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sábado, 14 de junho de 2025

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXXI: Das saborosas conversações que houve

D. Quixote de la Mancha

Miguel de Cervantes

Vol 1

O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 
Miguel de Cervantes


PRIMEIRA PARTE

LIVRO QUARTO

CAPÍTULO XXXI

Das saborosas conversações que houve entre D. Quixote e o seu escudeiro com outros sucessos.

 — Nada disso me descontenta; podes continuar — disse D. Quixote. — Chegaste, e que estava fazendo aquela rainha da formosura? aposto que a achaste a enfiar pérolas, ou bordando alguma empresa com canotilho de ouro, para este seu cativo cavaleiro.
 — Qual! — respondeu Sancho — achei-a a joeirar duas fangas de trigo num pátio da casa.
 — Pois faze de conta — disse D. Quixote — que os grãos desse trigo eram aljôfares logo que ela lhes tocava. Reparaste, amigo, se o trigo era candial ou tremês?
 — Nada; era dumas alimpas — respondeu Sancho.
 — Pois assevero-te — disse D. Quixote — que depois de joeirado por ela havia de deitar farinha candial infalivelmente. Mas passa adiante. Quando lhe deste a minha carta beijou-a? pô-la sobre a cabeça? fez alguma cerimônia digna de tal carta? ou que fez?
 — Quando eu lha ia entregar — respondeu Sancho — estava ela na azáfama de aviar uma joeirada quase cheia; por isso, disse-me: “Ponde, meu amigo, a carta para riba daquele saco, que não a posso ler enquanto não acabar de joeirar tudo o que para aí está.”
 — Que discreta senhora! — disse D. Quixote. — Havia de ser para a ler com mais sossego e regalar-se. Adiante, Sancho. E enquanto estava nesse serviço, quais foram os seus colóquios contigo? que te perguntou de mim? e tu que lhe respondeste? Acaba, conta-me tudo, não te fique no tinteiro nem um pontinho.
 — Não me perguntou nada — disse Sancho — eu é que lhe disse como Vossa Mercê ficava para a servir, fazendo penitência, e nu da cinta para cima, metido entre estas serras como um selvagem, dormindo no chão, sem comer pão em toalhas, sem pentear as barbas, chorando e maldizendo a sua fortuna.
 — Lá nisso de maldizer eu a minha fortuna, enganaste-te — disse D. Quixote; — antes a bendigo, e bendirei todos os dias da minha vida, por me ter feito digno de merecer amar tão alta senhora como é Dulcinéia del Toboso. 
 — Tão alta é — respondeu Sancho — que é verdade que tem de altura um punho mais do que eu. 
 — Como é isso, Sancho? — disse D. Quixote — pois tu mediste-te com ela?
 — Medi, sim, senhor — respondeu Sancho — quer saber como? acheguei-me para ajudá-la a pôr um saco de trigo sobre um jumento; estávamos tão juntos, que reparei que me levava um bom palmo. 
 — É bem verdade — replicou D. Quixote — e toda essa grandeza é acompanhada com mil milhões de graças da alma. Uma coisa me não podes tu negar, Sancho: quando chegaste ao pé dela, não sentiste um cheiro sabeu, uma fragrância aromática, e um não sei quê de bom, que não acerto em lhe dar nome, digo uma baforada como se entraras na loja de um luveiro dos mais esmerados?
 — O que sei dizer — respondeu Sancho — é que senti um cheirito assim... tirante a homem, provavelmente por estar suando e esquentada da lida. 
 — Não havia de ser isso — respondeu D. Quixote — é que estarias endefluxado, ou então tomaste por cheiro dela o teu próprio, que o cheiro que tem aquela rosa entre espinhos sei-o eu muito bem, aquele lírio do campo, aquele âmbar derretido.
 — Pode muito bem ser — respondeu Sancho — que muitas vezes sai de mim aquele mesmo cheiro, que então me pareceu que saía de Sua Mercê a senhora Dulcinéia. Não admira que um diabo se pareça com outro. 
 — Bem está — prosseguiu D. Quixote. — E depois de joeirado todo o trigo, e mandado para o moinho, que fez quando leu a carta?
 — A carta não a leu — respondeu Sancho — porque disse que não sabia ler nem escrever, rasgou-a em migalhinhas, dizendo que não a queria dar a ler a ninguém, para não se saberem no lugar os seus segredos, e que bastava o que eu lhe tinha dito de palavra acerca do amor que Vossa Mercê lhe tinha, e da penitência extraordinária que ficava fazendo por seu respeito; finalmente, disse-me que lhe dissesse  eu a Vossa Mercê que ela lhe beijava as mãos, e que lá ficava com mais desejos de vê-lo, que de escrever-lhe; e que assim lhe suplicava, e mandava, que, vista a presente, saísse daqueles matagais, e se deixasse de fazer descocos e se pusesse logo logo a caminho para Toboso, se não tivesse outra coisa de mais importância que fazer, porque tinha grande desejo de o ver a Vossa Mercê. Riu como uma perdida quando eu lhe disse o nome que Vossa Mercê tinha de Cavaleiro da Triste Figura. Perguntei-lhe se tinha lá ido o biscainho do outro dia; disse-me que sim, e que era um homem muito de bem. Também lhe perguntei pelos forçados, mas desses respondeu-me que ainda não tinha visto nenhum.
 — Tudo vai muito bem até agora — disse D. Quixote — mas dize-me cá: à despedida que prenda te deu pelas novas que de mim lhe levaste? Pois é costume velho entre cavaleiros e damas andantes darem aos escudeiros, donzelas ou anões, que lhes levam recados de suas damas a eles, e a elas dos seus cavaleiros, alguma rica joia de alvíssaras em agradecimento da mensagem.
 — Assim seria — respondeu Sancho — bem bom costume que ele me parece, mas isso havia de ser lá nos tempos passados; hoje naturalmente não se costuma dar senão um pedaço de pão e queijo; foi o que me deu a minha senhora Dulcinéia por cima do espigão do muro do pátio, quando me despedi dela; e para mais sinal, o queijo era de ovelha.
 — É liberal em extremo — disse D. Quixote — e se te não deu joia de ouro, havia de ser sem dúvida pela não ter ali à mão; mas o que se não faz em dia de Santa Maria far-se-á noutro dia; quando eu a vir, se arranjarão as contas. Sabes tu de que eu estou maravilhado, Sancho? é de me parecer que foste e vieste pelos ares, porque pouco mais de três dias gastaste em ir a Toboso e voltar, havendo de permeio o melhor de trinta léguas; pelo que entendo que o sábio nigromante que tem conta nas minhas coisas e é meu amigo (porque por força o há, e deve haver, sob pena de não ser eu bom cavaleiro andante), deveu ter-te ajudado a caminhar sem tu o saberes, pois há sábios destes, que tomam a um cavaleiro andante na sua cama, e, sem se saber como, o amanhecem ao outro dia a mais de mil léguas donde anoiteceu. Se assim não fosse, não poderiam os cavaleiros andantes nos seus perigos acudir uns pelos outros, como a cada passo acodem. Sucede, por exemplo, estar um pelejando nas serras de Armênia com algum gigante anguípede, ou com outro cavaleiro; leva o pior da batalha, e está já para morrer; e quando mal se precata, assoma-lhe de além, sobre uma nuvem ou um carro de fogo, outro cavaleiro amigo seu, que pouco antes se achava em Inglaterra, que o ajuda e o livra da morte, e à noite se acha em sua casa ceando muito regaladamente, com haver entre aquelas partes duas ou três mil léguas; e tudo isto se faz por indústria e sabedoria destes sábios encantadores, que protegem estes valorosos cavaleiros. Portanto, amigo Sancho, não me custa a crer que em tão breve tempo fosses daqui a Toboso, e de Toboso tomasses cá: algum sábio amigo te levou em bolandas sem tu o sentires.
 — Assim havia de ser — disse Sancho — porque à fé de quem sou que andava Rocinante como se fora asno de cigano com azougue nos ouvidos.
 — Azougue e uma legião de demônios, que isso é gente que para andar e fazer andar quanto lhes parece não admite companhia. Mas, deixando isto, que te parece a ti que eu devo fazer agora, determinando-me a minha senhora que a vá ver? Bem vejo que estou obrigado a cumprir o seu preceito; mas não menos me corre obrigação de satisfazer ao que prometi à Princesa que ai vem conosco. A lei da cavalaria me obriga a satisfazer à minha palavra, antes que ao meu gosto. Por uma parte estou morrendo por ver a minha senhora; pela outra, está por mim bradando a glória que hei de alcançar nesta nova empresa, e a solene promessa que já fiz. O que tenciono fazer é caminhar depressa, e chegar cedo onde está este gigante, usurpador do reino de Micomicão, cortar-lhe logo a cabeça, e pôr a Princesa pacificamente no seu trono; e sem perda de tempo eu retrocederei para ir ver a luz que os meus sentidos alumia. Tais desculpas lhe darei, que me há de aprovar a tardança, pois verá que tudo redunda em aumento da sua fama, porque toda a que eu tenho alcançado, alcanço, e alcançarei pelas armas em toda a vida, só me provém do favor que ela me dá, e de eu lhe pertencer.
 — Valha-me Deus! — disse Sancho — como Vossa Mercê está aleijado desses cascos! pois diga me, senhor: pensa realmente em fazer este caminho escusado e deixar-se de aproveitar um tão rico e esclarecido casamento como este, que lhe traz por dote um reino, que em minha boa verdade já ouvi dizer que tem mais de vinte mil léguas em redondo, que é abundantíssimo de todas as coisas que são necessárias para a vida humana, e que é maior que Portugal e Castela juntos? Cale-se, pelo amor de Deus, e tenha vergonha do que aí disse; tome o meu conselho, e perdoe-me, e case-se logo no primeiro lugar onde houver pároco; e, quando não, aí está o nosso licenciado, que o fará como umas pratas. Repare Sua Mercê que eu já tenho idade para dar conselhos, e que este que lhe estou dando lhe vem ao pintar, e ao pedir por boca: mais vale um pássaro na mão, que dois a voar; quem bem está e mal escolhe, por mal que lhe venha não se anoje.
 — Sancho, o conselho que me dás — respondeu D. Quixote — de que me case, bem percebo por que é: é para que eu seja rei apenas matar o gigante, e possa fazer-te mercês e dar-te o prometido. Pois saberás que sem casar poderei cumprir-te os desejos sem nenhuma dificuldade; antes de entrar à batalha hei de pôr por cláusula que, saindo dela vencedor, ainda que me eu não case, me hão de dar uma parte do reino, podendo eu cedê-la a quem muito bem quiser. Ora a quem queres tu que eu a ceda, senão a ti? 
— Isto está claro — respondeu Sancho — mas olhe Vossa Mercê se ma escolhe virada para o mar, porque assim... (suponhamos que a vivenda me não agrada) posso embarcar os meus vassalos negros, para fazer deles o que já disse; e Vossa Mercê não se lembre por agora de ir ver a minha senhora Dulcinéia; vá primeiro matar o gigante, e tiremos daí o sentido; este é que é negócio de muita honra e proveito que farte, segundo me bacoreja cá por dentro.
 — Dizes muito bem, Sancho — obtemperou D. Quixote — e sigo o teu parecer: ir-me-ei com a Princesa, primeiro que me veja com Dulcinéia. Cautela de não dizeres nada a ninguém, nem às pessoas que vêm conosco; isto fica entre nós; Dulcinéia é tão recatada, que nem quer que lhe adivinhem os pensamentos. Deus me livre de lhos eu descobrir, por mim, ou por outrem.
 — Se isso é verdade, — retorquiu Sancho — para que determinou Vossa Mercê a todos os seus vencidos, que se vão apresentar a ela? tanto vale isso, como assinar o seu nome com a declaração de lhe querer bem, e de ser seu namorado; e sendo eles obrigados a fincar-se de joelhos na sua presença, e dizer-lhe que vão da parte de Vossa Mercê a render-lhe obediência, como se podem então encobrir os pensamentos de ambos?
 — Que néscio e que simplório que és! — disse D. Quixote — pois tu não vês que tudo isso redunda em sua maior exaltação? porque deves saber que nestas nossas usanças de cavalaria é honra grande ter uma dama bastantes cavaleiros andantes que a sirvam, sem que os pensamentos deles se abalancem a mais do que unicamente servi-la só por ser ela quem é, sem aguardarem outro prêmio de seus muitos e bons desejos senão o ela contentar-se de os aceitar por cavaleiros seus.
 — Essa coisa — disse Sancho — já eu ouvi em sermões: que se há de amar a Deus por si só, sem que nos mova a isso esperança de glória, nem medo de castigo (ainda que eu o quereria amar e servir por algum interesse, podendo ser).
 — Valha-te o diabo, meu rústico! — disse D. Quixote — fortes discrições dizes tu às vezes! pareces homem de estudos.
 — Pois posso-lhe jurar que nem ler sei — respondeu Sancho.

      Nisto ouviram apupos do mestre Nicolau que os esperassem porque desejavam deter-se um pouco a beber numa fontainha que ali estava. Deteve-se D. Quixote com grande satisfação de Sancho, que já estava cansado de enfiar mentiras, e tinha medo de que o amo o apanhasse em algum lapso, porque tudo o que ele sabia de Dulcinéia era ser ela uma lavradora de Toboso, mas nunca em dias de vida lhe pusera os olhos.
      Já então Cardênio tinha envergado o fato com que Dorotéia estava quando a princípio a encontraram; não era do melhor, mas sempre era preferível aos andrajos. Apearam-se ao pé da fonte e, com o que o padre cura trouxera da venda por cautela, satisfizeram, ainda que não em cheio, a gana que todos traziam. Enquanto manducavam, acertou de passar por ali um rapaz que ia de caminho, o qual, pondo-se a olhar com muita atenção para todos os que estavam à beira da fonte, assim como reconheceu D. Quixote, foi para ele, e, abraçando-o pelas pernas, começou a fingir que chorava, dizendo:

 — Ah, meu senhor! já Vossa Mercê me não conhece? repare bem: sou aquele rapaz André, que Vossa Mercê soltou da azinheira a que estava preso.

     Reconheceu-o D. Quixote, e, tomando-o pela mão, disse para quantos ali eram:

 — Para que Vossas Mercês vejam que importante coisa é haver cavaleiros andantes no mundo, que desfaçam as injustiças e agravos que nele fazem os insolentes e maus homens que por ele se encontram, saibam que uns dias atrás, passando eu por um bosque, ouvi uns gritos sentidíssimos, como de pessoa afligida e necessitada. Acudi logo, levado da minha obrigação, para a parte donde se me figurou que vinham os lamentos, e achei atado a uma azinheira este muchacho que aí está; com o que muito folgo, pois me não deixará mentir. Repito que estava atado ao tronco despido da cinta para cima, e um vilão (que depois soube ser seu amo) a escalá-lo de açoites com as rédeas duma égua. Mal que o vi, perguntei-lhe a causa de tão cruel suplício. Respondeu-me o palerma que o açoitava porque era seu criado, e que certos prejuízos que lhe ocasionava mais provinham de ser rapinante do que tolo; e ao que este mesmo acudiu: “Não é verdade; açoita-me só por lhe eu pedir a minha soldada.” O amo refilou não sei que arengas e desculpas, que eu bem ouvi, mas que não admiti. Em suma: fiz que o soltasse, e tomei juramento ao campônio de que o levaria consigo, e lhe pagaria muito bem contado e recontado. Não é verdade tudo isto, pequenito? não notaste a autoridade com que lhe falei, e com quanta humildade ele prometeu cumprir todas as minhas ordens? Responde; não te atrapalhes nem tenhas medo; conta a estes senhores tudo como foi, para que se reconheça ser, como digo, proveitoso andarem pelos caminhos cavaleiros andantes.
 — Tudo que Vossa Mercê aí disse é muita verdade — respondeu o muchacho — mas o fim do negócio é que saiu às avessas do que Vossa Mercê cuida.
 — Como às avessas? — exclamou D. Quixote — Então o vilanaz não te pagou?
 — Não só me não pagou — respondeu o coitado — mas assim que Vossa Mercê saiu do bosque e ficamos sós tornou a amarrar-me na azinheira, e surrou-me outra vez com tantas correadas, que fiquei um S. Bartolomeu esfolado, e a cada açoite que me dava me dizia uma chufa para Vossa Mercê, com tanta graça, que, se não fossem as dores, até eu me rira de o ouvir. A verdade é que me pôs de modo que até agora tenho estado no hospital curando-me do que então me fez o excomungado vilão. Toda a culpa foi de Vossa Mercê, porque, se fosse seguindo o seu caminho, e não se metesse onde não era chamado, e não se importasse com coisas alheias, meu amo contentava-se com uma ou duas dúzias de açoites, soltava-me logo, e pagava-me o que me devia; mas, como Vossa Mercê o descompôs tão desencabrestadamente, e lhe disse tantas brutalidades, ferveu-lhe o sangue, e, como não pôde vingar-se em Vossa Mercê, logo que nos viu sós descarregou em mim a trovoada de modo que desconfio que já não torno a ser gente em dias de vida.
 — O mau foi — disse D. Quixote — o cair eu em me ausentar dali. Não me devia ir, enquanto te não visse pago; bem devia eu saber, por longa experiência, que não há vilão que desempenhe a palavra dada em não lhe fazendo conta. Mas não te lembras, André, que eu lhe jurei (se te não pagasse) tornar lá, e dar com ele, ainda que se escondesse na barriga da baleia?
 — É verdade — disse André — mas não serviu de nada.
— Se não serviu, servirá! — disse D. Quixote — e eu vou te mostrar.

      Levantou-se à pressa e mandou a Sancho que enfreasse o Rocinante, que estava pastando enquanto eles comiam. Perguntou-lhe Dorotéia que ia fazer. Respondeu ele que ir buscar o vilão, castigá-lo e fazê-lo pagar a André até o último maravedi pesasse o que pesasse a quantos campônios houvesse no universo. Ao que ela respondeu que tal não podia fazer, conforme para com ela se obrigara; só depois de acabada a sua empresa é que recobraria liberdade para qualquer outra; que bem o sabia ele melhor que ninguém; que portanto acalmasse o ímpeto até voltar do seu reino.

 — Tem razão — respondeu D. Quixote. — André que tenha paciência e espere pela minha tornada, como vós, senhora, dizeis, que outra vez lhe prometo e juro não descansar enquanto o não vir vingado e pago. 
 — Bem caso faço eu dessas juras — disse André; — mais quisera eu ter agora com que chegar a Sevilha, que todas as vinganças do mundo. Dê-me, se aí tem, alguma coisita para comer e levar, e fique-se com Deus Vossa Mercê, e todos os cavaleiros andantes; tão boas andanças tenham eles para si como a mim mas deram.

      Tirou Sancho de seu fardel um toco de pão e um pedaço de queijo, e, dando-o ao rapaz, lhe disse:

 — Toma, irmão André, a tua desgraça toca-nos a todos.
 — A vós outros, como? — perguntou André.
 — Este pão e queijo que vos dou, Deus sabe se nos não há de fazer falta — respondeu Sancho. — Sabereis, amigo, que nós outros, os escudeiros dos cavaleiros andantes, andamos expostos a muitas fomes, além de outras desgraças e coisas que melhor se sentem do que se explicam.

      O André agarrou no seu pão e queijo, e vendo que ninguém lhe dava mais nada, abaixou a cabeça e meteu pernas ao potro, como se costuma dizer. Verdade é que ao partir sempre disse a D. Quixote:

 — Se me tornar a encontrar, senhor cavaleiro andante, ainda que veja que me estão fazendo pedaços, por amor de Deus não me acuda, deixe-me com a minha desgraça, que nunca ela será tanta, como a que poderia acarretar o socorro de Vossa Mercê, a quem Nosso Senhor maldiga e a todos quantos cavaleiros andantes tiverem nascido neste mundo.

      Ia-se levantar D. Quixote para lhe dar ensino; mas ele desatou a correr, de modo que ninguém se animou a segui-lo. Com os ditos de André ficou D. Quixote corridíssimo; e, para o não ficar de todo, necessário foi que os mais tivessem sumo tento em se não rir.
 
continua na página 191...
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Leia também:

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Prólogo
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Ao Livro de D. Quixote de la Mancha
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo I
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L2 Capitulo IX
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXXI
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D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho
Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
eBooksBrasil.com 
Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com

domingo, 22 de dezembro de 2024

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXX: Que trata da discrição da formosa Dorotéia

D. Quixote de la Mancha

Miguel de Cervantes

Vol 1

O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 
Miguel de Cervantes


PRIMEIRA PARTE

LIVRO QUARTO

CAPÍTULO XXX

Que trata da discrição da formosa Dorotéia, com outras coisas de muito sabor e passatempo.


     Mal tinha acabado o cura, quando Sancho disse:

 — Pois afirmo-lhe eu, senhor licenciado, que o fazedor dessa façanha foi meu amo; e olhe que não foi por lhe eu não dizer a tempo que reparasse no que fazia, e que era pecado soltá-los, porque todos iam ali por grandíssimos tratantes. 
— Ó idiota — exclamou aqui D. Quixote — aos cavaleiros andantes não pertence averiguar se os afligidos, acorrentados e opressos, que se encontram pelas estradas, vão daquela maneira por suas culpas, ou por serem desgraçados; só lhes toca ajudá-los como necessitados que são, considerando-lhes as penas, e não as tratantadas. Encontro uma enfiada, um rosário de gente mofina; fiz nela o que a minha religião pedia, e saísse o que saísse; e a quem o desaprova (sem faltar ao respeito que devo ao senhor licenciado e à sua honrada pessoa) digo que sabe pouco dos contratempos da cavalaria, e que mente como um biltre e malcriado, e eu lhe farei conhecer com a minha espada, mais comprida e inteiramente.

     Estas palavras já as proferiu firmando-se nos estribos, e ajustando o murrião, porque a bacia de barbeiro, que pelas suas contas era o elmo de Mambrino, levava-a pendurada do arção dianteiro, para a mandar correger do mau tratamento que lhe deram os galeotes. 
     Dorotéia, que era discreta e lépida, sabedora já da aduela de menos de D. Quixote, e de que todos, afora Sancho Pança, judiavam com ele, não quis ficar atrás, e, vendo-o tão enojado, lhe disse:

— Senhor cavaleiro, recorde-se do que me prometeu; olhe que não pode intrometer-se em aventura nenhuma, por urgente que seja; serene-se, que, se o senhor licenciado soubera que o libertador dos galeotes fora esse braço invencível, daria três pontos na boca, e até mordera três vezes a língua, antes de ter dito palavra que redundasse em desdouro de Vossa Mercê. 
— Posso-lhe jurar — disse o cura — era mais fácil deixar cortar o bigode. 
— Já me calo, senhora minha — disse D. Quixote — e reprimo a justa cólera que me ia abrasando, e irei no meu sossego, até ter cumprido o que vos prometi. Agora em paga suplico-vos eu me digais, se vos não dá incômodo, qual é a vossa mágoa, e quantas, quem, e quais são as pessoas de quem vos hei-de dar devida e inteira vingança. 
— De muita boa vontade — respondeu Dorotéia — se porventura vos não enfada ouvir lamentos e desgraças. 
— Não enfada — respondeu D. Quixote — não enfada, senhora minha. 
— Sendo assim — disse Dorotéia — estejam Vossas Mercês atentos.  

     A estas palavras logo Cardênio e o barbeiro se lhe puseram ao lado, cobiçosos de ver como da sua história se saía a espertíssima donzela; e o mesmo fez Sancho, que não ia ali menos enganado que o amo. E ela, depois de se ter muito bem ajeitado na sela, preparando-se com tossir, e outras semelhantes cerimônias com muito chiste encetou assim a sua narrativa:

— Primeiramente quero que Vossas Mercês saibam, senhores meus, que a mim me chamam... 

     Aqui deteve-se um pouco, por se lhe ter varrido o nome que lhe pusera o cura. Este porém lhe acudiu no encalhe, dizendo:

— Não é maravilha, senhora minha, que Vossa Grandeza se perturbe no referir as suas desventuras; é próprio delas o tirarem muitas vezes a memória a quem as padece, a ponto de nem dos seus próprios nomes se lembrarem; é o que neste instante sucedeu a Vossa Grã-Senhoria, pois não lhe lembra que se chama a Senhora Princesa Micomicadela, herdeira legítima do grande reino Micomicão. Agora que já lhe fica apontado o caminho, pode Vossa Grandeza seguir sem empacho o que lhe aprouver dizer-nos. 
— Sim, senhor — disse a donzela — creio que daqui em diante já não será necessário recordar-me nada; espero chegar a porto de salvamento com a minha verdadeira história. Ora pois: El-Rei meu pai, que se chamava Tinácrio, o sábio, foi mui douto nisto que chamam arte mágica, e alcançou, pela sua ciência, que minha mãe que se chamava a Rainha Charamela, havia de morrer primeiro que ele, mas que ele também dali a pouco tempo havia de passar desta a melhor vida, ficando eu órfã de pai e mãe. Dizia ele, porém, que menos o consumia isso, do que o atormentava saber por coisa muito certa que um descomunal gigante, senhor duma grande ilha, que quase confronta com o nosso reino, chamado Pandafilando da vista fusca (porque há toda a certeza de que, apesar de ter os olhos no seu lugar, e direitos, sempre olha de revés como se fora vesgo, que ele faz por mau, e para meter medo e espanto à gente)... Sim; repito, que meu pai soube que o tal gigante, logo que lhe constasse a minha orfandade, havia de passar com grande quantia de gente sobre o meu reino, e tirar-mo todo, sem me deixar nem uma aldeia para me eu recolher, porém que todas estas inclemências se poderiam evitar, prontificando-me eu a casar com ele; mas que, segundo ele meu pai entendia, nunca eu estaria por tão desigual casamento. Neste particular foi profeta, porque nunca jamais pela idéia me passou casar-me com o tal gigante, nem com outro qualquer, fosse quem fosse. Mais disse meu pai e senhor que, se depois da sua morte eu visse que Pandafilando começava a entrar pelo meu reino, não perdesse tempo em preparos para me defender, que seria arruinar-me de todo, mas que espontaneamente lhe despejasse a terra, se queria escapar à morte, e à destruição total dos meus bons e fiéis vassalos, porque não havia de ser possível defender-me da endiabrada força do gigante, mas que tornasse logo com alguns dos meus caminho de Espanha, onde acharia remédio a meus males na pessoa dum cavaleiro andante, cuja fama a esse tempo encheria já todo o reino, e o qual se havia de chamar (se bem me lembra) D. Azote, ou D. Gigote... 
— Talvez dissesse D. Quixote — interrompeu Sancho Pança — ou por outro nome, o Cavaleiro da Triste Figura. 
— É verdade — disse Dorotéia — e ajuntou que esse tal cavaleiro seria alto de corpo, seco de rosto, e que no lado direito, debaixo do ombro esquerdo, ou por ali perto, havia de ter um sinal pardo com certos cabelos à maneira de sedas de porco.

     Ouvindo aquilo, disse D. Quixote ao escudeiro:

— Sancho filho, acode cá; ajuda-me a despir, que preciso ver se não sou o cavaleiro que aquele tão sábio monarca deixou profetizado. 
— Para que se quer Vossa Mercê despir? — disse Dorotéia. 
— Para ver se tenho o sinal indicado por vosso pai — respondeu D. Quixote. 
— Não é preciso que se dispa — acudiu Sancho — que eu sei que Vossa Mercê tem um sinal assim tal qual no meio do espinhaço, prova de ser homem esforçado. 
— Então basta isso — disse Dorotéia; — com os amigos não se cortam as unhas rentes; que seja no ombro, ou que seja no espinhaço, vem a dar na mesma. O caso é que haja o sinal, esteja onde estiver, pois é tudo a mesma carne. Meu pai acertou em tudo, e eu também acertei em me encomendar ao senhor D. Quixote, que este é o que meu pai disse. Os sinais do rosto concordam com os da boa fama que este cavaleiro tem, não só em Espanha, mas até em toda a Mancha; tanto assim, que apenas eu desembarquei em Ossuna, logo ouvi contar dele tantas façanhas, que me deu o coração uma pancada de que era o mesmo que eu vinha a buscar. 
— Como desembarcou Vossa Mercê em Ossuna, senhora minha — perguntou D. Quixote — se não é porto de mar?

     Apressou-se o cura antes que Dorotéia respondesse, e disse;

— Naturalmente quererá dizer a senhora Princesa que, depois que desembarcou em Málaga, a primeira parte em que achou novas de Vossa Mercê foi em Ossuna. 
— É isso mesmo — disse Dorotéia. 
— E diz muito bem — acrescentou logo o cura — mas queira Vossa Majestade prosseguir. 
— Prosseguir o quê? — replicou ela — Não há mais nada para diante. Tão boa foi a minha sorte em achar ao senhor D. Quixote, que já me conto por soberana senhora de todo o meu reino depois que ele, por sua cortesia e magnificência, me prometeu a mercê de vir comigo aonde quer que eu o leve, que não será a outra parte senão a pô-lo diante de Pandafilando da vista fusca, para dar cabo dele, e restituir-me o que tão contra razão me tem usurpado. Tudo isto se há-de realizar tal qual, que assim o deixou prognosticado Tinácrio, o sábio, meu bom pai, o qual também deixou dito em letras caldaicas ou gregas (que eu por mim não as sei ler) que se este cavaleiro da profecia, depois de ter degolado o gigante, quisesse casar comigo, eu me entregasse logo sem réplica alguma por sua legítima esposa, e lhe desse no mesmo ato a posse do meu reino e da minha pessoa. 
— Que te parece, Sancho amigo? — disse a este ponto D. Quixote — não ouves isto? não te dizia eu? vê se temos, ou não temos já reino que governar, e Rainha com quem casar? 
— Isso juro eu — respondeu Sancho; — só algum tolo é que não iria logo cortar o gasnete ao senhor Pandafilando para casar muito depressa com a senhora Princesa. Olha que peste! assim fossem as pulgas da minha cama. 

     Com estas palavras deu dois pinchos no ar em demonstração de gáudio, passou logo a tomar as rédeas à mula de Dorotéia, fazendo-lha parar, lançou-se de joelhos perante ela, suplicando-lhe que lhe desse as mãos para as beijar, em sinal de que a recebia por soberana e senhora sua. Quem haveria ali que pudesse ficar sério diante da loucura do amo e da simpleza do servo?
     Deu-lhe com efeito as mãos Dorotéia, e lhe prometeu fazê-lo grande do seu reino, logo que o céu lhe fosse tão propício, que lhe deixasse recobrar e gozar.
     Agradeceu-lhe Sancho tudo aquilo em termos tais, que em todos renovou a gargalhada.

— Aqui está, meus senhores — prosseguiu Dorotéia — a minha história; só me falta dizer-vos que de toda quanta gente do meu reino trouxe não me ficou vivo senão unicamente este barbadão escudeiro; tudo o mais se afogou num grande temporal que tivemos à vista do porto; ele e eu viemos em duas tábuas a terra como por milagre, que milagre de grande mistério tem sido o decurso de minha vida, como já tereis notado; e se em algum ponto andei sobeja ou curta demais na minha narrativa, queixai-vos do que logo ao princípio da minha fala ponderou o senhor licenciado: que os trabalhos contínuos e extraordinários desarranjam as ideias a quem os padece. 
— Tal me não há-de suceder a mim, alta e valorosa senhora — disse D. Quixote — por maiores trabalhos que eu passe em vos servir. Confirmo pois o que já vos prometi, e juro acompanhar-vos ao cabo do mundo, até me ver com o vosso cruel inimigo, a quem tenciono, com ajuda de Deus e do meu braço, decepar a cabeça soberba com os fios desta... não, quero dizer boa espada, graças a Ginez de Passamonte que me levou a minha. (Isto remordeu-o entre os dentes, e prosseguiu:) Depois de lhe ter decepado, e ter-vos sentado a vós na pacífica posse dos vossos estados, ficará a vosso arbítrio fazer da vossa pessoa o que mais vos apeteça, pois enquanto eu tiver ocupada a memória, cativa a vontade e perdido o entendimento por aquela... e não digo mais, não é possível que eu nem por pensamentos me arroste com a ideia de matrimoniar-me, nem que fosse com a ave Fênix.

     Este encarecimento de não querer casar-se destoou tanto a Sancho, como despropósito, que levantou de agastado a voz, dizendo:

— Juro e rejuro por vida minha que não tem Vossa Mercê, senhor D. Quixote, o juízo inteiro. Pois como é possível pôr Vossa Mercê em dúvida casar-se com tão alta Princesa como esta? pensa que a fortuna lhe há-de oferecer a cada canto uns acertos como este? é porventura mais formosa a minha senhora Dulcinéia? está na tinta; nem para lá caminha; estou até em dizer que nem chega aos calcanhares da que presente se acha. Assim lá se me vai pelos ares o meu Condado, se Vossa Mercê ateima a esperar hortaliça de sequeiro, ou apojadura de cabra velha. Case, case logo, ou que o leve o diabo, e aceite esse reino, que por si se lhe está metendo nas mãos; e, em sendo Rei, faça-me a mim Marquês ou Adiantado; tudo mais que o leve o diabo, se quiser.

     D. Quixote, que tais blasfêmias ouviu proferir contra a sua senhora Dulcinéia, não o pôde levar à paciência; e, levantando a chuça, sem proferir chus nem bus, nem “guarda de baixo”, apresentou duas bordoadas em Sancho, que pregou com ele em terra; e se não fora o começar Dorotéia a gritar que lhe não desse mais, sem dúvida lhe acabaria ali a vida.

— Pensais, vilão ruim — lhe disse passado pouco — que hei-de estar sempre para vos aturar, e que tudo há-de ser tu a despropositares, e eu a perdoar-te? pois não o cuides, maroto excomungado, que o és sem dúvida nenhuma, pois te atreveste a pôr língua na sem par Dulcinéia. Não sabeis vós, mariola, biltre, que, se não fosse pelo valor que ela infunde no meu braço, eu por mim nem matava uma pulga? Dizei-me, socarrão de língua viperina, quem julgais que foi o conquistador deste reino, e o que decepou a cabeça deste gigante, e vos fez a vós Marquês (que tudo isto o dou eu já como feito e processo findo), se não é o valor de Dulcinéia, fazendo de meu braço instrumento de suas façanhas? Ela peleja em mim, e vence em mim; eu vivo e respiro nela; nela tenho vida e ser. Filho da mãe, grande velhaco, como sois desagradecido, que vos vedes levantado do pó da terra, até senhor dum título, e a tão boa obra correspondeis com dizer mal de quem vo-la fez! 

     Não estava Sancho tão mortal, que não ouvisse o que o amo lhe dizia: levantando-se com certa presteza, foi pôr-se por trás do palafrém de Dorotéia, e dali respondeu:

— Diga-me, senhor; se Vossa Mercê está de pedra e cal em não casar com esta grande Princesa, claro está que o reino dela não há-de ser seu; não o sendo, que mercês me pode então fazer? Aqui está de que eu me queixo. Case-se Vossa Mercê aos olhos fechados com esta Rainha que para aí nos choveu do céu, depois, se quiser, pode-se amantilhar com a minha senhora Dulcinéia; Reis amancebados não devem ter faltado neste mundo. Lá nisso da formosura não me intrometo, que, a dizer a verdade, ambas me parecem bem, ainda que eu a senhora Dulcinéia nunca a vi. 
— Como nunca a viste, traidor blasfemo? — vociferou D. Ouixote — pois não acabas agora mesmo de me trazer um recado da sua parte? 
— O que eu digo é — respondeu Sancho — que a não vi tanto à minha vontade, que pudesse afirmar-me bem na sua formosura, ponto por ponto; mas assim no todo e em bruto, como diz o outro, pareceu-me bem. 
— Agora te desculpo; perdoa-me o enfado que te dei, que os primeiros movimentos não estão na mão da gente. 
— Bem sei — respondeu Sancho — e em mim a vontade de falar é sempre o primeiro movimento; o que me vem à boca não posso deixar de o dizer, ao menos uma vez. 
— Com tudo isso, Sancho — disse D. Quixote — repara bem como falas, porque tantas vezes vai o cântaro à fonte... e não te digo mais nada. 
— Pois bem — respondeu Sancho — Deus lá está em cima, e vê as coisas; ele é que sabe quem faz mal, se eu em não falar bem, ou Vossa Mercê em o obrar ao revés. 
— Basta já — disse Dorotéia; — correi, Sancho, e beijai a mão a vosso amo, pedi-lhe perdão, e daqui para diante tende mais tento em vossos louvores e vitupérios e não digais mal dessa senhora Tobosa, a quem eu não conheço senão para a servir, e tende esperança em Deus que não nos há-de faltar um estado em que vivais como um Príncipe.

     Sancho lá foi cabisbaixo pedir a mão ao amo, que a deu com serena gravidade, e deitando-lhe, após o beija-mão, a sua benção. Depois disse-lhe que se desviasse com ele um pouco, porque tinham de tratar coisas de muita importância. Adiantaram-se ambos, e disse o fidalgo:

— Desde que vieste, não tive ainda azo de te perguntar muitas particularidades acerca da embaixada que levaste e das respostas que trouxeste; agora que a fortuna nos depara folga, não me negues o gosto que me podes causar com tão boas novas. 
— Pergunte Vossa Mercê o que lhe parecer — respondeu Sancho; — darei a tudo tão boa saída, como foi boa a entrada que tive. O que lhe peço, senhor meu, é que daqui em diante não seja tão vingativo. 
— Por que dizes isso, Sancho? — perguntou D. Quixote. 
— Digo isto — respondeu ele — porque estas bordoadas agora foram mais pela pendência que entre os dois travou o diabo na outra noite, do que pelo que eu disse contra a minha senhora Dulcinéia, a quem venero e amo como se fora relíquia só em razão dela ser coisa de Vossa Mercê. 
— Não tornes a essas coisas, por vida tua — disse D. Quixote — que me afligem; da outra vez perdoei-o, e bem sabes o que se costuma dizer: “pecado novo, penitência nova”.

     Nisto iam, quando viram pelo seu caminho vir para eles um homem num jumento; aproximando-se mais, deu-lhes ares de cigano. Porém Sancho Pança, que onde quer que via asno se lhe iam trás ele os olhos e a alma, tanto como avistou o homem, conheceu logo ser Ginez de Passamonte; e de ele o ser inferiu logo que a cavalgadura era o seu ruço. Era com efeito o ruço com o Passamonte às costas, o qual, para não ser conhecido e vender o asno, vinha entrajado à cigana; o falar a essa moda sabia ele, e muitas outras línguas, tão bem como a sua própria. Mal que Sancho o reconheceu, começou a grandes vozes:

— Ah! ladrão Ginezilho, larga a minha joia, restitui-me a minha vida, não te deites a perder com o meu alívio, larga o meu burro, larga o meu consolo, põe-te a pé, sevandija, retira-te, ladrão, e deixa o que te não pertence! 

     Nem tantas palavras e injúrias eram necessárias; logo à primeira saltou Ginez, e tomando um trote que mais parecia carreira, num momento desapareceu. Saltou Sancho aos abraços ao animal, dizendo:

— Como tens passado, meu bem, menina dos meus olhos, meu ruço, meu companheiro fiel?

     Beijava-o e acariciava-o como se fora gente. O asno deixava-se beijar e acarinhar, sem responder meia palavra. Aproximaram-se todos, dando ao pobre homem os parabéns de ter achado o seu ruço, especialmente D. Quixote. Este disse-lhe que nem por isso anulava a ordem dos três burricos, o que Sancho muito agradeceu.
     Enquanto os dois iam adiante nestas conversas, disse o cura a Dorotéia que tinha andado com grande tino, tanto na invenção do conto, como na brevidade dele, e na semelhança que teve com os dos livros de cavalaria. Ao que ela respondeu que muitas horas se havia entretido a lê-los; o que não sabia bem era onde ficavam as províncias e portos de mar; por isso tinha dito à toa que havia desembarcado em Ossuna.

— Bem percebi — volveu o cura — e por isso acudi logo a deitar aquele remendo; com o que tudo ficou uma maravilha. Mas não acha extraordinária a facilidade com que este desventurado fidalgo acredita em toda aquela mentirada, só por se conformar no estilo e jeito com as tolices dos seus alfarrábios? 
— É verdade — disse Cardênio — e tão rara, se não única, que eu por mim não sei se, querendo inventá-la, teria talento para tanto. 
— Ora coisa tem ele — disse o cura — que não admira menos: para fora das necedades, que nunca se lhe acabam no tocante à sua mania, se lhe falam noutras matérias discorre perfeitamente, e mostra uma razão clara, que dá gosto. Não lhe falem em cavalarias, que ninguém o terá senão por homem de boa cabeça. 

     Enquanto iam nestas práticas, continuava também D. Quixote na sua com Sancho, dizendo:

— Palavras e penas, Sancho amigo, o vento as leva. Conta-me agora tu, sem medo a enfadamentos meus nem a rigor algum, onde, como, e quando achaste Dulcinéia, que estava ela fazendo, que lhe disseste, que te respondeu, com que cara leu a minha carta, quem a copiou, e tudo o mais que vires neste caso ser digno de saber-se, sem acrescentares nem mentires nada para me dares gosto, nem encurtares para comprazer-me. 
— Pois, senhor — respondeu Sancho — verdade, verdade, a carta ninguém me copiou, porque eu tal carta não levei. 
— É certo — acudiu D. Quixote — porque o livro de lembranças, em que eu a escrevi, cá o achei em meu poder dois dias depois da tua partida, o que me fez grandíssima pena, lembrando-me como não ficarias às aranhas quando te visses sem ela; sempre esperei que tomasses atrás logo que desses pela falta. 
— Fazia-o decerto — respondeu Sancho — se não tivesse a carta de memória, de quando Vossa Mercê me leu; de maneira que a disse a um sacristão, que me trasladou do entendimento tão pontualmente, que disse que em todos os dias da sua vida (ainda que tinha lido muitas cartas de descomunhão) nunca tinha lido uma lindeza como aquela. 
— E ainda a tens de cor, Sancho? — perguntou D. Quixote. 
— Não senhor — respondeu Sancho — porque, depois que a entreguei, como vi que já não prestava para mais nada, dei em me esquecer dela; e, se alguma coisa ainda me lembra, é só aquele começo da Soterrana, digo da Soberana senhora, e o final: Vosso até à morte, o Cavaleiro da Triste Figura, e, entre estas duas coisas do princípio e do fim, embuti-lhe mais de trezentas vezes: minha alma, minha vida, e olhos meus.

 continua na página 186...
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__________________

D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho
Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
eBooksBrasil.com 
Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com

domingo, 20 de outubro de 2024

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXIX(b): Que trata do gracioso artifício e ordem

D. Quixote de la Mancha

Miguel de Cervantes

Vol 1

O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 
Miguel de Cervantes


PRIMEIRA PARTE

LIVRO QUARTO

CAPÍTULO XXIX

Que trata do gracioso artifício e ordem que se teve em tirar o nosso amorado cavaleiro da muito áspera penitência em que se havia posto.


continuando...


     E, tornando-se à donzela, continuou:

— Levante-se a vossa grande formosura, que eu já daqui lhe concedo o que lhe aprouver pedir-me.

 — O que peço é — disse a donzela — que a vossa magnânima pessoa venha logo comigo onde eu o levar, e me prometa não se intrometer em outra aventura nem requesta alguma antes de me dar vingança dum traidor que, contra todo o direito divino e humano, me tem usurpado o reino que era meu.

 — Outorgado — respondeu D. Quixote — e assim podeis, senhora, perder de hoje para sempre a melancolia que vos fatiga, e fazer que a vossa esmorecida esperança recobre novos brios e força, que com a ajuda de Deus, e a do meu braço, cedo vos vereis restituída ao vosso reino, e sentada no trono do vosso vasto e antigo estado, apesar e despeito de quantos velhacos vos pretenderem empecer; e mãos à obra, que bem se diz que no tardar costuma estar o perigo.

      A necessitada donzela forcejou quanto pôde por lhe beijar as mãos; mas D. Quixote, que em tudo era comedido e cortês cavaleiro, de sorte nenhuma o consentiu, antes a fez levantar, e abraçou com muita cortesia e acatamento, e ordenou a Sancho que aparelhasse Rocinante, e o armasse logo num repente.
     Sancho despendurou as armas, que se achavam como troféu, pendentes duma árvore, e, encilhando o cavalo, num volver de olhos pôs o amo prestes. Este, vendo-se pronto, disse:

— Vamo-nos daqui em nome de Deus a favorecer esta grande senhora.

      De joelhos estava ainda o barbeiro, tendo grande conta em disfarçar o riso e em que lhe não caísse a barba, que se lhe cai talvez se lhe malograsse tudo; mas, vendo já conseguido o seguro e bom despacho, e a diligência de D. Quixote para o ir pôr em obra, levantou-se, tomou a mão da sua senhora, e, ajudado do cavaleiro, a subiu para a mula. D. Quixote montou logo no Rocinante, o barbeiro na sua cavalgadura, ficando Sancho a pé, renovando-se-lhe as saudades do seu ruço, pela falta que lhe fazia. Entretanto levava tudo com gosto, por lhe parecer que o amo estava em caminho, e muito em vésperas de ser Imperador, porque já dava por infalível que breve o veria matrimoniado com aquela Princesa, e, pelo menos, Rei de Micomicão. O que só lhe pesava era pensar que o reino de Micomicão era em terra de negros, e que os seus vassalos haviam de ser todos pretaria. Para isso imaginou logo um bom remédio, e disse com os seus botões:

 — Que se me dá a mim que os meus vassalos sejam pretos? não há mais que embarcá-los, trazê-los a Espanha, e vendê-los com paga à vista; com esse dinheiro posso comprar algum título ou algum ofício para passar descansado o resto da vida. A gente não há de ser tola; e para conveniência própria não pode ser proibido vender trinta ou dez mil vassalos sem mais nem menos, e enquanto o diabo esfrega um olho. Voto a Deus que os hei de encampar todos à rasa, pequenos e grandes, ou o melhor que eu puder, e, por mais pretos que sejam, os saberei transformar em brancos ou amarelos. Venham eles, e verão como os avio.

     Com isto andava tão ativo e contente, que nem já lhe lembrava que ia a pé.
     Tudo aquilo observavam dentre as sombras dumas moitas Cardênio e o cura, e não sabiam que fazer para se agregarem ao rancho. Porém o cura, que as armava no ar, ideou logo expediente. Com uma tesoura, que trazia num estojo, cortou as barbas a Cardênio, emprestou-lhe o seu capotinho pardo e um ferragoulo preto, ficando ele em calças e gibão; com o que tão transfigurado saiu o nosso Cardênio, que nem vendo-se a um espelho se reconheceria.
     Concluído este preparo, tendo os outros passado já para diante enquanto eles se disfarçavam, com facilidade saíram primeiro que eles à estrada real, porque o mau piso e as agruras daqueles lugares não deixavam apressar-se tanto os cavaleiros como os peões.
     De feito estes últimos chegaram à planície no sopé da serra, por modo que, ao sair dela D. Quixote e os seus companheiros, o cura se pôs a encarar nele muito atento, dando sinais de que o estava reconhecendo, e, depois de estar assim irresoluto por um bom espaço, correu para ele de braços abertos, dizendo a brados:

 — Bem aparecido seja o espelho da cavalaria, o meu bom compatriota D. Quixote de la Mancha, a flor e a nata da gentileza, o amparo e remédio dos necessitados, a quinta essência dos cavaleiros andantes!

     E, dizendo isto, o abraçava pelo joelho esquerdo.
     D. Quixote, espantado do que via e ouvia àquele homem, encarou nele com atenção, conheceu-o enfim, e ficou a modo maravilhado do encontro, fazendo grande diligência por se apear. Não lho consentiu o cura. D. Quixote teimava, dizendo:

 — Deixe-me Vossa Mercê, senhor licenciado, que não é justo estar eu a cavalo, e uma tão reverenda pessoa como Vossa Mercê a pé.

 — Não consinto de modo algum — disse o cura; — esteja Vossa Grandeza a cavalo, pois a cavalo é que ultima as maiores façanhas e aventuras que nesta idade se têm visto, que a mim, posto que indigno sacerdote, bastar-me-á montar na anca duma destas mulas destes senhores, que vêm na companhia de Vossa Mercê, se não me levam a mal; até farei de conta que vou encavalgando no Pégaso, ou sobre a zebra ou alfana em que montava aquele famoso mouro Musaraque, que ainda até hoje jaz encantado na grande costa Zulema, pouco distante da grande Compluto.

 — Lembra bem, senhor licenciado, e nem tal coisa me ocorria — respondeu D. Quixote; — mas eu sei que a minha senhora Princesa será servida, por amor de mim, mandar ao seu escudeiro que ceda a Vossa Mercê a sela da sua mula; e ele lá arranjará nas ancas, se ela as dá.

 — Dá, dá, penso que sim — disse a Princesa — e penso também que não é preciso mandar eu tal ao senhor meu escudeiro, que ele é tão polido e cortesão, que não há de consentir que uma pessoa eclesiástica vá a pé podendo ir a cavalo.

 — Assim é — respondeu o barbeiro.

     E, apeando-se logo, ofereceu ao cura a sela, que ele aceitou sem se fazer muito rogado. O mau foi que ao subir o barbeiro para as ancas, a mula, que era de alquiler (para encarecer que era má não é preciso mais), alçou um pouco os quartos traseiros, e deu dois coices no ar, que a dá-los no peito do mestre Nicolau, ou na cabeça, ao diabo dera ele o ter saído de sua casa por via de D. Quixote. Tão forte lhe foi contudo o sobressalto, que se estatelou no chão com tão pouco cuidado nas barbas, que lhe caíram. Vendo-se sem elas, não teve outro remédio senão acudir a tapar o rosto com as mãos ambas, e a vozear que lhe tinham deitado fora os queixais.
      D. Quixote, reparando naquele molho de barbas sem a respectiva queixada e sem sangue, desquitadas do rosto do dono caído, disse:

 — À fé que temos milagre de marca maior! barbas tiradas como por mão!

     O cura, que viu a sua invenção em perigo de ser descoberta, agarrou nas barbas, e as trouxe ao mestre, que estava ainda aos gritos; e, tomando-lhe de repente a cabeça, e encostando-a ao peito, lhe repôs, murmurando-lhe em cima umas palavras, que disse serem de virtude para pegar barbas, como se ia ver. Logo que teve a operação finda, apartou-se, deixando o escudeiro tão bem barbado e tão são como dantes: do que D. Quixote sobremaneira se admirou, e pediu ao cura que em tendo lugar lhe ensinasse aquele curativo, porque provavelmente não havia de servir só para pegar barbas. A razão era clara: donde as barbas se arrancavam havia de ficar a carne numa lástima, e que tendo ficado ali tudo são, é porque o remédio sarava tudo.

— E sara — disse o cura — e prometo ensinar-lhe na primeira ocasião.

      Combinaram em que por então montasse o padre, e que dali até à venda se fossem os três revezando; era caminho de duas léguas.
     Postos os três a cavalo, a saber D. Quixote, a Princesa e o cura, seguindo os três a pé, Cardênio, o barbeiro, e Sancho Pança, disse D. Quixote para a donzela:

 — Vossa Grandeza, senhora minha, que nos encaminhe por onde mais lhe apetecer.

     Adiantou-se com a resposta o licenciado, dizendo:

— Para que reino quer Vossa Senhoria que tomemos? será para o de Micomicão? é natural que sim, ou pouco sei de reinos.

     Ela, que estava por tudo, respondeu:

 — Sim, senhor; para esse reino é que é o meu caminho.

 — Portanto — disse o cura — temos de passar por dentro do meu povo, e dali tomará Vossa Mercê a derrota de Cartagena, onde com favor de Deus se poderá embarcar. Se o vento for de feição, o mar sossegado e sem temporais, em pouco menos de nove anos se poderá estar à vista da grande lagoa Meona, digo Meotides, que fica um pouco mais de cem jornadas para cá do reino de Vossa Grandeza.

 — Vossa Mercê está enganado, senhor meu — disse ela — porque não há dois anos que eu de lá parti; e em verdade que nunca tive bom tempo, e contudo isso já cheguei a ver quem tanto desejava, que é o senhor D. Quixote de la Mancha, cujas novas me encheram os ouvidos logo que pus pés em Espanha; e foram elas as que me decidiram a procurá-lo para me encomendar à sua cortesia, e fiar a minha justiça do valor do seu invencível braço.

 — Basta de louvores — disse D. Quixote; sou inimigo de todo o gênero de adulações; e ainda que esta agora o não seja, sempre ofendem os meus ouvidos semelhantes práticas. O que eu sei dizer vos, senhora minha, é que, tenha eu valor ou não, o que tiver, ou não tiver, todo o hei de empregar em vosso serviço até perder a vida; e assim, deixando isso para seu tempo, rogo ao senhor licenciado me diga: que o obrigou a vir a estas terras, tão só, sem criados, e tanto à ligeira, que me causa admiração?

 — Em poucas palavras o satisfarei a Vossa Mercê — respondeu o cura. — Eu e o mestre Nicolau, nosso amigo e nosso barbeiro, íamos a Sevilha, a cobrarmos certo dinheiro remetido por um parente meu, que se passou às Índias há já anos (e não tão pouco que não excedesse de mil pesos e tocadinhos, que vale o dobro). Passando ontem por estes lugares, saíram-nos ao encontro quatro salteadores e nos tiraram até as barbas. Foi tanto, que até o barbeiro não teve remédio senão pôr umas postiças; e até a este mancebo que vem conosco (apontando Cardênio) o puseram como se nunca as tivesse tido. O bonito é que por todos estes contornos é fama pública serem os tais ladrões uns forçados das galés, que, segundo se diz, foram libertados quase neste mesmo sítio por um homem tão valente, que a despeito do comissário e dos guardas os soltou a todos. Não há dúvida que era doido, ou então tão patife como eles, homem sem alma nem consciência. Pois aquilo não foi soltar o lobo entre as ovelhas? a raposa entre as galinhas? a mosca no mel? Quis defraudar a justiça, ir contra o seu Rei e Senhor natural, pois foi contra os seus justos preceitos. Quis tirar às galés os pés com que elas andam, pôr em reboliço a Santa Irmandade, que havia muitos anos estava em descanso; quis, finalmente, consumar um feito, por onde a sua alma se perde, e o corpo se lhe não ganha.

      Sancho é que tinha contado ao cura e ao barbeiro a aventura dos galeotes, que o amo levara a cabo com tanta glória; e por isso o cura ao recontá-la lhe carregava tanto a mão, para ver o que faria ou diria D. Quixote, a quem, a cada palavra, se mudavam as cores, sem se atrever a dizer que fora ele próprio o libertador daquela boa gente.

 — Ora aqui tem Vossa Mercê quem nos roubou — disse o cura. — Deus por sua misericórdia não tome contas a quem os não deixou levar o devido castigo.

 continua na página 180...
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__________________

D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho
Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
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Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXIX(a): Que trata do gracioso artifício e ordem

D. Quixote de la Mancha

Miguel de Cervantes

Vol 1

O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 
Miguel de Cervantes


PRIMEIRA PARTE

LIVRO QUARTO

CAPÍTULO XXIX

Que trata do gracioso artifício e ordem que se teve em tirar o nosso amorado cavaleiro da muito áspera penitência em que se havia posto.



    — Esta é, senhores, a verdadeira história da minha tragédia. Julgai agora se os suspiros e palavras que ouvistes e as minhas lágrimas, não eram ainda menos do que deveram. Pesando bem a minha desgraça, reconhecereis que por demais vos fora o tentar-lhe consolações; é mal já agora sem remédio. O que só vos peço, e com facilidade me podereis fazer, é aconselhardes-me onde poderei passar a vida, antes que de mim dê cabo o temor de ser achada pelos que me andam procurando. Eu sei, verdade seja, que o muito amor que meus pais me têm me afiançava da sua parte muito bom acolhimento; mas tamanha é a vergonha que de mim se apossa, ao pensar que lhes hei-de aparecer tão diferente do que eles esperavam, que por melhor tenho desterrar-me para sempre da sua vista, que torná-los a ver, lembrando-me que eles ao encarar-me estão sofrendo no interior pensamentos tão alheios da honestidade que de minha parte deviam esperar.

      Calou-se aqui, e se lhe cobriu o rosto de uma cor, que bem claramente mostrava o sentimento e quebranto do seu ânimo. Tanta lástima excitou nos ouvintes, como admiração por tão porfiosa desgraça.
     O cura quis logo tentar-lhe consolações e conselhos, mas antecipou-se-lhe Cardênio, dizendo:

 — Com que, senhora, sois então vós a formosa Dorotéia, a filha única do rico Clenardo?

      Admirada ficou Dorotéia quando ouviu o nome de seu pai, e reparou no somenos que era quem lho proferia (já está sabido o maltrapilho que ele andava) e disse-lhe:

 — E vós quem sois, irmão, que assim sabeis o nome de meu pai? porque eu até agora, se bem me lembro, nunca na minha narrativa o nomeei.

 — Sou — respondeu Cardênio — aquele sem ventura, que, segundo vós, senhora, aí dissestes, Lucinda declarou ser seu esposo; sou o desditado Cardênio, a quem a perfídia do mesmo de quem também sois vítima reduziu a este estado que vedes, roto, nu, falto de todo o conforto humano, e, o que é ainda pior, falto do juízo, pois só o tenho quando nalguns breves intervalos o céu se lembra de mo emprestar. Sou, sou eu, Dorotéia, aquele que se achou presente às infâmias de D. Fernando, e se deteve aguardando o sim de Lucinda; sou o que não teve ânimo para esperar o desfecho do desmaio dela e aguardar o que resultaria do papel que lhe acharam no seio. Faltou-me valor para tanto padecimento junto; fugi da casa descorçoado, deixei a um hospedeiro meu uma carta a Lucinda para lhe ser entregue, e corri para estas soledades determinado em acabar nelas a existência, que desde aquele instante fiquei aborrecendo como inimiga mortal. Não aprouve porem à sorte livrar-me dela; contentou-se com tirar-me o juízo; foi talvez a sua ideia que eu sobrevivesse para a boa ventura que hoje tive em dar convosco, pois, sendo verdade, como acredito, o que nos haveis contado, ainda não era impossível, que a ambos nós nos reservasse Deus melhor êxito nos nossos desastres, do que nós supomos; porquanto, não podendo Lucinda casar com D. Fernando por ser minha, nem D. Fernando com ela por ser vosso, tendo ela manifestado tão solenemente a verdade, bem podemos esperar que a Providência nos restitua ainda o que nos pertence por direito incontroverso. Uma vez que temos esta luz no futuro, e esta esperança não remota, nem fundada em quimeras, suplico-vos, senhora, que mais acertadamente se encaminhem os vossos honrados pensamentos; outro tanto farei eu da minha parte; sujeito-me a esperar por melhor fortuna. À fé de cavaleiro e cristão vos juro não vos desamparar enquanto vos não veja em poder de D. Fernando; juro mais, que, se com razões o não puder trazer ao conhecimento do que vos deve, usarei então da licença que me dá o ser cavalheiro, e poder com justo motivo desafiá-lo pela sem-razão que vos faz, sem me lembrar então dos meus agravos particulares, cuja vingança deixarei por conta do céu; na terra só os vossos me importam.

     Com o que a Cardênio ouviu, acabou Dorotéia de se maravilhar, e por não atinar com agradecer tamanhos oferecimentos, quis beijar-lhe os pés, no que ele não consentiu.
     Respondeu entre ambos o licenciado, e aprovou a boa resolução de Cardênio; sobretudo lhes rogou, aconselhou, e persuadiu que se fossem com ele à sua aldeia, onde se poderiam refazer de todo o necessário, e depois se entenderia no procurar a D. Fernando, ou no levar-se Dorotéia a seus pais, ou no que mais conveniente parecesse. Agradeceram-lhe Cardênio e Dorotéia, e lhe aceitaram o prometido favor.
     O barbeiro, que a tudo tinha estado suspenso e silencioso, fez também a sua boa prática, e se ofereceu, com tão boa vontade como o cura, para tudo em que os pudesse servir. Contou em breves termos a causa que os ali trouxera, e bem assim a estranha loucura de D. Quixote, acrescentando que estavam esperando pelo escudeiro, que tinha ido à sua procura.
     Deslizou na memória a Cardênio, como por sonhos, a pendência que entre ele e D. Quixote houvera, e contou-a aos circunstantes; mas o que não atinou a explicar foi o peguilho da desavença.
      Nisto ouviram vozes, e conheceram serem de Sancho Pança, o qual, por não ter achado o cura e o barbeiro onde os deixara, vinha dando aqueles apupos de chamamento. Saíram-lhe ao encontro; e, perguntando-lhe por D. Quixote, Sancho lhes disse como o encontrara em fralda de camisa, fraco, amarelo, morto de fome e suspirando pela sua senhora Dulcinéia; e, apesar dele Sancho ter dito que lhe mandava ela que saísse donde estava, e se fosse a Toboso, onde ela o ficava esperando, a sua resposta fora que estava firme em não aparecer perante a sua formosura, sem primeiro ter feito façanhas que o tornassem merecedor da sua graça; que, se tal cisma fosse por diante, corria perigo de não chegar a Imperador, como estava obrigado, nem sequer a Arcebispo, que era o menos que poderia ser; e portanto vissem o que se podia fazer para o desencovarem dali.
      Respondeu-lhe o licenciado que se não afligisse, que eles, bom ou mau grado, o fariam sair. Contou logo a Cardênio e a Dorotéia o que haviam ideado para remédio de D. Quixote, pelo menos para o restituírem a sua casa.
      Dorotéia acudiu logo, dizendo que ela representaria a donzela necessitada melhor que o barbeiro, até porque tinha ali vestidos para fazer esse papel mui ao natural, e deixassem por sua conta o representar a contento tudo que fosse preciso para se levar avante o empenho, pois ela era muito lida em livros de cavalarias, e sabia perfeitamente o falar das donzelas penadas, quando suplicavam dons aos andantes cavaleiros.

 — Belo! nada mais é preciso — disse o cura; — é pormos já isso em obra. Não há dúvida, tenho por mim a sorte, pois, quando menos o pensávamos, se vos começa a abrir caminho para vosso remédio, meus senhores, e a nós também para se efetuar o nosso empenho.

      Dorotéia tirou logo da trouxa uma saia inteira de telilha rica, e uma mantilha de outra vistosa fazenda verde; e de um cofrezinho um colar e outras joias; com o que repentinamente se adornou, por modo que não parecia senão uma grande e opulenta dama. Disse que tudo aquilo tinha ela trazido de sua casa para o que desse e viesse, e que nunca até ali se lhe tinha oferecido necessidade de o empregar.
      A todos encantou a sua muita graça, donaire e gentileza, inteirados unanimemente da falta de gosto de D. Fernando, que tantos primores desprezava; mas quem mais se admirou foi Sancho Pança, por lhe parecer (o que era verdade), que nunca em dias de vida tinha visto perfeição igual, e perguntou ao cura quem vinha a ser aquela tão garbosa senhora, e que andaria ela buscando por aqueles andurriais.

 — Esta formosa senhora — respondeu o cura — é, Sancho irmão, sem tirar nem pôr, a herdeira por linha reta de varão do grande reino de Micomicão, a qual vem à procura de vosso amo para lhe pedir um dom, que vem a ser: desfazer-lhe um torto e agravo que um malvado gigante lhe fez; e, em consequência da fama de bom cavaleiro que vosso amo já ganhou por todo o mundo, veio de Guiné com o empenho de o achar.

 — Ditosa busca e ditoso achado! — exclamou Sancho Pança — principalmente se meu amo houver a boa sorte de desfazer esse tal agravo e endireitar esse torto, matando o excomungado gigante que Vossa Mercê diz, que à fé que o há-de matar, se o encontra, salvo se for fantasma, que lá contra fantasmas não tem meu amo poder algum. Mas uma coisa, além de outras, quero eu agora suplicar a Vossa Mercê, senhor licenciado; e vem a ser que empregue quantos meios puder para que a meu amo se não encaixe na cabeça o ser Arcebispo, que é de que eu tenho medo, e por isso lhe aconselhe casar-se logo com esta Princesa; assim fica impossibilitado de receber ordens arcebispais, e com facilidade chegará a Imperador e eu ao cabo do meu empenho. Já tenho meditado isto com a devida atenção, e cá pelas minhas contas não me convém que meu amo seja Arcebispo, porque eu para a Igreja não sirvo; sou casado; e andar agora a diligenciar dispensas para poder receber rendas eclesiásticas, tendo, como tenho, mulher e filhos, seria um nunca acabar; e portanto, senhor, o fino é que meu amo se receba o mais depressa que se possa com esta senhora, da qual por ora não sei a sua graça, pelo que a não chamo pelo seu nome.

 — Chama-se — respondeu o cura — a Princesa Micomicadela, porque, chamando-se o seu reino Micomicão, claro está que ela se deve chamar assim.

 — Está visto — respondeu Sancho — de muitos sei eu, que têm tomado o apelido e alcunha do lugar onde nasceram; por exemplo: Pedro de Alcalá, João de Ubeda e Diogo de Valhadolid; também se deve usar lá em Guiné as Rainhas tomarem o nome dos seus reinos.

 — Por força — disse o cura — e enquanto ao casar-se o vosso amo, eu farei tudo que puder.

      Do que Sancho ficou tão contente, como o cura pasmado da simpleza dele, e de ver como tinha embutidos nos cascos não menores despautérios que o patrão, pois nenhuma dúvida punha em que viria a ser Imperador.
      Já Dorotéia estava sentada na mula do cura, o barbeiro com a barba de rabo de boi; e disseram a Sancho que os encaminhasse para onde seu amo se achava, recomendando-lhe que não deixasse conhecer a D. Quixote nem o licenciado nem o barbeiro, porque em os não conhecer ele é que estava o busílis de vir o fidalgo a ser Imperador.
      Nem o cura nem Cardênio quiseram acompanhar o rancho, para que D. Quixote se não recordasse das testilhas que tivera com o desvairado moço; a presença do cura também não era necessária. Deixaram pois ir adiante as principais figuras, e os dois foram seguindo a pé e com o seu vagar.
      Ao apartarem-se ali, recordando o cura a Dorotéia o que havia de fazer, respondeu-lhe ela que disso perdesse todo o cuidado, que tudo faria, ponto por ponto, como o pediam e pintavam os livros de cavalaria.
      Três quartos de légua teriam andado, quando descobriram a D. Quixote entre umas intrincadas penhas, já vestido, mas ainda não armado. Assim que Dorotéia o avistou, e soube de Sancho ser o próprio, fustigou com o chicote o seu palafrém, seguindo-a o bem barbado barbeiro. Ao chegarem ao pé, atirou-se o improvisado escudeiro abaixo da mula, e foi para tomar nos braços a Dorotéia, a qual, apeando-se com grande desembaraço, se foi lançar de joelhos às plantas de D. Quixote. Forcejava ele para erguê-la; ela porém, sem consentir em levantar-se, lhe falou desta maneira:

 — Não me levantarei daqui, ó valoroso cavaleiro, até que a vossa cortesia me não tenha outorgado um dom, que redundará em crédito de vossa pessoa, e em proveito da mais desconsolada donzela que o sol nunca viu. Se o valor do vosso forte braço se iguala à vossa imortal fama, obrigação vos corre de favorecer à sem ventura, que de tão longes terras vem, ao cheiro do vosso famoso nome, buscar-vos para reparo das suas desditas.

 — Não vos responderei palavra, formosa senhora — replicou D. Quixote — nem ouvirei mais nada da vossa pretensão, sem que primeiro vos levanteis.

 — Não me levantarei, senhor — respondeu a afligida donzela — antes que a vossa cortesia me outorgue o favor pedido.

 — Eu vo-lo outorgo e concedo — respondeu D. Quixote — contanto que se não haja de cumprir em detrimento e ofensa do meu Rei, da minha pátria, e daquela que do meu coração e liberdade tem as chaves.

 — Não será em prejuízo dos que dizeis, meu bom senhor — replicou a dolorida donzela.

     Quando nisto iam, chegou-se Sancho ao ouvido de seu amo, e lhe disse em voz sumida:

 — Bem pode Vossa Mercê, senhor meu, conceder-lhe o favor que ela pede, que é uma coisita de nonada; é só matar a um mandrião dum gigante; e a que lhe pede é a alta Princesa Micomicadela, Rainha do grande reino Micomicão da Etiópia.

 — Seja quem for — respondeu D. Quixote — cumprirei o que sou obrigado e o que me dita a consciência, segundo o que professado tenho.

continua na página 176...
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D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho
Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
eBooksBrasil.com 
Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com