terça-feira, 12 de maio de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Já era noite agora)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Já era noite agora, quando trocava o calor do hotel que se tornara o meu lar pelo vagão onde embarcava com Albertine e onde o reflexo da lanterna na vidraça indicava, em certas paradas do trenzinho impulsivo, que tínhamos chegado a uma estação. Para não corrermos o risco de que Cottard não nos avistasse, e não tendo ouvido anunciar a estação, eu abria a portinhola, mas o que se precipitava no vagão não eram os fiéis, e sim o vento, a chuva, o frio. Na obscuridade, eu distinguia os campos, ouvia o mar, estávamos em plena campina. Albertine, antes que nos reuníssemos ao pequeno núcleo, olhava-se num espelhinho tirado de um nécessaire de ouro que trazia consigo. De fato, nas primeiras vezes, tendo a Sra. Verdurin feito com que ela subisse para o seu gabinete de toalete a fim de que se arrumasse para jantar, eu experimentara, no seio da profunda tranquilidade em que vivia desde algum tempo, um pequeno movimento de inquietação e ciúme ao ser obrigado a deixar Albertine ao pé da escada, e me sentira tão ansioso enquanto estava sozinho no salão em meio ao pequeno clã e perguntava a mim mesmo o que faria a minha amiga lá em cima, que, no dia seguinte, por telegrama, depois de pedir algumas indicações ao Sr. de Charlus sobre o que havia de mais elegante no gênero, encomendei à casa Cartier um nécessaire que era a alegria de Albertine e também a minha. Era para mim um penhor de calma e também da solicitude da minha amiga. Pois ela certamente adivinhara que eu não gostava que ficasse sem minha companhia na casa da Sra. Verdurin, e se arranjava para fazer no vagão toda a sua toalete anterior ao jantar. No número dos habitués da Sra. Verdurin, e o mais fiel de todos, contava-se agora e desde vários meses o Sr. de Charlus. Regularmente, três vezes por semana, os viajantes que estacionavam nas salas de espera ou na plataforma de Doncieres-Oeste viam passar aquele homem corpulento, de cabelos grisalhos e bigode preto, os lábios rubros de uma pintura que se notava menos no fim da estação que no verão, quando a luz intensa a fazia mais crua, e o calor, meio líquida. Enquanto se dirigia para o trenzinho, não podia deixar (só por hábito de conhecedor, visto que agora possuía um sentimento que o tornava casto ou, pelo menos, durante a maior parte do tempo, fiel) de lançar sobre os carregadores, os militares, os rapazes de uniforme de tênis um olhar furtivo, a um tempo inquisitorial e timorato, após o qual baixava logo as pálpebras sobre os olhos quase fechados, com a unção de um eclesiástico a desfiar o seu rosário, com a reserva de uma esposa votada ao seu único amor, ou de uma jovem bem-educada. Os fiéis tanto mais estavam convencidos de que ele não os vira, porque subia para um compartimento diverso do deles (como igualmente o fazia a princesa Sherbatoff), como homem que não sabe se ficariam satisfeitos ou não de serem vistos na sua companhia e que deixa a todos o direito de ir procurá-lo caso tenham vontade. Tal vontade não foi sentida nas primeiras vezes pelo doutor, que desejava deixássemos o barão a sós em seu compartimento. Dissimulando sua natureza vacilante desde que alcançara uma grande posição como médico, foi sorrindo, virando-se e olhando Ski por cima do pince-nez, que ele disse por malícia ou para surpreender de esguedelha a opinião dos companheiros: 

- Vocês compreendem, se eu estivesse sozinho, solteiro... mas, por causa de minha mulher, pergunto-me se posso deixá-lo viajar conosco depois do que o senhor me disse - sussurrou o doutor. 
- Que é que estás dizendo? - indagou a Sra. Cottard. 
- Nada, isto não é contigo, não é assunto para as mulheres - respondeu o doutor, piscando o olho, com uma majestosa satisfação de si mesmo, que ficava entre o ar sonso que mantinha ante os alunos e os enfermos, e a inquietação que outrora acompanhava suas tiradas na casa dos Verdurin, e continuou a falar em voz baixa.  

     A Sra. Cottard só percebeu as palavras "da confraria" e "lingüinha", e, como na linguagem do doutor a primeira designava a raça judaica e a segunda as pessoas que falam pelos cotovelos, a Sra. Cottard concluiu que o Sr. de Charlus devia ser um judeu tagarela. Não entendeu que mantivessem o barão à parte por causa disso, e julgou de seu dever de decana do clã exigir que não o deixassem a sós, e nos encaminhamos todos para o compartimento do Sr. de Charlus, guiados por Cottard, sempre perplexo. Do seu canto, onde lia um volume de Balzac, o Sr. de Charlus percebeu aquela hesitação; entretanto, não erguera os olhos. Mas, como os surdos mudos reconhecem, devido a uma corrente de ar insensível aos demais, que alguém está chegando por trás deles, o barão possuía, para ser advertido da frieza que sentiam a seu respeito, uma verdadeira hiperacuidade sensorial. Esta, como tem o hábito de fazer em todos os domínios, engendrara sofrimentos imaginários no espírito do Sr. de Charlus. Como esses nevropatas que, sentindo um leve frescor, induzem que deve haver uma janela aberta no andar de cima, enfurecem-se e entram a espirrar, o Sr. de Charlus, se uma pessoa mostrasse diante dele um ar preocupado, concluía que tinham repetido a essa pessoa uma frase que ele pronunciara a seu respeito. Mas nem sequer havia necessidade de que tivesse um ar distraído, ou sombrio, ou risonho: ele os inventava. Em compensação, a cordialidade mascarava-lhe facilmente as maledicências que ele desconhecia. Tendo adivinhado da primeira vez a hesitação de Cottard, se, para grande espanto dos fiéis, que não se julgavam percebidos ainda pelo leitor de olhos baixos, ele lhes estendeu a mão quando chegaram a distância conveniente, limitou-se, quanto a Cottard, a uma inclinação de todo o corpo, logo vivamente endireitado, sem apertar com a mão enluvada de couro da Suécia a mão que o doutor lhe estendera. 

- Fizemos questão absoluta de viajar em sua companhia, senhor, e não deixá-lo sozinho desse jeito no seu canto. É um grande prazer para nós - disse a Sra. Cottard bondosamente ao barão. 
- Fico muito honrado - enunciou o barão, inclinando-se com ar frio. 
- Fiquei muito contente ao saber que o senhor tinha escolhido definitivamente esta região para fixar aqui os seus tabern... - Ela ia dizer tabernáculos, mas essa palavra lhe pareceu hebraica e pouco delicada para um judeu que poderia ver nela uma alusão. Assim, conteve-se para escolher uma outra expressão que lhe fosse familiar, ou seja, uma expressão solene: para fixar aqui, eu queria dizer, os seus penares - (é verdade que essas divindades tampouco pertenciam à religião cristã, mas a uma que está extinta há tanto tempo que já não tem seguidores a quem receemos melindrar). - Infelizmente, nós, com a volta às aulas e o serviço hospitalar do doutor, nunca podemos fixar domicílio por muito tempo em um mesmo local. - E exibindo-lhe uma caixa: - Aliás, veja como nós, mulheres, somos menos felizes que o sexo forte; para ir tão pertinho como a casa dos nossos amigos Verdurin, somos obrigadas a levar conosco toda uma série de bagagens. -

     Durante todo esse tempo, eu olhava o volume de Balzac do barão. Não era uma brochura, comprada ao acaso como o volume de Bergotte que ele me emprestara no primeiro ano. Era um livro de sua biblioteca e, como tal, trazia a divisa: 

"Pertenço ao barão de Charlus", a qual por vezes era substituída, para mostrar o gosto dos Guermantes pelo estudo: In proeliis non semper e, ainda outra: Non sine labore
[Expressões latinas, respectivamente: "Nem sempre nos combates" e "Não foi adquirido sem trabalho (N. do T)]

     Porém, nós as veremos em breve substituídas por outras, para tentar agradar a Morel. A Sra. Cottard, ao cabo de um instante, adotou um assunto que achava tocar mais pessoalmente ao barão: 

- Não sei se o senhor é da minha opinião -disse ela -, mas tenho ideias muito liberais e, a meu ver, desde que sejam praticadas com sinceridade, todas as religiões são boas. Não sou como as pessoas a quem à vista de um... protestante deixa hidrófobas. 
- Ensinaram-me que a minha era a verdadeira - respondeu o Sr. de Charlus. -

"É um fanático", pensou a Sra. Cottard; "Swann, a não ser no fim, era mais tolerante; é verdade que se tratava de um convertido." Ora, pelo contrário, o Sr. de Charlus era não só cristão, como todos sabiam, mas também piedoso à maneira da Idade Média. Para ele, como para os escultores do século XIII, a Igreja cristã era, no sentido vivo do termo, povoada por uma multidão de seres tidos como perfeitamente reais: profetas, apóstolos, anjos, santas personagens de toda espécie, que cercavam o Verbo encarnado, sua mãe e, seu esposo, o Padre eterno, todos os mártires e doutores, tais como seu povo, em alto-relevo se apressa no pórtico ou enche a nave das catedrais. Entre todos eles, o Sr. de Charlus escolhera como patronos intercessores os arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, com os quais tinha freqüentes conversações, a fim de que eles comunicassem suas preces ao Padre eterno, diante de cujo trono estão postados. Assim, o engano da Sra. Cottard muito me divertia.

     Para abandonarmos o terreno religioso, digamos que o doutor, que chegara a Paris com a magra bagagem de conselhos de uma mãe camponesa, e depois, absorvido pelos estudos quase puramente materiais, aos quais aqueles que desejam subir bastante na carreira médica são obrigados a se consagrar durante muitos anos, nunca se cultivara; adquirira mais autoridade, mas não experiência. Tomou ao pé da letra a palavra "honrado" e com isso ficou a um tempo satisfeito, pois era vaidoso, e aflito, pois era uma boa pessoa. 

- Esse pobre Charlus - disse ele de noite à mulher - deu-me pena quando disse que se sentia honrado em viajar conosco. Sente-se, pobre diabo, que ele não tem relações, que se humilha.  

     Mas dali a pouco, sem necessidade de serem guiados pela caridosa Sra. Cottard, os fiéis conseguiram dominar o constrangimento que todos haviam mais ou menos sentido a princípio por se acharem junto do Sr. de Charlus. Sem dúvida, na sua presença, conservavam sem cessar no espírito a lembrança das revelações de Ski e a ideia da estranheza sexual que estava inclusa em seu companheiro de viagem. Mas essa própria estranheza exercia sobre eles uma espécie de atração. Conferia, para eles, à conversa do barão, aliás notável mas em pontos que não podiam apreciar, um sabor que transformava a conversa mais interessante, até mesmo a de Brichot, em algo insosso. Por outro lado, desde o princípio, todos se mostraram satisfeitos ao reconhecer que ele era inteligente. 

- O gênio pode ser vizinho da loucura - enunciou o doutor e, se a princesa, ávida por instruir-se, insistia, ele nada mais dizia, já que esse axioma era tudo o que sabia sobre o gênio e, além disso, não lhe parecia tão demonstrado como tudo o que se referisse à febre tifoide e ao artritismo. E como se tornara orgulhoso e permanecera mal-educado: 
- Nada de perguntas, princesa, não me interrogue, estou à beira-mar para um descanso. Aliás, a senhora não me compreenderia, pois não sabe medicina. -

     E a princesa se calava, desculpando-se, achando Cottard um homem encantador e compreendendo que as celebridades nem sempre são abordáveis.
     Nesse primeiro período, tinham portanto achado o Sr. de Charlus inteligente, apesar de seu vício (ou aquilo que geralmente se chama desse modo). Agora, sem perceberem, era devido a esse vício que o achavam mais inteligente que os outros. As máximas mais simples que, habilmente provocado pelo universitário ou o escultor, o Sr. de Charlus enunciava acerca do amor, do ciúme, da beleza, por causa da experiência singular, secreta, refinada e monstruosa em que as havia haurido, assumiram para os fiéis aquele encanto do exotismo que uma psicologia, análoga à que nos tem oferecido o tempo todo a nossa literatura dramática, adquire numa peça da Rússia ou do Japão representada por artistas desses países. Arriscavam ainda, quando ele não estava ouvindo, um gracejo de mau gosto: 

- Oh! - cochichava o escultor, ao ver um jovem empregado de longos cílios de bailarina indiana e que o Sr. de Charlus não pudera evitar de encarar. - Se o barão se põe a namorar o fiscal, não estaremos perto de chegar, pois o trem irá de marcha a ré. Olhem só a forma como ele o encara; já não é num trenzinho de ferro que estamos, é num funicular. -

     Mas, no fundo, se o Sr. de Charlus não comparecia, ficavam quase decepcionados de viajar apenas entre pessoas comuns, e de não terem junto deles aquele personagem pintalgado, pançudo, semelhante a alguma caixa de proveniência exótica e suspeita, que deixa escapar o curioso odor de frutas, às quais o simples pensamento de provar nos causaria náuseas. Desse ponto de vista, os fiéis do sexo masculino tinham satisfações mais vivas, no curto pedaço do trajeto que se fazia entre Saint-Martin-du-Chêne, onde embarcava o Sr. de Charlus, e Doncieres, estação em que Morel se juntava a nós. Pois, enquanto o violinista não se achava presente (e se as senhoras e Albertine, formando grupo à parte para não incomodar a conversa, mantinham-se afastadas), o Sr. de Charlus, para não parecer que evitava certos assuntos, não se constrangia de falar daquilo "que se convencionou chamar os maus costumes". Albertine não podia constrangê-lo, pois estava sempre com as senhoras, por deferência de moça que não quer que sua presença restrinja a liberdade da conversa. Ora, eu suportava com facilidade o não tê-la a meu lado, com a condição, porém, de que permanecesse no mesmo vagão. Pois eu, que não mais sentia ciúme nem quase amor por ela, não pensava no que fazia Albertine nos dias em que não a via; em compensação, quando estava ali, um simples tabique que, a rigor, pudesse dissimular uma traição, era-me insuportável e, se ela ia com as senhoras para o compartimento vizinho, ao fim de um momento, sem poder ficar no mesmo lugar, arriscando-me a constranger o interlocutor, fosse Brichot, Cottard ou Charlus, e a quem não podia explicar o motivo de minha saída, eu me levantava, deixava-os ali e, para ver se não havia nada de anormal, passava para o outro lado.
     Até Doncieres, o Sr. de Charlus, sem medo de escandalizar, falava às vezes muito cruamente dos costumes que ele declarava, por sua conta, não achar nem bons nem maus. Fazia-o por habilidade, para mostrar sua largueza de espírito, persuadido como estava de que os seus não despertavam nenhuma suspeita entre os fiéis. Acreditava que havia no universo algumas pessoas que, conforme uma expressão que mais tarde se lhe tornou familiar, "tinham opinião assente a seu respeito". Mas ele imaginava que essas pessoas não passavam de três ou quatro e que não havia nenhuma delas no litoral da Normandia. Essa ilusão pode espantar, provindo de alguém tão fino, tão inquieto. Mesmo quanto aos que supunha mais ou menos informados, gabava-se de que o fossem apenas de modo vago, e tinha a pretensão, segundo alguém lhe dissesse tal ou qual coisa, de pôr essa pessoa fora das suposições de um interlocutor que, por polidez, fingia aceitar suas palavras. Mesmo desconfiando do que eu podia saber ou supor a seu respeito, pensava que essa opinião, que julgava ser muito mais antiga de minha parte do que o era na realidade, fosse geral, e que lhe bastava negar este ou aquele detalhe para ser acreditado, quando pelo contrário, se o conhecimento do conjunto precede sempre o dos detalhes, facilita infinitamente a investigação destes e, tendo destruído o poder de invisibilidade, já não permite ao dissimulador ocultar o que lhe agrada. Na verdade, quando o Sr. de Charlus, convidado para jantar por um certo fiel ou um certo amigo dos fiéis, fazia os mais complicados rodeios para incluir o nome de Morel em meio aos nomes de dez pessoas que citava, não suspeitava que aos motivos sempre diversos que dava do prazer ou da comodidade que sentiria aquela noite em ser convidado juntamente com ele, seus anfitriões, aparentando acreditá-lo piamente, substituíam todos os motivos por um só, sempre o mesmo, e que o barão julgava ignorado por eles, ou seja, que ele o amava. Da mesma forma, a Sra. Verdurin, parecendo sempre admitir totalmente os motivos meio artísticos, meio humanitários, que o Sr. de Charlus lhe dava acerca do interesse que tinha por Morel, não cessava de agradecer ao barão, emocionada, a tocante generosidade, dizia, que ele mostrava pelo violinista. Ora, qual seria o espanto do Sr. de Charlus se, num dia em que ele e Morel estavam atrasados e não haviam chegado pelo trem, ouvisse a Patroa dizer: 

- Só estamos esperando essas senhoritas. -

     Tanto mais estupefato ficaria o barão, pois que, não saindo de La Raspeliere, fazia ali o papel de capelão, de abade do repertório, e às vezes (quando Morel tinha quarenta e oito horas de licença), dormia lá dois dias seguidos. A Sra. Verdurin lhes dava então dois quartos com comunicação interna e, para deixá-los à vontade, dizia: 

- Se desejarem tocar música, não se acanhem; as paredes são como as de uma fortaleza, não há ninguém no andar dos senhores, e meu marido tem sono de pedra. -

     Nesses dias, o Sr. de Charlus substituía a princesa, indo pegar os novatos na estação; desculpava a Sra. Verdurin de não ter vindo por causa de um estado de saúde, que ele descrevia tão bem que os convidados entravam com uma cara de circunstância e soltavam uma exclamação de espanto ao encontrar a Patroa de pé e bem disposta, num vestido semidecotado. Pois o Sr. de Charlus, para a Sra. Verdurin, tornara-se momentaneamente o fiel dos fiéis, uma segunda princesa Sherbatoff. De sua posição mundana ela estava bem menos segura do que da posição da princesa, imaginando que, se esta só desejava freqüentar o pequeno núcleo, era por desprezo aos outros, e predileção por ele. Como semelhante ficção era própria dos Verdurin, que consideravam aborrecidos aqueles a quem não podiam freqüentar, era incrível que a Patroa pudesse julgar a princesa uma alma de aço que detestava a vida chique. Mas não desistia e estava certa de que era com sinceridade e pelo gosto das coisas intelectuais que a grande dama também não freqüentava os aborrecidos. Aliás, para os Verdurin, o número destes diminuía. A vida dos banhos de mar tirava a uma apresentação as conseqüências para o futuro que se poderia recear em Paris. Homens brilhantes que tinham ido sem a mulher a Balbec, o que facilitava tudo, davam os primeiros passos na Raspeliere e, de aborrecidos, tornavam-se requintados. Foi o caso do príncipe de Guermantes, a que todavia a ausência da princesa não teria decidido a ir "como solteiro" à casa dos Verdurin, se o ímã do dreyfusismo não fosse tão poderoso que o fizesse galgar de um só impulso as encostas que levam a Raspeliere, infelizmente num dia em que a Patroa havia saído. A Sra. Verdurin não estava bem certa de que ele e o Sr. de Charlus pertencessem à mesma sociedade. O barão afirmara que o duque de Guermantes era seu irmão, mas aquilo talvez fosse mentira de um aventureiro. Por mais elegante que ele se mostrasse, por mais amável, por mais "fiel" quanto aos Verdurin, a Patroa hesitava quase em convidá-lo com o príncipe de Guermantes. Consultou Ski e Brichot: 

- O barão e o príncipe de Guermantes; será que funciona? 
- Meu Deus, senhora, quanto a um dos dois creio que posso dizer... 
- Mas, um dos dois, de que pode me adiantar? - replicara a Sra. Verdurin, irritada. - Eu lhes pergunto se dará certo os dois juntos? 
- Ah, senhora, eis uma coisa que é bem difícil de saber. -

     A Sra. Verdurin não punha qualquer malícia naquilo. Estava certa dos costumes do barão, mas, quando se expressava desse modo, não pensava neles, mas simplesmente em saber se poderiam convidar juntos o príncipe e o Sr. de Charlus, se aquilo combinava. Não punha nenhuma intenção malévola no emprego dessas frases feitas e que os "pequenos clãs" artísticos favorecem. Para pavonear-se com o Sr. de Guermantes, desejava levá-lo, na tarde que se seguiria ao almoço, a uma festa de caridade na qual marinheiros da costa representariam uma aparelhagem. Mas, não tendo tempo de se ocupar de tudo, delegou suas funções ao fiel dos fiéis, ao barão. 

- O senhor compreende, não é necessário que eles fiquem imóveis feito mexilhões, é preciso que não deixem de ir e vir, para que se veja a confusão, não sei o nome disso tudo. Mas o senhor, que vai muitas vezes ao porto de Balbec-Plage, poderia muito bem mandar fazer um ensaio sem se cansar. O senhor deve ser muito mais entendido do que eu, Sr. de Charlus, em fazer funcionar os marujinhos. Mas, afinal, estamos tendo muito trabalho com o Sr. de Guermantes. Talvez seja um imbecil do Jockey. Oh, meu Deus, falei mal do Jockey e parece-me que me lembro que o senhor é sócio. Ei, barão, não me responde, será que é mesmo sócio? Não quer sair conosco? Veja, aqui está um livro que recebi, acho que pode lhe interessar. É de Roujon. O título é bonito: Entre os homens.

     De minha parte, estava muito satisfeito de que o Sr. de Charlus substituísse tantas vezes a princesa Sherbatoff, pois não me achava de bem com esta, por um motivo a um tempo insignificante e profundo. Um dia em que estava no trenzinho, como de costume cumulando de amabilidades a princesa Sherbatoff, vi embarcar a Sra. de Villeparisis. Com efeito, esta viera passar algumas semanas na casa da princesa de Luxemburgo, mas, preso à necessidade cotidiana de ver Albertine, eu jamais respondera aos múltiplos convites da marquesa e de sua régia anfitriã. Senti remorsos ao ver a amiga de minha avó e, por puro dever (sem deixar a princesa Sherbatoff), conversei com ela durante muito tempo. De resto, ignorava absolutamente que a Sra. de Villeparisis sabia perfeitamente quem era a minha vizinha, mas que não desejava conhecê-la. Na estação seguinte, a Sra. de Villeparisis deixou o vagão, e eu até me censurei por tê-la ajudado a descer; fui sentar-me ao lado da princesa. Porém dir-se-ia cataclismo freqüente nas pessoas cuja posição é pouco sólida e que temem que a gente haja ouvido falar mal delas e as despreze que ocorrera uma mudança. Mergulhada na sua Revue des Deux Mondes, a Sra. Sherbatoff mal respondeu com o canto da boca às minhas perguntas e acabou por me dizer que eu lhe causava uma enxaqueca. Eu nada entendia do meu crime. Quando disse adeus à princesa, o sorriso habitual não iluminou o seu rosto, uma seca saudação abaixou o seu queixo, ela nem sequer me estendeu a mão e desde aí nunca mais voltou a falar-me. Mas deve ter falado aos Verdurin e não sei para dizer o quê, pois sempre que eu perguntava a eles se não deveria fazer uma gentileza à princesa Sherbatoff, eles em coro se precipitavam: 

- Não! Não! Não! Sobretudo isso! Ela não gosta de amabilidades! -

     Não o faziam para me ver rompido com ela, mas a princesa conseguira que acreditassem ser insensível às amabilidades, uma alma inacessível às vaidades deste mundo. É preciso ter visto o político que passa por ser o mais íntegro, o mais intransigente, o mais inabordável desde que está no poder; é preciso tê-lo visto no tempo de sua desgraça, mendigar timidamente, com um sorriso radiante de apaixonado, o cumprimento altivo de um jornalista qualquer; é preciso ter visto o aprumo de Cottard (que seus novos clientes tomavam por uma barra de ferro), e saber de que despeitos amorosos, de que fracassos de esnobismo eram feitos a aparente altivez, o anti-esnobismo universalmente admitido da princesa Sherbatoff, para compreender que na humanidade a regra que comporta exceções, e claro que os duros são frágeis repelidos, e que os fortes, sem se preocuparem se são queridos ou não, são os únicos que possuem essa doçura que o vulgo toma por fraqueza. Ademais, não devo julgar severamente a princesa Sherbatoff. Seu caso é tão frequente!
     Um dia, no enterro de um Guermantes, um homem notável a meu lado me mostrou um senhor esbelto e dotado de um rosto bonito. 

- De todos os Guermantes - disse o meu vizinho -, este é o mais extraordinário, o mais singular. É o irmão do duque. -

     Respondi-lhe imprudentemente que se equivocava, que aquele senhor, sem qualquer parentesco com os Guermantes, se chamava Fournier-Sarloveze. O homem notável voltou-me as costas e daí em diante nunca mais me cumprimentou.

continua na página 206...
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Volume 2
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Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Como na véspera)
Sodoma e Gomorra (Cap III - Já era noite agora)
Volume 6
Volume 7

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