sábado, 13 de janeiro de 2018

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine I — O abade Myriel

Victor Hugo - Os Miseráveis


Primeira Parte - Fantine

Livro Primeiro - Um Justo




I — O abade Myriel 


Em 1815, era bispo de Digne o reverendo Carlos Francisco Bemvindo Myriel, o qual contava setenta e cinco anos de idade, e que desde 1806 ocupava aquela diocese. 

Embora seja estranho ao enredo desta história, não será demais referir, ainda que não seja senão para sermos exatos, os diversos boatos e conversas que tinham circulado a seu respeito, quando da sua chegada à diocese. Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens, ocupa muitas vezes na sua vida e, muito mais, no seu destino, um lugar tão importante como o mesmo que eles têm. 

Segundo se dizia, Carlos Myriel era filho de um juiz da Relação de Aix (aristocracia de toga) que, tendo-o destinado para sucessor do cargo que exercia, o casara muito novo ainda, apenas com dezoito ou vinte anos, como é costume em famílias pertencentes à magistratura. 

Apesar de casado, Carlos Myriel, pequeno de estatura, mas de agradável presença, elegante e muito espirituoso, dera, ao que constava, bastante que falar de si, por continuar dedicando a sua existência aos prazeres mundanos. Rebentou a revolução e os acontecimentos precipitaram-se rapidamente; as famílias dos magistrados dizimadas, expulsas, perseguidas, fugiram. Logo nos primeiros dias da revolução, Carlos Myriel emigrou para Itália, onde sua mulher sucumbiu, devido a uma afecção pulmonar de que há muito sofria, deixando-o sem descendência. Que se passou depois disto na vida de Carlos Myriel? Dar-se-ia o caso da ruína da anga sociedade francesa, a decadência da própria família, os trágicos acontecimentos de 93, talvez ainda mais pavorosos para os emigrados que os viam de longe aumentados pelo terror, lhe terem feito germinar no espírito ideias de solidão e de renúncia? Teria sido no meio das afeições e distrações em que ocupava a vida, alcançado subitamente por algum desses terríveis e misteriosos golpes, que às vezes vão direitos ao coração e fazem derribar o homem que as catástrofes públicas, mesmo ferindo-lhe a existência e a fortuna, não seriam capazes de abalar? Era impossível dizê-lo; o que se sabia é que, quando regressou de Itália, vinha padre. 

Em 1804, Carlos Myriel, já de idade avançada, era pároco da igreja de Brignolles e vivia na mais completa solidão. 

Por ocasião da coroação teve de ir a Paris por causa de uma pequena pretensão, a que andava ligado o interesse da sua paróquia. Entre as pessoas de influência, cuja proteção solicitou em favor dos seus paroquianos, contava-se o cardeal Tesch. Num dia em que o imperador foi visitar seu o, encontrou-se na passagem com o digno eclesiástico, que aguardava na antecâmara ocasião oportuna para ser admitido à audiência. Napoleão, notando a insistência com que aquele velho o observava, voltou-se de repente e perguntou: 

— Quem é este homem que não deixa de olhar para mim? 

— Sire — disse Myriel — Vossa Majestade reparou num pobre insignificante, eu olho para um grande homem. Podemos ambos aproveitar. 

Nessa mesma noite, o imperador perguntou ao cardeal o nome do abade e, pouco tempo depois, Carlos Myriel, surpreendido, recebeu a notícia de que havia sido nomeado bispo de Digne. 

Até que ponto, porém, era verdade o que se dizia relativamente à primeira parte da existência daquele homem? Ninguém o sabia, porque poucas famílias haviam conhecido a dele antes da revolução. 

Apesar de bispo e mesmo por o ser, Myriel teve de resignar-se à sorte de todas as pessoas que chegam a uma cidade pequena, onde é maior o número de bocas que falam do que cabeças que pensam. No fim de tudo, porém, as conversas em que o seu nome andava envolvido, não passavam de boatos. 

Fosse como fosse, decorridos nove anos de episcopado e de residência em Digne, todos esses mexericos, que nos primeiros tempos são o objecto constante das conversas entre o povo das terras pequenas, caíram em tão profundo esquecimento, que já ninguém ousava repeti-los, nem sequer recordar-se deles. 

O reverendo Myriel veio para Digne acompanhado de sua irmã Baptistina, mais nova do que ele dez anos e uma criada da mesma idade da irmã, chamada Magloire, a qual passara a exercer as duplas funções de criada grave da senhora e dispenseira do novo bispo. 

Alta, magra, pálida, delicada e afável, Baptistina, embora se não pudesse chamar o tipo da mulher veneranda, porque para isso era necessário que fosse mãe, realizava, todavia, a mais completa expressão da palavra respeitável. Nunca fora bonita, mas a sua existência, que se resumia numa longa série de obras de caridade, revestira-se, por fim, de uma espécie de alvura luminosa que lhe dava, depois de velha, aquilo a que poderemos chamar a beleza da bondade. O que na sua mocidade fora magreza, tornou-se na velhice em transparência, através da qual, como de um véu, se entrevia um anjo. Era em si mesma mais que uma virgem, era uma alma. O seu vulto parecia feito de sombra; apenas o corpo necessário para determinar o sexo; era pequena porção de matéria contendo uma chama celeste; olhos grandes e sempre fitos no chão, um pretexto para uma alma andar na terra. 

Magloire era uma velhinha baixa e muito gorda, sempre atarefada, sempre arquejante, não só por efeito da sua muita atividade, mas em consequência dos seus padecimentos asmáticos. 

Apenas chegou a Digne, o novo prelado tomou posse do palácio episcopal, com todas as honras concedidas pelos decretos imperiais, que classificam o bispo imediatamente após o marechal de campo. O maire e o presidente foram logo cumprimentá-lo, e ele, por sua vez, fez o mesmo ao general e ao prefeito. 

Depois de ver o novo prelado estabelecido no governo espiritual da diocese, a cidade esperou pelos seus atos.






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Enquanto existir nas leis e nos costumes uma organização social que cria infernos artificiais no seio da civilização, juntando ao destino, divino por natureza, um fatalismo que provém dos homens; enquanto não forem resolvidos os três problemas fundamentais a degradação do homem pela pobreza, o aviltamento da mulher pela fome, a atrofia da criança pelas trevas; enquanto, em certas classes, continuar a asfixia social ou, por outras palavras e sob um ponto de vista mais claro, enquanto houver no mundo ignorância e miséria, não serão de todo inúteis os livros desta natureza. 

Hauteville House, 1862




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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.


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Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: IV - O Gaiato

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa







IV

O GAIATO 

Era a explosão do novo ano: caos de lama e de neve, atravessado por mil carroças, cintilante de brinquedos e de bombons, repleto de cobiças e desesperos. Delírio oficial de uma grande cidade, feito para perturbar o cérebro do mais forte solitário. 

No meio da algazarra e do burburinho, um burro trotava ligeiro, fustigado por um maroto armado de chicote. 

Quando o burro ia dobrando uma esquina, junto à calçada, um cavalheiro todo enluvado, elegante, cruelmente engravatado e encarcerado numa roupa nova, inclinou-se cerimoniosamente diante do humilde animal e disse-lhe, tirando o chapéu: — Saúde e felicidade! Depois, voltou-se para os companheiros com um ar enfatuado, como para pedir-lhes que aplaudissem o seu contentamento. 

O burro não viu o elegante gaiato e continuou a correr zelosamente para onde o chamava o dever. 

Quanto a mim, tomou-me de repente uma raiva incomensurável daquele magnífico imbecil, que me pareceu concentrar em si todo o espírito da França.




V

O QUARTO DUPLO 

Um quarto que parece um sonho, quarto verdadeiramente espiritual, onde a atmosfera parada está ligeiramente tinta de rosa e azul. 

A alma toma aqui um banho de preguiça, aromatizado pela saudade e pelo desejo. É algo de crepuscular, de azulado e de róseo. Sonho de volúpia durante um eclipse. 

Os móveis têm formas alongadas, prostradas, lânguidas. Parecem sonhar. Dir-se-iam dotados de vida sonambúlica, como o vegetal e o mineral. As almofadas falam uma língua muda, como as flores, como o céu, como o sol poente. 

Nas paredes, nenhuma abominação artística. Relativamente ao sonho puro, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Tudo tem, aqui, claridade bastante e a deliciosa obscuridade da harmonia. 

Um aroma infinitesimal da mais refinada escolha, ao qual se mistura levíssima umidade, paira nesta atmosfera onde o espírito sonolento é embalado por sensações de estufa. 

Chove a musselina em abundância diante das janelas e do leito, espraiando-se em cascatas de neve. Deitada no leito está o ídolo, a soberana dos sonhos. Como, porém, se encontra aqui? Quem a trouxe? Que mágico poder instalou-a neste trono de sonho e volúpia? Que importa? Ei-la! Reconheço-a. 

Olhos cuja flama atravessa o crepúsculo; sutis e terríveis cinzéis, que reconheço em sua espantosa malícia! Atraem, subjugam, devoram o olhar do imprudente que os contempla. Muitas vezes fitei essas duas estrelas negras que despertam curiosidade e admiração. 

A que demônio benfazejo devo eu o estar assim cercado de mistério, de silêncio e de perfumes? Oh beatitude! O que costumamos chamar vida, mesmo na sua mais feliz expansão, nada tem de comum com esta vida suprema que eu agora conheço e saboreio de minuto a minuto, de segundo a segundo! Não! Já não há minutos, não há segundos! O tempo desapareceu. Reina a Eternidade, uma eternidade de delícias! Súbito, uma pancada terrível ressoa na porta e, como nos sonhos infernais, tenho a impressão de receber no estômago um golpe de picareta. 

Entra um Espectro. É um oficial de justiça que vem torturar-me em nome da lei; ou uma infame concubina que vem gritar miséria e ajuntar as trivialidades de sua vida às dores da minha; ou o mensageiro de um diretor de jornal que reclama a continuação do manuscrito. 

O quarto paradisíaco, o ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide (3), como dizia o grande René (4), toda essa magia desaparece com a pancada brutal dada pelo Espectro. 

Que horror! Lembro-me bem! Sim, lembro-me bem! Esta choupana, abrigo do eterno desgosto, é realmente a minha. Aqui estão os móveis encardidos, empoeirados, gastos; o fogão sem lume e sem brasa, sujo de escarros; as tristes janelas em cuja poeira se veem os sulcos abertos pela chuva; os manuscritos, apagados ou incompletos; a folhinha, em que o lápis marcou as datas sinistras! E aquele perfume de um outro mundo, com o qual eu me embriagava com requintada sensibilidade – ai de mim! – foi substituído por um fedor de fumo misturado com não sei que mofo nauseabundo. Respira-se, agora, o ranço da desolação. 

Neste mundo estreito, mas tão cheio de desgosto, só um objeto conhecido me sorri: a garrafa de láudano. Velha e terrível amiga. Como todas as amigas, ai de mim! Fecunda em carícias e traições. 

Oh! Sim! O Tempo reapareceu. O Tempo reina agora, soberano. E com o hediondo velhote chegou todo o cortejo demoníaco de Lembranças, Saudades, Espasmos, Temores, Angústias, Pesadelos, Cóleras e Neuroses. 

Eu vos asseguro que os segundos, agora, são forte e solenemente acentuados, dizendo cada um, ao sair do relógio: — Eu sou a vida, a vida insuportável e implacável! Só um segundo existe, na vida humana, com a missão de anunciar uma boa nova, a boa nova que a todos causa um medo inexplicável. 

Sim! O Tempo reina. Reassumiu sua ditadura brutal. E me incita, como se eu fora um boi, com seu duplo aguilhão: — Upa! Vamos, besta! Sua, escravo! Vive, maldito!




VI

CADA QUAL COM SUA QUIMERA
 
Sob um grande céu de cinza, numa vasta planície poeirenta, sem estradas, sem mato, sem espinho, sem urtiga, encontrei vários homens, curvados, a marchar. 

Cada um deles levava às costas uma enorme Quimera (5), pesada como um saco de farinha ou de carvão, ou como a mochila de um infante romano. 

Mas a monstruosa besta não era um peso inerte. Ao contrário, envolvia e oprimia o homem com músculos elásticos e potentes. Cravava as garras enormes no peito da montaria. E a cabeça fabulosa dominava a frente do homem, como os elmos medonhos com que os guerreiros antigos pretendiam aumentar o terror do inimigo. 

Interpelei um daqueles homens e perguntei-lhe aonde iam. Respondeu-me que não sabia, nem ele, nem os outros. Evidentemente, porém, acrescentou, iam a alguma parte, pois eram levados por uma incrível necessidade de marchar. 

Coisa curiosa: nenhum dos viajantes parecia irritado com a fera que levava suspensa ao pescoço e colada às costas; dir-se-ia que a considerava como fazendo parte de si mesmo. 

Nenhum daqueles rostos fatigados e sérios demonstrava o menor desespero. Sob a cúpula melancólica do céu, pés mergulhados na areia de um chão tão desolado quanto o céu, caminhavam com a fisionomia resignada dos que estão condenados a esperar sempre. 

O cortejo passou ao meu lado e afundou-se na atmosfera do horizonte, no lugar em que a superfície arredondada do planeta se furta à curiosidade do olhar humano. 

Durante alguns instantes, obstinei-me em querer compreender esse mistério. Logo, porém, a irresistível indiferença abateu-se sobre mim, e eu me senti mais oprimido do que eles com as pesadas Quimeras.





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Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio ou dandy ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821. Estudou no Colégio Real de Lyon e Lycée Louis-le-Grand (de onde foi expulso por não querer mostrar um bilhete que lhe foi passado por um colega).

Em 1840 foi enviado pelo padrasto, preocupado com sua vida desregrada, à Índia, mas nunca chegou ao destino. Pára na ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganha posse da herança do pai. Por dois anos vive entre drogas e álcool na companhia de Jeanne Duval. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário.

Em 1857 é lançado As flores do mal contendo 100 poemas. O autor do livro é acusado, no mesmo ano, pela justiça, de ultrajar a moral pública. Os exemplares são apreendidos, pagando de multa o escritor 300 francos e a editora 100 francos.

Essa censura se deveu a apenas seis poemas do livro. Baudelaire aceita a sentença e escreve seis novos poemas, "mais belos que os suprimidos", segundo ele.

Mesmo depois disso, Baudelaire tenta ingressar na Academia Francesa. Há divergência, entre os estudiosos, sobre a principal razão pela qual Baudelaire tentou isso. Uns dizem que foi para se reabilitar aos olhos da mãe (que dessa forma lhe daria mais dinheiro), e outros dizem que ele queria se reabilitar com o público em geral, que via suas obras com maus olhos em função das duras críticas que ele recebia da burguesia.

Morreu prematuramente sem sequer conhecer a fama, em 1867, em Paris, e seu corpo está sepultado no Cemitério do Montparnasse, em Paris.



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Leia também:

Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa: I - O Estrangeiro



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NOTAS

(3) Fêmea do silfo, gênio do ar na mitologia céltica e germânica da Idade Média. 

(4) François-René de CHATEAUBRIAND (1768-1848), ilustre escritor francês, autor de numerosas obras, entre as quais se encontra o romance René (1805), no qual o próprio escritor aparece com o nome do seu herói. René ficou sendo o tipo das almas melancólicas que se perdem no sentimento vago do infinito e na aversão à realidade. 

(5) Monstro com três cabeças, cujo corpo, meio cabra meio leão, tinha cauda de dragão e vomitava chamas pela boca. Foi morto por Belerofonte, herói mitológico.





quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Stendhal - O Vermelho e o Negro: Uma pequena cidade

Stendhal - O Vermelho e o Negro



Livro I

A verdade, a áspera verdade. 
Danton 


Capítulo I

UMA PEQUENA CIDADE

Put thousands together 
Less bad, 
But the cage less gay. 
HOBBES



A PEQUENA CIDADE DE Verrières pode ser considerada uma das mais belas do Franco Condado. Suas casas brancas com tetos pontiagudos de telhas vermelhas esten​dem-se pela encosta de uma colina, cujas menores sinuosidades são marcadas por tufos de vigorosos cas​tanhei​ros. O Doubs corre a algumas centenas de pés abaixo de suas fortificações, construídas outrora pelos espanhóis e hoje arruinadas. 

Verrières está protegida, do lado norte, por uma alta montanha, um dos braços do Jura. Os cimos entre​cortados do Verra cobrem-se de neve desde os primeiros frios de outubro. Uma torrente, que se precipita da montanha, atravessa Verrières antes de lançar-se no Doubs, fazendo acio​nar um grande número de serrarias; é uma indústria bastante simples e que proporciona um certo bem-estar à maioria dos habitantes, mais aldeões que burgueses. Contudo, não foram as serrarias que enriqueceram essa pequena cidade. É à fábrica de tecidos pintados, ditos de Mulhouse, que se deve a abastança geral que, desde a queda de Napoleão, fez reconstruir as fachadas de quase todas as casas de Verrières. 

Logo que se entra na cidade, fica-se aturdido com o fragor de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, que se abatem com um ruído que faz tremer o chão, são erguidos por uma roda mo​vida pela água da torrente. Cada um desses martelos fabrica, todo dia, não sei quantos milhares de pregos. São mulheres jovens e bonitas que apresentam aos golpes desses martelos enormes os pedacinhos de ferro que são rapidamente transformados em pregos. Esse trabalho, aparentemente tão rude, é um dos que mais espantam o viajante que penetra pela primeira vez nas montanhas que separam a França da Helvécia. Se, ao entrar em Verrières, o via​jante perguntar a quem pertence essa bela fábrica de pregos que ensurdece as pessoas que sobem a rua principal, responder-lhe-ão com um sotaque arrastado: Ah! É do sr. Prefeito. 

Mesmo se o viajante se detiver só alguns instantes nessa rua principal de Verrières, que sobe da margem do Doubs até o topo da colina, pode-se apostar cem contra um que ele verá surgir um homem alto com ar atarefado e importante. 

À sua vista todos os chapéus se erguem rapidamente. Seus cabelos são acinzentados, e ele se veste de cinza. É cavaleiro de várias ordens, tem uma testa alta, um nariz aquilino, e o conjunto de sua fisionomia não carece de uma certa regularidade: julga-se mesmo, à primeira vista, que ela reúne à dignidade do prefeito de aldeia aquela espécie de charme que ainda se pode possuir aos quarenta e oito ou cinquenta anos. Mas o viajante parisiense logo depara com um certo ar de contentamento de si e de sufi​ciên​cia mesclado a um não sei quê de limitado e pouco inventivo. Percebe-se, enfim, que o talento desse homem limita-se a fazer-se pagar com toda a exatidão o que lhe devem e a pagar o mais tarde possível o que ele próprio deve. 

Tal é o prefeito de Verrières, sr. de Rênal. Depois de ter atravessado a rua com um passo grave, ele entra na prefeitura e desaparece dos olhos do viajante. Mas, cem passos acima, se continuar seu passeio, este avistará uma casa de aparência bastante bela e, através de uma grade de ferro contígua à casa, jardins magníficos. Para além, há uma linha de horizonte formada pelas colinas da Borgonha e que parece feita de propósito para o prazer dos olhos. Essa vista faz o viajante esquecer a atmosfera empestada dos pequenos interesses de dinheiro que começa a asfixiá-lo. 

Informam-lhe que essa casa pertence ao sr. de Rênal. É aos lucros que obteve com sua grande fábrica de pregos que o prefeito de Verrières deve essa bela habitação em pedra de cantaria, cuja construção está atualmente no final. Sua família, dizem, é espanhola, antiga e, ao que afirmam, estabelecida no país bem antes da conquista de Luís XIV . 

Desde 1815, ele envergonha-se de ser industrial: 1815 o fez prefeito de Verrières. Os muros de terraço que sustêm as diversas partes desse magnífico jardim que, de plano em plano, descem até o Doubs, são também a recompensa da competência do sr. de Rênal no comércio do ferro. 

Não espereis encontrar na França esses jardins pitorescos que cercam as cidades manufatureiras da Alemanha, Leipzig, Frankfurt, Nuremberg etc. No Franco-Condado, quanto mais muros se constroem, quanto mais guarnecidas as propriedades de pedras enfileiradas umas sobre as outras, tanto mais se adquire o direito ao respeito dos vizinhos. Os jardins do sr. de Rênal, repletos de muros, são também admirados porque ele comprou, a peso de ouro, alguns trechos de terreno que eles ocupam. Por exemplo, aquela serraria, cuja posição singular vos impressionou ao entrar em Verrières, e na qual notastes o nome SOREL, escrito em caracteres gigantescos numa tábua que domina o telhado, ela ocupava, há seis anos, o espaço sobre o qual se eleva neste momento o muro do quarto terraço dos jardins do sr. de Rênal. 

Apesar de seu orgulho, o sr. prefeito precisou empreen​der muitos esforços junto ao velho Sorel, aldeão duro e teimoso; precisou pagar-lhe muitos luíses de ouro para fazê-lo transferir sua oficina para outra parte. Quanto ao riacho público que fazia acionar a serraria, o sr. de Rênal, graças ao crédito de que goza em Paris, conseguiu que ele fosse desvia​do. Esse favor veio-lhe depois das eleições de 182*. 

Ele deu a Sorel quatro alqueires em troca de um, quinhentos passos mais abaixo, nas margens do Doubs. E, embora essa posição fosse bem mais vantajosa para o seu comércio de tábuas de pinho, o sr. Sorel, como lhe chamam desde que enriqueceu, descobriu o segredo de obter da impaciência e da mania de proprietário, que animava seu vizinho, uma soma de 6.000 francos. 

É verdade que esse arranjo foi criticado pelos homens sensatos da localidade. Certa vez, num domingo, há quatro anos, o sr. de Rênal, ao voltar da igreja em traje de prefeito, viu de longe o velho Sorel, cercado dos três filhos, olhando-o com um sorriso. Esse sorriso foi uma revelação fatal para a alma do sr. prefeito, que desde então acha que poderia ter feito o negócio a um melhor preço. 

Para obter a consideração pública em Verrières, o essencial é não adotar, embora construindo muitos muros, nenhum plano trazido da Itália por esses pedreiros que, na primavera, atravessam as gargantas do Jura para chegar a Paris. Tal inovação valeria ao imprudente construtor uma eterna reputação de degenerado, e ele estaria para sempre perdido junto às pessoas sensatas e moderadas que distribuem a consideração no Franco-Condado. 

De fato, essas pessoas sensatas exercem ali o mais maçante despotismo; é por causa desse nome feio que a estadia nas pequenas cidades é insuportável para quem viveu na grande república chamada Paris. A tirania da opinião – e que opinião! – é tão estúpida nas pequenas cidades da França quanto nos Estados Unidos da América.



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ADVERTÊNCIA DO EDITOR
Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.


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Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.

Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.

Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.

"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.

Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.

Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.

Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.

Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.



O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.

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