quarta-feira, 15 de novembro de 2017

39. O Livro dos Abraços - Crônica da cidade de Manágua - Eduardo Galeano

Eduardo Galeano


39. O Livro dos Abraços




Crônica da cidade de Manágua

O comandante Tomás Borge me convidou para jantar. Eu não o conhecia. Tinha fama de ser o mais duro de todos, o mais temido. Havia mais gente no jantar, gente linda; ele falou pouco ou nada. Ficou me olhando, ficou me medindo. 

Na segunda vez, jantamos sozinhos. Tomás estava mais aberto: respondeu muito solto minhas perguntas sobre os velhos tempos da fundação da Frente Sandinista. E à meia-noite, como quem não quer nada, me disse: 

Agora, conta um filme para mim. 

Eu me defendi. Expliquei que morava em Calella, uma cidadezinha, onde o cinema quase não chegava, só filmes velhos... 

Conta — insistiu, ordenou —. Qualquer filme, qualquer um, mesmo que seja velho

Então contei uma comédia. Contei, atuei; tentei resumir, mas ele exigia detalhes. Quando terminei: 

Agora, outro

Contei um de gângster, que acabava mal. 

Outro

Contei um de cowboys. 

Outro

Contei, inventando de cabo a rabo, um de amor. 

Acho que estava amanhecendo quando me dei por vencido, supliquei clemência e fui dormir. 

Encontrei-o uma semana depois. Tomás pediu desculpas: 

Espremi você, naquela noite. É que eu gosto muito de cinema, gosto loucamente, e nunca posso ir

Disse que qualquer um podia entender. Ele era ministro de Interior da Nicarágua, em plena guerra; o inimigo não dava trégua e não havia tempo para luxos como ir ao cinema. 

Não, não — me corrigiu —. Tempo, tenho. Tempo... a gente sempre consegue, quando quer. Não é uma questão de tempo. Antes, quando eu estava clandestino, disfarçado, dava um jeito para ir ao cinema. Mas agora... 

Não perguntei. Houve um silêncio, ele continuou: 

Não posso ir ao cinema porque... porque no cinema, eu choro.

Ah!-- disse —. Eu também

Claro — respondeu —. Percebi na hora. Na primeira vez que vi você, pensei: "Esse é dos que choram no cinema"





O desafio


Não conseguiram nos transformar em eles — escreveu-me Cacho El Kadri. Eram os últimos tempos das ditaduras militares na Argentina e no Uruguai. Tínhamos comido medo no café da manhã, medo no almoço e no jantar, medo; mas não tinham conseguido nos transformar em eles.





Celebração da coragem/1

Gabriel Caro, colombiano, que lutou na Nicarágua, conta que ao lado dele caiu um suíço, destroçado por uma rajada de metralhadora; e ninguém sabia como era o nome do suíço. Aconteceu na Frente Sul, um par de noites ao norte do rio San Juan, pouco antes da derrota da ditadura de Somoza. Ninguém sabia o seu nome, ninguém sabia nada daquele calado miliciano louro que tinha ido tão longe para morrer na Nicarágua, pela revolução, pela lua. O suíço caiu gritando uma coisa que ninguém entendeu, caiu gritando: — Viva Bakunin! 

E enquanto ouço Gabriel contando a história do suíço, minha memória se acende. Há anos, em Montevidéu, Carlos Bonavita me falou de um tio dele, ou tio-avô, que redigia os relatos de batalha nos tempos das guerras gaúchas nas pradarias do Uruguai. Andava aquele tio ou tio-avô contando mortos na beira do rio onde uma batalha, não sei qual, tinha acontecido. Pela cor das fitas que os soldados usavam nos cabelos, reconhecia os grupos. Estava fazendo isso quando viu um cadáver e ficou paralisado. Era um soldado de poucos anos, era um anjo de olhos tristes. Sobre os cabelos negros, vermelhos de sangue, a fita branca dizia- Pela pátria e por ela. A bala tinha entrado na palavra ela.





Celebração da coragem/2

Perguntei a ele se tinha visto algum fuzilamento. Sim, tinha visto. Chino Heras tinha visto um coronel ser fuzilado, no final de 1960, no quartel de La Cabana. A ditadura de Batista tinha muitos carrascos, coisa ruim a serviço da dor e da morte; e aquele coronel era um dos muitos, um dos piores. 

Estávamos em meu quarto, numa roda de amigos, em um hotel de Havana. Chino contou que o coronel não tinha querido que vendassem os seus olhos, e sua última vontade não fora um cigarro: o coronel pediu que o deixassem comandar seu próprio fuzilamento. 

O coronel gritou: Preparar! e gritou: Apontar! Quando ia gritar: Fogo!, o fuzil de um dos soldados travou. Então o coronel interrompeu a cerimônia. 

Calma — disse para a fila dupla de homens que deviam matá-lo. Eles estavam tão próximos que quase podia tocá-los. 

Calma — disse —. Não fiquem nervosos

E novamente mandou preparar armas, e mandou apontar, e quando estava tudo em ordem, mandou disparar. E caiu. 

Chino contou esta morte do coronel, e ficamos calados. Éramos vários naquele quarto, e todos nos calamos. 

Esticada feito uma gata sobre a cama, havia uma moça de vestido vermelho. Não recordo seu nome. Recordo suas pernas. Ela tampouco disse nada. 

Passaram-se duas ou três garrafas de rum e no fim, todo mundo foi dormir. Ela também. Antes de ir embora, da porta entreaberta, olhou para o Chino, sorriu e agradeceu: 

Obrigada — disse — Eu não conhecia os detalhes. Obrigada por ter me contado

Depois soubemos que o coronel era pai da moça. 

Uma morte digna é sempre uma boa história para se contar, mesmo que seja a morte digna de um filho da puta. Mas eu quis escrevê-la, e não consegui. Passou o tempo e esqueci. 

Da moça, nunca mais ouvi falar.





Celebração da coragem/3

Sérgio Vuskovic me conta os últimos dias de José Tohá. — Suicidou-se — disse o general Pinochet —. O governo não pode garantir a imortalidade de ninguém — escreveu um jornalista da imprensa oficial. 

Estava magro por causa dos nervos — declarou o general Leigh. 

Os generais chilenos odiavam-no. Tohá tinha sido ministro da Defesa no governo Allende, e conhecia os seus segredos. 

Estava num campo de concentração, na ilha de Dawson, ao sul do sul. 

Os prisioneiros estavam condenados a trabalhos forçados. Debaixo da chuva, metidos no barro ou na neve, os prisioneiros carregavam pedras, erguiam muros, colocavam encanamentos, pregavam postes e estendiam cercas de arame farpado. 

Tohá, que tinha um metro e noventa de altura, estava pesando cinquenta quilos. Nos interrogatórios, desmaiava. Era interrogado sentado numa cadeira, com os olhos vendados. Quando despertava, não tinha forças para falar, mas sussurrava: 

Escute, oficial. Sussurrava: 

Viva os pobres do mundo

Estava há algum tempo tombado na barraca, quando um dia levantou-se. Foi o último dia em que se levantou. 

Fazia muito frio, como sempre, mas havia sol. Alguém conseguiu café bem quente para ele e o negro Jorquera assoviou para ele um tango de Gardel, um daqueles velhos tangos dos quais ele tanto gostava. 

As pernas tremiam, e a cada passo os joelhos se dobravam, mas Tohá dançou aquele tango. Dançou-o com uma vassoura, magra como ele, ele e a vassoura, ele encostando o cabo da vassoura em sua cara de fidalgo cavalheiro, os olhinhos fechados, até que numa volta caiu ao chão e já não conseguiu mais levantar. Nunca mais foi visto.





Celebração da coragem/4

A direita mesquinha e a esquerda puritana dedicam boa parte de seus fervores discutindo se Salvador Allende suicidou-se ou não. 

Allende tinha anunciado que não sairia vivo do palácio presidencial. Na América Latina, é tradição: todos dizem a mesma coisa. Depois, na hora do golpe de Estado, correm para o primeiro avião. 

Tinham-se passado muitas horas de bombas e fogo e Allende continuava combatendo entre os escombros. Então chamou seus colaboradores mais íntimos, que resistiam com ele, e disse: 

Desçam, que eu já vou

Eles acreditaram e foram embora, e Allende ficou sozinho no palácio em chamas. 

Que importa de quem foi o dedo que disparou a bala final?





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Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. Tradução: Eric Nepomuceno Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer ISBN: 85.254.0306-0 G151L Galeano, Eduardo O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 1. Ficção uruguaia. I.Título. CDD U863 CDU 860(895)-3 Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989


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37. O Livro dos Abraços - Fuga - Eduardo Galeano

38. O Livro dos Abraços - Profissão de fé - Eduardo Galeano

1.O Livro dos Abraços - O mundo - Eduardo Galeano




sábado, 11 de novembro de 2017

histórias de avoinha: existimos porque resistimos

mulheres descalças


existimos porque resistimos
Ensaio 111B – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar




A África é um lugar triste!

os trêis villêro do comércio de vendê a cura mais a bebida e mais carregá a comida do charque das pelotas inté a villa... se oiô. depois, ainda sem dizê nem ai ou ui, fez rodízio pra oiá pru forastêro. nehum sabia dizê pru qui o recém-chegado disse uqui disse, justo no meio daquele alvoroço e corre-corre atrás do pretu fujão, o hôme com cara de viajado parecia sabê mais qui aparentava sabê pela língua afiada

o juca foi o primêro qui destravô a língua, fez a purugunta qui tava na cabeça dos trêis villêro, Vosmecê já visitou a terra dos negros?

a resposta num saiu logo da boca do atentado, ele, no meu feitio de oiá pra contá os ocorrido, tava medindo os trêis ouvinte, escoiendo qual das história dava mais distração e formosura, qual delas era meió pra contá naquele lugá de arrepiá

é assim mesmo, quem conta as história vê antes das palavra saí pelos vento afora balançando, depois de saí elas fica clandestina dos pensamento. ele tava escoiendo qual a meió história pra contá e qui oferece a meió purgação prus ouvinte. esse viajante é bão, num fala só pra dizê qui falô

Sim, meus amigos. Já visitei a África algumas vezes. O sol ardente e muito luminoso que lava todo continente negro causa tristeza, horror, medo e desespero, parô as palavra e mediu o estrago feito, e decretô a sentença qui ele sabia qui os villêro tava esperando escutá, a África tornou o negro involuído pelo espírito.

os trêis amigo do comércio, e mais eu, tava com a boca aberta, eles pelo alívio da confirmação ou desejo de querê sabê qui o lugá dos pretu era pió qui aqui, eu pelo arrependimento de tê entrado nesta história como testemunha e narradô. num tava gostando do rumo qui as coisa tava tomando. o recém-chegado falava dum jeito claro e duro, num tinha nas pronúncia das palavra nehuma pista do lugá das suas origem, podia sê visto em qualqué lugá. é claro, pelo menos pra mim, qui esse forastêro onde seja qui vai ou vem, leva junto a morte qui já o possui aos pedaço, isso é fácil de vê, é só querê vê, mais num parece qui é assim qui os villêro vê ele, Eu não disse, Juca? Eu disse, sim. Aqui, eles vivem melhor que nesta África!

essa bondade num é ingenuidade nem desinteresse, é coisa de gente sem espritu, sem a justiça da cortesia, seguramente é fazê uso da maldade sem dó nem piedade. gente com tanta ruindade num dá nó sem ponto, num dá nada se num tivé troca, num oferece da vida o contentamento. eles vive rastejando como a cobra mais venenosa qui oferece esmola antes do bote, E o que mais o senhor Domingos Jorge viu, nesta terra selvagem de muito sol e secura?

os quatro associado continua atento neles mesmo, o forastêro pra sabê se as palavra tá do agrado, os villêro pra tê uqui dizê depois qui os quatro dispersá. o alvoroço do pretu fujão acordô cada um qui vive acomodado sem espritu e sem bondade, ajuntando as coisa ruim do pensamento sem música, mais qui pode acordá arrojado e cruel quando encontrá otras coisa ruim se soltando. a imaginação da maldade trabáia as coisa mais dura da tristeza, é um jogo de castigo e esmola inté os pretu ficá desanimado, desinteressado, apático, com usóio triste e com medo, aleijado das vontade

Eu diria sem medo de errar, e de coração gostaria de estar errado, que Deus Nosso Senhor, depois da sua grandiosa criação do mundo e da repartição das diferentes raças, algumas destoantes, é bem verdade, ocultou na África a borra que restou no fundo do seu balde divino. Tenho a mais profunda fé que Ele fez o negro no físico e no espírito inferior através dos milênios.

a cólera mansa vestida com as palavra da bondade caritativa num desvestia a mania mórbida de desdenhá e avançá sobre os pretu. tudo dito assim, tem um propósito, é pra num tê vergonha nem prejuízo na hora de comprá os pretu. é o jogo da oferta e da procura. o gozo maligno e mutilado de querê sê superiô ao mesmo tempo que atrai tumbém provoca repugnância, uma indecisão entre a vaidade e a covardia, o medo e a falta de culpa, Eu não disse, Joca? A criação se cumpre paciente como o andar da carreta dos bois, Deus no céu, nós na terra, não tem necessidade de apressar o que já está escrito: a negrada como símbolo da tristeza, a noite escura do próprio destino. E tenho dito que essa é uma sentença divina.

num parece qui vai tê dia seguinte dessa escravidão

os quatro se colocô a andá pru lado e oiá pra baixo, lá prus lado do rio o alvoroço num parecia tê fundura. a sepultura continuava sendo cavada, num tinha milagre chegando e se anunciava o fim do muriquinhu pretu, o fim do corpo. era só uma coisa de esperá pelo tempo passá

Concordo, a negada não tem alento na luta pelo próprio progresso, não conseguem desvestir a mortalha do desespero para todo sempre.

as palavra dum devora o coração dos otro quando num é só dita pra sê dita, mais jurada pra descê no meio da escuridão dos pensamento. a ceguêra qui reza num tem nada além dos monstro escondido e com sede pra virá mania. a contemplação com a tortura aleija, a chibata é a treva dos espritu desmanchado da harmonia

os abicu vê as larva do ódio deformando as mão, metade garra, metade sopapo, arruinando aqueles qui vai sendo educado pelos dono de tudo, é triste vê a invenção da maldade dominá tudo, fazê hôme e muié caducá antes de ficá véio e murchá, podre o espritu antes de morrê da carne. os abicu vê pruqui sabe vê, mais tumbém pruqui nóis qué vê, num vê quem num qué vê, E o que mais o recém-chegado viu por lá?

Posso lhes garantir que melhor que ir foi ter voltado, escapado com vida, os quatro fez silêncio, o forastêro pareceu tê levado os pensamento e as palavra pra longe, pareceu tê voltado na terra dumbigo do mundo, mais o abicu sabe qui ele num levô e num voltô, era o seu feitio de mostrá importância e gravidade nas palavra qui tava preparando pra soltá. num queria tê dúvida da resposta pra sê dada. andô dois passo pra frente, voltô dois passo, o rodomoinho das pessoa continuava, o teatro do forastêro tumbém

cerrô um dos punho e colocô o punho fechado na palma da otra mão. parecia sofrê com as palavra qui tava pra soltá da boca quase sem nenhum dente, uma boca vazia como as esmola qui os trêis comerciante soltava sem gosto

O que eu vi, meus amigos? Eu vi quadros tristes que se desdobram em paineis e se completam na tela brutal dos desenganos e desesperos da terra negra, berço da mais desgraçada de todas as raças!

tava com os dois ombro erguido, mais num tinha nada na sua figura descuidada, apenas a alucinação dos pensamento cego e das palavra fria acostumada com as duas bochecha desavergonhada. a voz malvada, sem piedade e sem vergonha, num se importava com as lembrança perdida na distância. num tinha boa fé. tinha fé no feitio malévolo e amargo qui os trêis villêro bebia pruqui eles queria bebê, eles queria creditá, Eu não disse? Eu disse!

O que foi Maneco?

o carretêro do charque e tudo qui pode carregá na carreta dos boi pra trazê das pelotas inté a villa e levá pra lá, num tava só afumentando conversação recostada nas poltrona da casa grande, nem a cuia carregava nas mão nem o oiá tava perdido pelo campo afora, mais ele num tinha dúvida nem precisava reavivá antiga suspeita, A negrada não é gente, meus amigos, mas feras traiçoeiras e terríveis!

num tem mais conforto qui escutá do cumpadi ou amigo ou fronteriço qui os pensamento da cabeça dum tumbém tá carregado no curação deles, mais quando um desconhecido chega dizendo as palavra certa pra enfeitá essas certezas com mais confiança, isso num tem preço, nada mais importa qui tá certo na questão dos pretu. num importa a história das cruz fincada na terra, tem mais importância os pensamento retorcido e mutilado pela força das corrente e da chibata: a miséria da vontade única. o vento, talvez só o vento, consiga lutá contra essa força desumana

usóio do caçadô triunfa solene atrás da máscara do ódio qui eles jura qui num é ódio. as palavra dita e repetida fica famosa, os interrogatório vira torcida, inté qui os corpo da torcida tumbém fica retorcido, mais num é ódio, como eles diz, ódio os dono de tudo sente pelo inimigo, pelos pretu é desprezo

mais o abicu num se engana, os dono de tudo vê os pretu como inimigo e despreza com ódio esse inimigo, qui eles num pode cantá em verso e prosa. os dono de tudo num pode sê herói nesta guerra do usofruto dos pretu qui eles obriga trabaiá pela vida, pela comida fria e fedida

Muitos são canibais de canibais espalhados pelo continente. Escondem-se no fundo de cavernas, nas selvas, nos sovacos mais escuros e medonhos.

os amigo villêro continuava embruxado pelas palavra do viajadô, sem dúvida, eles se acha menó qui ele pruqui eles tinha o embaraço de num sê viajado nem sabê tanta coisa do avesso do mundo. eles mais torcia qui conversava, dava eco pras palavra do viajadô, Uma raça infeliz que não passou da idade alvar de sua espécie.

num era só desprezo, num era só ódio nem só agiotagem com o corpo dos pretu, mais tumbém uma obrigação prus villêro mutilá os ossos, as carnes e as vontade dos pretu na villa, maltratá os pretu e os índio virô profissão. espaiá o medo virô emprego, desuní com a mentira virô ocupação de trabáio. e vai ficá pió pruqui essas lição depois de aprendida passa do pai pru fio, Imagino os perigos que o nobre senhor Domingos Jorge passou na sua visita de captura dos negros na terra negra. Precisamos contar essas histórias para nossas crianças!

Bem-dito, senhor Joca... aquela terra é um lugar triste e bárbaro...

usóio e o rito triunfa sobre a verdade, quem sabe meió manejá a contação das história vai moldá as lembrança, vai assegurá a bebida qui todos vai bebê. a verdade num tem intenção, ela é só isso, a verdade. a intenção tá com a contação das história e a habilidade com a boa e má fé

... quando avistamos de longe as terras escarpadas e nuas aproximamos cautelosamente a nau da orla marítima. Saltamos como crianças à terra com suas montanhas azuladas. O cair de uma folha ou o soprar da brisa arrepia até os cabelos, num tem como num pará pra escutá o recém-chegado, as história qui ele conta num tem como sabê se é ou num é como ele conta, os trêis villêro tava decidido qui creditava, oferece a impressão que aquele lugar é agressivo, bárbaro e inóspito. A nossa missão era penetrar terra adentro e tomar para as correntes o maior número de desafortunados.

os amigo comerciante num queria interrompê o desembaraço do viajante, o invasô das terra distante dumbigo era muntu bão com a contação das história

Ainda hoje, apesar dos nossos enormes esforços sanitários e colonizadores, a África não é um lugar hospitaleiro. O clima, a hostilidade da fauna, as doenças e as tribos são obstáculos à vida humana civilizada.

E quantas vezes o senhor já visitou a África para capturar escravos?

Doenças? O senhor poderia esclarecer melhor? Afinal, todos temos negros em nossas casas...

No meu ver, os negros da África estacionaram, depois retrocederam. A falência da raça negra é própria da natureza!

os trêis villêro num conseguia escondê a animação, eles tava comovido com as ideia do traficante dos pretu

A raça negra do vasto continente africano perdeu contato com o mundo, ficou sem novos alentos civilizatórios superiores. As suas relações ficaram restritas as populações aborígenes ou inferiores. Não tinham ainda atingido um grau de civilização necessário para viver isolada do mundo. A escravidão veio se transformar na porta por onde invadiram o mundo civilizado, tanto moral quanto físico.

E as doenças? As mulheres carregam muitas doenças escondidas?

Malária, o tsé-tsé, causador da doença do sono, o stegomya, que provoca a febre amarela. É um lugar repulsivo apesar dos esforços da nossa avalanche lusitana que penetrou o mundo para descobrir novos mundos e construir novas civilizações no inferno negro.

Imagino quantos dos nossos sucumbiram e não receberam nem uma cruz de saudade...

É verdade, meus amigos. Isepultos bordaram a terra negra de ossos brancos que tombaram nas mãos de negros vingativos e sedentos da carne de gente branca!

Coitados!

Rezemos...

lá, pelos lados do rio, chegavam os gritos qui avisava como um sino destrambelhado, véio e enferrujado, qui só serve pra alarmá as defesa da villa e avisá nascimento ou morte importante

Pegaram! Pegaram!

Colocaram as mãos no negro fujão!

A corda! Tragam a corda! Forca para ele!

Assassino!

uma poêra grossa misturada com cuspe num deixava eles vê o acontecido





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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / XXIX

Júlio Verne



Viagem ao Centro da Terra/XXIX





Quando voltei a mim, estava deitado em espessos cobertores na penumbra. Meu tio velava, espreitando um resto de vida em meu rosto. Ao primeiro suspiro, pegou minha mão; quando abri os olhos, deu um grito de alegria. 

- Está vivo! Está vivo! - gritou.

- Sim - respondi com voz fraca. - Meu filho - disse meu tio, apertando-me contra o peito - você está salvo!

Fiquei muito tocado pelo tom daquelas palavras e mais ainda com os cuidados com que me prodigou. Para o professor, tal efusão só poderia ser provocada por grande provação.

Naquele momento, chegou Hans. Viu minha mão na de meu tio; ouso afirmar que seus olhos exprimiram uma viva alegria.

- God dag - disse.

- Bom dia, Hans, bom dia - murmurei. - E agora, tio, diga-me onde estamos neste momento.

- Amanhã, Axel, amanhã. Hoje você ainda está muito fraco; não é bom se mexer por causa das compressas que coloquei em sua cabeça; durma, meu filho, e amanhã prometo contar-lhe tudo.

- Mas ao menos - insisti -, diga-me o dia e a hora.

- São onze horas da noite de domingo, 9 de agosto, e eu o proíbo de fazer perguntas até o dia dez do presente mês.

Eu estava realmente muito fraco, e meus olhos fecharam-se involuntariamente. Precisava de uma noite de descanso. Deixei-me levar pelo torpor pensando que o meu isolamento durara quatro longos dias.

Quando acordei no dia seguinte, olhei ao meu redor. Meu leito, feito com todos os cobertores da viagem, fora instalado numa gruta encantadora, enfeitada de magníficas estalagmites, o solo recoberto de areia fina. Nela reinava a penumbra. Não havia qualquer tocha ou lanterna acesa, mas alguns clarões inexplicáveis iluminavam-na de fora por uma abertura estreita. Ouvi também um murmúrio vago e indefinido, semelhante ao gemido das ondas que se quebram na praia, e às vezes o assobio da brisa.

Perguntava-me se estava bem acordado, se ainda estava sonhando, se meu cérebro, rachado na queda, não estaria ouvindo sons imaginários. Mas nem meus olhos nem meus ouvidos poderiam enganar-se a esse ponto. "É um clarão do dia", pensei, "esgueirando-se pela fenda das rochas! São murmúrios de ondas! A brisa está soprando! Será que me engano ou voltamos à superfície da terra? Será que meu tio renunciou à expedição ou a concluiu com sucesso?

Fazia todas essas perguntas irrespondíveis para mim mesmo quando o professor entrou.

- Bom dia, Axel! - saudou alegremente. - Aposto que você está se sentindo bem. - Estou muito bem - disse, erguendo-me nas cobertas.

- Tinha certeza de que sim, pois você dormiu com muita tranqüilidade. Eu e Hans nos revezávamos para velá-lo e notamos que você estava curando-se gradualmente.

- De fato, sinto-me recuperado e, para provar, honrarei o desjejum que vocês não deixarão de me oferecer!

- Você vai comer, filho! Você não tem mais febre. Hans esfregou seus ferimentos com um unguento secreto islandês, que não sei do que é feito, e eles cicatrizaram maravilhosamente. Nosso caçador é um homem e tanto!

Enquanto falava, meu tio preparava alguns alimentos, que eu devorava apesar de suas recomendações. E, comendo, atordoava-o com perguntas que ele se apressou em responder.

Soube então que minha queda providencial levara-me precisamente à extremidade de uma galeria quase perpendicular; como chegara junto com uma torrente de pedras, entre as quais a menor bastava para esmagar-me, a conclusão era de que uma parte do maciço escorregara comigo. Aquele aterrorizante veículo transportara-me assim até os braços de meu tio, onde caí, ensanguentado, desmaiado.

- Realmente - disse-me - é surpreendente que você não tenha morrido mil vezes. Mas por Deus, não nos separemos mais, pois nos arriscamos a nunca mais rever-nos.

"Não nos separemos mais!" Então a viagem não terminara?

Arregalei os olhos, surpreso, o que provocou imediatamente a pergunta:

- O que há com você, Axel?

- Tenho de fazer-lhe uma pergunta. O senhor está dizendo que eu estou são e salvo?

- Com certeza.

- Todos os meus membros intactos?

- Exatamente.

- E minha cabeça?

- Exceto por algumas contusões, ela continua exatamente em seu lugar, sobre os ombros. - Bem, temo que a minha razão não esteja em forma.

- Fora de forma?

- Sim, não voltamos à superfície do globo?

- Claro que não!

- Então, devo estar mesmo louco, pois estou vendo a luz do dia e ouvindo o ruído do vento que sopra e do mar que se quebra.

- Ah, é isso?

- Daria para o senhor me explicar do que se trata?

- Não dá para lhe explicar, pois é inexplicável. Mas você verá e compreenderá que a ciência geológica ainda não deu sua última palavra.

- Vamos sair, então - exclamei, levantando-me bruscamente.

- Não, Axel, não, o ar livre pode lhe fazer mal.

- O ar livre?

- O vento está muito forte. Não quero que se exponha dessa forma.

- Mas garanto que estou ótimo.

- Um pouco de paciência, meu filho. Uma recaída pode causar transtornos para nós, e não devemos perder tempo, pois a travessia pode ser longa.

- Travessia?

- Sim, descanse hoje ainda, embarcaremos amanhã.

- Embarcar? 


Essa palavra provocou-me um sobressalto. O quê? Embarcar? Então tínhamos um rio, um lago, um mar à nossa disposição? Havia uma embarcação em algum porto interior? Minha curiosidade chegou ao auge. Meu tio tentou inutilmente conter-me. Quando viu que minha impaciência me faria mais mal do que a satisfação dos meus desejos, cedeu. Vesti-me prontamente. Para o cúmulo da precaução, enrolei-me num dos cobertores e saí da gruta.




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Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / XXVII

Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / XXVIII