora, e o honesto moço, tendo tirado o nariz postiço e cortado as asas, não tinha mais nada em si que recordasse o seguidor do deus Tingou.

O paquete que fazia a travessia de Yokohama a São Francisco pertencia à Companhia do “Pacific Mail steam”, e chamava-se General Grant. Era um grande vapor de rodas, deslocando duas mil e quinhentas toneladas, bem construído e dotado de grande velocidade. Um enorme balancim subia e descia sucessivamente sobre o convés; numa das suas extremidades articulava-se o cabo de um pistão, e na outra o de uma biela que, transformando o movimento retilíneo em movimento circular, o aplicava diretamente no eixo das rodas do vapor. O General Grant estava dotado de três mastros de goleta, e possuía uma grande superfície de pano, que ajudava poderosamente o vapor. Mantendo suas doze milhas por hora, o paquete não deveria levar mais de vinte e um dias para atravessar o Pacífico. Phileas Fogg estava, pois, autorizado a crer que, chegando em 2 de dezembro a São Francisco, estaria dia 11 em Nova York e dia 20 em Londres — antecipando assim em algumas horas a data fatal de 21 de dezembro. Os passageiros eram bem numerosos a bordo do vapor, ingleses, muitos americanos, uma verdadeira emigração de coolies para a América, e um certo número de oficiais do exército das Índias, que aproveitavam sua licença para fazerem a volta ao mundo.

Durante esta travessia não se deu nenhum incidente náutico. O paquete, sustentado sobre suas largas rodas, apoiado no seu forte velame, jogava pouco. O Oceano Pacífico justificava bem seu nome. Mr. Fogg estava tão calmo, tão pouco comunicativo como de costume. Sua jovem companhia cada vez se sentia mais e mais ligada àquele homem por outros laços que não os do reconhecimento. Esta silenciosa natureza, tão generosa em suma, a impressionava mais do que suspeitara, e, fora quase sem dar por isso que ela se deixou levar por sentimentos dos quais o enigmático Fogg não parecia sentir nenhuma influência.

Além disso, Mrs. Aouda interessava-se extraordinariamente pelos projetos do gentleman. Inquietava-se com os contratempos que poderiam comprometer o êxito da viagem. Freqüentemente conversava com Passepartout, que não deixava de perceber o que se passava no coração de Mrs. Aouda. O bravo moço tinha, agora, a respeito de seu patrão, uma fé cega; não se fartava de elogiar a honestidade, a generosidade, a dedicação de Phileas Fogg; depois tranquilizava Mrs. Aouda sobre o sucesso da viagem, repetindo que o mais difícil já passara, que haviam saído dos países fantásticos da China e do Japão, que retornavam às regiões civilizadas, e que afinal um trem de São Francisco a Nova York e um transatlântico de Nova York a Londres bastariam, sem dúvida, para concluir esta impossível volta ao mundo no prazo combinado.

Nove dias depois de ter deixado Yokohama, Phileas Fogg tinha percorrido exatamente a metade do globo terrestre.

Com efeito, o General Grant, em 23 de novembro passou para o octogésimo meridiano, aquele no qual se acham, no hemisfério austral, os antípodas de Londres. Dos oitenta dias postos à sua disposição Mr. Fogg, é verdade, gastara cinquenta e dois, e só lhe restavam vinte e oito. Mas é preciso notar que se o gentleman se achava somente no meio da viagem “pela diferença dos meridianos”, tinha na realidade concluído mais de dois terços do percurso total. Que desvios forçados, com efeito, de Londres a Aden, de Aden a Bombaim, de Calcutá a Cingapura, de Cingapura a Yokohama! Seguindo circularmente o quinquagésimo paralelo, que é o de Londres, a distância teria sido só de doze mil milhas aproximadamente, ao passo que Phileas Fogg se vira forçado, pelos caprichos dos meios de locomoção, a percorrer vinte e seis mil milhas das quais fizera cerca de dezessete mil, até esta data de dia 23 de novembro. Mas agora a rota seria reta, e Fix não estava mais por ali para aumentar os obstáculos!

Aconteceu também que, em 23 de novembro, Passepartout experimentou uma grande alegria. Lembremos que o cabeça dura tinha se obstinado a manter a hora de Londres em seu famoso relógio de família, considerando falsas todas as horas dos países que atravessara. Ora, naquele dia, apesar de não o ter nem adiantado nem atrasado, seu relógio estava de acordo com os cronômetros do navio.

Nem é preciso dizer que Passepartout exultava. Bem que teria gostado de saber o que Fix diria, se estivesse presente.

— Aquele velhaco que me contava um monte de lorotas sobre meridianos, sobre o sol e a lua! repetia Passepartout. Bah! esse pessoal! Se a gente os escutasse, que bela relojoaria fariam! Eu bem que tinha a certeza de que, mais dia menos dia, o sol se decidiria a se regular pelo meu relógio!...

Passepartout ignorava isso: se o mostrador do seu relógio estivesse dividido em vinte e quatro horas como os relógios italianos, não teria tido motivo algum para se gabar, porque os ponteiros, quando fossem nove horas da manhã no navio, teriam indicado nove horas da noite, isto é, a vigésima primeira hora desde a meia noite — diferença exatamente igual à que existe entre Londres e o centésimo octogésimo meridiano.

Mas se Fix tivesse sido capaz de explicar este efeito puramente físico, Passepartout, sem dúvida, teria sido incapaz, se não de o compreender, ao menos de o admitir. Em todo caso, se, por um milagre, o inspetor de polícia tivesse inopinadamente se mostrado a bordo neste momento, é provável que Passepartout, justificadamente rancoroso, tivesse tratado com ele de um outro assunto e de uma maneira bem diferente.

Mas, onde estava Fix neste momento?...

Fix estava precisamente a bordo do General Grant.

Com efeito, chegando a Yokohama, o agente, abandonando Mr. Fogg que esperava reencontrar durante o dia, tinha ido imediatamente ao consulado inglês. Lá, tinha encontrado finalmente o mandado, que, correndo atrás dele desde Bombaim, estava datado de quarenta dias atrás — mandado que lhe fora expedido de Hong Kong naquele mesmo Carnatic, a bordo do qual se supunha que o agente estivesse! Imagine-se o desapontamento do detetive! O mandado tornara-se inútil! Mr. Fogg tinha saído das possessões inglesas. Um ato de extradição era agora necessário para detê-lo!

— Paciência! disse Fix para si, após o primeiro momento de cólera, se meu mandado não serve para mais nada aqui, servirá na Inglaterra. Este velhaco parece que vai voltar para sua pátria, crendo ter despistado a polícia. Bem. Eu o seguirei até lá. Quanto ao dinheiro, Deus guarde para que sobre algum! Mas em viagens, gratificações, processos, multas, elefante e despesas de toda a espécie, o meu homem já deixou mais de mil libras pelo caminho. Em todo caso, o Banco é rico!

Decisão tomada, embarcou no General Grant. Estava no navio, quando Mr. Fogg e Mrs. Aouda chegaram. Com imensa surpresa, reconheceu Passepartout sob suas vestes de arauto. Escondeu-se imediatamente em sua cabina, para evitar uma explicação que poderia comprometer tudo — e, graças ao número de passageiros, contava não ser visto por seu inimigo, quando naquele mesmo dia deu de cara com ele na proa do navio.

Passepartout saltou para sua garganta, sem mais, e, para contentamento de alguns americanos que imediatamente apostaram nele, presenteou o infeliz inspetor com uma sova daquelas, que demonstrou a superioridade do boxe francês sobre o boxe inglês.

Quando Passepartout acabou, sentiu-se calmo e quase aliviado. Fix levantou-se, em péssimo estado, e olhando seu adversário, disse-lhe friamente:

— Acabou?

— Sim, por enquanto.

— Então vamos conversar.

— Que va...

— No interesse de seu patrão.

Passepartout, como que subjugado por este sangue frio, seguiu o inspetor de polícia, e ambos se sentaram à proa do vapor.

— Me deu uma surra, disse Mr. Fix. Tudo bem. Agora escute. Até aqui tenho sido adversário de Mr. Fogg, mas agora faço seu jogo.

— Até que enfim! exclamou Passepartout, agora acredita que é um homem honesto?

— Não, respondeu friamente Fix, acredito que é um velhaco... Calma! para de bufar e me deixe falar. Enquanto Mr. Fogg se encontrava em possessões inglesas, tive interesse em retê-lo, aguardando um mandado de prisão. Fiz tudo para isso. Lancei contra ele os sacerdotes de Bombaim, embriaguei a si em Hong Kong, separei-o de seu patrão, fiz com que perdesse o paquete para Yokohama... Passepartout escutava, os punhos fechados.

— Agora, retomou Fix, Mr. Fogg parece voltar para a Inglaterra? Que seja, segui-lo-ei. Mas, a partir de agora, me dedicarei a afastar os obstáculos de seu caminho com tanto ou mais empenho do que até agora tive em aumentá-los. Como pode ver, meu jogo mudou, e mudou porque é do meu interesse. E acrescento que seu interesse vai junto com o meu, porque é só na Inglaterra que poderá saber se está a serviço de um criminoso ou de um homem honesto!

Passepartout tinha escutado atentamente Fix, e ficou convencido de que Fix falava mesmo com sinceridade.

— Amigos? perguntou Fix.

— Amigos, não, respondeu Passepartout. Aliados, sim, e espero para ver, porque, ao menor sinal de traição, torço-lhe o pescoço.

— Combinado, disse tranquilamente o inspetor de polícia.

Onze dias depois, dia 3 de dezembro, o General Grant entrou na baía de Golden Gate, e chegou a São Francisco.

Mr Fogg não tinha ainda nem ganho nem perdido um só dia.




continua pag 152...

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Julio Verne nasceu em Nantes em 8 de fevereiro de 1828. Fugiu de casa com 11 anos para ser grumete e depois marinheiro. Localizado e recuperado, retornou ao lar paterno. Em um furioso ataque de vergonha por sua breve e efêmera aventura, jurou solenemente (para a sorte de seus milhões de leitores) não voltar a viajar senão em sua imaginação e através de sua fantasia.

Promessa que manteve em mais de oitenta livros.

Sua adolescência transcorreu entre contínuos choques com o pai, para quem as veleidades exploratórias e literárias de Júlio pareciam totalmente ridículas.

Finalmente conseguiu mudar-se para Paris onde entrou em contato com os mais prestigiados literatos da época. Em 1850 concluiu seus estudos jurídicos e, apesar insistência do pai para que voltasse a Nantes, resistiu, firme na decisão de tornar-se um profissional das letras.

Foi por esta época que Verne, influenciado pelas conquistas científicas e técnicas da época, decide criar uma literatura adaptada à idade científica, vertendo todos estes conhecimentos em relatos épicos, enaltecendo o gênio e a fortaleza do homem em sua luta por dominar e transformar a natureza.

Em 1856 conheceu Honorine de Vyane, com quem casou em 1857.

Por essa época, era um insatisfeito corretor na Bolsa, e resolveu seguir o conselho de um amigo, o editor P. J. Hetzel, que será seu editor in eternum, e converteu um relato descritivo da África no Cinco Semanas em Balão (1863). Obteve êxito imediato. Firmou um contrato de vinte anos com Hetzel, no qual, por 20.000 francos anuais, teria de escrever duas novelas de novo estilo por ano. O contrato foi renovado por Hetzel e, mais tarde, por seu filho. E assim, por mais de quarenta anos, as Voyages Extraordinaires apareceram em capítulos mensais na revista Magasin D'éducation et de Récréation.

Em A Volta ao Mundo em 80 Dias, encontramos, ao mesmo tempo, muito da breve experiência de Verne como marinheiro e como corretor de Bolsa. Nada mais justo, também, que o novo estilo literário inaugurado por Júlio Verne, fosse utilizado por uma nova arte que surgia: o cinema. Da Terra à Lua (Georges Mélies, 1902), La Voyage a travers l'impossible (Georges Mélies, 1904), 20.000 lieus sous les mers (Georges Mélies, 1907), Michael Strogof (J. Searle Dawley, 1910), La Conquête du pôle (Georges Mélies, 1912) foram alguns dos primeiros filmes baseados em suas obras. Foram inúmeros.

A Volta ao Mundo em 80 dias foi filmado em 1956, com enredo milionário, dirigido por Michael Anderson, música de Victor Young, direção de fotografia de Lionel Lindon. David Niven fez Phileas Fogg, Cantinflas, Passepartout, Shirley MacLaine, Aouda. Em 1989, foi aproveitado para uma série de TV, com a participação da BBC, dirigida por Roger Mills. No mesmo ano, outra série de TV, agora nos EE.UU., dirigida por Buzz Kulik, com Pierce Brosnan (Phileas Fogg), Eric Idle (Passepartout), Julia Nickson-Soul (Aouda), Peter Ustinov (Fix).

Apesar de tudo, a vida de Verne não foi fácil. Por um lado sua dedicação ao trabalho minou a tal ponto sua saúde que durante toda a vida sofreu ataques de paralisia. Como se fosse pouco, era diabético e acabou por perder vista e ouvido. Seu filho Michael lhe deu os mesmos problemas que dera ao pai e, desgraça das desgraças, um de seus sobrinhos lhe disparou um tiro à queima-roupa deixando-o coxo. Sua vida efetiva também não foi das mais tranquilas e todos os seus biógrafos admitem ter tido uma amante, um relacionamento que só terminou com a morte da misteriosa dama.

Verne também se interessou pela política, tendo sido eleito para o Conselho de Amiens em 1888 na chapa radical, reeleito em 1892, 1896 e 1900.

Morreu em 24 de Março de 1905


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A Volta ao Mundo em 80 Dias é um romance de aventura escrito pelo francês Júlio Verne e lançado em 1873. A obra retrata a tentativa do cavalheiro inglês Phileas Fogg e seu valete, Passepartout, de circum-navegar o mundo em 80 dias.

Data da primeira publicação: 30 de janeiro de 1873
Autor: Júlio Verne
Editora: Pierre-Jules Hetzel
País: França
Personagens: Phileas Fogg, Passepartout, Princesa Aouda, Inspetor Fix, James Forster