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domingo, 17 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte - Epílogo

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

Epílogo

.     Precipitando-se para Pávlovsk a viúva do mestre-escola se dirigiu direta- mente a Dária Aleksiéievna que já estando assombrada com os acontecimentos da véspera, ainda ficou em um pânico maior, ante o que lhe foi contado. Resolveram as duas senhoras comunicarem-se imediatamente com Liébediev que, como era natural, estava preocupadíssimo com o seu inquilino e amigo.
     Contou-lhes Vera Liébedieva tudo quanto sabia.
     A conselho de Liébediev decidiram seguir os três para Petersburgo com o fim de o mais depressa possível evitar o que pudesse estar para acontecer. E assim foi que, cerca das onze horas da manhã do dia seguinte, o apartamento de Rogójin foi arrombado na presença da polícia, das senhoras, de Liébediev e de um irmão de Rogójin, Semión Semiónovitch, que morava na outra ala - ato esse facilitado pela declaração do porteiro que, depondo, disse ter visto à noite Parfión Semiónovitch entrar pela porta da frente, com uma visita, mas, pelo que lhe pareceu, às escondidas.
     Durante dois meses esteve Rogójin prostrado, com inflamação cerebral, tendo sido julgado logo que se restabeleceu. Com muita exatidão deu provas irretorquíveis sobre cada ponto do libelo, em consequência do que absolutamente não foi trazido à baila o nome de Míchkin. Durante o julgamento, conquanto taciturno, não contradisse Rogójin o eloquente conselho judicial que provou, com clareza e lógica, ter o crime sido cometido em consequência da febre cerebral que acometera o réu muito antes da perpetração do crime que, assim, pois, mais não foi do que um resultado de suas perturbações. Não acrescentou Rogójin coisa alguma em contestação, mantendo com a mesma clareza exata o seu depoimento feito durante o inquérito relativamente às circunstâncias ligadas ao crime. Foi sentenciado, em vista das circunstâncias atenuantes, a somente quinze anos de servidão penal na Sibéria. Ouviu a sentença soturnamente calado e como que “sonhando”. Toda a sua enorme fortuna, de que só uma parte comparativamente pequena fora dilapidada nos primeiros meses de libertinagem, passou para o seu irmão, Semión Semiónovitch, com grande satisfação deste. Sua velha mãe ainda vive, e parece que, lá uma vez ou outra, se recorda de seu filho favorito, Parfión, decerto, porém, muito vagamente, Deus lhe tendo poupado o espírito e o coração do conhecimento do golpe desferido sobre o seu melancólico lar.
     Liébediev, Keller, Gánia, Ptítsin, e muitas outras pessoas desta história, continuam a viver, tendo mudado pouco, quase nada havendo a relatar sobre eles.
     Ippolít, quinze dias depois de Nastássia Filíppovna, morreu em terrível estado de excitação, e decerto mais cedo do que calculara.
     Kólia ficou profundamente marcado pelos acontecimentos, ligando-se mais intimamente do que nunca à sua mãe, Nina Aleksándrovna, que vive inquieta com esse seu filho demasiado pensativo para a idade. Mas de uma coisa ela não tem dúvida: ele tornar-se-á um homem útil e ativo; entre outras coisas, a acomodação do futuro de Míchkin foi, parcialmente, obra sua.
     Desde muito tendo notado que Evguénii Pávlovitch Radómskii era uma pessoa diferente das outras cujas amizades fora fazendo, o procurou para contar o caso do príncipe e sua consequente situação. Evguénii Pávlovitch não o decepcionou na estima com que era distinguido, pois tomou logo o maior interesse pela sorte do infortunado “idiota” que, devido a seus cuidados e diligências, foi reenviado ao Dr. Schneider, na Suíça.
     Considerando-se, francamente, um homem supérfluo na Rússia, Evguénii Pávlovitch seguiu para o estrangeiro, decidido a passar uma grande temporada na Europa, fazendo, então, várias visitas a seu amigo doente na instituição do Dr. Schneider. Visitava-o, no mínimo, de três em três meses. Mas Schneider franzia as sobrancelhas e meneava a cabeça, cada vez mais desanimado; pressentia, categoricamente, ser impossível uma remissão, de vez em quando se permitindo um ou outro vaticínio quanto a possibilidades ainda mais melancólicas. Isso afetou muito o coração de Evguénii Pávlovitch; e não é um coração qualquer, esse seu, como fica demonstrado ante o fato de Kólia lhe escrever cartas que recebem constantes respostas.
     Há ainda um outro fato que patenteia um traço bondoso do seu caráter, e aqui nos apressamos em mencionar qual seja: depois de cada visita sua ao Dr. Schneider, Evguénii Pávlovitch sempre remete uma carta a certa pessoa de Petersburgo, com as mais simpáticas e minuciosas informações sobre o estado da saúde do príncipe. Acompanhadas com as mais respeitosas expressões de devotamento, essas cartas invariavelmente (e cada vez com mais frequência) contêm um franco desenvolvimento de ideias, vistas e sentimentos, qualquer coisa que, em realidade, se aproxima de um sentimento fervoroso de amizade mal disfarçada através disso tudo. Essa pessoa, que se corresponde com ele (conquanto, deste lado, as cartas sejam menos frequentes) e que é assim merecedora de tanta atenção e respeito da sua parte, é Vera Liébedieva.
     Nunca nos foi dado nos certificarmos de como essas relações nasceram entre ambos; não resta dúvida, porém, terem começado ao tempo do colapso total do príncipe, quando Vera Liébedieva ficou tão aflita que até caiu doente. Mas, de um modo exato, qual o incidente que os levou a esse conhecimento e amizade, não sabemos informar.
     Aludimos a essas cartas principalmente porque contêm notícias sobre os Epantchín e, especialmente, sobre Agláia. Segundo uma carta de Paris, um pouco desconexa, Evguénii Pávlovitch contava que, após uma súbita e extraordinária atração por um conde polaco exilado, Agláia se casara logo, apesar da oposição dos pais que só tinham acabado dando consentimento por haver possibilidades de um terrível escândalo.
     Depois de seis meses de silêncio, chegou nova carta de Evguénii Pávlovitch, mandando à pessoa com quem se correspondia uma comprida e minuciosa descrição de como, em sua última visita à instituição do Dr. Schneider, se tinha encontrado lá com o Príncipe Chtch... e toda a família Epantchín (exceto, naturalmente, Iván Fiódorovitch, retido, pelos negócios, em Petersburgo). E que fora um estranho encontro, todos tendo demonstrado extraordinário contentamento, não cessando Adelaída e Aleksándra de se demonstrarem incalculavelmente gratas a ele. “por sua angélica bondade para com o desgraçado príncipe”.
     Lizavéta Prokófievna não parava de chorar amargamente, à vista da aflita e humilhada condição de Míchkin. Evidentemente tudo lhe fora perdoado. O Príncipe Chtch... fizera mesmo umas poucas observações justas e sinceras. Que lhe parecera a ele, Evguénii Pávlovitch, que Adelaída e o marido não estavam em muito perfeita harmonia, mas que, com certeza, no futuro, Adelaída ainda viria a permitir que o seu impetuoso temperamento fosse guiado pelo Príncipe Chtch... que tinha bom senso e experiência. E seria de esperar, de mais a mais, que as cruéis experiências que a família sofrera através, principalmente, da recente aventura de Agláia com o conde exilado, viessem a causar profunda impressão na irmã. Que tudo quanto a família receara ao negar Agláia ao conde polaco, se tinha, em menos de seis meses, confirmado, e até da pior maneira, com surpresa que eles nunca haviam sequer sonhado.
     Esclareceu-se que o conde nem conde era e que, se estava exilado como dizia, era isso devido a certa aventura sombria e duvidosa do seu passado. O tratante fascinara Agláia pela sua extraordinária “nobreza” de alma dilacerada em angústia patriótica. Fascinação essa que, mesmo depois de casada, subira a ponto de fazer que ela se tornasse sócia de um Comitê pela restauração da Polônia e desse em frequentar o confessionário de um célebre pregador católico, passando logo o seu espírito a lhe sofrer a influência.
     Quanto às vastas propriedades do conde polaco, e de que antes mostrara ao Príncipe Chtch... e a Lizavéta Prokófievna as mais incontestáveis provas, não passavam de um mito. E ainda mais: que seis meses após o casamento, o conde e o seu amigo, o célebre confessor, haviam conseguido indispor Agláia completamente com a família, de modo que desde meses nem sequer tinham notícias dela.
     Restava de fato ainda muita coisa a contar: mas Lizavéta Prokófievna, filha e genro estavam tão aborrecidos com esse “terrível caso” que relutaram em aludir a outros pontos durante essa conversa com Evguénii Pávlovitch, muito embora cientes de que ele já sabia a história da última peripécia de Agláia. Como Lizavéta Prokófievna se sentia ansiosa por voltar à Rússia! Segundo o relato de Evguénii Pávlovitch, ela agora se mostrava mais amarga e injusta do que nunca em suas críticas contra tudo da Europa.

-  Eles aqui nem sabem fazer um pão decente! No inverno ficam mais entanguidos do que camundongos em uma adega. Aqui só me foi dado o consolo de ao menos poder chorar lágrimas bem russas por este desgraçado. (Apontava para o príncipe que nem a tinha reconhecido.) Já chega de seguir as nossas venetas! Já é tempo de sermos sensatos. Tudo isto, toda esta vida aqui no estrangeiro, e toda esta Europa tão gabada, tudo, mas tudo, não passa de uma fantasia! E todos nós, no estrangeiro, somos fantasia e nada mais!... Guarde bem estas minhas palavras, pois irá me dar razão pessoalmente! - concluiu ela, de modo quase raivoso, ao se despedir de Evguénii Pávlovitch.

FIM

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Perfil biográfico: Fiodor Dostoiévski

A obra do romancista russo Dostoiévski foi uma das mais fluentes de seu tempo e a que mais fascínio despertou, quer pelos Conflitos de seus personagens quer por seus temas invulgarmente complexos e, sobretudo, pela intensidade passional da ação que se desenrola em seus enredos. Fiodor Mikhaílovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 11 de novembro (30 de outubro segundo o calendário juliano) de 1821. Mikhail Andreievitch, seu pai, era médico do Hospital dos Pobres, onde residia com a mulher, Maria Fiodorovna Netchaiev. O futuro escritor cresceu nesse ambiente. Em 1831 a família mudou-se para Tula, perto de Moscou, onde Fiodor e seus quatro irmãos desfrutaram de vida mais livre do autoritarismo paterno. Em 1834 Fiodor e Mikhail, o irmão mais velho, foram para o Liceu Tchermak de Moscou e, três anos mais tarde, perderam a mãe. Dostoiévski cursou em seguida a Escola de Engenharia Militar. Em 1839, seu pai foi assassinado por servos revoltados contra Sua conduta despótica: o fato causou forte comoção no jovem Fiodor.
Começava a projetar-se nos meios culturais e a frequentar um círculo de socialistas. Preso em abril de 1849, em dezembro se viu condenado ao fuzilamento. Já sob a tensão dos preparativos, recebeu a notícia da comutação da pena pelo czar. Lembranças angustiadas desse episódio doloroso povoariam toda sua obra posterior. A sentença foi transformada em exílio na Sibéria, com trabalhos forçados, e Dostoiévski ficou preso na fortaleza de Omsk por quatro anos. Sofreu então o primeiro ataque de epilepsia, doença que o perseguiu por muito tempo. Libertado em 1854, retomou a atividade literária e fundou, com o irmão Mikhail, a revista Vremia, suspensa depois pelo governo. Casou-se duas vezes: a primeira, em 1857, com Maria Dmitrievna Issaiev, e depois com Anna Grigorievna Snitkína, a quem, premido pelas dívidas acumuladas, ditaria, em 1866, o romance Igrok (O jogador), obra de fundo autobiográfico, escrita em apenas 26 dias para saldar dívidas com um editor. 
Em 1868 apareceu Idiot (O idiota), talvez o romance mais típico de Dostoiévski, que provocou perplexidade geral nos meios intelectuais. Mesmo um inimigo como o conde Saltikov (N. Chchedrin), parodiado na obra, não deixou de reconhecer o valor de muitas partes do romance, assim como Tolstói, que, embora reclamasse de sua construção “caótica”, se encantou com a obra. Em meio a paixões, crimes e baixezas de todo tipo, o príncipe Míchkin é uma espécie de Dom Quixote do cristianismo mais puro, um ideal daquilo pelo que o próprio Dostoiévski ansiava desesperadamente e que não conseguiu acreditar. Pois o cristianismo do escritor é radical, mas impuro e não sabe resistir às tentações da carne e da vontade demoníaca de destruir. Na época, porém, perguntava-se aonde queria chegar Dostoiévski com aquela atmosfera “de demência”, conforme um de seus críticos. O príncipe Míchkin é idealizado como uma antítese de Raskolnikov (estudante e homicida perseguido pela memória de seu crime quando paupérrimo, resolve matar uma miserável e inútil usurária, para salvar a si próprio e a sua família, em Crime e Castigo). Se este acha que pode tudo, o príncipe é a vítima de tudo que o circunda, mas uma vítima eleita, imagem simbólica do eslavismo cristão do autor, vencido pelas forças maléficas desencadeadas a seu redor.
     Na segunda década do século XX começou uma revisão crítica que abandonou clichês sobre o messianismo do autor, passou a valorizar os aspectos paródicos de sua obra e de sua capacidade de construção artística por trás do aparente “caos”. Por fim, com as ideias de Mikhail Bakhtin sobre o “romance polifônico”, ou seja, aquele em que se apresentaria uma multiplicidade de vozes, surgiu a ideia de um Dostoiévski menos rigidamente messiânico e ainda mais complexo. Dostoiévski morreu em São Petersburgo, em 9 de fevereiro (28 de janeiro, segundo o calendário juliano) de 1881. Sua influência sobre toda a literatura universal do século XX foi avassaladora. E sem Dostoiévski não teriam sido possíveis as pesquisas em profundidade de psicólogos como Nietzsche e Freud, além de um conhecimento por assim dizer íntimo dos motivos da alienação humana e dos caminhos para sua superação.
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O Idiota (Fiódor Dostoiévski) 
| Tatiana Feltrin




Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte - Epílogo
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sábado, 16 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte (11c) - Saíram da alcova e se sentaram

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

11.

continuando...

.     Saíram da alcova e se sentaram nas mesmas cadeiras, novamente um defronte do outro. Tremendo com uma violência cada vez mais incontida, Míchkín não tirava os olhos indagadores do rosto de Rogójin.

- Noto que estás tremendo, Liév Nikoláievitch, muito mais do que quando estiveste doente. Lembras-te, em Moscou? Tal qual como antes de te vir o acesso, aquela vez!... Fica bem calmo, senão, que vou fazer contigo agora?

     O príncipe escutou, fez todo o esforço para ficar em condições de compreender; mas os seus olhos não paravam de perguntar que é que fora aquilo...

- Quem foi? Foi você? - conseguiu dizer, por fim, mostrando a cortina.
- Fui eu. - Rogójin ciciou; e não pôde erguer os olhos. 

     Mantiveram-se calados cinco minutos. Cinco minutos...

- Escuta aqui - recomeçou Rogójin, como se não tivesse interrompido a sua confissão -, como és doente e tens ataques e convulsões, não vá alguém ouvir do pátio, ou da rua.., e descobrir, assim, que há gente aqui nos meus aposentos. Se descobrirem... começarão a bater e entrarão.., pois todos estão convencidos de que não estou em casa. Já foi por isso que não acendi luz... podiam perceber da área ou da calçada... Quando saio, levo, sempre, a chave.., e ninguém entra aqui, nem para a limpeza, enquanto dura a minha ausência. Dois.., as vezes três dias... É hábito meu. Tomei bastante cuidado para que não percebessem que estamos aqui...
- Pode continuar... - disse o príncipe. - Eu perguntei, tanto ao porteiro como à empregada, se Nastássia Filíppovna não tinha passado a noite aqui. Portanto... isto é... 
- Eu sei que perguntaste. Mas eu disse à Pafnútievna que Nastássia Filíppovna estivera aqui ontem apenas uns dez minutos e que já havia regressado para Pávlovsk. Ninguém sabe que ela ficou aqui, de noite. Entrei, ontem, com ela, às escondidas, tal como nós dois fizemos ainda agora. Quando vínhamos para cá eu pensei que ela não tomaria cuidado para entrar em segredo. Mas qual o quê! Entrou na ponta dos pés, suspendeu e dobrou a cauda do vestido em volta do corpo, segurando a ponta na mão, para que a seda não rugisse; e quando falou, foi sempre ciciando... Chegou a me balançar o dedo, escadas acima - era de ti que ela tinha medo! No trem, se visses, estava louca de terror! E foi ela quem quis passar a noite aqui. Porque eu, eu tinha pensado em levá-la ao apartamento dela, na casa da viúva; mas, qual o quê! “Mal o dia raie, ele me achará lá!” Foi o que ela disse. Mas você (referia-se a mim) vai me esconder hoje, e amanhã de manhã, cedinho, partiremos para Moscou”. Depois, já não era para Moscou que queria ir... Qualquer outra cidade... Oriól, por exemplo... Até mesmo já deitada, me dizia, de lá, que tínhamos de ir para Oriól... 
- Escute, Parfión! Que é que você vai fazer, agora? Que é que pensa fazer?
- Mas para de tremer! Eu fico espantado, por tua causa! Nós vamos ficar aqui, toda a noite. A cama é aquela só... Mas acho que podemos pegar as almofadas e os coxins dos dois sofás, e fazer uma espécie de cama para mim e para ti, do lado de cá da cortina... Para ficarmos juntos. Pois se eles vierem para cá e começarem a pesquisar, a indagar, e entrarem, darão logo com ela e a levarão. E... me achando.., me perguntarão... eu direi que fui eu e me levarão imediatamente. Assim, pois, se ficares, é melhor, não é? Ela agora fica conosco, ao nosso lado, junto de ti... e junto de mim... 
- Sim, sim! - concordou o príncipe vivamente. Quando vierem.., nós não confessaremos não, e não deixaremos que a levem!
- É sim! Não deixaremos não, de forma alguma, custe o que custar. Isso mesmo... - decidiu o príncipe. 
- Foi o que eu decidi também, rapaz, não a entregar de forma alguma. A ninguém! Ficaremos quietos aqui; a noite inteira. Hoje só saí, de manhã, por menos de uma hora. Não contando esse tempo, estive sempre com ela. E depois só saí para te ir buscar, de noite já. Mas uma outra coisa.., de que estou com medo: está muito quente e talvez comece a cheirar mal... Tu estás sentindo algum cheiro?... Eu...
- Talvez esteja... Nem sei... Mas... de madrugada, certamente...
- Eu a cobri com um oleado americano! Um bom oleado. Estendi o lençol por cima e coloquei em volta, embaixo, rente à cama, quatro botijas de desinfetante Jdánov. Desarrolhei... Ainda estão lá... Devem servir... 
- Ah! Sim, como leu que fizeram aquela vez em Moscou!?... - Por causa do cheiro, irmão! Viste como ela está... deitadinha... De manhã quando houver luz é que deves ir olhá-la... Que é isso? Não te podes erguer? - perguntou Rogójin, com espanto, vendo, todo apreensivo, que Míchkin estava tremendo de maneira tão absurda que, apesar do esforço para ir ver outra vez Nastássia Filíppovna, não conseguia se pôr em pé...
- As minhas pernas não.., obedecem - explicou baixinho o príncipe - e creio que é... terror! Mas quando isto passar, me levantarei para ir... vê-la.
- Sossega; vou arranjar uma cama para nós. Deitando, ficarás logo melhor. Eu deitarei também... E ficaremos escutando... Pois é, rapaz, não compreendo ainda, não compreendo como tudo isso foi... Bem que te avisei, que te preveni, de antemão.., de modo a que ficasses sabendo...

     Sussurrando essas palavras ininteligíveis, Rogójin começou a fazer as camas no chão. Era evidente que só essa noite é que lhe tinha vindo à cabeça improvisar essa cama no chão. A outra noite, ficara no sofá. Mas não havia agora lugar para dois, no sofá estreito, e Rogójin resolveu e combinou que deviam deitar juntos. Eis por que, com muito esforço, ele agora arrastava os vários Coxins do sofá e os depunha ao rés da cortina. Fez a cama de qualquer modo. Aproximou-se do Príncipe afavelmente e, com certo entusiasmo macabro, o conduziu pelo braço. Mas o príncipe achou que podia ir, e se desvencilhou pensando que o tremor já havia passado. Rogójin fez o príncipe estirar-se nos coxins, à esquerda, e depois, sem se despir se arrojou, pesadamente.
     Cruzou as mãos debaixo da cabeça e começou a balbuciar:

- Está quente, sim, está quente, irmão! E, como sabes, vai começar a cheirar. Acho que não devemos abrir as janelas... Minha mãe tem sempre jarros com flores... Uma porção de flores... E que perfume delicioso que elas têm! Cheguei a pensar em trazer.., mas Pafnútievna podia desconfiar.., ela repara em tudo...
- É reparadeira, sim,.. - concordou o príncipe, aparvalhadamente.
- Achas que devíamos comprar punhados e mais punhados de flores para rodeá-la toda? Mas.., pensando bem, amigo, vê-la rodeada de flores nos causaria tamanha tristeza!
- Escute - disse o príncipe, de modo incerto, como se estivesse procurando o que ia dizer, já esquecido outra vez do que era - Escute. Como foi que fez isso? Com uma faca? Com aquela mesma? 
- Com aquela! 
- Outra coisa, ainda. Quero perguntar-lhe outra coisa, Parfión. Quero fazer- lhe uma porção de perguntas. Quero que me conte tudo... Mas, para começar, será melhor me dizer, primeiro, para eu entender bem... Você pensava em matá-la antes do nosso casamento com uma faca, à entrada da igreja? 
- Não sei se pensei, ou não - respondeu Rogójin, secamente, parecendo até surpreendido com a pergunta, ou não a compreendendo.
- Você chegou a levar consigo a faca para Pávlovsk?
- Não, nunca! Tudo quanto te posso dizer a respeito da faca é que eu a tirei de uma gaveta esta madrugada... pois tudo aconteceu de madrugada, mais ou menos às quatro horas... A faca esteve enfiada dentro de um livro, sempre, aqui, em casa. E... e... coisa estranha. Afundou três ou quatro polegadas, bem debaixo do seio esquerdo. Não saiu mais do que uma quantidade assim.., de uma meia colher de sopa... de sangue... que se espalhou pela camisola. Nem tanto!...
- Isso.., isso.., isso eu sei, já li a respeito, é o que eles chamam de hemorragia interna – esclareceu sinistramente o príncipe, em grande agitação. - Às vezes, não dá uma gota... Quando a punhalada vai certeira ao coração e encrava... 
- Para! Não estás ouvindo? - Rogójin interrompeu-o imediatamente, sentando-se, apavorado, sobre o coxin. - Escuta só!
- Não ouço nada - respondeu Míchkin tão rápido quanto apavorado.
- Passos! Ouves? Na sala de visitas... - puseram-se ambos a escutar.
- Ouço - disse o príncipe, sem a menor hesitação. 
- Passos de gente! 
- Sim. 
- Convém, ou não, fechar a porta? 
- Feche.

     Foram fechar a porta e vieram deitar outra vez. Ficaram calados uma porção de tempo. 

- Ah! É mesmo! - começou inesperadamente o príncipe, com um sussurro farfalhante, como retomando um pensamento e querendo falar depressa antes de o esquecer de novo; sentou-se no chão. - É mesmo! Eu queria aquele baralho de cartas!... As cartas... Elas me disseram que você jogava com ela!
- Jogava, sim - confirmou Rogójin, depois de curto silêncio.  
- Onde estão... as cartas? 
- Estão aqui - disse Rogójin. depois de uma pausa maior - Aqui. 

     Tirou do bolso um baralho de cartas enrolado em papel e deu a Míchkin, que o tomou com uma espécie de marasmo. Um sentimento novo, de desesperadora tristeza, pesava em seu coração. Compreendeu, subitamente, que nesse momento e durante muito tempo, antes, não estivera a dizer o que desejava; e que isso não era direito; estava fazendo uma coisa má. E compreendeu, também, que nessas cartas que segurava agora, e que, só de as ver, lhe davam tanto conforto, não eram de ajuda nenhuma, absolutamente não serviam para coisa alguma, agora... Levantou-se, comprimindo o baralho na mão fechada. Rogójin continuava deitado e não parecia ouvir nada, nem nada ver dos gestos do príncipe; mas os seus olhos cintilavam na treva, e estavam muito arregalados, com uma expressão fixa. O príncipe foi sentar-se na cadeira, começando a olhá-lo de lá, com terror.
     Passou meia hora.
     E então Rogójin se pôs a falar alto, e a rir, como se tivesse esquecido que deviam falar somente ciciando.

- Aquele oficial, aquele!... Tu te lembras como ela chicoteou aquele oficial, perto do coreto da música? Ah! Ah! Ah! E havia um cadete.,, um cadete.., um cadete também que interveio...

     O príncipe pulou da cadeira, com redobrado pavor. Nisto, Rogójin ficou quieto (e foi subitamente que se calou) e o príncipe se curvou docilmente sobre ele, depois se sentou ao lado e, com o coração batendo violentamente e a respiração aos arrancos, começou a fitá-lo. Rogójin nem virou a cabeça para ele, como se o tivesse esquecido. O príncipe olhava e esperava. O tempo foi passando.
     Começou a clarear.
     De vez em quando, Rogójin recomeçava a murmurar coisas, com voz rígida, incoerentemente; ria e soltava exclamações. Então o príncipe estendia a mão trêmula até ele e mansamente lhe tocava a cabeça, os cabelos, acariciando os, ou lhe afagava as faces.., pois não podia fazer mais nada!
     Começou a tremer, outra vez. E as pernas, de novo, pareceram nem existir.
     Uma sensação nova lhe corroía o coração com infinita angústia. No entanto, tinha clareado completamente. Em dado instante ele se estirou sobre as almofadas, como que absolutamente inerme, sem esperança e sem solução. Juntou o seu rosto ao rosto petrificado de Rogójin, as suas lágrimas escorrendo para as dele, ambos, decerto, nem as percebendo nem se importando com elas.
     Fosse como fosse, quando, depois de muitas horas, as portas foram arrombadas e pessoas estranhas entraram, deram com o assassino completamente inconsciente, a delirar. Míchkin estava sentado no assoalho, sem se mover dali, ao lado dele. E sempre que o homem que se achava delirando desandava a dar gritos e a tartamudear, ele se apressava em lhe passar a mão trémula, suavemente, sobre os cabelos e sobre as faces, como o acariciando e acalmando, mas nem por isso conseguiu compreender nenhuma pergunta que lhe foi feita e nem reconheceu as pessoas que o rodeavam. Se Schneider, em pessoa, viesse da Suíça para olhar o seu antigo pupilo e paciente, ligando a cena de agora à recordação do estado em que o príncipe, às vezes, ficava naqueles seus primeiros anos de estada no estrangeiro, teria erguido as mãos para o ar, desesperançado, e diria, como dizia naquele tempo: “Um idiota!”

Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte (11c) - Saíram da alcova e se sentaram
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quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte (11b) - Àquela hora o corredor estava escuro

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

11.

continuando...

.     Àquela hora o corredor estava escuro. "E se ele, de repente, saísse daquele vão e investisse contra mim, na escada?” Foi a ideia que lhe relampejou no espírito quando se sentiu perto do mesmo lugar daquela vez passada. Mas não surgiu ninguém.
     Alcançou a porta da rua, saiu, admirou-se ao ver a densa multidão que se espraiava pelas ruas (como sempre, no verão, à hora do poente, acontece em Petersburgo). Virou na direção da Gorókhovaia. Devia já estar distanciado do hotel uns cinquenta passos quando, na primeira rua que ia atravessar, alguém, na multidão, sem ele esperar, lhe tocou o cotovelo e lhe sussurrou ao ouvido:

- Liév Nikoláievitch, meu irmão, preciso de ti. Segue-me.

     Era Rogójin.
     Foi uma coisa estranha, mas deve ser dita: o príncipe pôs-se logo a lhe contar efusivamente, muito além de qualquer propósito, de modo atabalhoado, que estivera a esperá-lo no hotel e que até pensara encontrá-lo no corredor.

- Eu estive lá - respondeu Rogójin. - Vem comigo!

     Esta resposta surpreendente só espantou o príncipe dois minutos depois, quando a entendeu bem. E, tendo compreendido, ficou alarmado, a olhar com toda a atenção para Rogójin, que caminhava na sua frente, à distância de um passo, abrindo passagem para ele, Míchkin, com cuidado mecânico, alheio a todo o mundo.

- Mas, se esteve no hotel, por que não foi me procurar no quarto?

     Rogójin parou, olhou-o um pouco e, como se não tivesse ouvido direito a pergunta, disse:

- Presta atenção no que te vou pedir, Liév Nikoláievitch. Segue sempre à direita, rua acima, até a minha casa; e eu atravesso e vou pelo outro lado da rua. Mas repara que um tome conta do outro.

     Dito o que, atravessou a rua, para a outra calçada, parou, a ver, de lá, se o príncipe estava andando. Vendo, porém, que não, fez-lhe um sinal com os olhos, tomou a direção de Gorókhovaia e seguiu, virando a todo momento para olhar o príncipe, e lhe fazendo sinal para o seguir. E evidentemente se certificou logo que o príncipe o tinha compreendido e o estava já seguindo, pelo outro lado da rua, na calçada paralela. O príncipe pensou que, com certeza, Rogójin queria espreitar alguma pessoa que lhe não conviria que passasse por ele ou o seguisse. E tinha atravessado para o outro lado, por precaução.

“Mas, ao menos, por que não me disse de quem está com receio?”

     Caminharam, assim, uns quinhentos passos. De repente, sem saber direito por que, Míchkin começou a tremer. Rogójin continuava a olhá-lo, de quando em quando, porém mais espaçadamente. Sentindo que não podia prosseguir, o príncipe lhe fez um sinal, chamando-o. Rogójin atravessou imediatamente a rua, enviesando-se na sua direção.

- Nastássia Filíppovna está em sua casa? 
- Está. 
- Foi você que me olhou, por detrás da cortina, esta manhã? 
- Fui. 
- Como? Era você?

     E o príncipe não soube o que perguntar a seguir e nem como acabar a sua interrogação. De mais a mais, o seu coração batia tanto que mal poderia continuar a falar. Rogójin também ficou calado e continuou a olhar para ele, como ainda agora, com uma expressão de sonho...

- Bem, então vou indo - disse, afinal, preparando-se para atravessar para o outro lado - Tu vais sozinho, pois fica melhor cada um seguir separadamente...

     Quando, por fim, dobraram a esquina para a Gorókhovaia, já próximos da casa de Rogójin, as pernas do príncipe começaram a fraquejar a ponto de lhe ser quase impossível poder prosseguir. Eram mais ou menos dez horas da noite. As janelas do lado da velha ainda estavam escancaradas, como de dia. As da parte de Rogójin permaneciam todas fechadas e, na penumbra, as cortinas ficavam mais visíveis. O príncipe aproximava-se pela calçada oposta à casa. Rogójin, sempre pela sua calçada, chegou, dobrou para as escadas e, lá do vão, lhe acenou. Míchkin atravessou e veio se juntar a ele.

 - O porteiro ignora que estou aqui. Menti-lhe, esta manhã, que ia para Pávlovsk e deixei uma palavra neste sentido também à minha mãe. - sussurrou, com um sorriso dissimulado e quase jactancioso - Vamos entrar de maneira que ninguém ouça. 

     A chave já estava na sua mão. Subindo a escada, virou-se, fez com o dedo no ar um gesto bem significativo, dando a entender ao príncipe que subisse sem nenhum ruído. Abriu sem o menor estalido a porta dos seus aposentos, fez o príncipe passar, entrou também, com muita cautela, fechou a porta, guardou a chave no bolso.

- Vem - ciciou ele.

     Desde a Litéinaia que só falava por cicios, estando, por dentro, a despeito de toda a calma aparente, em um estado de intensa agitação. Chegando à sala de visitas, a caminho do gabinete, se dirigiu para a janela e fez um gesto para Míchkin. 

- Esta manhã, quando tocaram, adivinhei logo que eras tu. Fui, na ponta dos pés, até àquela porta e te ouvi falar com a Pafnútievna. Mal o dia raiou eu dei ordem a ela para que se tu, ou qualquer pessoa mandada por ti, batesse na minha porta, não dissesse absolutamente que eu estava aqui: principalmente se fosses tu, e lhe dei o teu nome. Depois, quando te foste embora, me veio o pensamento: “E se ele fica parado a espiar lá da rua, vigiando?” Aproximei-me então desta janela. aqui. franzi um pouco a cortina.... E lá estavas tu, e me olhaste até... Foi assim. 

- Onde está Nastássia Filíppovna? - perguntou o príncipe, quase sem fôlego. 
- Ela... está... aqui... - respondeu Rogójin, baixo, demorando a falar. 
- Onde? 

     Rogójin ergueu os olhos e fitou o príncipe. 

-Vem...  

     Falava sempre ciciando, com aquele mesmo ar de sonho. Já um pouco antes, ainda agora mesmo, quando contou aquela coisa a respeito da cortina, parecia querer dizer coisa muito outra, apesar de ter simulado estar falando espontaneamente.
     Entraram no gabinete.
     Havia qualquer mudança naquela sala, depois da anterior vinda do príncipe. Uma pesada cortina verde, que devia ter servido para outro fim, pendia de viés, separando a ala da alcova de Rogójin. Estava escuro. As noites brancas, do verão de Petersburgo, já se iam alterando, e se não houvesse lua cheia teria sido difícil distinguir qualquer coisa nessas peças com janelas tapadas por cortinas. Em todo o caso podiam distinguir o rosto um do outro, embora mal. As faces de Rogójin estavam pálidas como de costume. Os seus olhos cintilantes continuavam a vigiar o príncipe, com um brilho seco

- Seria melhor acender uma luz - sugeriu Míchkin. 
- Não. Não precisa respondeu o outro - que, tocando a mão do príncipe, o fez sentar. 

     Sentou-se também, por sua vez, tendo trazido a cadeira para tão perto que quando se sentou, ficou roçando os joelhos do outro. Junto deles, um pouco para um lado, havia uma mesinha redonda. 

- Fiquemos aqui um pouco - disse, como querendo persuadir o príncipe a não se levantar.
- Bem me pareceu que devias estar lá naquele hotel, de novo - começou ele, com aquela maneira por que certas pessoas, iniciando um assunto importante, preludiam antes com ninharias que não vêm a propósito. - Mal entrei pelo corredor adentro, pensei: “E se ele estiver sentado lá dentro esperando por mim, enquanto eu estou aqui em pé, esperando por ele?” Estiveste na casa da viúva do mestre-escola? 

     Devido ao violento palpitar do seu coração, o príncipe mal pôde responder: 

- Estive. 
- Pensei nisso, também “Vão acabar falando”, pensei.., então disse comigo assim: “Vou trazê-lo aqui, esta noite, de maneira a passarmos a noite juntos... 
- Rogójín! Onde está Nastássia Filíppovna? - perguntou o príncipe, prontamente.

     E todos os seus membros começaram a tremer, quando ficou de pé. Rogójin também se levantou, e sussurrou, apontando para a cortina:

- Está ali. 
- Dormindo? - balbuciou o príncipe. 

     Rogójin tornou a olhar para ele com profunda atenção. 

- Bem, entra, tu... somente... Entra... 

     Ergueu a cortina, assim, em pé, voltado para o príncipe. 

- Entra! - disse, reforçando, com um gesto, empurrando-o mansamente para dentro da cortina. 

     Míchkin entrou. 

- Está escuro... - disse. 
- Mas se vê... - ciciou Rogójin. 
- Vejo muito mal... Aqui... é... uma cama? 
- Aproxima-te - sugeriu Rogójin, brandamente. 

     O príncipe deu o primeiro passo; depois o segundo e parou. Parou e ficou olhando. Passou um minuto. Custou muito a passar outro minuto. Permaneciam perto da cama, bem rente. Não falavam absolutamente nada. O coração do príncipe batia tão violentamente que era agora a única coisa audível na quietude mortal da alcova.
     Os seus olhos já se estavam acomodando na treva e então começou a distinguir a cama inteira. Alguém jazia nela, dormindo um sono de perfeita imobilidade, sem fazer ruído algum, por mais insignificante que fosse: nem mesmo o da respiração. E quem assim dormia estava coberto desde a cabeça até aos pés com um lençol branco sob o qual os membros vagamente se configuravam. Tudo quanto se podia ver era que um corpo humano jazia ali, estendido em todo o seu comprimento.
     Na mais completa desordem, aos pés da cama, sobre as cadeiras ao lado, e pelo chão, havia roupas jogadas. Um rico vestido de seda branca. Flores. E fitas. Em uma pequenina mesa, junto à cabeceira da cama, um diadema de diamantes que tinha sido tirado e posto ali. Do lado dos pés da cama havia um monte de sedas e cambraias amarrotadas, e sobre elas emergia de uma nesga do lençol um pé nu. Tão branco, tão imóvel que parecia de mármore. O príncipe olhava... E, olhando, sentia que a alcova cada vez se ornava mais sepulcralmente silenciosa. Nisto ouviu o zunido de uma mosca que voou sobre o leito e foi pousar no travesseiro. O príncipe recuou.

- Agora, vem comigo! - era Rogójin, que lhe tocava no braço.

Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte (11b) - Àquela hora o corredor estava escuro
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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte (11a) - Uma hora depois

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

11.


.     Uma hora depois já chegava a Petersburgo. E logo um pouco depois das nove horas estava tocando a campainha da casa de Rogójin. Durante longo tempo, parado no vestíbulo do andar, não foi atendido. Insistiu. Por fim a porta da ala ocupada pela mãe de Rogójin foi aberta por uma empregada idosa e de aparência respeitável que foi logo informando:

- Parfión Semiónovitch não está em casa. Com quem quer falar o senhor? 
- Com Parfión Semiónovitch. 
- Não está. - a criada olhava para o príncipe com uma curiosidade desatenciosa. 
- Em todo o caso me informe se ele dormiu em casa esta noite, se chegou sozinho aqui, ontem! 

     A velha continuava olhando para ele sem responder. 

- Esta noite passada não veio com ele, para aqui, Nastássia Filíppovna? 
- Mas permita, por favor, que lhe pergunte: quem é o senhor? 
- O Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin. Somos amigos íntimos. 
- O patrão não está em casa. - a mulher abaixou os olhos.
- E Nastássia Filíppovna? 
- Não entendo o que o senhor está falando. 
- Espere. espere! Quando é que ele volta? - Quanto a isso, não sabemos tampouco. 

     E a porta fechou-se.
     O príncipe resolveu voltar daí a uma hora justa. Deu uma olhadela ao pátio e viu o porteiro.

- Parfión Semiónovitch está em casa? 
- Sim, está. 
- Como é que me disseram agora mesmo que não estava? 
- Disse-lhe isso a empregada dele? 
- Quem me disse foi a empregada da mãe dele. Toquei a campainha da porta dele, mas não obtive resposta. 
- Talvez ele tenha saído - ponderou o dvórnik. - Ele nunca avisa, sabe? Às vezes leva a chave e as peças ficam fechadas até três dias seguidos. 
- Veja se se lembra bem se ele esteve em casa ontem!
- Esteve sim. Às vezes entra pela porta da frente e a gente não vê. 
- E não estava Nastássia Filíppovna com ele, ontem? 
- Isso não posso dizer. Ela não vem muito por aqui. Penso, porém, que se tivesse estado, a gente teria visto, ou pelo menos sabido.

     Perdido em pensamentos. o príncipe, tendo saído, começou a caminhar pela calçada oposta. para cima e para baixo. Reparara ja que as janelas do apartamento de Rogójin se achavam fechadas e que as do lado onde a mãe dele morava estavam quase todas abertas. Era um dia quente e luminoso. Lá da calçada fronteira tornou a olhar para cima. E então distinguiu que, além de fechadas. as janelas tinham entre as vidraças, cortinas brancas. Ficou parado algum tempo e teve, de repente, como que a impressão de que um canto de uma cortina fora afastado e logo largado, no ínterim entre uma coisa e outra lhe parecendo ter visto, de relance, a cara de Rogójin, em uma espécie de vislumbre.
     Esperou mais um pouco, depois resolveu voltar e tocar outra vez; refletindo porém melhor, resolveu esperar uma hora. “E quem sabe se não foi apenas imaginação minha...”
     Mas essa resolução de adiar por uma hora fora subconsciente pressa de ir até Ismáilovskii Polk, ao apartamento que Nastássia Filíppovna ocupava ultimamente. Lembrou-se de que três semanas antes, quando a seu pedido deixara Pávlovsk, ela se tinha ido acomodar em casa de uma amiga, viúva de um mestre-escola, estimável senhora com família, que alugava peças mobiliadas e que vivia, realmente, quase que só disso. Assim, pois, não era de todo improvável que, voltando a Pávlovsk, pela segunda vez, não tivesse conservado os aposentos. E de qualquer forma, mais provável era agora que tivesse passado esta noite, de ontem para hoje, naqueles aposentos, levada naturalmente por Parfión.
     O príncipe tomou uma tipoia e no caminho lhe veio a censura de não ter começado por onde agora ia, pois era evidente que ela não teria passado a noite em casa de Rogójin, reforçando-lhe este pensamento a afirmativa do porteiro de que Nastássia Filíppovna raramente aparecia. Se, dantes, não aparecia senão raramente, por que haveria de permanecer em casa de Rogójin essa noite?
      Procurando se reconfortar com tais deduções, chegou Míchkin à casa de Ismáilovskii Polk, mais morto do que vivo. Mas, para grande decepção sua, na casa da viúva do mestre-escola nem sequer tinham ouvido falar em Nastássia Filíppovna essa manhã, ou na véspera; mas todos acorreram para o observar como a um prodígio. A numerosa família daquela senhora, tudo meninas entre sete e quinze anos, rodeara a mãe, fitando Míchkin com muita vivacidade. Juntou-se-lhes a tia, de cara chupada e amarela e, por último, a avó, muito idosa, de óculos. A dona da casa, muito diligentemente, lhe sugeriu que entrasse e se sentasse, o que o príncipe logo fez.
     Percebeu que sabiam muito bem quem ele era e que estivera para se casar na véspera, estando mortas por perguntar pela noiva, muito abismadas por estar ele a indagar da esposa que, não havia dúvida, devia estar consigo àquela hora, em Pávlovsk. Mas, delicadas como eram, não o fizeram. Em breves palavras lhes satisfez a curiosidade quanto ao casamento. Gritos e exclamações de espanto e de admiração se seguiram, de modo que se viu na obrigação de contar a história quase toda, embora por alto, naturalmente.
     Finalmente, as senhoras idosas e sábias, em concílio, determinaram que a primeira coisa a fazer, indubitavelmente, era bater à porta de Rogójin até obter resposta, procurando saber, positivamente, alguma coisa dele. Caso não estivesse em casa (do que ele teria de se certificar de modo absolutamente certo!), ou se não quisesse dizer, então o príncipe devia ir imediatamente à casa de uma senhora alemã que vivia em companhia da mãe em Semiónovskii Polk, muito amiga de Nastássia Filíppovna: quem sabia lá se, no seu atarantamento e desejo de se esconder, não fora passar a noite lá. com elas?
     O príncipe levantou-se, completamente arrasado. Segundos depois, elas depuseram, ficara mortalmente pálido; de fato, as suas pernas não se resolviam a caminhar. Percebeu, dentro do terrível e agudo estridor de suas vozes que estavam combinando agir com ele, e que lhe perguntavam o seu endereço na cidade. Ainda por cúmulo, não tinha ele endereço algum para lhes dar. Aconselharam-no a ir então para um hotel; o príncipe pensou um pouco e lhes deu o nome do hotel onde estivera uma vez já, aquele onde cinco semanas antes sofrera um ataque.
     Encaminhou-se novamente para a casa de Rogójin. Lá, desta vez, não conseguiu ser atendido em nenhuma das duas portas. Foi então procurar o porteiro, com muita dificuldade acabando por encontrá-lo no pátio, ocupado e que lhe respondeu grosseiramente, olhando-o de esguelha, garantindo que Parfión Rogójin saíra de manhã, muito cedo, para Pávlovsk, não devendo voltar a casa esse dia.

- Fico esperando. Talvez volte à noite. 
- Não voltará nem daqui a uma semana. É escusado. 
- Mas, então, esteve em casa esta noite?! 
- Que esteve, lá isso esteve. Pode ficar certo.

     Tudo era muito suspeito e havia qualquer coisa esquisita nisso. Muito possivelmente o porteiro recebera instruções recentes, na sua ausência de ainda agora, pois como era que, da primeira vez, fora tão tagarela e agora lhe voltava as costas?
     Sem dizer nada, o Príncipe resolveu voltar daí a duas horas e, se achasse preciso, ficar vigiando a casa, logo lhe sobrevindo uma esperança na pessoa da senhora alemã de Semiónovskii Polk. Mas na casa da senhora alemã não entenderam uma palavra do que ele queria. E, por algumas palavras deixadas escapulir, o príncipe se deu conta de que essa beldade alemã cortara relações com Nastássia Filíppovna quinze dias antes, não tendo pois ouvido mais falar nela, ultimamente, esmerando-se mesmo em dar a entender que não se importava absolutamente de saber até “que se tinha casado com todos os príncipes do mundo”.
     O Príncipe apressou- se em ir embora.
     E então começaram a lhe ocorrer outras hipóteses e conjeturas. Ela podia ter ido para Moscou como já fizera antes, uma vez, tendo naturalmente Rogójin ido depois, ou talvez mesmo com ela. “Se, ao menos, eu pudesse achar alguns traços!” Nisto, se lembrou de que lhe era conveniente ficar um pouco no hotel: e foi ligeiro para a Litéinaia. Arranjou logo um quarto. O criado perguntou-lhe se queria comer alguma coisa. Respondeu a esse que sim. Depois, quando caiu em si, ficou furioso em ter de perder meia hora com um almoço. E ainda foi muito depois que lhe veio a evidência de que não era obrigado a comer o que lhe haviam trazido.
     Ao sair afinal do hotel, mal sabendo o que estava fazendo, uma estranha sensação tomou posse dele quando se viu ao longo do corredor escuro e abafado. Uma sensação que custou, cruelmente lenta, a se transformar em pensamento perceptível. Perceptível? Pois se nem assim pôde adivinhar que pensamento novo, ou velho, era esse em que se debatia! A sua cabeça estava em um rodopio. Mas, para onde estava ele indo agora? Arremessou-se, outra vez, na direção da casa de Rogójin. Mas este não havia voltado. Resposta nenhuma, por mais que tocasse a campainha ou batesse. Foi tocar diante da porta da velha senhora Rogójin. Estava aberta, e algum tempo depois de espera, alguém lhe disse que Rogójin não estava e nem estaria durante, pelo menos, três dias. O príncipe ficou mais perplexo ainda ao se sentir olhado, como antes, com tão desconcertante curiosidade.
     Desta vez não conseguiu, de modo algum, encontrar o porteiro. Atravessou para a calçada do outro lado, como já fizera antes, percorreu a vista pelas janelas e ficou caminhando para cima e para baixo, por meia hora, ou possivelmente mais, sob o calor insuportável. Em todo esse tempo, coisa alguma buliu lá em cima; as cortinas brancas estavam imóveis e as janelas permaneciam fechadas. Imaginou que, decerto, daquela vez, antes, se tinha enganado; devia ter sido mera alucinação.
     De fato, as vidraças eram opacas e encardidas, sendo difícil cá de baixo distinguir se alguém espiava de lá. Sossegado com estas reflexões, dirigiu-se de novo à casa da viúva em Ismáilovskii Polk. Já o estavam esperando, aflitas. A senhora estivera pessoalmente já em três ou quatro lugares. Inclusive na porta da residência de Rogójin, onde nada pudera saber nem ver, O príncipe, ouvindo em silêncio, entrou para a sala, sentou no sofá e ficou a olhar como se não estivesse entendendo o que elas todas lhe contavam, falando ao mesmo tempo. 
     Por mais estranho que seja, convém ser dito aqui que, em dado momento, o seu olhar era de quem está com o espírito completamente ausente do corpo. Toda a família declarou mais tarde que, nesse dia, ele estava assim como uma pessoa em quem é fácil ver que “o fim já era claro”.
     Posto o que, se levantou e pediu para ver os aposentos que tinham sido de Nastássia Filíppovna. Estes eram claros, altos, lindamente mobiliados, dos que se alugam a alto preço. As senhoras relataram mais tarde como foi que o príncipe examinou tudo, minuciosamente, coisa por coisa, objeto por objeto. Que, tendo visto sobre a mesa um livro aberto, um volume francês, Madame Bovary. Dobrou a folha, fechou-o, pediu permissão para levá-lo e sem ouvir as explicações das senhoras de que o livro era de uma biblioteca circulante, meteu-o a seguir no bolso externo do paletó.
     Sentou-se um pouco, em frente mesmo da janela. E depois, notando uma mesa de jogo, com o tampo coberto de rubricas de giz, perguntou quem tinha estado a jogar. Responderam que na temporada anterior Nastássia Filíppovna costumava jogar todas as noites, com Rogójin, paciência, burro, durakí uíste e mielnike. Que se tinham posto a jogar cartas, naquela vez em que vieram de Pávlovsk, porque Nastássia Filíppovna vivia sempre se queixando que estava entediada, que Rogójin nem conversar sabia, as noites sendo insuportáveis. Que muitas vezes até chorara. E que então, uma noite, sem dizer nada, ele, Rogójin, trouxera um baralho. Que Nastássia ficara contente, dando então em jogar para se distrair.
     O príncipe perguntou pelo baralho; mas não houve meio das cartas aparecerem. É que Rogójin trazia um baralho novo todas as tardes levando o 
usado cada vez que se ia embora, de noite.
     Aconselharam-no as senhoras a voltar ainda à casa de Rogójin e a tocar bem alto e bater com força. Não agora, mas de noite. “Talvez conseguisse alguma coisa”. Ofereceu-se a viúva a, enquanto isso, ir até Pávlovsk, pessoalmente, à casa de Dária Aleksiéievna, a fim de indagar se alguma coisa fora sabida lá. Sugeriram a Míchkin que em todo o caso voltasse às dez horas para, se fosse necessário, combinarem os planos para o dia seguinte. A despeito de todas as tentativas para consolá-lo e acalmá-lo, a sua alma estava subjugada por um absoluto desespero, tendo se dirigido para o hotel em uma inexprimível angústia.
     A poeirenta e sufocante atmosfera de Petersburgo pesava sobre ele como uma prensa; era acotovelado por gente vagarosa ou bêbada; fixava a esmo as fisionomias. E decerto caminhou muito além do que o necessário, já sendo quase noite quando voltou para o seu quarto. Resolveu descansar um pouco antes de tornar a ir à casa de Rogójin, como lhe tinham aconselhado. Sentou-se em um sofá, apoiou os cotovelos sobre a mesa, e afundou em pensamentos.
     Deus sabe o tempo e aquilo em que pensou.
     Havia muitas coisas que ele temia. Sentiu dolorosamente, pungentemente, uma horrível apreensão. Mais, bem mais que apreensão. Pavor. Vera Liébedieva lhe veio ao espírito. E nisto o pensamento o assaltou de que Liébediev talvez soubesse de alguma coisa; ou que, se não soubesse, pudesse procurar mais depressa e com mais facilidade do que ele. Depois se lembrou de Ippolít: e que Rogójin costumava conversar com Ippolít. E pensou ainda em Rogójin, quando estivera no funeral, depois no jardim e depois e isso repentinamente - naquela vez em que ele, Rogójin, estivera ali no corredor do hotel e como se escondera e o esperara com um punhal. Recordou-se dos olhos dele, aqueles olhos que o olhavam em brasa, na treva. Estremeceu, porque um pensamento, esse pensamento que se estava conformando em expressão aguda, lhe veio à cabeça. Se Rogójin estivesse em Petersburgo, escondido mesmo, por enquanto, acabaria, certamente, por vir até ele, o príncipe, fosse com boa ou com má intenção, como já fizera uma vez.
     De qualquer maneira, se, pois, quisesse vir vê- lo, não podia ser em lugar nenhum senão ali, naquele corredor. Não tendo nenhum outro endereço, só poderia supor que ele, o príncipe, estivesse no mesmo hotel de antigamente. Acabaria por vir procurá-lo ali; tentaria isso, se tivesse grande precisão dele. E quem sabia lá se já não tinha precisado dele?
     Desta maneira esteve a considerar. E a ideia lhe pareceu bem razoável. Não lhe teria sido possível explicar por qual motivo concluíra que ele, o príncipe, era necessário a Rogójín e que, portanto, se teriam de encontrar. Mas a conclusão era categórica, na forma deste pensamento alternado: “Se ele estiver bem, não virá; mas se se sentir infeliz, virá. E é lógico que se sente infeliz.”
     Já que estava com esta convicção, devia ter ficado no hotel, esperando Rogójin, em seu quarto. Mas não se sentiu capaz de permanecer ali, com aquela ideia. Agarrou o chapéu e saiu apressadamente.

Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte (11a) - Uma hora depois
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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte (10c) - A narração do que se seguiu

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

10.

continuando...

.     A narração do que se seguiu, durante a cerimônia, me foi dada por pessoa que assistiu a tudo. E creio que contou corretamente. 
     Estava o casamento marcado para as oito horas da noite. Mas, às sete, Nastássia Filíppovnajá estava quase completamente pronta. Uma turba fervilhante começara a ajuntar-se desde as seis em volta da vila de Liébediev. E outra, ainda maior, diante da casa de Dária Aleksiéievna. A igreja começara a encher desde as sete horas. Vera Liébedieva e Kólia achavam-se muito nervosos, por causa de Míchkin, embora estivessem muito ocupados preparando a recepção e os refrescos nos apartamentos do príncipe, apesar dos convidados não serem em grande número. Além das pessoas indispensáveis, estariam presentes Liébediev, os Ptítsin, Gánia, o doutor com a sua cruz de Sant’Ana ao pescoço, e Dária Aleksiéievna como convidada também.
     Tendo sido perguntado ao príncipe por que fora o doutor convidado, sendo “homem que mal conhecia”, respondeu complacentemente:

- Em consideração ao seu busto condecorado; como se trata de pessoa muito respeitada, convém ao estilo da coisa! - e riu.
   
     Keller e Burdóvskii, em trajes de gala, de luvas, pareciam estar corretos; apenas Keller tendo perturbado outra vez o príncipe e seus partidários, pela insistência que não era lá muito distinta, agora, de brigar, lançando olhares assaz hostis, da janela e da porta, à onda de curiosos que cercava a casa. Por fim, às sete e meia, o príncipe saiu para a igreja, de carro.
     Queremos observar que ele, particularmente, não quis omitir nenhuma das cerimônias usuais, tudo devendo ser feito, abertamente. publicamente e na “devida ordem”. Tendo feito, como foi possível, a sua passagem por entre a multidão, na igreja, escoltado por Keller, que ainda dardejava olhares ameaçadores para a direita e para a esquerda, e seguido de um contínuo fogo de sussurros e exclamações, o príncipe desapareceu temporariamente atrás do altar-mor da igreja, enquanto Keller saiu para ir buscar a noiva na casa de Dária Aleksiéievna, lá encontrando uma multidão duas ou às vezes maior e mais estouvada e crepitante do que a que rodeava a casa do príncipe.
     Ao subir a escada ouviu exclamações que ultrapassavam sua capacidade de paciência e já se ia voltar para dirigir uma arenga apropriada à ralé e à gentalha quando foi impedido disso, ainda a tempo, por Burdóvskii e Dária Aleksiéievna. Contendo-o, obrigaram-no a entrar. Keller era todo irritação e pressa.
     Nastássia Filíppovna levantou-se, olhou-se ainda ao espelho, observando-se com um sorriso contrafeito, conforme depois Keller contou, “tão pálida como a morte”, inclinou-se com toda a devoção para o ícone e se dirigiu para os degraus. Um zumbido de vozes, quase clamor, saudou a sua aparição. No primeiro instante é verdade que houve sons de risos e aplausos, talvez mesmo assobios; mas, dentro de um momento, começaram a ser ouvidas coisas assim:

- Que beleza! - exclamavam de dentro da multidão.
- Não é a primeira e nem será a última!
- Vai cobrir tudo com a cauda do vestido nupcial!
- Uma beleza destas não se acha tão depressa! - gritaram os que estavam mais perto. 
- Hurra! 
- Que princesa! Por uma princesa assim, vendo a alma! - gritou um serventuário que avaliou: 
- “Uma noite pelo preço de uma vida!” 

     Nastássia Filíppovna evidentemente estava tão branca como um lenço, quando apareceu com os seus grandes olhos postos sobre a multidão. Olhos que pareciam carvões acesos. Toda a turba, agora, era a seu favor, pois a indignação se tinha transformado em gritos de entusiasmo. E a porta da carruagem já estava aberta, e Keller já oferecia o braço à noiva, quando ela, de súbito, deu um grito e enveredou por entre a multidão. Todos, acompanhando- a com os olhares, ficaram petrificados de pavor. A multidão abriu-se para lhe dar passagem. E nisto, a cinco ou seis passos do último degrau, apareceu Rogójin. Nastássia Filíppovna lhe descobrira os olhos no meio da multidão. Arremessou-se na direção dele, como uma criatura que enlouqueceu; agarrou- se a ele, com as duas mãos, gritando:

- Salve-me. Leve-me daqui. Para onde quiser, já!

     Tomando-a nos braços, Rogójin a carregou para a sua carruagem. Em um relance puxou uma nota de cem rublos, entregando-a ao cocheiro. - Para a estação da estrada de ferro. Se pegarmos ainda o trem, mais outra nota igual! 
     Disse e pulou para dentro da carruagem onde já estava Nastássia Filíppovna; e bateu a porta. O cocheiro não hesitou um momento. Fustigou os cavalos. Keller deu explicações, depois que tinha sido pegado de surpresa! “Um minuto só, mais, e eu voltaria a mim e não os teria deixado fugir”, explicou, ao descrever a aventura. Burdóvskíi pensou em tomar uma outra carruagem que se encontrava ali perto, ao lado, e correr em perseguição de Rogójin, mas refletiu, quando já estava para sair, considerando que “de qualquer forma era demasiado tarde e ninguém a iria trazer à força”.

- E o príncipe não haveria de querer isso, não! decidiu Burdóvskii, tremendamente agitado.

     O carro, ao galope dos animais, chegou à estação, ainda a tempo. Rogójin e Nastássia Filíppovna saltaram a correr. E quando Rogójin já estava a subir para o trem, fez parar uma meninota que se achava com um manto preto, ainda decente, embora usado, e com um lenço de seda na cabeça.

- Quer cinqüenta rublos por isso? - perguntou, instantaneamente, estendendo o dinheiro para a rapariga que ficou espantada, sem saber se segurava ou não o dinheiro. E logo Rogójin lhe arrebatou manto e lenço que jogou aos ombros e à cabeça de Nastássia Filíppovna. Sua toilette fora do comum despertaria atenção durante a viagem. E foi só depois, quando os viu desaparecer no vagão, que a rapariguinha compreendeu qual a serventia do seu manto velho e do lenço barato.

     A notícia do que acabara de acontecer chegou à igreja com uma rapidez assombrosa. Quando Keller entrou como um raio, muitas pessoas se precipitaram para ele a fazer-lhe perguntas. Ninguém saiu da igreja que burburinhava de falatórios, risadas e movimentos de cabeças. O que todo o mundo queria era ver como o noivo receberia a notícia. Ele recebeu a comunicação com aparente calma: apenas ficou pálido e teve certa dificuldade em dizer: 

- Eu tinha qualquer receio, mas nunca pensei que isto viesse a acontecer. -e acrescentou depois de breve pausa - Contudo, está na ordem natural das coisas, principalmente tendo em vista o estado dela. 

     Até Keller falou depois sobre tal observação do príncipe como sendo de “uma filosofia incomparável”.
     Aparentemente calmo e resignado, o príncipe deixou a igreja: pelo menos assim muita gente teve a impressão e comentou depois, tinha o ar de querer veementemente ir embora para casa e ficar sozinho, nem isso lhe tendo sido de todo permitido, pois vários convidados o acompanharam até aos seus aposentos: Ptítsin, Gavríl Ardalíónovitch e o médico que, como os outros, não pensou em tão cedo ir embora. Era mais do que natural que a casa em pouco estivesse literalmente rodeada de gente desocupada. Lá da varanda, Míchkin ouvia Liébediev e Keller, furiosos, afastando pessoas desconhecidas que só por estarem regularmente vestidas se julgavam no direito de ir entrando. A algumas delas que se adiantaram se dirigiu o príncipe, perguntando do que se tratava, polidamente afastando Keller e Liébediev.
     Depois se encaminhou para um cavalheiro corpulento, de cabeça grisalha, parado diante dos degraus, àfrente de um dos tais grupos, e cortesmente o convidou a honrá-lo com a sua entrada. Um tanto desconcertado, o homem entrou, seguido logo depois de um segundo e um terceiro. Até que do grupo entraram bem uns oito, que conseguiram isso de maneira desenvolta. Depois do que, não houve mais quem se arriscasse a se ajuntar àqueles, pondo-se até alguns, cá de fora, a censurar os outros que, no entanto, lá dentro se assentavam, desmanchando-se em conversa e aceitando o chá que lhes era oferecido.
     Tendo isso, da parte do príncipe, sido feito com modéstia e espontaneidade, a surpresa dos recém-chegados se foi transformando em grata expectativa. Ficaram, naturalmente, tentando reanimar a conversa e encaminhá-la para o tema que jazia culminante em seus espíritos. Arriscaram umas perguntas indiscretas, também tendo sido proferidas certas observações. O príncipe respondeu a tudo com tanta simplicidade e candura e, ainda por cima, com tamanha dignidade e confiança na bem educada intenção dos convidados que a atmosfera de curiosidade se extinguiu por si mesma.
     Pouco a pouco a conversa enveredou para outras coisas, aliás sérias. Um cavalheiro, por exemplo, pegando no ar qualquer palavra, jurou, repentinamente, com intensa indignação, que não venderia a sua propriedade, acontecesse o que acontecesse, mas que, muito pelo contrário, iria contemporizando, e que “possuir imóveis era melhor do que dinheiro”.

- Este é que é o meu sistema econômico, meu caro senhor, e não há mal nenhum em comunicar este meu ponto de vista. - dirigia-se ao príncipe que calorosamente levou em apreço aquelas palavras, até que Liébediev lhe disse ao ouvido, disfarçando, que aquele indivíduo não tinha lar, nem casas nem propriedade de espécie alguma.

     Quase uma hora se passou nisto e o chá acabou, ficando então as visitas sem jeito de permanecer mais tempo. O doutor e o cavalheiro dos cabelos grisalhos despediram-se efusivamente de Míchkin, pondo se também os demais em debandada, despedindo-se com ruidosa cordialidade, expressando a opinião de que não era preciso ninguém se afligir, que tudo acabaria da melhor forma, e assim por diante. Antes tinha havido tentativas de pedir champanha, acabando, porém, as pessoas mais velhas por frear a rapaziada.
     Depois que todos se foram embora, Keller se inclinou para Liébediev e lhe fez ver que “você e eu devíamos ter feito uma barreira, ter brigado, mesmo que nos desgraçássemos e fôssemos arrastados até a polícia! Mas ele fez uma porção de novos amigos. E que amigos! Conheço-os a todos”.
     Liébediev que estava um pouco “alto” grasnou, por entre gesticulações:

- “Aos sábios e aos prudentes escondeste estas coisas mas as revelaste às criancinhas!” Já antes disse eu isto, referindo-me a ele. mas agora acrescentarei que Deus salvou a própria criança do báratro sem fundo. Ele e os seus santos!

     Enfim, lá para as dez e meia, o príncipe conseguiu ficar sozinho, Doía-lhe a cabeça. Kólia ajudou-o a mudar a roupa de casamento pelo terno diário e foi a última pessoa a deixá-lo, tendo-se despedido com muita efusão, sem falar no que havia acontecido, e prometendo vir bem cedo no dia seguinte.
     Depois, no inquérito, testemunhou que o príncipe não deixara escapar nenhuma insinuação ou pressentimento fosse sobre o que fosse, na hora de se despedirem, tendo pois escondido até dele suas intenções. E em breve não ficou mais ninguém na casa, tendo Burdóvskii ido ver Ippolít, e Keller com Líébediev saído decerto para beber. Apenas permaneceu, por algum tempo ainda, no apartamento do príncipe, Vera Liébedieva. E isto mesmo para apressadamente repor as coisas em seus costumeiros lugares, olhando, de relance, ao sair, para Míchkin que estava sentado, com os cotovelos fincados sobre a mesa e com a cabeça escondida entre as mãos. O príncipe voltou-se para ela, com surpresa, e por um minuto ficou como que a se querer recordar. Mas, recordando e reconhecendo as coisas, uma a uma, pouco a pouco foi começando a ficar agitado. O mais que fez, porém, foi pedir-lhe muito sério, que lhe batesse na porta, no dia seguinte, às sete horas, com tempo de ainda pegar o primeiro trem, tendo Vera dito que sim. Ao que o príncipe lhe rogou que não dissesse isso a ninguém. Ela tornou a prometer. E. quando já estava abrindo a porta para sair, o príncipe a chamou, uma terceira vez, tomoulhe as mãos, beijou-as, depois lhe beijou a testa e, de maneira um tanto esquisita, lhe disse:

- Até amanhã.

     Assim, pelo menos, o descreveu Vera, depois. Saiu, muito aflita, por causa dele. E, em verdade, só teve ânimo e sossego de manhã quando, às sete horas, lhe bateu à porta, conforme a combinação, informando-o que o trem para Petersburgo partiria dentro de um quarto de hora. E, pelo tom, lhe pareceu que ele respondera de forma natural e até mesmo afável. Disse, lá de dentro, que nem se despira, mas que tinha dormido um pouco. Que pensava voltar ainda hoje. Parecia, por conseguinte, que ele julgara melhor e mais conveniente não dizer senão a ela, nesse momento, que ia à cidade.
 
Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte (10c) - A narração do que se seguiu
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