segunda-feira, 20 de junho de 2016

72 anos, Obrigado... Chico

Chico Buarque


Essas mulheres de dentro de você são lindas



Chico Buarque & Caetano Veloso






Vai Levando + Tatuagem + Sem Fantasia + Esse Cara - Palavra Chave






Milton Nascimento & Chico Buarque





Cálice





No tempo da censura

Cálice (censurado) - Chico Buarque e Gilberto Gil



"Essa música foi composta por Chico Buarque e Gilberto Gil, no clima pesado de uma Sexta-Feira Santa para o show Phono 73, que a gravadora Phonogram (ex-Philips, e depois Polygram) organizou no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, em maio de 1973. Como a Censura havia proibido a letra, os dois autores decidiram cantar apenas a melodia, pontuando-a com a palavra 'cálice' - mas nem mesmo isso foi possível. Segundo relato do Jornal da Tarde, 'a Phonogram resolveu cortar o som dos microfones de Chico, para evitar que a música, mesmo sem a letra, fosse apresentada'." - Livro "Tantas Palavras", de Humberto Werneck, págs. 79 e 80.



Ana de Amsterdam



Ana de Amsterdam - Música de Chico Buarque e Ruy Guerra para a peça "Calabar", em 1973. Depois de a letra ser proibida pelo serviço de censura, a música só pode ser gravada com o instrumental. Aqui, um esboço da gravação, com letra, porém com o arranjo instrumental (de Edu Lobo), ainda incompleto.







Ana de Amsterdam


Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana
Sou Ana de Amsterdam

Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar

Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente, das Índias
Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos
Sou Ana de Amsterdam

Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar

Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, da vacas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam



Composição: Chico Buarque


domingo, 19 de junho de 2016

Histórias de avoinha: mais uma vida na barriga

Ensaio 83B – 2ª edição 1ª reimpressão

mais uma vida na barriga


baitasar


o tabulêro num tinha feito nehum serviço de ajuda, tava pronto pra ajudá cuidá da vida. os caminhadô passava pra lá, voltava pra cá, e nada de pedí socorrimento. o tabulêro sabia esperá

os branco qui passava parecia num vê – num queria ou num sabia vê

os pretu titubiava – num sabia se parava ou num parava – num queria acordá os demônio pintado nas cabeça dos branco. eles qui jurava sê coisa do demônio os assunto proibido da feitiçaria dos pretu no tabulêro

liberata sabia qui o primêro causo com precisão de ajuda do tabulêro era coisa qui o tempo resolvia. depois do acerto e da cura alcançada as notícia da boca pra otra boca ia esparramá os anúncio da bondade feita e chamá os necessitado

o muriquinho num parava de saí do tabulêro pra inté a pedra e voltá. pediu permissão da liberata pra avisá os serviço de cura da avoinha e do tabulêro, Eu tenho um vozeirão, parece que Deus encolheu o meu tamanho, mas aumentou a força dos meus gritos.

Num tem precisão, neinhu. As coisa contece pruqui tem qui contecê.

reparô qui avoinha tava com um pano branco na cabeça, pruguntô do pano e escutô qui precisava tê mais cuidado de vê, A educação do neinhu tá muntu longe de sê boa. Senta e escuta.

Escutar o quê?

a preta levô o dedo inté a boca, Quieto. Agora é quando a boca num fala. Num diz nada, colocô a mão no peito e tirô um saco piquinino de pano branco qui tava guardado. num sabe como ela fez nem quando fez, mais avoinha tava toda com vestido branco, num foi assim qui ela saiu e num foi assim qui ela chegô: toda de branco das cabeça inté os pé

É veiz de pensá nos sofrido qui tá na volta da pedra dos martírio. É muntu padecimento, munta tristeza, muntu castigo, munta tontura. É bão pedí ajuda pra cortá as coisa ruim, desmanchá as maldade no corpo e os encosto dos espritu ruim, retirá as maldade da gente ruim.

colocô cinza e sal grosso numa cabaça de barro piquinina, e repetiu

Vamo chamá santé na calunga,

oiá este camba

qui é fiu dus espritu
fiu de Umbanda

a rezadêra e a mesa tava feita, era só esperá

E eu?

Ocê u qui?

O quê eu faço?

os dois tava com o mesmo tamanho. ela com os joêio fincado na mesa, ele todo espichado com os pé arrimado na terra. a curandêra preta oiô direto nos óio do muriquinho, tava tão encharcada com a luz da humildade qui se pareceu como uma rocha imensa. tava animada prus mais fraco, avisava qui ninguém tá sozinho no mundo dos vivo nem dos espritu, é munto mais bão entendê qui julgá. o neinho tava se descobrindo no lugá certo. fez silêncio. o silêncio qui qué aprendê é diferente do silêncio qui qué se escondê

É bão o neinhu tê carregado muntu pensamento bão, isso vai fazê as coisa boa e os espritu bão aproximá do neinhu. É muntu bão tá cercado da dominação da boa vontade boa. As coisa ruim do egoísmo chama pra perto as coisa ruim qui tá solta em tudo. Essas coisa ruim usa qualqué fresta pra tormentá as pessoa. Num deixa de usá as cisma ou os receio do neinhu pra num deixá passá as coisa qui num é bão pra vida. E se passá dos cuidado feito, é bão num deixá elas grudá.

E o que fazemos agora?

a preta qui num tirava os óio da vida e a atenção de escutá sorriu da purugunta. ele tava aprendendo. o muquinho tava se ensinando. repetiu

É bão dá atenção de vivê a vida pra toda vida qui a vida tem. Num é fácil, é mais à toa falá qui fazê, precisa tá carregado com muntu pensamento bão. É preciso lutá com generosidade e ternura pela vida de toda vida, isso faz as coisa boa e os espritu bão se juntá na luta. É bão tá cercado com as força da boa vontade, mais é ocê qui precisa fazê a boa luta. As coisa ruim do egoísmo chama pra perto as coisa ruim qui tá solta em tudo. Escuta com atenção, muriquinhu...

Pode falar, avoinha. Estou escutando.

É preciso escutá com bondade, e repetiu, num deixa as coisa ruim grudá em ocê, avoinha deixô a voz menó qui podia, ficô um murmúrio, u muriquinhu faça as reza e as mandinga qui achá qui é bão fazê, mais num esquece do retorno. As intenção volta em tudo sobre o mandiguêro... mais cedo ou tarde.

o muriquinho num falava e num respirava, ele encontrô o gosto de aprendê qui tanto procurô. num queria nem piscá

Ô muié!

os dois levô o mesmo susto. eles tava ali pra sê chamado, pra atendê os chamado, mais os pensamento dum e otro tava todo nos assunto dito, as pessoa da volta num tava nas vista do encantamento. liberata foi qui recuperô a atenção primêro. e respondeu

Quem é qui chama esse chamado de urgência?

abriu os óio qui tava aberto dentro dos pensamento pra vê fora

Eu aqui, a muié qui respondeu num precisô se fazê recomendada

Baronesa!

o muriquinho caminhô um qui otro passo pra trás, mais num tirô as vista da visita, era munto linda. os pensamento qui tinha tava no feitio de oiá, as palavra saia pelas vista, É linda! Eu queria crescer. Aham, eu queria ser muito poderoso e muito rico

Levei um susto quando vi a preta Liberata com um tabuleiro de remédios caseiros estendido na rua, sentada nas pedras do chão. Resolvi pará, sabê o que acontece.

a otra se riu dum jeito alegre qui o muriquinho ficô espantado

A neinha ainda tem?

Tenho.

Pois, eu duvido.

Não duvide.

Então, mostre...

a visita colocô a mão no cavado do vestido qui num deixava os peito se derramá, tirô uma boneca preta piquininina de pano

Não perdi.

E num esqueceu.

baronesa é o chamamento qui as pessoa dá nas rua. o nome da baronesa é otro. recebeu depois qui desceu do negrêro e foi batizada, ficô catita. o nome da catita é otro. recebeu quando nasceu nas terra da sabedoria do baobá. ayomide. minha alegria chegô

ayomide catita baronesa

treis numa só. sentada na frente da liberata tava as treis, mais falava a muié sem casá do barão da guarda qui guarda as arma na entrada da villa, pra quem vem das banda da gravataí. o amô dos dois era munto visto, mais num tinha como a preta catita casá nas igreja dos branco. num tinha como casá com o barão das entrada dos lado da gravataí. um amô consumado na cama, mais jamais marcado no papel

E a Baronesa tá pra cá fazendo visita?

a preta catita vestia as curva do corpo com os vestido fino das branca, usava com mais elegância e buniteza qui as moça branca. guardô sua abayomi nas curva do cavado nos peito

Caminhava arrumando os pensamentos. Mas encontrá ocê, Liberata, foi como tê minhas preces atendidas. Posso tomá aconselhamento?

as duas oiava uma e otra com graça, alegria e munta saudade das terra de longe. o muriquinho tava na distância do silêncio encantado. as duas conhecia mais da vida qui ele, recém chegado lá da frente dos dia qui tava pra chegá, o futuro quase sempre num sabe explicá o qui se passô. avançá num qué dizê sabedoria, num qué dizê avanço

Fico feliz no caso de podê ajudá.

Sinto que aqui é um bom lugá de conforto. É bom sabê procurá.

liberata estendeu os dois braço pra sua menina de sofrimento no barco negrêro

Quem procura acha, Ayomide.

Mas tem vez que só encontrá não basta, Adebanke.

deus tá cuidando dela. liberata fechô as vista pra lembrá do nome qui é seu desde munto tempo e foi silenciado

Eu sei. Tomo muntu cuidado com u qui procura sarna pra coçá... inté achá, só pra tê o gosto de reclamá.

as duas riu pra cima, pru alto, mais alto qui alto, riu munto alto, a etiqueta das rua num deixava as muié pru alto, mesmo se fô muié preta. inda mais duas preta. uma fôrra, uma escrava

É isso, os aconselhamentos bons estão soltos em tudo. E os ruins, também. É preciso escolhê. Cada um escolhe se vai querê os bons ou aqueles que não são bons. Cada um escolhe a vida que vai tê. Escolhê é a maió liberdade que pode existí.

É isso, prus qui pode fazê de juntá ou separá os juízo qui tem, é pena qui esse juízo num é prus pretu. Escravo com juízo obedece. Mais a preta Catita, pelo visto e num visto, tá muntu bunita no embruio das branca.

o rabicho das vista se encontrô na metade da ida e vinda dos óio, otro riso alto. depois, o silêncio caiu nas duas, o riso parô

Liberata, preciso ajuda da amiga.

pedido assim num pede riso, qué atenção e cuidado

O qui fô preciso, Ayomide.

o silêncio entre as duas num tava vazio, nunca teve desocupado ou despovoado

O Barão... Adebanke.

liberata fechô os óio e esperô. ela sabia qui as pessoa qui tem mais curiosidade qui vontade de ajudá é um balão de sabedoria cheio de vento. e se rompe em ventania no primêro espinho. as palavra qui precisava sê dita carecia sê bem escutada, num queria sê atrapaiada pela mesma curiosidade do sonâmbulo qui faz dormindo o qui faz. e num lembra qui fez. sentiu qui catita tinha urgência da tranquilidade qui espera a continuação das palavra saí pra fora, no tempo do próprio tempo

o muriquinho tava no seu tempo de oiá a buniteza da visita. e só vê buniteza. sentô na pedra. os pensamento num parava de vê a buniteza vestida qui ele teimava desvestí, sem pedí ou puruguntá se ela queria, Branco, filho-da-puta, está comendo bem. Quero mais que a Liberata não ache solução e você morra podre

A urina do Barão está com a cô do leite.

a preta liberata num podia evitá de mostrá o seu próprio alívio, o sofrimento da doença tava no branco, num tava na sua neinha, Essas coisa tem conserto. Num é fácil, mais tem ajuda.

Nunca vi nada assim...

o muriquinho sorriu prus pensamento, Mijo branco, esse está fodido. Espero que morra logo. Essa boniteza merece coisa melhor.

E ocê, muriquinhu... é bão arrancá essa maldade de ocê, o muriquinho levô susto de escutá avoinha dentro da sua cabeça, atravessada nas conversa dele com ele mesmo, a vida existi pruqui ocê existi, mais ocê só existi pruqui a vida existi. Cuide da sua vida, sim. Mais ajude cuidá da vida de tudo qui é vida. Num precisa tê medo, num dói. É preciso aprendê assobiá e falá as língua da vida

Avoinha vai oferecer ajuda para o branco que mata e bate nos pretos. Vai oferecer a outra face para levar outra marca.

Num fui oferecê, mais num posso virá as costa pru pedido feito. Vida é só vida se ocê num abrí o seu quarto piquinino dos fundo pra vivê o verão. Quanto mais ocê cuida só da sua vida, menos vida ocê tem, e mais vazio fica o seu silêncio

Nunca vi nada assim...

A Catita precisa ficá calma. O segredo da cura, caso tenha, e nem tudo tem cura, é conhecê as doença. Aprendê dos remédio é fácil, mais oiá pra doença e sabê dizê o nome dela num é pra intrometido.

as duas tava sentada nos garrão, os joêio dobrado na mesa. o tabulêro entre as duas

E a amiga pode dizê o nome do mal que acomete o Barão?

as vista num desviava duma notra, elas sabia qui o tempo da vida é a vida

Pode sê qui posso, pode sê qui num posso. A baronesa precisa respondê uma qui otra resposta.

Pois, pergunte.

o silêncio da avoinha nunca tava vazio

Ayomide credita em sonho?

a muié num sabia dizê, tanto tempo qui a neinha ayomide virô uma boneca de pano

Não sei, Adebanke. E a mulher preta curandeira sonha?

Tive um sonho.

E que sonho foi esse?

No sonho eu tava com mais uma vida na barriga.



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Leia também:

Histórias de avoinha: a vida num tem mais vida qui a vida
Ensaio 82B – 2ª edição 1ª reimpressão


Histórias de avoinha: um mundo sem dono num precisa chefiaEnsaio 84B – 2ª edição 1ª reimpressão

sexta-feira, 17 de junho de 2016

04. A Metamorfose - Agora, que vejo como o senhor é terrivelmente obstinado - Franz Kafka

Franz Kafka


Capítulo 1

04 A Metamorfose - Agora, que vejo como o senhor é terrivelmente obstinado - Franz Kafka




Agora, que vejo como o senhor é terrivelmente obstinado, não tenho o menor desejo de tomar a sua defesa. E a sua posição na firma não é assim tão inexpugnável. Vim com a intenção de dizer-lhe isto em particular, mas, visto que o senhor está a tomar tão desnecessariamente o meu tempo, não vejo razão para que os seus pais não ouçam igualmente. Desde há algum tempo que o seu trabalho deixa muito a desejar; esta época do ano não é ideal para uma subida do negócio, claro, admitamos isso, mas, uma época do ano para não fazer negócio absolutamente nenhum, essa não existe, Senhor Samsa, não pode existir.



— Mas, senhor — gritou Gregório, fora de si e, na sua agitação, esquecendo todo o resto, vou abrir a porta agora mesmo. Tive uma ligeira indisposição, um ataque de tonturas, que não me permitiu levantar-me. Ainda estou na cama. Mas me sinto bem outra vez. Estou a levantar-me agora. Dê-me só mais um minuto ou dois! Não estou, realmente, tão bem como pensava. Mas estou bem, palavra. Como uma coisa destas pode repentinamente deitar uma pessoa abaixo. Ainda ontem à noite estava perfeitamente, os meus pais que o digam; ou, antes, de fato, tive um leve pressentimento. Deve ter mostrado indícios disso. Porque não o comuniquei eu ao escritório! Mas uma pessoa pensa sempre que uma indisposição há de passar sem ficar em casa. Olha, senhor, poupe os meus pais! Tudo aquilo por que me repreende não tem qualquer fundamento; nunca ninguém me disse uma palavra sobre isso. Talvez o senhor não tenha visto as últimas encomendas que mandei. De qualquer maneira, ainda posso apanhar o trem das oito; estou muito melhor depois deste descanso de algumas horas. Não se prenda por mim, senhor; daqui a pouco vou para o escritório e hei de estar suficientemente bom para o dizer ao patrão e apresentar-lhe desculpas! 


Ao mesmo tempo que tudo isto lhe saía tão desordenadamente de jacto que Gregório mal sabia o que estava a dizer, havia chegado facilmente à cômoda, talvez devido à prática que tinha tido na cama, e tentava agora erguer-se em pé, socorrendo-se dela. Tencionava, efetivamente, abrir a porta, mostrar-se realmente e falar com o chefe de escritório; estava ansioso por saber, depois de todas as insistências, o que diriam os outros ao vê-lo à sua frente. Se ficassem horrorizados, a responsabilidade já não era dele e podia ficar quieto. Mas, se o aceitassem calmamente, também não teria razão para preocupar-se, e podia realmente chegar à estação a tempo de apanhar o trem das oito, se andasse depressa. A princípio escorregou algumas vezes pela superfície envernizada da cômoda, mas, aos poucos, com uma última elevação, pôs-se de pé; embora o atormentassem, deixou de ligar importância às dores na parte inferior do corpo. Depois deixou-se cair contra as costas de uma cadeira próxima e agarrou-se às suas bordas com as pequenas pernas. Isto devolveu-lhe o controle sobre si mesmo e parou de falar, porque agora podia prestar atenção ao que o chefe de escritório estava a dizer.

— Perceberam uma única palavra? — perguntava o chefe de escritório. — Com certeza não está a tentar fazer de nós parvos? 

— Oh, meu Deus — exclamou a mãe, lavada em lágrimas —, talvez ele esteja terrivelmente doente e estejamos a atormentá-lo. Grete! Grete! — chamou a seguir. 

— Sim, mãe? — respondeu a irmã do outro lado. Chamavam uma pela outra através do quarto de Gregório. 

— Tens de ir imediatamente chamar o médico. o Gregório está doente. Vai chamar o médico, depressa. Ouviste como ele estava a falar? 

— Aquilo não era voz humana — disse o chefe de escritório, numa voz perceptivelmente baixa ao lado da estridência da mãe. 

— Ana! Ana! — chamava o pai, através da parede para a cozinha, batendo as palmas, chama imediatamente um serralheiro!


E as meninas corriam pelo corredor, com um silvo de saias — como podia a irmã ter-se vestido tão depressa?-, e abriam a porta da rua de par em par. Não se ouviu o som da porta a ser fechada a seguir; tinham-na deixado, evidentemente, aberta, como se faz em casas onde aconteceu uma grande desgraça. 

Mas Gregório estava agora muito mais calmo. As palavras que pronunciava já não eram inteligíveis, aparentemente, embora a ele lhe parecessem distintas, mais distintas mesmo que antes, talvez porque o ouvido se tivesse acostumado ao som delas. Fosse como fosse, as pessoas julgavam agora que ele estava mal e estavam prontas a ajudá-lo. A positiva certeza com que estas primeiras medidas tinham sido tomadas confortou-o. Sentia-se uma vez mais impelido para o círculo humano e confiava em grandes e notáveis resultados, quer do médico, quer do serralheiro, sem, na verdade, conseguir fazer uma distinção clara entre eles. No intuito de tornar a voz tão clara quanto possível para a conversa que estava agora iminente, tossiu um pouco, o mais silenciosamente que pôde, claro, uma vez que também o ruído podia não soar como o da tosse humana, tanto quanto podia imaginar. Entrementes, na sala contígua havia completo silêncio. Talvez os pais estivessem sentados à mesa com o chefe de escritório, a segredar, ou talvez se encontrassem todos encostados à porta, à escuta. 

Lentamente, Gregório empurrou a cadeira em direção à porta, após o que a largou, agarrou-se à porta para se amparar as plantas das extremidades das pequenas pernas eram levemente pegajosas- e descansou, apoiado contra ela por um momento, depois destes esforços. A seguir empenhou-se em rodar a chave na fechadura, utilizando a boca. Infelizmente, parecia que não possuía quaisquer dentes — com que havia de segurar a chave?-, mas, por outro lado, as mandíbulas eram indubitavelmente fortes; com a sua ajuda, conseguiu pôr a chave em movimento, sem prestar atenção ao fato de estar certamente a danificá-las em qualquer zona, visto que lhe saía da boca um fluído castanho, que escorria pela chave e pingava para o chão.



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Universidade da Amazônia
A Metamorfose
de Franz Kafka de Franz Kafka

NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal CEP: 66060-902 Belém – Pará Fones: (91) 210-3196 / 210-3181 www.nead.unama.br

E-mail: uvb@unama.br

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Leia também:

03. A Metamorfose - Quando estava quase fora da cama  - Franz Kafka


05. A Metamorfose - Ouçam só — disse o chefe de escritório na sala contígua  - Franz Kafka

terça-feira, 14 de junho de 2016

3. Contos de Lima Barreto - O número da sepultura

Lima Barreto



O número da sepultura 



Que podia ela dizer, após três meses de casada, sobre o casamento? 

Era bom? Era mau? 

Não se animava a afirmar nem uma coisa, nem outra. Em essência, “aquilo” lhe parecia resumir-se em uma simples mudança de casa. 

A que deixara não tinha mais nem menos cômodos do que a que viera habitar; não tinha mais “largueza”; mas a nova possuía um jardinzito minúsculo e uma pia na sala de jantar. 

Era, no fim de contas, a diminuta diferença que existia entre ambas. 

Passando da obediência dos pais, para a do marido, o que ela sentia, era o que se sente quando se muda de habitação. 

No começo, há nos que se mudam, agitação, atividade; puxa-se pela ideia, a fim de adaptar os móveis à casa nova” e, por conseguinte, eles, os seus recentes habitantes também; isso, porém, dura poucos dias. 

No fim de um mês, os móveis já estão definitivamente “ancorados”, nos seus lugares, e os moradores se esquecem de que residem ali desde poucos dias. 

Demais, para que ela não sentisse, profunda modificação, no seu viver, advinda com o casamento, havia a quase igualdade de gênios e hábitos de seu pai e seu marido. 

Tanto um como outro, eram corteses com ela; brandos no tratar, serenos, sem impropérios, e ambos, também, meticulosos, exatos e metódicos. Não houve, assim, abalo algum, na sua transplantação de um lar para outro. 

Contudo, esperava, no casamento alguma coisa de inédito até ali, na sua existência de mulher: uma exuberante e contínua satisfação de viver. 

Não sentiu, porém, nada disso. 

O que houve de particular na sua mudança de estado, foi insuficiente para lhe dar uma sensação nunca sentida da vida e do mundo. Não percebeu nenhuma novidade essencial... 

Os céus cambiantes, com o rosado e dourado de arrebóis, que o casamento promete a todos, moços e moças; não os vira ela. O sentimento de inteira liberdade, com passeios, festas, teatros, visitas – tudo que se contém para as mulheres, na ideia de casamento, durou somente a primeira semana de matrimônio. 

Durante ela, ao lado do marido, passeara, visitara, fora a festas, e a teatros; mas assistira todas essas coisas, sem muito se interessar por elas, sem receber grandes ou profundas emoções de surpresa, e ter sonhos fora do trivial da nossa mesquinha vida terrestre. Cansavam-na até! 

No começo, sentia alguma alegria e certo contentamento; por fim, porém, veio o tédio por elas todas, a nostalgia da quietude de sua casa suburbana, onde vivia à négligé e podia sonhar, sem desconfiar que os outros lhe pudessem descobrir os devaneios crepusculares de sua pequenina alma de burguesinha, saudosa e enfumaçada. 

Não era raro que também ocorresse saudades da casa paterna, provocadas por aquelas chinfrinadas de teatros ou cinematográficas. Acudia-lhe, com indefinível sentimento, a lembrança de velhos móveis e outros pertences familiares da sua casa paterna, que a tinham visto desde menina. Era uma velha cadeira de balanço de jacarandá; era uma leiteira de louça, pintada de azul, muito antiga; era o relógio sem pêndula, octogonal, velho também; e outras bugigangas domésticas que, muito mais fortemente do que os móveis e utensílios adquiridos recentemente, se haviam gravado na sua memória. 

Seu marido era um rapaz de excelentes qualidades matrimoniais, e não havia, no nebuloso estado da alma de Zilda, nenhum desgosto dele ou decepção que ele lhe tivesse causado. 

Morigerado, cumpridor exato dos seus deveres, na seção de que era chefe seu pai, tinha todas as qualidades médias, para ser um bom chefe de família, cumprir o dever de continuar a espécie e ser um bom diretor de secretaria ou repartição outra, de banco ou de escritório comercial. 

Em compensação, não possuía nenhuma proeminência de inteligência ou de ação. Era e seria sempre uma boa peça de máquina, bem ajustada, bem polida e que, lubrificada convenientemente, não diminuiria o rendimento daquela, mas que precisava sempre do motor da iniciativa estranha, para se pôr em movimento. 

Os pais de Zilda tinham aproximado os dois; a avó, a quem a moça estimava deveras, fizera as insinuações de praxe; e, vendo ela que a coisa era do gosto de todos, por curiosidade mais do que por amor ou outra coisa parecida, resolveu-se a casar com o escriturário de seu pai. Casaram-se, viviam muito bem. Entre ambos, não havia a menor rusga, a menor desinteligência que lhes toldasse a vida matrimonial; mas não existia também, como era de esperar, uma profunda e constante penetração, de um para o outro e vice-versa, de desejos, de sentimentos, de dores e alegrias. 

Viviam placidamente numa tranqüilidade de lagoa, cercada de altas montanhas, por entre as quais os ventos fortes não conseguiam penetrar, para encrespar-lhe as águas imotas. 

A beleza do viver daquele novel casal, não era ter conseguido de duas fazer uma única vontade; estava em que os dois continuassem a ser cada um uma personalidade, sem que, entanto, encontrassem nunca motivo de conflito, o mais ligeiro que fosse. Uma vez, porem... Deixemos isso para mais tarde... O gênio e a educação de ambos muito contribuíam para tal. 

O marido, exato burocrata, era cordato, de temperamento calmo, ponderado e seco que nem uma crise ministerial. A mulher era quase passiva e tendo sido educada na disciplina ultra-regrada e esmerilhadora de seu pai, velho funcionário, obediente aos chefes, aos ministros, aos secretários destes e mais bajuladores, às leis e regulamentos, não tinha assomos nem caprichos, nem fortes vontades. Refugiava-se no sonho e, desde que não fosse multado, estava por tudo. 

Os hábitos do marido eram os mais regulares e executados, sem a mínima discrepância. Erguia-se do leito muito cedo, quase ao alvorecer, antes mesmo da criada, a Genoveva, levantar-se da cama. Pondo-se de pé, ele mesmo coava o café e, logo que estava pronto, tomava uma grande xícara. 

Esperando o jornal (só comprava um), ia para o pequeno jardim, varria-o, amarrava as roseiras e craveiros, nos espeques, em seguida, dava milho às galinhas e pintos e tratava dos passarinhos. 

Chegando o jornal, lia-o meticulosamente, organizando, para uso do dia, as suas opiniões literárias, científicas, artísticas, sociais e, também, sobre a política internacional e as guerras que havia pelo mundo. 

Quanto à política interna, construía algumas, mas não as manifestava a ninguém, porque quase sempre eram contra o governo e ele precisava ser promovido. 

Às nove e meia, já almoçado e vestido, despedia-se da mulher, com o clássico beijo, e lá ia tomar o trem. Assinava o ponto, de acordo com o regulamento, isto é, nunca depois das dez e meia. 

Na repartição, cumpria religiosamente os seus sacratíssimos deveres de funcionário. 

Sempre foi assim; mas, após o casamento, aumentou de zelo, a fim de pôr a seção do sogro que nem um brinco, em questão de rapidez e presteza no andamento e informações de papéis. 

Andava pelas bancas dos colegas, pelos protocolos, quando o serviço lhe faltava e se, nessa correição, topava com expediente em atraso, não hesitava: punha-se a “desunhar”. 

Acontecendo-lhe isto, ao sentar-se à mesa, para jantar, já em trajes caseiros, apressava-se em dizer à mulher: 

– Arre! Trabalhei hoje, Zilda, que nem o diabo! 

– Porque? 

– Ora, porque? Aqueles meus colegas são uma pinoia... 

– Que houve? 

– Pois o Pantaleão não está com o protocolo dele, o da Marinha, atrasado de uma semana? Tive que o pôr em dia... 

– Papai foi quem te mandou? 

– Não; mas era meu dever, como genro dele, evitar que a seção que ele dirige, fosse tachada de relaxada. 

Demais não posso ver expediente atrasado... 

– Então, esse Pantaleão falta muito? 

– Um horror! Desculpa-se com estar estudando direito. Eu também estudei, quase sem faltas. 

Com semelhantes notícias e outras de mexericos sobre a vida íntima, defeitos morais e vícios dos colegas, que ele relatava à mulher, Zilda ficou enfronhada no viver da diretoria em que funcionava seu marido, tanto no aspecto puramente burocrático, como nos da vida particular e familiar dos respectivos empregados. 

Ela sabia que o Calçoene bebia cachaça; que o Zé Fagundes vivia amancebado com uma crioula, tendo filhos com ela, um dos quais com concurso e ia ser em breve colega do marido; que o Feliciano Brites das Novas jogava nos dados todo o dinheiro que conseguia arranjar; que a mulher do Nepomuceno era amante do General T., com auxílio do qual ele preteria todos nas promoções, etc., etc. 

O marido não conversava com Zilda senão essas coisas da repartição; não tinha outro assunto para palestrar com a mulher. Com as visitas e raros colegas com quem discutia, a matéria da conversação eram coisas patrióticas: as forças de terra e mar, as nossas riquezas naturais, etc. 

Para tais argumentos tinha predileção especial e um especial orgulho em desenvolvê-los com entusiasmo. Tudo o que era brasileiro era primeiro do mundo ou, no mínimo, da América do Sul. E – ai! – de quem o contestasse; levava uma sarabanda que resumia nesta frase clássica: 

– É por isso que o Brasil não vai para adiante. O brasileiro é o maior inimigo de sua pátria. 

Zilda, pequena burguesa, de reduzida instrução e, como todas as mulheres, de fraca curiosidade intelectual, quando o ouvia discutir assim com os amigos, enchia-se de enfado e sono; entretanto, gostava das suas alcovitices sobre os lares dos colegas... 

Assim ela ia repassando a sua vida de casada, que já tinha mais de três meses feitos, na qual, para quebrar-lhe a monotonia e a igualdade, só houvera um acontecimento que a agitara, a torturara, mas, em compensação, espantara por algumas horas o tédio daquele morno e plácido viver. É preciso contá-lo. 

Augusto – Augusto Serpa de Castro – tal era o nome de seu marido – tinha um ar mofino e enfezado; alguma coisa de índio nos cabelos muito negros, corredios e brilhantes, e na tez acobreada. Seus olhos eram negros e grandes, com muito pouca luz, mortiços e pobres de expressão, sobretudo de alegria. 

A mulher, mais moça do que ele uns cinco ou seis anos, ainda não havia completado os vinte. Era de uma grande vivacidade de fisionomia, muito móbil e vária, embora o seu olhar castanho claro tivesse, em geral, uma forte expressão de melancolia e sonho interior. Miúda de feições, franzina, de boa estatura e formas harmoniosas, tudo nela era a graça do caniço, a sua esbelteza, que não teme os ventos, mas que se curva à força deles com mais elegância ainda, para ciciar os queixumes contra o triste fado de sua fragilidade, esquecendo-se, porém, que é esta que o faz vitorioso. 

Após o casamento, vieram residir na Travessa das Saudades, na estação de ***. 

É uma pitoresca rua, afastada alguma coisa das linhas da Central, cheia de altos e baixos, dotada de uma caprichosa desigualdade de nível, tanto no sentido longitudinal como no transversal. 

Povoada de árvores e bambus, de um lado e outro, correndo quase exatamente de norte para sul, as habitações do lado do nascente, em grande número, somem-se na grota que ela forma, com o seu desnivelamento; e mais se ocultam debaixo dos arvoredos em que os cipós se tecem. 

Do lado do poente, porém, as casas se alteiam e, por cima das de defronte, olham em primeira mão a aurora, com os seus inexprimíveis cambiantes de cores e matizes. 

Como no fim do mês anterior, naquele outro, o segundo término de mês depois do seu casamento, o bacharel Augusto, logo que recebeu os vencimentos e conferiu as contas dos fornecedores, entregou o dinheiro necessário à mulher, para pagá-los, e também a importância do aluguel da casa. 

Zilda apressou-se em fazê-lo ao carniceiro, ao padeiro e ao vendeiro; mas, o procurador do proprietário da casa em que moravam, demorou-se um pouco. Disso, avisou o marido, em certa manhã, quando ele lhe dava uma pequena quantia para as despesas com o quitandeiro e outras miudezas caseiras. Ele deixou o importe do aluguel com ela. 

Havia já quatro dias que ele se havia vencido; entretanto, o preposto do proprietário não aparecia. 

Na manhã desse quarto dia, ela amanheceu alegre e, ao mesmo tempo apreensiva. 

Tinha sonhado; e que sonho! 

Sonhou com a avó, a quem amava profundamente e que desejara muito o seu casamento com Augusto. Morrera ela poucos meses antes de realizar-se o seu enlace com ele; mas ambos já eram noivos. 

Sonhara a moça com o número da sepultura da avó – 1724; e ouvira a voz dela, da sua vovó, que lhe dizia: “Filha, joga neste número!” 

O sonho impressionou-a muito; nada, porém, disse ao marido. Saído que ele foi para a repartição, determinou à criada o que tinha a fazer e procurou afastar da memória tão estranho sonho. 

Não havia, entretanto, meios para conseguir isso. A recordação dele estava sempre presente ao seu pensamento, apesar de todos os seus esforços em contrário. 

A pressão que lhe fazia no cérebro a lembrança do sonho, pedia uma saída, uma válvula de descarga, pois já excedia a sua força de contensão. Tinha que falar, que contar, que comunicá-lo a alguém... 

Fez confidência do sucedido à Genoveva. A cozinheira pensou um pouco e disse: 

– Nhanhã: eu se fosse a senhora arriscava alguma coisa no “bicho”. 

– Que “bicho” é? 

– 24 é cabra; mas não deve jogar só por um lado. Deve cercar por todos e fazer fé na dezena, na centena, até no milhar. Um sonho destes não é por aí coisa à toa. 

– Você sabe fazer a lista? 

– Não, senhora. Quando jogo é o seu Manuel do botequim quem faz “ela”; mas a vizinha, dª Iracema, sabe bem e pode ajudar a senhora. 

– Chame “ela” e diga que quero lhe falar. 

Em breve chegava a vizinha e Zilda contou-lhe o acontecido. 

Dª Iracema refletiu um pouco e aconselhou: 

– Um sonho desses, menina, não se deve desprezar. Eu, se fosse a vizinha, jogava forte. 

– Mas, dª Iracema, eu só tenho os oitenta mil-réis para pagar a casa. Como há de ser? 

A vizinha cautelosamente respondeu: 

– Não lhe dou a tal respeito nenhum conselho. Faça o que disser o seu coração; mas um sonho desses... 

Zilda que era muito mais moça que Iracema, teve respeito pela sua experiência e sagacidade. Percebeu logo que ela era favorável a que ela jogasse. Isto estava a quarentona da vizinha, a tal dª Iracema, a dizer-lhe pelos olhos. 

Refletiu ainda alguns minutos e, por fim, disse de um só hausto: 

– Jogo tudo. 

E acrescentou: 

– Vamos fazer a lista – não é Dª Iracema? 

– Como é que a senhora quer? 

– Não sei bem. A Genoveva é quem sabe. 

E gritou, para o interior da casa: 

– Ó Genoveva! Genoveva! Venha cá, depressa! 

Não tardou que a cozinheira viesse. Logo que a patroa lhe comunicou o embaraço, a humilde preta apressou-se em explicar: 

– Eu disse a nhanhã que cercasse por todos os lados o grupo, jogasse na dezena, na centena e no milhar. 

Zilda perguntou à dª Iracema: 

– A senhora entende dessas coisas? 

– Ora! Sei muito bem. Quanto quer jogar? 

 – Tudo! Oitenta mil-réis! 

– É muito, minha filha. Por aqui não há quem aceite. Só se for no Engenho de Dentro, na casa do Halavanca, que é forte. Mas quem há de levar o jogo? A senhora tem alguém? 

– A Genoveva. 

A cozinheira, que ainda estava na sala, de pé, assistindo os preparativos de tão grande ousadia doméstica, acudiu com pressa: 

– Não posso ir, nhanhã. Eles me embrulham e, se a senhora ganhar, a mim eles não pagam. É preciso pessoa de mais respeito. 

Dª Iracema, por aí, lembrou: 

– É possível que o Carlito tenha vindo já de Cascadura, onde foi ver a avó... Vai ver, Genoveva! 

A rapariga foi e voltou em companhia do Carlito, filho de dª Iracema. Era um rapagão dos seus dezoito anos, espadaúdo e saudável. 

A lista foi feita convenientemente; e o rapaz levou-a ao “banqueiro”. 

Passava de uma hora da tarde, mas ainda faltava muito para as duas. Zilda lembrou-se então do cobrador da casa. Não havia perigo. Se não tinha vindo até ali, não viria mais. 

Dª Iracema foi para a sua casa; Genoveva foi para a cozinha e Zilda foi repousar daqueles embates morais e alternativas cruciantes, provocados pelo passo arriscado que dera. Deitou-se já arrependida do que fizera. 

Se perdesse, como havia de ser? O marido... sua cólera... as repreensões... Era uma tonta, uma doida... Quis cochilar um pouco; mas logo que cerrou os olhos, lá viu o número – 1724. Tomava-se então de esperança e sossegava um pouco da sua ânsia angustiosa. 

Passando, assim, da esperança ao desânimo, prelibando do a satisfação de ganhar e antevendo os desgostos que sofreria, caso perdesse – Zilda, chegou até à hora do resultado, suportando os mais desencontrados estados de espírito e os mais hostis ao seu sossego. Chegando o tempo de saber “o que dera”, foi até à janela. De onde em onde, naquela rua esquecida e morta, passava uma pessoa qualquer. Ela tinha desejo de perguntar ao transeunte o “resultado”; mas ficava possuída de vergonha e continha-se. 

Nesse ínterim, surge o Carlito a gritar: 

– Dª Zilda! Dª Zilda! A senhora ganhou, menos no milhar e na centena. 

Não deu um “ai” e ficou desmaiada no sofá da sua modesta sala de visitas. 

Voltou em breve a si, graças às esfregações de vinagre de dª Iracema e de Genoveva. Carlito foi buscar o dinheiro que subia a mais de dois contos de réis. Recebeu-o e gratificou generosamente o rapaz, a mãe dele e a sua cozinheira, a Genoveva. Quando Augusto chegou, já estava inteiramente calma. Esperou que ele mudasse de roupa e viesse à sala de jantar, a fim de dizer-lhe: 

– Augusto: se eu tivesse jogado o aluguel da casa no “bicho”, você ficava zangado? 

– Por certo! Ficaria muito e havia de censurar você com muita veemência, pois que uma dª de casa não... 

– Pois, joguei. 

– Você fez isto, Zilda? 

– Fiz. 

– Mas quem virou a cabeça de você para fazer semelhante tolice? Você não sabe que ainda estamos pagando despesas do nosso casamento? 

– Acabaremos de pagar agora mesmo. 

– Como? Você ganhou? 

– Ganhei. Está aqui o dinheiro. 

Tirou do seio o pacote de notas e deu-o ao marido, o que se tornara mudo de surpresa. Contou as pelegas muito bem, levantou-se e disse com muita sinceridade, abraçando e beijando a mulher: 

– Você tem muita sorte. É o meu anjo bom. E todo o resto da tarde, naquela casa, tudo foi alegria. Vieram dª Iracema, o marido, o Carlito, as filhas e outros vizinhos.

Houve doces e cervejas. Todos estavam sorridentes, palradores; e o contentamento geral só não desandou em baile, porque os recém-casados não tinham piano. Augusto deitou patriotismo com o marido de Iracema. Entretanto, por causa das dúvidas, no mês seguinte, quem fez os pagamentos domésticos foi ele próprio, Augusto em pessoa.




Revista Sousa Cruz, Rio, maio 1921



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#a vida num tem mais vida qui a vida, mais pode sê tão bunita enquanto é vida




A Menina Dança






A Menina Dança


Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos

Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar

De um lado o olho desaforo
Que diz meu nariz arrebitado
E não levo para casa, mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá!

No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança

E dentro da menina
A menina dança
E se você fechar o olho
A menina ainda dança
Dentro da menina
Ainda dança

Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer

Nascer o que há!

E quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos


Composição: Luis Galvão / Moraes Moreira