segunda-feira, 11 de maio de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/V — Caem vários raios sobre «Mame» Bougon

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     V — Caem vários raios sobre «Mame» Bougon

             No dia seguinte, mame Bougon, como Courfeyrac, que não respeitava coisa nenhuma, chamava à velha porteira principal locatária e criada do casarão Gorbeau, cujo verdadeiro nome, como já dissemos, era Madame Bougon mame Bougon, estupefata, reparou que Mário tornava a sair de casaco novo. 
     Efetivamente, o mancebo voltou ao Luxemburgo, porém não passou além do seu banco do meio da álea, no qual, como no dia antecedente, se sentou, contemplando de longe e vendo distintamente o chapelinho branco, o vestido preto e especialmente o clarão azul. Não se mexeu do lugar em que estava, recolhendo a casa somente quando se fecharam as portas do Luxemburgo. Como não tivesse visto o senhor Leblanc e sua filha retirar-se, concluiu que tinham saído pela grade que fica do lado da rua de Oeste. Passado tempo, quando tudo o que passara então lhe veio ao pensamento, não pôde, por mais que fizesse, lembrar-se onde fora jantar nesse dia.
     Ao outro dia, que era o terceiro, foi mame Bougon fulminada com terceiro raio. Mário tornou a sair com o casaco novo. 

— Três dias a fio! — exclamou ela.

     Bem tentou segui-lo para o espreitar, porém, Mário andava depressa e tinha o passo larguíssimo; era como um hipopótamo no encalço de uma cabra montês. Perdeu-o de vista, portanto, dentro de dois minutos, e recolheu-se a casa esbaforida, quase sufocada pela asma, furiosa. 

— Trazer a roupa melhor a uso e dar estafas destas à gente! — rosnou ela. — Isto só de quem não tem juízo nenhum!

     Mário caminhara em direção ao Luxemburgo.
     A jovem e o senhor Leblanc lá estavam. Mário aproximou-se-lhes o mais que lhe foi possível, fingindo ler num livro, mas ficou ainda muito longe, e foi depois sentar-se num banco, onde se demorou quatro horas, a ver saltar de um para outro lado os pardais, que pareciam zombar dele.
     Decorreram assim quinze dias. Mário ia ao Luxemburgo, não já para passear, mas para ir sentar-se no mesmo lugar, e sem saber porquê. Depois de ali chegar não se mexia. Vestia em cada dia o fato novo, apesar de não se mostrar, e recomeçava no dia seguinte. Ela era decididamente dotada de maravilhosa beleza.
     A única observação que se poderia fazer semelhante a uma crítica, era a contradição entre o olhar, que era triste, e o sorriso, que era alegre, lhe dava ao rosto um tanto ou quanto de desvairamento, o que era origem de que em certos momentos aquele meigo rosto se tornasse extraordinário, sem deixar de ser encantador.

continua na página 532...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - V —  Caem vários raios sobre «Mame» Bougon
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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