sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Histórias de avoinha: o vinho, o pão e a doença da castidade

Ensaio 70B – 2ª edição 1ª reimpressão 


o vinho, o pão e a doença da castidade

baitasar


maiinha avivando o brazêro das lágrima na volta do fogo. a panela chiando. tudo entrava no panelaço das deslembrança do esquecimento. das saudade. munto banzo do pai qui di quando em veiz aparecia sempre em noite sem lua. bunito nas vestimenta de soldado. a panela azulando. as água dos ói fervendo. as brasa cozinhando a buchada estripada do boi, o coração, um joêio, uma pata, a língua, as erva. o aroma da saudade lembra coisa qui num precisa consentimento. o mocotó. o colo do paiinhu. a tristeza de munto silêncio. a muié bunita. as cantoria e as reza da tristura. as lembrança mais viva qui carrego de maiinha é das noite sem lua. a mão do fiinho dentro da mãozona do paiinhu. a muié munto bunita ficando pra trás. parada na portaria. sem cantoria. vestida da tristura. a noite sem lua. chovendo o feitiço das estrela. munta saudade da maiinha. das cantoria. do brazêro manchando a escuridão. das noite sem lua. a frieza do frio. com o paiinhu apareceu o gosto do mate amargo. as letra do instrutô. a carapinha raspada. esperava maiinha nas noite sem lua. num apareceu

Justíssimo, sinhô Padre. É preciso impedir que o forte esmague o forte.

o tempo se muda um depois dotro, vem otra hora e mais otra, tudo diferente, mais diferente pode num sê novo e pode num sê bão

pegue na mão do seu paiinho, fiinho. ele vai lhe levá pru mundo dos branco. obedeça seu paiinho. cuide da vida qui ela lhe cuida, mais num esquece qui a luta da ganância nunca acaba. é bem nutrida, bem treinada, malcriada pela fiadaputa da riqueza. se cuida. num amarela. a ganância num é mansa, as veiz se parece sê, cuidado, é mentira. ela atropela. e se ocê deixa ela fica na chefia qui devora a vida. o dinhêro num é bão. ele num existe pra sê bão. ele esmaga os fraco. ele num respira nem faz amô, mais mata ocê

Mas o amigo Pensavento não teria querido afirmar: é preciso impedir que o forte esmague o fraco?

Não se engane Caramão, a Justiça é um comércio de vinganças tabeladas. Tudo tem o seu preço. Os fortes compram Justiça, aos fracos resta obedecerem. Caso tenham algum juizo.

Somos manipulados pela Justiça, também?

Tudo é manipulação, Caramão. Justiça é uma iguaria confeiçoada para agradar. Quem quer a verdade? Todos querem as mentiras que melhor servem aos seus própositos de boa vida. A Justiça é um ilusionismo de contação de histórias. Não se esqueça disso.

o dinhêro num é humano, mi fiinho. quanto mais dinhêro ocê tem menos gente ocê vira, inté qui ocê acredita qui merece sê mais pruqui os otro é menos qui ocê. e acaba as gentileza da ganância mansa

O dinheiro não é humano, Pensavento!

É quando entra o seu trabalho. Não, meu caro Caramão, a Justiça é para os fortes... aos fracos oferecemos a submissão e a religião.

o padre oiô pru pensavento, ele num parecia qui tava lôco nem parecia tá atormentado, falava falava falava, mais num amoitava o zumbido da respiração dos preto na obra santa. O mormaço duro e briôso começava ardê no lombo dos hôme preto escravizado

Isso é loucura, Pensavento!

A realidade é uma desilusão, Caramão. Injustiça seria reduzir o forte à fraqueza, anulando sua natural superioridade.

a muié bunita das noite sem lua nunca mais sorriu sem tristura, o fiinho cresceu longe e aprendeu as lição das coisa dos branco qui num sabia qui podia sabê

A sua Justiça sem a força é impotente!

o pensavento bailô os ombro

O aborrecimento é um mal que se cura com mais trabalho, mais ganância, mais gastos.

os dois tava com os pé lado a lado, os ombro de um e otro encostado na armação da porta dos fundo, as vista na obra, nos movimento dos preto trabaiadô

Mas esse trabalho, sinhô Pensavento, o padinhu apontô os preto, não trás honra e pão para esses negros.

o agente governista soltô-se dum arroto

Pão, tenho certeza que não falta. O amigo não iria permitir. E quanto a honra... não acredito que sintam falta ou tenham muita necessidade. Isso não deveria preocupar o sinhô Padre, soltô-se denovo, otro arroto, mas então, qual a razão do seu chamado?

o padre ofereceu vinho. O visitante estendeu a mão. Era conhecida a fama da gostusura do vinho do padre e precisava sê apreciada

Na verdade, sinhô Ouvidor-Geral do Governador, não chamei ninguém. Não era meu desejo desacomodar Sua Excelência dos seus compromissos, fiz apenas um pedido de audiência com Nossa Excelência, o Governador.

o ajudante das ordem dada pelo governadô, com as tarefa de tumbém escutá as reclamação de toda província, e com mui especial atenção, escutá as gente de importância da villa, num se incomodava ou se importava pôco com a pequena importância qui os reclamante lhe dava. Os lamurioso dá preferimento de querê falá direto nos ouvido do governadô, sem a intermediação de um ou otro ouvidô. Sabia qui era assim, num se desgostava de num sê ele o alvo do interesse pra quem protesta. Achava bão. E um pôco cada dia, ele mesmo ia resolvendo os caso com decifração mais fácil, sem precisão do entendimento do governadô. O primêro ouvidô disfarçado de branco qui ninguém sabia qui era fiô de uma escrava forra com um oficial da cavalaria do exército imperial. Um pardo qui podia escoiê sê preto ou dizê sê branco. Era todo acinzentado. Um preto descolorido. A carapinha ele escondia raspada. Um feitio de corte com as conveniência das tarefa de obrigação

Sinhô Padre, não quero parecer pretencioso nem desinformado, menos ainda, desaforado. Na verdade, fui nomeado os olhos e ouvidos do Governador enquanto sua Excelência se mantém afastado por motivo de repouso. E se ele assim o quiser, escuta e fala através deste seu amigo.

subiu o vinho inté o nariz, fungô dum lado e otro. Depois, oiô firme a aparência da tintura e levô na boca o enfeite de sangue da missa. A vida num pede disfarce, ela pula de gáio em gáio, recebe os vento, dá fruto, faz sombra e bebe da terra. Os enfeitamento é invencionice pra dá gana e gosto de entreverá as perna, socá a raiz na terra, fazê suspirá das delícia inté descansá da vida feita. O pensavento repetiu a parte de levá na boca o vinho, conhecia o gosto pela aparência. Tomô um trago. O padinhu retomô o começo da conversa cada veiz menos aliviado

Essa sua tarefa me parece um grande desafio, uma grande confiança do Governador na sua pessoa: amansador dos reclamos.

o pardo acinzentado num se apressô em respondê, continuava com o vinho na boca, bailando duma bochecha pra otra. Apreciava o gosto. Fechô as vista, num parecia tê pressa. Empurrava o vinho numa maré qui paria o jogo do bão gosto. Inté qui engoliu. Engravidô a boca. Parece tê gostado pelas cara e boca feita. Tava feito. Abriu as vista e sorriu com delícia. Agrado farto num precisa de arma de fogo

Padre, esse seu vinho me parece abençoado. O sinhô concorda?

O que se passa, Pensavento?

Pareceu-me ver um velho amigo de mamãe.

Onde?

Lá nas obras, um cachorro preto. Um animal que a acompanhva por tudo.

o padinhu revirô a cabeça, depois desvirô

Não vi nenhum bicho, lá fora.

Eram um dotro. Contam que mãinha foi embora antes. Ele não foi logo, mas não saiu mais da casa, esperando a volta de mãinha. Um retorno impossível. Nunca partiu. A porta de chegada de mãinha ficou arranhada das saudades do bicho. Eu também nunca voltei, mas as minhas ranhuras não aparecem.

Um bom vinho nos faz ver coisas que não percebemos abstinentes.

otro balanceio das bochecha

É justa a fama que tem o vinho do sinhô Padre, o padinhu mediu o pardo pelo conhecimento do vinho, num era um joão ninguém: tinha educação, bão gosto e confiava nele mesmo. Sabia escutá o gosto do céu da boca. Num respondeu pru elogiu feito. Sabia qui o pardo ouvidô num tinha terminado de dizê o qui queria dizê, quanto a mim, meu amigo, sei que não sou uma bebida romântica como o vinho. Não sou sonhador. Contento-me em ter a utilidade da água e não desperdiçar a confiança do Governador. Meu ofício é parecido com as incumbências do Caramão: não podemos deixar enfraquecer a fé em nossos Sinhozinhos.

o padinhu achô qui havia chegado à encruziada da confiança: se confia ou num se confia. A confissão é um acatamento da esperança nos ouvido do padinhu com os ouvido manso e piedoso do defunto na cruiz. Ele é a ligação direta da falação do arrependido com a misericórdia. A invencionice do desvio qui num se extravia da tarefa de ajudá escutá. Num dá pra fazê tudo sozinho. Enfim, ele foi pregado pra modo de sê escutado, mais parece qui os arrependido já esqueceu as maldade feita no defunto da cruiz: as chibata, a fome, a humiação, os desaforo, as ameaça, o desdém, o salpico com água e sal nas ferida, as corrente, a estupidez, o ódio traiçôero. Os prego. a sede. Num parece tê fim nos arrependido a vontade de machucá pra salvá. A invencionice do arrependimento pode salvá o arrependido, mais num deixá o defunto descê da cruiz. Todo domingo tem arrependimento, todo dia tem sofrimento

E o sinhô Ouvidor-Geral tem alguma ambição que gostaria de realizar ou algum arrependimento que queria confessar?

o pardo estendeu o braço com a caneca vazia na mão. O padinhu qui era puro céu na terra tornô a tirá a tampa da boca da garrafa, encheu a caneca da visita. Reparô desconfiado qui podia perdê as conta das veiz qui ia enchê

O sinhô Padre Caramão é mui generoso. Obrigado, aproximô a caneca com o vinho do fuçadô e fungô fundo. O perfume fantasiado de sangue do defunto na cruiz subiu e espaiô seu sofrimento. O arrependimento apareceu quase junto, eu tenho uma vontade muito grande de ver de perto Nossa Majestade Imperial. Seria como estar bem perto do pai que tive sem ter. Entreouvir ou lamentar o sentimento prazeroso de ser reconhecido filho do pai.

o padinhu precisava se acautelá com o vinho, num devia saí do costume de tomá só um cálice do vinho. Era um prisionêro do muro dos costume e uma das pedra do paredão, mais qui arrependido num cometia um desajuste contra os costume

E o arrependimento, perguntô padinhu, o Pensavento tem algum remorso que não pudesse falar livremente, mas precisasse confessar?

o vinho empurrado num boquete, voltava e ia, descendo e subindo, ele lembrava inté os nome dos preto já enforcado meio lôco, meio culpado, meio inocente, isso tudo soava indiferente. No fundo, num acreditava na inocência dos preto. Os culpado num precisa de amô. E os inocente precisa de sucesso pra prová sua inocência. Bocejô com desapego. Num tinha arrependimento, mais munta sede. Desta veiz, tomô dum só gole

Não chega a ser um remorso, mas não atendi o chamado que achava ter escutado.

o padinhu num resistiu à vontade da vontade e serviu a própria caneca, tem veiz qui o sangue fala mais alto e o costume repete aquilo qui jurô num repetí. Mais nem tudo fica perdido. Nas dominguêra existe o modo de podê fazê da lamentação um lastro de arrependimento. Sentiu qui num resistia sua vontade de tomá todo o vinho. Depois ia tê tempo pra se arrependê. Tinha um bão emprego com comida e cama quente, bebida de dá inveja, munta bebida

E que chamado foi esse?

o pardo estendeu o braço com a taça de barro na mão. O padinhu retornô a tirá a rôia da boca da garrafa, otra veiz encheu o vaso da visita. Fez o mesmo com o seu cálice. Num adianta enchê o copo pra quem num tem prazê com o gosto, se num gosta pruqui leva inté a boca? Nada meió qui bebê com os amigo. O vinho aproxima as vontade e destrava o atrevimento. Fechô o vinho com a rôia só pela metade. Sentiu vontade de abrí um pão. Foi inté o cofre. Pegô a farinha feito pão. O pão feito corpo. O corpo feito defunto. O defunto feito espritu santo e serviu da cruiz o pão. Num tinha mais lágrima. Tinha fome. Tem veiz qui a fome é prioridade. O pão arredondado e achatado num parecia sê um corpo. Num tinha perfume de morto, mais alguma coisa o deixava excitado

Não cumprí o chamado que achava ter escutado... para ser padre.

o vinho num parada mais nas bochecha, descia direto do vaso inté a garganta com o pão. Continuava descendo inté subí pra cabeça, trepando, arrepiando, os preto rindo dum e dotro. Cada um no seu trabáio de sacrifício, mais só os preto pensava em fugí ou se matá. Os único contratado pra toda vida: o padinhu e os preto. Emprego garantido

Bem, isso é uma surpresa.

as bochecha corada, o hálito quente, a euforia disposta ao padeciemnto pela causa, os preto sendo sacrificado pela comodidade da casa grande, a grande mãe branca. Tudo é batizado, menos o vinho do padinhu. Os preto sobrevivendo pelo instinto de vivê, deitados num buraco desencardido da vida

Mais um trago?

Claro!

nem a garrafa sobreviveu, ficô vazia. O padinhu foi inté o balcão embaixo do cofre, pegô otra garrafa. Os dois ficô quieto enquanto as mão delicada libertava a boca da garrafa. Os preto era de nenhuma palavra e pôca bebida, mais eles tinha trabáio pra toda vida. Sem sapato. Sem cama. Sem vinho. Com trabáio e ranhura pra toda vida

E por que não atendeu ao chamado?

o acinzentado num sabe se qué confessá o pecado da traição. Num sabe se pode confiá. Um peso a mais ou um peso a menos, tanto maió ou tanto menó, nada ia mudá a força qui precisava fazê pra continuá indo pra frente. Talveiz o vinho ou a fala mansa do padinhu, ou qualqué coisa qui ocê ache de dizê qui é. E o pensavento se confessô

Acho que o chamado não foi suficiente. E claro. Por outro lado, o chamado das mulheres não deixou dúvidas, foi convincente e insistente. Fiquei com a convocação das flores do mal. E o sinhô Padre Caramão nunca escutou o chamado das mulheres?

o depositário íntimo das alma levantô, algum vestígio revivido despertô as batida da memória. Largô o cálice sobre a mesa rústica sem cobertura. Os seus preto subia e descia com suas pedra e pau, o vinho escorria das costa

O sinhô não acha um despropósito criar nos padres a doença da castidade? 



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