sábado, 16 de julho de 2016

8.O Livro dos Abraços - Celebração da realidade - Eduardo Galeano

Eduardo Galeano


8. O Livro dos Abraços


Celebração da realidade


Se a tia de Dámaso Murúa tivesse contado sua história a Garcia Márquez, talvez a Crônica de uma morte anunciada tivesse outro final. 

Susana Contreras, que é como se chama a tia de Dámaso, teve em seus bons tempos a bunda mais incendiaria de todas as que ondularam na cidadezinha de Escuinapa e em todas as comarcas do golfo da Califórnia. 

Há muitos anos, Susana se casou com um dos numerosos galãs que sucumbiram ao seu remelexo. Na noite de núpcias, o marido descobriu que ela não era virgem. Então soltou-se da ardente Susana como se ela contagiasse de peste, bateu a porta e foi-se embora para sempre. 

O despeitado desandou a beber nos botequins, onde os convidados da festa continuavam a farra. Abraçado aos amigos, ele se pôs a mastigar rancores e a proferir ameaças, mas ninguém levava a sério seu tormento cruel. Com benevolência o escutavam, enquanto ele segurava, macho forte, as lágrimas que aos borbotões lutavam para sair, mas depois lhe diziam que a notícia não era de nada, que não desse bola, que claro que Susana não era virgem, que a cidade inteira sabia menos ele, e que afinal esse era um detalhe que não tinha a menor importância, e deixa de ser babaca, meu irmão, que a gente só vive uma vez. Ele insistia, e no lugar de gestos de solidariedade recebia bocejos. 

E assim foi avançando a noite, aos trambolhões, em triste bebedeira cada vez mais solitária, até o amanhecer. Um atrás do outro, os convidados foram dormir. A alvorada encontrou o ofendido sentado na rua, completamente sozinho e exausto de tanto se queixar sem que ninguém desse atenção. 


O homem já estava se cansando de sua própria tragédia, e as primeiras luzes desvaneceram a vontade de sofrer e de se vingar. 

No meio da manhã tomou um bom banho e um café bem quente e ao meio-dia voltou, arrependido, aos braços da repudiada. 

Voltou desfilando, em passo de grande' cerimônia, vindo lá da outra ponta da rua principal. Ia carregando um enorme ramo de rosas, encabeçando uma longa procissão de amigos, parentes e público em geral. A orquestra de serenatas fechava a marcha. A orquestra soava a todo vapor, tocando para Susana, à maneira de desagravo, La negra consentida e Vereda tropical. Com essas musiquinhas, tempos atrás, ele tinha se declarado a ela.


A arte e a realidade/1

Fernando Birri ia filmar o conto do anjo, de Garcia Márquez, e me levou para ver os cenários. No litoral cubano, Fernando tinha fundado um povoado de papelão e o tinha enchido de galinhas, de caranguejos gigantes e de atores. Ele ia fazer o papel principal, o papel de um anjo depenado que cai na terra e fica trancado num galinheiro. 

Marcial, um pescador do lugar, tinha sido solenemente designado Alcaide-Mor daquele povoado de cinema. Depois das formais boas-vindas, Marcial nos acompanhou. Fernando queria me mostrar uma obra-prima do envelhecimento artificial: uma gaiola desmantelada, leprosa, mordida pela ferrugem e por uma imundície antiga. Essa ia ser a prisão do anjo, depois de sua fuga do galinheiro. Mas no lugar daquele bagulho sabiamente arruinado pelos especialistas, encontramos uma gaiola limpa e bem armada, com suas barras perfeitamente alinhadas e recém-pintadas de dourado. Marcial ficou inchado de orgulho ao mostrar-nos aquela preciosidade. Fernando, metade atônito, metade furioso, quase o comeu vivo: 

O que é isto, Marcial? O que é isto? 

Marcial engoliu saliva, ficou rubro, agachou a cabeça e coçou a barriga. Então confessou: 

Eu não podia permitir. Não podia permitir que metessem naquela gaiola imunda um homem bom como o senhor.


A arte e a realidade/2

Eraclio Zepeda fez o papel de Pancho Villa em México Insurgente, o filme de Paul Leduc, e fez tão bem que desde então tem gente que acha que Eraclio Zepeda é o nome que Pancho Villa usa quando trabalha no cinema. 

Estavam em plena filmagem, numa aldeia qualquer, e as pessoas participavam em tudo o que acontecia, de modo muito natural, sem que o diretor desse palpite. Pancho Villa tinha morrido há meio século, mas ninguém se surpreendeu que ele aparecesse por ali. Certa noite, depois de uma intensa jornada de trabalho, algumas mulheres se reuniram na frente da casa onde Eraclio dormia, e pediram que ele intercedesse pelos presos. Na manhã seguinte, bem cedinho, ele foi falar com o prefeito. 

Foi preciso que o general Villa viesse, para que fizessem justiça — comentaram as pessoas.


A realidade é uma doida varrida 

Diga uma coisa. Diga se o marxismo proíbe comer vidro. Quero saber. 

 Foi em meados de 1970, no oriente de Cuba. O homem estava lá, plantado na porta, esperando. Pedi desculpas. Disse a ele que era pouco o que eu entendia de marxismo, uma coisinha ou outra, pouquinha, e que era melhor consultar um especialista em Havana. 

Já me levaram para Havana — disse —. Os médicos de lá me examinaram. E também o comandante. Fidel me perguntou: "Vem cá, será que o seu caso não é de ignorância?" 

Porque comia vidro, tinham tomado seu carnê da Juventude Comunista: 

Aqui, em Baracoa, abriram um processo. 

 Trígimo Suárez era miliciano exemplar, cortador de cana de primeira fila e trabalhador de vanguarda, desses que trabalham vinte horas e recebem oito, sempre o primeiro a acudir para tombar cana ou atirar tiros, mas tinha paixão pelo vidro: 

Não é vício — explicou —. É necessidade. 

Quando Trígimo era mobilizado para colheita ou guerra, a mãe enchia sua mochila de comida: punha algumas garrafas vazias, para o almoço e o jantar, e de sobremesa, tubos de lâmpada fluorescente usada. Também punha algumas lâmpadas queimadas, para o lanche. 

Trígimo me levou na casa dele, no bairro Camilo Cienfuegos, em Baracoa. Enquanto conversávamos, eu bebia café e ele comia lâmpadas. Depois de acabar com o vidro, chupava, guloso, os filamentos. 

O vidro me chama. Eu amo o vidro como amo a revolução. 

Trígimo afirmava que não havia nenhuma sombra em seu passado. Ele nunca tinha comido vidro alheio, exceto uma vez, uma vez só, quando estava louco de fome devorou os óculos de um companheiro de trabalho.



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Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. Tradução: Eric Nepomuceno Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer ISBN: 85.254.0306-0 G151L Galeano, Eduardo O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 1. Ficção uruguaia. I.Título. CDD U863 CDU 860(895)-3 Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989


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9.O Livro dos Abraços - Crônica da cidade de Havana - Eduardo Galeano

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