terça-feira, 19 de maio de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Um grande músico)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Um grande músico, membro do Instituto, alto dignitário oficial e que conhecia Ski, passou por Arembouville, onde tinha uma sobrinha, e compareceu a uma quarta-feira na casa dos Verdurin. O Sr. de Charlus mostrou-se particularmente amável com ele (a pedido de Morel) e sobretudo para que, quando de regresso a Paris, o acadêmico lhe permitisse assistir a diversas sessões privadas, ensaios, etc., em que tocava o violinista. O acadêmico, lisonjeado e aliás pessoa encantadora, prometeu e cumpriu a promessa. O barão ficou muito comovido com todas as gentilezas que esse personagem (que aliás, de sua parte, amava profunda e exclusivamente as mulheres) teve para com ele, com todas as facilidades que lhe proporcionou para ver Morel em lugares oficiais, onde os profanos não entram, com todas as oportunidades oferecidas pelo célebre artista ao jovem virtuoso para se apresentar; fazer-se conhecido, designando-o, de preferência a outros de igual talento, para audições que deviam ter uma repercussão especial. Mas o Sr. de Charlus não desconfiava que devia tanto maior reconhecimento ao mestre, visto que este, duplamente merecedor, ou, se preferem, duas vezes culpado, não ignorava coisa alguma acerca das relações entre o violinista e seu nobre protetor. Ele as favoreceu, certamente sem simpatia por elas, não podendo compreender outro amor que não o da mulher, que havia inspirado toda a sua música, mas por indiferença moral, complacência e servilismo profissionais, amabilidade mundana, esnobismo. Quanto às dúvidas sobre o caráter dessas relações, tinha-as tão poucas que, desde o primeiro jantar em La Raspeliere, perguntara a Ski, falando do Sr. de Charlus e de Morel como se falasse de um homem e sua amante:

- Faz muito tempo que estão juntos? -

     Porém, mundano demais para deixar transparecer fosse o que fosse aos interessados, pronto, se aparecessem falatórios entre os colegas de Morel, a reprimi-los e a tranqüilizar Morel, dizendo-lhe paternalmente: 

- Dizem isso de todo mundo, hoje em dia -, não deixou de cumular o barão de gentilezas que este achava encantadoras, embora naturais, incapaz de supor no ilustre mestre tanto vício ou tanta virtude. Pois as palavras que se diziam na ausência do Sr. de Charlus, as insinuações sobre Morel, ninguém era de alma tão baixa que fosse repeti-las. E no entanto, esta simples situação basta para mostrar que mesmo esta coisa universalmente desacreditada, que em parte alguma encontraria um defensor o mexerico; também ele, ou que tenha por objeto a nós mesmos e se nos torne desse modo particularmente desagradável, ou que nos informe sobre um terceiro algo que ignorávamos, tem seu valor psicológico. Ele impede o espírito de adormecer sobre a visão artificial do que julga serem as coisas e que não passa da aparência destas. Revira esta última com a destreza mágica de um filósofo idealista e rapidamente nos apresenta uma ponta insuspeitada do avesso do tecido. Poderia o Sr. de Charlus imaginar estas palavras ditas por certa amável parenta: 
- Como queres que Mémé esteja apaixonado por mim? Então esqueces que sou uma mulher?! -

     E, no entanto, ela nutria uma amizade verdadeira e profunda pelo barão. Como então espantar-se, no caso dos Verdurin, com cuja bondade e afeto ele não tinha direito nenhum de contar, de que as palavras que diziam longe dele (e não foram só palavras, conforme se verá) fossem tão diversas do que ele imaginava, ou seja, simples reflexo das que ouvia quando se achava presente? Somente estas ornavam de inscrições afetuosas o pequeno pavilhão ideal onde por vezes o Sr. de Charlus vinha sonhar sozinho, quando por um instante introduzia a sua imaginação na ideia que os Verdurin faziam dele. Ali a atmosfera é tão simpática, tão cordial, o repouso tão reconfortante, que, quando o Sr. de Charlus, antes de adormecer, vinha ali descansar um momento de suas preocupações, nunca saía sem um sorriso. Mas, para cada um de nós, esse gênero de pavilhão é dúplice: diante daquele que julgamos ser o único existe outro, normalmente invisível para nós, o verdadeiro, simétrico em relação ao que conhecemos, porém muito diferente e cuja ornamentação, em que não achamos nada do que esperávamos ver, nos assombraria como se fosse feita com os símbolos odiosos de uma hostilidade insuspeitada. Que pasmo para o Sr. de Charlus, se ele penetrasse num desses pavilhões adversos graças a um mexerico, como por uma dessas escadas de serviço onde, à porta dos apartamentos, são rabiscados a carvão grafitos obscenos por fornecedores descontentes ou criados despedidos! Mas, da mesma forma como somos privados desse senso de orientação de que são dotados certos pássaros, falta-nos o sentido da visibilidade, como o das distâncias, e julgamos estar próxima a atenção interessada de pessoas que, pelo contrário, jamais pensam em nós, e não suspeitamos que, durante esse tempo, somos para os outros a sua única preocupação. Assim, o Sr. de Charlus vivia iludido como o peixe que julga que a água em que nada se estende para além do vidro de seu aquário, que lhe apresenta o reflexo dessa água, ao passo que não vê a seu lado, na sombra, o passeante divertido que segue suas evoluções ou o piscicultor todo-poderoso que, no momento imprevisto e fatal, diverso desse momento em relação ao barão (para quem o piscicultor, em Paris, será a Sra. Verdurin), irá tirá-lo sem piedade do ambiente em que gostava de viver para arremessá-lo a outro. De resto, os povos, na qualidade de coleções de indivíduos, podem oferecer exemplos mais ampliados, porém idênticos em cada uma de suas partes, desta cegueira profunda, obstinada e desconcertante. Até aqui, se ela fora causa de que o Sr. de Charlus mantivesse, no pequeno clã, conversas de uma habilidade inútil ou de uma audácia que fazia sorrir às escondidas, ainda não tivera para ele, nem deveria tê-lo em Balbec, consequências graves. Um pouco de albumina, de açúcar, de arritmia cardíaca não impede que a vida continue de modo normal para aquele que nem sequer percebe isso, enquanto que só o médico vê no caso um presságio de catástrofes. No momento presente, o gosto platônico ou não do Sr. de Charlus por Morel somente impelia o barão a dizer de bom grado, na ausência de Morel, que o achava muito bonito, pensando que isso será ouvido com toda a inocência, e nisso agia como um homem fino que, chamado a depor diante do tribunal, não se acanhará de entrar em detalhes que aparentemente lhe são desvantajosos, mas que, por isso mesmo, têm maior naturalidade e menos vulgaridade do que os protestos convencionais de um réu de teatro. Com a mesma liberdade, sempre entre Doncieres-Oeste e Saint-Martin-du-Chêne ou vice-versa; o Sr. de Charlus falava de bom grado acerca das pessoas que, segundo parece, têm costumes bem estranhos, e até mesmo acrescentava: 

- Afinal de contas, digo "estranhos" não sei por quê, pois isso nada possui de tão estranho -para mostrar a si próprio como se sentia à vontade com seu público. E ele o era de fato, com a condição de que fosse ele a tomar a iniciativa das operações e soubesse que a galeria estava muda e risonha, desarmada pela credulidade ou pela boa educação. Quando o Sr. de Charlus não falava de sua admiração pela beleza de Morel, como se não tivesse nenhuma relação com um gosto chamado vício, tratava desse vício, mas como se de modo algum fosse o seu. Por vezes até não hesitava em chamá-lo pelo seu nome. Como, depois de haver observado a bela encadernação de seu Balzac, eu lhe perguntasse o que preferia na Comédia Humana, respondeu me, dirigindo seu pensamento para uma ideia fixa: 
- Tanto faz, as pequenas miniaturas, como O Cura de Tours e A Mulher Abandonada, ou os grandes afrescos, como a série das Ilusões Perdidas. Como! Não conhece as Ilusões Perdidas? É tão belo! O momento em que Carlos Herrera indaga o nome do castelo pelo qual está passando a sua caleche: é Rastignac, a moradia do rapaz a quem ele amou outrora. E o abade nesse momento cai num devaneio que Swann denominava, o que era bem espirituoso, a "Tristeza de Olímpio" da pederastia. E a morte de Lucien! Já não me lembro qual foi o homem de gosto que teve esta resposta, a quem lhe perguntava que acontecimento mais o afligira em toda a sua vida: "A morte de Lucien de Rubempré em Esplendores e Misérias". 
["Tristeza de Olímpio" é um célebre poema de Victor Hugo, em que o poeta revê com melancolia os locais onde principiou seu amor por Juliette Drouet. (N. do T)] 
- Sei que Balzac vai passando muito bem este ano, como no ano passado o pessimismo - interrompeu Brichot. - Mas com o risco de entristecer as almas atacadas de deferência balzaquiana, sem pretender, Deus me livre!, o papel de guarda das letras e abrir processo contra erros de gramática, confesso que o copioso improvisador de quem o senhor parece sobrestimar singularmente as espantosas elucubrações, pareceu-me sempre um escriba insuficientemente meticuloso. Eu li estas Ilusões Perdidas de que nos fala, barão, torturando-me para atingir um fervor de iniciado, e confesso com toda a simplicidade de alma que esses romances-folhetins redigidos em pathos, em algaravia dupla ou tripla ("Esther feliz", "Aonde levam os maus caminhos", "Por quanto o amor fica aos velhos"), sempre me deram o efeito dos mistérios de Rocambole, promovido por inexplicável favor à condição precária de obra-prima. 
- O senhor diz isso porque não conhece a vida - retrucou o barão, duplamente irritado, pois sentia que Brichot não haveria de compreender suas razões de artista nem quaisquer outras. 
- Entendo perfeitamente - respondeu Brichot- que, para falar como mestre Rabelais, o senhor quer dizer que sou muito sorbonagra, sorbonícola e sorboniforme.19 Entretanto, assim como os camaradas, gosto que um livro dê impressão de sinceridade e de vida, não sou desses clérigos...
[Brichot sem ligar para adjetivos usados por Rabelais para debicar dos universitários da Sorbonne. (N. do T)]
- O quarto de hora de Rabelais - interrompeu Cottard, com um ar não mais de dúvida, mas de espirituosa segurança - ... que fazem voto de literatura seguindo a regra da Abbaye-aux-Bois, na obediência do Sr. visconde de Chateaubriand, grande mestre do chique, segundo a regra estrita dos humanistas. O Sr. visconde de Chateaubriand 
- Chateaubriand com batatas? - interrompeu o doutor Cottard. - É ele o patrono da confraria - continuou o gracejo do doutor, o qual em compensação, alarmado pela frase do universitário, olhou inquieto para o Sr. de Charlus. Era uma falta de tato de Brichot, segundo Cottard, cujo trocadilho fizera aflorar um fino sorriso aos lábios da princesa Sherbatoff. 
- Com o professor, a ironia mordaz do perfeito cético jamais perde os seus direitos - disse ela por amabilidade e para mostrar que a "palavra" do médico não lhe passara despercebida. 
- O sábio é forçosamente cético - respondeu o doutor. 
- Que sei eu? "Conhece-te a ti mesmo." dizia Sócrates. É muito justo, o excesso é um defeito em tudo. Mas fico embasbacado quando penso que bastou isso para fazer durar o nome de Sócrates até nossos dias. O que existe nessa filosofia? Pouca coisa, em suma. Quando se pensa que Charcot e outros realizaram trabalhos mil vezes mais notáveis, e que pelo menos se apoiam em alguma coisa, a respeito da supressão do reflexo pupilar como síndrome da paralisia geral, e que estão quase esquecidos! Em suma, Sócrates não é extraordinário. Trata-se de pessoas que não tinham nada para fazer, que passavam o dia inteiro a passear, a discutir. É como Jesus Cristo: Amai-vos uns aos outros... Muito bonito! 
- Meu amigo... - implorou a Sra. Cottard. 
- Naturalmente a minha mulher protesta, todas elas são umas neuróticas. 
- Mas, meu doutorzinho, eu não sou neurótica - murmurou a Sra. Cottard. 
- Como? Ela não é neurótica? Quando seu filho está doente, ela apresenta fenômenos de insônia. Mas, afinal, reconheço que Sócrates e o resto são necessários para uma cultura superior, para se obter talentos de exposição. Costumo citar sempre a meus alunos no primeiro ano. O padre Bouchard, que soube disso, felicitou-me. 
- Não sou dos cultores da forma pela forma e também não entesouraria como poesia a rima milionária - retorquiu Brichot. - Mas ainda assim A Comédia Humana (bem pouco humana) é por demais o oposto dessas obras em que a arte excede o fundo, como diz a besta do Ovídio. E é permitido preferir uma trilha a meia encosta, que leve ao curato de Meudon ou à ermida de Ferney, a igual distância da Vallée-aux-Loups, onde Renê cumpria magnificamente os deveres de um pontificado sem mansuetude, e Jardies, onde Honoré de Balzac, atormentado pelos esbirros, não parava de cacografar para uma polonesa, como apóstolo zeloso da algaraviada. 
- Chateaubriand está muito mais vivo do que o senhor diz, e Balzac mesmo assim é um grande escritor - respondeu o Sr. de Charlus, ainda por demais impregnado do gosto de Swann para não se sentir irritado com Brichot - e Balzac conheceu até mesmo essas paixões que todo mundo ignora ou só estuda para as difamar. Sem voltar a falar das imortais Ilusões Perdidas, Sarrazine, A Menina dos Olhos de Ouro, Uma Paixão no Deserto, até a bastante enigmática A Falsa Amante salta em meu apoio. Quando eu falava a Swann sobre esse aspecto "fora da natureza" de Balzac, ele me dizia: - O senhor é da mesma opinião de Taine. Eu não tive a honra de conhecer o Sr. Taine - acrescentou o Sr. de Charlus (com esse hábito irritante do "senhor" inútil que têm as pessoas da sociedade, como se julgassem que, tachando de senhor a um grande escritor, lhe conferiam uma honra, talvez guardassem as distâncias e davam a entender que o não conheciam) eu não conhecia o Sr. Taine, mas me sentia muito honrado de ser da mesma opinião que ele. -  

     Aliás, malgrado esses ridículos hábitos mundanos, o Sr. de Charlus era muito inteligente, e é provável que, se algum casamento antigo tivesse estabelecido laços entre a sua família e a de Balzac, ele teria sentido (de resto, não menos que Balzac) uma satisfação de que, no entanto, não poderia deixar de vangloriar-se como de um sinal de admirável condescendência.
     Às vezes, na estação seguinte a Saint-Martin-du-Chêne, rapazes embarcavam no trem. O Sr. de Charlus não podia deixar de olhá-los, mas como abreviava e disfarçava a atenção que lhes prestava, esta parecia ocultar um segredo, mais especial até que o verdadeiro; dir-se-ia que o barão os conhecia; deixava-o transparecer contra a sua vontade, depois de ter aceito o seu sacrifício, antes de virar-se para nós, como esses meninos que, devido a uma briga dos pais, foram proibidos de cumprimentar seus camaradas, mas que, ao se encontrarem, não podem deixar de erguer a cabeça antes de recair sob a férula do preceptor. À expressão grega de que o Sr. de Charlus, falando de Balzac, fizera seguir a alusão à "Tristeza de Olímpio" em Esplendores e Misérias, Ski, Brichot e Cottard se entreolharam com um sorriso, talvez menos irônico de que impregnado da satisfação que sentiriam os convivas que tivessem conseguido que Dreyfus falasse sobre o seu próprio caso, ou a imperatriz do seu reinado. Contavam levá-lo um pouco mais adiante no assunto, mas já estávamos em Doncieres, onde Morel se reuniria a nós. Diante dele, o Sr. de Charlus vigiava cuidadosamente a sua conversa, e, quando Ski desejou fazê-lo voltar ao amor de Carlos Herrera por Lucien de Rubempré, o barão mostrou-se contrariado, misterioso, e por fim (vendo que não o escutavam), assumiu o ar severo e justiceiro de um pai que ouvisse dizer indecências diante da filha. Tendo Ski teimado um pouco para que ele continuasse, o Sr. de Charlus, de olhos fora das órbitas, erguendo a voz, disse em tom significativo e apontando para Albertine, que todavia não podia escutar-nos, ocupada em conversar com a Sra. Cottard e a princesa Sherbatoff, e no tom ambíguo de alguém que pretende dar uma lição a pessoas mal-educadas: 

- Creio que não faltará ocasião de falar dessas coisas que podem interessar a essa moça.

     Mas eu compreendi perfeitamente que, para ele, a "moça" não era Albertine e sim Morel; mais tarde, aliás, comprovou ele a justeza da minha interpretação, com as frases de que se serviu ao pedir que não mais se conversasse sobre tais assuntos na presença de Morel. 

- O senhor sabe - disse-me ele, falando do violinista - que ele absolutamente não é o que poderiam acreditar; é um menino muito honrado, que sempre teve muito juízo, um menino muito sério. -

     Sentia-se por essas palavras que o Sr. de Charlus considerava a inversão sexual como um perigo tão ameaçador para os jovens como a prostituição para as mulheres, e que se ele se servia do epíteto de "sério" para Morel, era no mesmo sentido que tem quando aplicado a uma operariazinha. Então Brichot, para mudar de conversa, perguntou se eu pretendia ficar ainda muito tempo em Incarville. Por mais que eu lhe tivesse observado várias vezes que não morava em Incarville, mas em Balbec, ele recaía sempre no mesmo erro, pois era sob o nome de Incarville, ou Balbec-lncarville, que designava aquela parte do litoral. Assim, há pessoas que falam da mesma coisa que nós, chamando-as por nomes um pouco diferentes. Certa dama do faubourg Saint-Germain me perguntava sempre, quando queria falar da duquesa de Guermantes, se fazia muito tempo que eu não via Zénaïde, ou Oriane-Zénaïde, e o resultado é que eu não compreendia no primeiro instante. Provavelmente, houvera um tempo em que, chamando-se Oriane uma parenta da Sra. de Guermantes, chamavam a esta de Oriane-Zénaïde para evitar confusões. Talvez também houvesse no começo apenas uma estação em Incarville, e de onde se ia de carro até Balbec. 

- De que estavam falando, então? - indagou Albertine, espantada com o tom solene de pai de família que o Sr. de Charlus acabara de assumir. 
- De Balzac - apressou-se a responder o barão - e você hoje está precisamente com a toalete da princesa de Cadignan, não a primeira, a do jantar, mas a segunda. -

     Esta circunstância decorria de que, para escolher as toaletes de Albertine, eu me inspirava no gosto que ela havia formado graças a Elstir, o qual muito apreciava uma sobriedade que poderia chamar-se britânica, não fosse temperada de uma certa doçura, certa languidez francesa. Na maioria das vezes, seus vestidos prediletos ofereciam aos olhos uma harmoniosa combinação de tons cinzentos, como a de Diane de Cadignan. Não havia ninguém como o Sr. de Charlus para saber apreciar em seu justo valor as toaletes de Albertine; logo em seguida, seus olhos descobriam o que lhes formava a raridade, o valor; jamais teria dito o nome de um tecido em vez de outro, e reconhecia os costureiros. Só que apreciava para as mulheres um pouco mais de brilho e de cor do que o tolerado por Elstir. Assim, naquela noite, lançou-me ela um olhar meio risonho, meio inquieto, franzindo seu narizinho róseo de gata. Com efeito, cruzada sobre sua saia de crepe da China cinzenta, sua jaqueta de cheviote cor-de-cinza fazia crer que Albertine estivesse toda de gris. Mas, fazendo-me sinal para que a ajudasse, pois suas mangas bufantes precisavam ser abaixadas ou erguidas para tirar ou botar sua jaqueta, Albertine despiu esta e, como essas mangas eram escocesas de um tom muito suave, róseo, azul pálido, esverdeado, furta-cor, foi como se num céu cinzento se formasse um arco-íris. E ela se perguntava se aquilo iria agradar ao Sr. de Charlus. 

- Ah! - exclamou este encantado - eis um raio de luz, um prisma de cores. Apresento-lhe os meus cumprimentos. 
- Mas este Senhor aqui é que possui todos os méritos - respondeu gentilmente Albertine, designando-me, pois gostava de mostrar o que lhe provinha de minha parte. 
- Só as mulheres que não sabem se vestir é que receiam a cor - continuou o Sr. de Charlus. - Pode-se ser deslumbrante sem vulgaridade, e suave sem ser insosso. Além disso, você não tem os mesmos motivos que a Sra. de Cadignan para querer parecer desligada da vida, pois era a idéia que ela desejava incutir em d'Arthez com essa toalete gris. -

     Albertine, a quem interessava essa muda linguagem dos vestidos, fez perguntas ao Sr. de Charlus acerca da Princesa de Cadignan. 

- Oh, é uma novela refinada - disse o barão num tom sonhador. 
- Conheço o jardinzinho em que Diane de Cadignan passeava com a Sra. d'Espard. É o jardim de uma de minhas primas. 
- Todas essas questões do jardim de sua prima – murmurou Brichot a Cottard - podem, assim como a sua genealogia, ter importância para este excelente barão. Mas que interesse tem isso para nós, que não temos o privilégio de passear nele, nem conhecemos essa dama e não possuímos títulos de nobreza? -

     Pois Brichot não imaginava que fosse possível alguém interessar-se por um vestido ou um jardim como por uma obra de arte, e que era como em Balzac que o Sr. de Charlus revia as pequenas alamedas da Sra. de Cadignan. O barão continuou: 

- Mas o senhor a conhece - disse-me ele, falando daquela prima e para me lisonjear, dirigindo-se a mim como a alguém que, exilado no pequeno clã, se não era propriamente de seu mundo para o Sr. de Charlus, ao menos o frequentava. - Em todo caso, deve tê-la visto na casa da Sra. de Villeparisis. 
- A marquesa de Villeparisis, a quem pertence o castelo de Baucreux? - perguntou Brichot com ar submisso. 
- Sim, conhece-a? - indagou secamente o barão. 
- De forma alguma - respondeu Brichot -, mas nosso colega Norpois passa, todos os anos, uma parte de suas férias em Baucreux. Já tive ocasião de lhe escrever para lá. -

     Disse eu a Morel, pensando interessar-lhe, que o Sr. de Norpois era amigo de meu pai. Mas nenhum movimento de seu rosto mostrou que ele tivesse ouvido, de tal modo considerava meus pais como gente sem importância, e que não estavam muito longe do que havia sido o meu tio-avô, em cuja casa o pai dele fora criado de quarto e que; aliás, contrariamente ao restante da família, como gostava de "fazer encrencas", deixara em seus criados uma recordação fascinante. - Parece que a Sra. de Villeparisis é uma mulher superior; porém, nunca me foi dado julgá-lo por mim mesmo, assim como o resto dos meus colegas. Pois Norpois, que aliás é cheio de cortesia e afabilidade no Instituto, não apresentou nenhum de nós à marquesa. Não sei de ninguém recebido por ela, a não ser o nosso amigo Thureau-Dangin, que tinha com ela antigas relações de família, e também Gaston Boissier, a quem ela desejou conhecer devido a um estudo que a interessava muito especialmente. Jantou lá uma vez e voltou fascinado. E o fato é que a Sra. Boissier não foi convidada.
     A esses nomes, Morel sorriu enternecido: 

- Ah, Thureau-Dangin - disse-me ele, tão interessado agora como fora indiferente ao ouvir falar do marquês de Norpois e de meu pai. - Thureau-Dangin e seu tio formavam um bom par de amigos. Quando uma dama queria um bom lugar para uma recepção da Academia, o seu tio dizia: "Escreverei a Thureau-Dangin." E naturalmente o lugar era logo enviado, pois bem compreende que ele não negaria coisa alguma a seu tio, que se desforraria de volta. Diverte-me igualmente ouvir o nome de Boissier, pois era lá que seu tio-avô mandava comprar todos os presentes para as senhoras no Ano-Novo. Sei disso, pois conheço a pessoa encarregada de fazê-lo. -

continua na página 211...
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