quinta-feira, 14 de maio de 2026

Espumas Flutuantes - A Luís

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A LUÍS
  No dia de seu natalício
A imaginação, com o voo ousado, aspira
a princípio à eternidade... Depois um
pequeno espaço basta em breve para os destroços
de nossas esperanças iludidas!...
Goethe

Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino, 
 Ó meu amigo! que saudade infinda 
 Tu me trazes dos tempos de menino! 

É o ledo enxame de sutis abelhas 
 Que vem lembrar à flor o mel d’aurora... 
 Acres perfumes de uma idade ardente 
 Quando o lábio sorri... mas nunca chora! 

Que tempos idos! que esperanças louras! 
 Que cismas de poesia e de futuro! 
 Nas páginas do triste Lamartine 
 Quanto sonho de amor pousava puro!... 

E tu falavas de um amor celeste, 
 De um anjo, que depois se fez esposa... 
 — Moça, que troca os risos de criança 
 Pelo meigo cismar de mãe formosa. 

Oh! meu amigo! neste doce instante 
 O vento do passado em mim suspira, 
 E minh’alma estremece de alegria, 
 Como ao beijo da noite geme a lira. 

Tu paraste na tenda, ó peregrino! 
 Eu vou seguindo do deserto a trilha; 
 Pois bem... que a lira do poeta errante 
 Seja a bênção do lar e da família. 
 Rio, fevereiro de 1868


DALILA
Fair defect of nature 
 Paradise Lost — Milton
Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura 
 Pedir seiva de vida — à sepultura, 
 Em gelo — me abrasar, 
 Pedir amores — a Marco sem brio, 
 E a rebolcar-me em leito imundo e frio 
 — A ventura buscar.

Errado viajor — sentei-me à alfombra 
 E adormeci da mancenilha à sombra 
 Em berço de cetim... 
 Embalava-me a brisa no meu leito... 
 Tinha o veneno a lacerar-me o peito 
— A morte dentro em mim...

Foi loucura!... No ocaso — tomba o astro; 
 A estátua branca e pura de alabastro 
 — Se mancha em lodo vil... 
 Quem rouba a estrela — à tumba do ocidente? 
 Que Jordão lava na lustral corrente 
 O marmóreo perfil?...  

.....................................................................

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta 
 Ela passou sozinha, macilenta 
 Tremendo a soluçar... 
 Chorava — nenhum eco respondia... 
 Sorria — a tempestade além bramia... 
 E ela sempre a marchar.  

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma. 
 Tens os pés a sangrar? — podes em calma 
 Dormir no peito meu. 
 Pomba errante — é meu peito um ninho vago! 
 Estrela — tens minha alma — imenso lago — 
 Reflete o rosto teu!... 

E amamos... Este amor foi um delírio... 
 Foi ela minha crença, foi meu lírio, 
 Minha estrela sem véu... 
 Seu nome era o meu canto de poesia, 
 Que com o sol — pena de ouro — eu escrevia 
 Nas lâminas do céu. 

Em seu seio escondi-me... como à noite 
 Incauto colibri, temendo o açoite 
 Das iras do tufão, 
 A cabecinha esconde sob as asas, 
 Faz seu leito gentil por entre as gazas 
 Da rosa do Japão. 

E depois... embalei-a com meus cantos 
 Seu passado esqueci... lavei com prantos 
 Seu lodo e maldição... 
 ... Mas um dia acordei... E mal desperto 
 Olhei em torno a mim... — Tudo deserto... 
 Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças 
 Por ela perguntei... de suas tranças 
 À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio... 
 E meu lábio queimado e o peito frio, 
 Foi ela que o queimou... 

Minha alma nodoou no ósculo imundo, 
 Bem como Satanás — beijando o mundo — 
 Manchou a criação, 
 Simum — crestou-me da esperança as flores... 
 Tormenta — ela afogou nos seus negrores 
 A luz da inspiração... 

Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada... 
 É suave a descida — terminada 
 Em báratro cruel. 
 Tua vida — é um banho de ambrosia... 
 Mais tarde a morte e a lâmpada sombria 
 Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando... 
 As perlas do Champagne gotejando 
 Em taças de cristal. 
 A volúpia a escaldar na louca insônia... 
 Mas sufoca os festins de Babilônia 
 A legenda fatal. 

Tens o seio de fogo e a alma fria. 
 O cetro empunhas lúbrico da orgia 
 Em que reinas tu só!... 
 Mas que finda o ranger de uma mortalha, 
 A enxada do coveiro que trabalha 
 A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo 
 Julguei-te — estrela, — e eras — pirilampo 
 Em meio à cerração... 
 Prometeu — quis dar luz á fria argila... 
 Não pude... Pede a Deus, louca Dalila, 
 A luz da redenção!!...
Recife, 1864. 

continua pag 59...
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A Luís /                    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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