sábado, 17 de outubro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (O vôo do genio)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma introducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

O VÔO DO GENIO 
 A ACTRIZ EUGENIA CÂMARA.

Um dia, em que na terra a sós vagava 
Pela estrada sombria da existência, 
Sem rosas — nos vergeis da adolescência, 
Sem luz d'estrella — pelo céu do amor; 
Senti as asas de um archanjo errante 
Roçar-me brandamente pela fronte, 
Como o cysne, que adeja sobre a fonte, 
A's vezes toca a solitária flor.

E disse então: "Quem és, pallido archanjo! 
Tu, que o poeta vens erguer do pego? 
Eras acaso tu, que Milton cego 
Ouvia em sua noite erma de sol? 
Quem és tu? Quem és tu? — "Eu sou o gênio", 
Disse-me o anjo, "vem seguir-me o passo, 
Quero comtigo me arrojar no espaço, 
Onde tenho por c'roas o arrebol."  

"Onde me levas, pois?..." — "Longe te levo 
Ao país do ideal, terra das flores, 
Onde a brisa do céu tem mais amores 
E a phantasia — lagos mais azues..." 
E fui... e fui... ergui-me no infinito, 
Lá onde o vôo d'aguia não se eleva... 
Abaixo — via a terra — abysmo em treva! 
Acima — o firmamento — abysmo cm luz! 

"Archanjo! archanjo! que ridente sonho!" 
—"Não, poeta, é o vedado paraíso, 
Onde os lírios mimosos do sorriso 
Eu abro em todo o seio, que chorou, 
Onde a loura comedia canta alegre, 
Onde eu tenho o condão de um genio infindo, 
Que a sombra de Molière vem sorrindo 
Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."

"Onde me levas mais/anjo divino?" 
—"Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas, 
O canto das espheras namoradas, 
Quando eu encho de amor o azul do céu. 
Quero levar-te das paixões nos mares. 
Quero levar-te a dedalos profundos, 
Onde refervem soes... e céus... e mundos... 
Mais soes... mais mundos, e onde tudo é meu..." 

"Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia: 
A brisa morna, a sombra do arvoredo, 
A lympha clara, que murmura a medo, 
A luz que abraça a flor e o céu ao mar. 
O' princesa, a razão já se me perde, 
E's a sereia da encantada Scylla, 
Anjo, que transformaste-te em Dalila, 
Sansão de novo te quisera amar!

"Porém não paras n'este vôo errante! 
A que outros mundos elevar-me tentas ? 
Já não sinto o soprar de auras sedentas, 
Nem bebo a taça de um fogoso amor. 
Sinto que rolo em barathros profundos... 
Já não tens asas, águia da Thessalia, 
Maldição sobre ti... tu és Omphalia, 
Ninguém te ergue das trevas e do horror.

"Porém silencio! No maldicto abysmo, 
Onde cahi comtigo criminosa, 
Canta uma voz, sentida e maviosa, 
Que arrependida sobe a Jehovah! 
Perdão! Perdão! Senhor, p'ra quem soluça, 
Talvez seja algum anjo peregrino... 
... Mas não! inda eras tu, gênio divino, 
Também sabes chorar, como Eloah! 

"Não mais, ó seraphim! suspende as asas! 
Que, através das estrellas arrastado, 
Meu ser arqueja louco, deslumbrado, 
Sobre as constellações e os céus azues. 
Archanjo! Archanjo! basta... Já comtigo 
Mergulhei das paixões nas vagas cerulas... 
Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas — 
Mas na minh'alma — já não cabe — luz!..." 

Recife, Maio de 1866. 

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   Espumas Fluctuantes, Edição original: XIV. 
   1) Molière (4." estância, v. 7) João Baptista Poquelin Molière (1622-1673), genial comediographo e cômico francês. O e mudo final do nome sôa aqui, para inteireza do verso.
   2) Oh Princeza, a razão já se me perde... (6.* estância, v. 5). Palavras que André Roswein, o apaixonado poeta e compositor, diz á Princeza Leonora Falconieri, traduzidas do original: "Madame... vous jouez avec ma raison". (Dalila, de Octavio Feuillet, Acto II, quadro II, se. VI, Paris, 1857). Eugenia Câmara representava no palco essa Dalila moderna, e já então amava-a o Poeta, transpondo em realidade a ficção daquellas palavras.
   3) Tambem sabes chorar, como Eloah! (8.* estân cia, v. 8). Eloa, nascida de uma lagrima de Christo, do poema homonymo de Alfredo de Vigny (1824), é a mulher-anjo que se commove ao pranto de Satan
   La Vierge dans le ciei n'avait pas vu des larmes
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   Eloa vient et pleure...
Eloa, chant. III, 214-20.  

continua página 83...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração / Hebréa / O vôo do genio /              
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

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