domingo, 30 de junho de 2019

Caderno de Poesias - mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende

Maria Bethânia

Caderno de Poesias - a voz o violão o bandeiro a poesia




quem fala de mim tem paixão
eu sei que ler ouvir dizer poesia
hoje
neste tempo de tanto desapego
e tanta correria
é uma tarefa difícil
é como provocar o mundo
ofender o mundo
vivemos como se não coubesse mais o silêncio
e as delicadezas,
mas cabem




os nomes dos poetas populares deveriam estar na boca do povo











Meu bom Jesus Nazareno
Pela vossa majestade
Fazei que cada pequeno
Que vaga pela cidade
Tenha boa proteção,
Tenha em vez de uma prisão,
Aquele medonho inferno
Que revolta e desconsola,
Bom consolo e boa escola
Um lápis e um caderno.

Patativa do Assaré


Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (6)

 Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1


1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



Memórias de duas jovens esposas





PRIMEIRA PARTE




VI – DOM FELIPE HENAREZ A DOM FERNANDO





Paris, setembro


A data desta carta lhe dirá, meu caro irmão, que o chefe de sua casa não corre nenhum perigo. Se o massacre dos nossos antepassados no Pátio dos Leões [107] nos fez, contra a vontade, espanhóis e cristãos, legou-nos a prudência dos árabes; e talvez deva eu a minha salvação ao sangue de Abencerragem que ainda corre em minhas veias. O medo tornava Fernando [108] tão bom comediante que Valdez acreditava nos seus protestos. Sem mim, aquele pobre almirante estaria perdido. Os liberais jamais saberão o que é um rei. Mas o caráter desse Bourbon de há muito me é conhecido: quanto mais Sua Majestade nos assegurava sua proteção, mais despertava minha desconfiança. Um verdadeiro espanhol não tem necessidade de repetir suas promessas. Quem muito fala, pretende enganar. Valdez se foi, num navio inglês. Quanto a mim, assim que os destinos de minha querida Espanha ficaram perdidos na Andaluzia, escrevi ao meu procurador na Sardenha para prover a minha segurança. Hábeis pescadores de coral aguardavam-me com um barco, num ponto da costa. Quando Fernando recomendava aos franceses que se apoderassem da minha pessoa, eu já estava na minha baronia de Macumer, entre bandidos que desafiavam todas as leis e todas as vinganças. A última casa hispano moura de Granada tornou a encontrar os desertos da África, e até o cavalo sarraceno, numa propriedade que lhe vem dos sarracenos. Os olhos desses bandidos brilhavam de alegria e de selvagem orgulho ao saber que estavam protegendo, contra a vendeta do rei da Espanha, o duque de Sória, seu senhor, um Henarez, o primeiro que os vinha visitar desde a época em que a ilha pertencia aos mouros, eles que na véspera temiam minha justiça. Vinte e duas carabinas ofereceram-se para alvejar Fernando de Bourbon, esse filho de uma raça ainda desconhecida, no dia em que os abencerragens chegavam, como vencedores, às margens do Loire. Eu julgava poder viver das rendas daquele imenso patrimônio do qual infelizmente tão pouco nos lembramos; mas minha estada demonstrou-me meu erro e a veracidade dos relatórios de Queverdo. O pobre homem tinha vinte e duas vidas a meu serviço e nem um real; savanas de vinte mil jeiras, sem uma casa: florestas virgens e nenhum móvel! Um milhão de piastras e a presença do dono, durante meio século, é o que seria preciso para valorizar aquelas terras magníficas: pensarei nisso. Os vencidos meditam, durante a fuga, sobre si mesmos e sobre a partida que perderam. Ao ver aquele belo cadáver roído pelos monges, meus olhos se encheram de lágrimas: reconhecia nele o triste futuro da Espanha. Soube em Marselha do fim de Riego. [109] Pensei dolorosamente que também minha vida se vai terminar por um martírio, mas longo e obscuro. Será acaso existir, quando não pode uma pessoa consagrar-se ao seu país, nem viver por uma mulher? Amar, conquistar, essa dupla face da mesma ideia, era a lei gravada em nossos sabres, escrita com letras de ouro nas abóbadas de nossos palácios, incessantemente repetidos pelos repuxos que se alteavam em feixes nos nossos tanques de mármores. Essa lei, porém, inutilmente fanatiza meu coração: o sabre está partido, o palácio reduzido a cinzas, a fonte viva travada por areais estéreis.

Eis, pois, o meu testamento: 

Dom Fernando, ides compreender o motivo por que eu refreava vosso ardor, ordenando-vos que permanecêsseis fiel ao rei neto. 

Como teu irmão e teu amigo, suplico-te que obedeças; como vosso senhor, ordeno-vos. Ireis ao rei, pedir-lhe-eis minhas grandezas e meus bens, meu cargo e meus títulos; ele hesitará, talvez, fará algumas caretas reais, mas vós lhe direis que sois amado por Maria de Heredia, e que Maria não pode desposar senão o duque de Sória. Vê-lo-eis então estremecer de alegria: a imensa fortuna dos Heredia impedia-o de consumar minha ruína: assim ela lhe parecerá completa, e vós tereis imediatamente os meus despojos. Desposareis Maria: eu havia descoberto o segredo de nosso mútuo amor contrariado. Por isso, preparei o velho conde para essa substituição. Maria e eu obedecíamos às conveniências e aos desejos de nossos pais. Sois belo como um filho do amor, eu sou feio como um grande de Espanha, sois amado, eu sou objeto de uma repulsa inconfessada; vós em breve tereis vencido a pouca resistência que minha desgraça inspirará, talvez, àquela nobre espanhola. Duque de Sória, vosso antecessor, não vos quer custar nem um pesar, nem vos privar de um maravedi. Como as joias de Maria podem preencher o vácuo que os diamantes de minha mãe farão em nossa casa, mandar-me-eis esses diamantes, que bastarão para assegurar a independência de minha vida, por minha ama de leite, a velha Urraca, a única pessoa que, de entre meus serviçais, quero conservar: só ela sabe preparar bem meu chocolate. 

Durante nossa curta revolução, meus constantes trabalhos haviam limitado minha vida ao necessário e os ordenados do meu cargo bastavam para supri-lo. Encontrareis as rendas destes dois últimos anos nas mãos de vosso intendente. Essa quantia pertence-me: o casamento de um duque de Sória acarreta grandes despesas, nós a partilharemos. Não recusareis o presente de bodas de vosso irmão, o bandido. De resto, tal é minha vontade. A baronia de Macumer, não estando sob a mão do rei da Espanha, permanece minha e me deixa a faculdade de ter uma pátria e um nome se, por acaso, eu quisesse vir a ser alguma coisa. 

Deus seja louvado, são terminados os negócios, a casa de Sória está salva! 

No momento em que nada mais sou do que o barão de Macumer, os canhões franceses anunciam a entrada do duque de Angoulême. Compreendereis, senhor, o motivo pelo qual interrompo aqui minha carta...



Outubro

Ao chegar aqui eu não possuía dez dobrões. Não é bem pequeno o homem de Estado quando, em meio às catástrofes que não soube impedir, mostra uma previdência egoísta? Para os mouros vencidos, um cavalo e o deserto; para os cristãos ludibriados nas suas esperanças, o convento e algumas moedas de ouro. 

Entretanto, minha resignação, por enquanto, é apenas lassidão. Não estou ainda bastante perto do mosteiro para não pensar em viver. Ozalga, pelo sim, pelo não, dera-me cartas de recomendação, entre as quais uma havia para um livreiro que representa para os nossos compatriotas o que Galignani [110] representa aqui para os ingleses. Esse homem conseguiu-me oito alunos a três francos por lição. Vou, pois, à casa dos meus discípulos a cada dois dias, tendo portanto quatro aulas por dia e ganhando doze francos, quantia bem superior às minhas necessidades. À chegada de Urraca, farei a felicidade de algum espanhol proscrito, cedendo-lhe minha clientela. Estou alojado na rue Hillerin-Bertin, em casa de uma pobre viúva que aceita pensionistas. Meu quarto dá para sul e se abre sobre um jardinzinho. Não ouço nenhum barulho, vejo o verdor das plantas e não gasto no total senão uma piastra por dia; estou admirado dos prazeres calmos e puros que gozo nesta vida de Dionísio em Corinto. [111] Desde o despontar do dia até as dez horas, fumo e tomo o meu chocolate, sentado à minha janela, contemplando duas plantas espanholas, um la giesta que se ergue entre um maciço de jasmins: ouro sobre um fundo branco, uma imagem que fará sempre estremecer um rebento de mouros. Às dez horas ponho-me a caminho para lecionar até as quatro. A essa hora volto para jantar, fumo e leio até deitar-me. Posso levar muito tempo nesta vida, que o trabalho e a meditação, a solidão e a sociedade amenizam. Sou, pois, feliz, Fernando; a minha abdicação se realiza sem segundas intenções; não a acompanha nenhum arrependimento, como a de Carlos v, nenhum desejo de recomeçar a partida, como a de Napoleão. Cinco noites e cinco dias passaram por sobre minhas disposições testamentárias, e o pensamento fez deles cinco séculos. As dignidades, os títulos, os bens são para mim como se jamais tivessem existido. Agora que a barreira do respeito que nos separava esboroou-se, posso, querido mano, deixar-te ler em meu coração. Esse coração que a sisudez recobre com uma armadura impenetrável está cheio de ternuras e de dedicações sem destino; nenhuma mulher, porém, o adivinhou, nem mesmo aquela que desde o berço me foi destinada. É esse o segredo de minha ardente vida política. 

À falta de amante, adorei a Espanha. E a Espanha também me escapou! Agora que nada mais sou, posso contemplar o eu destruído, perguntar-me por que veio a mim a vida e quando se irá ela. Por que a raça cavalheiresca, por excelência, pôs no seu último rebento suas primitivas virtudes, seu amor africano, sua cálida poesia? Se a semente deve conservar seu rugoso envoltório sem dar nascimento a uma haste, sem esparzir seus perfumes orientais de uma radiosa corola? Que crime cometi eu antes de nascer, para não inspirar amor a ninguém? Desde o meu nascimento, seria eu, pois, um velho batel, destinado a dar às costas sobre uma praia de áridas areias? Torno a encontrar em minha alma os desertos paternos, iluminados por um sol que os requeima, sem deixar que nada neles cresça. Remanescente orgulhoso de uma raça decaída, força inútil, amor perdido, jovem velho, esperarei, pois, onde estou, melhor do que em qualquer outro lugar, o último favor da morte. Ai de mim! Sob este céu brumoso, nenhuma centelha reanimará a chama em todas estas cinzas. Assim, pois, poderei, numa última frase, dizer como Jesus Cristo: Meu Deus, por que me abandonaste? Palavras terríveis, que ninguém se animou a sondar. 

Imagina, Fernando, como não me sinto feliz por reviver em ti e em Maria! Doravante, eu vos contemplarei com o orgulho de um criador ufano de sua obra. Amem-se muito e sempre e não me deem desgostos: uma tormenta entre ambos causar-me-ia mais dores do que a vocês mesmos. Nossa mãe pressentiu que os acontecimentos, um dia, favoreceriam as suas esperanças. O desejo de uma mãe é talvez um contrato formado entre ela e Deus. De resto não era ela um desses seres misteriosos que se podem comunicar com o céu, dele trazendo uma visão do futuro? Quantas vezes pude ler nas rugas de sua fronte seu desejo de ver Fernando com as honras e os bens de Felipe! Dizia-lhe muitas vezes; ela, porém, me respondia com duas lágrimas e me mostrava as chagas de um coração que nos era devido inteiramente quer a um, quer a outro, mas que um invencível amor entregava somente a ti. Por isso a sua sombra jubilosa há de pairar por sobre as vossas cabeças, quando as inclinardes ante o altar. Virá finalmente acariciar seu Felipe, dona Clara? Bem o vê, ele cede ao seu filho dileto até a moça que com pesar a senhora lhe colocava sobre os joelhos. O que faço agrada às mulheres, aos mortos, ao rei. Deus o queria, portanto nada alteres, Fernando: obedece e cala-te.


p. s. — Recomenda a Urraca de não me chamar de outra forma senão de sr. Henarez. Não digas uma palavra a meu respeito a Maria. Deves ser o único ser vivo que conheça os segredos do último mouro cristianizado, em cujas veias morrerá o sangue da grande família nascida no deserto e que vai extinguir-se na solidão. Adeus.




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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.

Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844.[1] Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).

Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava.[1] De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850. 
          A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac;                            orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São                  Paulo: Globo, 2012. 

          (A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1                    0.000 kb; ePUB 

1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série. 

12-13086                                                                               cdd-843 

Índices para catálogo sistemático: 
1. Romances: Literatura francesa 843

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[107]O massacre de nossos antepassados no Pátio dos Leões: dom Felipe Henarez, o autor desta carta, é um descendente, segundo sua própria afirmação, da outrora poderosa tribo moura dos Abencerragens. As lutas dessa tribo legendária com a dos Zegris teriam apressado a queda do reino de Granada (1480-1492). O amor de um Abencerragem à irmã ou à esposa do soberano Boabdil teria ocasionado o massacre dos principais membros da tribo no famoso Pátio dos Leões, de Alhambra. Esse episódio inspirou a obra de Chateaubriand, O último Abencerragem. 
[108]O Fernando de que se trata aqui é o rei Fernando VII de Espanha (1784-1833). Retido por Napoleão em Valençay, abdicou a favor do irmão deste, José Bonaparte; quando o imperador lhe devolveu a coroa, voltou em 1813 à Espanha para ali restabelecer a monarquia absoluta. Seu despotismo provocou a Revolução Liberal de 1820 — em que dom Felipe Henarez também tomou parte —, que o forçou a outorgar a constituição; ao cabo de três anos, porém, com o auxílio de um exército francês comandado pelo duque de Angoulême conseguiu derrubar as Cortes e inaugurar outro período de reação absolutista, volvendo a ser o rei neto. Uma de suas primeiras medidas nessa ocasião consistiu em ordenar a prisão de Gaetano Valdez y Flores, presidente do conselho de regência eleito pelas Cortes, apesar dos serviços que este prestou à casa real durante o assédio de Cádis. Fugindo à morte certa, Valdez y Flores emigrou para a Inglaterra, de onde só voltou para a Espanha em 1834. 
[109]General Rafael Riego y Núnes: um dos chefes dos patriotas liberais, foi enforcado por ordem de Fernando vii em 1823. 
[110]Galignani: dono de uma livraria da rue Vivienne, que vendia também livros ingleses. 
[111] Esta vida de Dionísio em Corinto: Dionísio ii ou o Jovem, tirano de Siracusa, depois de um reino odioso, foi exilado de sua pátria e retirou-se com os seus tesouros para Corinto.

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Leia também:



Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (5)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (7)


bdia,,,, chet, paul, eric...

Autumn Leaves 




escute...
o murmúrio dá mais ânimo que a gritaria
ele ensina o ar 
ficar de pernas para o ar





Chet Baker - Paul Desmond




Eric Clapton






bnoite, espanhola

Zé Rodrix, Sá & Guarabyra

Espanhola, Casa no campo, Caçador de mim




Sempre assim, cai o dia e é assim
Cai a noite e é assim
Essa lua sobre mim
Essa fruta sobre o meu paladar





casa no campo/ caçador de mim




Por tanto amor
por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu, caçador de mim...


Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim...


Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o mêdo...


Abrir o peito
À força numa procura
Fugir às armadilhas
Da mata escura...


Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim...


Abrir o peito
À força numa procura
Fugir às armadilhas
Da mata escura...


Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim...


Lá, Underá, Underá, Lá
Lá, Underá, Underá, Lá...


Compositores: Luiz Carlos Sá / Sergio Magrão





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Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos

E um filho de cuca legal
Eu plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais



Compositores: Jose Rodrigues Trindade / Luiz Otavio De Melo Carvalho









Por tantas vezes
Eu andei mentindo
Só por não poder
Te ver chorando

Te amo espanhola
Te amo espanhola
Se for chorar, te amo
Te amo espanhola
Te amo espanhola
Se for chorar te amo

Sempre assim, cai o dia e é assim
Cai a noite e é assim
Essa lua sobre mim
Essa fruta sobre o meu paladar

Nunca mais quero ver você me olhar
Sem lhe entender em mim
Eu preciso lhe falar
Eu preciso eu tenho que lhe contar

Te amo espanhola
Te amo espanhola
Se for chorar te amo
Te amo espanhola
Te amo espanhola
Se for chorar te amo

Sempre assim
Cai o dia e é assim
Cai a noite e é assim
Essa lua sobre mim
Essa fruta sobre o meu paladar

Nunca mais quero ver você me olhar
Sem lhe entender em mim
Eu preciso lhe falar
Eu preciso eu tenho que lhe contar

Te amo espanhola
Te amo espanhola
Pra que chorar, te amo
Te amo espanhola
Te amo espanhola
Pra que chorar, te amo


Compositores: Flavio Venturini / Guttemberg Nery Guarabyra Filho





elis e a sua casa no campo, maravilha








sábado, 29 de junho de 2019

Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(3)

Edgar Allan Poe - Contos




Aventuras de Arthur Gordon Pym 
Título original: Narrative of A. G. Pym 
Publicado em 1837




2 — O Esconderijo (3)




continuando...


Mesmo que, para salvar mil vezes a vida, apenas tivesse que mexer um membro ou pronunciar uma sílaba, não o teria feito. O animal, fosse ele qual fosse, continuava na mesma posição, sem tentar nenhum ataque imediato e eu continuava deitado debaixo dele num estado de completa impotência, que julgava próximo da morte. Sentia que as minhas faculdades físicas e espirituais me abandonavam rapidamente, em resumo, sentia-me morrer e morria de terror. O meu cérebro flutuava, a náusea mortal da vertigem invadia-me, os olhos traíam-me e os globos brilhantes fixos em mim pareciam também escurecer. Fazendo um supremo e violento esforço, lancei a Deus uma débil prece e resignei-me a morrer. O som da minha voz parecia acordar toda a fúria latente do animal, que se atirou para cima de mim. Mas qual não foi a minha surpresa quando, soltando um longo e surdo gemido, começou a lamber-me o rosto e as mãos com a maior petulância e as mais extravagantes demonstrações de afeto e de alegria! Estava como que aturdido, confuso de espanto, mas não podia esquecer os gemidos característicos do Tigre, o meu terra-nova, e conhecia bem a forma bizarra das suas carícias. Era ele. Senti como que uma torrente de sangue afluir-me às têmporas, como que uma sensação vertiginosa, esmagadora de libertação e ressurreição. Ergui-me precipitadamente do colchão da minha agonia e, lançando-me ao pescoço do meu fiel amigo e companheiro, aliviei a opressão do meu coração chorando. 

Como já acontecera antes, quando me levantei do colchão, o meu cérebro estava mergulhado na mais perfeita confusão e desordem. Durante bastante tempo, foi-me impossível ligar dois pensamentos, mas lenta e gradualmente voltou-me a faculdade de pensar e, por fim, lembrei-me das circunstâncias da minha situação. Quanto à presença do Tigre, em vão, me esforcei por explicá-la e, depois de me ter perdido em mil conjeturas, alegrei-me pura e simplesmente por ele ter vindo partilhar a minha lúgubre solidão e confortar-me com as carícias. Há muita gente que gosta de cães, mas eu tinha por Tigre um afeto muito mais ardente do que o comum e nunca uma criatura o mereceu mais do que ele. Durante sete anos lora o meu companheiro inseparável e, em numerosas ocasiões, tinha-me dado a prova de todas as nobres qualidades que nos fazem estimar um animal. Quando era um pequeno cachorro, tinha-o arrancado das manápulas de um malandrim de Nantucket que o arrastava para a água com uma corda ao pescoço, e o cão, quando cresceu, pagou-me a sua dívida, três anos mais tarde, salvando-me da moca de um ladrão. 

Peguei então no relógio e, encostando-o ao ouvido apercebi-me que tinha parado outra vez; mas não fiquei nada surpreendido, pois atendendo ao estado dos meus sentidos, estava convencido de que tinha dormido, como já me havia acontecido, durante um período de tempo muito longo. Quanto tempo? Não sabia. Estava consumido pela febre e a sede era quase insuportável. Procurei, às apalpadelas, na caixa, a pouca água que ainda devia existir da minha provisão, porque não tinha luz, pois a vela tinha ardido até ao fim e naquele momento não conseguia encontrar os fósforos. Encontrando, por fim, o cântaro, verifiquei que estava vazio; certamente tinha sido o Tigre que, não resistindo à sede, bebera a água e devorara o que restava da perna de carneiro, cujo osso, impecavelmente limpo, estava à entrada da caixa. Podia passar sem a carne, mas sentia faltarem-me as forças ao pensar na água. Estava tão fraco que ao menor movimento, ao mais ligeiro esforço, tremia todo, como num violento acesso de febre. Para aumentar a minha desgraça, o brigue dançava e balançava com grande violência e os barris de óleo, colocados por cima da caixa ameaçavam cair a qualquer momento e tapar a única saída do meu esconderijo. Além disso, sofria horrivelmente com o enjoo. Todas estas considerações convenceram-me a dirigir-me ao acaso em direção ao alçapão e a tentar obter socorro imediato, antes de ser incapaz de o fazer. Tomada esta resolução, procurei de novo, às apalpadelas, os fósforos e as velas. Descobri os fósforos com muito esforço, mas, não encontrando as velas tão depressa quanto esperava, pois nem sequer me lembrava onde as tinha deixado, abandonei as pesquisas e, recomendando a Tigre que se mantivesse sossegado, comecei a minha viagem em direção ao alçapão. 

Nesta tentativa, a minha extrema fraqueza ainda se tornou mais manifesta. Só com um enorme esforço conseguia arrastar-me e muitas vezes as minhas pernas dobravam sob o meu peso. Depois, caindo para a frente, ficava durante alguns minutos num estado vizinho da insensibilidade. Contudo, lutava sempre e avançava lentamente, receando a todo o momento desmaiar naquele estreito e complicado labirinto do porão, o que teria como consequência a morte. Depois, fazendo um tremendo esforço com toda a energia de que dispunha, bati violentamente com a testa na esquina pontiaguda de uma caixa reforçada de ferro. O acidente apenas me causou um aturdimento durante alguns instantes, mas descobri, com indescritível mágoa, que o movimento seco e violento do navio tinha lançado a caixa no meu caminho, cortando completamente a passagem. Mesmo usando toda a minha força, não a consegui deslocar nem sequer uma polegada, pois estava solidamente entalada entre as caixas vizinhas e os apetrechos de bordo. Devia, portanto, fraco como estava, saltar por cima do obstáculo e retomar o caminho do outro lado. A primeira hipótese apresentava demasiados perigos e dificuldades e não podia pensar nela sem sentir um arrepio. Esgotado física e espiritualmente, acabaria com certeza por me perder se tentasse semelhante imprudência, e por morrer como um miserável naquele lúgubre e repugnante labirinto do porão. 

Quando me levantei para executar o meu plano, verifiquei que a empresa ultrapassava as minhas previsões e implicava um trabalho muito mais complicado do que eu imaginara. De cada lado da estreita passagem, erguia-se uma verdadeira parede feita de uma enorme quantidade de materiais dos mais pesados; o menor descuido da minha parte podia fazê-los cair sobre mim; se escapasse dessa desgraça, o caminho de regresso podia ficar completamente vedado pelos objetas deslocados, e assim, estava de novo frente a um obstáculo. Quanto à caixa, era muito alta e maciça e os pés não encontravam nela nenhum ponto de apoio, esperando conseguir elevar-me apoiando-me nos braços. Se tivesse tido êxito, era mais que certo não ter força suficiente para me elevar e, de qualquer maneira, era melhor não ter conseguido. Mais tarde, quando fazia um esforço desesperado para deslocar a caixa, senti como que uma vibração sensível do lado voltado para mim. Deslizei a mão sobre os interstícios das tábuas e apercebi-me que uma delas, das mais largas, oscilava. Com uma faca, que felizmente trazia comigo, consegui com muito esforço arrancá-la por completo. Passando através da abertura, descobri, com alegria, que não havia tábuas do outro lado, por outras palavras que a caixa não tinha tampa e que tinha sido através do fundo que tinha aberto passagem. A partir dali segui a corda sem grandes dificuldades, até ao local onde estava presa ao prego. Sentia o coração a bater com mais força, quando empurrei suavemente a porta do alçapão, que não se abriu com a prontidão que eu esperava; empurrei então com um pouco mais de força, receando que alguém, sem ser Augusto, se encontrasse na cabina. No entanto, para meu espanto, a porta continuava fechada e eu fiquei muito inquieto, porque sabia que antes ela cedia à menor pressão. Empurrei-a com vigor e ela não mexeu; com toda a força e não quis ceder; com raiva, com fúria, com desespero e ela desafiou todos os meus esforços. Era evidente, a julgar pela inflexibilidade da resistência, que o buraco fora descoberto e solidamente tapado, ou que algum objeta muito pesado fora colocado em cima, afastando qualquer hipótese de ser removido. 

O que senti foi uma extrema sensação de horror e de medo. Em vão tentei raciocinar sobre a causa provável que me emparedava no meu túmulo. Não conseguia dar um encadeamento lógico aos meus pensamentos; deixei-me cair no chão e abandonei-me, sem resistência, aos pensamentos mais negros, entre os quais se salientavam, esmagadores e terríveis, a morte pela sede, a morte pela fome, a asfixia e o enterro prematuro. No entanto, uma parte da minha presença de espírito voltou-me. Levantei-me e procurei tateando as juntas e as ranhuras do alçapão. Tendo-as encontrado, examinei-as escrupulosamente, para verificar se deixavam passar qualquer luz da cabina, mas não se via nada. Introduzi, então a lâmina da faca de afiar as penas, através das fendas, até encontrar um obstáculo duro. Ao tocar-lhe, descobri que era uma enorme massa de ferro e, pela sensação típica de ondulação que a lâmina ao deslizar de um lado para o outro me transmitia, concluía que devia ser uma corrente. A única coisa que agora me restava fazer era regressar à minha caixa e, aí, resignar-me com o meu triste destino, ou dedicar-me a acalmar o espírito de forma a tomá-lo capaz de arquitetar um plano de salvação. Iniciei imediatamente a caminhada e, ultrapassando numerosas dificuldades, consegui regressar à caixa. Deixei-me cair, totalmente esgotado, sobre o colchão, e Tigre estendeu-se ao comprido a meu lado, como que desejoso de me consolar de todas as minhas desgraças e de me exortar a suportá-las com coragem. 

Com o tempo, o seu estranho comportamento despertou-me a atenção. Depois de me lamber a cara e as mãos durante alguns minutos, parava de repente e soltava um gemido surdo. Quando estendia as mãos para ele, encontrava-o sempre de barriga para cima e patas no ar. Esta conduta, pareceu-me estranha e não sabia de que maneira explicá-la. Como o pobre cão parecia desolado concluí que talvez estivesse ferido. Peguei-lhe nas patas e examinei-as com cuidado, mas não encontrei nenhum sintoma de ferimento. Pensei então que tivesse fome e dei-lhe um grande pedaço de presunto que devorou avidamente e depois recomeçou com o seu estranho comportamento. Imaginei então que, tal como eu, sofria com sede, e ia adotar esta conclusão como a única verdadeira, quando me lembrei que apenas lhe tinha examinado as patas e que podia muito bem estar ferido no corpo ou na cabeça. Tateei cuidadosamente a cabeça, mas não encontrei nada. Porém, ao passar a mão pelo dorso, senti como que uma ligeira ereção do pelo que o atravessava a toda a largura. Palpando-lhe o pelo com o dedo, descobri um cordel que segui e que dava uma volta ao corpo do Tigre. Graças a um exame mais minucioso, encontrei uma pequena ligadura que me pareceu conter um papel; o cordel atravessava a ligadura e tinha sido ajustada de forma a fixá-la mesmo por baixo da espádua esquerda do animal.


continua...


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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.


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Edgar Allan Poe

CONTOS

Originalmente publicados entre 1831 e 1849 

Edgar Allan Poe - Contos: A Sombra
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym (Prefácio)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 1 — Aventureiros Precoces(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(1)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(2)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 2 — O Esconderijo(3)
Edgar Allan Poe - Contos: Aventuras de Arthur Gordon Pym: 3 — «Tigre» Enraivecido(1)


Maquiavel - O Príncipe: Capítulos X - Como se deve medir as forças de todos os Principados

O PRÍNCIPE

Maquiavel


AO MAGNÍFICO LORENZO DE MEDICI NICOLÓ MACHIAVELLI






CAPÍTULO X




COMO SE DEVEM MEDIR AS FORÇAS DE TODOS OS PRINCIPADOS (QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT)







Ao examinar as qualidades destes Estados, convém fazer uma outra consideração, isto é, se um príncipe tem Estado tão grande e forte que possa, precisando, manter-se por si mesmo, ou então se tem sempre necessidade da defesa de outrem. Para esclarecer melhor esta parte, digo julgar como podendo manter-se por si mesmos aqueles que podem, por abundância de homens e de dinheiro, organizar um exército à altura do perigo a enfrentar e fazer face a uma batalha contra quem venha assaltá-lo, assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que não podem defrontar o inimigo em campo aberto, mas são obrigados a refugiar-se atrás dos muros da cidade, guarnecendo-os. Quanto ao primeiro caso já foi falado e, futuramente, diremos o que for necessário; relativamente ao segundo, não se pode aduzir algo mais do que exortar tais príncipes a fortificarem e a proverem sua cidade, não se preocupando com o território que a contorna. E quem tiver bem fortificada sua cidade e, acerca dos outros assuntos, se tenha conduzido para com os súditos como acima foi dito e abaixo se esclarecerá, será sempre assaltado com grande temor, porque os homens são sempre inimigos dos empreendimentos onde vejam dificuldades, e não se pode encontrar facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e não seja odiado pelo povo.

As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade, têm pouco território e obedecem ao imperador quando assim querem, não temendo nem a este nem a outro poderoso que lhes esteja ao derredor porque são de tal forma fortificadas que todos pensam dever ser enfadonha e difícil sua expugnação. Na verdade, todas têm fossos e muros adequados, possuem artilharia suficiente, conservam sempre nos armazéns públicos o necessário para beber, comer e arder por um ano; além disso, para manter a plebe alimentada sem prejuízo do povo, têm sempre, em comum, por um ano, meios para lhe dar trabalho naquelas atividades que sejam o nervo e a vida daquelas cidades e das indústrias das quais a plebe se alimente. Têm em grande conceito os exercícios militares, a respeito dos quais têm muitas leis de regulamentação.

Um príncipe, pois, que tenha uma cidade forte e não se faça odiar, não pode ser atacado e, existindo alguém que o assaltasse, retirar-se-ia com vergonha, eis que as coisas do mundo são assim tão variadas que é quase impossível alguém pudesse ficar com os exércitos ociosos por um ano, a assediá-lo. A quem replicasse que, tendo as suas propriedades fora da cidade e vendo-as a arder, o povo não terá paciência e o longo assédio e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe, eu responderia que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas dificuldades, ora dando aos súditos esperança de que o mal não será longo, ora incutindo temor da crueldade do inimigo, ora assegurando-se com destreza daqueles que lhe pareçam muito temerários. Além disso, é razoável que o inimigo deva queimar o país apenas chegado, nos tempos em que o ânimo dos homens está ainda ardente e voluntarioso na defesa; por isso, o príncipe deve ter pouca dúvida porque, depois de alguns dias, quando os ânimos estão mais frios, os danos já foram causados, os males já foram sofridos e não há mais remédio; então, os súditos vêm se unir ainda mais ao semi príncipe, parecendo-lhes que este lhes deva obrigação, uma vez que suas casas foram incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do mesmo. E a natureza dos homens é aquela de obrigar-se tanto pelos benefícios que são feitos como por aqueles que se recebem. Donde, em se considerando tudo bem, não será difícil a um príncipe prudente conservar firmes, antes e depois do cerco, os ânimos de seus cidadãos, desde que não faltem víveres nem meios de defesa.



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Breve biografia de Nicolau Maquiavel

Nicolau Maquiavel
Filósofo político e escritor italiano
Por Dilva Frazão



Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um filósofo político, historiador, diplomata e escritor italiano, autor da obra-prima "O Príncipe". Foi profundo conhecedor da política da época, estudou-a em suas diferentes obras. Viveu durante o governo de Lourenço de Médici. Realista e patriota definiu os meios para erguer a Itália.

Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, Itália, no dia 3 de maio de 1469. Sua família de origem Toscana participou dos cargos públicos por mais de três séculos. Filho de Bernardo Maquiavel, jurista e tesoureiro da província de Marca de Ancona e de Bartolomea Nelli, que era ligada às mais ilustres família de Florença.

Interessado pelos problemas de seu tempo, Maquiavel participou ativamente da política de Florença. Com 29 anos, tornou-se secretário da Segunda Chancelaria durante o governo de Piero Soderim. Tinha a seu cargo questões militares de ordem interna como a redação de documentos oficiais. Ocasionalmente, realizou missões diplomáticas envolvendo a França, Alemanha, os Estados papais e diversas cidades italianas, como Milão, Pisa e Veneza...

... A obra “O Príncipe”, escrita por Maquiavel em 1513, e publicada postumamente em 1532, se transformou em sua obra-prima. O livro, um manual sobre a arte de governar, foi inspirado no estilo político de César Bórgia um dos mais ambiciosos comandantes italianos, que ficou conhecido por seu poder e atrocidades que cometeu para conseguir o que queria. Maquiavel viu nele o modelo para os demais governantes da época.

A obra revela a preocupação de Maquiavel com o momento histórico da Itália, fragilizada pela falta de unidade nacional e alvo de invasões e intrigas diplomáticas. Indignado com a decadência política e moral da Itália, o autor dirige conselhos a um príncipe imaginário, com o único objetivo de unificar a Itália e criar uma nação moderna e poderosa.

Para Maquiavel, o importante era realizar o desejo projetado, mesmo sob qualquer forma de governo – monarquia ou república, e por qualquer meio, inclusive a violência. Considerava os fatores morais, religiosos e econômicos, que operavam na sociedade como forças que um governante hábil poderia e deveria utilizar para construir um estado nacional forte. Assim, o príncipe com seu exército nacional que substituísse as precárias forças mercenárias, deveria ser capaz de estender seu domínio sobre todas as cidades italianas, acabando com a discórdia.


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Leia também:

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos I e II e resenha crítica

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos II Dos Principados Mistos

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos III Dos Principados Mistos (conclusão)

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos IV Por Que o Reino de Dario, Ocupado por Alexandre, Não se Rebelou...

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos V - De que modo se deve governar as cidades...

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos VI - Dos Principados novos que se conquistam com as armas...

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos VII - Dos Principados novos que se conquistam com as armas e fortuna...

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos VII - Dos Principados novos que se conquistam com as armas e fortuna...(2)

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos VIII - Dos que chegaram ao Principado por Meio de Crimes

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos IX - Do Principado Civil

Maquiavel - O Príncipe: Capítulos XI - Dos Principados Eclesiásticos

histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão

mulheres descalças


os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar





as badalação do badalo do siôiu padinhu num parava de anunciá qui as pessoa do bem podia ficá mais serena e pacífica, as lei foi seguida inté ela sê cumprida:

os pulícia da fidalguia tinha conseguido prendê o fujão – as lei num é das lei, elas é da fidalguia qui faz uso no seu gosto, nunca pru seu desgosto 

e as pessoa do bem – seja lá uqui isso seja – pra se salvá dos ingênuo, tolo, grossêro e iletrado precisava escutá com atenção e atendê com prontidão o chamado das palavra salvadora, nunca duvidá da fineza, gosto e incitamento do paraíso no céu ou do relaxamento, desalento e fraqueza do inferno nas treva; muntu menos, esquecê os donativo da décima, essa boa vontade a fidalguia aprende desde muriquinhu:

a boa vontade se paga com boa vontade

ali, naquela praça, lugá das treva – segundo os grito da fidalguia prus tolo, ingênuo e grossêro , ninguém atrevia avançá ou recuá nem mais ou menos um passo, a vontade do ódio continuava a mesma; nunca antes, existiu outro dia como esse tão cheio de grito de gana e repulsa, alegria perversa, suspiro, careta, renúncia da vida qui vive no escravizado amotinado, Mata o criolo, Se o negro não morre ele aparece de novo, Queremos paz na Villa, Chega de viver com medo, Depois iremos nos embebedar por todos os séculos, Amém, Tenham pena do negrinho, Bobagem, que pena nada, Vosmecê acostuma, O criolo já morreu, aquela prugunta fez acontece o comedimento no cortejo, esse sempre foi o motivo daquela reunião de tanta gente de bem pru bem da praça, Não! O defunto ainda vive entre nós, e o silêncio embaraçado foi quebrado com munta risada, Só aqui na Villa, onde mais já se ouviu falar do defunto que ainda não é defunto, e a alegria perversa voltô a pulsá 

os pulícia da fidalguia esperando – eles parecia tá muntu na sua vontade entre as gente do justiçamento; qui, na sua veiz, tumbém parecia na maió boa vontade com os pulícia da fidalguia – e os grito se ajuntando à marcha paisana do desatino ajustado e combinado, o pensamento de sê dono das vontade de um a um qui se junta nos grito pela família, pelo deus e pela villa, Estamos aqui em vigília, em nome das nossas famílias e dos bons costumes, E com Deus! Não esqueçam de Deus!

o cortejo andava e parava, nada junta mais gente qui desfilamento do defunto qui ainda vive, nem casamento ou nascimento tem tanta tropa, tanta veemência, tanto chamamento, perdeu-se no tempo o começo do gosto das pessoa em respirá a morte

ou o contentamento na cara pra zombá da escravidão

essa é a herança trágica da villa qui vai do pai pru fiu, da mãe pra fia – o pai pega nas mão a incumbência de fazê dufiu seu retrato; a mãe recebe do marido a tarefa de ensiná a fia obedecê e serví – e esse feitio de vivê na villa num vai pará pela vontade do pai

inté os viandante de fora da villa apostava qui a cobra já podia sê dada como morta, a massa da cisma, implicância, desconfiança, desamô e ódio contra os pretu só ficava mais e mais coesa, Esse se fudeu!

a villa abastada sentia, vivia, pensava, ensinava e educava assim do pai pru fiu, da mãe pra fia: 

das corrente os pretu nunca ia se livrá, Não dá para libertar os negros, Por quê, Papaizinho, Vosmecê não vê que o negrume das ruas só vai aumentar, com a negrada indo e vindo sem ter o que fazer, quando muntu, os pretu podia tê alívio pela vontade ou necessidade dudono duspretu, menos, é claro, aqueles pretu qui a villa abastada chamava de desbocado, atrevido, feio, perigoso e vagabundo, num podia tê qualqué alívio ou soltura, pra esses o arranjo sempre foi – e num parece tê mudado – é soltá os pulícia na perseguição  

num dá pra esquecê de dizê, ou lembrá, qui tê escravo  mesmo os villêro de menó posse , um ou dois pretu escravizado, pelo menos, já dava reconhecimento na villa como siô de escravizado, uqui aumentava a importância e o respeito das autoridade, longe de sê considerado abastado já era meió respeitado

a villa tinha pretu pra tudo, lavradô, carregadô, pedrêro, artesão, pretu nas olaria e curtume, tropêro de gado, peão, cubêro, carneadô, campêro nas estância, vendedô, tipógrafo, doméstico, pulícia, capitão-do-mato, a importância do braço pretu seguia em tudo qui era trabáio: 

partêra, curandêra, costurêra, lavadêra, passadêra, ama do peito, cozinhêra

o moringue tava na frente do pretu enfiado na canga, o negro taludo seguia logo atráis dos dois, o pulícia fardado e o acorrentado, o capitão-do-mato sem fardamento tinha os pé enfiado nas bota de garrão – inté os véio fingindo ditê vida, qui nada mais tinha além de esperá com saudade a vida dá volta pru começo da vida, saía das casa sozinho, espionando o cortejo, pra depois contá pra mamãezinha escondida, cheia da vida definhando, dois faminto da vida qui se foi, é meió perseguí qui num sentí nada




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