sexta-feira, 31 de março de 2023

Lima Barreto - O Triste fim de Policarpo Quaresma: 3ª Parte III (b) - ... E Tornaram Logo Silenciosos...

 O triste fim de Policarpo Quaresma 



Lima Barreto


A João Luiz Ferreira 
Engenheiro Civil 

Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la routine vulgaire. 

Renan, Marc-Auréle 


TERCEIRA PARTE


III - ... E Tornaram Logo Silenciosos...


continuando...

No pátio, o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos: ombroôô... armas! mei-ããã volta... volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da antiga estalagem.
Bustamente estava no seu cubículo, mais conhecido por gabinete, irrepreensível no seu uniforme verde-garrafa, alamares dourados e vivos azul-ferrete. Com auxílio de um sargento, examinava a escrita de um livro quarteleiro.

- Tinta vermelha, sargento! É como mandam as instruções de 1864.

Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
Logo que viu Quaresma entrar, o comandante exclamou radiante:

- O major adivinhou!

Quaresma descansou placidamente o chapéu, bebeu um pouco d’água, e o Coronel Inocêncio explicou a alegria:

- Sabe que temos de marchar?

- Para onde?

- Não sei... Recebi ordem do Itamarati.

Ele não dizia nunca do quartel-general, nem mesmo do ministro da Guerra; era do Itamarati; do Presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma espécie de batalhão da guarda, favorito e amado do ditador. Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a infantaria.

- O major é que vai comandar o corpo, sabia?

- Não, coronel. E o senhor não vai?

- Não, disse Bustamante, alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...

Começava a tarde, quando Quaresma saiu do quartel. O instrutor coxo continuava, com força, majestade e demora, a gritar: om-brôôô... armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu o major quando já ia longe. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação definitiva da República.
Antes de chegar ao correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.
Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Niterói? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.
O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general. Ele levava a íntima convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco atenuada, o seu organismo caía.
Estava magra e fraca, a ponto de quase não poder sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ela vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois as exigências de sua mocidade levavam-nas para outros lados.
Dona Maricota, tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolá-la, animá-la e, às vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade.
A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia, tinha-lhe diminuído a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos, com reflexos de ouro, mais belos se faziam quando cercavam a palidez de sua face.
Raro era falar muito; e assim foi que, naquele dia, se espantou muito Dona Maricota com a loquacidade da filha.

- Mamãe, quando se casa Lalá?

- Quando se acabar a revolta.

- A revolta ainda não acabou?

A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada, olhando o teto, e, após essa contemplação disse à mãe:

- Mamãe... Eu vou morrer...

As palavras saíram-lhe dos lábios, seguras, doce e naturais.

- Não diga isso, minha filha, adiantou-se Dona Maricota. Qual morrer! Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...

A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se se tratasse de uma criança. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente:

- Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora...

A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta semicerrada e levantou-se para fechá-la. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento; Ismêndia, porém, continuava a repeti-lo pacientemente, docemente, serenamente:

- Eu sei, mamãe.

- Bem. Suponho que é verdade: o que é que você quer?

- Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.

Dona Maricota ainda quis brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, pôs-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, comovida, com lágrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha falava a verdade.
Não tardou muito a se verificar. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta vez; ela parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se à cama e conversava com prazer.
Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. Elas foram lá ao quarto várias vezes e parecia dormir. Distraíram-se.
Ismênia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vê-lo mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo.
Chegou-lhe o desejo de vesti-lo. Pôs a saia; e, por aí, vieram recordações do seu casamento falhado.
Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com ódio, antes como se fosse um lugar visto há muito tempo, e que a tivesse impressionado.
De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. Iludindo sua mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta! Aquilo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho, pois não encontrara colete; e foi ao espelho. Viu os seu ombros nus, o seu colo muito branco...Surpreendeu-se. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueza, uma cousa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora... Quando a vieram ver, estava morta. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.
O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia, como nos dias de suas melhores festas.
Quaresma foi ao enterro; ele não gostava muito dessa cerimônia; mas veio, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar imaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era ela mesma ali; era a Ismênida dolente e pobre de nervos, com os seus traços miúdos e os seus lindos cabelos, que estava dentro daquelas quatro tábuas. A morte tinha fixado a sua pequena beleza e o seu aspecto pueril; e ela ia para a cova com a insignificância, com a inocência e a falta de acento próprio que tinha tido em vida.
Contemplando aqueles tristes restos, Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério, atravessar pelas ruas de túmulos - uma multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e se queriam aproximar; em outras, transparecia repugnância por estarem perto. Havia ali, naquele mudo laboratório de decomposições, solicitações incompreensíveis, repulsões, simpatias e antipatias; havia túmulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muito, ressumava o esforço, um esforço extraordinário, para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as esculturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscrições, em alguns túmulos; noutros, eram pirâmides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, cousas barrocas e delirantes, para fugir ao anonimato do túmulo, ao fim dos fins.
As inscrições exuberam: são longas, são breves; têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que, lá embaixo, não se pode mais conhecer e é lama pútrida.
E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem décadas e, às vezes, mesmo já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é desconhecido; todos aqueles que querem fugir do túmulo para a memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser notadas.
E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!
Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Ele estivera na sala de visitas, onde Dona Maricota também estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulu, fardado do colégio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o general silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.
Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o almirante dizer:

- Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O governo está exausto.

O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquilo, sereno e calmo.
A Estefânia, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já secos, a quem aquela dizia:

- Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro.

O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. Tinha uma tranquilidade quase indiferente. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. Todo de preto, ele tinha afivelado ao rosto a mais profunda máscara de tristeza. O seu pince-nez azulado também parecia de luto.
Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar; um serviço urgente fizera-o indispensável na repartição.

- É isto, general, disse ele, não está lá o Doutor Genelício, nada se faz... Não há meio da Marinha mandar os processos certos... É um relaxamento...

O general não respondeu; estava deveras combalido. Bustamente e Caldas continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota chegou à sala de jantar.

- Papai, está aí o coche.

O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou à mulher que se ergueu com a face contraída, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. Não deu um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao redor do caixão. A mãe levantou-se, veio até ao esquife, beijou o cadáver: minha filha!
Quaresma adiantou-se, foi saindo com o chapéu na mão. No corredor, ainda ouviu Estefânia dizer a alguém: o coche é bonito.
Saiu. Na rua parecia que havia festa. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram aparecendo e sendo penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”, “À minha irmã”. As fitas roxas e pretas, com letras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.
Apareceu o caixão, todo roxo, com guarnições de galões dourados, muito brilhantes. Tudo aquilo ia pra terra. As janelas se povoaram, de um lado e doutro da rua; um menino na casa próxima gritou da rua para o interior: “Mamãe, lá vai o enterro da moça!”
O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário, cujos cavalos, ruços, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciência.
Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.
A esse tempo, na vizinhança, alguns pombos imaculadamente brancos, as aves de Vênus, ergueram o voo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quase sem bater asas, para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses...

continua na página 91...
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Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 1881, sete anos antes da assinatura da Lei Áurea. Trabalhando como jornalista, valeu-se de uma linguagem objetiva e informal, mais tarde valorizada por seus contemporâneos e pelos modernistas, para relatar o cotidiano dos bairros pobres do Rio de Janeiro como poucos…

Definida pelo próprio autor como “militante”, sua produção literária está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais. Em muitas obras, como no seu célebre romance Triste Fim de Policarpo Quaresma e no conto O Homem que Sabia Javanês, o método escolhido por Lima Barreto para tratar desse tema é o da sátira, cheia de ironia, humor e sarcasmo.

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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional 
Departamento Nacional do Livro
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O Triste fim de Policarpo Quaresma: 3ª Parte II (a) - Você, Quaresma, É um Visionário
O Triste fim de Policarpo Quaresma: 3ª Parte III (b) - ... E Tornaram Logo Silenciosos...

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXVIII - Rosa

Cruz e Sousa


Obra Completa
Volume 1
POESIA


O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos


DISPERSAS 



ROSA
a A. Moreira de Vasconcelos
Et, rose, elle a vécu ce que vivent les roses,
l’espace d’un matin.
(Malherbe)

Rosa – chamava-se a estrela
Daquelas flóreas paragens;
Era escutá-la e era vê-la
Metida em brancas roupagens

Todas de pregas e tufos,
De laçarotes e rendas,
Ou mesmo ouvir-lhe os arrufos
Ou surpreender-lhe as contendas

Nas lindas tardes radiadas
Por cores de silforamas
E sentir logo, inspiradas
Do amor, as férvidas chamas.

Ela era um beijo fundido
Ao cintilar de uma aurora,
Um sonho eterno espargido
Nos belos sonhos de Flora.

E tinha uns longes sublimes
De grande força lasciva,
A transudar, como uns crimes
Do sangue, da carne altiva.

Contava tudo... mas tanto,
Em turbilhões, em cascata,
Que recordava esse canto
Uma garganta de prata.

E quando os poetas, rapazes,
A viam passar, vibrante,
Mostrando as curvas audazes,
Do corpo todo radiante,

Diziam de entre os primores
De estrofes mais dulçurosas:
– Tu és a gêmea das flores,
Das rosas, perfeitas rosas.

Convulsionado e sem regra
O coração nos palpita;
Andas alegre e se alegra
A gente quando te fita.

Tens umas coisas estranhas
Nas refrações da pureza...
Umas finuras tamanhas...
Uma sutil gentileza...

Ficas rosada se um tico
Alguém te diz, de mais franco...
Mas como fica tão rico,
Tão belo o rubro no branco,

Nesse grácil e tão claro,
Sereno e cândido rosto
Que é mesmo um céu puro e raro
Das alvoradas de agosto.

Depressa cobre-te o pejo
A face nova e adorada,
De sorte que sem desejo
És – Rosa e ficas rosada.

Dos risos colhes a messe
E és doce como o conforto,
És casta como uma prece
Gemida ao lado de um morto.

Para que a dor não te obumbre
A glória de flores junca
Tua vida e, por isso, nunca
Nas mágoas terás vislumbre.

Permita o bom sol que inunda
De luz os bosques – permita
Que sejas sempre fecunda
De gozo e sempre bonita.

........................................

Agora, quando alguém passa
Por onde a estrela morava,
Olhando pela vidraça
Bem junto da qual bordava,

Repara um silêncio triste
Na sala – em crepes envolta,
Onde parece que existe
Profunda lágrima solta.

E sente por dentro d’alma
Aquela angústia que esmaga
Bem como em noites sem calma
A vaga esmaga outra vaga.

Apenas as flores lindas
Que vendo Rosa morriam
Com brejeirices infindas
De invejas que renasciam,

Sem mais inúteis ciúmes,
Abrem os frescos pistilos,
Jogando aos céus, em perfumes,
Os seus melhores sigilos.

.............................................

No entanto à luz soberana
Do amor desfilam as rimas
Dos poetas – como um hosana
A quem já goza outros climas.

Rosa – chama-se a estrela
Daquelas flóreas paragens;
Era escutá-la e era vê-la
Metida em brancas roupagens,

Para exclamar: – Dentro dela
Existe a fibra gloriosa...
Ninguém viu coisa mais bela
Nem Rosa... tão bela rosa!...
[Do Cirrus e Nimbus]


continua pág. 229...

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Leia também:
Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXVIII - Rosa 
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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.
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Organização e Estudo
Lauro Junkes
Presidente da Academia Catarinense de Letras
© Copyright 2008
Avenida Gráfica e Editora Ltda.

Projeto Gráfico, Editoração e Capa
ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA.
www.espacoecriacao.com.br
Fone/Fax: (48) 3028.7799

Revisão Linguístico-Ortográfica
PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES
PROF. Dr. LAURO JUNKES

Impressão e Acabamento
Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Formato
14 x 21cm

FICHA CATALOGRÁFICA

Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o      Sousa, Cruz e, 1861-1898
                        Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
                  e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
                         v. 1 (612 p.)
                         Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
                  traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
                            1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
                  Junkes, Lauro. II. Titulo.
                                                                                      CDU: 869.0(816.4)-1

"A gente só tem saída na poesia."

Sarau... Depois de horas - (Julio Cortázar)

Curtíssima-metragem


Julio Cortázar
(1914-1984)


Não tinha mais nenhum motivo especial para lembrar de tudo aquilo, e embora gostasse de escrever por temporadas e alguns amigos aprovassem meus versos ou minhas histórias, às vezes me acontecia de me perguntar se aquelas memórias de infância mereciam ser escritas se não nasceram. da tendência ingênua de acreditar que as coisas tinham sido mais verdadeiras quando eu as colocava em palavras para consertá-las do meu jeito, de tê-las ali como as gravatas no armário ou o corpo de Felisa à noite, algo que não poderia ser experimentado novamente, mas que se fez mais presente como se uma terceira dimensão se abrisse na mera memória, uma contiguidade quase sempre amarga mas muito desejada. Eu nunca soube bem por quê, mas repetidamente ele voltava a coisas que outros aprenderam a esquecer para não se arrastar pela vida com tanto tempo nas costas.

Éramos tão inseparáveis ​​naquela época na sexta série, quando tínhamos doze ou treze anos, que eu não conseguia me sentir escrevendo separadamente sobre Doro, me aceitando fora da página e escrevendo sobre Doro. Vê-lo era me ver ao mesmo tempo como Hannibal com Doro, e eu não seria capaz de me lembrar de nada sobre Doro se ao mesmo tempo não tivesse sentido que Hannibal também estava lá naquele momento, que foi Hannibal quem chutou aquela bola que quebrou uma janela na casa de Doro numa tarde de verão, o susto e a vontade de esconder ou negar, o aparecimento de Sara tratando-os como bandidos e mandando-os brincar no paddock da esquina. E com tudo isso veio também o Banfield, claro, porque tudo aconteceu lá,

Uma cidade, Bánfield, com suas ruas de terra e a estação South Railway, seus terrenos baldios que no verão ferviam com lagostas multicoloridas na hora da sesta, e que à noite se agachavam medrosos em torno dos poucos postes de luz nas esquinas, com ocasionais baforadas de guardas a cavalo e o halo vertiginoso de insetos voadores ao redor de cada lanterna. Tão perto das casas de Doro e Aníbal que a rua era para eles mais um corredor, algo que os mantinha juntos dia ou noite, no pasto jogando futebol em plena sesta ou sob a luz do poste de rua. como os sapos e as rãs faziam roda para comer os insetos bêbados de circular em torno da luz amarela. E o verão, sempre, o verão das férias, a liberdade dos jogos, o tempo só deles,

Restavam-lhe poucas imagens de Sara, mas cada uma se destacava como um vitral na hora do sol mais alto, com os azuis e os vermelhos e os verdes penetrando no espaço até feri-la, às vezes Aníbal via-lhe os cabelos louros, sobretudo, caindo sobre seus ombros como uma carícia que ele gostaria de sentir em seu rosto, às vezes sua pele tão branca porque Sara quase nunca saía ao sol, absorta nos afazeres domésticos, sua mãe doente e Doro que voltava todas as tardes com roupas sujas , mãos machucadas, joelhos, sapatos enlameados. Ela nunca soube a idade de Sara naquela época, apenas que ela já era uma mocinha, uma jovem mãe de seu irmão que ficava mais criança quando falava com ele, quando passava a mão na cabeça dele antes de mandá-lo comprar alguma coisa. ou pedindo a alguém que compre alguma coisa, os dois para não gritarem tanto no pátio. Aníbal cumprimentou-a timidamente, dando-lhe a mão, e Sara gentilmente apertou-a, mal olhando para ele, mas aceitando-o como aquela outra metade de Doro que vinha quase todos os dias a casa para ler ou brincar. Às cinco chamava-os para lhes servir café com leite e biscoitos, sempre na mesinha do pátio ou no quarto escuro; Aníbal só tinha visto a mãe de Doro duas ou três vezes, docemente da sua cadeira de rodas dizia olá pessoal, cuidado com os carros, embora houvesse tão poucos carros em Bánfield e sorrissem seguros das suas esquivas na rua, da sua invulnerabilidade do futebol jogadores e corredores. Doro nunca falava da mãe, quase sempre na cama ou a ouvir rádio na sala, a casa era o pátio e Sara, por vezes algum tio visitante que lhes perguntava o que tinham estudado na escola e dava-lhes cinquenta cêntimos.

Foi durante uma quinzena de bronquite que Aníbal começou a sentir a ausência de Sara, quando Doro vinha visitá-lo perguntava por ela e Doro respondia distraidamente que ela estava bem, a única coisa que lhe interessava era se iam ficar poder brincar de novo na rua. Aníbal teria querido saber mais sobre Sara mas não se atreveu a perguntar muito, Doro teria achado uma estupidez dela preocupar-se com alguém que não jogava como eles, que estava tão longe de tudo o que faziam e pensavam . Quando conseguiu regressar a casa de Doro, ainda um pouco fraca, Sara apertou-lhe a mão e perguntou-lhe como estava, não precisava de jogar à bola para não se cansar, era melhor se empatassem ou leia na sala de estar; sua voz era profunda, falava como sempre falava com Doro, carinhosamente mas distante, a irmã mais velha atenta e quase severa. Antes de adormecer naquela noite, Aníbal sentiu que algo lhe subia aos olhos, que a almofada se transformava em Sara, uma necessidade de a ter nos braços e chorar com o rosto colado a Sara, aos cabelos de Sara, querendo que ela estivesse ali. e trouxe-lhe os remédios e olhou para o termômetro ao pé da cama. Quando a mãe vinha de manhã esfregar-lhe o peito com algo que cheirava a álcool e mentol, Aníbal fechava os olhos e era a mão de Sara a levantar-lhe a camisola, acariciando-a de leve, curando-a.

Era verão de novo, o pátio da casa de Doro, as férias com romances e figurinhas, com coleção de selos e coleção de jogadores de futebol colados em álbum. Naquela tarde eles estavam conversando sobre calças compridas, não demoraria muito para colocá-las, quem iria entrar no colégio com shorts. Sara chamou-os para um café com leite e pareceu a Aníbal que tinha ouvido o que diziam e que havia um traço de sorriso na sua boca, talvez se divertisse ao ouvi-los falar destas coisas e zombasse um pouco deles . Doro tinha dito a ela que ela já tinha namorado, um homem grande que a visitava aos sábados, mas ainda não tinha visto. Aníbal o imaginou como alguém que trazia chocolates para Sara e conversava com ela na sala, assim como o namorado de sua prima Lola, Em poucos dias curou-se da bronquite e voltou a brincar no pasto com Doro e os outros amigos. Mas à noite era triste e ao mesmo tempo tão bonito, sozinho em seu quarto antes de dormir ele dizia a si mesmo que Sara não estava, que ela nunca entraria para vê-lo, doente ou saudável, justamente àquela hora em que sentiu-a tão perto, olhou-a com os olhos fechados sem a voz de Doro nem os gritos dos outros rapazes se misturarem com aquela presença de Sara sozinha ali para ele, ao lado dele, e o choro voltou como vontade de se entregar, ser Doro nas mãos de Sara, o cabelo de Sara roçando sua testa e sua voz dizendo boa noite, Sara puxando o lençol para ela antes de sair.

Ele foi encorajado a perguntar de passagem a Doro quem cuidou dele quando ele estava doente, porque Doro teve uma infecção intestinal e passou cinco dias de cama. Perguntou como se fosse natural que Doro lhe contasse que sua mãe havia cuidado dele, sabendo que não podia ser e que depois Sara, os remédios e as outras coisas. Doro respondeu que a irmã fazia tudo por ela, mudou de assunto e começou a falar de cinema. Mas Aníbal queria saber mais, se Sara cuidou dele desde criança, e claro que ela cuidou dele porque a mãe dele estava quase inválida há oito anos e Sara cuidou dos dois. Mas então, ela te deu banho quando você era pequeno? Claro, por que você está me perguntando essas bobagens? Por nada, só para saber, deve ser tão estranho ter uma irmã mais velha dando banho em você. Não há nada de estranho nisso, che. E quando você ficou doente quando menino, ela cuidou de você e fez tudo por você? Sim, claro. E você não teve vergonha de sua irmã ter te visto e feito tudo com você? Não, que embaraço eu ia ser, eu era um menino então. E agora? Bem, agora o mesmo, por que eu deveria ficar envergonhado quando estou doente?

Por que, claro. Na hora em que, fechando os olhos, imaginava Sara entrando em seu quarto à noite, aproximando-se de sua cama, era como uma vontade que ela perguntasse como ela estava, colocasse a mão na testa e então abaixasse os lençóis para vê-la. rosto, ferimento na panturrilha, ele vai trocar o curativo, tratando-o de bobo por ter se cortado com vidro. Ele a sentiu levantar sua camisola e olhar para ele nu, tocar sua barriga para ver se estava inchada, cobrir novamente para que ele dormisse. Abraçando o travesseiro de repente ele se sentiu tão sozinho, e quando abriu os olhos no quarto já vazio de Sara foi como uma maré de tristeza e alegria porque ninguém, ninguém poderia saber de seu amor, nem mesmo Sara, ninguém poderia entender isso pena e aquela vontade de morrer por Sara, de salvá-la de um tigre ou de um incêndio e morrer por ela, e que ela iria agradecê-lo e beijá-lo chorando. E quando suas mãos baixaram e ele começou a se acariciar como Doro, como todos os meninos, Sara não entrava em suas imagens, ela era filha do merceeiro ou prima Yolanda, isso não podia acontecer com Sara que vinha cuidar dele à noite como ela cuidava dele à noite. Doro, com ela não havia nada mais do que aquela delícia de imaginá-la debruçada sobre ele e acariciá-lo e o amor era isso, embora Aníbal já soubesse o que poderia ser o amor e o imaginasse com Yolanda, tudo ele faria com Yolanda ou com a garota do depósito.

O dia da vala foi quase no final do verão, depois de brincar no pasto se separaram da barra e por um caminho que só eles conheciam e que chamavam de caminho Sandokan se perderam no mato espinhoso onde haviam uma vez encontrou um cachorro enforcado em uma árvore e fugiu assustado. Coçando as mãos, avançaram até ao mais espesso, enterrando o rosto nos ramos pendentes dos salgueiros até chegarem à beira do fosso de água turva onde sempre esperaram pescar peixinhos e nunca apanharam nada. Gostavam de sentar na beirada e fumar os cigarros que Doro fazia com palha de milho, conversando sobre os romances de Salgari e planejando viagens e coisas assim. Mas nesse dia não tiveram sorte, o sapato do Aníbal prendeu-se numa raiz e ele avançou,

Voltaram quase sem falar e entraram na casa de Doro no fundo do jardim, esperando que não houvesse ninguém no pátio e pudessem se lavar escondidos. Sara estava pendurando roupas perto do galinheiro e os viu chegando, Doro como se estivesse com medo e Aníbal atrás, morrendo de vergonha e querendo muito morrer, estando a mil léguas de Sara naquele momento em que ela os olhava com os lábios comprimidos, em um silêncio que os achava ridículos e confusos sob o sol do pátio.

"Foi a única coisa que faltou", disse apenas Sara, dirigindo-se a Doro mas assim para Aníbal, gaguejando as primeiras palavras de uma confissão, a culpa foi dele, um sapato prendeu-se nele e depois, Doro não teve culpa de o que tinha acontecido no passado era que tudo era tão desleixado.

"Vá tomar um banho agora", disse Sara como se não tivesse ouvido. Tire os sapatos antes de entrar e depois lave a roupa na pia do galinheiro.

No banheiro eles se olharam e Doro foi o primeiro a rir mas foi um riso sem convicção, eles se despiram e abriram o chuveiro, debaixo d'água podiam começar a rir pra valer, brigando pelo sabonete, se olhando de cima e para baixo e fazendo cócegas um no outro. Um rio de lama escorria pelo ralo e aos poucos se diluía, o sabão começava a fazer espuma, eles se divertiam tanto que a princípio não perceberam que a porta havia se aberto e que Sara estava ali olhando para eles, se aproximando deles. Rezo para tirar o sabonete de sua mão e esfregá-lo em suas costas ainda enlameadas. Aníbal não sabia o que fazer, parado na banheira, pôs as mãos na barriga, depois virou-se de repente para que Sara não o visse e foi ainda pior, três quartos e com a água a escorrer-lhe pelo rosto , mudando de lado e voltando

Naquela noite ele não podia ver Sara como nas outras noites, embora fechasse as pálpebras, tudo o que podia ver era Doro e ele na banheira, Sara se aproximando deles para inspecioná-los de cima a baixo e depois saindo do banheiro com o roupas sujas em seus braços. generosamente indo ela mesma para a pia para lavar suas coisas e gritando para eles se enrolarem nas toalhas de banho até que tudo estivesse seco, dando-lhes o café com leite sem dizer nada, nem zangado nem gentil, arrumando a tábua de passar sob as glicínias e aos poucos secando as calças e as camisas. Como ele não pôde dizer algo para ela no final quando ela ordenou que eles se vestissem, apenas agradeça, Sara, como ela é boa, muito obrigado, Sara. Ele não foi capaz de dizer isso e nem Doro,

Deve ter sido nas últimas férias antes de entrar na escola nacional, sem Doro porque Doro iria para a escola normal, mas os dois haviam prometido continuar se vendo todos os dias mesmo que fossem para escolas diferentes, o que importava se em à tarde continuariam brincando como sempre, sem saber que não, que algum dia de fevereiro ou março jogariam pela última vez no pátio da casa de Doro porque a família de Aníbal estava de mudança para Buenos Aires e eles só poderiam se ver em fins de semana, amargos de raiva por uma mudança que não queriam admitir, por causa de uma separação que os grandes lhes impunham como tantas coisas, sem se preocupar com eles, sem consultá-los.

De repente tudo passou rápido, ele mudou como eles com as primeiras calças compridas, quando Doro lhe disse que Sara ia casar no início de março, ele disse isso como algo sem importância e Aníbal nem comentou, dias se passaram antes que ele se atrevesse a pergunte ao Doro se a Sara ia continuar morando com ele depois de casada, mas você é um idiota, como eles vão ficar aqui, o cara tem muito dinheiro e vai levar para Buenos Aires, ele tem outra casa em Tandil e vou ficar com minha mãe e tia Faustina que vai cuidar dela.

Nesse último sábado de férias, viu o namorado chegar de carro, viu-o vestido de azul e gordo, de óculos, a descer do carro com um pacotinho de massa e um ramo de lírios. Em casa ligaram para ele começar a arrumar as coisas, a mudança era na segunda e ele ainda não tinha feito nada. Ele queria ir para a casa de Doro sem saber por quê, apenas para estar lá, mas sua mãe o obrigou a empacotar seus livros, o globo, as coleções de bichos. Disseram-lhe que teria um quarto grande só para ele com vista para a rua, disseram-lhe que poderia ir para a escola a pé. Tudo era novo, tudo ia começar diferente, tudo rodava devagar, e agora Sara estaria sentada na sala com o gordo de fato azul, a tomar chá com a massa que ele trouxera, tão longe do pátio, tão longe do ouro e ele

No primeiro fim de semana em Buenos Aires (é verdade, tinha um quarto grande só para ele, o bairro era cheio de lojas, havia um cinema a dois quarteirões dali), pegou o trem e voltou a Bánfield para ver Doro. Conheceu tia Faustina, que não lhes deu nada quando terminaram de brincar no quintal, foram passear pelo bairro e Aníbal demorou a perguntar por Sara. Bem, ela havia se casado no civil e eles já estavam na casa de Tandil para a lua de mel, Sara viria quinzenalmente para ver sua mãe. E você não sente falta dela? Sim, mas o que você quer? Claro, ela está casada agora. O Doro distraía-se, começava a mudar de assunto e o Aníbal não encontrava forma de ele continuar a falar-lhe da Sara, talvez a pedir-lhe que lhe contasse do casamento e o Doro a rir, sei lá, deve ter foi como sempre, Dos civis eles foram para o hotel e aí chegou a noite de núpcias, eles foram para a cama e depois o cara. Aníbal escutou olhando os portões e as varandas, não queria que Doro visse seu rosto e Doro percebeu, com certeza você não sabe o que acontece na sua noite de núpcias. Não me diga, claro que sei. Você sabe, mas a primeira vez é diferente, me disse Ramírez, seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, disse a ele, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar. eles se deitaram e depois o cara. Aníbal escutou olhando os portões e as varandas, não queria que Doro visse seu rosto e Doro percebeu, com certeza você não sabe o que acontece na sua noite de núpcias. Não me diga, claro que sei. Você sabe, mas a primeira vez é diferente, me disse Ramírez, seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, disse a ele, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar. eles se deitaram e depois o cara. Aníbal escutou olhando os portões e as varandas, não queria que Doro visse seu rosto e Doro percebeu, com certeza você não sabe o que acontece na sua noite de núpcias. Não me diga, claro que sei. Você sabe, mas a primeira vez é diferente, me disse Ramírez, seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, disse a ele, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar. ele não queria que Doro visse seu rosto e Doro percebeu, certamente você não sabe o que acontece em sua noite de núpcias. Não me diga, claro que sei. Você sabe, mas a primeira vez é diferente, me disse Ramírez, seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, disse a ele, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar. ele não queria que Doro visse seu rosto e Doro percebeu, certamente você não sabe o que acontece em sua noite de núpcias. Não me diga, claro que sei. Você sabe, mas a primeira vez é diferente, me disse Ramírez, seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, disse a ele, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar. Ele foi informado por seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar. Ele foi informado por seu irmão que é advogado e se casou no ano passado, ele explicou tudo. Havia um banco vazio na praça, Doro tinha comprado cigarros e ia contando e fumando, Aníbal acenou com a cabeça, engoliu a fumaça que começava a deixá-lo tonto, não precisou fechar os olhos para ver o corpo de Sara que nunca tinha imaginou no fundo da folhagem, como um corpo, ver a noite de núpcias pelas palavras do irmão de Ramírez, pela voz de Doro que não parava de lhe contar.

Naquele dia não se atreveu a pedir o endereço de Sara em Buenos Aires, deixou para outra visita porque estava com medo de Doro naquele momento, mas a outra visita nunca veio, a escola começou e os novos amigos, Buenos Aires engoliu pouco pouco pelo pequeno Aníbal carregado de livros de matemática e tantos cinemas no centro e no campo do Rio e os primeiros passeios noturnos com o Beto, que era um verdadeiro portenho. O mesmo também estaria acontecendo com Doro em La Plata, de vez em quando Aníbal pensava em mandar uma linha para ele porque Doro não tinha telefone, então vinha Beto ou tinha que preparar algum trabalho prático, eram meses, o primeiro ano, férias em Saladillo, de Sara Restava apenas uma imagem isolada, um lampejo de Sara quando algo em María ou Felisa lhe lembrava por um momento Sara.

Nunca mais teve notícias de Doro e não se importou, também havia se esquecido de Beto que ensinava história em alguma cidade do interior, os jogos vinham acontecendo sem surpresa e como todos, Aníbal aceitou sem aceitar, coisa que deve ter sido a vida aceita para ele, um diploma, uma hepatite grave, uma viagem ao Brasil, um projeto importante em um estúdio com dois ou três sócios. Ele estava se despedindo de um deles na porta antes de sair para tomar uma cerveja depois do trabalho quando viu Sara atravessando a rua. De repente lembrou-se que na noite anterior tinha sonhado com a Sara e que era sempre o pátio da casa do Doro ainda que nada acontecesse, embora a Sara só estivesse ali a pendurar roupa ou a chamar para tomar café com leite, e o sonho acabou assim quase sem tendo começado. Talvez porque nada estivesse acontecendo, as imagens eram extremamente precisas sob o sol de verão de Banfield, que no sonho não era igual ao de Buenos Aires; Talvez fosse também por isso ou por falta de coisa melhor que se lembrasse de Sara depois de tantos anos de esquecimento (mas não tinha sido esquecimento, repetiu-o tristemente ao longo do dia), e agora vendo-a descer a rua, vendo-a ali vestida de branco, idêntica a então com os cabelos chicoteando os ombros a cada passo num jogo de luzes douradas, acorrentando-se às imagens do sonho numa continuidade que não a surpreendeu, que tinha algo de necessário e previsível, atravessando a rua e encarando-a, diga quem ele era e que ela olharia para ele surpresa, não o reconheceria e de repente sim, de repente sorriria e estenderia a mão, apertaria mesmo e continuaria sorrindo para ele.

"Que incrível", disse Sara. Como eu iria te reconhecer depois de tantos anos.

"Tens, claro", disse Aníbal. Mas você vê, eu a reconheci imediatamente.

"Lógico", disse Sara logicamente. Se você nem tivesse colocado calças compridas. Eu também terei mudado tanto, o que acontece é que você é um fisionomista melhor.

Ele hesitou por um segundo antes de perceber que era um idiota continuar tratando-a como você.

— Não, você não mudou, nem o penteado. Você é o mesmo

"Fisionomista, mas um pouco míope", disse ela na velha voz em que bondade e zombaria se misturavam.

O sol batia em seus rostos, não dava para falar entre o trânsito e as pessoas. Sara disse que não estava com pressa e gostaria de tomar um drinque em um café. Fumaram o primeiro cigarro, o das perguntas gerais e rodeios, Doro era professor em Adrogué, a mãe morrera como um passarinho enquanto lia o jornal, andava em associação com outros jovens engenheiros, iam bem apesar do crise, claro. No segundo cigarro Aníbal deixou cair a pergunta que lhe queimava os lábios. -E seu marido?

Sara soprou a fumaça pelo nariz, olhou-o lentamente nos olhos. "Bebe", disse.

Não houve amargura nem pena, foi uma simples informação e depois novamente Sara em Banfield antes de tudo isso, antes da distância e do esquecimento e do sonho da noite anterior, exatamente como no pátio da casa de Doro e aceitando-lhe o segundo uísque , como sempre quase sem falar, deixando que ele continuasse, que lhe contasse porque tinha muito mais para lhe contar, os anos tinham sido tão cheios de coisas para ele, ela era como se não tivesse vivido muito e ela não valia a pena dizer por que Talvez porque ele tivesse acabado de dizer isso com uma palavra.

Impossível saber quando tudo deixou de ser difícil, um jogo de perguntas e respostas, Aníbal tinha estendido a mão sobre a toalha e a mão de Sara não se esquivou do seu peso, deixou-a ficar enquanto ele baixava a cabeça porque não conseguia olhar na cara dela, enquanto lhe falava em jorros do pátio, de Doro, contava-lhe as noites no quarto, o termômetro, chorando no travesseiro. Eu disse a ele com uma voz suave e monótona, acumulando momentos e episódios, mas era tudo a mesma coisa, eu me apaixonei tanto por você, eu me apaixonei tanto e não pude te dizer, você veio à noite e cuidou de mim, você foi a jovem mãe que eu não tinha, você tirou minha temperatura e me acariciou para me fazer dormir, você nos deu café com leite no pátio, você se lembra, você nos repreendeu quando nós fez besteira,

"Eu me lembro muito bem", disse Sara. Lembro-me tão bem quanto você, Aníbal.

-Sim, mas não é o mesmo.

"Quem sabe se não é o mesmo." Você não podia perceber então, mas eu sentia que você me amava assim e que isso o fazia sofrer, e por isso eu tinha que tratá-lo da mesma forma que Doro. Você era um menino, mas às vezes eu sentia tanto por você ser um menino, parecia injusto para mim, algo assim. Se você fosse cinco anos mais velho... Vou te contar porque agora posso e porque é justo, naquela tarde fui propositalmente ao banheiro, não precisava ir ver se eles estavam lavando, entrei porque era uma forma de acabar com aquilo, de te curar do seu sonho, de você perceber que nunca poderia me ver assim enquanto eu tivesse o direito de te olhar de todos os lados do jeito você olha para um menino. Por isso, Aníbal, para que te cures de vez e deixes de me olhar como me olhavas, pensando que eu não sabia. E agora outro uísque

Do crepúsculo à noite escura, por caminhos de palavras que iam e vinham, de mãos que se encontravam por um instante na toalha da mesa antes de uma gargalhada e de outros cigarros, restaria uma corrida de táxi, algum lugar que ela ou ele conhecesse, um quarto, tudo como que fundido numa única imagem instantânea que se resolve na brancura dos lençóis e na convulsão quase imediata e furiosa dos corpos num encontro sem fim, nas pausas quebradas e refeitas e violadas e cada vez menos credíveis, em cada nova implosão que ele ceifou, engolfou e queimou até o torpor, até a última brasa dos cigarros da madrugada. Quando apaguei o abajur da escrivaninha e olhei o fundo do copo vazio, tudo ainda era pura negação das nove da noite, do cansaço de mais um dia de trabalho. Por que continuar escrevendo se as palavras já há uma hora deslizavam sobre aquela negação, estendendo-se no papel como o que eram, meros desenhos desprovidos de todo suporte? Até algum momento correram cavalgando a realidade, enchendo-se de sol e verão, palavras pátio de Bánfield, palavras Doro e jogos e fosso, colmeia zumbidora de uma memória fiel. Só que ao chegar a um tempo que não era mais Sara ou Bánfield, a conta se tornara cotidiana, presente utilitário sem lembranças nem sonhos, vida pura sem mais e sem menos. Eu queria continuar e que as palavras também concordassem em continuar até chegarmos ao nosso dia de hoje, a qualquer um dos dias lentos no estúdio de engenharia, mas depois lembrei-me do sonho da noite anterior, aquele sonho novamente com Sara, da volta de Sara de tão longe e de volta, e não tinha conseguido ficar nesse presente em que mais uma vez sairia do ateliê à tarde e iria tomar uma cerveja no café da esquina, as palavras voltaram a encher de vida e mesmo que elas mentissem, mesmo que nada fosse verdade, eu tinha continuado a escrevê-las porque elas chamavam a Sara, a Sara descendo a rua, tão lindo continuar embora fosse um absurdo, escrever que eu tinha atravessado a rua com as palavras que me levassem a encontrar a Sara e me fazer saber, a única forma de finalmente conhecê-la e dizer-lhe a verdade, de lhe estender a mão e beijá-la, de ouvir a sua voz e ver os seus cabelos açoitando-lhe os ombros, de ir para uma noite que as palavras iriam encher aos poucos de lençóis e carícias, mas como posso continuar agora, como posso começar uma vida com Sara a partir dessa noite em que se ouviu a voz de Felisa na casa ao lado, entrando com os meninos e vindo para me dizer que o jantar estava pronto, que devíamos ir comer logo porque já era tarde e os meninos queriam ver o Pato Donald na televisão das dez e vinte

Depois de Horas, 1982


Fim


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Você também pode ler:

Sarau... Depois de horas - (Julio Cortázar)

quinta-feira, 30 de março de 2023

Ballet Nacional de España - Dualia, Cuarto Movimiento

DUALIA. CUARTO MOVIMIENTO 

Ballet Nacional de España



Sob a direção de José Antonio, Ángel Rojas e Carlos Rodríguez criaram Dualia, um balé que aborda a dança espanhola, inspirado nas cores das pinturas de Sorolla, buscando a cumplicidade de dançar a dois, interpretando a sensualidade dos olhares, carícias e tentando mostrar com a batida das castanholas o seu significado e sentimento.







Coreografía: Ángel Rojas y Carlos Rodríguez
Música José Nieto
Figurines: Rosa García Andújar
Iluminación: David Pérez Hernando
Grabación musical: Orquesta de Cámara Andrés Segovia
Director: José de Eusebio

Realización de vestuario Pipa y Milagros (mujeres), Luis Fernando Dos Santos (batas de cola) y González (Hombres) 

Elenco:
Cuarto movimiento: Ángel Rojas, Carlos Rodríguez, Elena Algado y Esther Jurado.

Vídeo: Madrid, 15 de marzo de 2007.
 
Teatro de la Zarzuela. Estreno absoluto por el Ballet Nacional de España el 15 de marzo del 2007, en el Teatro de la Zarzuela de Madrid.



Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Sétimo - O processo de Champmathieu / IV — Formas de sofrimento durante o sono

Victor Hugo - Os Miseráveis


Primeira Parte - Fantine

Livro Sétimo — O processo de Champmathieu


IV — Formas de sofrimento durante o sono


Três horas da manhã acabavam de soar, havendo cinco que daquele modo passeava quase sem interrupção, quando se deixou cair numa cadeira.Adormeceu e teve um sonho, sonho que, como a maior parte deles, não tinha ligação com a situação em que ele se encontrava, senão pelo que quer que era de funesto e pungente, que lhe causou grande impressão. De tal modo o feriu aquele pesadelo, que escreveu mais tarde, e é esta uma das coisas que deixou escritas por sua própria mão. Julgamo-nos no dever de o transcrever aqui textualmente. Qualquer que ele seja, seria incompleta a história desta noite se o omitíssemos. É a sombria aventura de uma alma doente.
Ei-lo, pois. No sobrescrito, achamos escritas estas palavras: O sonho que eu tive naquela noite.


Encontrava-me numa grande e triste campina, sem erva nem vegetação, parecendo-me que não era nem dia nem noite. Andava a passear com meu irmão, o irmão dos meus anos da infância, esse irmão, em quem, devo dizê-lo, nunca penso, e do qual já quase me não lembro.
Conversávamos, interrompidos às vezes por uma outra pessoa que passava, falando de uma vizinha que tivemos noutro tempo, a qual trabalhava sempre com a janela aberta, desde que morava na rua, e, ao mesmo tempo que conversávamos, sentíamos frio proveniente daquela janela aberta. Não se via uma só árvore em toda a extensão da campina.
Nisto passou perto de nós um homem, cor de cinza, completamente nu, montado num cavalo cor de terra. Este homem não tinha cabelos; via-se-lhe o crânio, e nele as ramificações azuladas das veias. Trazia na mão uma varinha flexível como um vime e pesada como ferro. Este cavaleiro passou por nós e não nos disse nada. Meu irmão disse-me: «Tomemos pelo carreiro».
Havia ali um carreiro em que se não via um pé de tojo, nem um bocado de musgo. Era tudo cor de terra, mesmo o céu.
Ao cabo de alguns passos dados, como ninguém me respondia, quando eu falava, olhei e vi que meu irmão já não ia a meu lado. Entrei então numa aldeia que avistei, lembrando-me que devia ser ali Romainville (porque havia de ser Romainville? 1 ).
A primeira rua em que entrei estava deserta. Entrei noutra. Por detrás do ângulo formado pelas duas ruas estava um homem de pé, encostado à parede.
Perguntei a este homem: «Que terra é esta? Onde estou eu?» O homem não me respondeu. Vi a porta duma casa aberta e entrei. O primeiro quarto estava deserto: entrei no segundo. Por detrás da porta deste quarto, estava outro homem em pé, encostado à parede. Perguntei ao homem: «De quem é esta casa? Onde estou eu?» O homem não deu resposta. A casa tinha um jardim. Passei para o jardim, que também estava deserto.
Por detrás da primeira árvore encontrei ainda um homem em pé. Perguntei-lhe: «Que jardim é este? Onde estou eu?» O homem não respondeu. Percorri a aldeia e conheci que era uma cidade. Todas as ruas estavam desertas e todas as portas abertas. Não passava pelas ruas, não se encontrava nas casas, não passeava no jardim, um único vivente; mas atrás de cada ângulo do muro, atrás de cada porta e de cada árvore estava um homem, de pé, e que não falava. Não se via senão um por cada vez, mas todos eles me viam passar.
Saí da cidade e comecei a percorrer os campos. Passado algum tempo, voltei-me, e vi atrás de mim grande multidão. Reconheci todos os homens que tinha visto na cidade. Tinham umas cabeças extraordinárias; pareciam não se apressar, e contudo andavam mais do que eu. Os seus passos não produziam o mínimo ruído. Num momento fui alcançado e rodeado por aquela multidão. Os rostos dos homens que a compunham eram cor de terra.
Então, o primeiro que vira quando entrei na cidade e a quem fizera a primeira pergunta, dirigiu-me a palavra, dizendo-me: «Aonde vai? Porventura não sabe que está morto há muito tempo?»
Abri a boca para responder e vi que não tinha ninguém ao pé de mim.



Madelaine acordou. Estava gelado.
As vidraças da sacada aberta volteavam nos gonzos ao sabor de um vento frio como a aragem da manhã. Apagara-se o lume e a vela estava quase toda gasta. Era ainda noite fechada.
Levantou-se e encaminhou-se para a janela. No céu continuava a não se ver uma só estrela. Ao chegar à janela, de onde se avistava o pátio da casa e a rua, ressoou-lhe de súbito aos ouvidos um ruído seco e duro, que lhe fez baixar os olhos para o chão, e viu em baixo duas estrelas vermelhas, cujos raios se alongavam e encolhiam extravagantemente no meio das sombras.
Como tivesse ainda o pensamento meio submerso na neblina dos sonhos, disse consigo:

— Não as há no céu porque estão agora na terra.

Entretanto, dissipou-se esta perturbação, e um segundo ruído semelhante ao primeiro acabou de o despertar; olhou e reconheceu que as duas estrelas eram as lanternas dum veículo. Era um tilbury puxado por um cavalo branco e pequeno. O ruído que ouvira era produzido pelas ferraduras do cavalo batendo na calçada.
«Que carruagem é esta?» pensou ele. «Quem será tão cedo?»
Neste momento bateram brandamente à porta do quarto. Madelaine estremeceu dos pés à cabeça e gritou com voz terrível:

— Quem está aí?

— Sou eu, senhor maire — responderam de fora.

Madelaine reconheceu a voz da velha porteira.

— Que deseja? — tornou ele.

— Senhor maire, são quase cinco horas da manhã.

— Que tenho eu com isso?

— É que já ali está o cabriolet.

— Qual cabriolet?

— O tilbury.

— Qual tilbury?

— O senhor maire não mandou vir um tilbury?

— Não — disse ele.

— O cocheiro diz que vem procurar o senhor maire.

— Qual cocheiro?

— O do mestre Scaufflaire.

— Scaufflaire?

Este nome produziu-lhe um estremecimento, como o que lhe produziria o cair dum raio. Se a velhota o visse naquele momento ficaria espantada.
Seguiu-se prolongado silêncio. Madelaine examinava com ar estúpido a chama da vela, tirando do pavio bocadinhos de cera derretida, e rolando-os entre os dedos. A porteira continuava a esperar. Ouvindo tudo tão silencioso, arriscou-se a erguer a voz:

— Senhor maire, o que hei-de dizer ao cocheiro?

— Diga-lhe que já desço.


___________________

1 — Este parêntesis é do próprio punho de Jean Valjean.
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.

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Os Miseráveis: Fantine, Livro Sétimo -   IV — Formas de sofrimento durante o sono


Victor Hugo

OS MISERÁVEIS

Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira (1851-1888)


Los Poetas del Amor... José Carlos Chocano (Perú)

Los Poetas del Amor (95)


Eu sou o cantor nativo e selvagem da América:

Os cavalos eram fortes!
Os cavalos eram ágeis!
Seus pescoços eram finos e suas ancas
brilhantes e seus capacetes musicais...

minha lira tem uma alma, minha canção um ideal.

Os cavalos eram fortes!
Os cavalos eram ágeis!

Meu verso não balança pendurado em um galho

Não! Eles não foram apenas os guerreiros,
de couraças e plumas e insígnias e estandartes,
aqueles que fizeram a conquista
das selvas e dos Andes:

com o balanço vagaroso de uma rede tropical...




LA CANCION DEL CAMINO

Era un camino negro.
La noche estaba loca de relámpagos. Yo iba
en mi potro salvaje
por la montañosa andina.
Los chasquidos alegres de los cascos,
como masticaciones de monstruosas mandíbulas
destrozaban los vidrios invisibles
de las charcas dormidas.
Tres millones de insectos
formaban una como rabiosa inarmonía.

Súbito, allá, a lo lejos,
por entre aquella mole doliente y pensativa
de la selva,
vi un puñado de luces, como un tropel de avispas.

¡La posada! El nervioso
látigo persignó la carne viva
de mi caballo, que rasgó los aires
con un largo relincho de alegría.

Y como si la selva
comprendiese todo, se quedó muda y fría.

Y hasta mí llegó, entonces,
una voz clara y fina
de mujer que cantaba. Cantaba. Era su canto
una lenta... muy lenta... melodía:
algo como un suspiro que se alarga
y se alarga y se alarga... y no termina.

Entre el hondo silencio de la noche,
y a través del reposo de la montaña,
oíanse los acordes
de aquel canto sencillo de una música íntima,
como si fuesen voces que llegaran
desde la otra vida..

Sofrené ml caballo;
y me puse a escuchar lo que decía:

- Todos llegan de noche,
todos se van de día...

Y, formándole dúo,
otra voz femenina
completó así la endecha
con ternura infinita:

- El amor es tan sólo una posada
en mitad del camino de la vida.

Y las dos voces, luego,
a la vez repitieron con amargura rítmica:

- Todos llegan de noche,
y todos se van de día ...
Entonces, yo bajé de mi caballo
y me acosté en la orilla
de una charca.

Y fijo en ese canto que venía
a través del misterio de la selva,
fui cerrando los ojos al sueño y la fatiga.

Y me dormí, arrullado; y, desde entonces,
cuando cruzo las selvas por rutas no sabidas,
jamás busco reposo en las posadas;
y duermo al aire libre mi sueño y mi fatiga,
porque recuerdo siempre
aquel canto sencillo de una música íntima:

- Todos llegan de noche,
todos se van de día!
El amor es tan sólo una posada
en mitad del camino de la vida...




DE VIAJE

Ave de paso,
fugaz viajera desconocida:
fue sólo un sueño, sólo un capricho, sólo un acaso;
duró un instante, de los que llenan toda una vida.

No era la gloria del paganismo,
no era el encanto de la hermosura plástica y recia:
era algo vago, nube de incienso, luz de idealismo.
No era la Grecia:
¡era la Roma del cristianismo!
Alrededor era de sus dos ojos ¡oh, qué ojos, ésos!
que las fracciones de su semblante desvanecidas
fingían trazos de un pincel tenue, mojado en besos,
rediviviendo sueños pasados y glorias idas...

Ida es la gloria de sus encantos,
pasado el sueño de su sonrisa.

Yo lentamente sigo la ruta de mis quebrantos;
¡ella ha fugado como un perfume sobre la brisa!
Quizás ya nunca nos encontremos;
quizás ya nunca veré a mi errante desconocida;
quizás la misma barca de amores empujaremos,
ella de un lado, yo de otro lado, como dos remos,
¡toda la vida bogando juntos y separados toda la vida!




BLASÓN

Soy el cantor de América autóctono y salvaje:
mi lira tiene un alma, mi canto un ideal.
Mi verso no se mece colgado de un ramaje
con vaivén pausado de hamaca tropical...

Cuando me siento inca, le rindo vasallaje
al Sol, que me da el cetro de su poder real;
cuando me siento hispano y evoco el coloniaje
parecen mis estrofas trompetas de cristal.

Mi fantasía viene de un abolengo moro:
los Andes son de plata, pero el león, de oro,
y las dos castas fundo con épico fragor.

La sangre es española e incaico es el latido;
y de no ser Poeta, quizá yo hubiera sido
un blanco aventurero o un indio emperador.




QUIÉN SABE



Indio que asomas a la puerta
de esa tu rústica mansión:
¿Para mi sed no tienes agua?
¿Para mi frío cobertor?
¿Parco maíz para mi hambre?
¿Para mi sueño, mal rincón?
¿Breve quietud para mi andanza?

-¡Quién sabe, señor!

Indio que labras con fatiga
tierras que de otro dueño son:
¿Ignoras tú que deben tuyas
ser por tu sangre y tu sudor?
¿Ignoras tú que audaz codicia
siglos atrás te las quitó?
¿Ignoras tú que eres el amo?

-¡Quién sabe, señor!

Indio de frente taciturna
y de pupilas de fulgor:
¿Qué pensamiento es el que escondes
en tu enigmática expresión?
¿Qué es lo que buscas en tu vida?
¿Qué es lo que imploras a tu dios?
¿Qué es lo que sueña tu silencio?

-¡Quién sabe, señor!

¡Oh, raza antigua y misteriosa,
de impenetrable corazón,
que sin gozar ves la alegría
y sin sufrir ves el dolor:
eres augusta como el Ande,
el Grande Océano y el Sol!
Ese tu gesto que parece
como de vil resignación,
es de una sabia indiferencia
y de un orgullo sin rencor...

Corre por mis venas sangre tuya,
y, por tal sangre, si mi Dios
me interrogase qué prefiero
-cruz o laurel, espina o flor,
beso que apague mis suspiros
o hiel que colme mi canción-,
responderíale diciendo:
-¡Quién sabe, señor!





LOS CABALLOS DE LOS CONQUISTADORES





¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!
Sus pescuezos eran finos y sus ancas
relucientes y sus cascos musicales...

¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!

¡No! No han sido los guerreros solamente,
de corazas y penachos y tizonas y estandartes,
los que hicieron la conquista
de las selvas y los Andes:

Los caballos andaluces, cuyos nervios
tienen chispas de la raza voladora de los árabes,
estamparon sus gloriosas herraduras
en los secos pedregales,
en los húmedos pantanos,
en los ríos resonantes,
en las nieves silenciosas,
en las pampas, en las sierras, en los bosques y en los valles.

¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!

Un caballo fue el primero,
en los tórridos manglares,
cuando el grupo de Balboa caminaba
despertando las dormidas soledades,
que de pronto dio el aviso
del Pacífico Océano, porque ráfagas de aire
al olfato le trajeron
las salinas humedades;

y el caballo de Quesada, que en la cumbre
se detuvo viendo, en lo hondo de los valles,
el fuetazo de un torrente
como el gesto de una cólera salvaje,
saludo con un relincho
la sabana interminable...
y bajó con fácil trote,
los peldaños de los Andes,
cual por unas milenarias escaleras
que crujían bajo el golpe de los cascos musicales...

¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!

Y aquel otro, de ancho tórax,
que la testa pone en alto
cual queriendo ser más grande,
en que Hernán Cortés un día
caballero sobre estribos rutilantes,
desde México hasta Honduras
mide leguas y semanas entre rocas y boscajes,
es más digno de los lauros
que los potros que galopan
en los cánticos triunfales
con que Píndaro celebra
las olímpicas disputas
entre el vuelo de los carros y la fuga de los aires

Y es más digno todavía
de las odas inmortales
el caballo con que Soto, diestramente,
y tejiendo las cabriolas como él sabe,
causa asombro, pone espanto, roba fuerzas,
y entre el coro de los indios,
sin que nadie haga un gesto de reproche,
llega al trono de Atahualpa y salpica con espumas
las insignias imperiales.

¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!

El caballo del beduino
que se traga soledades.
El caballo milagroso de San Jorge,
que tritura con sus cascos los dragones infernales.
El de César en las Galias.
El de Aníbal en los Alpes.
El Centauro de las clásicas leyendas,
mitad potro, mitad hombre,
que galopa sin cansarse,
y que sueña sin dormirse,
y que flecha los luceros,
y que corre como el aire,
todos tienen menos alma, menos fuerza, menos sangre,
que los épicos caballos andaluces
en las tierras de la Atlántida salvaje,
soportando las fatigas,
las espuelas y las hambres,
bajo el peso de las férreas armaduras,
cual desfile de heroísmos,
coronados entre el fleco de los anchos estandartes
con la gloria de Babieca y el dolor de Rocinante.

En mitad de los fragores del combate,
los caballos con sus pechos arrollaban
a los indios, y seguían adelante.
Y, así, a veces, a los gritos de "¡Santiago!",
entre el humo y e fulgor de los metales,
se veía que pasaba, como un sueño,
el caballo del apóstol a galope por los aires

¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!

Se diría una epopeya
de caballos singulares
que a manera de hipogrifos desolados
o cual río que se cuelga de los Andes,
llegan todos sudorosos, empolvados, jadeantes,
de unas tierras nunca vistas,
a otras tierras conquistables.
Y de súbito, espantados por un cuerno
que se hincha con soplido de huracanes,
dan nerviosos un soplido tan profundo,
que parece que quisiera perpetuarse.
Y en las pampas y confines
ven las tristes lejanías
y remontan las edades
y se sienten atraídos
por los nuevos horizontes:
Se aglomeran, piafan, soplan, y se pierden al escape.

Detrás de ellos, una nube,
que es la nube de la gloria,
se levanta por los aires.

¡Los caballos eran fuertes!
¡Los caballos eran ágiles!









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JOSÉ SANTOS CHOCANO
(1875-1934)
Ele nasceu em Lima, Peru. Foi um grande defensor do americanismo, um ardente revolucionário, protetor dos índios e opositor do imperialismo estadunidense. Depois de muitas prisões, ele foi assassinado no Chile.
Cantou a sua América com lirismo exuberante e com as novas técnicas poéticas, sobretudo modernistas, embora tenha experimentado novos ritmos e formas. Ele também tem poemas íntimos que nada têm a ver com sua ideologia política e social.
Apesar das primeiras inovações de González Prada — versos polidos em oficinas cosmopolitas, com facetas de Parnaso, com luzes de simbolismo, com técnicas polirrítmicas —, o Peru acolheu o modernismo muito tarde. Mas os dois nomes que oferece são importantes: Chocano e Eguren. O vento levou quase toda a obra de José Santos Chocano (Peru, 1875-1934) porque tinha a eloquência das palavras recitadas em praça pública. Ele estava mais perto de Díaz Mirón do que de Rubén Darío; e se ele se agrupa com Darío e outros modernistas, é porque era um artista visual que aprendera a pintar o que via com a linguagem parnasiana. O que ele via, porém, era diferente da realidade dos modernistas. Chocano dedicou-se a cantar os exteriores da América: natureza, lendas e episódios históricos, Histórias com índios, temas de ação política. Ele estava à frente do movimento modernista no Peru. Tinha, para isso, a egomania de caudilho e um verbo torrencial. Além disso, seu domínio das novas técnicas do verso serviu de pano de fundo para temas fáceis e populares. Um poeta de elite, mas na rua. É natural que o aplaudissem. Seus livros mais famosos -Alma América, poemas indo-espanhóis, 1906, e Fiat Lux, 1908 — foram uma expressão da poesia objetiva e nacionalista daqueles anos.

(Literatura hispano-americana, Anderson Imbert)