terça-feira, 18 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto III.b - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto III - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau
 
“Alexandre (Páris) provoca os Gregos mais fortes para que lutem com ele, mas acaba recuando diante de Menelau. Heitor o reprova veementemente e Alexandre decide combater Menelau. É feito um juramento, sancionado por Príamo, que aquele que vencer a batalha levará Helena. Esta sobe a muralha do palácio e aponta a Príamo os heróis Gregos. No combate de Alexandre e Menelau, este último sai vencedor, no entanto Afrodite salva Alexandre e o leva aos braços de Helena, a salvo atrás das muralhas de Troia. Helena o reprova e Agamémnone reclama vitória.”

continuando...

Idomeneu do outro lado diviso, qual um dos eternos 
entre os Cretenses, cercado por todos os chefes de Creta. 
Mais de uma vez Menelau, de Ares forte discípulo, o teve 
em nossa casa hospedado, ao chegar de viagem de Creta. 
Posso, também, distinguir muitos outros Aqueus de olhos vivos. 
Reconhecê-los ser-me-ia mui fácil, nomear a eles todos. 
Só perceber não consigo os dois chefes insignes de povos, 
o domador de cavalos, Castor, e o belaz Polideuces, 
o pugilista, os meus caros irmãos, de uma só mãe nascidos. 
Ou não vieram da terra saudosa de Lacedemônia, 

ou para aqui os trouxeram as naves de rápido curso, 
mas resolveram de todo evitar as batalhas dos homens, 
envergonhados da grande desonra que a todos fui causa.” 
   Eles, porém, pela terra, que a vida produz incessante, 
já se encontravam cobertos, na pátria querida, a Lacônia. 
   Pela cidade os arautos, no entanto, as ovelhas levavam, 
bem como o vinho jucundo, produto da terra frutífera, 
num odre feito de pele de cabra; Ideu traz a cratera, 
o nobre arauto de Príamo, e os cálices de ouro maciço. 
Apresentando-se ao velho, o apressou, com dizer-lhe o seguinte:

“Sus, Laomedôncio, levanta-te, que os mais notáveis guerreiros 
dos picadeiros Troianos, e Aqueus de couraça de bronze, 
pedem que desças, a fim de firmares os pactos solenes. 
Somente Páris e o herói Menelau, de Ares forte discípulo, 
vão por Helena lutar, de hastas firmes e longas munidos. 
O que sair vencedor, ficará com a mulher e as riquezas; 
nós, entretanto, jurada a amizade, na Tróade fértil 
continuaremos; os mais, para a Acaia de belas mulheres 
retornarão, ou para Argos, de solo de pingues pastagens.” 
   Estremeceu, ante a nova, o bom velho; mas logo deu ordem

aos companheiros que o carro aprontassem, no que lhe obedecem. 
Príamo sobe primeiro, tomando nas mãos, logo, as rédeas; 
ao lado dele Antenor assentou-se, no carro belíssimo. 
Os corredores velozes a vasta planície atravessam. 
Quando, porém, aos guerreiros Troianos e Aqueus alcançaram, 
da carruagem desceram, pisando a alma terra fecunda, 
sempre a avançar pelo espaço deixado entre Aquivos e Teucros. 
Põe-se de pé, sem detença, Agamémnone, rei poderoso, 
e o mui solerte guerreiro Odisseu; os arautos magníficos 
trazem as vítimas sacras a um ponto; na grande cratera,

mesclam o vinho, deitando, depois, água às mãos dos monarcas. 
O nobre filho de Atreu, Agamémnone, tira o cutelo 
que sempre ao lado da bainha da espada cortante trazia, 
e das ovelhas o pelo da testa cortou, que os arautos 
distribuíram por todos os nobres Aquivos e Teucros. 
No meio deles o Atrida alça as mãos, implorando em voz alta: 
   “Zeus pai, que no Ida demoras, senhor poderoso e supremo, 
Hélio, que tudo divisas e todas as coisas escutas, 
rios e terra, também, e vós outros, ó deuses de baixo, 
que castigais nas moradas subtérreas os homens perjuros,

vós testemunhas nos sede e fiadores dos votos sagrados: 
se a Menelau conseguir Alexandre matar na contenda, 
dono de Helena há de ser e de todas as suas riquezas, 
enquanto nós cruzaremos, de novo, nas naves, as ondas. 
Se o louro Atrida, porém, da existência privar a Alexandre, de 
presto nos deem os Troianos a Helena, assim como as riquezas, 
sobre se verem forçados a multa pagar aos Argivos, 
porque a memória do feito entre as gentes vindouras se estenda. 
Se se escusarem, porém, uma vez Páris morto, ou vencido, 
Príamo e os filhos, porque não me paguem a multa devida,

hei de seguir combatendo, visando a cobrar essa multa, 
sem nos movermos daqui, até vermos o fim da contenda.” 
   Tendo assim dito, com bronze cruel degolou as ovelhas, 
que, sobre a terra feraz colocou, nos arrancos agônicos, 
todas da vida privadas, que o bronze o vigor dissolvera. 
O vinho, logo depois, da cratera, nos copos deitaram 
e suplicaram aos deuses eternos e beatos do Olimpo. 
Os Teucros todos e os homens Acaios desta arte imploraram: 
   “Zeus gloriosíssimo e forte, e vós outros, ó deuses eternos! 
que se derramem, tal como este vinho, no chão os miolos

de quantos quebrem as juras solenes firmadas nesta hora, 
e os de seus filhos, ficando as mulheres escravas de estranhos.” 
   Isso diziam; mas Zeus não lhes quis atender o pedido. 
Príamo, o neto de Dárdano, aos outros, então, se dirige: 
   “Ora, guerreiros Troianos, grevados Acaios, ouvi-me! 
Vou retornar para Troia, a cidade varrida por ventos, 
por me faltar a coragem de ver com meus olhos a luta 
que com o herói Menelau vai travar meu querido Alexandre. 
Zeus, porventura, já sabe, e os mais deuses eternos e beatos, 
a qual dos dois o Destino reserva ser presa da Morte.”

Com majestade divina, no carro as ovelhas coloca 
Príamo e sobe primeiro, tomando nas mãos, logo, as rédeas; 
ao lado dele Antenor assentou-se no carro belíssimo. 
Rapidamente voltaram para Ílio, batida por ventos. 
   O nobre filho de Príamo, Heitor, e Odisseu astucioso 
primeiramente o terreno mediram; depois agitaram 
o elmo de bronze, no qual duas marcas haviam deposto, 
para que a sorte apontasse o primeiro a atirar a aênea lança. 
Súplices, todos imploram, aos deuses as mãos elevando. 
Os Aqueus todos e os homens Troianos desta arte imploravam:

“Zeus pai, que no Ida demoras, senhor poderoso e supremo! 
faze que venha a encontrar o fim triste e para o Hades afunde 
o causador desta guerra, que veio por sobre nós todos. 
Mas, alcançada a concórdia, os demais amizade juremos.” 
   Isso diziam; Heitor, entrementes, as sortes agita 
no elmo, com o rosto virado; saltou a marcada por Páris. 
Todos, então, sem quebrar as fileiras, no chão se assentaram, 
onde os cavalos briosos se achavam e as armas lavradas. 
O divo Páris, marido de Helena de belos cabelos, 
em torno aos membros ajusta a armadura de fino trabalho:

as caneleiras, primeiro, lavradas, nas pernas ataca,
belas de ver, por fivelas de prata maciça ajustadas; 
em torno ao peito coloca, depois, a couraça magnífica, 
que a seu irmão pertencia, Licáone, e bem se lhe ajusta; 
lança nos ombros a espada de bronze com cravos de prata 
e um grande escudo sobraça, maciço e de largos contornos: 
o elmo de fino lavor na cabeça admirável coloca, 
no qual, por modo terrível, penacho de crina ondulava; 
toma, por fim, de uma lança bem forte, de fácil manejo. 
Do mesmo modo se armou Menelau, de Ares forte discípulo.

Quando os aprestos concluíram, cada um no seu campo, avançaram 
pelo terreno deixado entre os homens Aqueus e os Troianos, 
ambos com aspecto terrível; o espanto se apossa de todos, 
dos picadores Troianos e Aquivos de grevas bem-feitas. 
Precisamente no meio da liça eles dois se encontraram, 
as lanças ambos brandindo, sem que o ódio ocultar conseguissem. 
Páris primeiro jogou sua lança de sombra comprida, 
a qual no escudo redondo do filho de Atreu foi dobrar-se, 
sem que o metal o rompesse, contudo, que a ponta se amolga 
na resistência do escudo. Atirou Menelau, em seguida, 

a sua lança, também, dirigindo a Zeus grande uma súplica: 
   “Dá-me, Zeus pai, que consiga castigo infligir a Alexandre, 
causa de minha desonra! Que sob meus golpes sucumba, 
para de exemplo servir aos vindouros, que horror manifestem 
de retribuir com vilezas a lhana e amistosa hospedagem.” 
   Joga, ao dizer esta súplica, a lança de sombra comprida, 
que foi bater bem no escudo redondo do filho de Príamo. 
A arma terrível o escudo de aspecto brilhante atravessa, 
indo encravar-se na cota de bela e variada textura, 
e atravessando, também, junto ao flanco, a preciosa camisa.

Páris, entanto, encurvou-se, escapando da lívida Morte. 
O nobre filho de Atreu sacou logo da espada e, elevando-se, 
na crista do elmo tremenda pancada atirou; mas a espada 
veio ali mesmo fazer-se pedaços, das mãos lhe escapando. 
O louro herói Menelau para o céu volta os olhos e exclama: 
   “Zeus pai, nenhum dos eternos te pode vencer em crueldade, 
pois esperava, realmente, vingar-me da injúria de Páris! 
Mas, em vez disso, quebrou-se-me a espada nas mãos e, frustrânea,
foi minha lança atirada, sem ter o alvo certo atingido.” 
   Tendo isso dito, de um salto o elmo, ornado de crina, segura,

e para os homens Aquivos procura arrastar Alexandre. 
O delicado pescoço apertado ficou pela tira 
que, por debaixo da barba, servia de freio para o elmo. 
E, porventura, o arrastara, colhendo, com isso, alta glória, 
se o não tivesse Afrodite, a donzela de Zeus, percebido, 
que fez romper-se a correia tirada de um boi morto à força. 
O elmo vazio, as mãos fortes do herói, tão somente, acompanha, 
que o fez rolar para o meio dos homens Aquivos, ornados 
de belas grevas; os fidos consórcios depressa o acolheram. 
Dá Menelau novo salto, disposto a matar o inimigo

com a lança brônzea; porém Afrodite dali — era deusa — 
mui facilmente o afastou. Em espessa neblina envolvendo-o, 
foi colocá-lo no tálamo odoro e de enfeites ornado. 
Passa a chamar logo Helena. Encontrou-a, realmente, num quarto 
da torre excelsa, rodeada por muitas mulheres Troianas. 
Toca-lhe, então, levemente, nas vestes de essência divina, 
tendo assumido a feição exterior de uma velha encurvada, 
que lã sabia cardar e que muitos trabalhos para ela, 
quando em Esparta, fizera, entre todas a mais distinguida. 
Tendo essa forma assumido, Afrodite lhe disse o seguinte:

“Vem, cara filha, comigo, que Páris chamar-te mandou-me. 
Ele te espera no quarto, onde se acha, no leito torneado, 
belo de ver, irradiante e vestido a primor; não disseras 
que de um combate saiu, senão que ora, cuidoso, se apresta 
para ir dançar ou que, lasso do baile, ao repouso se entrega.” 
   Essas palavras revolta no peito de Helena espertaram. 
Reconheceu logo a deusa, com ver-lhe o pescoço belíssimo, 
os seios ricos de encantos e os olhos inquietos e vivos. 
Fica tomada de espanto; depois, a increpou deste modo: 
   “Falsa, por que procurar iludir-me com tantos embustes?

Naturalmente, com o fim de poderes mais longe levar-me, 
à bem-construída cidade da Frígia ou da Meônia formosa, 
onde dileto mortal, destituído de senso, escolheste. 
Por isso mesmo que o herói Menelau derrotou em combate 
ao divo Páris, e quer para a casa fatal conduzir-me, 
vieste até aqui meditando iludir-me com novas insídias? 
Vai tu, sozinha, e a seu lado te assenta; dos deuses te afasta: 
não voltes mais a pisar o caminho altanado do Olimpo, 
mas permanece ao seu lado, sofrendo e cuidando só dele, 
té que, por fim, como esposa te aceite, ou, talvez, como escrava.

Não voltarei para o tálamo, pois vergonhoso seria 
participar-lhe do leito; as Troianas, sem dúvida, haviam 
de murmurar; já sobejam as dores que na alma suporto.” 
   Cheia de cólera, a deusa Afrodite lhe disse, em resposta: 
“Não me provoques, criatura infeliz, porque não aconteça 
que te abandone e te venha a odiar quanto agora te prezo. 
Se entre os Acaios e Teucros fizesse surgir ódio infausto 
contra tu própria, haverias de ter um destino bem triste.” 
   Cheia de medo ficou a nascida de Zeus poderoso, 
e, sem dizer mais palavra, se foi, no véu branco envolvida,

sem que as Troianas a vissem; servia de guia o demônio. 
Logo que o belo palácio do divo Alexandre alcançaram, 
para os trabalhos usuais retornaram depressa as criadas, 
enquanto Helena, a divina, ingressava no esplêndido tálamo. 
Uma cadeira Afrodite, dos risos amante, lhe trouxe, 
indo depô-la defronte de Páris, o divo Alexandre. 
Senta-se Helena, a nascida de Zeus, sem olhar para o lado 
onde o marido se achava. Começa exprobrando-o desta arte: 
“Como! voltaste da guerra? Prouvera que a Morte encontrasses 
sob as mãos fortes do herói valoroso que foi meu marido.

Antes da guerra gabavas-te, sim, de que tinhas mais força 
que Menelau, mais arrojo e destreza no jogo da lança. 
Vai provocar, então, logo, o discípulo de Ares potente, 
para, outra vez, vos medirdes em duelo. Aliás, aconselho-te 
a que não faças tamanha tolice, pensando que podes 
com o louro herói Menelau contender numa luta corpórea, 
que em pouco tempo sua lança potente há de ao solo prostrar-te.” 
   O divo Páris, então, lhe retruca as seguintes palavras: 
“Não me acabrunhes o peito, mulher, com teus ditos sarcásticos. 
Por esta vez Menelau me venceu com o auxílio de Atena,

mas amanhã serei eu o vencedor, que outros deuses nos prezam. 
Ora, concordes, gozemos do amor as carícias, no leito, 
pois nunca tive os sentidos tomados por tanta ebriedade, 
nem mesmo quando em navios velozes te trouxe da pátria, 
Lacedemônia querida, no tempo em que foste raptada 
e de numa ilha rochosa o primeiro conúbio gozarmos. 
Hoje, mais doce paixão, por tua casa, de mim se apodera.” 
   Tendo isso dito, subiu para o leito; seguiu-o a consorte. 
Enquanto os dois, no belíssimo leito, do sono fruíam, 
o louro filho de Atreu, Menelau, percorria as fileiras,

como uma fera, à procura de Páris, de formas divinas. 
Mas nem os Teucros, nem mesmo seus fidos aliados, podiam 
ao grande herói Menelau indicar onde estava Alexandre, 
que se o tivesse enxergado, nenhum, por amor, o ocultara, 
pois como a lívida Morte era odiado, realmente, por todos. 
O nobre Atrida Agamémnone, então, se expressou deste modo: 
   “Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção concedei-me! 
É incontestável que coube ao herói Menelau a vitória. 
Cumpre-vos, Teucros, por isso, entregar-nos Helena e os tesouros 
acrescentados de multa vultosa, que ao caso convenha,

porque a memória do feito entre as gentes vindouras se estenda.” 
   Isso disse ele: os guerreiros Acaios em peso o aplaudiram. 

continua página 130...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b /          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica


Ilíada, de Homero - Canto III




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