sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - Os amigos do ABC / III — Surpresas de Mário

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quarto — Os amigos do ABC

     III — Surpresas de Mário

             Em poucos dias, Mário tinha travado relações de estreita amizade com o mancebo. A mocidade é a quadra das prontas ligações e das cicatrizações rápidas. Na companhia de Courfeyrac, Mário respirava livremente, o que para ele era uma coisa bastante nova. Quanto ao mancebo que o agasalhava, não lhe dirigiu uma só pergunta nem disso se lembrou. Naquela idade, os rostos dizem logo tudo, e, portanto, a palavra torna-se inútil. Há mancebos que dizem mais com o rosto do que com a boca. Naquelas idades basta olharem-se para ficarem logo conhecidos.
     Todavia, uma manhã, Courfeyrac dirigiu-lhe de improviso esta pergunta: 

— É verdade, o senhor tem alguma opinião política? 
— Ora, é boa a pergunta! — respondeu Mário, quase ofendido. 
— Então que opinião é? 
— Eu sou democrata bonapartista. 
— Cambiante pardo de rato sossegado — disse Courfeyrac.

     No dia seguinte, Courfeyrac introduziu Mário no Café Musain.
     Depois murmurou-lhe ao ouvido com um sorriso: 

— É preciso que lhe dê entrada na revolução.

     E conduziu-o para a sala dos amigos do ABC, onde o apresentou aos outros camaradas, dizendo a meia voz estas simples palavras, cuja significação Mário não compreendeu: 

— Um discípulo.

     Mário caíra num vespeiro de espíritos. Todavia, posto que silencioso e grave, não era ele nem o menos alado nem o menos armado.
     Mário, até então solitário e propenso ao monólogo e ao aparte, por costume e gosto, ficou um pouco assustado ao ver-se rodeado daquele bando de rapazes. Atraíam-no e arrastavam-no todas aquelas diversas iniciativas, ao mesmo tempo. O vaivém tumultuoso daqueles espíritos livres funcionando, fazia-lhe redemoinhar as ideias. As vezes, estas, no meio da perturbação, voejavam-lhe por tão longe, que lhe custava a dar com elas.
     O mancebo ouvia falar de filosofia, de literatura, de arte, de história, de religião, de uma maneira inteiramente nova para ele. Entrevia aspectos estranhos, e, como os não punha em perspectiva, não tinha a certeza se o que via era o caos ou não. Quando abandonara as opiniões de seu avô pelas de seu pai, julgara que não tornaria a mudar; agora, porém, receava, sem tal coisa ousar confessar, que não lhe aconteceria o que supusera. O ângulo sob o qual ele via as coisas principiava de novo a deslocar-se.
     Uma certa oscilação abalava todos os horizontes do seu cérebro. Estranho desarranjo interior que quase o incomodava.
     Parecia que para aqueles mancebos não havia «coisas consagradas». Mário ouvia a respeito de tudo uma linguagem singular, que lhe molestava o espírito, ainda timorato.
     Aparecia pelas esquinas um cartaz ornado com o título de alguma tragédia do antigo reportório, chamado clássico. 

— Abaixo a tragédia querida dos burgueses! — gritava Bahorel.

     E Mário ouvia replicar a Combeferre: 

— Isso não é assim, Bahorel. Uma vez que os burgueses gostam da tragédia, deixá-los lá com o seu gosto. A tragédia de cabeleira tem sua razão de ser e eu não sou dos que em nome de Esquilo lhe contestam o direito de existir. Há esboços na natureza, há paródias completas na criação: um bico que não é bico, asas que não são asas, barbatanas que não são barbatanas, pés que não são pés, um grito doloroso que causa riso, aí tens o pato. Ora, se as aves domésticas existem a par das que o não são, não vejo porque a tragédia clássica não deva existir ao lado da tragédia antiga.

     Ou então, sucedendo passar Mário pela rua de Jean Jacques Rousseau, entre Enjolras e Courfeyrac, este travava-lhe do braço e dizia-lhe: 

— Repare para o que eu digo. Esta é a rua Plâtrière, chamada hoje de Jean Jacques Rousseau, por causa de um singular casal que aqui morava há uns bons sessenta anos. Era Jean Jacques e Teresa. De tempos a tempos, Teresa deitava ao mundo uma criança, Jean Jacques deitava-a à roda.

     E Enjolras dizia com azedume para Courfeyrac: 

— Silêncio diante de Jean Jacques! Admiro esse homem. É verdade que enjeitou os filhos, mas adotou o povo.

     Nenhum destes mancebos articulava esta palavra: o imperador. Só Jean Prouvaire dizia às vezes Napoleão; os outros diziam todos Bonaparte. Enjolras pronunciava Buonaparte.
     Mário sentia uma vaga admiração. Initium sapientias.

continua na página 499...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quarto - III — Surpresas de Mário
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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