domingo, 31 de maio de 2026

O Gênio da Geografia

Milton Santos  

| 27/05/2026

Nesta quarta-feira (27), às 22h30, a TV Cultura estreou o documentário inédito Milton Santos – O Gênio da Geografia, produção do Jornalismo da emissora que celebra o centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. O filme revisita a trajetória pessoal, acadêmica e política do geógrafo baiano Milton Santos, reconhecido internacionalmente por sua visão crítica sobre a globalização e por suas reflexões sobre desigualdade, território e sociedade. A produção reúne depoimentos do professor Fernando Conceição, biógrafo autorizado de Milton Santos; do geógrafo e pesquisador Billy Malachias; e de Nina Santos, neta de Milton e doutora em Comunicação. O documentário também traz trechos de uma entrevista concedida por Milton Santos ao cineasta Silvio Tendler, quatro meses antes de sua morte.

Milton Santos O Gênio da Geografia mostra como o pensamento do intelectual brasileiro segue atual e influente no Brasil e no mundo, mais de duas décadas após sua morte.




00:00:05 – Introdução: O legado do geógrafo.
00:03:27 – Reconhecimento e importância mundial.
00:07:09 – Origens e formação na Bahia.
00:09:44 – Carreira acadêmica e o doutorado na França.
00:11:12 – Exílio, ditadura e trajetória internacional.
00:15:02 – Obra literária e visão de mundo.
00:17:06 – Conceitos: Natureza do espaço e informação.
00:18:31 – Milton Santos como fonte intelectual.
00:22:56 – A globalização: fábula, perversidade e possibilidade.
00:29:03 – Crítica à política e à "democracia de mercado".
00:31:07 – A importância das cidades.
00:32:44 – Racismo e o papel do intelectual negro.
00:52:49 – Centenário e homenagens (Museu das Favelas).

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Mais cinema-documentário:

O Gênio da Geografia /   

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Fazia mais que conhecê-la, era o pai dele. Algumas das lembranças afetuosas de Morel à memória de meu tio ligavam-se ao fato de que não tencionávamos permanecer sempre no palacete de Guermantes, aonde só fôramos morar por causa da minha avó! Às vezes, falava-se de uma possível mudança. Ora, para compreender os conselhos que a tal respeito me dava Charles Morel, é preciso saber que, antigamente meu tio-avô morava no bulevar Malesherbes 40 bis. Como nós íamos muito à casa de meu tio Adolphe, até o dia fatal em que fiz meus pais brigarem com ele ao contar a história da dama cor-de-rosa, resultou daí que, na família, em vez de se dizer "casa do seu tio", dizia-se "no 40-bis": Primas de minha mãe diziam com o ar mais natural do mundo: 

- Ah! Domingo não podemos visitar vocês, pois vão jantar no 40-bis. -  

     Se eu ia visitar uma parenta, recomendavam-me que passasse primeiro no 40-bis, para que meu tio não se melindrasse por não ter começado por ele. Ele era proprietário da casa e, para falar a verdade, mostrava-se muito difícil na escolha dos locatários, que eram todos seus amigos, ou ficariam sendo. O coronel barão de Vatry vinha todos os dias fumar um charuto com ele a fim de mais facilmente obter os consertos. A porta da rua estava sempre fechada. Se, numa janela, meu tio avistava uma roupa, um tapete, enfurecia-se e mandava retirá-los mais rapidamente do que hoje o faz a polícia. Mas afinal, nem por isso deixava de alugar uma parte da casa, reservando para seu uso apenas dois andares e as cavalariças. Apesar disso, sabendo que lhe agradava elogiassem a boa manutenção da casa, louvavam o conforto do "palacete" como se meu tio fosse o seu único ocupante, e ele deixava que o dissessem, sem opor o desmentido formal que seria de esperar. Seguramente o "palacete" era confortável (pois meu tio introduzia nele todas as invenções da época). Porém nada possuía de extraordinário. Só meu tio, embora dizendo com falsa modéstia "meu casebre", estava persuadido, ou pelo menos inculcara a seu criado de quarto, à mulher deste, ao cocheiro, à cozinheira a ideia de que não existia nada em Paris que se comparasse ao pequeno palacete em conforto, luxo e satisfação. Charles Morel crescera dentro dessa fé. E nela permanecera. Assim, mesmo nos dias em que não conversava comigo, se, no trem, eu falasse a alguma pessoa sobre a possibilidade de uma mudança, logo ele me sorria e, piscando o olho com ar de entendido, dizia: 

- Ah, o que o senhor precisaria era de alguma coisa do tipo do 40-bis! Aí é que haveria de sentir-se a gosto! Pode-se dizer que seu tio entendia dessas coisas. Estou certo de que em Paris inteira não existe nada que valha o 40-bis.

     Ao ar melancólico que o Sr. de Charlus assumira ao falar da princesa de Cadignan, bem senti que essa novela não o fazia pensar apenas no jardinzinho de uma prima muito indiferente. Caiu num profundo devaneio e, como que falando para si mesmo, exclamou: 

- Os Segredos da Princesa de Cadignan! Que obra-prima! Como é profunda, como é dolorosa essa má reputação de Diane, que tanto receia que o homem a quem ama o venha a saber! Que verdade eterna, e mais geral do que aparenta! Como vai longe isso! -

     O Sr. de Charlus pronunciou essas palavras com uma tristeza que, no entanto, a gente sentia que ele não achava sem atrativos. Provavelmente o Sr. de Charlus, não sabendo ao certo em que medida os seus costumes eram ou não conhecidos, estremecia desde algum tempo à ideia de que voltaria a Paris e que o encontrariam com Morel, a família deste acabasse por intervir e que, assim, a sua felicidade ficasse comprometida. Tal eventualidade provavelmente só lhe aparecera até então como algo de profundamente penoso e desagradável. Mas o barão era muito artista. E agora que, desde um momento, confundia sua situação com a descrita por Balzac, refugiava-se de algum modo na novela, e, ao infortúnio que talvez o ameaçasse e, de qualquer forma, não deixava de assustá-lo, ele tinha esse consolo de encontrar na própria ansiedade aquilo que Swann e o próprio Saint-Loup teriam denominado algo de "muito balzaquiano". Essa identificação com a princesa de Cadignan tornara-se fácil ao Sr. de Charlus graças à transposição mental que se lhe tornara um hábito e da qual já dera vários exemplos. Aliás, era o bastante para que a simples substituição da mulher, como objeto amado, por um rapaz desencadeasse imediatamente, em torno deste, todo o processo de complicações sociais que se desenvolvem ao redor de uma ligação comum. Quando, por um motivo qualquer, introduz-se de uma vez por todas uma mudança no calendário ou nos horários, se se faz principiar o ano algumas semanas mais tarde ou soar a meia-noite quinze minutos mais cedo, como os dias, mesmo assim, terão vinte e quatro horas e os meses trinta dias, tudo o que decorre da medida do tempo permanecerá idêntico. Tudo pode ter sido alterado sem causar nenhum transtorno, pois as relações entre os números são sempre as mesmas. Assim ocorre com os que seguem "a hora da Europa central" ou os calendários orientais. Parece até que o amor-próprio que se tem em sustentar uma atriz desempenhava um papel nesta ligação. Quando, desde o primeiro dia, o Sr. de Charlus tomara informações sobre Morel, certamente ficara sabendo que era de origem humilde; mas uma demi mondaine a quem amamos, nada perde de seu prestígio para nós por ser filha de gente pobre. Em compensação, os músicos conhecidos a quem ele mandara escrever nem mesmo por interesse, como os amigos que, apresentando Swann a Odette, haviam-na descrito como mais difícil e mais requisitada do que o era por simples banalidade de homens em evidência que exaltam um estreante, haviam respondido ao barão: 

- Ah, grande talento, boa situação, naturalmente considerando que é um jovem, muito apreciado pelos conhecedores, irá longe. -

     E, com a mania dos que ignoram a inversão, falando da beleza masculina: 

- E depois, dá gosto vê-lo tocar; faz melhor figura que ninguém num concerto; tem lindos cabelos, uma postura distinta; a cabeça é atraente e ele parece um violinista de retrato. -

     Assim o Sr. de Charlus, aliás sobrexcitado por Morel, que não o deixava ignorar de quantas propostas era objeto, sentia-se lisonjeado em trazê-lo consigo, de construir-lhe um pombal a que ele voltasse várias vezes. Pois desejava estar livre o restante do tempo, o que se fazia necessário para a sua carreira, que o Sr. de Charlus queria que Morel continuasse, por mais dinheiro que tivesse de lhe dar, fosse por causa daquela ideia muito Guermantes de que é necessário que um homem faça alguma coisa, de que as pessoas só valem pelo seu talento, e que a nobreza ou o dinheiro são somente o zero que multiplica um valor, fosse por ter medo de que, ocioso e sempre a seu lado, o violinista acabasse se aborrecendo. Enfim, não queria privar se do prazer que sentia consigo próprio, de dizer por ocasião de certos concertos de gala: "Este a quem aclamam no momento estará comigo esta noite." As pessoas elegantes, quando estão enamoradas, e de qualquer maneira que o estejam, põem sua vaidade naquilo que pode destruir as vantagens anteriores em que sua vaidade encontrou satisfação. Morel, sentindo que eu não tinha maldade com ele, sinceramente ligado ao Sr. de Charlus e, por outro lado, de uma indiferença física absoluta em relação a ambos, acabou por manifestar a meu respeito os mesmos sentimentos de calorosa simpatia de uma cocote que sabe que não a desejamos e que seu amante tem em nós um amigo sincero que não tentará fazê-lo romper com ela. Não só me falava exatamente como outrora Rachel, a amante de Saint-Loup, mas também, conforme o que me repetia o Sr. de Charlus, dizia de mim, na minha ausência, as mesmas coisas que Rachel falava sobre mim a Robert. Por fim, o Sr. de Charlus me dizia: 

- Ele gosta muito do senhor.

     Como Robert: - Ela gosta muito de ti. -
     E, como o sobrinho em nome da amante, era em nome de Morel que o tio me pedia muitas vezes que fosse jantar com eles. Além disso, não havia menos tempestades entre eles do que entre Robert e Rachel. Certo, quando Charlie (Morel) ia embora, o Sr. de Charlus não lhe poupava elogios, repetindo desvanecido que o violinista era muito bom para ele. Mas era visível, no entanto, que freqüentemente Charlie, mesmo diante de todos os fiéis, tinha um ar irritado em vez de parecer sempre feliz e submisso como o teria desejado o barão. Essa irritação chegou até, mais tarde, devido à fraqueza que fazia o Sr. de Charlus perdoar as atitudes inconvenientes de Morel, ao ponto de o violinista não mais ocultá-la, ou ainda a afetava. Vi o Sr. de Charlus entrando num vagão onde se achava Morel com alguns de seus amigos militares e ser recebido com um dar de ombros do músico, acompanhado com um piscar de olhos a seus amigos. Ou então fingia estar dormindo, como alguém a quem semelhante chegada é o cúmulo do aborrecimento. Ou punha-se a tossir; os outros riam, simulando, para divertir-se, o falar amaneirado de homens como o Sr. de Charlus; atraíam Charlie para um canto e este acabava por voltar, como que forçado, para junto do Sr. de Charlus, cujo coração era transpassado por todos esses maus-tratos. É inconcebível que os tenha suportado; e essas formas cada vez diferentes de sofrimento colocavam de novo para o Sr. de Charlus o problema da felicidade, forçavam-no não apenas a pedir mais, como também a desejar outra coisa, já que a combinação precedente se achava viciada por uma lembrança horrível. E no entanto, por mais penosas que fossem logo tais cenas, convém reconhecer que, nos primeiros tempos, se manifestava em Morel o gênio do homem do povo da França, emprestando-lhe formas encantadoras de simplicidade, de aparente franqueza, e até de uma altivez independente que parecia inspirada pelo desinteresse. Isso era falso, mas a vantagem da atitude estava bem mais a favor de Morel, considerando-se que, enquanto aquele que ama está sempre forçado a voltar à carga, a insistir, pelo contrário, é fácil ao que não ama seguir uma linha reta, inflexível e graciosa. Ela existia, por privilégio da raça, no rosto tão aberto desse Morel de coração tão fechado, nesse rosto adornado com a graça neo-helênica que floresce nas basílicas da Champagne. Apesar de sua altivez artificial, seguidamente, avistando o Sr. de Charlus no momento em que não o esperava, ficava constrangido diante do pequeno clã, enrubescia, baixava os olhos, para deslumbramento do barão que via naquilo todo um romance. Era simplesmente um sinal de irritação e de vergonha. A primeira por vezes se expressava; pois, por mais calma e energicamente decente que fosse a atitude de Morel, ele não passava sem desmentir-se com freqüência. Às vezes até, a alguma palavra que o barão lhe dissesse, estourava da parte de Morel uma réplica insolente, em tom duro, e com o qual todos ficavam chocados. O Sr. de Charlus baixava a cabeça com ar triste, nada respondia e, com a faculdade que têm os pais idólatras de achar que ninguém repara na frieza e dureza dos filhos, nem por isso deixava de entoar louvores ao violinista. Aliás, o Sr. de Charlus não era sempre tão submisso, mas suas rebeliões em geral não alcançavam seu objetivo, principalmente porque, tendo convivido com pessoas da alta sociedade, levava em conta, no cálculo das reações que podia despertar, a baixeza, se não original pelo menos adquirida pela educação. Ora, em vez disso, encontrava em Morel alguma veleidade plebéia de indiferença momentânea. Infelizmente para o Sr. de Charlus, ele não compreendia que, para Morel, tudo cedia diante das questões em que o Conservatório e a boa reputação no Conservatório (porém isto, que devia ser mais grave, não se colocava de momento) entravam em jogo. Assim, por exemplo, os burgueses mudam facilmente de nome por vaidade, os grão-senhores por vantagem. Para o jovem violinista, ao contrário, o nome de Morel estava indissoluvelmente ligado a seu prêmio de violino; logo, era impossível modificá-lo. O Sr. de Charlus gostaria que Morel tivesse tudo dele, mesmo o seu nome. Considerando que o prenome de Morel era Charles, que se assemelhava a Charlus, e que a propriedade em que eles se encontravam tinha o nome de Charmes, quis convencer Morel de que um belo nome, agradável de dizer, era a metade de uma reputação artística, e que o virtuoso devia sem hesitar tomar o nome de “Charmel", discreta alusão ao local de seus encontros. Deu de ombros Morel e, como último argumento, o Sr. de Charlus teve a infeliz idéia de acrescentar que tinha um criado de quarto que se chamava desse modo. Não fez mais que excitar a furiosa indignação do rapaz. 

- Houve um tempo em que meus antepassados sentiam-se orgulhosos do título de criado de quarto, de mordomo do rei. - Houve um outro - respondeu altivamente Morel - em que meus antepassados mandaram cortar o pescoço dos seus. -

     O Sr. de Charlus ficaria muito espantado se pudesse supor que, na falta de "Charmel", resignado a adotar Morel e a lhe dar um dos títulos da família de Guermantes de que dispunha, mas que as circunstâncias, conforme se verá, não lhe permitiram oferecer ao violinista, este o houvesse recusado, pensando na reputação artística ligada a seu nome de Morel e nos comentários que fariam na "classe". De tal modo colocava ele a rua Bergere acima do faubourg Saint-Germain! Ao Sr. de Charlus forçoso lhe foi contentar-se, no momento, em mandar fazer, para Morel, anéis simbólicos com a antiga inscrição: PLVS VLTRA CAROLVS. Por certo, diante de um adversário de uma espécie a que não conhecia, o Sr. de Charlus deveria mudar de tática. Mas quem é capaz de tal? Além disso, se o Sr. de Charlus tinha dessas inabilidades, tampouco Morel as deixava de ter. Bem mais do que a simples circunstância que provocou o rompimento, o que devia, ao menos provisoriamente (mas esse provisório veio a ser definitivo), perdê-lo ante o Sr. de Charlus é que nele não havia apenas a baixeza, que o fazia ser vulgar diante da severidade e responder com insolência à doçura. Paralelamente à natural baixeza, havia nele uma neurastenia complicada com a má educação, que, despertando em toda circunstância em que estivesse em falta ou dependesse de alguém, fazia com que, no próprio momento em que necessitaria de toda a sua gentileza, de toda a sua doçura, de toda a sua alegria para desarmar o barão, ele se tornasse sombrio, intratável; procurasse travar discussões em que sabia que divergiam dele, sustentava seu ponto de vista hostil com uma fraqueza de razões e uma violência cortante que só fazia aumentar essa mesma fraqueza. Pois bem depressa, à falta de argumentos, ainda assim os inventava, revelando destarte toda a extensão de sua tolice e ignorância. Estas mal se mostravam quando ele era amável e só procurava agradar. Pelo contrário, só elas é que apareciam em seus acessos de mau humor sombrio, nos quais, de inofensivas tornavam-se odiosas. Então o Sr. de Charlus sentia-se farto pondo toda a sua esperança num dia seguinte melhor, ao passo que Morel, esquecendo que o barão o fazia viver faustosamente, ostentava um sorriso irônico de piedade superior e dizia: 

- Nunca aceitei nada de ninguém. Desse modo, não há ninguém a quem eu deva um só muito obrigado.

     Nesse meio tempo, e como se tivesse de lidar com um homem da alta sociedade, o Sr. de Charlus continuava a exercer as suas cóleras, verdadeiras ou fingidas, porém agora inúteis. Entretanto, nem sempre o eram. Assim, um dia (que se coloca aliás após aquele primeiro período) em que o barão voltava comigo e Charlie de um almoço em casa dos Verdurin, julgando passar o fim da tarde e a noite com o violinista em Doncieres, a despedida deste, logo que o trem partiu, respondendo: 

- Não, tenho o que fazer -, causou ao Sr. de Charlus uma tão forte decepção que, embora tentasse mostrar boa cara diante do azar, vi que lágrimas dissolviam o cosmético de suas pestanas, enquanto que ele permanecia estupidificado diante do trem. Essa dor foi tamanha que, como Albertine e eu pretendêssemos acabar o dia em Doncieres, disse ao ouvido dela que não gostaria de deixar sozinho o Sr. de Charlus, que me parecia, não saber por quê, muito desgostoso. A querida pequena aceitou de bom grado. Então, perguntei ao Sr. de Charlus se não desejava que o acompanhasse um pouco. Ele também aceitou, mas recusou incomodar por isso a minha prima. Achei uma certa doçura (e sem dúvida pela última vez, pois estava decidido a romper com ela) em lhe ordenar suavemente, como se ela fosse minha mulher: 
- Volta sozinha, vou me encontrar contigo esta noite -, e em ouvi-la, como o faria uma esposa, dar-me licença de proceder como quisesse e aprovar que me pusesse à disposição do Sr. de Charlus, caso este, de quem muito gostava, precisasse de mim.   

     Fomos, o barão e eu, ele bamboleando a sua corpulência, com seus olhos de jesuíta baixos, eu seguindo-o até um café onde nos serviram cerveja. Senti os olhos do Sr. de Charlus presos pela inquietação a algum projeto. De súbito, pediu papel e tinta e pôs-se a escrever com rapidez singular. Enquanto enchia folha após folha, seus olhos brilhavam num devaneio raivoso. Depois de escrever oito páginas: 

- Posso pedir-lhe um grande obséquio? - indagou. - Desculpe-me fechar esta carta. Mas é necessário. O senhor vai tomar um carro, um auto se puder, para ir mais depressa. Certamente ainda encontrará Morel no seu quarto, aonde foi se trocar. Pobre menino, quis bancar o fanfarrão no momento de nos deixar, mas fique certo de que ele está com o coração mais pesado que eu. O senhor vai entregar-lhe esta carta e, se ele perguntar onde é que me viu, dirá que desembarcou em Doncieres (o que aliás era verdade) para ver Robert (o que talvez não seja verdade), mas que me encontrou com alguém a quem não conhecia, que eu parecia bastante encolerizado, que o senhor julgou surpreender palavras de envio de testemunhas (na verdade, bato-me amanhã). Principalmente, não lhe diga que peço para chamá-lo, nem procure trazê-lo, mas, se ele quiser voltar com o senhor, não o impeça. Vá, meu menino, é para o bem dele, o senhor pode evitar um grande drama. Enquanto estiver fora, vou escrever às minhas testemunhas. Impedi o senhor de ir passear com sua prima. Espero que ela não me queira mal por isso, e até o creio. Pois trata-se de uma alma nobre e sei que é daquelas que sabem não se furtar à grandeza das circunstâncias. Terá de agradecei-lhe em meu nome. Sou-lhe pessoalmente devedor e agrada-me que assim seja. -

     Sentia grande piedade pelo Sr. de Charlus; parecia-me que Charlie poderia impedir esse duelo, do qual talvez fosse a causa; e, se assim era, sentia-me revoltado que ele tivesse ido embora com aquela indiferença em vez de dar assistência a seu protetor. Minha indignação cresceu quando, ao chegar à casa em que residia Morel, reconheci a voz do violinista que, pela necessidade de expandir sua alegria, cantava a plenos pulmões: "Na noite de sábado, depois do batente!" Se o pobre Sr. de Charlus o ouvisse, justo ele que desejava que acreditassem, e sem dúvida acreditava, que Morel tinha o coração pesado naquele momento! Charlie pôs-se a dançar de prazer quando me viu. 

- Oh, meu velho (perdoe-me chamá-lo desse modo, mas com essa maldita vida de militar a gente adquire maus hábitos), que sorte que o vejo! Não tenho nada a fazer de noite. Vamos passá-la juntos, que tal? Ficaremos aqui, se isto lhe agrada; se achar melhor, vamos passear de bote, tocaremos música, não tenho qualquer preferência.

     Disse-lhe que era obrigado a jantar em Balbec, ele tinha muita vontade de que o convidasse, mas eu não queria.

- Mas, se está tão apressado, por que veio até aqui? 
- Trago-lhe uma carta do Sr. de Charlus. -

     A esse nome, toda a sua alegria desapareceu; seu rosto contraiu-se. 

- Como! Até aqui ele vem me importunar? Então eu sou um escravo! Meu velho, seja amável. Não vou abrir a carta. Você lhe dirá que não me encontrou. 
- Não seria melhor abri-la? Acho que contém algo de grave. 
- Cem vezes não, você não conhece as mentiras, as manhas infernais desse velho pirata. É um truque para que vá vê-lo. Pois bem! Não irei, quero ter paz esta noite. 
- Mas não haverá um duelo amanhã? - perguntei a Morel, que eu julgava a par de tudo. 
- Um duelo? -indagou com ar estupefato. - Não sei uma só palavra a respeito. Afinal, pouco me importa. Esse velho repulsivo bem pode se deixar esfaquear se lhe agrada. Mas olhe, você me deixou intrigado; em todo caso, vou ler a carta dele. Diga-lhe que a deixou aqui, para o caso de eu voltar para casa. -

     Enquanto Morel me falava, eu olhava com espanto os admiráveis livros que o Sr. de Charlus lhe dera e que atulhavam o quarto. Tendo o violinista recusado aqueles que traziam a divisa: "Pertenço ao barão, etc.", divisa que lhe parecia insultante para si próprio, como um sinal de posse, o barão, com o engenho sentimental em que se compraz o amor infeliz, tinha variado com outras, provenientes de ancestrais, porém encomendadas ao encadernador conforme as circunstâncias de uma amizade melancólica. Às vezes eram breves e confiantes, como Spes mea, ou como Exspectata non eludet; às vezes, apenas resignadas, como "Esperarei"; algumas galantes: Mesmes, prazer do Mestre, ou recomendando a castidade, como aquela tomada de empréstimo aos Simiane, semeada de torres de blau (azul) e de flores-de-lis, e desviada de seu sentido: Sustentant lilia turres; outras, enfim, desesperadas e marcando encontro no céu para quem não quisera saber dele na terra: Manet ultima coelo; e achando muito verdes as uvas que não podia alcançar, fingindo não ter procurado aquilo que não obtivera, o Sr. de Charlus dizia em uma: Non mortale quod opto. Mas não tive tempo de ver todas. Se o Sr. de Charlus, lançando no papel essa carta, parecera possuído do demônio da inspiração que fazia correr a sua pena, assim que Morel rompeu o selo: Atavis et armis.

[Tradução respectiva das expressões em latim: Spes mea, "minha esperança"; Exspectata non eludet, "Não decepcionará minhas expectativas"; Sustentant filia turres, "As torres sustentam os lírios"; Manet ultima coelo, "O fim pertence ao céu"; Non mortale quod opto, "Tenho a ambição de um imortal". Atavis et armis: "Pelos ancestrais e pelas armas." (N. do T)] 

     Acometido por um leopardo acompanhado de duas rosas de goelas, pôs-se a ler com tão grande febre como a que tivera o Sr. de Charlus ao escrever, e sobre essas páginas preenchidas ao acaso, o seu olhar não corria menos depressa que a pena do barão. 

- Ah, meu Deus! - gritou - só faltava mais essa! Mas onde encontrá-lo? Deus sabe onde estará agora. -

     Insinuei que, se a gente se apressasse, iria encontrá-lo ainda no mesmo café onde ele pedira cerveja para se refazer. 

- Não sei se voltarei - disse ele à governanta da casa, e acrescentou in petto: - Isso dependerá do aspecto que as coisas assumirem. -

     Minutos depois chegávamos ao café. Notei o aspecto do Sr. de Charlus ao me avistar. Vendo que eu não voltava sozinho, senti que a respiração e a vida lhe eram devolvidas. Estando naquela noite num estado de espírito em que não podia dispensar Morel, inventara que lhe tinham dito que dois oficiais do regimento haviam falado mal dele a propósito do violinista e que ele ia enviar-lhes suas testemunhas. Morel adivinhara o escândalo, sua vida ficaria impossível no regimento, e havia acorrido. No que absolutamente não procedera mal. Pois, para tornar mais verossímil a sua mentira, o Sr. de Charlus já escrevera a dois amigos (um deles era Cottard) para pedir que fossem suas testemunhas. E, se o violinista não tivesse vindo, é certo que, doido como era o Sr. de Charlus (e para mudar sua tristeza em furor), ele os teria enviado a um oficial qualquer, ao acaso, oficial com quem lhe seria um alívio bater-se. Durante esse tempo, o Sr. de Charlus, lembrando-se que era de mais pura estirpe que a Casa de França, dizia consigo que ele era muito bom por inquietar-se tanto por causa do filho de um mordomo, cujo patrão ele não se dignaria a frequentar. Por outro lado, se apenas lhe agradava agora a companhia dos crápulas, o hábito arraigado que têm estes de não responder a uma carta, de faltar a um encontro sem prevenir, sem se desculparem depois, dava-lhe, como se tratava muitas vezes de amores, tantas emoções, e, no resto de tempo, lhe causava tanta irritação, constrangimento e raiva, que às vezes chegava a lamentar a multiplicidade de caretas por um nada, a exatidão escrupulosa dos príncipes e embaixadores, os quais, se desgraçadamente lhe eram indiferentes, apesar de tudo davam-lhe uma espécie de repouso. Habituado aos modos de Morel e sabendo da pouca influência que tinha sobre ele e de como era incapaz de insinuar-se numa vida em que as camaradagens vulgares mais consagradas pelo hábito ocupavam excessivo lugar e tempo para que se reservasse uma hora ao grão-senhor repelido, orgulhoso e que implorava em vão, o Sr. de Charlus estava de tal modo persuadido de que o músico não viria, de tal maneira receava estar brigado para sempre com ele, por ter ido longe demais, que mal pôde reter um grito ao vê-lo. Porém, sentindo-se vencedor, fez questão de ditar as condições de paz e delas tirar as vantagens que pudesse. 

- Que vem fazer aqui? - disse-lhe. - E o senhor? - acrescentou, olhando-me - eu lhe havia recomendado, acima de tudo, que não o trouxesse. 
- Ele não queria me trazer - disse Morel, virando para o Sr. de Charlus, na ingenuidade de sua coqueteria, olhares convencionalmente tristes e langorosamente desusados, com um ar, que sem dúvida julgava irresistível, de querer beijar o barão e de ter vontade de chorar. - Fui eu que vim contra a vontade dele. Venho, em nome da nossa amizade, para suplicar de joelhos que não cometa essa loucura. 

     O Sr. de Charlus delirava de alegria. A reação era muito forte para os seus nervos; apesar disso, manteve-se senhor da situação. 

- A amizade, que o senhor invoca de modo bastante inoportuno - respondeu ele em tom seco - devia pelo contrário conseguir a aprovação de sua parte, quando acho que não devo deixar passar em branco as impertinências de um tolo. Além disso, se eu quisesse obedecer aos rogos de uma afeição que já conheci mais bem inspirada, não poderia mais fazê-lo, visto que as cartas já foram expedidas às minhas testemunhas e não duvido que sejam aceitas. O senhor sempre agiu comigo como um perfeito imbecil e, em vez de se orgulhar, como seria de seu direito, da predileção com que eu o assinalava, em vez de fazer compreender, à chusma de ajudantes ou de criados em meio aos quais a lei militar o força a viver, que motivo de incomparável orgulho era para o senhor uma amizade como a minha, procurou desculpar-se, quase transformando num mérito estúpido o fato de não ser devidamente reconhecido. Sei que nisso acrescentou, para não deixar perceber o quanto certas cenas o haviam humilhado o senhor só é culpado de ter-se deixado levar pelo ciúme dos outros. Mas como é que, na sua idade, pode ser tão criança (e criança mal-educada) para não ter adivinhado imediatamente que minha preferência pelo senhor e todas as vantagens que daí deviam resultar iriam provocar ciúmes? Que todos os seus camaradas, enquanto o incitavam a brigar comigo, iriam trabalhar para tomar o seu posto? Achei que não devia mostrar-lhe as cartas que recebi, sobre o assunto, de todos aqueles em quem mais confia. Desdenho tanto as investidas desses lacaios como suas vãs zombarias. A única pessoa que me preocupa é o senhor, porque muito o estimo, mas a afeição tem limites, e o senhor bem o deveria saber. -

continua na página 216...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)
Volume 6
Volume 7

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (25 de março - Um dia branco de inverno.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     25 de março - Um dia branco de inverno.
 
          Eu li o que escrevi ontem, e cheguei perto de rasgar o caderno inteiro. Parece-me que meu estilo de narrativa é muito demorado e muito enjoativo. No entanto, como minhas lembranças remanescentes daquele período não apresentam nada alegre, a não ser a alegria daquela natureza peculiar que Lérmontoff tinha em vista quando disse que é uma coisa alegre e dolorosa tocar as úlceras de feridas antigas, então por que não deveria me observar? Mas eu não devo impor-me à bondade. Por isso, vou continuar sem lamentos.
     Pelo espaço de uma semana inteira, depois daquele passeio fora da cidade, minha posição não melhorou nada, embora a mudança em Liza se tornasse mais perceptível a cada dia. Como já afirmei, interpretei essa mudança da maneira mais favorável possível para mim mesmo.... A desgraça dos homens solitários e tímidos - aqueles que são tímidos pelo amor próprio - consiste precisamente nisto que eles, tendo olhos, e até mesmo mantendo-os olhando bem abertos, não veem nada, ou o veem sob uma falsa luz, como através de óculos coloridos. E seus próprios pensamentos e observações os atrapalham a cada passo.
     No início de nosso convívio, Liza havia me tratado com confiança e franqueza, como uma criança; talvez, até mesmo, em seu gosto por mim houvesse algo de simples, de afeto infantil... Mas quando aquela estranha, quase repentina crise ocorreu nela, depois de uma pequena perplexidade, ela se sentiu envergonhada na minha presença, se afastou de mim involuntariamente, e ao mesmo tempo ficou triste e pensativa... Ela estava esperando.... o quê? Ela mesma não sabia ..... mas eu ..... Eu, como já disse, me alegrei com aquela crise...... Como Deus é minha testemunha, eu quase desmaiei de arrebatamento, como diz o ditado. No entanto, estou disposto a admitir que qualquer outra pessoa no meu lugar também poderia ter sido enganada..... Quem é desprovido de amor-próprio? É desnecessário dizer que tudo isso só ficou claro para mim depois de um tempo, quando fui obrigado a dobrar minhas asas feridas, que na melhor das hipóteses não eram muito fortes.
     O mal-entendido que surgiu entre Liza e eu durou uma semana inteira, - e não há nada de surpreendente nisso: foi o meu destino ser testemunha de mal-entendidos que duraram anos e anos. E quem disse que só o verdadeiro é real? Uma mentira é tão tenaz da vida quanto a verdade, se não mais. É um fato, lembro-me, que mesmo durante aquela semana tive um surto de vez em quando.... mas um homem solitário como eu, direi mais uma vez, é tão incapaz de compreender o que se passa dentro dele quanto de compreender o que se passa diante de seus olhos. Sim, e mais do que isso: o amor é um sentimento natural? É natural para um homem amar? O amor é uma doença; e para uma doença, a lei não está escrita. Suponha que o meu coração às vezes se contraísse desagradavelmente dentro de mim; mas, então, tudo em mim estava virado de cabeça para baixo. Como pode um homem saber em tais circunstâncias o que é certo e o que é errado, qual é a causa, qual é o significado de cada sensação separada?
     Mas, seja como for, todos esses mal-entendidos, pressentimentos e esperanças foram resolvidos da seguinte maneira.
     Um dia,- era de manhã, por volta das onze horas,- antes de eu ter conseguido colocar o meu pé no Sr. A ante-sala de Ozhógin, uma voz estranha e estridente ressoava no salão, a porta voou aberta, e, acompanhado pelo dono da casa, apareceu no umbral um homem alto e imponente de vinte e cinco anos, que apressadamente jogou em seu manto militar, que estava deitado no banco, despediu-se afetuosamente de Kiríll Matvyéevitch, tocou seu boné negligentemente enquanto passava por mim - e desapareceu, apertando suas esporas.

"Quem é esse?" - perguntei a Ozhógin.
"Príncipe N****," -replicou este último, com uma cara perturbada;-"ele foi enviado de Petersburgo para receber os recrutas. Mas onde estão aqueles criados?" - prosseguiu ele com vexação:-"não havia ninguém para pendurar seu manto".

     Nós entramos no salão.

"Ele está aqui há muito tempo?" - perguntei.
"Dizem que ele veio ontem à noite. Eu lhe ofereci um quarto em minha casa, mas ele recusou. No entanto, ele parece ser um jovem muito simpático".
"Ele ficou muito tempo com você?"
"Cerca de uma hora. Ele me pediu para apresentá-lo à Olympiáda Nikítichna".
"E você o apresentou?"
"Certamente."
"E ele conheceu Lizavéta Kiríllovna?...."
"Sim, ele a conheceu, é claro".

     Eu não disse nada por um tempo.

"Ele veio para ficar por muito tempo, sabe?"
"Sim, acho que ele será obrigado a ficar aqui mais do que quinze dias."

     E Kiríll Matvyéevitch fugiu para se vestir.
     Subi e desci o corredor várias vezes. Não me lembro que a chegada do Príncipe N**** me causou uma impressão especial na época, exceto aquela sensação desagradável que costuma nos tomar posse no aparecimento de um novo rosto em nosso círculo doméstico. Talvez essa sensação se misturasse com algo na natureza da inveja do tímido e obscuro homem de Moscou pelo brilhante oficial de Petersburgo - "O Príncipe," - pensei - "é um elegante da capital; ele nos olhará de cima..."... Eu não o via há mais de um minuto, mas tinha conseguido notar que ele era bonito, alerta e de fácil educação.
     Depois de andar um pouco pelo salão, parei, finalmente, diante de um espelho, tirei do bolso um pente minúsculo, dei ao meu cabelo uma desordem pitoresca e, como às vezes acontece, de repente me envolvi na contemplação do meu próprio rosto. Lembro que minha atenção estava concentrada com particular solicitude em meu nariz; o contorno bastante flácido e indefinido daquela característica não me dava nenhuma gratificação especial - quando, de repente, nas profundezas escuras do vidro inclinado, que refletia quase toda a sala, a porta se abriu, e a graciosa figura de Liza fez sua aparição. Não sei porque não mexi e mantive a mesma expressão no meu rosto. Liza girava a cabeça para frente, olhava atentamente para mim e, levantando as sobrancelhas, mordendo os lábios e prendendo a respiração, como uma pessoa que se alegra de não ter sido vista, se retirava cautelosamente, e suavemente puxava a porta para atrás dela. A porta rangia levemente. Liza estremeceu, e ficou parada na hora. Eu não me mexi..... Novamente ela puxou o puxador da porta, e desapareceu. Não havia possibilidade de dúvida: a expressão do rosto de Liza à vista de minha pessoa não denotou nada além de um desejo de bater uma retirada bem sucedida, para evitar um encontro desagradável; o brilho rápido do prazer que consegui detectar em seus olhos, quando ela pensou que realmente tinha conseguido escapar impenetrável, - tudo isso dizia, mas com muita clareza: aquela jovem garota não estava apaixonada por mim. Durante muito, muito tempo não consegui desviar o olhar da porta imóvel e burra, que novamente se apresentava como uma mancha branca nas profundezas do espelho; tentei sorrir para a minha própria figura ereta - abracei a cabeça, voltei para casa e me atirei sobre o divã. Senti-me repentinamente pesado no coração, tão pesado que não consegui chorar................................ "Será que pode ser?" - Eu repetia incessantemente, deitado, como um morto, de costas, e com as mãos dobradas no peito..... Como você gosta desse "Pode ser?"...

continua em... 26 de março 
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25 de março - Um dia branco de inverno / 26 de março - Um descongelamento /                 
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Bom dia, Clássicas... Ária - J. S. Bach

Sopranos


     O Air (da Suíte nº 3 em Ré maior) não foi originalmente escrito para voz — é uma peça instrumental. Quando a soprano canta essa obra, ela precisa: transformar uma linha instrumental em fraseado vocal orgânico; manter pureza de timbre e controle absoluto do vibrato¹; sustentar longas frases com respiração impecável: evitar excessos, porque a peça exige serenidade e equilíbrio.

[1] O vibrato é uma das características mais marcantes e desejadas no canto — aquele ondulado natural na nota que dá vida, emoção e brilho à voz.


J.S.Bach - Air on the G String (Orchestral Suite No. 3)



A soprano deve cantar com pureza, controle, legato² contínuo e expressão contida — como um instrumento de Bach, não como uma diva romântica. 

[2] O legato é uma técnica musical que consiste em ligar as notas de forma contínua, sem interrupções audíveis entre elas. Essa técnica é fundamental para a interpretação de diversas peças musicais, pois proporciona uma fluidez que enriquece a expressividade da música. 


Kalinka Damiani - melodia vocal longa, contínua e lírica com uma atmosfera contemplativa




O papel das sopranos na música clássica é central, poderoso e historicamente simbólico. É a voz que conduz, emociona e simboliza a resposta curta. 


Delcy - uma mistura da técnica clássica com estética contemporânea




A voz soprano representa o auge da expressividade humana no registro agudo³, sendo usada para transmitir pureza, heroísmo, paixão, sofrimento e transcendência.

[3] O registro agudo da soprano é a região mais alta da voz feminina — aquela faixa brilhante, clara e penetrante que costuma dar o “brilho” característico às sopranos.


Wendy Kokkelkoren - pureza, estabilidade e serenidade emocional





J.S.Bach - Aria z III Suity Orkiestrowej D-dur BWV 1068




sábado, 30 de maio de 2026

MPB: Codinome beija-flor

Luiz Melodia








Pra que mentir, fingir que perdoou?
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
(Que coincidência é o amor)
A nossa música (nunca mais tocou)

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções?
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos beija-flor

Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome beija-flor
Não responda nunca, meu amor, nunca
Pra qualquer um na rua, beija-flor

Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador

Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor







Cazuza - Entrevista - 1986





Luiz Melodia, Cássia Eller 
- Juventude Transviada (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 1999)





Gente de Expressão - Luiz Melodia





Luiz Melodia - Pérola Negra (Ao Vivo)





Luiz Melodia e a brilhante estreia com PÉROLA NEGRA 
| ALBUM REVIEW





Feras que virão




Codinome Beija-flor /       

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra (5)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     37. Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra
          Há pouco menos de um século, um homem quase morto de fome lutava contra as rochas em meio às desolações do altiplano da Bolívia. A dinamite explodiu. Quando ele se aproximou para recolher os pedaços de pedra triturados pela explosão, deslumbrou-se. Tinha nas mãos cacos do mais rico veio de estanho do mundo. Ao amanhecer do dia seguinte, montou a cavalo rumo a Huanuni. A análise das amostras confirmou o valor do achado. O estanho podia ser levado diretamente do veio para o porto, sem necessidade de passar por processo algum de concentração. Aquele homem se tornou o rei do estanho, e quando morreu a revista Fortune afirmou que ele era um dos dez multimilionários mais multimilionários do planeta. Chamava se Simón Patiño. Da Europa, durante muitos anos, fez e derrubou presidentes e ministros bolivianos, planificou a fome dos operários e organizou suas matanças, ramificou e estendeu sua fortuna pessoal: a Bolívia era um país que existia só para servi-lo. 
     A partir das jornadas revolucionárias de abril de 1952, a Bolívia nacionalizou o estanho. No entanto, aquelas riquíssimas minas agora já eram pobres. No cerro Juan del Valle, onde Patiño descobrira o fabuloso filão, a lei do estanho se reduzira 120 vezes. Das 156 mil toneladas de rocha que saem mensalmente pelas bocas das minas, são recuperadas apenas 400. As perfurações já somam, em quilômetros, uma distância duas vezes maior do que aquela que separa a mina da cidade de La Paz: o cerro, por dentro, é um formigueiro atravessado por infinitas galerias, corredores, túneis e chaminés. Está a caminho de tornar-se uma casca oca. A cada ano perde um pouco mais de altura, e a lenta derrubada vai carcomendo sua crista: de longe, parece um dente cariado.
     Antenor Patiño não só recebeu uma considerável indenização pelas minas que seu pai espremeu, como também manteve o controle do preço e do destino do estanho expropriado. Da Europa, não cessava de sorrir. “Mister Patiño é o afável rei do estanho boliviano”, seguiriam comentando as crônicas sociais muitos anos depois da nacionalização [1]. Porque a nacionalização, conquista fundamental da revolução de 1952, não modificou o papel da Bolívia na divisão internacional do trabalho. A Bolívia seguiu exportando o material bruto, e quase todo o estanho ainda é refinado nos fornos de Liverpool da empresa Williams, Harvey and Co., que pertence a Patiño. A nacionalização das fontes de produção de qualquer matéria prima, como ensina a dolorosa experiência, não é suficiente. Um país pode continuar tão condenado à impotência como antes, ainda que, nominalmente, torne-se o dono de seu subsolo. Ao longo de sua história, a Bolívia produziu minerais brutos e discursos refinados. Abundam a retórica e a miséria; desde sempre, escritores afetados e doutores de fraque se devotaram à absolvição dos culpados. De cada dez bolivianos, seis ainda não sabem ler; a metade das crianças não frequenta a escola. Recém em 1971, a Bolívia terá em funcionamento sua própria fundição nacional de estanho, levantada em Oruro, ao cabo de uma história interminável de traições, sabotagens, intrigas e sangue derramado [2]. Esse país que, até agora, não podia produzir seus próprios lingotes, dá-se ao luxo de contar com oito faculdades de Direito, destinadas à fabricação de vampiros de índios.

[1The New York Times de 13 de agosto de 1969 o definia nesses termos, ao descrever em êxtase as férias do duque e da duquesa de Windsor no castelo do século XVI que Patiño possui nos arredores de Lisboa. “Agrada-nos dar aos empregados um pouco de calma e de paz”, confessava a senhora, enquanto explicava para Charlotte Curtis seu programa do dia.
      Depois, é o tempo das férias de montanha na Suíça; os fotógrafos e os jornalistas perseguem os condes e os artistas da moda em Saint Moritz. Uma milionária de 50 anos acaba de perder o segundo marido, vice-presidente da Ford, e sorri diante dos flashes: anuncia seu próximo casamento com um jovenzinho que a toma pelo braço e olha com olhos assustados. Ao lado, outro casal do grande mundo. Ele é um homem de baixa estatura e traços indígenas: sobrancelhas espessas, olhos duros, nariz achatado, pômulos salientes. Antenor Patiño continua parecendo boliviano. Numa revista, Antenor aparece fantasiado de príncipe oriental, com turbante e tudo, entre vários príncipes autênticos que se reuniram no palácio do barão Alexis de Rédé: a princesa Margarita da Dinamarca, o príncipe Enrique, María Pía de Saboya e seu primo o príncipe Miguel de Bourbon-Parma, o príncipe Lobckowitz e outros trabalhadores.
[2] Quando o general Alfredo Ovando anunciou, em julho de 1966, que se chegara a um acordo com a empresa alemã Klochner para a instalação dos fornos estatais, disse também que teriam um novo destino “essas pobres minas que, até agora, só serviram para abrir buracos nos pulmões de nossos irmãos mineiros”. Esses homens que dão sua vida ao mineral, escrevia Sergio Almaraz Paz (El poder y la caída. El estaño en la historia de Bolivia. La Paz; Cochabamba, 1967), “não o possuem. Nunca o possuíram, nem antes nem depois de 1952. Porque o que acontece é que o estanho, para aproveitamento imediato, nada vale senão com o brilhante aspecto de um lingote. O mineral, pó pesado de terroso aspecto, certamente não serve para nada, ou só serve para ser despejado à boca do forno.
      Almaraz Paz contou a história de um industrial, Mariano Peró, que ao longo de 30 anos sustentou uma guerra solitária para que o estanho boliviano fosse refinado em Oruro e não em Liverpool. Em 1946, poucos dias depois da queda do presidente nacionalista Gualberto Villarroel, Peró entrou no Palacio Quemado. Ia recolher dois lingotes de estanho. Eram os primeiros lingotes produzidos em sua fundição de Oruro, e já não havia sentido que aquele par de símbolos, que encarnavam a nação, continuassem decorando o gabinete do Presidente da República. Villarroel tinha sido enforcado num poste da Plaza Murillo e a partir de sua queda o poder da rosca oligárquica fora restaurado. Mariano Peró apanhou os lingotes e foi embora com eles. Estavam manchados de sangue seco.

     Contam que, há um século, o ditador Mariano Melgarejo obrigou o embaixador da Inglaterra a beber um barril inteiro de chocolate, como castigo por ter recusado um copo de chicha. Depois o embaixador teve de desfilar pela rua principal de La Paz, montado ao contrário num burro. E foi devolvido para Londres. Dizem que então a rainha Vitória, enfurecida, mandou trazer o mapa da América do Sul, desenhou com giz uma cruz sobre a Bolívia e decretou: “A Bolívia não existe”. Para o mundo, de fato, a Bolívia não existia e nem existiu depois: o saque da prata e, posteriormente, do estanho, não passaram de um exercício do direito natural dos países ricos. Afinal, as embalagens de lata identificam os Estados Unidos tanto quanto o emblema da águia e a torta de maçã. Mas tal embalagem não é só um símbolo pop dos Estados Unidos; embora não se saiba, é também um símbolo da silicose nas minas de Huanuni e Século XX: a lata contém estanho, e os mineiros bolivianos morrem com os pulmões apodrecidos para que o mundo possa consumir estanho barato. Meia dúzia de homens fixa seu preço mundial. Para os consumidores de conservas ou os manipuladores da Bolsa, que importa a dura vida do mineiro da Bolívia? Os norte-americanos compram a maior parte do estanho que é refinado no planeta: para manter em dado limite os preços, periodicamente ameaçam lançar no mercado suas enormes reservas do mineral, compradas por muito menos do que a cotação, a preços de “contribuição democrática” nos anos da Segunda Guerra Mundial. Segundo os dados da FAO, o cidadão médio dos Estados Unidos consome cinco vezes mais carne e leite e vinte vezes mais ovos do que um habitante da Bolívia. E os mineiros estão muito abaixo da média nacional. No cemitério de Catavi, onde os cegos rezam pelos mortos em troca de uma moeda, dói encontrar, entre as lápides escuras dos adultos, um sem-número de cruzes brancas sobre as tumbas pequeninas. De cada duas crianças nascidas nas minas, morre uma pouco tempo depois de abrir os olhos. A outra, a que sobrevive, seguramente vai ser mineira quando crescer. E antes dos 30 anos já não terá pulmões.
     O cemitério range. Debaixo dos túmulos, foram cavados incontáveis túneis, cavernas de boca estreita onde mal cabem os homens que ali se introduzem como viscachas, em busca do mineral. Novas jazidas de estanho se acumularam nos aterros ao longo dos anos, toneladas de resíduos sobre resíduos despejados em gigantescos montes cinzentos que, assim, somaram estanho ao estanho da paisagem. Quando cai a chuva com violência das nuvens próximas, os desempregados se agacham ao longo das ruas de terra de Llallagua, onde os homens se embriagam desesperadamente nas bodegas de chicha: vão recolhendo e calculando o peso do estanho arrastado pela chuva. Ali o estanho é um deus de lata que reina sobre os homens e as coisas, e está presente em todos os lugares. Não é só no ventre do velho cerro de Patiño que há estanho. Anunciado pelo brilho negro da cassiterita, há estanho até nas paredes de adobe dos acampamentos. Há estanho também na lama amarelada que avança arrastando as sobras da mina, e há estanho ainda nas águas envenenadas que correm da montanha; o estanho está presente na terra e na rocha, na superfície e no subsolo, nas areias e nas pedras do leito do rio Seco. Nessas terras áridas e pedregosas, a quase 4 mil metros de altitude, onde não cresce o pasto e onde tudo, até as pessoas, tem a cor escura do estanho, os homens sofrem estoicamente seu obrigado jejum e não conhecem a festa do mundo. Vivem em acampamentos, amontoados em casas de uma única peça de chão batido; o vento cortante entra pelas frestas. Um informe universitário sobre a mina de Colquiri revela que, de cada dez rapazes pesquisados, seis dormem na mesma cama de suas irmãs, e acrescenta: “Muitos pais se sentem constrangidos quando seus filhos os observam durante o ato sexual”. Não há banheiros; as latrinas são pequenos cubículos cheios de imundície e moscas: as pessoas preferem usar os quintais, áreas abertas, onde ao menos circula o ar, apesar do lixo e dos excrementos acumulados e dos porcos que se refocilam felizes. Também é coletivo o serviço de água: é preciso esperar que a água chegue e se apressar, fazer a fila, recolher a água do tanque público com latões de gasolina ou jarros de barro. A comida é escassa e de mau aspecto: batatas, macarrão, arroz, farinha, milho miúdo e um naco de carne dura.
     Estávamos no fundo do cerro Juan del Valle. O uivo penetrante de uma sirene, que chamava os trabalhadores do primeiro turno, ressoara no acampamento algumas horas antes. Recorrendo galerias, passávamos do calor tropical ao frio polar e novamente ao calor, sem sair, durante horas, de uma mesma atmosfera envenenada. Aspirando aquele ar espesso – umidade, gases, pó, fumaça –, podíamos compreender por que os mineiros, em poucos anos, perdem os sentidos do olfato e do gosto. Enquanto trabalhavam, todos mastigavam folhas de coca com cinza, e isto também era parte da obra de aniquilação, pois a coca, como se sabe, ao atenuar a fome e mascarar a fadiga, vai apagando o sistema de alarmas com que conta o organismo para continuar vivo. Mas o pior era o pó. Os capacetes com lâmpada acoplada irradiavam um rebuliço de círculos de luz que salpicavam a gruta negra e deixavam ver, à sua passagem, cortinas de um pó branco e denso: o implacável pó da sílica. O mortal alento da terra vai envolvendo pouco a pouco. No primeiro ano, sentem-se os primeiros sintomas, e em dez anos entra-se no cemitério. Dentro da mina são usadas perfuratrizes suecas em seus últimos modelos, mas os sistemas de ventilação e as condições de trabalho não melhoraram com o tempo. Na superfície, os trabalhadores independentes usam picareta e pesadas marretas de doze libras para lutar com a rocha, exatamente como há 100 anos, e peneiras, filtros, coadores para concentrar o material em campo aberto. Ganham centavos e trabalham como animais. No entanto, muitos deles têm, ao menos, a vantagem do ar livre. Dentro da mina, os obreiros são presos condenados sem apelação a morrer por asfixia.
     Cessara o estrépito das brocas e os operários faziam uma pausa enquanto aguardávamos a explosão de mais de vinte cargas de dinamite. A mina também proporciona mortes rápidas e sonoras: basta um erro na contagem das detonações ou que a mecha demore mais do que o normal para arder. Basta também que uma rocha solta, um pesado fragmento desprenda-se sobre um crânio. Ou basta o inferno da metralhadora: a noite de São João de 1967 foi a última conta de um longo rosário de matanças. De madrugada, os soldados tomaram posição nas colinas, joelhos no chão, e lançaram um furacão de balas sobre os acampamentos iluminados pelas fogueiras da festa [3]. Mas a morte lenta e silenciosa é a especialidade da mina. O vômito de sangue, a tosse, a sensação de um peso de chumbo nas costas e uma aguda opressão no peito são os sinais que a anunciam. Depois do exame médico vêm as peregrinações burocráticas, que nunca se acabam. Dão o prazo de três meses para desocupar a casa.

[3]  “Quando me sento, bêbado estou. Três, quatro, vejo as gentes. Não posso comer só. Uma huahua eu sou, pois. Uma criança.” Saturnino Condori, velho pedreiro do acampamento mineiro da mina Século XX, há mais de três anos está deitado numa cama do hospital de Catavi. É uma das vítimas da matança da noite de São João, em 1967. Ele nem sequer estivera a festejar. Ofereceram-lhe um pagamento triplo para que trabalhasse no sábado, 24, e então, diferentemente dos demais, resolveu não se afundar no delírio da chicha e da farra. Deitou-se cedo. Nessa noite sonhou que um cavaleiro atirava espinhos em seu corpo. “Me atirou espinhos grandes”. Despertou várias vezes, pois a chuva de balas sobre o acampamento começou às cinco da manhã. “Meu corpo se desarranjou, se desmanchou, uma mornidão me pegou e eu assustado, assustado, assim eu estava. Minha mulher disse: anda, foge. Mas eu não tinha feito nada, nem tinha ido a parte alguma. Anda, anda, ela disse. Tiroteios havia de noite, que será isso, que será, pap-pap-pap-pap-pap e eu despertando e dormindo assim, aos poucos, e nem assim escapei. Minha mulher disse: anda logo, anda, foge. Mas o que vão me fazer, eu digo, sou um pedreiro particular, o que vão me fazer?” Ele despertou por volta das oito da manhã. Ergueu-se na cama. A bala atravessou o teto, atravessou o chapéu de sua mulher e rebentou sua coluna vertebral.

     Já havia cessado o estrépito das brocas e a explosão logo estremeceria aquele veio escorregadio cor de café e lembrando uma cobra. Agora era possível falar. O volume da coca inflava as bochechas dos operários e pelas comissuras de seus lábios escorria uma baba esverdeada. Um mineiro passou, apressado, chapinhando no barro entre os trilhos da galeria. “Esse é novato”, disseram-me, “viu só? Com sua calça do exército e o blusão amarelo sobressai sua juventude. Ele entrou agorinha e como trabalha. Ainda é um bom braço. Ainda não sente nada.”
     Os tecnocratas e os burocratas não morrem de silicose, mas vivem dela. O gerente geral da COMI OL, Corporação Mineira Boliviana, ganha 100 vezes mais do que um obreiro. De um barranco que cai a pique no leito do rio, no limite de Llallagua, pode-se ver o pampa de María Barzola. Chama-se assim em homenagem a uma militante operária que, há quase 30 anos, à frente de uma manifestação, caiu com a bandeira da Bolívia cosida ao corpo pelas rajadas de metralhadoras. E além do pampa de María Barzola pode-se ver o melhor campo de golfe da Bolívia: é o campo usado pelos engenheiros e principais funcionários de Catavi. O ditador René Barrientos reduziu à metade o salário de fome dos mineiros, em 1964, ao mesmo tempo em que elevou a remuneração de técnicos e burocratas proeminentes. Os estipêndios do pessoal superior são secretos. Secretos e em dólares. Há um poderoso grupo assessor formado por técnicos do anco Interamericano de Desenvolvimento, da Aliança para o Progresso e da banca estrangeira credora, cujos conselhos orientam a mineração nacionalizada da Bolívia de tal modo que, nesta altura, a COMIBOL, convertida num Estado dentro do Estado, constitui uma propaganda viva contra a nacionalização de qualquer coisa. O poder da velha rosca oligárquica foi substituído pelo poder de numerosíssimos membros de uma “nova classe” que têm dedicado seus melhores esforços para sabotar por dentro a mineração estatal. Os engenheiros não só torpedearam todos os projetos e planos destinados à criação de uma fundição nacional, como também colaboraram para que as minas do Estado ficassem fechadas nos limites das velhas jazidas de Patiño, Aramayo e Hochschild, em acelerado processo de esgotamento de reservas. Entre fins de 1964 e abril de 1969, o general Barrientos rompeu a barreira do som na entrega dos recursos do subsolo boliviano ao capital imperialista, com a aberta cumplicidade de técnicos e gerentes. Sergio Almaraz, num de seus livros [4], conta a história da concessão dos aterros de estanho à International Mining Processing Co. Com um capital declarado de apenas cinco mil dólares, a empresa de tão pomposo nome obteve um contrato que lhe permitirá ganhar mais de 900 milhões.

[4] ALMARAZ PAZ, op. cit.

continua na página 248...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra (5)

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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (24 de março - Uma geada dura.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     24 de março - Uma geada dura.

          No mesmo dia da minha chegada à cidade de O***, os negócios governamentais acima mencionados me levaram a chamar um certo Ozhógin, Kiríll Matvyéevitch, um dos chefes do condado; mas conheci-o, ou, como diz o ditado, fiquei íntimo dele, duas semanas depois. Sua casa estava situada na rua principal, e se distinguia de todas as outras pelo seu tamanho, seu teto pintado, e dois leões no portão, pertencentes àquela raça de leões que carregam uma semelhança notável com os cães infrutíferos cujo local de nascimento é Moscou. Só desses leões é possível deduzir que Ozhógin era um homem opulento. E, na verdade, ele possuía quatrocentas almas de servos; ele recebeu em sua casa a melhor sociedade da cidade de O***, e teve a reputação de ser um homem hospitaleiro. O chefe de polícia veio até ele, em um grande carroção de cenoura puxada por um par de cavalos, um homem notavelmente grande, que parecia ter sido esculpido em material usado em lojas. Outros oficiais também o visitaram: o homenzinho, uma criatura amarelada e bastante maliciosa; o agitador, de origem alemã, com rosto de Tatár; o oficial de Caminhos de Comunicação, uma alma terna, um cantor, mas um escândalo; um ex-marechal da Nobreza do condado, um cavalheiro de cabelo pintado, e punhos amarrotados, calças com alças, e aquela expressão extremamente nobre do semblante, tão característica das pessoas que foram julgadas pelos tribunais. Foi visitado também por dois proprietários de terras, amigos inseparáveis, ambos não mais jovens, e até mesmo fios de cabelo com a idade, sendo que o mais jovem estava constantemente esborrachando o mais velho, e fechando a boca com uma e a mesma reprovação: "Venha, isso vai servir, Sergyéi Sergyéitch! O que você sabe sobre isso? Pois você escreve a palavra próbka [rolha] com a letra b.... Sim, cavalheiros, "- ele costumava continuar, com todo o calor da convicção, dirigindo-se aos presentes: - "Sergyéi Sergyéitch escreve não próbka, mas bróbka". E todos os presentes riram, embora, provavelmente, nenhum deles se tenha distinguido particularmente por sua habilidade em ortografia; e o infeliz Sergyéi Sergyéitch se calou, e curvou a cabeça com um sorriso pacífico. Mas estou esquecendo que meus dias estão contados, e estou entrando em detalhes demais. Assim, sem mais circunlóquios: Ozhógin era casado e tinha uma filha, Elizavéta Kiríllovna, e eu me apaixonei por essa filha.
     O próprio Ozhógin era um homem comum, nem bom nem mau; sua mulher começava a se parecer muito com uma galinha idosa; mas a filha deles não saía aos pais. Ela era muito decente, de disposição vivaz e gentil. Seus olhos cinzentos e brilhantes olhavam com naturalidade, e de maneira direta de baixo das sobrancelhas infantis; ela sorria quase que constantemente, e também ria com bastante frequência. Sua voz fresca tinha um toque muito agradável; ela se movia com facilidade, rapidamente, e corava alegremente. Ela não se vestia com muita elegância; vestidos extremamente simples lhe serviam perfeitamente.
     Em geral, eu nunca me conheci rapidamente, e se me senti à vontade com uma pessoa no primeiro encontro - o que, no entanto, quase nunca foi o caso - confesso que isso falou muito a favor do novo conhecido. Não soube de todo como me comportar com as mulheres, e na presença delas ou franzi o rosto e assumi uma expressão feroz, ou exibi meus dentes com um sorriso estúpido, e torci a língua na boca com vergonha. Com Elizavéta Kiríllovna, pelo contrário, me senti em casa desde o primeiro momento. Foi assim que aconteceu. Um dia chego na casa de Ozhógin antes do jantar e pergunto: 

"Ele está em casa? me disseram: "Sim, e ele está se vestindo; por favor, entre no corredor." 

     Eu entro no corredor; vejo uma jovem com um vestido branco de pé junto à janela, de costas para mim, e segurando uma gaiola nas mãos. Eu me enrolo um pouco, de acordo com meu hábito; mas, mesmo assim, tusso por conveniência. A moça se vira rapidamente, tão rápido que seus cachos a golpeiam no rosto, me veem, se curva, e com um sorriso me mostra uma caixinha, meio cheia de sementes.

"Você me dá licença?"

     É claro que, como é costume em tais circunstâncias, eu primeiro curvei a cabeça e, ao mesmo tempo, torci e endireitei os joelhos (como se alguém tivesse me batido por trás na parte de trás das pernas, o que, como todo mundo sabe, serve como um sinal de excelente procriação e agradável facilidade de comportamento), e depois sorri, levantei a mão e a acenei duas vezes com cautela e gentilmente no ar. A menina imediatamente se afastou de mim, tirou da jaula uma pequena tábua, e começou a raspá-la violentamente com uma faca, e de repente, sem mudar de atitude, proferiu as seguintes palavras:

"Esta é a barbatana de touro do papai... Você gosta de barbatanas de touro"?
"Eu prefiro pássaros canários", respondi, não sem um certo esforço.
"E também gosto de canário; mas basta olhar para ele, ver como ele é bonito. Veja, ele não tem medo" - o que me surpreendeu foi que eu não tivesse medo" - "Aproxime-se. O nome dele é Pópka".

     Eu subi, e me curvei.

"-Ele é muito charmoso, não é?"

     Ela virou o rosto para mim; mas estávamos tão próximos um do outro que ela foi obrigada a jogar um pouco a cabeça para trás, para me olhar com seus olhos brilhantes. Eu olhava para ela: todo o seu rosto jovem e rosado sorria de uma maneira tão amigável que eu também sorria, e quase ria de prazer em voz alta. A porta se abriu; o Sr. Ozhógin entrou. Fui imediatamente até ele, e comecei a conversar com ele de uma maneira muito desobediente; não sei como cheguei a ficar para jantar; passei a noite fora, e no dia seguinte, o lacaio de Ozhógin, um sujeito longo e pálido, já estava sorrindo para mim, como amigo da casa, enquanto ele tirava meu sobretudo.
     Encontrar um refúgio, tecer para mim mesmo até um ninho temporário, conhecer a alegria das relações e hábitos cotidianos, - essa era uma felicidade que eu, um homem supérfluo, sem lembranças domésticas, não havia experimentado até aquele momento. Se houvesse algo em mim sugestivo de uma flor, e se essa comparação não fosse tão grosseira, eu decidiria dizer que, a partir daquela hora, comecei a desabrochar em espírito. Tudo em mim e ao meu redor passou por uma mudança tão instantânea! Toda minha vida foi iluminada pelo amor, -literalmente toda minha vida, até os menores detalhes, - como uma câmara escura e deserta, na qual uma vela foi trazida. Deitei-me para dormir e me levantei, me vesti, me deitei e fumei meu cachimbo de uma maneira diferente do meu hábito; até pulei enquanto caminhava, - realmente o fiz, como se as asas tivessem brotado de repente em meus ombros. Lembro-me que não tive dúvidas nem por um minuto, quanto à sensação com que Elizavéta Kiríllovna me inspirou; e desde o primeiro dia me apaixonei por ela apaixonadamente, e desde o primeiro dia, também, soube que estava apaixonado. Eu a via todos os dias, durante três semanas. Essas três semanas foram o momento mais feliz da minha vida; mas a lembrança delas é dolorosa para mim. Não consigo pensar nelas sozinho: aquilo que as seguiu se levanta involuntariamente diante de mim, e a dor venenosa lentamente agarra o coração que acabava de se amolecer.
     Quando um homem está se sentindo muito bem, seu cérebro, como todos sabem, age muito pouco. Um sentimento calmo e alegre, um sentimento de satisfação permeia todo o seu ser; ele é engolido por ele; a consciência da individualidade desaparece nele - ele está em estado de bem-aventurança, como dizem poetas mal educados. Mas quando, finalmente, esse "feitiço" passa, um homem às vezes se sente irritado e arrependido, a ponto de, em meio à felicidade, ser tão despreocupado consigo mesmo que não redobra seus pensamentos, seus reflexos e suas lembranças, que não prolonga seu prazer... como se um homem "feliz" tivesse algum tempo, e como se valesse a pena refletir sobre suas próprias emoções! O homem feliz é como uma mosca ao sol. É por isso que, quando me lembro dessas três semanas, acho quase impossível reter em minha mente uma impressão precisa e definitiva, tanto mais que, como em todo esse tempo, nada de particular se deu entre nós..... Aqueles vinte dias se apresentam para mim como algo quente, jovem e perfumado, como uma espécie de raia brilhante em minha vida sombria e cinzenta. Minha memória de repente se torna implacavelmente fiel e clara, datando apenas do momento em que os golpes do destino desceram sobre mim, falando novamente nas palavras daqueles mesmos escritores malcriados.
     Sim, aquelas três semanas..... Mas não deixaram, precisamente, nenhuma imagem para trás em mim. Às vezes, quando penso muito nesse tempo, certas lembranças de repente flutuam da escuridão do passado - como as estrelas inesperadamente começam no céu noturno a encontrar olhos atentos. Especialmente memorável para mim é um passeio em um bosque fora da cidade. Éramos quatro: a velha Madame Ozhógin, Liza, eu, e um certo Bizmyónkoff, um pequeno funcionário da cidade de O***, um jovem de cabelos lisos, bem-humorado e manso. Terei ocasião de aludir a ele novamente. O Sr. Ozhógin permaneceu em casa: sua cabeça doeu, em conseqüência de ter dormido muito tempo. O dia estava esplêndido, quente e calmo. Devo observar que jardins de diversão e diversão pública não são ao gosto do russo. Nas cidades governamentais, nos chamados Jardins Públicos, nunca se encontrará uma alma viva em nenhuma estação do ano; possivelmente alguma velha mulher se sentará, grunhindo, num banco verde assado ao sol, nas proximidades de uma árvore doente, e isso somente quando não houver uma loja suja perto do portão. Mas se houver um pequeno bétula esparsa nas proximidades da cidade, os comerciantes, e às vezes os funcionários, irão lá de bom grado aos domingos e dias de festa, com seus samovár, patês, melão d'água, e colocarão todos aqueles bons presentes na grama empoeirada, bem ao lado da estrada, se sentarão ao redor, e comerão e beberão chá no suor de suas sobrancelhas até a noite. Exatamente esse tipo de pequeno bosque existia então dois versos distantes da cidade de O****. Nós fomos lá depois do jantar, bebemos chá na forma devida, e então todos nós quatro partimos para um passeio pelo bosque. Bizmyónkoff deu seu braço à velha Madame Ozhógin; eu dei o meu à Liza. O dia já estava inclinado para a noite. Eu estava então no mesmo ardor do primeiro amor (não havia passado mais de quinze dias desde que nos conhecemos), naquela condição de adoração apaixonada e atenta, quando toda sua alma segue inocente e involuntariamente cada movimento do ser amado; quando não pode saciar-se com sua presença, ou ouvir o suficiente de sua voz; quando sorri e parece uma criança convalescente, e qualquer homem de pouca experiência deve ver à primeira vista, a cem passos de distância, o que se passa em você.
     Até aquele dia, eu não tinha conseguido uma única vez estar de braço dado com Liza. Caminhei ao lado dela, pisando suavemente sobre a grama verde. Uma brisa leve parecia estar agitada ao nosso redor, entre os bolos brancos das bétulas, de vez em quando soprando a fita do chapéu dela no meu rosto. Com um olhar importuno eu a observei, até que, finalmente, ela se virou alegremente para mim, e nós sorrimos um para o outro. Os pássaros chilreavam com aprovação, o céu azul espreitava carinhosamente através da fina folhagem. A minha cabeça balançava com excesso de prazer. Eu me apresso a observar que Liza não estava nem um pouco apaixonada por mim. Ela gostava de mim; em geral, ela não era tímida com ninguém, mas eu não estava fadada a perturbar sua tranquilidade infantil. Ela andava de braço dado comigo, como com um irmão. Ela tinha dezessete anos de idade na época. E ainda, naquela mesma noite, na minha presença, começou nela aquela calma, a fermentação interior, que precede a conversão de uma criança em mulher..... Fui testemunha daquela mudança de todo o ser, daquela perplexidade inocente, daquela depressão tremenda; fui o primeiro a notar aquela súbita suavidade do olhar, aquela incerteza zumbida da voz - e, oh, estúpido tolo! oh, homem supérfluo! durante uma semana inteira não tive vergonha de assumir que eu, eu era a causa daquela mudança!
     Foi assim que aconteceu.
     Nós passeamos por um bom tempo, até a noite, e conversamos muito pouco. Eu me calei, como todos os amantes inexperientes, e ela, muito provavelmente, não tinha nada a me dizer; mas ela parecia estar meditando sobre algo, e balançou a cabeça de uma maneira estranha, mordiscando pensativamente uma folha que ela havia arrancado. Às vezes ela começava a avançar de uma maneira tão decidida... e de repente parou, esperou por mim e olhou fixamente para mim com as sobrancelhas levantadas e um sorriso ausente. Na noite anterior, tínhamos lido juntos "A Prisioneira do Cáucaso" Com que afã ela me escutou, com o rosto apoiado em ambas as mãos, e o peito encostado à mesa! Eu tentei falar sobre nossa leitura da noite anterior; ela corou, me perguntou se eu tinha dado a semente de cânhamo antes de começarmos, começou a cantar em voz alta alguma canção, e de repente parou. O bosque terminou de um lado em um penhasco bastante íngreme e alto; abaixo fluía um pequeno rio, serpenteando, e além dele, mais além do que o olho podia ver, estendia prados sem fim, agora inchando ligeiramente como ondas, agora se espalhando como uma toalha de mesa, aqui e ali se cruzando com ravinas. Liza e eu fomos os primeiros a emergir na beira do bosque; Bizmyónkoff ficou para trás com a velha senhora. Saímos, paramos, e ambos involuntariamente estreitamos os olhos: diretamente em frente a nós, no meio da névoa quente, o sol se punha, enorme e carmesim. Metade do céu estava incandescente e flamejante; os raios vermelhos batiam com um brilho suave sobre os prados, lançando um reflexo escarlate mesmo no lado sombrio do barranco, e se deitavam como chumbo ardente sobre o rio, onde não estava escondido debaixo de arbustos suspensos, e parecia estar repousando no colo do barranco e do bosque. Ficamos ali encharcados com o brilho abrasador. Está além do meu poder transmitir toda a solenidade apaixonada daquele quadro. Dizem que a cor vermelha apareceu a um cego como o som de uma trombeta; não sei até que ponto essa comparação é justa; mas, na verdade, havia algo desafiador naquele ouro flamejante do ar noturno, no brilho carmesim do céu e da terra. Eu gritei de arrebatamento, e imediatamente me voltei para Liza. Ela estava olhando diretamente para o sol. Eu me lembro, o brilho do pôr-do-sol era refletido em seus olhos em pequenas manchas flamejantes. Ela estava assustada, profundamente comovida. Ela fez não responder à minha exclamação, não mexeu por muito tempo, e pendurou a cabeça.... Eu estendi minha mão para ela; ela se afastou de mim, e de repente estourou em lágrimas. Olhei-a com segredo, quase alegre surpresa.... A voz de Bizmyónkoff tocou alguns passos de nós. Liza limpou os olhos apressadamente, e com um sorriso vacilante olhou para mim. A velha senhora emergiu do bosque, apoiada no braço de sua escolta de cabelos lisos; ambos, por sua vez, admiraram a vista. A velhinha fez uma pergunta a Liza, e eu me lembro que, involuntariamente, tremia quando, em resposta, a voz quebrada de sua filha, como vidro rachado, ressoava em resposta. Enquanto isso, o sol se punha, o brilho começava a se apagar. Nós refizemos nossos passos. Eu novamente dei meu braço a Liza. Ainda estava leve no bosque, e eu podia discernir claramente suas feições. Ela estava envergonhada, e não levantou os olhos. O rubor que se espalhou pelo rosto dela não desapareceu; ela parecia ainda estar de pé, nos raios do sol poente... O braço dela mal tocou o meu. Por muito tempo eu não conseguia iniciar uma conversa, tão violentamente meu coração batia. Tivemos vislumbres da carruagem longe, através das árvores; o cocheiro estava dirigindo para nos encontrar a um passo sobre a areia friável da estrada.

"Lizavéta Kiríllovna," - eu disse finalmente, - "por que você chorou?".
"Não sei," - respondeu ela após uma breve pausa, olhando para mim com seus olhos suaves, ainda molhados de lágrimas, - seu olhar me pareceu ter sofrido uma mudança, - e novamente caiu em silêncio.
"Eu vejo que você ama a natureza....". Eu continuei.- Isso não era o mínimo que eu queria dizer, e minha língua mal gaguejava até o fim a última frase. Ela balançou a cabeça. Eu não podia pronunciar mais uma palavra.... Eu estava esperando por algo.... não uma confissão - não, de fato! Eu estava esperando por um olhar confiante, uma pergunta..... Mas Liza olhou fixamente para o chão e se calou. Eu repeti mais uma vez, num tom mais baixo: "Por quê?" e não recebi resposta. Ela ficou envergonhada, quase envergonhada, eu vi isso.

     Um quarto de hora depois, estávamos todos sentados na carruagem e nos dirigindo em direção à cidade. Os cavalos avançaram em um trote rápido; corremos rapidamente através do ar úmido e escuro. De repente comecei a falar, me dirigindo incessantemente agora para Bizmyónkoff, agora para Madame Ozhógin. Não olhei para Liza, mas não pude deixar de perceber que do canto da carruagem seu olhar nunca descansou sobre mim. Em casa ela se recuperou com um começo, mas não quis ler comigo, e logo foi para a cama. A pausa - essa pausa da qual falei - foi feita nela. Ela havia deixado de ser uma menina; já começava a esperar... como eu.... algo ou outro. Ela não precisou esperar muito.
     Mas naquela noite voltei aos meus alojamentos num estado de total encantamento. A confusão, que não era exatamente um prenúncio, nem ainda uma suspeita, que havia surgido dentro de mim, desapareceu: Atribuí a súbita restrição do comportamento de Liza para comigo à modéstia de donzela, à timidez... Não teria eu lido mil vezes em muitas composições, que a primeira aparição do amor agita e alarma uma jovem garota? Eu me senti muito feliz, e já comecei a construir vários planos em minha própria mente....
     Se alguém tivesse então sussurrado no meu ouvido: "Tu mentes, meu caro amigo! isso não te espera, meu rapaz! Estás condenado a morrer sozinho numa casinha miserável, ao resmungo intolerável de uma velha camponesa, que mal pode esperar pela tua morte, para vender as tuas botas por uma canção..."
     Sim, diz-se involuntariamente, com o filósofo russo: "Como se sabe o que não se sabe?" - Até amanhã.

continua em... 25 de março 
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25 de março - Um dia branco de inverno /                 
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.