terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - Os amigos do ABC / IV — A sala interior do café Musain

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quarto — Os amigos do ABC

     IV — A sala interior do café Musain

             Uma das conferências destes rapazes às quais Mário assistia, e nas quais às vezes tomava parte, foi um verdadeiro abalo para o seu espírito.
     Passava-se isto na sala interior do Café Musain, onde nessa noite se achavam reunidos quase todos os amigos do A B C. O candeeiro estava solenemente aceso. Falava-se sobre diversos assuntos, sem exaltação, mas com ruído.
     Exceto Enjolras e Mário, que se conservavam silenciosos, cada qual discorria sobre o que lhe vinha à cabeça.
     As conversas entre amigos têm às vezes destes tumultos pacíficos. Tanto podia ser uma brincadeira e uma mistura informe como uma conversação. Propunham questões, conversavam em grupos formados aos cantos da sala, na qual não era admitida mulher nenhuma, exceto Luisinha, criada do botequim, que a atravessava de vez em quando para ir da cozinha para a sala do café ou desta para a cozinha.
     Grantaire, completamente embriagado, atordoava os ouvidos dos que o rodeavam, num dos cantos, discorrendo em voz atroadora e gritando: 

— Tenho sede. Mortais, eis o meu desejo: que o tonel de Heidelberg tenha um ataque apopléctico e que eu seja uma das doze sanguessugas que lhe mandarem aplicar. Eu queria beber, porque desejo esquecer a vida. A vida é uma hedionda invenção de não sei quem. Uma coisa que não dura nada e nada vale; e matamo-nos para viver. A vida é uma armação quase a vir abaixo. A felicidade, um painel pintado só de um lado. O Eclesiastes diz que tudo é vaidade, e eu penso como este pobre homem, que de certo nunca existiu. Zero vestiu-se de vaidade, porque não queria andar nu. Ó vaidade, que tudo encobres com os teus palavrões! Uma cozinha é um laboratório, um dançarino é um professor, um saltimbanco é um ginasta, um jogador de soco é um pugilista, um boticário é um químico, um cabeleireiro é um artista, um pedreiro é um arquiteto, um jockey é um desportista, um bicho de conta é um pterygiramo. A vaidade tem avesso e direito; o direito é estúpido, é o preto coberto de avelórios; o avesso é tolo. é o filósofo coberto de farrapos. Lamento um e rio-me do outro. As chamadas honras e dignidades, e mesmo a honra e a dignidade, são geralmente coisas que nada valem. Os reis fazem um joguete do orgulho humano. Calígula fazia cônsul o seu cavalo; Carlos II armava cavaleiro um lombo de vaca. Ora imaginai-vos entre o cônsul Esporeado e o barão Bife. Quanto ao valor intrínseco dos indivíduos, não vejo que seja mais digno de respeito. Escutai o panegírico que o vizinho faz do vizinho. Branco sobre branco é feroz; se a açucena falasse, o que ela não diria da pomba! Uma beata murmurando de outra é mais venenosa que o áspide ou a serpente azul. É pena que eu seja um ignorante, senão citava-lhes uma imensidade de coisas; mas é que eu não sei nada. Ora aí está; eu fui sempre um rapaz de talento; quando frequentava a aula de Gros, em vez de garatujar figurinhas, passava o tempo a bifar maçãs. Rapim[1] é o macho de rapina. Isto pelo que me diz respeito; quanto a vocês, não me ficam a dever nada. A respeito das vossas perfeições, excelências e qualidades, estou eu de pedra e cal.
     Todas as virtudes ficam paredes meias com um vício, o económico parte com o avarento, o generoso confina com o pródigo, o valente com o valentão; quem diz: muito piedoso, diz: algum tanto carola; há tantos vícios na virtude, como de buracos na capa de Diógenes. Qual admirais vós: o assassinado ou o assassino? César ou Bruto? A opinião geral pronuncia-se pelo assassino. Viva Bruto, que foi um assassino. Isto é que é virtude. Virtude? Seja, mas loucura também. Nesses grandes homens há sempre destas manchas estranhas. O Bruto que matou César estava enamorado de uma estátua de menino. Era feita pelo estatuário grego Strongylion, o qual também tinha cinzelado essa figura de amazona chamada Linda-Perna. Eucnemos, que Nero trazia consigo nas suas viagens. Este Strongylion apenas deixou duas estátuas, que puseram de acordo entre si, Bruto e Nero; Bruto apaixonou-se de uma, Nero de outra. A história não passa de uma longa repetição. Cada século não faz mais do que copiar o outro que o precedeu. A batalha de Marengo é a cópia da batalha de Pydna; o Tolbiac de Clóvis e o Austerlitz de Napoleão parecem-se como duas gotas de sangue. Eu pouco caso faço da vitória, porque não há coisa mais estúpida do que vencer; a verdadeira glória é convencer. Mas tentai lá vós provar alguma coisa! Contentai-vos com o triunfo, que mediocridade! Com a conquista, forte miséria! Ai, em tudo vaidade e cobardia! Não há nada que não obedeça ao triunfo, até a gramática. Si volet usos, diz Horácio. Portanto, desprezo o género humano. Agora quereis que desça de todo às parcelas? Quereis que me ponha a admirar os povos? Que povo, fazem favor de me dizer? A Grécia? Os atenienses, esses parisienses de outro tempo, matavam Phocionr que vale o mesmo que dizer Coligny, e adulavam os tiranos a ponto de Anacephoro dizer de Pisistrato: «A urina dele atrai as abelhas». O homem mais considerado da Grécia, durante cinquenta anos, foi o gramático Philetas, o qual era tão baixo e tão magro, que se via na necessidade de andar de sapatos chumbados para não ser arrebatado pelo vento. Na praça principal de Corinto havia uma estátua cinzelada por Silanion e catalogada por Plínio, a qual representava Episthato. Que fez Episthato? Inventou o gambito. Isto resume a Grécia e a glória. Passemos a outra. Admirarei a Inglaterra? Admirarei a França? A França, porquê? Por causa de Paris? Acabo de lhes dizer a minha opinião a respeito de Atenas. A Inglaterra, porquê? Por causa de Londres? Tenho ódio a Cartago. Quanto mais, Londres, metrópole do luxo, é a capital da miséria. Só na paróquia de Charing-Cross morrem anualmente de fome cem pessoas. Aí está Albion. Para cúmulo de tudo acrescentarei que já vi dançar uma inglesa com uma grinalda de rosas na cabeça e com óculos azuis. Portanto, a respeito de Inglaterra temos falado. Se não admiro John Buli, admirarei Jonathan? Gosto pouco deste irmão com escravos. Tirai à Inglaterra me is money, que lhe fica? Tirai à América co on is king, que lhe fica? A Alemanha é a linfa, a Itália a bílis. Quereis que nos extasiemos diante da Rússia? Voltaire admirava-a, mas também admirava a China. Concordo em que a Rússia tem suas belezas, entre outras um grande despotismo, mas eu lamento os déspotas. Têm uma saúde muito melindrosa. Um Aleixo decapitado, um Pedro apunhalado, um Paulo estrangulado, outro Paulo calcado aos pés, diversos Ivãs degolados, muitos Nicolaus e Basílios envenenados, tudo isto indica que o palácio dos imperadores da Rússia está em flagrantes condições de insalubridade. Todos os povos civilizados oferecem à admiração do filósofo esta circunstância: a guerra. Ora a guerra, a guerra civilizada, resume em si todas as formas da depredação, desde os assaltos dos trabuqueiros nos desfiladeiros do monte Jaxa até aos latrocínios dos índios Comanches no Cabo Duvidoso. Ora, dir-me-ão vocês, a Europa sempre vale mais do que a Ásia! Concordo em que a Ásia é farsista, mas não vejo razão para que escarneçais do Grão Lama, vós, povos do ocidente que entremeastes as vossas modas e elegâncias de todas as imundícies disfarçadas em majestades, desde a camisa suja da rainha Isabel até à cadeira furada do delfim. Senhora humanidade, sabem o que lhes digo? Em Bruxelas é onde se consome mais cerveja, em Estocolmo mais aguardente, em Madrid mais chocolate, em Amsterdam mais genebra, em Londres mais vinho, em Constantinopla mais café, em Paris mais absinto; aqui estão todas as nações úteis. Paris, em suma, vence tudo. Em Paris, até os trapeiros são sibaritas; Diógenes gostaria tanto de ser adelo na praça Maubert como filósofo no Pireu. Fiquem sabendo mais isto: as tabernas dos adelos chamam-se bibines; as mais célebres são a Casswola, e o Matadouro. Portanto, ó tascas, graçolas, bodegas, tabernas, baiucas, casas de pasto, bibines dos trapeiros, caravansares dos califas, tomo-vos por testemunhas de que sou um voluptuoso, que como no Richard a quarenta soldos por cabeça e que quero tapetes, da Pérsia para neles rolar Cleópatra nua! Onde está Cleópatra? Ah, és tu, Luisinha! Bom dia.
     Assim tagarelava Grantaire, meio embriagado, a um dos cantos da sala interior do Café Musain, agarrando a criada e impedindo-lhe a passagem.
     Bossuet tentava fazê-lo calar, acenando-lhe com a mão, porém ele continuava cada vez com mais força: 

Aigle de Meaux, baixa as patas. Faço tanto caso desse teu gesto de Hipócrates recusando o revendão de Artaxerxes como de coisa nenhuma. Dispenso-te de me tranquilizares. E demais, eu estou triste. Que quereis que vos diga? O homem é mau, o homem é disforme; a borboleta satisfaz ao seu fim, o homem não. Enganou-se Deus com este animal. Uma multidão é uma colecção de fealdade». O primeiro homem que se vos depara é um miserável. Femme[2] rima com infame. É como vos digo; estou com spleen, complicação de melancolia, com a nostalgia e mais a hipocondria, e estou zangado, enfurecido, aborrecido, não faço senão abrir a boca, sinto-me morto, sinto-me estúpido. Os diabos levem Deus!
— Cala-te, R. maiúsculo! — tornou Bossuet, que discutia um ponto de direito com alguns dos companheiros, meio enterrado num discurso em gíria judiciária, que concluía desta forma: — ...E quanto a mim, posto que eu seja apenas um legista, ou quando muito um procurador curioso, sustento o seguinte: que nos termos do uso geralmente adoptado na Normandia, que todos os anos pelo S. Miguel devem todos e cada um dos proprietários, ou herdeiros, salvo outro direito, pagar ao senhor um Equivalente, e isto por todas as enfiteuses, arrendamentos, bens alodiais, contratos dominiários e dominais, hipotecários e hipotecais... 
— Ecos, ninfas queixosas — cantarolava Grantaire.

     Uma folha de papel, um tinteiro e uma pena entre dois copos, objetos colocados ao pé de Grantaire sobre uma mesa quase silenciosa, anunciavam que se estava ali esboçando um vaudeville, Este importante negócio tratava-se em voz baixa, quase tocando-se as duas cabeças dos compositores.
     Comecemos pelos nomes dos personagens. Achados os nomes, achado temos o enredo. 
— É verdade, dita lá que eu escrevo. 
— Dorimon? 
— Rendeiro? 
— Está bem de ver. 
— Celestina, sua filha. 
— ...ilha. Que mais? 
— O coronel Sainval. 
— Sainval é cediço. Antes Valsin.

     Ao lado dos aspirantes vaudevilistas, um outro grupo, que também se aproveitava da confusão geral para falar baixo, discutia sobre um duelo. Um veterano de trinta anos, aconselhava um novato de dezoito, explicando-lhe com que adversário se metia. 

— Diabo, é preciso cuidado! Olhe que ele é uma boa espada. O seu jogo é descoberto. Ataca o adversário sem dissimulação, com firmeza, mão certeira, rapidez e força, e os seus rebates são calculados com precisão atemática. Safa! E ainda por cima é canhoto!

     No canto oposto a Grantaire, Joly e Bahorel jogavam o dominó e falavam de amor. 

— És feliz — dizia Joly. — Tens uma amante que está sempre a rir. 
— Pois é um defeito — respondia Bahorel. — Uma amante não deve rir, porque anima a gente a enganá-la. Vendo-a alegre, não sentimos remorso; pelo contrário, vendo-a triste, volta a consciência. 
— Ingrato! Não dás apreço a uma mulher que sabe rir! E vocês não ralham nunca um com o outro? 
— Não, porque assim o es pulámos no nosso contrato. Quando celebrámos a nossa santa-aliançazinha, assinámos mutuamente certas fronteiras, que nunca ultrapassámos. O que fica situado para lá do norte pertence a Vaud, do lado do sul pertence a Gex. Dali a paz que reina entre nós. 
— A paz é a felicidade digestiva. 
— E tu, Joly, no que deram os teus arrufos com a...? bem sabes de quem eu quero falar. 
— Estamos na mesma. Não há forças humanas que demovam a cruel. 
— Para enternecer um coração bastava a tua magreza. 
— Ai! 
— No teu lugar não me importava mais com ela. 
— Isso é fácil de dizer. 
— E de fazer. Ela não se chama Musichetta? 
— Chama. Ah, meu pobre Bahorel, é uma rapariga de mão cheia, literata, com uns pés pequeníssimos, umas mãos pequeninas, que veste com gosto, branca, gordinha e uns olhos de mulher que deita cartas! Ando doido por ela! 
— Meu caro, nesse caso, deves procurar agradar-lhe, tornares-te elegante e mostrar lhe que és um rapaz tirado das canelas. Compra-me ao Staub umas boas calças de couro de lã, que podem servir. 
— Por quanto? — gritou Grantaire.

     No terceiro canto agitava-se uma discussão poética. Andava aos murros com a mitologia cristã a mitologia pagã. Tratava-se do Olympo, cujo par do Jean Prouvaire tomava até por romantismo. Jean Prouvaire era tímido quando não puxavam por ele. Excitado, porém, prorrompia; uma espécie de ligeireza irónica acentuava o seu entusiasmo; e era ao mesmo tempo prazenteiro e lírico. 

— Não insultemos os deuses — dizia ele — que de certo ainda não acabaram. Não me parece que Júpiter tenha morrido. Os deuses são sonhos, dizes tu. Pois olha, até na natureza, tal qual ela hoje é, depois que se esvaeceram esses sonhos, se encontram todos os antigos e grandes mitos pagãos. Certas montanhas com perfil de cidadelas, como, por exemplo, a Vignemale, para mim são ainda o toucado de Cybele, nem ninguém ainda me provou que Pan não vem de noite soprar no tronco oco dos salgueiros, tapando alternadamente os buracos com os dedos, e sempre acreditei ter uma relação qualquer com a cascata de Pissevache.

     No outro canto, o último, discutia-se política, impugnando-se a outorga da Carta. Combeferre defendia-a com pouco calor e Courfeirac batia-a de frente com toda a energia. Em cima da mesa achava-se um desastrado exemplar da célebre Carta-Touquet. Courfeyrac pegara nela e agitava-a misturando aos seus argumentos o rugido daquela folha de papel. 

— Em primeiro lugar, não quero reis, e não os quero, ainda que não seja senão atendendo à economia; um rei é um parasita. Não ficam de graça a ninguém. Ora ouve por quanto eles ficam: preço dos reis! Quando morreu Francisco I era de trinta mil francos de renda a dívida pública em França: quando morreu Luís XIV, era esta de dois mil e seiscentos milhões e valia o marco vinte e oito francos, equivalendo, portanto, esta soma em 1760, segundo diz Desmarets, a quatro mil e quinhentos milhões e hoje a doze mil. Depois, em que pese a Combeferre, a outorga de uma Carta é um mau expediente de civilização. Salvar a transição, moderar a passagem, enfraquecer o abalo, fazer passar a nação insensivelmente da monarquia para a democracia pela prática das ficções constitucionais, tudo isto são razões péssimas quanto podem sê-lo, Não! Não! Não deslumbremos o povo com o brilho de uma falsa luz. Estiolam-se e empalidecem os princípios no vosso subterrâneo constitucional. Nada de degenerações, nem de compromissos, nem de outorgas feitas ao povo pelo rei. Em todas essas outorgas há um artigo 14. A par da mão que dá vem a garra que ra. Recuso sem rebuço a tal Carta. Uma Carta é uma máscara; por baixo está sempre a mentira. O povo que aceita uma Carta abdica. O direito não sofre divisões; dividido, deixa de ser direito. Nada de Carta.

     Era no Inverno. Courfeyrac não resistiu à convidativa chama de duas achas que ardiam no fogão. Amarrotou nas mãos a pobre Carta-Touquet e atirou-a ao lume, onde prontamente se queimou. Combeferre viu arder filosoficamente a obra-prima de Luís XVIII e contentou-se em dizer: 

— A Carta metamorfoseada em chama.

     E por cima de todas aquelas cabeças faziam uma espécie de jovial bombardeamento os sarcasmos, as chufas, os ditos agudos, os equívocos, isso a que os franceses chamam entraim e os ingleses humour, o bom e o mau gosto, as boas e as más razões, todas as delirantes faíscas do diálogo, subindo ao mesmo tempo e cruzando-se em todas as direções da sala.

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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - IV — A sala interior do café Musain
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 
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[1] Aprendiz de pintor.
[2] Mulher.

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