domingo, 9 de março de 2014

01 - General Calçacurta

O cadáver do Calçacurta – 3ª edição revisada
baitasar
Esse é o seu cadáver, General. Não acreditava na própria morte, mas ela chegou. Sempre chega. Tudo acaba, General. Até os desmandos. Eu sei, ordens são ordens, mas cá entre nós, General, algumas ordens que o senhor diz que apenas cumpriu, nunca existiram. Invencionice da sua vontade de abuso. Gostava de abrir feridas novas e reabrir as velhas. As cicatrizes ainda não cicatrizaram, essas demoram mais. No fim de tudo, todos se vão, inclusive a dor dos vivos que continuam esperando. Não tenho certeza, nem quero lhe faltar com o respeito em hora tão solene, mas não deixar fechar as feridas dos vivos esperando esclarecimento, explicação, menção, qualquer informação do desaparecido, foi safadeza
—        Oficiais são cavalheiros, não mentem.
—        Eu sei, senhor. Por isso, fez silêncio. Não podia contar a verdade, ou não quis, vá saber o que se passava na sua cabeça. Não quis a desonra da mentira. Então, é como se não tivesse acontecido. Morreu negando. Lembro das suas palavras inflamadas, explosivas, ameaçadoras
—        Não se mexe na fera com vara curta!
Não pedi, mas fui testemunha de tudo aquilo, até que o Calçacurta foi deitado abaixo. Não acreditava que poderia ser derrotado, mas subestimou a ferida dolorida. Em carne viva. A sangria do passado precisava ter um descanso. Esqueceu que nem sempre o tempo apaga tudo, tem vez que ele corrói por dentro. Não adianta espalhar as cinzas nem afogar a memória, cortar dedos, arrancar línguas e vísceras. Não se enterram sonhos para sempre, mas é possível imaginar os mesmos pesadelos
—        O senhor ia gostar dessa parte dos pesadelos, eu tenho certeza. O lodo onde enfiamos as botas é um abismo que não afunda, por isso, talvez o tempo de outro general retorne. O seu acabou.
Mas ele conseguiu. Queria morrer dormindo de pijama. E conseguiu
—        Né, General?
Morreu tranquilo com o dever cumprido. Não gritou como os passageiros das suas prisões. Eram berros e queixas para todos os gostos. É isso, morreu dormindo. Mas lambuzou de sangue irmão a memória de outros generais que morreram lutando, frente a frente, no campo heroico das batalhas
—        O senhor nunca seria o primeiro homem no campo sagrado da luta e jamais o último soldado que sairia.
—        Soldado!
—        Sim senhor, general!

Silêncio.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Estamos aqui para implorarmos que a Tua bondade recaia sobre todos nós, acolhe a alma desse homem, seja justo, Senhor.
Mais um que o senhor conseguiu desaparecer e que assombrava
—        E as pedras!
—        No lugar, senhor!
Nem precisava revisar o serviço feito, mas sempre fez questão. Afinal, é o olho do dono que engorda o boi
—        Já abriram?
—        Não tem mais nada, tá limpo! Esse não sobe!
—        Joguem!
Eu sei, é difícil. Ainda descrê do acontecido, mas nesse ataúde não sou eu. Essa é a sua carcaça inconveniente, depositada imóvel. Não tem mais jeito, e parece que nem luto oficial o senhor ganha. Mas se serve de consolo, sempre vai surgir algum pacóvio para gritar que o senhor foi um herói.
Li nos jornais, lá no assoalho da página, pequenas notas do seu passamento. Muitos dos colegas de farda lhe querem ver deitado de costas, sob a lápide da história, outros anseiam pegar seu estandarte para sair em marcha pelas ruas em nome do inferno das torturas, afogamentos, esquartejamentos. A tortura em nome de Deus, da Família e do Capital. Bons tempos aqueles, podíamos matar em nome de um Paraíso que não queríamos destruído pelos comunistas. Às mentiras basta saber contar
Permite, como a Virgem Maria, abençoada Mãe de Deus...
—        E agora, senhor!
—        Vamos voltar.
Eu sou a última voz que escuta, a força se desmancha dessa cobertura de carne condecorada com as cicatrizes da adoração. Quem não lhe conhece que acredite que o senhor foi um santo. Isso mesmo, o seu entusiasmo com as comunistas se desarranja como a cera das velas que, por certo, algum distraído ou viúva irá acender. Morto sem vela não é morto, é alma que vai ficar penando na escuridão. Tem que ter vela para iluminar o caminho da subida. Ou descida. E o senhor, sobe ou desce? É, tem que ter a vela. Azar o meu, odeio velas. Tenho asma. A sua doença era outra
Os Apóstolos e os Santos de todos os dias que viveram na Tua amizade...
—        Bom trabalho, rapazes.
—        Senhor! Obrigado, senhor!
É, sou a sua sentinela. Mas sempre posso abandonar tudo. Não recebi ordens para assumir esse posto. Não foi preciso nenhuma ordem. É melhor assim, se eu atravessar a rua e sumir, não dá nada. O único que não pode mais renunciar é o General. A vida livrou-se do dominador. Existem outros, eu sei
—        Soldado! Não dá para ir vivendo e ver no que vai dar!
No seu caso, eu e o senhor sabemos no que deu, né? Muita porrada e gente desaparecida até das eternidades
—        Senhor, mas precisa ter um sentido!
Perderam o controle do General quando lhe deixaram solto para fazer o que bem entendesse. Era preciso quebrar o espírito dos subversivos, então o senhor aumentou a pressão do terror. Não percebeu que um vício cada vez mais aprimorado e esquisito penetrava calmamente no vazio da sua alma, perdida da dignidade, esmagada e destruída pelo prazer de provocar o medo nas pessoas. Afogadas, extenuadas, cadavéricas, mas resistindo perder a alma, pensamentos ou vontade.
Sejamos contemplados com a Vida eterna e cantemos em Teu louvor...
Eu acredito que dessa vida só levamos a nostalgia das saudades com a nossa ausência. Isso mesmo, General, no nosso caso, perceba que não estou lhe deixando sozinho, carregamos para o túmulo apenas o pesar dos bêbados que ficam. Não ganhamos nem o respeito das putas. Essas mentem, mas já sabemos quanto custam os elogios antes de usarmos os serviços. Fingem que precisam e querem nossos carinhos e beijos, nos deixam entrar e aguardam até sairmos. O sorriso é sempre o mesmo, já decorei. Antes de abrir a porta, agarram o preço concordado sobre a cômoda, embaixo do abajur sujo e empoeirado. Não tem adeusinho nem acenos, só a saudade do General gritando, encostado no balcão
—        Essa rodada é por minha conta. Pode servir!
Todos levantavam e saudavam o seu coração libertário.
A Ti, Deus Pai todo poderoso, na unidade do Espírito Santo...
Os arruaceiros comunistas apostam que nem isso o senhor vai levar para o túmulo. Logo o senhor, adorava arranjar as coisas segundo às suas vontades, babava com desprezo sobre os destroços em suas mãos, macilentos, inertes, fantasmas obedientes.
Toda honra e toda glória, agora e para sempre. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Vai em paz e que o senhor os acompanhe de perto.
Não é um ótimo dia, mas é um bom dia. Afinal, tem dia para tudo, até para morrer. Isso, General. Todos têm o dia de morrer. Esse é o seu dia. A vida desistiu da sua vida. Eu mesmo não desisti do senhor por dever de ofício. O General e os seus colegas esperam que eu abandone o meu posto. Não me conhecem. Nem eu me conheço, mas a farda nos mostra aonde ir. O fardamento e a vida militar é que podem me julgar.
Não sei o que seria de mim longe do alojamento dos soldados. Sempre recebi missão do meu tamanho. Aprendi a ser homem dentro das paredes do quartel. Lavar, passar a ferro, cozinhar e limpar os banheiros é código de comportamento que carrego para o resto da vida. A disciplina e o respeito, daqueles que poderão morrer ao seu lado, são tudo nas histórias de um homem guerreiro. Uma associação para proteger nossa pátria. Nosso modo de viver. Tenho muito orgulho dessa missão: lutar, defender e obedecer. Uns ajudando os outros, todos por um e por todos
—        Morrer se preciso for.
Hoje, sou o guardião da cerimônia de despedida do General Calçacurta. Está chegando a hora do seu enterramento. Um dever da minha missão como seu motorista. Repito, não recebi nenhuma ordem. Fui voluntário. Chamei o Jacaré para me ajudar nessa última missão. Não sinto alegria nem tristeza. Espero o passamento dessas últimas horas, como sempre esperei o seu retorno das missões, muita paciência e sem maiores sobressaltos. Deixo para o além-túmulo do comandante os traumas e as insônias com fantasmas sem fisionomia, vazios, sem mortalha ou um corpo caduco. Afinal das contas, todo general deve assumir as lesões da dor moral daqueles que matam sob suas ordens. E sofrer quando algum companheiro morre por seus descuidos e vaidade.
O soldado apenas confia que o seu general é o mocinho, o camarada por quem morre lutando contra o inimigo perverso, vazio de inteligência, imbecil. As estrelas apoiadas em seus ombros atestam o caráter divino da sua infalibilidade. Cavaleiros das terras.
Sempre gostei de acreditar nisso.
Quando me sonhava era um desses cavaleiros, gentil e suave, pronto para salvar vidas matando-as. Consegui distinguir meus delírios da ficção, não cheguei a tanto. Fiquei pelo posto de cabo. Logo, não sou um soldadinho raso qualquer, mereço respeito. Isso nos deixa parecido, eu tenho em quem mandar.
Não precisei matar nenhum inimigo conhecido ou desconhecido. Ainda hoje, me pergunto se eu mataria. Acho que sim, em uma guerra é matar ou morrer. Guerras justas. Aniquilar ou salvar. Rezava em silêncio todas as noites.
Eu quero a paz, eu vos suplico a paz, eu vos desejo a paz.
Como já lhe disse General, como cabo tenho autoridade de mando sobre o Jacaré. Esse é boa gente, mas precisa do comando. Não toma decisão estratégica. Volta e meia é preciso ensinar o rapaz a pensar. Cumprir ordens ele sabe, e muito bem. Não adianta lutar ou negar as qualidades que recebemos no berço. Tem uns que nascem para mandar, a maioria nasce para obedecer.
Aprendi com o senhor que existe um tempo de reparos, pequenos oásis de calmaria, e outro de sangrias. As pessoas cantam sobre liberdades que não compreendem e não existem. Não sabem como foi dura a guerra contra os subversivos comunistas. Gente cheia de ódio. Não tenho certeza, mas acho que comiam criancinhas, gritavam que Deus não existia. Quem esses vagabundos pensam que são? Acham que são melhores que nós? Somos todos farinha do mesmo saco.
Não podemos diminuir o nível do alerta. Guerra é guerra, fria ou não. Somos admoestados por vivermos embrutecidos no seio da igreja. Acusam os padres de comerem criancinhas. Pura maldade. Assim, como não se pode julgar a armada de guerreiros pelo desertor, não se julga a igreja pelos padres tarados.
Esses comunistas são merda.

—        Chupa-racha! Comunista e merda para mim é a mesma coisa!

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O Cadáver do Calçacurta – 3ª edição revisada / II - General Calçacurta

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