sexta-feira, 22 de maio de 2026

Espumas Flutuantes - As duas ilhas

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AS DUAS ILHAS
 Sobre uma página da poesia de Victor Hugo, 
 com o mesmo título

Quando à noite — às horas mortas — 
 O silêncio e a solidão
— Sob o dossel do infinito — 
 Dormem do mar n’amplidão, 
 Vê-se, por cima dos mares, 
 Rasgando o teto dos ares 
 Dous gigantescos perfis... 
 Olhando por sobre as vagas, 
 Atentos, longínquas plagas 
 Ao clarear dos fuzis.

Quem os vê, olha espantado 
 E a sós murmura: “O que é? 
 Ai! que atalaias gigantes, 
 São essas além de pé?...” 
 Adamastor de granito 
 Co’a testa roça o infinito 
 E a barba molha no mar; 
 E de pedra a cabeleira 
 Sacudind’a onda ligeira 
 Faz de medo recuar...

São — dous marcos miliários, 
 Que Deus nas ondas plantou. 
 Dous rochedos, onde o mundo 
 Dous Prometeus amarrou!... 
 — Acolá... (Não tenhas medo!...) 
 É Santa Helena — o rochedo 
 Desse Titã, que foi rei!... 
 — Ali... (Não feches os olhos!...) 
 Ali... aqueles abrolhos 
 São a ilha de Jersey!... 

São eles — os dous gigantes 
 No século de pigmeus. 
 São eles — que a majestade 
 Arrancam da mão de Deus. 
 — Este concentra na fronte 
 Mais astros — que o horizonte, 
 Mais luz — do que o sol lançou!... 
 — Aquele — na destra alçada 
 Traz segura sua espada 
 — Cometa, que ao céu roubou!... 

E olham os velhos rochedos 
 O Sena, que dorme além... 
 E a França, que entre a caligem 
 Dorme em sudário também... 
 E o mar pergunta espantado: 
 “Foi deveras desterrado 
 Buonaparte — meu irmão?...”
Diz o céu astros chorando: 
 “E Hugo?...” E o mundo pasmando 
 Diz: “Hugo... Napoleão!...” 

Como vasta reticência 
 Se estende o silêncio após... 
 És muito pequena, ó França, 
 Pra conter estes heróis... 
 Sim! que estes vultos augustos 
 Para o leito de Procustos 
 Muito grandes Deus traçou... 
 Basta os reis tremam de medo 
 Se a sombra de algum rochedo 
 Sobre eles se projetou!... 

Dizem que, quando, alta noite, 
 Dorme a terra — e vela Deus, 
 As duas ilhas conversam 
 Sem temor perante os céus. 
 — Jersey curva sobre os mares 
 À Santa Helena os pensares 
 Segreda do velho Hugo... 
 — E Santa Helena no entanto 
 No Salgueiro enxuga o pranto 
 E conta o que Ele falou... 

E olhando o presente infame 
 Clamam: “Da turba vulgar 
 Nós — infinitos de pedra — 
 Nós havemo-los vingar!...” 
 E do mar sobre as escumas, 
 E do céu por sobre as brumas, 
 Um ao outro dando a mão... 
 Encaram a imensidade 
 Bradando: “A Posteridade!...” 
 Deus ri-se e diz: “Inda não!... 
Recife, 1865. 


AO AUTOR JOAQUIM AUGUSTO

Um dia Pigmalião — o estatuário 
 Da oficina no tosco santuário 
 Pôs-se a pedra a talhar... 
 Surgem contornos lânguidos, amenos... 
 E dos flocos de mármore outra Vênus 
 Surge dest’outro mar.  

De orgulho o mestre ri... A estátua é bela! 
 Da Grécia as filhas por inveja dela 
 Vão nas grutas gemer... 
 Mas o artista soluça: “Ó Grande Jove! “
Ela é bela... bem sei — mas não se move! 
 “É sombra — e não mulher!”

Então do excelso Olimpo o deus-tonante 
 Manda que desça um raio fulgurante 
 À tenda do escultor. 
 Vive a estátua! Nos olhos — treme o pejo, 
 Vive a estátua!... Na boca — treme um beijo, 
 Nos seios — treme amor. 

O poeta é — o moderno estatuário 
 Que na vigília cria solitário 
 Visões de seio nu! 
 O mármore da Grécia — é o novo drama! 
 Mas o raio vital quem lá derrama?... 
 É Júpiter!... És tu!... 

Como Gluck nas selvas aprendia 
 Ao som do violoncelo a melodia 
 Da santa inspiração, 
 Assim bebes atento a voz obscura 
 Do vento das paixões na selva escura 
 Chamada — multidão.

Gargalhadas, suspiros, beijos, gritos, 
 Cantos de amor, blasfêmias de precitos, 
 Choro ou reza infantil, 
 Tudo colhes... e voltas co’as mãos cheias, 
 — O crânio largo a transbordar de ideias 
 E de criações mil. 

Então começa a luta, a luta enorme. 
 Desta matéria tosca, áspera, informe, 
 Que na praça apanhou, 
 Teu gênio vai forjar novo tesouro... 
 O cobre escuro vai mudar-se em ouro, 
 Como Fausto o sonhou! 

Glória ao mestre! Passando por seus dedos 
 Dói mais a dor... os risos são mais ledos... 
 O amor é mais do céu... 
 Rebenta o ouro desta fronte acesa! 
 O artista corrigiu a natureza! 
 O alquimista venceu!  

Então surges, Ator! e do proscênio 
 Atiras as moedas do teu gênio 
 Às pasmas multidões. 
 Pródigo enorme! a tua enorme esmola 
 Cunhada pela efígie tua rola 
 Nos nossos corações. 

Por isso agora, no teu almo dia, 
 Vieram dando as mãos à Poesia 
 E o povo, bem o vês; 
 Como nos tempos dessa Roma antiga 
 Aos pés desse outro Augusto a plebe amiga 
 Atirava lauréis...

Augusto! E o nome teu não se desmente... 
 O diadema real na vasta frente 
 Cinges... eu bem o sei! 
 Mandas no povo deste novo Lácio... 
 E os poetas repetem como Horácio: 
 “Salve! Augusto! Rei!” 
 São Paulo, outubro de 1868 

continua pag 63...
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A Luís / As duas ilhas /                      
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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