sábado, 9 de maio de 2026

um mulherão e cinco homens (2)

um mulherão e cinco homens (2)

baitasar


as mães desacordam antes do sol, um desadormecer cansado, é preciso preparar o café com um sorriso apressado, muitas tarefas de cuidar e educar, Vocês não me peguem nada que não seja de vocês, o lugar de comer é em casa. Não esqueçam a merenda!

plantava sementes enquanto partes de si mesma ficava pelo caminho, um mulherão e cinco homens

a vozearia dos guris se espalhava, mauro, rogério, ricardo, rubem, o Milton já se fora para a fábrica de balanças Santo Antônio, saia nas madrugadas da manhã e voltava já noite adiantada, nós, os quatro filhos, ficávamos com a Elci, como tantos filhos e filhas, naqueles dias era assim, esse mulherão carregava sonhos que ficaram pelo caminho, fingimentos verdadeiros e verdades inventadas, rotinas de palavras doces, passos acelerados entre o tanque das roupas imundas da filharada e a cozinha da comida amorosa, no caminho, gestos escondidos nas sombras do silêncio

aquela fortaleza invisível continua planejando nossas vidas, correndo pelos nossos caminhos, mulher corajosa, amorosa, determinada, suportando nossas partes de esperança em silêncio, não reclamava, uma peregrinação sem tréguas para cumprir no tempo das horas essa combinação silenciosa de entrega e desassombro, cuidando da febre e dos medos, entre sua angústia e cansaço, não desistiu

não aceitou deixar seus filhos num calabouço com pão, água e sem escola, queria mais, não desistiu, Vocês vão pra escola, e pronto! Não quero escutar queixas da professora, entenderam? Quando saírem da escola vão saber que valeu a pena.

nunca, durante esse tempo de guri, me perguntei como se impunha forçar ombros e pernas para alicerçar e escorar nossa pequena família de homem e guris, uma tarefa cumprida no dia-a-dia, de domingo à domingo, exigindo de si mesma mais e mais, cada vez mais

nunca foi um ensaio, sempre foi para valer, muitas vezes, com lágrimas e olhar desenxabido

o tempo do nosso desmame era inevitável, tínhamos sentimentos amontoados e desencontrados, cada um no seu tempo e do seu jeito, desgrudando sem soltar, sem mau humor, gritarias, choro ou culpa, em silêncio, uma outra vida cheia de surpresas vivendo do jeito que dá, o abraço no lugar do colo

continuo me permitindo sentir saudade, o amor que tenho e o beijo doce na boca alimentam lembranças de contentamento, mesmo que o tempo da tristeza não passe, preciso chegar em casa, esquecer sem esquecimento e sempre com a necessidade da proximidade do perfume do café passado, o aroma do pão fresco, o leite derramando na fervura, sentindo a ventania do nosso amor que ela transformava em brisa

sim, ela continua em nós

te amo, mãe

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