sábado, 17 de outubro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (XII - Mon cher Boris)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
XII

     — Mon cher Boris — disse a princesa Ana Mikhailovna a seu filho, quando a carruagem da condessa Rostov, que os levava, atravessou a rua coberta de palha e entrou no grande pátio do conde Kiril Vladimirovitch Bezulchov —, mon cher Boris — repetiu, tirando a mão do velho casacão e pegando tímida e ternamente o braço do filho —, sê carinhoso e atento. O conde Kiril Vladimirovitch é teu padrinho, e dele depende teu futuro. Não esqueças, meu filho, sê tão gentil quanto possível; como sabes ser…
     
— Se ao menos tivesse a certeza de que isso daria algum resultado além da humilhação… — respondeu o filho. — Mas já lhe prometi fazer tudo por sua causa.

     O porteiro examinou dos pés à cabeça mãe e filho (que, sem se fazerem anunciar, entravam diretamente no vestíbulo envidraçado, entre duas fileiras de estátuas dentro dos seus nichos), e, olhando o velho casacão com um ar importante, perguntou-lhes quem queriam ver: as princesas ou o conde. Apesar de já haver outros carros no pátio, quando soube que era o conde, informou que, estando pior, Sua Excelência não receberia ninguém.

— Podemos ir — disse o filho em francês. 
— Mon ami — instou a mãe em voz suplicante, tocando-lhe novamente a mão, como se, por esse simples contato, pudesse acalmá-lo ou entusiasmá-lo.

     Boris calou-se, e, sem tirar o sobretudo, olhou interrogativamente para a mãe.

— Meu caro — disse Ana Mikhailovna docemente ao porteiro —, sei que o conde Kiril Vladimirovitch está muito doente… é o motivo de minha vinda… sou parenta, não quero incomodá-lo, meu caro, mas preciso ver o príncipe Vassili Sergueievitch. Ele está aqui. Poderias nos anunciar?

     O porteiro puxou a campainha do primeiro andar e retirou-se contrariado.

— A princesa Drubetzkaia anuncia-se ao príncipe Vassili Sergueievitch — gritou ao lacaio de casaca, meias e sapatos, que acorrera e olhava pelo vão de escada.

     A mãe arrumou como pôde o vestido de seda tingida, olhou-se num espelho de Veneza fixo à parede e, corajosamente, com seus sapatos grosseiros, pisou o tapete da escada.

— Você me prometeu, querido — disse novamente ao filho, tocando-lhe no braço.

     O rapaz acompanhou-a docilmente de olhos baixos.
     Entraram na sala que dava para os aposentos do príncipe Vassili.
     Quando mãe e filho, parados no meio da sala, iam perguntar o caminho a um velho lacaio que se levantara ao vê-los entrar, o trinco de uma das portas girou, e o príncipe Vassili, que vestia uma jaqueta caseira de veludo, com uma única condecoração, o que para ele era sinal de estar à vontade, apareceu acompanhando um belo homem de cabelos pretos.
     Era Lorrain, o célebre médico de Petersburgo. 

— Então é certo? — perguntou o príncipe. 
— Mon prince, errare humanum est, mas… — respondeu o médico, carregando nos rr e pronunciando o latim como se fosse francês. 
— Muito bem, muito bem…

     Ao perceber Ana Mikhailovna e o filho, o príncipe Vassili despediu-se do médico com um meneio de cabeça e, em silêncio, aproximou-se deles com um ar interrogativo. Boris, notando uma profunda expressão de pesar nos olhos de sua mãe, sorriu imperceptivelmente. 

— Em que triste circunstância nos encontramos, príncipe… E o nosso querido enfermo? — perguntou, como se não percebesse o olhar frio e contundente que a fixava.

     Interrogativamente, admirado mesmo, o príncipe Vassili olhou-a, e depois fitou Boris. Este o cumprimentou polidamente. Sem retribuir ao cumprimento, o príncipe voltou-se para Ana Mikhailovna e respondeu à sua pergunta com um movimento de cabeça e de lábios que significava: poucas esperanças para o doente. 

— Realmente! — exclamou a princesa. — Ah! É terrível! Nem quero pensar… Este é meu filho — acrescentou, mostrando Boris. — Ele queria agradecer-lhe pessoalmente. — Mais uma vez, Boris o cumprimentou polidamente. 
— Creia, príncipe, que o coração de uma mãe não esquecerá nunca o que fez por nós. 
— Fico feliz por lhe ter sido útil, minha cara Ana Mikhailovna — disse o príncipe Vassili, arrumando o colarinho de renda e demonstrando no gesto e na voz que em Moscou, diante de sua protegida Ana Mikhailovna, ainda era mais importante que na festa de Ana Pavlovna, em Petersburgo. — Procure bem servir e ser digno — acrescentou, dirigindo-se severamente a Boris. — Ficarei contente… Está em licença? — perguntou com indiferença. 
— Aguardo ordens para apresentar-me, Excelência — respondeu Boris sem mostrar-se chocado com o tom rude do príncipe, nem desejoso de entabular uma conversa, mas em tom tão tranquilo e respeitoso que o príncipe o olhou fixamente. 
— Vive com sua mãe? 
— Moro na casa da condessa Rostov — disse Boris, dando-lhe novamente o tratamento de Excelência. 
— É o mesmo Ilia Rostov que casou com Natália Chinchina — disse Ana Mikhailovna. 
— Eu sei, eu sei — tornou o príncipe com sua voz monótona. — Nunca pude compreender como Natália resolveu casar-se com esse urso mal domesticado. Um indivíduo completamente estúpido e ridículo. E jogador, segundo dizem. 
— Mas muito boa pessoa, príncipe — observou Ana Mikhailovna, sorrindo discretamente, dando a entender que o conde Rostov merecia esse conceito, mas que, entretanto, ela queria ser indulgente com o pobre velho. — O que dizem os médicos? — perguntou depois de um curto silêncio, dando, novamente, uma expressão de profundo pesar a seu semblante choroso. 
— Pouca esperança — disse o príncipe. 
— E eu queria tanto agradecer uma última vez a meu tio tudo que ele fez por mim e por Boris. E seu afilhado — acrescentou, como se essa notícia devesse ser-lhe extremamente agradável.

     O príncipe Vassili, franzindo a testa, refletia. Ana Mikhailovna compreendeu que ele temia encontrar nela uma rival no testamento do conde Bezukhov. Apressou-se em tranquilizá-lo. 

— Se não fosse a verdadeira afeição e devotamento que tenho a meu tio. — As duas palavras “meu tio” saíam com segurança e num tom despreocupado. — Conheço seu caráter nobre, direito, mas aqui tem só as princesas a seu lado… ainda tão jovens… — Inclinou a cabeça e cochichando perguntou: — Terá ele cumprido seus últimos deveres, príncipe? Como são preciosos os últimos momentos! Isso não o prejudicará; se está tão mal, é necessário prepará-lo. Príncipe, nós, mulheres (sorriu ternamente), sabemos sempre como falar nessas coisas. É necessário que eu o veja, por mais que isso me magoe, estou acostumada a sofrer.

     O príncipe compreendeu muito bem, como da primeira vez, que lhe seria difícil desembaraçar-se de Ana Mikhailovna. 

— Mas esse encontro não lhe será penoso? Esperemos até a noite, o médico prevê uma crise. 
— Mas, príncipe, não se pode esperar num momento como este. Olhe que se trata da salvação da sua alma… Ah, como são terríveis os deveres de um cristão!

     A porta que levava aos aposentos interiores abriu-se e entrou uma das princesas, sobrinha do conde. Tinha a fisionomia carregada e fria, o busto grande demais para a estatura. O príncipe voltou-se para ela. 

— Então, como vai ele? 
— No mesmo. E não pode ser de outra forma… esse barulho… — disse a princesa, olhando Ana Mikhailovna como a uma desconhecida. 
— Ah! Chère, eu não a tinha reconhecido! — disse Ana Mikhailovna com um sorriso feliz, aproximando-se sutilmente da sobrinha do conde. — Acabo de chegar e estou à tua disposição para ajudar a cuidar de meu tio. Faço ideia do quanto tens sofrido — acrescentou, levantando os olhos penalizados.

     A princesa não disse nada, nem sequer sorriu, e retirou-se em seguida. Ana Mikhailovna tirou as luvas, e, com um ar vencedor, instalou-se numa poltrona, convidando o príncipe para sentar-se a seu lado.

— Boris! — disse ao filho num sorriso — Vou ver o conde, meu tio, e tu, mon ami, enquanto esperas, vai procurar Pierre e não te esqueças de transmitir-lhe o convite dos Rostov. Eles o convidam para jantar — disse ao príncipe. — Creio que não irá. 
— Ao contrário — retrucou este com visível mau humor. — Ficaria muito satisfeito se a senhora me livrasse desse rapaz. Ele está aqui. O conde não perguntou por ele uma única vez. — Sacudiu os ombros.

     Um lacaio conduziu Boris aos aposentos de Piotr Kirillovitch por outra escada.
continua na página.... 31
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
XI - Queria conversar em particular / XII - Mon cher Boris /                          
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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