sexta-feira, 31 de julho de 2020

Stendhal - O Vermelho e o Negro: A Mansão de La Mole (IV-1)

Livro II 

Ela não é galante,
não usa ruge algum.

Sainte-Beuve



Capítulo IV

A MANSÃO DE LA MOLE


Que faz ele aqui? Estaria satisfeito? Pensaria agradar?

RONSARD




SE TUDO PARECIA ESTRANHO A JULIEN, no nobre salão da mansão de La Mole, esse jovem, pálido e vestido de preto, parecia por sua vez muito singular às pessoas que se dignavam notá-lo. A sra. de La Mole propôs ao marido enviá-lo em missão nos dias em que certos personagens viessem jantar. 

– Pretendo levar a experiência até o fim, respondeu o marquês. O abade Pirard afirma que agimos mal ferindo o amor-próprio das pessoas que admitimos em nossa casa. A gente não se apoia senão sobre o que resiste etc. Este jovem só é inconveniente por sua figura desconhecida; de resto, é um surdo-mudo.

Para que eu possa orientar-me, pensou Julien, preciso escrever os nomes e uma frase sobre o caráter dos personagens que vejo chegar a este salão.
Colocou na primeira linha cinco ou seis amigos da casa, que invariavelmente o cortejavam, acreditando-o protegido por um capricho do marquês. Eram uns pobres-diabos, mais ou menos vulgares; mas, cumpre dizer em honra dessa classe de homens que hoje se encontram nos salões da aristocracia, eles não eram vulgares de maneira igual para todos. Alguns, que se deixariam ser tratados com aspereza pelo marquês, revoltar-se-iam contra uma palavra dura dirigida pela sra. de La Mole.
Havia muito orgulho e muito tédio no fundo do caráter dos donos da casa; estavam acostumados a ultrajar por desfastio, para que pudessem esperar verdadeiros amigos. Mas, exceto nos dias de chuva e nos momentos de tédio feroz, que eram raros, demonstravam sempre uma polidez perfeita.
Se os cinco ou seis aduladores que mostravam a Julien uma amizade tão paterna desertassem da mansão de La Mole, a marquesa estaria exposta a grandes momentos de solidão; e, para as mulheres dessa condição, a solidão é terrível; é o emblema da desgraça.
O marquês era perfeito para a mulher; cuidava para que seu salão estivesse suficientemente guarnecido; não de pares, ele achava que os novos colegas não eram bastante nobres para virem à sua casa como amigos, e não tão divertidos para serem admitidos como subalternos.
Foi só bem mais tarde que Julien penetrou esses segredos. A política dirigente, assunto de conversa das casas burguesas, não é abordada nas da classe do mar quês senão nos momentos de aflição.
Mesmo neste século entediado, tamanha é ainda a necessidade de divertir-se que, inclusive nos dias de jantares, todos debandavam assim que o marquês deixava o salão. Contanto que não se falasse mal de Deus, nem dos padres, nem do rei, nem das pessoas distintas, nem dos artistas protegidos pela corte, nem de tudo que está estabelecido; contanto que não se falasse bem nem de Béranger, nem dos jornais da oposição, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de tudo o que se permite quem não tem papas na língua; contanto, principalmente, que jamais se falasse de política, podia-se discorrer livremente sobre tudo.
Não há cem mil escudos de renda nem condecoração que possam lutar contra essa carta de princípios de salão. A menor ideia viva parece uma grosseria. Apesar do bom-tom, da polidez perfeita, da vontade de ser agradável, o tédio lia-se em todas as faces. Os jovens que vinham cumprir deveres, com receio de falarem de algo que fizesse suspeitar um pensamento, ou de traírem alguma leitura proibida, calavam-se após algumas palavras elegantes sobre Rossini e as condições do tempo.
Julien observou que a conversação era mantida viva por dois viscondes e cinco barões que o sr. de La Mole conhecera na emigração [1]. Esses senhores desfrutavam de seis a oito mil libras de renda; quatro eram partidários do La Quotidienne, e três da Gazette de France. Um deles tinha sempre uma anedota a contar do palácio, na qual a palavra admirável não era poupada. Julien observou que ele tinha cinco condecorações, os outros tinham em geral apenas três.
Em troca, viam-se na antecâmara dez lacaios de libré, e durante toda a noite eram servidos chá ou sorvetes a cada quarto de hora, mais uma espécie de ceia com champanha, à meia-noite.
Era a razão que fazia Julien permanecer às vezes até o final; de resto, ele quase não compreendia que pudessem escutar a sério a conversação ordinária daquele salão, tão magnificamente dourado. Às vezes, observava os interlocutores para ver se eles próprios não zombavam daquilo que diziam. O meu de Maistre, que sei de cor, disse cem vezes melhor, ele pensava, e ainda assim é um chato.
Julien não era o único a perceber a asfixia moral. Uns consolavam-se tomando sorvetes, outros, pelo prazer de dizer ao fim da noitada: saio da mansão de La Mole, onde soube que a Rússia, etc.
Julien ficou sabendo, por um dos aduladores, que não fazia ainda seis meses que a sra. de La Mole recompensara uma assiduidade de mais de vinte anos fazendo governador o pobre barão Le Bourguignon, vice-governador desde a Restauração.
Esse grande acontecimento reforçara o zelo de todos esses senhores; antes, teriam se ofendido por muito pouco, agora não se ofendiam por mais nada. Raramente a falta de consideração era direta, mas Julien já surpreendera à mesa dois ou três pequenos diálogos breves, entre o marquês e a esposa, cruéis para os que estavam sentados perto deles. Esses nobres personagens não dissimulavam o desprezo sincero por tudo que não proviesse de pessoas que subiam nas carruagens do rei. Julien observou que a palavra cruzada era a única que dava à expressão deles uma seriedade profunda, mesclada de respeito. O respeito ordinário tinha sempre um traço de complacência.
Em meio a essa magnificência e a esse tédio, Julien interessava-se apenas pelo sr. de La Mole; com prazer, ouviu-o um dia protestar que nada tinha a ver com a promoção daquele pobre Le Bourguignon. Era uma atenção para com a marquesa: Julien sabia a verdade pelo abade Pirard.
Uma manhã em que o abade ocupava-se junto com ele, na biblioteca do marquês, do eterno processo de Frilair, Julien perguntou de repente:

– Senhor, jantar diariamente com a sra. marquesa é um de meus deveres ou é uma cortesia que fazem para mim?

– É uma honra insigne!, respondeu o abade, escandalizado. O sr. N..., o acadêmico, que há quinze anos faz uma corte assídua, nunca obteve isso para seu sobrinho Tanbeau.

– Para mim, senhor, é a parte mais penosa de meu emprego. No seminário entediava-me menos. Às vezes, vejo até a srta. de La Mole bocejar, ela que deve estar acostumada à amabilidade dos amigos da casa. Tenho medo de adormecer. Por favor, obtenha-me a permissão de ir jantar por quarenta vinténs em algum albergue obscuro.

O abade, verdadeiro novo-rico, era muito sensível à honraria de jantar com um grande senhor. Enquanto procurava fazer Julien compreender esse sentimento, um ruí do leve os fez voltar a cabeça. Julien viu a srta. de La Mole, que escutava. Ele corou. Ela viera buscar um livro e ouvira tudo, mas teve alguma consideração por Julien: Este não nasceu ajoelhado, pensou, como esse velho abade. Santo Deus, como ele é feio!
No jantar, Julien não ousava olhar para a srta. de La Mole, mas ela teve a bondade de dirigir-lhe a palavra. Naquele dia, esperava-se muita gente, ela o convidou a ficar. As moças de Paris não gostam muito das pessoas de uma certa idade, sobretudo quando se vestem sem cuidado. Julien não precisou de muita sagacidade para perceber que os colegas do sr. Le Bourguignon, que ficaram no salão, tinham a honra de ser o objeto ordinário dos gracejos da srta. de La Mole. Naquele dia, houvesse ou não fingimento da parte dela, ela foi cruel com os enfadonhos.
A srta. de La Mole era o centro de um grupinho que se formava quase todas as noites atrás da imensa bergère da marquesa. Ali reuniam-se o marquês de Croisenois, o conde de Caylus, o visconde de Luz e dois ou três outros jovens oficiais, amigos de Norbert ou de sua irmã. Esses senhores sentavam-se num grande canapé azul. Na extremidade do canapé, oposta àquela ocupada pela brilhante Mathilde, sentava-se silenciosamente Julien numa cadeira de palha bastante baixa. Esse posto modesto era invejado por todos os aduladores; Norbert mantinha ali decentemente o jovem secretário do pai, dirigindo-lhe a palavra ou nomeando-o uma ou duas vezes por noitada. Naquele dia, a srta. de La Mole perguntou-lhe qual podia ser a altura do monte sobre o qual está colocada a cidadela de Besançon. Julien não tinha como dizer se esse monte era mais ou menos elevado que Montmartre. Com frequência ele ria com gosto do que diziam nesse grupinho; mas sentia-se incapaz de inventar alguma coisa de semelhante. Era como uma língua estrangeira que ele compreendesse, mas que não pudesse falar. Os amigos de Mathilde, naquele dia, não paravam de hostilizar as pessoas que chegavam no vasto salão.
Os amigos da casa foram inicialmente os mais visados, por serem mais bem conhecidos. Pode-se imaginar o quanto Julien estava atento; tudo lhe interessava, tanto o que era dito como a maneira de gracejar.

– Ah! Ali está o sr. Decoulis, disse Mathilde, não usa mais peruca; será que quer chegar a ser governador pelo gênio? Ostenta aquela cabeça calva, que ele diz repleta de altos pensamentos.

– É um homem que conhece a terra inteira, disse o marquês de Croisenois; ele também vai à casa de meu tio, o cardeal. É ca paz de cultivar uma mentira junto a cada um de seus amigos, durante anos seguidos, e ele tem duzentos ou trezentos amigos. Sabe alimentar a amizade, é seu talento. Tal como o estão vendo, é capaz de ficar enlameado à porta de um dos amigos, desde as sete horas da manhã, no inverno. De vez em quando desentende-se, e então escreve sete ou oito cartas desaforadas. Depois reconcilia-se, e são mais sete ou oito cartas com transportes de amizade. Mas é na manifestação franca e sincera de homem de bem que não guarda ressentimentos que ele brilha mais. Usa essa manobra quando tem algum serviço a pedir. Um dos vigários do meu tio é admirável quando conta a vida do sr. Descoulis desde a Restauração. Vou trazê-lo aqui.

– Bah! Eu não acreditaria nessas conversas; é ciúme de ofício entre a arraia miúda, disse o conde de Caylus.

– O sr. Decoulis terá um nome na história, continuou o marquês; fez a Restauração com o abade de Pradt e os srs. de Talleyrand e Pozzo di Borgo.

– Esse homem manipulou muito dinheiro, disse Norbert, e não concebo que venha aqui embolsar os epigramas de meu pai, geralmente abomináveis. Este um dia lhe gritava, de uma ponta à outra da mesa: quantas vezes traiu seus amigos, meu caro Descoulis?

– Mas é verdade que ele traiu?, disse a srta. de La Mole. Quem nunca traiu?

– Olhe! disse o conde de Caylus a Norbert, você tem em sua casa o sr. Sainclair, o famoso liberal; que dia bos vem fazer aqui? Preciso aproximar-me dele, falar-lhe, fazê-lo falar-me; dizem que tem muito espírito.

– Mas como tua mãe irá recebê-lo?, disse o sr. de Croisenois. Ele tem ideias tão extravagantes, tão generosas, tão independentes...

– Vejam ali esse homem independente, disse a srta. de La Mole, curvando-se quase até o chão diante do sr. Descoulis e pegando-lhe a mão. Cheguei a pensar que ia levá-la aos lábios.

– Descoulis deve estar melhor com o poder do que imaginamos, comentou o sr. de Croisenois.

– Sainclair vem aqui para entrar na Academia, disse Norbert; veja como ele cumprimenta o barão L..., Croisenois.

– Seria menos servil se se ajoelhasse, disse o sr. de Luz.

– Meu caro Sorel, disse Norbert, você que tem espírito, mas que chega das montanhas, jamais cumprimente como o faz esse grande poeta, ainda que se trate de Deus Pai.

– Ah! Eis ali um homem de espírito por excelência, o sr. barão Bâton, disse a srta. de la Molle, imitando um pouco a voz do lacaio que acabava de anunciá-lo.

– Acho que até seus serviçais zombam dele. Que nome, barão Bâton [Bastão]! disse o sr. de Caylus.

– Que importa o nome?, ele nos dizia outro dia. Imaginem o duque de Bouillon [Bolha] anunciado pela primeira vez; falta ao público, em relação a mim, somente um pouco de hábito...

Julien deixou a companhia do canapé. Pouco sensível ainda aos charmes de uma zombaria leve para rir de um gracejo, exigia que este tivesse um motivo. Nas palavras daqueles jovens, não via senão um tom de difamação geral, e estava chocado com isso. Sua pudicícia provinciana ou inglesa chegava a ver naquilo inveja, no que seguramente se enganava.




continua página 181...
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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.

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Henri-Marie Beylemais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.
Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.
Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.
"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.
Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.
Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.
Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.
Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.
O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.


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Leia também:
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Os Prazeres do Campo (I-2)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Entrada na Sociedade (II)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Os Primeiros Passos (III)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: A Mansão de La Mole (IV-1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: A Mansão de La Mole (IV-2)

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[1] Stendhal refere-se aos aristocratas que foram obrigados a emigrar a partir do momento da radicalização do processo revolucionário na França quando da decapitação de Luís XVI em 21 de janeiro de 1793. (N.E.)


Machado de Assis - O alienista: 10 - A Restauração

Papéis Avulsos - O Alienista

Machado de Assis



CAPÍTULO X
A RESTAURAÇÃO



Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfírio estava “vendido ao ouro de Simão Bacamarte”, frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila. Porfírio, vendo o antigo rival da navalha à testa da insurreição, compreendeu que a sua perda era irremediável, se não desse um grande golpe; expediu dois decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes frases, que o ato de Porfírio era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente, e João Pina assumia a difícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais, do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se, que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma Câmara corrupta, falou este de “um intruso eivado das más doutrinas francesas, e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade”, etc. 

Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfírio, e bem assim a de uns cinquenta e tantos indivíduos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses, como afiançaram entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião.

Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos a seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera dele, ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro ato seu, acrescentando que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.

Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a Câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado em plena sessão, que não se contentava, para lavá-lo da afronta dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da Câmara, entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde, e foi dali à Câmara à qual declarou que o presidente estava padecendo da “demência dos touros”, um gênero que ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo.

Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns cronistas creem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura; de positivo nada há.

— Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas...

Um dia de manhã, — dia em que a Câmara devia dar um grande baile, — a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato.

— Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos: se eu lhe falava das antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava, na minha ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da Matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demência. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da Câmara Municipal; só hesitava entre um colar de granada e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de jantar fui achá-la calada e pensativa. — Que tem? perguntei-lhe. — Queria levar o colar de granada, mas acho o de safira tão bonito! — Pois leve o de safira. — Ah! mas onde fica o de granada? — Enfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demência; recolhi-a logo.

O Padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de “mania suntuária”, não incurável, e em todo caso digno de estudo.

— Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.

A abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce. Conjeturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por terra, desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe, — menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência.

Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.





continua página 25...

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Leia também:

Machado de Assis - O alienista: 01 - De Como Itaguaí Ganhou Uma Casa De Orates
Machado de Assis - O alienista: 02 - Torrente De Loucos
Machado de Assis - O alienista: 03 - Deus sabe o que faz
Machado de Assis - O alienista: 04 - Uma Teoria Nova
Machado de Assis - O alienista: 05 - O Terror
Machado de Assis - O alienista: 06 - A Rebelião
Machado de Assis - O alienista: 07 - O Inesperado
Machado de Assis - O alienista: 08 - As Angústias do Boticário
Machado de Assis - O alienista: 09 - Dois Lindos Casos
Machado de Assis - O alienista: 11 - O assombro de Itaguaí

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ÍNDICE:

ADVERTÊNCIA 
O ALIENISTA 
TEORIA DO MEDALHÃO 
A CHINELA TURCA 
NA ARCA 
D. BENEDITA 
O SEGREDO DO BONZO 
O ANEL DE POLÍCRATES
O EMPRÉSTIMO 
A SERENÍSSIMA REPÚBLICA 
O ESPELHO 
UMA VISITA DE ALCIBÍADES 
VERBA TESTAMENTÁRIA 
NOTAS DO AUTOR
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Papéis Avulsos

Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 
Publicado originalmente por Lombaerts & Cia, Rio de Janeiro, 1882.




Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?





Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (21)

 Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1


1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



Memórias de duas jovens esposas





PRIMEIRA PARTE




XXI – LUÍSA DE CHAULIEU A RENATA DE L’ESTORADE



Junho


Querida corça casada, tua carta veio a propósito para justificar perante mim mesma uma audácia na qual penso noite e dia. Há não sei que apetite em mim para as coisas desconhecidas ou, se quiseres, proibidas, que me inquieta e me revela, no meu íntimo, um combate entre as leis das sociedades e as da natureza. Não sei se em mim a natureza é mais forte do que a sociedade, mas surpreendo-me a fazer transações entre essas potências. Enfim, para falar com clareza, eu queria conversar com Felipe, a sós, durante uma hora da noite, sob as tílias, no extremo do nosso jardim. Evidentemente, esse desejo é de uma rapariga que merece o título de espertalhona com que me designa a duquesa, a rir, e que meu pai confirma. Entretanto, considero essa falta prudente e avisada. Recompensando assim tantas noites passadas ao pé do muro de minha casa, quero saber o que pensará o meu Felipe da minha escapada e julgá-lo em tal momento; fazer dele meu querido esposo, se ele divinizar minha falta, ou não tornar a vê-lo nunca mais se não se mostrar mais respeitoso e mais trêmulo do que quando me saúda, ao passar por mim a cavalo nos Champs-Élysées. Quanto à sociedade, corro menos riscos vendo assim meu namorado do que quando lhe sorria em casa da sra. de Maufrigneuse ou em casa da velha marquesa de Beauséant, onde agora estamos cercados de espiões, pois sabe Deus com que olhares perseguem uma rapariga suspeitada de dar atenção a um monstro como Macumer. Oh! Se soubesses como me agitou sonhar com esse projeto, como me preocupei em ver por antecipação o modo pelo qual ele se podia realizar! Senti tua falta, teríamos tagarelado a respeito durante algumas boas horas, perdidas nos labirintos da incerteza e prelibando as boas ou más coisas de um primeiro encontro, à noite, na sombra e no silêncio, debaixo das belas tílias do palácio de Chaulieu, crivado pelas mil fulgurações do luar. Palpitei sozinha, dizendo comigo: “Ah! Renata, onde estás tu?”. A tua carta, pois, acendeu o rastilho, e os meus últimos escrúpulos se foram pelos ares. Atirei, pela janela, ao meu adorador estupefato o desenho fiel da chave do pequeno portão do jardim, com este bilhete: “O que se quer é impedi-lo de cometer loucuras. Se quebra a cabeça, fará perder a honra à pessoa a quem diz amar. Será o senhor digno de uma nova prova de estima e merecerá que lhe falem à hora em que a lua deixa na sombra as tílias do fundo do jardim?”. 

Ontem, à uma hora, no momento em que Griffith ia deitar-se, eu lhe disse:

— Pegue seu xale e acompanhe-me, minha cara; quero ir ao fundo do jardim sem que ninguém o saiba.

Ela não me retrucou uma só palavra e seguiu-me. Que sensações, minha Renata! Porque depois de esperá-lo, presa de uma deliciosa angústia, vi-o deslizando como uma sombra. Chegando ao jardim sem novidades, disse a Griffith:

— Não se admire, o barão de Macumer está ali e foi justamente por causa dele que eu a fiz vir.

Ela nada respondeu.

— Que quer de mim? — perguntou Felipe com uma voz cuja emoção revelava que o roçar de nossos vestidos no silêncio da noite e o ruído de nossos passos sobre a areia, por mais leves que fossem, o tinham posto fora de si.

— Quero dizer-lhe o que não saberia escrever — respondi-lhe.

Griffith distanciou-se seis passos de nós. Era uma dessas noites cálidas perfumada pelas flores; experimentei naquele momento um prazer embriagador ao ver-me quase só com ele na suave obscuridade das tílias, para além das quais o jardim brilhava, tanto mais quanto a fachada do palácio refletia o luar. Esse contraste oferecia uma vaga imagem do mistério de nosso amor que deve terminar pela deslumbrante publicidade de nosso casamento. Depois de um momento concedido, de lado a lado, ao prazer daquela situação nova para os dois, e em que estávamos tão assombrados um como o outro, recuperei o uso da palavra.

— Embora eu não tema a calúnia, não quero mais que suba a essa árvore — disse-lhe apontando para o olmo — nem a esse muro. Já procedemos suficientemente, o senhor como colegial, eu, como uma pensionista: elevemos nossos sentimentos à altura de nossos destinos. Se o senhor morresse na sua queda, eu morreria desonrada...

Olhei-o, estava lívido. — E se o surpreendessem nessa situação, minha mãe ou eu seríamos suspeitadas...

— Perdão — murmurou ele com voz débil.

— Passe pelo bulevar, ouvirei seus passos e, quando quiser vê-lo, abrirei a janela; mas não o farei correr e não correrei esse perigo senão em circunstâncias graves. Por que me forçou, por sua imprudência, a cometer uma outra e a dar-lhe má impressão a meu respeito?

As lágrimas que vi em seus olhos afiguraram-se-me a mais bela resposta do mundo.

— Deve compreender — disse-lhe sorrindo — que meu procedimento é excessivamente temerário...

Depois de uma ou duas voltas dadas silenciosamente sob as árvores, ele recuperou a voz:

— Deve julgar-me estúpido; e estou de tal forma inebriado de felicidade que me sinto sem forças e sem espírito; entretanto, saiba pelo menos que, a meus olhos, a senhora santifica suas ações, pelo simples fato de se permitir praticá-las. O respeito que lhe tributo só é comparável ao que sinto por Deus. De resto, miss Griffith está aí.

— Ela está ali por causa dos outros e não por nós, Felipe — disse-lhe com vivacidade.

Esse homem, querida, compreendeu-me.

— Sei perfeitamente — replicou, dirigindo-me o mais humilde olhar — que se ela ali não estivesse, tudo entre nós se passaria como se ela nos visse; se não estamos diante dos homens, estamos sempre diante de Deus e temos tanta necessidade de nossa própria estima quanto da do mundo.

— Obrigada, Felipe — disse, estendendo-lhe a mão num gesto que adivinhas. — Uma mulher, e considere-me uma mulher, sente-se bem-disposta a amar um homem que a compreenda. Oh! Somente disposta — continuei, pondo um dedo nos lábios. — Não quero que tenha mais esperanças do que aquelas que lhe quero dar. Meu coração pertencerá somente àquele que o souber ler e conhecer bem. Nossos sentimentos, sem serem absolutamente semelhantes, devem ter a mesma extensão e estar no mesmo alto nível. Não procuro engrandecer-me, pois aquilo que julgo qualidades comporta com certeza defeitos; mas se os não tivesse, ficaria desolada.

— Depois de ter me aceitado como servo, permitiu-me que a amasse — disse ele trêmulo e olhando-me a cada palavra que proferia —, tenho mais do que desejei primitivamente.

— Mas — disse-lhe eu vivamente — acho seu lote melhor do que o meu; não me queixaria se trocássemos, e essa troca está a seu cargo.

— Toca-me a mim agradecer-lhe, agora — respondeu-me — conheço os deveres de um amante leal. Devo provar-lhe que sou digno de ti, e a senhora tem o direito de pôr-me à prova tanto tempo quanto lhe pareça. Pode, meu Deus! Repelir-me se eu traísse suas esperanças.

— Sei que me ama — respondi-lhe. — Até agora (acentuei cruelmente o termo) o senhor é o preferido e eis por que está aqui.

Recomeçamos a dar algumas voltas, conversando, e devo confessar-te que, posto à vontade, meu espanhol patenteou a verdadeira eloquência do coração, expressando-me, não a sua paixão, mas a sua ternura; pois soube explicar-me seus sentimentos por uma adorável comparação com o amor divino. Sua voz penetrante, que emprestava um valor particular às suas ideias, já de si tão delicadas, assemelhava-se ao timbre do rouxinol. Falava baixo, no tom médio e grave de sua deliciosa voz, e suas frases seguiam-se com a precipitação de uma fervura; seu coração transbordava.

— Pare — disse-lhe eu —, senão ficaria aqui mais tempo do que devo.

E, com um gesto, despedi-o.

— Agora está comprometida, senhorita — disse-me Griffith.

— Talvez na Inglaterra, mas não em França. — Respondi negligentemente. — Quero casar-me por amor e não ser enganada: é tudo.

Já vês, querida, como o amor não vinha a mim, fiz como Maomé com a sua montanha.



Sexta-feira
Voltei a ver meu escravo: tornou-se tímido, tomou um ar misterioso e devoto que me agrada; afigura-se-me estar ele impressionado com a minha glória e meu poder. Nada, porém, quer nos seus olhares, quer nas suas maneiras, permite às adivinhas do mundo suspeitar nele esse infinito amor que eu vejo. Entretanto, querida, não me sinto arrebatada, dominada, domada; pelo contrário, domo, domino, arrebato... Enfim, raciocino. Ah! Bem quisera encontrar outra vez aquele medo que me causava a fascinação do professor, do burguês ao qual me recusava. Há dois amores: o que ordena e o que obedece; são diferentes e dão nascimento a duas paixões, e uma não é a outra; para ter seu quinhão da vida, é possível que uma mulher precise conhecer uma e outra. Poderão confundir-se essas duas paixões? Um homem a quem inspiramos amor também nos poderá inspirar amor? Felipe chegará a ser um dia meu senhor? Far-me-á tremer como ele hoje treme? Essas perguntas me fazem fremir. Ele é bem cego. No lugar dele, eu teria achado a srta. de Chaulieu, sob as tílias, bem faceiramente fria, moderada, calculista. Não, isso não é amor, é brincar com o fogo. Felipe continua a agradar-me como sempre, mas sinto-me agora calma e à vontade. Não há mais obstáculos, que palavra terrível! Tudo se abate em mim, tudo volta ao seu lugar e tenho medo de interrogar-me. Ele fez mal em ocultar-me a violência de seu amor, deixou-me senhora de mim mesma. Enfim, não tenho as vantagens dessa espécie de falta. Sim, querida, seja qual for a doçura que me cause a lembrança daquela meia hora que passei sob as árvores, acho o prazer que ela me deu muito inferior às emoções que eu sentia ao dizer: “Irei? Não irei? Escrever-lhe-ei? Não lhe escreverei?”. Será assim com todos os nossos prazeres? Não será melhor protelá-los do que gozá-los? Valerá a esperança mais do que a posse? Os ricos serão os pobres? Será que ambos estendemos demasiado os sentimentos, desenvolvendo desmedidamente as forças de nossa imaginação? Há momentos em que essa ideia me deixa gelada. Sabes por quê? Penso em voltar sem Griffith ao fundo do jardim. Até onde irei assim? A imaginação não tem limites, e os prazeres os têm. Dize-me, caro doutor de saias, como conciliar esses dois termos da existência da mulher?





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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.

Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844.[1] Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).

Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava.[1] De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850. 
          A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac;                            orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São                  Paulo: Globo, 2012. 

          (A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1                    0.000 kb; ePUB 

1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série. 

12-13086                                                                               cdd-843 

Índices para catálogo sistemático: 
1. Romances: Literatura francesa 843

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Leia também:

Honoré Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada - Ao "Chat-Qui-Pelote" (1)
Honoré Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (01)
Honoré Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (07)
Honoré Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (1)
Honoré Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (1a)
Honoré Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (2)
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Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (11)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (12)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (12b)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (13)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (14)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (15)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (16)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (17)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (18)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (19)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (20)
Honoré Balzac - A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (22)


quinta-feira, 30 de julho de 2020

A Peste - Albert Camus 1ªParte (02)

Albert Camus


A Peste




Parte I


continuando...



Parecia abatido e preocupado, esfregando o pescoço com um gesto maquinal. Rieux perguntou-lhe como ia de saúde. O porteiro não podia dizer, na verdade, que não ia bem. Simplesmente, não se sentia em forma. Em sua opinião, era o moral que estava um pouco abatido. Aqueles ratos tinham-no perturbado, e tudo ficaria melhor quando eles desaparecessem.

Mas no dia seguinte, 18 de abril, pela manhã, o médico, ao voltar com a mãe da estação, encontrou Michel com uma expressão ainda mais abatida: do porão ao sótão, uma dezena de ratos jazia nas escadas. Os caixotes do lixo das casas vizinhas estavam cheios deles. A mãe do médico tomou conhecimento da notícia sem se admirar.

— São coisas que acontecem. — Era uma senhora de cabelos prateados, de olhos negros e meigos. — Estou satisfeita por voltar a ver-te, Bernard. Os ratos nada podem contra isso.

Ele aprovava. Era verdade que, com ela, tudo lhe parecia sempre fácil.

Entretanto, Rieux telefonou ao serviço comunal de desratização, cujo diretor conhecia. Já ouvira falar desses ratos que vinham em bandos morrer ao ar livre? Mercier, o diretor, tinha ouvido falar nisso e, no seu próprio serviço, instalado próximo ao cais, tinham sido encontrados uns cinquenta. Perguntava a si próprio se a coisa teria importância. Rieux não podia decidir, mas pensava que se impunha uma intervenção do serviço de Mercier.

— Sim — disse Mercier -, com uma ordem. Se acha que vale realmente a pena, posso tentar obter essa ordem.

— Vale sempre a pena — respondeu Rieux.

Sua empregada acabava de lhe comunicar que tinham apanhado várias centenas de ratos mortos na fábrica onde o .marido trabalhava.

Foi mais ou menos nessa época que nossos concidadãos começaram a inquietar-se com o caso, pois, a partir do dia 18, as fábricas e os depósitos vomitaram centenas de cadáveres de ratos. Em alguns casos, foi necessário acabar de matar os bichos, pois sua agonia era demasiado longa. Mas desde os bairros exteriores até o centro da cidade, por toda parte onde o Dr. Rieux passava, por toda parte onde nossos concidadãos se reuniam, os ratos esperavam em montes, nas lixeiras ou junto às sarjetas, em longas filas. A imprensa da tarde ocupou-se do caso a partir desse dia e perguntou se a municipalidade se propunha ou não a agir e que medidas de urgência tencionava adotar para proteger seus munícipes dessa repugnante invasão. A municipalidade nada se tinha proposto e nada previra, mas começou por reunir-se em conselho para deliberar. Foi dada ordem ao serviço de desratização para recolher os ratos mortos todas as madrugadas. Em seguida, dois carros do serviço de desratização deveriam transportar os animais até o forno de incineração de lixo a fim de serem queimados.


Mas, nos dias que se seguiram, a situação agravou-se. O número de roedores apanhados ia crescendo, e a coleta era a cada manhã mais abundante. A partir do quarto dia, os ratos começaram a sair para morrer em grupos. Dos porões, das adegas, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para virem vacilar à luz, girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos. À noite, nos corredores ou nas ruelas, ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia. De manhã, nos subúrbios, encontravam-se estendidos nas sarjetas com uma pequena flor de sangue nos focinhos pontiagudos; uns inchados e pútridos; outros, rígidos e com os bigodes ainda eriçados. Na própria cidade, eram encontrados em pequenos montes nos patamares ou nos pátios. Vinham, também, morrer isoladamente nos vestíbulos das repartições, nos recreios das escolas, por vezes nos terraços dos cafés. Nossos concidadãos, estupefatos, encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade. A Place d’Armes, as avenidas, La Promenade de Frontde- Mer apareciam conspurcados. Limpa dos animais mortos ao amanhecer, a cidade voltava a encontrá-los pouco a pouco, cada vez mais numerosos durante o dia. Nas calçadas também, ocorria a mais de um noctívago sentir sob os pés a massa elástica de um cadáver ainda fresco, Dir-se-ia que a própria terra onde estavam plantadas nossas casas se purgava dos seus humores, pois deixava subir à superfície furúnculos que, até então, a minavam interiormente. Imaginem só o espanto da nossa pequena cidade, até então tão tranquila, transtornada em alguns dias, como um homem saudável cujo sangue espesso se pusesse de repente em revolução!

As coisas foram tão longe que a Agência Ransdoc (informações, documentação, todas as informações sobre qualquer assunto) anunciou, na emissão radiofônica de informações gratuitas, seis mil, duzentos e trinta e um ratos apanhados e queimados, só no dia 25. Este número, que dava um sentido claro ao espetáculo cotidiano que a cidade tinha diante dos olhos, aumentou a agitação. Até então, as pessoas tinham apenas se queixado de um espetáculo um pouco repugnante. Compreendia-se agora que esse fenômeno, de que não se podia ainda avaliar a amplitude nem determinar a origem, tinha qualquer coisa de ameaçador. Só o velho espanhol asmático continuava a esfregar as mãos e a repetir com uma alegria senil:

— Eles estão saindo, estão saindo.

Entretanto, a 28 de abril, a Ransdoc anunciava uma coleta de aproximadamente oito mil ratos, e a ansiedade atingiu o auge. Exigiam-se medidas radicais, acusavam-se as autoridades, e alguns que tinham casa à beira-mar já falavam em retirar-se para lá. Mas no dia seguinte, a agência anunciou que o fenômeno cessara bruscamente e que o serviço de desratização apanhara apenas uma quantidade insignificante de ratos mortos. A cidade respirou.

Contudo, foi na mesma data, ao meio-dia, que o Dr. Rieux, ao parar o carro diante de casa, viu ao fundo da rua o porteiro, que caminhava com dificuldade, de cabeça baixa, com os braços e as pernas afastados, numa atitude de fantoche. O velho apoiava-se no braço de um padre, que o doutor reconheceu. Era o Padre Paneloux, um jesuíta erudito e militante que encontrara algumas vezes, e que era muito estimado na nossa cidade, mesmo por aqueles que são indiferentes em matéria de religião. Esperou-os. O velho Michel tinha os olhos brilhantes e a respiração ruidosa. Não se sentia muito bem e tinha saído para tomar ar, mas dores vivas no pescoço, nas axilas e nas virilhas tinham-no obrigado a voltar e a pedir auxílio ao Padre Paneloux.

— São uns inchaços — disse. — Devo ter feito algum esforço. com o braço fora da porta, o médico apalpou o pescoço que ele lhe estendia. Tinha-se formado uma espécie de nó.

— Deite-se e tire a temperatura. Venho vê-lo esta tarde.

Quando o porteiro partiu, o médico perguntou ao Padre Paneloux o que achava daquela história de ratos.

— Oh — respondeu o padre -, deve ser uma epidemia.

E os olhos sorriram por detrás dos óculos redondos.

Depois do almoço, Rieux relia o telegrama da casa de saúde que lhe anunciava a chegada de sua mulher quando o telefone tocou. Era um dos seus antigos clientes, empregado da Câmara, que o chamava. Sofrera durante muito tempo de um estreitamento da aorta e, como era pobre, Rieux tratara-o de graça.

— Sim — dizia ele -, sei que se lembra de mim. Mas é de outra pessoa que se trata. Venha depressa. Aconteceu alguma coisa em casa do meu vizinho.

Falava com voz cansada. Rieux pensou no porteiro e decidiu que o veria depois. Alguns minutos mais tarde, atravessava a porta de uma casa baixa da Rue Faidherbe, num bairro periférico. No meio da escada, fria e malcheirosa, encontrou Joseph Grand, o empregado da Câmara que vinha ao seu encontro. Era um homem dos seus cinquenta anos, de bigode amarelo, alto e curvado, com os ombros estreitos e os membros magros.

— Agora estou melhor — disse, ao chegar perto de Rieux -, mas julguei que ia morrer.

Assuou o nariz. No segundo e último andar, na porta da esquerda, Rieux leu, escrito com giz vermelho. “Entre. Eu me enforquei”.

Entraram. Uma corda estava pendurada por cima de uma cadeira caída, a mesa fora empurrada para um canto. Mas ela pendia no vazio.

— Desatei-o a tempo — dizia Grand, que parecia sempre rebuscar as palavras, embora falasse a linguagem mais simples. — Ia justamente sair, quando ouvi ruído. Ao ver a inscrição, como explicar-lhe?, julguei que se tratava de uma brincadeira. Mas ele soltou um gemido engraçado, até mesmo sinistro, se assim se pode dizer.

Coçou a cabeça.

— Na minha opinião, a operação deve ser dolorosa. Naturalmente, entrei.

Tinham empurrado uma porta e encontravam-se à entrada de um quarto claro, mas pobremente mobiliado. Um homenzinho gordo estava deitado no leito de cobre, Respirava fortemente e olhava-os com olhos congestionados. O médico deteve-se. Nos intervalos da respiração, parecia-lhe ouvir guinchos de ratos. Mas nada se mexia pelos cantos. Rieux aproximou-se do leito. O homem não tinha caído de muito alto, nem muito bruscamente, e as vértebras tinham resistido. Na verdade, um pouco de asfixia. Seria necessário fazer uma radiografia. O médico deu-lhe uma injeção de óleo canforado e disse que tudo estaria bem dentro de alguns dias.

— Obrigado, doutor — agradeceu o homem, com uma voz sufocada.

Rieux perguntou a Grand se tinha avisado o comissário, e o empregado ficou com um ar confuso.

— Não, não! Pensei que o mais urgente. . .

— Sem dúvida — interrompeu Rieux. — vou fazê-lo agora.

Nesse momento, porém, o doente agitou-se e ergueu-se no leito, protestando que estava melhor e que não valia a pena.

— Acalme-se — disse Rieux. — Não tem importância, acredite, mas é necessário que eu faça a minha declaração.

— Oh! — exclamou o outro.

E atirou-se para trás, chorando com soluços curtos. Grand, que há um momento cofiava o bigode, aproximou-se dele.

— Vamos, Sr. Cottard, tente compreender. Pode-se dizer que o doutor é responsável. Se, por exemplo, o senhor tivesse vontade de recomeçar. . .

Mas Cottard, entre lágrimas, disse que não recomeçaria, que fora apenas um momento de loucura e que só desejava que o deixassem em paz. Rieux redigia uma receita.

— Entendido. Deixemos isso. Voltarei dentro de dois ou três dias. Mas não faça bobagens.

No patamar, disse a Grand que era obrigado a fazer a declaração, mas que pediria ao comissário que só procedesse ao inquérito daí a dois dias.

— É preciso vigiá-lo esta noite. Ele tem família?

— Não a conheço. Mas posso vigiá-lo eu mesmo.

Abanava a cabeça. — Tampouco posso dizer que o conheço, note bem. Mas é preciso nos ajudarmos uns aos outros.

Nos corredores da casa, Rieux olhou maquinalmente para os cantos e perguntou a Grand se os ratos tinham desaparecido totalmente do seu bairro. O funcionário nada sabia. Tinham-lhe falado, na verdade, dessa história, mas ele não prestava atenção aos boatos do bairro.

— Tenho mais com que me preocupar — afirmou. Rieux já lhe apertava a mão. Tinha pressa de ver o porteiro antes de escrever à mulher.

Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços, sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna.

— Está ardendo — dizia ele -, esta porcaria está ardendo.

A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para o médico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabeça fazia correr lágrimas. A mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo.

— Doutor — perguntou ela -, que é isto?

— Pode ser uma série de coisas. Mas não há ainda nada de certo. Até esta noite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante líquido.

Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar à casa, Rieux telefonou ao seu colega Ríchard, um dos médicos mais importantes da cidade.

— Não — dizia Richard -, não vi nada de extraordinário.

— Nem febre com inflamações locais?

— Ah! Sim, na verdade, dois casos de gânglios muito inflamados.

— Anormalmente?

— Sim — respondeu Richard -, o normal, você sabe. . .

A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus, queixava-se dos ratos. Rieux tentou um abscesso de fixação. Sob a queimadura da terebintina, o porteiro berrou: — Ah, são uns safados.

Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. A mulher do porteiro afligia-se:

— Fique junto dele — ordenou o médico — e, se for necessário, pode me chamar.

No dia seguinte, 30 de abril, uma brisa já morna soprava sob um céu azul e úmido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nas ruas, os ruídos da manhã pareciam mais vivos, mais alegres do que habitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreensão em que tinha vivido durante a semana, esse era o dia da renovação. O próprio Rieux, tranquilizado por uma carta da mulher, desceu até a casa do porteiro. E na verdade, de manhã, a febre caíra para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doente sorria no leito.

— Está melhor, não é verdade, doutor? — perguntou a mulher.

— Vamos esperar um pouco
.




continua pág 15...


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A Peste - Albert Camus 1ªParte (03)


quarta-feira, 29 de julho de 2020

histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda

mulheres descalças


o siô ajeitado e as duas miúda
Ensaio 127Bzb – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




inatie aye acenô da cabeça, tava sabendo das vontade daquele dono das corda trançada e amarrada feito um colá de morte e sofrimento no seu pescoço, Negrinha! Não se faça de surda. Escuta. Presta bem atenção, a voz agachô inté parecê um zumbido desalmado, duro, sem fim, vou desamarrar a corda do pescoço da negrinha, mas não esquece da sua mãezinha acorrentada. Vai me dar muito prazer fazer ela pagar por suas bobagens. Entendeu, negrinha?

inatie aye acenô otra veiz da cabeça, o corpo todo tremia, as palavra tava escondida, as mão continuava pendurada, uma em cada lado, os dedo piquinino num mexia, eles continuava apontando pra terra, nehum mexia, as água dusóio derramando, sem um gemido, aprendia perdê pedaço da vida, uma lasca toda veiz e cada veiz mais quanto mais a vida nela crescia 

uspé descalço continuava empurrando o chão daquele lugá qui apreciava inerte tanto ódio e desprezo, fingimento qui diz num sabê, num vê nem escutá maldade, Muito bem, é só obedecer que não vai ter castigo. E não duvide, eu gosto disso tudo, curvô otra veiz, inté a miúda sentí umidade nas palavra ajeitada, uma a uma, como num jogo, queria amarrá o medo da morte nas vontade da vida, não esqueça, eu sou muito poderoso. Eu sou a autoridade que castiga os fujões, os atrevidos, os preguiçosos. Entendeu, negrinha? Eu escolho a negrinha que morre, a negrinha que vive...

continuô parada esperando sê desatada, sem a corda ficô mais amarrada duqui antes, num queria sê mais um fardo pra mais dô na mãinha, num podia se desatá, gritá ou fugí nem abandoná seu corpo defunto, precisava aprendê sê mais uma muié preta corajosa, queria vivê

ducéu se soltava uma ventania qui mais parecia gemido, as vista naquele lugá chorava tristeza, a animação ficava por conta daqueles grito com oferecimento e procura, compra e venda, E essa crioulinha quanto vai me custar?

num existi vendedô quando num tem compradô

o trabáio escravizadô oiô pru siô ajeitado qui se mostrô interessado, boa vestimenta, segurando pelas mão duas miúda cô do leite, descobriu só divê qui usiô tava querendo uma boneca de carne e osso preta pras duas miúda branca, Aham, pensô, é de pequenininha que se entorta o pepino e se ensina quem obedece e quem manda, sentiu pelo faro qui era negócio bão pra sê feito, Essa é Antônia, a idade presumida é dez anos, estatura a crescer, rosto comprido, os olhos pretos e os olhos grossos compensam o nariz achatado. Não tem moléstia. Não tem marca de nagô na cara, tem os pés pequenos e nenhum osso quebrado. Não tem nenhuma marca de castigo porque é obediente, já aprendeu o seu lugar de ficar. Não dá trabalho nem precisa de muito cuidado. Não se queixa nem sofre da vaidade de querer se mostrar mais do que é. Não tem imaginação nem as asas que fazem a vontade querer voar. Não levanta os olhos e não pega nada sem ser mandada. Eu tenho orgulho das atitudes dessa negrinha. É uma venda que me deixa triste e satisfeito. Triste porque vou perder a negrinha e satisfeito porque é uma venda que não vai me dar dor de cabeça com alguma reclamação ou insatisfação. É um bom negócio para as duas partes.

Tanto elogio só pode ser para subir o preço...

De maneira nenhuma, preço justo é preço justo. Mas é preciso ficar atento, o sinhô sabe como é, né? Negro é negro, em algum momento vai fazer alguma cagada... desculpe desculpe, esqueci as meninas e as boas maneiras... a crioulada sempre faz alguma coisa errada quando chega ou quando sai. É assim, e pronto. Mas acredito que a Antônia vai se esforçar. De qualquer maneira a tentação é a mão da desobediência, é preciso ter pulso firme.

parô as palavra, gostava de pará e depois avisá qui nuseu ensinamento prus pretu num tinha desatenção nem afrôxamento, mais agora precisava sabê do interesse daquele siô ajeitado e se aquela falação toda foi caso ditê adiantado, esperô pra sabê se a conversa num ia pará, E os dentes?

é isso, o siô ajeitado tinha mordido a isca, um pêxe grande na sua linha, o trabáio escravizadô soltô um suspiro desses traqui qui ninguém vê, a primêra parte tava cumprida, agora vinha a parte do preço, sabê vendê é sabê entendê o compradô



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