A Montanha Mágica
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas
continuando...
Decorreram vinte minutos ou talvez mais. Esgotaram-se os temas para conversas
cochichadas. A curiosidade inicial diminuiu. Apoiavam com a mão esquerda o cotovelo do braço
direito. O tcheco Wenzel estava a ponto de adormecer. Ellen Brand, com o dedinho ligeiramente
encostado na taça, fixava os grandes e puros olhos de criança além das coisas mais próximas, na
luz da lampadazinha de cabeceira.
De repente o copo oscilou, bateu na mesa e fugiu das mãos das pessoas que o cercavam e
só com muita dificuldade conseguiram acompanhá-lo com os dedos. Deslizou até à borda da
mesa, correu um bom pedaço ao longo dela e voltou em linha reta ao centro. Ali tornou a bater
na mesa e permaneceu imóvel.
O espanto que todos sentiam era um misto de alívio e de pavor. A Srª. Stöhr declarou
com voz chorosa que preferia parar com aquilo. No entanto lhe fizeram ver que devia ter-se
decidido antes, e que agora lhe cabia ficar quietinha. As coisas pareciam em pleno
desenvolvimento. Foi estipulado que, para responder “sim” ou “não”, era desnecessário que o
copo fosse ao encontro das letras, mas bastaria que batesse na mesa uma ou duas vezes,
respectivamente.
– Está presente algum espírito? – perguntou o Sr. Albin com uma fisionomia séria,
dirigindo-se por cima das cabeças ao vazio... Seguiu-se um instante de vacilação. Depois o copo
bateu, dando uma resposta afirmativa.
– Como te chamas? – perguntou o Sr. Albin num tom quase rude, acentuando a energia
das palavras por um gesto de cabeça.
O copo pôs-se em movimento. Correu resolutamente, em ziguezague, de ficha em ficha,
embora recuando em certos intervalos um bom pedaço em direção ao centro da mesa.
Aproximou-se do H, do O, do L; em seguida deu a impressão de estar cansado, de confundir-se,
de não saber como continuar; mas, concentrando-se novamente, encontrou também o G, o E e o
R. Justamente como se esperava! Era Holger em pessoa, o mesmo fantasma Holger que soubera
aquelas coisas da pitada de sal, etc, porém não interviera em assuntos escolares. Achava-se ali,
flutuava na atmosfera, pairava em torno do grupo. E agora? Que iam fazer com ele? Um certo
acanhamento reinava na roda. Deliberaram em voz abafada, por assim dizer falando atrás da
mão, sobre o que queriam saber do espírito. O Sr. Albin decidiu-se a perguntar qual havia sido a
atividade e a profissão de Holger em vida. Fez a pergunta da mesma maneira que antes, em tom
de interrogatório, severamente, com o cenho cerrado.
A taça permaneceu silenciosa durante alguns instantes. A seguir, encaminhou-se
cambaleando e tropeçando no P; recuou e designou o O. Que sairia disso? A tensão era forte.
Cacarejando, o Dr. Ting-Fu manifestou o receio de que Holger talvez houvesse sido um policial.
A Srª. Stöhr rebentou numa gargalhada histérica, sem contudo interromper o trabalho do copo,
que, embora num avanço coxo e barulhento, deslizou até o E e depois, evidentemente com
omissão de uma letra, terminou no A. Acabava de soletrar “poea”.
Imaginem! Holger tinha sido um poeta! Sem necessidade e por puro orgulho, segundo
parecia, o copo oscilou e bateu o sinal afirmativo. – Um poeta lírico? – perguntou a Kleefeld,
pronunciando a palavra afetadamente, como Hans Castorp notou com indignação... Holger deu a
impressão de não estar disposto a entrar em pormenores. Não respondeu. Limitou-se a repetir a
resposta anterior, soletrando depressa com segurança e clareza e acrescentando o T que
esquecera da outra vez.
Muito bem, um poeta. O embaraço foi crescendo, um embaraço singular, relacionado
com as manifestações de esferas não controladas da vida interior, mas ao qual a atualidade falaz,
semi-objetiva, dessas manifestações imprimia o rumo para a realidade exterior. Desejaram saber
se Holger se sentia à vontade e feliz no seu estado. De um modo sonhador, o copo percorreu a
palavra “sereno”. Ah, sim, sim, “sereno”. Hum, isso não teria ocorrido a ninguém, mas uma vez
que o copo a soletrara, acharam todos que a resposta era plausível e bem formulada. E havia
quanto tempo se encontrava Holger nesse estado sereno? Agora vinham novamente palavras
inopinadas, sonhadoras, ensimesmadas, as palavras: “Vagar apressado”. Ótimo! Também poderia
ter dito “Pressa vagarosa”. Era um oráculo vindo do além, pela boca de um poeta ventríloquo.
Hans Castorp, sobretudo, achou-o excelente. Um “vagar apressado” era, pois, o elemento de
tempo em que vivia Holger. Claro, ele não podia senão falar por meio de oráculos para satisfazer
a curiosidade dos interlocutores, já que, provavelmente, se esquecera de lidar com os conceitos e
com as medidas exatas deste mundo... E agora, que mais informações queriam? A Levi confessou
estar curiosa por saber qual era, ou qual havia sido outrora, o aspecto de Holger. Se ele era um
jovem formoso? Que ela mesma perguntasse – ordenou o Sr. Albin que considerava uma
pergunta dessas indigna da sua função. Assim indagou ela, tateando o fantasma, se Holger tinha
cabelos louros.
– Lindos cabelos castanhos, castanhos – diziam as curvas descritas pelo copo, que repetia
propositadamente duas vezes a palavra “castanhos”. Uma satisfação animada reinava no círculo.
As senhoras mostravam-se francamente apaixonadas. Atiravam beijos obliquamente em direção
ao teto. O Dr. Ting-Fu observou, entre risinhos cacarejantes, que Holger lhe parecia muito
faceiro.
Nesse momento o copo enfureceu-se, tornou-se louco de cólera. Meteu-se a percorrer a
mesa, a esmo, feito doido; virou raivosamente; caiu e rolou no regaço da Srª. Stöhr, que o olhou,
lívida de susto, com os braços abertos. Cautelosamente, com muitas desculpas, reconduziram-no
ao seu lugar. Censuraram o chinês. Como podia ele atrever-se a dizer uma coisa dessas? Aí estava
vendo aonde levava o atrevimento! Que fariam se Holger, na sua indignação, sumisse e
emudecesse por completo? Empenharam-se o mais que puderam em sossegar o copo.
Perguntaram se Holger não queria, talvez, recitar um poema. Afinal de contas fora poeta, antes
de adejar pelos ares num vagar apressado. Ah, como desejavam todos eles conhecer uma das suas
obras! Ficariam encantados se...
Vejam só, o bom copo fez que sim. Com efeito, havia algo de bonacheirice e de espírito
conciliador na maneira como o fazia. E em seguida o fantasma Holger começou a poetar. Poetou
copiosamente, circunstancialmente, sem interrupção, quem sabe quanto tempo, dando a
impressão de que nunca mais pararia com aquilo. Era um poema de todo surpreendente o que
proferiu à maneira de um ventríloquo, enquanto os componentes da roda, cheios de admiração,
repetiam as palavras; era matéria mágica, sem limites como o mar que constituía o seu assunto
predileto... Algas em montes extensos ao longo da augusta praia, na ampla baía da ilha com as
dunas escarpadas. Oh, vede como a imensa vastidão esverdeada se confunde, morrendo, com a
eternidade, onde o sol de verão, encoberto pelas largas tiras dos véus nebulosos de turvo
carmesim e de luzes leitosas, retarda o seu ocaso! Não há palavras que possam expressar quando
e como o reflexo argentino, movediço, da água se transformou na cintilação pura de madrepérola,
toda envolta no inefável jogo de cores do brilho desmaiado, cambiante, opalino, de pedras da
lua... Ai de nós, imperceptivelmente como nasceu esvai-se o silencioso encantamento. O mar
adormece. Mas os suaves vestígios da despedida do sol remanescem aqui e ali. Não escurece até
tardias horas da noite. Uma meia-luz espectral paira sobre o bosque de pinheiros no alto das
dunas e dá uma aparência de neve à pálida areia das profundidades. Ilusão de uma floresta
hibernal, em completo silêncio através do qual se ouvem os estalos dos ramos roçados pelo lerdo
vôo de uma coruja! Acolhe-nos a esta hora! Tão elástico o andar, tão alta e branda a noite! E o
mar lá embaixo respira lenta, profundamente; devaneando, murmura sons arrastados. Estás com
saudade de revê-lo? Então aproxima-te da desbotada vertente da duna e sobe-a, afundando-te
nessa substância macia que te inunda os sapatos. Rígida e íngreme, a terra coberta de arbustos
desce até a praia pedregosa, e os resquícios do dia continuam fazendo o seu jogo fantasmagórico
à beira da vastidão esmaecida... Estende-te na areia aqui em cima! Que frescor de morte, que
maciez de seda ou de farinha! Ela te corre por entre os dedos da mão cerrada, num esguicho
descorado, fininho, e forma no chão a que pertence um montículo delicado. Não reconheces
aquele fio de areia? É o fluxo silencioso, estreito, através da angústia da ampulheta, o utensílio
solene e frágil que adorna a cela do ermitão. Um livro aberto, uma caveira, e na estante a dupla
concavidade de vidro, com sua armação delgada. E dentro dela, um pouquinho de areia tirada da
eternidade a fazer o papel do tempo, de um modo secreto e sagrado que inspira pavor...
Dessa forma, as improvisações líricas do fantasma Holger haviam percorrido uma
sequência de associações estranhas, desde o mar do seu país natal até um ermitão e o instrumento
do seu espírito contemplativo. E ele veio a falar de muitas coisas mais, decantando o humor e o
divino em palavras sonhadoras e audaciosas que causaram enorme admiração ao grupo que as
soletrava. Mal tinham tempo de intercalar aplausos entusiásticos, tão rápida era a marca
ziguezagueante de um assunto a outro, e que não fazia menção de terminar. Depois de uma hora
ainda não se podia prever o fim dessa torrente poética que tratava inesgotavelmente das dores do
parto, do primeiro beijo dos namorados, da coroa do sofrimento, da benevolência paternal e
grave de Deus; sondava as atividades da criatura; perdia-se nos tempos, nas paisagens, no espaço
sideral, mencionando até o zodíaco e os caldeus. Sem dúvida ter-se-ía prolongado através da
noite inteira, não houvessem os seus invocadores finalmente afastado os dedos do copo.
Agradeceram cordialmente a Holger e declararam que era bastante por essa vez, que a beleza de
tudo aquilo ultrapassava as suas mais arrojadas expectativas. Que lástima que ninguém tivesse
tomado nota do poema, cujo destino inexorável seria agora cair no esquecimento, o que
infelizmente já tinha acontecido em grande parte, devido a uma certa inconsistência peculiar aos
sonhos. Na próxima vez não deixariam de nomear em tempo um secretário, para ver o efeito que
isso produziria transladado a escrita e recitado de um modo fluente. De momento, porém, e antes
que Holger voltasse à serenidade do seu vagar apressado, seria melhor e, em todo caso, muito
amável da sua parte, se respondesse ainda a uma ou outra pergunta precisa que lhe fizessem os
componentes do grupo. Não sabiam ainda o que indagariam dele, mas pediam que lhes
comunicasse ao menos se, em princípio e por uma especial deferência, estava disposto a
responder.
– Sim – foi a resposta. Mas, a essa altura, revelou-se a desorientação geral. Que deviam
perguntar? Era como nas histórias da carochinha, quando a fada ou o anão permitem que se faça
um pedido e a pessoa contemplada corre o risco de desperdiçar a oportunidade preciosa. Havia
muita coisa no mundo e no futuro que parecia digna de se saber, e a responsabilidade de quem
escolhia era grande. Como ninguém se arriscasse a tomar uma decisão, Hans Castorp, com um
dedo encostado na taça, e com a face esquerda apoiada no punho, disse que gostaria de ouvir
quanto tempo duraria a sua permanência aqui em cima, em vez das três semanas prefixadas para
ela.
Bem, visto não se encontrar outra pergunta melhor, vá lá que o fantasma, da plenitude da
sua sabedoria, satisfizesse essa curiosidade qualquer! Depois de alguma hesitação, o copo
começou a trepidar. Traçou uma resposta bem estranha e, segundo parecia, incoerente, que
ninguém era capaz de interpretar. Soletrou a sílaba “vai” e em seguida a palavra “através”, que era
ainda menos aproveitável. Feito isso, mencionou alguma coisa acerca do quarto de Hans Castorp,
de maneira que a ordem lacônica na sua forma completa rezava que aquele que perguntara “fosse
através do seu quarto”. Através do seu quarto? Através do número 34? Que significava isso?
Enquanto estavam ali sentados, deliberando e meneando a cabeça, um murro formidável fez
estremecer a porta.
Todos ficaram atônitos. Era um assalto? Estava lá fora o Dr. Krokowski para levantar a
sessão proibida? Olharam-se consternados. Aguardaram a entrada do médico enganado. Mas, no
mesmo instante, houve outro murro estrondoso no centro da mesa, novamente aplicado com
toda a força do punho, como para esclarecer que também o primeiro não tinha sido dado fora da
sala, senão dentro.
Fora uma brincadeira de mau gosto do Sr. Albin? Ele negou, sob palavra de honra,
desnecessariamente, porque todo mundo tinha quase certeza de que ninguém da roda era culpado
disso. De maneira que foi Holger? Atiraram um olhar para Elly, cuja atitude quieta todos haviam
notado simultaneamente. Achava-se sentada, recostando-se no espaldar e apoiando na borda da
mesa as pontas dos dedos, enquanto os pulsos pendiam para baixo. Inclinava a cabeça para um
dos ombros, e alçava as sobrancelhas, ao passo que baixava as comissuras dos lábios, formando
uma boca bicuda. Esboçava um levíssimo sorriso que tinha algo de fingido e ao mesmo tempo
inocente. Os olhos azuis de criança miravam o vazio, sem nada perceber. Chamaram-na pelo
nome, mas ela não deu nenhum sinal de vida. Nesse momento apagou-se a lampadazinha de
cabeceira.
Apagou-se? A Srª. Stöhr, incapaz de conter-se por mais tempo, começou a lançar gritos
estridentes, pois acabava de ouvir o estalido da luz. Esta tinha sido apagada por uma mão que
seria eufemístico qualificar de estranha. Fora a mão de Holger? Até então se mostrara tão brando,
tão disciplinado e tão poético, mas a essa altura a sua natureza estava a ponto de degenerar em
puerilidade e traquinice. Quem poderia garantir que a mão que golpeava a porta e os móveis e
apagava travessamente a luz não agarraria qualquer pessoa pela garganta? No escuro, clamaram
por fósforos, por uma lanterna. A Levi deu um berro, alegando que alguém a puxara pelos
cabelos da frente. De tanto medo, a Srª. Stöhr não se envergonhava de invocar Deus em alta voz. – Ah, Deus nosso Senhor, salvai-nos pelo menos desta vez! – gritava e suplicava gemendo que
lhes fosse concedida a graça, apesar de terem tentado o inferno. Foi o Dr. Ting-Fu quem teve a
ideia razoável de acender a luz do teto, de modo que o quarto logo se achou banhado de
claridade. Verificaram então que a lâmpada de cabeceira de fato não se apagara sozinha, mas que
alguém dera volta à chave; bastava repetir com mãos humanas essa manobra realizada por meios
ocultos, para que voltasse a luzir. Enquanto isso, Hans Castorp teve, por sua vez, uma surpresa
que podia considerar uma atenção especial das forças obscuras e pueris que ali se manifestavam.
Encontrou sobre os joelhos um objeto leve, a “lembrança” que em certa ocasião espantara o seu
tio, quando a descobrira na cômoda do sobrinho: o diapositivo de vidro que mostrava o retrato
de Clávdia Chauchat, e que ele, Hans Castorp, certamente não introduzira no quarto da Kleefeld.
Guardou-o no bolso, sem mencionar o fenômeno. Os outros estavam ocupados com
Ellen Brand, que continuava sentada no mesmo lugar, na posição que acabamos de descrever,
com os olhos cegos e com uma expressão estranhamente afetada. O Sr. Albin soprou-lhe na cara
e imitou diante dos seus olhos o gesto com que o Dr. Krokowski movera a mão de baixo para
cima. Com isso, ela recobrou os sentidos e chorou um pouco, sem que ficasse claro por quê.
Acariciaram-na, beijaram-lhe a fronte e mandaram-na dormir. A Levi dispôs-se a passar a noite
em companhia da Srª. Stöhr, já que de tanto pavor a mulher vulgar não sabia como encontrar a
cama. Hans Castorp, com o apport no bolso interno, não fez objeção nenhuma, quando foi
convidado para terminar aquela noite irregular, tomando um conhaque no quarto do Sr. Albin,
junto com os demais cavalheiros; pois tinha notado que incidentes desse gênero exerciam um
certo efeito, não sobre o coração nem tampouco sobre o espírito, mas sobre os nervos do
estômago; efeito prolongado, parecido com o do enjoo nas viagens marítimas, cujas vítimas
sentem ainda em terra firme durante horas a fio as oscilações causadoras das náuseas.
Por enquanto, a sua curiosidade estava satisfeita. No primeiro instante, o poema de
Holger não lhe parecera mau, mas nitidamente se lhe impusera a vacuidade íntima e a insipidez,
aliás prevista, de tudo isso, de maneira que resolveu contentar-se com essas poucas faíscas dos
fogos do inferno que haviam esvoaçado em torno dele. O Sr. Settembrini, como era de se
esperar, confirmou-o o mais possível nessa intenção, quando Hans Castorp lhe falou das suas
experiências. – Era só o que faltava! – exclamou o humanista. – Que miséria! Que miséria! – E
sem rodeios declarou que a pequena Elly era uma impostora das mais ladinas.
A isso, o seu discípulo não disse nem sim nem não. Dando de ombros, opinou que não
existia clareza inequívoca sobre o que era realidade, e, por conseguinte, não se sabia o que era
impostura. Os limites talvez fossem instáveis. Podia ser que houvesse transições de uma à outra,
graus de realidade, no seio da natureza muda e neutra, esquivando-se a distinções que, a seu vez,
tinham manifestamente um caráter moralizante. Que pensava o Sr. Settembrini, por exemplo, da
palavra “ilusão”, esse estado em que elementos do sonho e elementos da realidade formavam
uma mescla que talvez fosse menos alheia à natureza do que aos nossos toscos pensamentos
cotidianos? O mistério da vida era literalmente insondável, e não era de admirar que de vez em
quando surgissem do abismo ilusões que... E assim por diante, no estilo amável, complacente e
bastante vago que era peculiar ao nosso herói.
O Sr. Settembrini ministrou-lhe a ensaboadela que merecia e realmente conseguiu
fortalecer-lhe a consciência ao menos de momento. Obteve até uma espécie de promessa de que
o seu discípulo nunca mais participaria de tamanhas perversidades. – Respeite a parte de
humanidade que encerra em si, engenheiro – exortou-o. – Tenha confiança no raciocínio claro,
humano, e abomine as contorções do cérebro, o atoleiro espiritual! Ilusões? Mistério da vida?
Qual nada, caro mio! Quando entra em decomposição a coragem ética de optar e de fazer uma
distinção entre conceitos como a impostura e a realidade, acaba-se a vida em geral, da mesma
forma que o juízo, os valores e o ato civilizante. Começa então a obra atroz de um processo de
putrefação, causado pelo ceticismo moral. – Acrescentou ainda que o homem era a medida de
todas as coisas e tinha o direito imprescindível de se pronunciar sobre o bem e o mal, sobre a
verdade e a mentira. Ai de quem se atrevesse a desviar a humanidade da fé nesse direito criador!
Para ele era melhor ser afogado no mais profundo de todos os poços, com uma mó em volta do
pescoço.
Hans Castorp aprovou tudo isso com um gesto de cabeça. De fato começou a distanciar
se, por enquanto, desse tipo de empresa. Ouviu dizer que o Dr. Krokowski, no seu subterrâneo
analítico, organizava sessões com Ellen Brand, às quais era admitida uma parte seleta dos
pensionistas. Mas o jovem declinou do convite com indiferença, o que naturalmente não impedia
que os componentes da roda e o próprio Dr. Krokowski o mantivessem mais ou menos a par dos
êxitos alcançados no curso das suas experiências. Manifestações de forças no gênero das que se
haviam produzido no quarto da Kleefeld, de um modo arbitrário e brutal – murros aplicados à
mesa e aos móveis, lâmpadas apagadas, e outras coisas semelhantes – eram obtidas e praticadas
durante essas reuniões, sistematicamente, e com todas as garantias possíveis da sua autenticidade.
Para esse fim o camarada Krokowski hipnotizava a pequena Elly conforme as regras da arte, a
fim de transportá-la a um estado de sonambulismo. Evidenciara-se que um acompanhamento
musical facilitava os exercícios. Por isso, a vitrola mudava de lugar naquelas ocasiões, requisitada
pelo círculo mágico. Mas como o tcheco Wenzel, que então se encarregava do serviço, fosse um
homem dotado de senso musical, que certamente não maltrataria nem danificaria nada, Hans
Castorp podia confiar-lhe o instrumento sem grande inquietude. Para essa finalidade especial
tirava do tesouro de discos um álbum com uma seleção de peças leves – danças, pequenas
aberturas e outras bagatelas musicais –, que punha à disposição do grupo. Elly não fazia questão
de ouvir sons mais sublimes, de maneira que esses discos lhe bastavam.
Acompanhado por esse tipo de música – assim se inteirava Hans Castorp – levantara-se
um lenço do chão, por iniciativa própria, ou melhor, guiado por uma “garra” escondida nas suas
dobras; o cesto de papéis do doutor esvoaçara rumo ao teto; o pêndulo de um relógio de parede
fora, alternadamente, detido e acionado “por ninguém”; uma sineta tinha sido “apanhada” e
agitada; e outros fatos obscuros e insignificantes do mesmo calibre. O erudito diretor dessas
experiências achava-se na situação feliz de saber designar tais proezas por um nome grego cheio
de decoro científico. Tratava-se – segundo explanava nas suas conferências e em colóquios
particulares – de fenômenos telecinéticos, de casos de levitação. O doutor classificava-os numa
categoria que recebera da ciência o nome de “materializações”. Era precisamente a elas que
visavam os seus esforços nas tentativas realizadas com Ellen Brand.
continua pág 440...
___________________
___________________
Leia também:
Capítulo I / A Chegada
Capítulo II / Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo V / Sopa eterna e clareza repentina (a)
Capítulo VI / Transformações (a)
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a] / Coisas muito problemáticas - [b] /
___________________
A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Nenhum comentário:
Postar um comentário