sábado, 29 de outubro de 2016

Cinema no Sábado 04 - Algumas dicas de Amor e Dor

Amor e Dor






Sinopse: O filme conta a história da conturbada relação entre Hua (Corinne Yam), uma estudante chinesa em Paris e Matthieu (Tahar Rahim), um francês que trabalha em uma construção civil nos subúrbios da capital francesa. Aos poucos o relacionamento toma um rumo instável, onde a violência física e verbal começa a fazer parte do cotidiano do casal. Com a desestabilização, a jovem decide voltar para China, mas acaba percebendo a importância do rapaz em sua vida.

Mais informações:
- Amor e Dor é uma adaptação do romance do escritor Jie Liu-Falin que também é co-roteirista do filme;
- Fez parte da seleção do Festival de Veneza 2011

O que dizem sobre:
"Uma história de amor brutal, arrebatadora em todos os sentidos, traduzido perfeitamente pelo titulo: Amor e Dor" - Jornal Le Monde

"Amor e Dor mostra uma relação intensa entre uma estudante chinesa e um rapaz francês que transpira sensualidade" - Jornal Libération

Título original: Love and Bruises
Direção: Lou Ye
Roteiro: Lou Ye , Liu Jie Falin
Produção: Kristina Larsen, Vicent Maravel
Fotografia: Nelson Yu Lik-wai
Edição: Juliette Welfling
Gênero: Drama
País: França
Ano: 2011
COR
Tempo: 105 min.
Classificação: A verificar

Elenco:
Corinne Yam, Tahar Rahim, Jalil Lespert, Vincent Rottiers, Sifan Shao, Zhang Songwen.







Laurence Anyways







Sinopse: Na década de 90, Laurence diz para sua namorada que deseja fazer uma operação para mudar de sexo e virar uma mulher. Juntos eles enfrentam os riscos, os preconceitos dos amigos e da sociedade. Durante 10 anos eles vivem juntos e tentam superar as dificuldades para conseguir viver esse amor impossível.

Título original: Laurence Anyways
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Produção: Lyse Lafontaine
Fotografia: Shayne Laverdière
Edição: Xavier Dolan
Gênero: Drama
País: França, Canadá
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos
Contém: conteúdo sexual, drogas lícitas e linguagem imprópria
Ano: 2012
COR

Tempo: 160 min
Classificação: a verificar

Elenco:
Nathalie Baye, Melvil Poupaud, Monia Chokri e Suzanne Clément.





Cairo 678






Sinopse: Fayza, Seba e Nelly. Três mulheres egípcias com vidas completamente diferentes se unem para combater o machismo que impera no Egito contemporâneo e que está em todos os lugares: nas ruas da cidade do Cairo, no trabalho e dentro de suas próprias casas. Determinadas, elas se unem e iniciam uma série de ataques contra os homens que ousam molestá-las. Quem são essas misteriosas mulheres que tem a coragem de enfrentar uma sociedade baseada na superioridade masculina?

Título original: 678

2010, 100 min, cor (Drama)
Egito

Diretor: Mohamed Diab
Roteiro: Mohamed Diab
Produção Executiva: Boshra
Direção de Fotografia: Ahmed Gabr
Direção de Arte:
Edição: Amr Salah El din
Trilha Original: Hani Adel

Elenco
Nelly Karim (Nilli Karim), Bushra (Bochri), Maged El Kedwany (Majid Kadouani), Ahmed El Fishawy (Ahmed El Feshawy / Ahmed Fichaoui), Bassem Samra (Bassim Samra), Sadwan Badr (Saousan Badr)

Prêmios:
Third Eye - Asian Film Festival
Melhor Filme (Grande Prêmio do Juri)

Dubai Film Festival
Melhor Ator e Melhor Atriz

Chicago International Film Festival
Melhor Filme e Melhor Ator (Maged El Kedwany)




09. O Guardador de Rebanhos - Sou um Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

Fernando Pessoa





IX - Sou um Guardador de Rebanhos




Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos 

E com as mãos e os pés 
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la 
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor 
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva, 
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 
Sei a verdade e sou feliz.




___________________

O Guardador de Rebanhos
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
(Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/guardador.htm)


___________________

Leia também:

08. O Guardador de Rebanhos - Num Meio-Dia de Fim de Primavera - Alberto Caeiro

10. O Guardador de Rebanhos - Olá, Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro


NiUnaMenos - No somos iguales - Las Krudas Cubensi

No somos iguales




Não somos iguais... violentadas, violentadores
Não somos iguais... penetradas, penetradores
Não somos iguais... as senhoras, os senhores
















NiUnaMenos - Eres bella - Las Krudas Cubensi

Eres bella




dedicamos a todas as mulheres do mundo, especialmente, as mais negras e as mais pobres










não há verdadeira revolução sem as mulheres!











sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Brasil nação - v1: § 4 – Ataque à soberania nacional - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1





PRIMEIRA PARTE
SEQUÊNCIAS HISTÓRICAS



capítulo 1 
os frutos do 7 de setembro




§ 4 – Ataque à soberania nacional.




A Assembleia Constituinte, de 1823, foi a primeira expressão da soberania brasileira. Dadas as condições de formação política do povo, com dois séculos, quase, de degradação bragantina, era impossível que a nação brasileira se mostrasse, desde logo, um primor em realizações democráticas. Já assinalamos a miserável condição em que se via o Brasil-colônia, até os seus últimos dias: fechado no ambiente podre, e ao mesmo tempo nulo, do Portugal da decadência. Não podia haver, para os brasileiros, nem escola de democracia, nem meios de cultura intelectual. Clérigos e juristas de Coimbra eram as raras formas de pensamento que se ofereciam para conduzir o país. Tal foi a Constituinte. Ora, num país onde o político é, apenas, o harmonizador dos meios e recursos nacionais com as correntes de opinião (tal acontece na Inglaterra), e que esses meios e recursos são organizados e apurados por especialistas e técnicos de valor; ainda aí, se a política é conduzida exclusivamente por juristas, admite-se que há, nisto, um grande mal, porque, para a realização e distribuição da vida moderna, a mentalidade do jurista é a menos própria. Considere-se, agora, no que eram as condições do Brasil de 1823, e reconhecer-se-á: que uma assembleia de juristas de Coimbra era, sem dúvida, inábil e contraindicada para a função de organizar a nação. Era esse o grande defeito da Constituinte. Mas, dado que não havia outros, e não fora admissível organizar o Brasil senão com brasileiros, essa mesma assembleia deve ser considerada excelente, porque continha, evidentemente, o melhor da mentalidade brasileira, já consagrada.20  Acusava-se, neles, um grave defeito: eram, quase todos, homens velhos, da pior velhice, porque não tinham experiência política, visto que o regime corrente não na dava, nem eles possuíam, mais, o ardor da idade, grande elemento numa obra revolucionária. De todo modo, não mereciam, certamente, o tom de desprezo com que são tratados nas páginas do Sr. Pereira da Silva, e, sobretudo, nas de Armitage. “À parte os Andradas, não havia na Constituinte, indivíduos acima da mediocridade...” Nesse tom peremptório, o historiador caixeiro fulmina a Assembleia brasileira, onde havia, além dos mesmos Andradas, Araújo Lima, Carneiro de Campos, Montezuma, Muniz Tavares, Xavier de Carvalho, 

20 Para um total de menos de cem deputados, havia, na Constituinte, 48 juristas, 19 clérigos e 7 militares.

Araújo Viana... No entanto, se se formula a questão: Que lei contraria às normas jurídico-sociais, ou alheia à moral decretou a Constituinte? Nenhuma, responde, com toda razão, Austricliano de Carvalho: “A pátria livre e independente era o seu alvo.” É bem de ver que o valor da Constituinte de 1824 não pode depender do conceito de quem, nem tinha o talento, nem a cultura, nem os motivos d’alma, em que o julgamento moral se eleva. Não serão os doestos, ou os louvores de um Armitage que consagrarão a nossa primeira Assembleia nacional, mas o valor de dignidade com que ela procedeu, no momento da provação, em face do imperador antibrasileiro. O próprio Armitage foi obrigado a reconhecer – que os deputados constituintes se portaram com toda a dignidade e absoluta correção, sem um pestanejar de covardia, sem um momento de concessão à força covarde que os atacava. Inermes, e cercados pela tropa arrogante, abandonados pelo ignóbil presidente cúmplice do imperador, os deputados permaneceram nos seus postos, em atitude de justo protesto, até que a realidade das baionetas e dos canhões lhes fechou as portas, depois de vinte e quatro horas de sessão permanente. Cumpre notar, em crédito dos deputados, que, na presença de tão iminente perigo, não mostraram pusilanimidade, nem vacilação: pelo contrário, pelo exemplo, com a exortação, animavam-se reciprocamente, e, ao raiar do dia seguinte, viu-se que nem um se havia retirado.21  Aproveitado para meirinho na dissolução da Constituinte, o lusitanófilo Vilela Barbosa foi ao ponto de injuriá-la: “Estou vendo aqui o mesmo que vi em Lisboa”, disse ele, de dentro do lacaismo com que se apresentou à Assembleia.22  Ora, no que se refere ao

21 Armitage, op. cit., págs. 57 e 63. 
22 Sentia-se tão imutavelmente português – Vilela Barbosa, que, em 1831 quis voltar para a sua pátria com o imperador deposto; este é que o intimou a ficar, pois que o instinto lhe dizia quão útil poderia ser ainda essa infecção, que se aproveitará para a maioridade. Pedro I negou-se a levá-lo, com a alegação de não querer suportar a carga por mais tempo. Mas Paranaguá insistia: “Só lá poderei viver, agora, porque lá tenho a minha aposentadoria...” (Carta do ministro austríaco Daiser, publicada no Jornal do Commercio, de 1913.) 

proceder da generalidade dos deputados, a comparação foi injuriosa mentira:23  Os constituintes brasileiros, sempre respeitosos para com o príncipe, responderam-lhe, no entanto, com toda a hombridade, até o último momento, ao passo que os famosos liberais das cortes de 1820, antes fanfarrões nos insultos à coroa, desde que esta se dispôs a dar-lhes o golpe, mal pressentiram o perigo, dobraram-se miseravelmente, tão covardes como na véspera haviam sido arrogantes: “Em Portugal, as cortes mal viram o rei retirar-se para Vila Franca, cinco a seis léguas de Lisboa, dissolveram-se a si mesmas, deixando um protesto que bem poucos assinaram, e cada um dos seus membros foi procurar pôr-se a salvo, ou na fuga, ou na comitiva do rei” (A. Viana). Vilela Barbosa teria sido um destes. A única identidade a notar-se nas duas situações é a sua miséria d’alma: deputado constituinte por parte do Brasil, dada a dissolução, ele se acomodou perfeitamente ao subsequente inexorável absolutismo, como, antes, se identificara com aquela atmosfera antibrasileira onde não puderam ficar os brasileiros de essência – Lino, Antonio Carlos, Feijó... E porque ali permaneceu, radicalmente lusitano, foi logo aproveitado pelo absolutismo português, em missão secreta junto ao embusteiro que se apoderara do Brasil: representando Portugal, onde tinha ofícios e funções públicas; mandado para tecer a reunião do Brasil a Portugal, ele passou, sem transição de alma, a ministro de um Brasil que estava oficialmente em guerra com o Estado que nele se

23 Houve algumas raras exceções, no proceder digno dos deputados de 1823: intimado a dar por dissolvida a Constituinte, cujo presidente era, então, Maciel da Costa, irmão uterino de Justiniano J. da Rocha (mas por obras de outro cônego); o futuro Queluz não admitiu, sequer, a proposta dos outros deputados para um protesto verbal: abandonou tudo, e correu ao paço, a comunicar o fim da empreitada... Vê-se·bem que havia diferenças essenciais entre os dois cônegos fecundantes. 

representava... Naquele preamar de ilogismos e incoerências, essa escolha é como fulguração de lógica...


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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-i-manoel-bonfim/


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Leia também:

O Brasil nação - v1: § 3 – O lusitanismo triunfante - Manoel Bomfim



Adelia Prado (Brasil)

da Poesia  (03)




Para o Zé



Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.





Sedução



A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.




Caña de Azúcar

Paco de Lucia



As cordas da poesia e o açúcar de caña










Daniel "Kiri" Escobar








En El Pais De La Libertad

Leon Gieco




Búsquenme, me encontrarán 
en el país de la libertad









Búsquenme donde se esconde el sol,
donde exista una canción.
Búsquenme a orillas del mar
besando la espuma y la sal.

Búsquenme, me encontrarán
en el país de la libertad.
Búsquenme, me encontrarán
en el país de la libertad,
de la libertad.

Búsquenme donde se detiene el viento
donde haya paz o no exista el tiempo,
donde el sol seca las lágrimas
de las nubes en la mañana.

Búsquenme, me encontrarán
en el país de la libertad.
Búsquenme, me encontrarán
en el país de la libertad,
de la libertad.




Rayuela - Julio Cortázar: Capítulo 34

Capítulo 34


En setiembre del 80, pocos meses después del
Y las cosas que lee, una novela, mal escrita,
fallecimiento de mi padre, resolví apartarme de los
para colmo una edición infecta, uno se pregunta
negocios, cediéndolos a otra casa extractora de Jerez
cómo puede interesarle algo así. Pensar que se ha
tan acreditada como la mía; realicé los créditos que
pasado horas enteras devorando esta sopa fría y de-
pude, arrendé los predios, traspasé las bodegas y sus
sabrida, tantas otras lecturas increíbles, Elle y Fran-
existencias, y me fui a vivir a Madrid. Mi tío (primo
ce Soir, los tristes magazines que le prestaba Babs.
carnal de mi padre), don Rafael Bueno de Guzmán
Y me fui a vivir a Madrid, me imagino que después
y Ataide, quiso albergarme en su casa; mas yo me
de tragarse cinco o seis páginas uno acaba por en-
resistí a ello por no perder mi independencia. Por
granar y ya no puede dejar de leer, un poco como
fin supe hallar un término de conciliación, combi-
no se puede dejar de dormir o de mear, servidum-
nando mi cómoda libertad con el hospitalario deseo
bres o látigos o babas. Por fin supe hallar un tér-
de mi pariente; y alquilando un cuarto próximo a
mino de conciliación, una lengua hecha de frases
su vivienda, me puse en la situación más propia para
preacuñadas para transmitir ideas archipodridas, las
estar solo cuando quisiese o gozar del calor de
monedas de mano en mano, de generación degenera-
familia cuando lo hubiese menester. Vivía el buen la
ción, te voilà en pleine écholalie. Gozar del calor de
señor, quiero decir, vivíamos en el barrio que se ha
la familia, ésa es buena, joder si es buena. Ah Ma-
construido donde antes estuvo el Pósito. El cuarto
ga, cómo podías tragar esta sopa fría, y qué diablos
de mi tío era un principal de dieciocho mil reales,
es el Pósito, che. Cuántas horas leyendo estas cosas,
hermoso y alegre, si bien no muy holgado para tan-
probablemente convencida de que eran la vida, y te-
ta familia. Yo tomé el bajo, poco menos grande que
nías razón, son la vida, por eso habría que acabar
el principal, pero sobradamente espacioso para mí
con ellas. (El principal, qué es eso.) Y algunas tardes
solo, y lo decoré con lujo y puse en él todas las
cuando me había dado por recorrer vitrina por vitri-
comodidades a que estaba acostumbrado. Mi fortu-
na toda la sección egipcia del Louvre, y volvía deseo-
na, gracias a Dios, me lo permitía con exceso.

so de mate y de pan con dulce, te encontraba pega-
Mis primeras impresiones fueron de grata sor-
da a la ventana, con un novelón espantoso en la
presa en lo referente al aspecto de Madrid, donde
mano y a veces hasta llorando, sí, no lo niegues, llo-
yo no había estado desde los tiempos de González
rabas porque acababan de cortarle la cabeza a al-
Brabo. Causábanme asombro la hermosura y ampli-
guien, y me abrazabas con toda tu fuerza y querías
tud de las nuevas barriadas, los expeditivos medios
saber adónde había estado, pero yo no te lo decía
de comunicación, la evidente mejora en el cariz de
porque eras una carga en el Louvre, no se podía an-
los edificios, de las calles y aun de las personas; los
dar con vos al lado, tu ignorancia era de las que
bonitísimos jardines, plantados en las antes polvoro-
estropeaban todo goce, pobrecita, y en realidad la
sas plazuelas, las gallardas construcciones de los ri-
culpa de que leyeras novelones la tenía yo por egoís-
cos, las variadas y aparatosas tiendas, no inferiores
ta (polvorosas plazuelas, está bien, pienso en las pla-
por lo que desde la calle se ve, a las de París o Lon-
zas de los pueblos de la provincia, o las calles de
dres y, por fin, los muchos y elegantes teatros para
La Rioja, en el cuarenta y dos, las montañas violetas
todas las clases, gustos y fortunas. Esto y otras co-
al oscurecer, esa felicidad de estar solo en una pun-
sas que observé después en sociedad, hiciéronme
ta del mundo, y elegantes teatros. ¿De qué está ha-
comprender los bruscos adelantos que nuestra capi-
blando el tipo? Por ahí acaba de mencionar a París
tal había realizado desde el 68, adelantos más pare-
y a Londres, habla de gustos y de fortunas, ya ves,
cidos a saltos caprichosos que al andar progresivo
Maga, ya ves, ahora estos ojos se arrastran irónicos
y firme de los que saben adónde van; mas no eran
por donde vos andabas emocionada, convencida de
por eso menos reales. En una palabra, me daba en
que te estabas cultivando una barbaridad porque
la nariz cierto tufillo de cultura europea, de bienes-
leías a un novelista español con foto en la contra-
tar y aun de riqueza y trabajo.

tapa, pero justamente el tipo habla de tufillo de
Mi tío es un agente de negocios muy conocido en
cultura europea, vos estabas convencida de que esas
Madrid. En otros tiempos desempeñó cargos de im-
lecturas te permitirían comprender el micro y el
portancia en la Administración: fue primero cónsul;
macrocosmo, casi siempre bastaba que yo llegara
después agregado de embajada; más tarde el matri-
para que sacases del cajón de tu mesa —porque te-
monio le obligó a fijarse en la corte; sirvió algún
nías una mesa de trabajo, eso no podía faltar nunca
tiempo en Hacienda, protegido y alentado por Bra-
aunque jamás me enteré de qué clase de trabajos
vo Murillo, y al fin las necesidades de su familia lo
podías hacer en esa mesa—, sí, del cajón sacabas la
estimularon a trocar la mezquina seguridad de un
plaqueta con poemas de Tristan L’Hermite, por ejem-
sueldo por las aventuras y esperanzas del trabajo
plo, o una disertación de Boris Schloezer, y me
libre. Tenía moderada ambición, rectitud, actividad
las mostrabas con el aire indeciso y a la, vez ufano
inteligencia, muchas relaciones; dedicóse a agenciar
de quien ha comprado grandes cosas y se va a po-
asuntos diversos, y al poco tiempo de andar en es-
ner a leerlas en seguida. No había manera de hacer-
tos trotes se felicitaba de ello y de haber dado car-
te comprender que así no llegarías nunca a nada,
petazo a los expedientes. De ellos vivía, no obstante,
que había cosas que eran demasiado tarde y otras
que eran demasiado pronto, y estabas siempre tan
despertando los que dormían en los archivos, im-
al borde de la desesperación en el centro mismo de
pulsando a los que se estacionaban en las mesas,
la alegría y del desenfado, había tanta niebla en tu
enderezando como podía el camino de algunos que
corazón desconcertado. Impulsando a los que se esta-
iban algo descarriados. Favorecíanle sus amistades
cionaban en las mesas, no, conmigo no podías con-
con gente de este y el otro partido, y la vara alta
tar para eso, tu mesa era tu mesa y yo no te ponía
que tenía en todas las dependencias del Estado. No
ni te quitaba de ahí, te miraba simplemente leer tus
había puerta cerrada para él. Podría creerse que los
novelas y examinar las tapas y las ilustraciones de
porteros de los ministerios le debían el destino, pues
tus plaquetas, y vos esperabas que yo me sentara a
le saludaban con cierto afecto filial y le franquea-
tu lado y te explicara, te alentara, hiciera lo que
ban las entra das considerándole como de casa. Oí
toda mujer espera que un hombre haga con ella, le
contar que en ciertas épocas había ganado mucho
arrolle despacito un piolín en la cintura y zás la
dinero poniendo su mano activa en afamados expe-
mande zumbando y dando vueltas, le dé el impulso
dientes de minas y ferrocarriles; pero que en otras
que la arranque a su tendencia a tejer pulóvers o a
su tímida honradez, le había sido desfavorable. Cuan-
hablar, hablar, interminablemente hablar de las mu-
do me establecí en Madrid, su posición debía de ser,
chas materias de la nada. Mirá si soy monstruoso,
por las apariencias, holgada sin sobrantes. No care-
qué tengo yo para jactarme, ni a vos te tengo ya
cía de nada, pero no tenía ahorros, lo que en verdad
porque estaba bien decidido que tenía que perderte
era poco lisonjero para un hombre que, después de
(ni siquiera perderte, antes hubiera tenido que ga-
trabajar tanto, se acercaba al término de la vida y
narte), lo que en verdad era poco lisonjero para un
y apenas tenía tiempo ya de ganar el terreno perdido.

hombre que... Lisonjero, desde quién sabe cuándo
Era entonces un señor menos viejo de lo que
no oía esa palabra, cómo se nos empobrece el len-
parecía, vestido siempre como los jóvenes elegantes,
guaje a los criollos, de chico yo tenía presentes mu-
pulcro y distinguidísimo. Se afeitaba toda la cara,
chas más palabras que ahora, leía esas mismas no-
siendo esto como un alarde de fidelidad a la genera-
velas, me adueñaba de un inmenso vocabulario per-
ción anterior, de la que procedía. Su finura y jovia-
fectamente inútil por lo demás, pulcro y distinguidí-
lidad, sostenidas en el fiel de la balanza, jamás caían
simo, eso sí. Me pregunto si verdaderamente te me-
del lado de la familiaridad impertinente ni del de la
tías en la trama de esta novela, o si te servía de
petulancia. En la conversación estaba su principal
trampolín para irte por ahí, a tus países misterio-
mérito y también su defecto, pues sabiendo lo que
sos que yo te envidiaba vanamente mientras vos me
valía hablando, dejábase vencer del prurito de dar
envidiabas mis visitas al Louvre, que debías sospe-
por menores y de diluir fatigosamente sus relatos.
char aunque no dijeras nada. Y así nos íbamos acer-
Alguna vez los tomaba desde el principio y adorná-
cando a esto que tenía que ocurrirnos un día cuan-
balos con tan pueriles minuciosidades, que era preci-
do vos comprendieras plenamente que yo no te iba
so suplicarle por Dios que fuera breve. Cuando re-
a dar más que una parte de mi tiempo y de mi vida,
fería un incidente de caza (ejercicio por el cual te-
y de diluir fatigosamente sus relatos, exactamente
nía gran pasión), pasaba tanto tiempo desde el exor-
esto, me pongo pesado hasta cuando hago memoria.
dio hasta el momento de salir el tiro, que al oyente
Pero qué hermosa estabas en la ventana, con el gris
se le iba el santo al cielo distrayéndose del asunto,
del cielo posado en una mejilla, las manos teniendo
y en sonando el pum, llevábase un mediano susto. No
el libro, la boca siempre un poco ávida, los ojos du-
sé si apuntar como defecto físico su irritación cró-
dosos. Había tanto tiempo perdido en vos, eras de
nica del aparato lacrimal, que a veces, principalmente
tal manera el molde de lo que hubieras podido ser
en invierno, le ponía los ojos tan húmedos y encen-
bajo otras estrellas, que tomarte en los brazos y
didos como si estuviera llorando a moco y baba. No
hacerte el amor se volvían una tarea demasiado tier-
he conocido hombre que tuviera mayor ni más rico
na, de masiado lindante con la obra pía, y ahí me
surtido de pañuelos de hilo. Por esto y su costum-
engañaba yo, me dejaba caer en el imbécil orgullo
bre de ostentar a cada instante el blanco lienzo en
del intelectual que se cree equipado para entender
la mano derecha o en ambas manos, un amigo mío,
(¿llorando a moco y baba?, pero es sencillamente
andaluz, zumbón y buena persona, de quien hablaré asqueroso como expresión). Equipado para entender, después, llamaba esto sólo a mi tío la Verónica.

si dan ganas de reírse, Maga. Oí, esto sólo para vos,
Mostrábame afecto sincero, y en los primeros días
para que no se lo cuentes a nadie. Maga, el molde
de mi residencia en Madrid no se apartaba de mí
hueco era yo, vos temblabas, pura y libre como una
para asesorarme en todo lo relativo a mi instalación
llama, como un río de mercurio, como el primer can-
y ayudarme en mil cosas. Cuando hablábamos de la
to de un pájaro cuando rompe el alba, y es dulce
familia y sacaba yo a relucir re cuerdos de mi infan-
decírtelo con las palabras que te fascinaban porque
cia o anécdotas de mi padre, entrábale al buen tío
no creías que existieran fuera de los poemas, y que
como una desazón nerviosa, un entusiasmo febril por
tuviéramos derecho a emplearlas. Dónde estarás,
las grandes personalidades que ilustraron el apellido
dónde estaremos desde hoy, dos puntos en un uni-
de Bueno de Guzmán y sacando el pañuelo me re-
verso inexplicable, cerca o lejos, dos puntos que
fería historias que no tenían término. Conceptuá-
crean una línea, dos puntos que se alejan y se acer-
bame como el último re presentante masculino de una
can arbitrariamente (personalidades que ilustraron
raza fecunda en caracteres, y me acariciaba y mi-
el apellido de Bueno de Guzmán, pero mirá las cur-
maba como a un chiquillo, a pesar de mis treinta y
silerías de este tipo, Maga, de cómo podías pasar de la
seis años. ¡Pobre tío! En esas demostraciones afec-
página cinco...), pero no te explicaré eso que llaman
tuosas que aumentaban considerablemente el manan-
movimientos brownoideos, por supuesto no te los
tial de sus ojos, descubría yo una pena secreta y agu-
explicaré y sin embargo los dos, Maga, estamos com-
dísima, espina clavada en el corazón de aquel exce-
poniendo una figura, vos un punto en alguna parte,
lente hombre. No sé cómo pude hacer este descu-
yo otro en alguna parte, desplazándonos, vos ahora
brimiento: pero tenía certidumbre de la disimulada
a lo mejor en la rue de la Huchette, yo ahora descu-
herida como si la hubiera visto con mis ojos y toca-
briendo en tu pieza vacía esta novela, mañana vos en
do con mis dedos. Era un desconsuelo profundo,
la Gare de Lyon (si te vas a Lucca, amor mío) y yo
abrumador, el sentimiento de no verme casado con
en la rue du Chemin Vert, donde me tengo descu-
una de sus tres hijas; contrariedad irremediable, por-
bierto un vinito extraordinario, y poquito a poco,
que sus tres hijas,¡ay, dolor! estaban ya casadas.


    Maga, vamos componiendo una figura absurda, dibujamos con nuestros movimientos una figura idéntica a la que dibujan las moscas cuando vuelan en una pieza, de aquí para allá, bruscamente dan media vuelta, de allá para aquí, eso es lo que se llama movimiento brownoideo, ¿ahora entendés?, un ángulo recto, una línea que sube, de aquí para allá, del fondo al frente, hacia arriba, hacia abajo, espasmódicamente, frenando en seco y arrancando en el mismo instante en otra dirección, y todo eso va tejiendo un dibujo, una figura, algo inexistente como vos y como yo, como los dos puntos perdidos en París que van de aquí para allá, de allá para aquí, haciendo su dibujo, danzando para nadie, ni siquiera para ellos mismos, una interminable figura sin sentido.


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Série: Gênios da Música Clássica 06 - Gershwin

Gershwin



Gênio... por essa e por todas as outras



Rhapsody in Blue - Leonard Bernstein













quinta-feira, 27 de outubro de 2016

15. A Metamorfose - Ultimamente, Gregório quase não comia - Franz Kafka

Franz Kafka


Capítulo 3

15 A Metamorfose - Ultimamente, Gregório quase não comia - Franz Kafka



Ultimamente, Gregório quase não comia. Só quando passava por acaso junto da comida que lhe tinham posto abocanhava um pedaço, à guisa de distração, conservando-o na boca durante coisa de uma hora, após o que normalmente acabava por cuspi-lo. Inicialmente pensara que era o desagrado pelo estado do quarto que lhe tirara o apetite. Depressa se habituou às diversas mudanças que se haviam registrado no quarto. A família adquirira o hábito de atirar para o seu quarto tudo o que não cabia noutro sítio e presentemente havia lá uma série delas, pois um dos quartos tinha sido alugado a três hóspedes. Tratava-se de homens de aspecto grave, qualquer deles barbado, conforme Gregório verificara um dia, ao espreitar através de uma fenda na porta, que tinham a paixão da arrumação, não apenas no quarto que ocupavam, mas também, como habitantes da casa, em toda ela, especialmente na cozinha. Não suportavam objetos supérfluos, para não falar de imundícies. Acresce que tinham trazido consigo a maior parte do mobiliário de que necessitavam. Isso tornava dispensáveis muitas coisas, que, insusceptíveis de venda mas mal empregadas para deitar fora, iam sendo acumuladas no quarto de Gregório, juntamente com o balde da cinza e a lata do lixo da cozinha. Tudo o que não era preciso de momento, era, pura e simplesmente, atirado para o quarto de Gregório pela empregada, que fazia tudo às pressas. Por felicidade, Gregório só costumava ver o objeto, fosse qual fosse, e a mão que o segurava. Talvez ela fizesse tenções de tornar a levar as coisas quando fosse oportuno, ou de juntá-las para um dia mais tarde as deitar fora ao mesmo tempo; o que é fato é que as coisas lá iam ficando no próprio local para onde ela as atirava, exceto quando Gregório abria caminho por entre o monte de trastes e as afastava um pouco, primeiramente por necessidade, por não ter espaço suficiente para rastejar, mas mais tarde por divertimento crescente, embora após tais excursões, morto de tristeza e cansaço, permanecesse inerte durante horas.Por outro lado, como os hóspedes jantavam freqüentemente lá em casa, na sala de estar comum, a porta entre esta e o seu quarto ficava muitas noites fechada; Gregório sempre aceitara facilmente esse isolamento, pois muitas noites em que a deixavam aberta tinha-se alheado completamente do acontecimento, enfiando-se no recanto mais escuro do quarto, inteiramente fora das vistas da família. Numa ocasião, a empregada deixou a porta ligeiramente aberta, assim tendo ficado até à chegada dos hóspedes para jantar, altura em que se acendeu o candeeiro. Sentaram-se à cabeceira da mesa, nos lugares antigamente ocupados por Gregório, pelo pai e pela mãe, desdobraram os guardanapos e levantaram o garfo e a faca. A mãe assomou imediatamente à outra porta com uma travessa de carne, seguida de perto pela filha, que transportava outra com um montão de batatas. Desprendia-se da comida um fumo espesso. Os hóspedes curvaram-se sobre ela, como a examiná-la antes de se decidirem a comer. Efetivamente, o do meio, que parecia dispor de uma certa autoridade sobre os outros, cortou um pedaço da carne da travessa, certamente para verificar se era tenra ou se havia que mandá-la de volta à cozinha. Mostrou um ar de aprovação, que teve o dom de provocar na mãe e na irmã, que os observavam ansiosamente, um suspiro de alívio e um sorriso de entendimento. 

A família de Gregório comia agora na cozinha. Antes de dirigir-se à cozinha, o pai de Gregório vinha à sala de estar e, com uma rasgada vênia, de boné na mão, dava a volta à mesa. Os hóspedes levantavam-se todos e murmuravam qualquer coisa por entre as barbas. Quando tomavam a ficar a sós, punham-se a comer, em quase completo silêncio. Gregório estranhou que, por entre os vários sons provenientes da mesa, fosse capaz de distinguir o som dos dentes a mastigarem a comida. Era como se alguém pretendesse demonstrar-lhe que para comer era preciso dispor de dentes e que, com mandíbulas que os não tivessem, por melhores que elas fossem, ninguém podia fazê-lo. Fome, tenho eu, disse tristemente Gregório, de si para si, mas não é de comida desta. Estes hóspedes a empanturrarem-se e eu para aqui a morrer de fome. 

Durante todo o tempo que ali passara, Gregório não se lembrava de alguma vez ter ouvido a irmã a tocar; nessa mesma noite, ouviu o som do violino na cozinha. Os hóspedes tinham acabado de jantar. O do meio trouxera um jornal e dera uma página a cada um dos outros; reclinados para trás, liam-no, enquanto fumavam. Quando se ouviu o som do violino, apuraram os ouvidos, levantaram-se e dirigiram-se nos bicos dos pés até à porta do vestíbulo, onde se detiveram, colados uns aos outros, à escuta. Sem dúvida apercebendo-se, na cozinha, dos seus movimentos, o pai de Gregório perguntou:

— Incomoda-os o som do violino, meus senhores? Se incomoda, paro agora.

Pelo contrário — replicou o hospede do meio —, não poderá a Menina Samsa vir tocar ali para a sala ao pé de nós? Sempre é mais apropriado e está-se muito melhor.

— Oh, com certeza — respondeu o pai de Gregório, como se fosse ele o violinista.

Os hóspedes regressaram à sala de estar, onde ficaram à espera. Imediatamente apareceu o pai de Gregório com a estante de música, a mãe com a partitura e a irmã com o violino. Grete fez silenciosamente os preparativos para tocar. Os pais, que nunca tinham alugado ‚quartos e por esse motivo tinham uma noção exagerada da cortesia devida aos hóspedes, não se atreveram a sentar-se nas próprias cadeiras. o pai encostou-se à porta, com a mão direita enfiada entre dois botões do casaco, cerimoniosamente abotoado até acima. Quanto à mãe, um dos hóspedes ofereceu-lhe a cadeira, onde se sentou a uma borda, sem sequer a mexer do sítio onde ele a colocara. 


A irmã de Gregório começou a tocar, enquanto os pais, sentados de um lado e doutro, lhe observavam atentamente os movimentos das mãos. Atraído pela música, Gregório aventurou-se a avançar ligeiramente, até ficar com a cabeça dentro da sala de estar. Quase não se surpreendia com a sua crescente falta de consideração para com os outros; fora-se o tempo em que se orgulhava de ser discreto. A verdade, porém, é que, agora mais do que nunca, havia motivos para ocultar-se: dada a espessa quantidade de pó que lhe enchia o quarto e que se levantava no ar ao menor movimento, ele próprio estava coberto de pó. Ao deslocar-se, arrastava atrás de si cotão, cabelos e restos de comida que se lhe agarravam ao dorso e aos flancos. A sua indiferença em relação a tudo era grande de mais para dar-se ao trabalho de deitar-se de costas e esfregar-se no tapete, para se limpar, como antigamente fazia várias vezes ao dia. E, apesar daquele estado, não teve qualquer pejo em avançar um pouco mais, penetrando no soalho imaculado da sala. 




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Universidade da Amazônia
A Metamorfose
de Franz Kafka de Franz Kafka

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Leia também:

14. A Metamorfose - E lá ficava ele novamente mergulhado na escuridão - Franz Kafka


16. A Metamorfose - Era evidente que ninguém se apercebera da sua presença - Franz Kafka


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Brasil nação - v1: § 3 – O lusitanismo triunfante - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1





PRIMEIRA PARTE
SEQUÊNCIAS HISTÓRICAS



capítulo 1 
os frutos do 7 de setembro




§ 3 – O lusitanismo triunfante. 




Curto de inteligência, falho de sentimento brasileiro, Pedro I não compreendeu a extensão dos feitos ligados ao ato que lhe fora ditado por José Bonifácio, e julgou poder voltar atrás do gesto do Ipiranga. Uma vez aclamado e coroado, considerando-se definitivamente empossado no domínio do Brasil, tratou de voltar, com ele, ao seio do seu Portugal, para a reconstituição do sonhado Império Luso-brasileiro.15  Para tanto, despediu os Andradas, passou por um ministério de transição, e, finalmente, fez o seu definitivo governo com Vilela Barbosa, o mesmo que viera completar a missão de Rio Maior, encarregado da parte íntima e essencial dela. O intuito confessado da mesma missão era restabelecer a autoridade de D. João VI, no Brasil, por um acordo com o já imperador, seu filho. Chegará o momento de verificar a verdade desta asserção; por ora, sigamos o desenvolvimento dos atos em que se definiu a política própria de Pedro I: abateu os Andradas, pôr no governo o homem exclusivamente feito em Portugal ulcerado de lusitanismo – Vilela Barbosa; dissolveu a Constituinte brasileira, prendeu e desterrou os principais representantes da nacionalidade, e deixou o selo indelével do bragantismo na felonia com que se esforçou por entregar ao governo português, já refeito em absolutismo, os próprios homens que o elevaram ao poder.16  Vistos à distância, no preconceito de 

15 Para Pedro I, o gesto do Ipiranga fora uma figa às cortes, suas inimigas. Quinze dias depois do “Independência ou Morte”, na carta de 22 de setembro, é que ele passa descompostura de arrieiro nas cortes – infames deputados. Nessa data, ele tem este arroto, que é característico: “... digo a essa cáfila sanguinosa (as cortes), que eu, como príncipe-regente do Brasil...”

16 É o caso do “Lucania”, navio que transportou José Bonifácio e os companheiros, quando desterrados, e que devia entrar no Tejo, afim de que o absolutismo português, já refeito, se apoderasse dos patriotas brasileiros, e os julgasse como rebeldes, para satisfação de todo o seu despeito. O comandante normal do navio, porque era brasileiro, foi mudado, como quase toda a guarnição,


que se tratava de uma fase revolucionária, levamos a agitação dos dias seguintes à Independência à conta da turbação natural da quadra. Puro engano: 1823 não foi crise lógica, decorrente dos sucessos anteriores; a situação era de paz interna (à parte a politicagem Ledo-José Bonifácio), e o que se possa considerar crise foi preparado e provocado pelo imperador. Desde que os Andradas, tomando a sério o 7 de Setembro, acentuaram uma política um tanto hostil ao Portugal – com quem estávamos em guerra; desde esse dia, que Pedro I mostrou a verdadeira significação da sua política. Concluindo o capítulo dado a esses fatos, Armitage anota a verdade: “E quando a força das circunstâncias tenha obrigado o governo a outorgar uma constituição, um princípio retrógrado prevalecia na maior parte dos atos administrativos... a tendência a favor dos portugueses era manifesta.” Chalaça, que dá o verdadeiro sabor à crise, fornece, nas páginas que mandou escrever, o melhor comentário da situação: “... que a portuguesada era a parte melhor e mais útil da população do Brasil... –... que essa mesma portuguesada, ostensivamente em oposição ao Brasil, sempre defendeu o imperador, sua única salvação...” Note-se, em todo o longo aranzel, o Conselheiro Chalaça fala como criatura inteiramente estranha a esta pátria.17

Conhecida a verdadeira significação do ato de 12 de novembro (a dissolução), houve, imediatamente, uma tão sensível conde-

substituída por portugueses completos. O navio levava instruções escritas – que se dirigisse para o porto francês, do Havre; mas o comandante, o português Barbosa teve instruções secretas, verbais, como o confessou perante testemunhas – para ficar em frente ao Tejo, até ser aprisionado. O imediato, que não estava no segredo da miséria de Vilela Barbosa, resistiu às mesmas ordens; o fato se tornou conhecido; o navio, finalmente, entrou num porto de Espanha, graças à intervenção do representante inglês, amigo de José Bonifácio, a coisa foi evitada. Quem o conta, documentadamente, é Drumond. (Anotações, pág. 76.)

17 Memórias oferecidas à Nação brasileira, sob o nome de Francisco Gomes da Silva (Chalaça), que pagou 30 libras esterlinas a Rodrigo da Fonseca Magalhães, para que as redigisse...

nação da política imperial, que Pedro I se agachou atrás das já citadas explicações, e fez garantir aos presos que asseguraria às suas famílias os meios de subsistência... apesar disto: “... as mães lamentavam os filhos, as esposas censuravam os maridos, as irmãs desprezavam os irmãos, que tinham trazido ramos de café nas barretinas no nefasto dia 12 de novembro, pondo em perigo a Independência, em proveito de uma facção odiosa”. Estas são referências de quem assistiu aos fatos, e participou deles, sendo, no entanto, monarquista e bragantista. Armitage, que alcançou todos os comparsas, na continuação da mesma política, atesta a impopularidade de Pedro I, desde esse mesmo dia. Homem de Melo, vindo decênios depois, tão monarquista que foi dobrado em barão, teve de render-se à verdade, e, para dar conceito de justiça, quanto ao primeiro reinado, reproduz Armitage: “O ato violento, da dissolução da Constituinte, repercutiu dolorosamente em todo o primeiro reinado... Nunca mais se atou o laço rompido da confiança nacional... Sete de Abril é o resultado de 12 de Novembro.”18  

Para ter ideia do quanto foi antinacional a política que levou o imperador a dissolver a Constituinte, basta ponderar em que o ministério seguinte ao dos Andradas, constituído por homens reconhecidamente bragantistas e chegados ao lusitanismo, como Nogueira da Gama e Carneiro de Campos, mesmo assim, esse não quis ter a responsabilidade do ato, e foi preciso que viesse um Vilela Barbosa. Nesse momento, a atmosfera de brasileirismo era aquela que se condensava na propaganda de Cipriano Barata, quando propunha se deportassem todos os portugueses – “figadais e constantes inimigos do Brasil”. Tempos afora, é este o sentir em que se reconhecem os ânimos brasileiros. Quarenta e cinco anos depois, porque em coração e em pensamento é uma

18 A Constituinte perante a História, pág. 49 – José Roberto, o pulha e covarde marechal português de dezessete, foi feito Marquês da Praia Grande, senador, grande do Império de Pedro I, eis a independência por ele realizada.

afirmação de nacionalismo, José de Alencar, apesar de qualificado em conservador, reclamará intransigentemente contra as pretensões do lusitanismo: “O Brasil não há de esquecer o que deve às suas origens americanas...” Então, muito bem se explica – que o golpe na nacionalidade brasileira fosse consagrado como vitória da portuguesada do Rio de Janeiro, que iluminou as fachadas, ao mesmo tempo que eram presos e perseguidos os deputados mais representativos da mesma nacionalidade: Montezuma, os Andradas, José Joaquim da Rocha, Belchior Pinheiro, Muniz Tavares, Henrique de Rezende, Carneiro da Cunha, Martiniano de Alencar, Almeida Fortuna, Xavier de Carvalho...19  Para melhor expressão do fato há que: a brigada destacada pelo imperador para cercar a Assembleia, foi comandada pelo português – brigadeiro Lazaro. De fato, o comandante-general naquela façanha, de tão formidável valentia, foi o próprio Pedro I. Assim o contam todos os historiadores inteirados do caso, desde o mesmo Armitage, até o caramuru, Sr. Abreu Lima. Nem é preciso esforço de demonstração, porque, no seu manifesto de 16 de novembro, Pedro I confessou: que foi quem fez reunir a tropa em São Cristóvão para vir contra a Assembleia.

19 Vilela Barbosa também arvorou um dos ramos de café da Domitila.


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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-i-manoel-bonfim/


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Leia também:


O Brasil nação - v1: § 2 – O Bragança ao natural... - Manoel Bomfim


O Brasil nação - v1: § 4 – Ataque à soberania nacional - Manoel Bomfim



terça-feira, 25 de outubro de 2016

Bobók - 4. Mas depois começou tal pandemônio - Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski


4.


Mas depois começou tal pandemônio que não retive tudo na memória, porque muitos acordaram ao mesmo tempo; acordou um funcionário, conselheiro civil, e começou imediatamente a discutir com o general o projeto de uma nova subcomissão no ministério e, conjugado com essa subcomissão, um provável remanejamento de ocupantes de cargos, o que deixou o general bastante entretido. Confesso que eu mesmo me inteirei de muitas novidades, de sorte que fiquei impressionado com os meios pelos quais às vezes podemos tomar conhecimento das novidades administrativas nesta capital. Depois semidespertou um engenheiro, que ainda levou tempo resmungando um completo absurdo, de sorte que os nossos nem implicaram com ele, mas deixaram que por ora continuasse deitado. Finalmente uma ilustre grã-senhora, sepultada pela manhã no catafalco, deu sinais de animação tumular. Lebieziátnikov (porque se chamava Lebieziátnikov o bajulador conselheiro da corte, objeto do meu ódio, que se colocara ao lado do general Piervoiêdov) ficou muito agitado e surpreso ao ver que desta vez todos estavam acordando muito depressa. Confesso que eu também me surpreendi; aliás, alguns dos despertos já estavam enterrados há três dias, como, por exemplo, uma mocinha bem jovem, de uns dezesseis anos, que dava risadinhas sem parar... dava risadinhas abjetas e sensuais.

— Excelência, o conselheiro secreto Tarassiêvitch está acordando! — anunciou de súbito Lebieziátnikov com uma pressa excepcional.


— Ãh, o quê? — resmungou o conselheiro secreto com voz ciciante e nojo, despertando de repente. No som da voz havia um quê de capricho e imposição. Por curiosidade agucei o ouvido, pois nos últimos dias eu ouvira falar coisas sumamente tentadoras e inquietantes a respeito desse Tarassiêvitch. 

— Sou eu, Excelência, por enquanto apenas eu. 

— Qual é o seu pedido e o que o senhor deseja? 

— Apenas me inteirar da saúde de Vossa Excelência; por falta de hábito, cada um que chega aqui se sente meio tolhido da primeira vez... O general Piervoiêdov gostaria de ter a honra de conhecer Vossa Excelência e espera... 

— Não ouvi. 

— Perdão, Excelência, é o general Piervoiêdov, Vassíli Vassílievitch... 

— O senhor é o general Piervoiêdov? 

— Não, Excelência, sou apenas o conselheiro da corte Lebieziátnikov para servi-lo, mas o general Piervoiêdov... 

— Absurdo! E peço-lhe que me deixe em paz. 

— Deixai-o — finalmente o general Piervoiêdov deteve com dignidade a pressa torpe do seu cliente sepulcral. 

— Ele ainda não acordou, Excelência, é preciso considerar; isso é falta do hábito: quando acordar o receberá de modo diferente... 

— Deixai-o — repetiu o general.



— Vassíli Vassílievitch! Ei, Excelência! — gritou alto de súbito e entusiasmada ao lado da própria Avdótia Ignátievna uma voz inteiramente novata, voz fidalguesca e petulante, com a dicção lânguida da moda e descaradamente escandida —, já faz duas horas que vos observo a todos; há três dias estou deitado aqui: o senhor se lembra de mim, Vassíli Vassílievitch? Kliniêvitch, nós nos encontramos em casa de Volokonski, onde o senhor, não sei por quê, também era recebido.

— Como, o conde Piotr Pietróvitch... não me diga que é o senhor... e em idade tão jovem... Como lamento!

— E eu também lamento, só que para mim dá no mesmo e doravante quero desfrutar de tudo o que for possível. E não sou conde, mas barão, apenas barão. Nós somos uns baronetes sarnentos, descendentes de criados, aliás, eu até desconheço a razão disso e estou me lixando. Sou apenas um pulha da “pseudo-alta sociedade” e me considero um “amável polisson”. Meu pai era um generalote qualquer e houve época em que minha mãe era recebida en haut lieu. No ano passado eu e o jid Zifel pusemos em circulação cerca de cinquenta mil rublos em notas falsas, eu o denunciei, e o dinheiro Yulka Charpentier de Lusignan levou todinho para Bordeaux. E imaginai que eu já estava noivo — de Schevaliévskaia, moça ainda colegial, a menos de três meses para completar dezesseis anos, noventa mil rublos de dote. Avdótia Ignátievna, estais lembrada de como me pervertestes há quinze anos, quando eu ainda era um cadete de quatorze anos? 

— Ah, és tu, patife, pelo menos Deus te enviou, porque aqui... 

— Em vão desconfiastes de mau cheiro no vosso vizinho negociante... Eu me limitei a calar e rir. Porque o mau cheiro sai de mim; é que me enterraram num caixão pregado. 

— Ah, que tipo abominável! Mas mesmo assim estou contente; não acreditaríeis, Kliniêvitch, não acreditaríeis como isso aqui carece de vida e graça. 

— Pois é, pois é, mas eu tenho a intenção de organizar aqui alguma coisa original. Excelência — não estou falando com o senhor, Piervoiêdov —, Excelência, o outro, o senhor Tarassiêvitch, o conselheiro secreto. Respondei! É Kliniêvitch, que na Quaresma vos levou à casa de mademoiselle Furie, estais lembrado? 

— Eu vos estou ouvindo, Kliniêvitch, e muito contente, acreditai... 

— Não acredito numa vírgula, e estou me lixando. Eu, amável velhote, quero simplesmente cobri-lo de beijos, mas graças a Deus não posso. Sabeis vós, senhores, o que esse grandpère engendrou? Faz três ou quatro dias que morreu, e podeis imaginar que deixou um desfalque de quatrocentos mil rublos redondos em dinheiro público? A quantia estava em nome das viúvas e dos órfãos, mas não se sabe por que ele a administrava sozinho, de sorte que acabou ficando oito anos livre de fiscalização. Imagino a cara de tacho de todos eles lá e que lembrança guardam dele! Não é verdade que é uma ideia cheia de volúpia? Vivi todo o ano passado admirado de ver como esse velhote de setenta anos, cheio de gota nas mãos e nos pés, ainda conseguia conservar tanta energia para a libertinagem, e agora vejo o enigma decifrado! Aquelas viúvas e órfãos... aliás, a simples ideia de sua existência deveria deixá-lo em brasas!... Eu já conhecia essa história havia muito tempo, e era o único a conhecê-la, Charpentier me contou na Semana Santa e, mal tomei conhecimento, investi contra ele, amigavelmente: “Passa-me vinte e cinco mil, senão amanhã a fiscalização estará aqui”; imaginai, na ocasião ele só arranjou treze mil, de sorte que, parece, agora a morte dele vem bem a propósito. Grand-père, grand-père, estais ouvindo? 

— Chèr Kliniêvitch, estou inteiramente de acordo convosco, e em vão... descestes a semelhantes detalhes. Na vida há tanto sofrimento, tanto martírio e tão pouco castigo... eu desejei finalmente aquietar-me e, até onde percebo, espero até neste lugar desfrutar de tudo... 

— Aposto que ele já farejou Kátich Bieriestova!

— Qual?... Que Kátich? — tremeu lasciva a voz do velho. 

— Ahah, que Kátich? Ali está, à esquerda, a cinco passos de mim, a dez do senhor. Ela já está aqui há cinco dias, e se o senhor, grand-père, soubesse que canalhinha... de um bom lar, educada, e um monstro, um monstro em último grau! Lá eu não a mostrava a ninguém, só eu sabia... Kátich, responda! 

— Ih-ih-ih! — respondeu o som de cana rachada da voz da mocinha, mas nele se ouviu algo como uma alfinetada. — Ih-ih-ih! 

— E é lou-ri-nha?— balbuciou o grande-père com três sons fragmentados. — Ih-ih-ih! 

— A mim... a mim já faz tempo — pôs-se a balbuciar ofegante o velho — que me atrai o sonho com uma lourinha... de uns quinze anos... e justamente numa situação como esta... 

— Ah, que monstruosidade! — exclamou Avdótia Ignátievna. 

— Basta! — resolveu Kliniêvitch. —, estou vendo que o material é magnífico. Aqui vamos nos organizar rapidamente para atingir o melhor. O principal é que passemos com alegria o resto do tempo: mas que tempo? Ei, o senhor aí, Lebieziátnikov, funcionário de alguma coisa, parece que foi esse o nome que ouvi chamarem!



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Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881 D724b Bobók / Fiódor Dostoiévski; tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Oswaldo Goeldi; texto de Mikhail Bakhtin. — São Paulo: Editora 34, 2012 (1ª Edição). 96 p. (Coleção Leste)


1. Literatura russa. I. Bezerra, Paulo. II. Goeldi, Oswaldo, 1895-1961. III. Bakhtin, Mikhail, 1895-1975. IV. Título. V. Série.

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BOBÓK*

*Publicado originalmente no semanário Grajdanin (O Cidadão), nº 6, em 5 de fevereiro de 1873, quando Dostoiévski já era seu redator-chefe. Traduzido do original russo Pólnoie sobránie sotchiniénii v tridtsatí tomákh (Obras completas em trinta tomos) de Dostoiévski, tomo XXI, Leningrado, Ed. Naúka, 1980. As notas da edição russa estão assinaladas com (N. da E.); as notas do tradutor, com (N. do T.).

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Leia também:

Bobók - 3. Não, eu ainda gostaria de viver! - Dostoiévski

Bobók - 5. Lebieziátnikov, conselheiro da corte - Dostoiévski


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

17.O Livro dos Abraços - Mapa-múndi/1 - Eduardo Galeano

Eduardo Galeano


17. O Livro dos Abraços



Mapa-múndi/1


O sistema
Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta. 
Suas vítimas: 
Quanto mais pagam, mais devem. 
Quanto mais recebem, menos têm. 
Quanto mais vendem, menos compram. 



Mapa-múndi/ 2 



No Sul, a repressão. Ao Norte, a depressão.
Não são poucos os intelectuais do Norte que se casam com as revoluções do Sul só pelo prazer de ficarem viúvos. Prestigiosamente choram, choram a cântaros, choram mares, a morte de cada ilusão; e nunca demoram muito para descobrir que o socialismo é o caminho mais longo para chegar do capitalismo ao capitalismo. 

A moda do Norte, moda universal, celebra a arte neutra e aplaude a víbora que morde a própria cauda e acha que é saborosa. A cultura e a política se converteram em artigos de consumo. Os presidentes são eleitos pela televisão, como os sabonetes, e os poetas cumprem uma função decorativa. Não há maior magia que a magia do mercado, nem heróis mais heróis que os banqueiros. 

A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o espetáculo, que não é negado a ninguém. E ninguém se incomoda muito, afinal, que a política seja democrática, desde que a economia não o seja. Quando as cortinas se fecham no palco, uma vez que os votos foram depositados nas urnas, a realidade impõe a lei do mais forte, que a lei do dinheiro. Assim determina a ordem natural das coisas. No Sul do mundo, ensina o sistema, a violência e fome não pertencem à história, mas à natureza, e a justiça liberdade foram condenadas a odiar-se entre si.

A desmemória/1


Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. 

Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero.



A desmemória/2


O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. A ditadura militar, medo de escutar, medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ter Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a sujeira da memória.



O medo


Certa manhã, ganhamos de presente um coelhinho das índias. Chegou em casa numa gaiola. Ao meio-dia, abri a porta da gaiola. 

Voltei para casa ao anoitecer e o encontrei tal e qual o havia deixado: gaiola adentro, grudado nas barras, tremendo por causa do susto da liberdade.



O rio do Esquecimento


A primeira vez que fui à Galícia, meus amigos me levaram ao rio do Esquecimento. Meus amigos me disseram que os legionários romanos, nos antigos tempos imperiais, tinham querido invadir aquelas terras, mas dali não haviam passado: paralisados de pânico, tinham parado nas margens daquele rio. E não o haviam atravessado nunca, porque quem cruza o rio do Esquecimento chega à outra margem sem saber quem é ou de onde vem. Eu estava começando meu exílio na Espanha, e pensei: se bastam as águas de um rio para apagar a memória, o que acontecerá comigo, que atravessei um mar inteiro? Mas eu tinha andado, percorrendo os pequenos povoados de Pontevedra e Orense, e tinha descoberto tavernas e cafés que se chamavam Uruguay ou Venezuela ou Mi Buenos Aires Querido e cantinas que ofereciam parrilladas ou arepas, e por tudo que era canto havia flâmulas do Penarol e do Nacional e do Boca Juniors, e tudo aquilo era dos galegos que tinham regressado da América e sentiam, ali, saudades pelo avesso. Eles tinham ido embora de suas aldeias, exilados como eu, embora afugentados pela economia e não pela polícia, e depois de muitos anos estavam de volta à sua terra de origem, e nunca tinham esquecido nada. Nem ao ir embora, nem ao estar lá, nem ao voltar: nunca tinham esquecido nada. E agora tinham duas memórias e duas pátrias.



A desmemória / 3


Nas ilhas francesas do Caribe, os textos de história ensinam que Napoleão foi o mais admirável guerreiro do Ocidente. Naquelas ilhas, Napoleão restabeleceu a escravidão em 1802. A sangue e fogo obrigou os negros livres a voltarem a ser escravos nas plantações. Disso, os textos não dizem nada. Os negros são os netos de Napoleão, não as suas vítimas.




A desmemória/4


Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, ao redor do edifício mais alto do mundo. Chicago está cheia de fábricas, Chicago está cheia de operários. 

Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada primeiro de maio. 

Deve ser por aqui — me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada. 

O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos, o Primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo.

Após a inútil exploração de Heymarket, meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema. 

O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.



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Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. Tradução: Eric Nepomuceno Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer ISBN: 85.254.0306-0 G151L Galeano, Eduardo O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 1. Ficção uruguaia. I.Título. CDD U863 CDU 860(895)-3 Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989


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Leia também:

16.O Livro dos Abraços - Dizem as paredes/2 - Eduardo Galeano


18.O Livro dos Abraços - Celebração da subjetividade  - Eduardo Galeano


Florbela Espanca - A Mensageira das Violetas 08

Florbela Espanca



08 - A Mensageira das Violetas





TORTURA


Tirar dentro do peito a emoção, 
A lúcida verdade, o sentimento! 
- E ser, depois de vir do coração, 
Um punhado de cinza esparso ao vento!... 

Sonhar um verso d´alto pensamento, 
E puro como um ritmo d´oração! 
E ser, depois de vir do coração, 
O pó, o nada, o sonho dum momento!...

São assim ocos, rudes, os meus versos: 

Rimas perdidas, vendavais dispersos, 
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro, 
O verso altivo e forte, estranho e duro, 
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!




A MINHA DOR
A você


A minha dor é um convento ideal 
Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres d´agonias 
Ao gemer, comovidos, o seu mal... 
E todos têm sons de funeral 
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha dor é um convento. 
Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro! 
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...




A FLOR DO SONHO



A flor do sonho, alvíssima, divina 
Miraculosamente abriu em mim, 
Como se uma magnólia de cetim 
Fosse florir num muro todo em ruína. 

Pende em meu seio a haste branda e fina. 
E não posso entender como é que, enfim, 
Essa tão rara flor abriu assim!... 
Milagre... fantasia... ou talvez, sina.... 

Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos, 
Que tem que sejam tristes os meus olhos 
Se eles são tristes pelo amor de ti?!... 

Desde que em mim nasceste em noite calma, 
Voou ao longe a asa da minh´alma 
E nunca, nunca mais eu me entendi...



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A Mensageira das Violetas, de Florbela Espanca

Fonte: ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket). 

Texto proveniente de: 
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. 

Texto-base digitalizado por: 
Luciana Peixoto Silva – Divinópolis/MG
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Leia também:

Florbela Espanca - A Mensageira das Violetas 07

Florbela Espanca - A Mensageira das Violetas 09

Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / VII

Júlio Verne



Viagem ao Centro da Terra/VII





Assim terminou a memorável seção que muito me excitou. Saí do gabinete do meu tio completamente perdido, e não havia ar suficiente nas ruas de Hamburgo para que eu me recuperasse. 

Fui até as margens do Elba, junto à barcaça a vapor que liga a cidade à estrada de ferro de Harburg.

Estava realmente convencido? Não fora subjugado pelo professor Lidenbrock?

Deveria levar a sério sua decisão de ir ao centro do maciço terrestre? Acabara de ouvir as especulações insensatas de um louco ou as deduções científicas de um grande gênio? Quais eram os limites entre a realidade e o erro?

Flutuava entre mil hipóteses contraditórias sem conseguir me agarrar a nenhuma. Lembrava-me, entretanto, de ter me convencido, embora meu entusiasmo começasse a diminuir; gostaria de partir imediatamente para não ter tempo de pensar. Sim, no momento não teria me faltado coragem para fechar as malas. Devo confessar, no entanto, que, uma hora depois, minha excitação arrefeceu. Senti meus nervos relaxarem-se e, dos profundos abismos da terra, voltei à superfície.

- É um absurdo! - exclamei. - Insensato! Isso não é proposta que se faça a um rapaz de bom senso. Nada disso existe.

Dormi mal, tive um pesadelo.

Enquanto pensava, seguira pelas margens do Elba e dera a volta na cidade. Após ter passado pelo porto, chegara à estrada de Altona. Era conduzido por um pressentimento, justificado, pois logo vi minha pequena Grauben, que voltava corajosamente a Hamburgo em passadas apressadas.

- Grauben! - gritei de longe.

A jovem parou, creio que um tanto perturbada por ouvir seu nome dessa forma numa estrada. Dez passos e estava a seu lado.

- Axel - surpreendeu-se. - Você veio me encontrar! Que bom!

Mas, ao olhar para mim, Grauben não se deixou enganar pelo meu ar inquieto, transtornado.

- O que há com você? - disse-me, estendendo a mão.

- O que há comigo, Grauben? - exclamei.

Em dois segundos e três frases pus minha bela Virlandesa a par da situação. Ela ficou em silêncio por alguns instantes. Seu coração palpitava tanto quanto o meu? Não sei, mas sua mão não tremia na minha. Andamos uns cem passos em silêncio.

- Axel! - disse-me finalmente.

- Minha querida Grauben!

- Será uma bela viagem.

Fiquei estupefato com essas palavras.

- Sim, Axel, uma viagem digna do sobrinho de um sábio. Um homem deve distinguir-se por algum grande feito!

- O quê, Grauben, você não vai tentar demover-me da idéia de tal expedição?

- Não, caro Axel, e bem que eu acompanharia você e seu tio, se uma pobre moça não os fosse atrapalhar...

- Sério?

- Sério.

Ah, mulheres, moças, corações femininos sempre incompreensíveis! Quando não são os mais tímidos dos seres, são os mais corajosos de todos! Nunca usam a razão. Imaginem! Aquela criança encorajava-me à expedição! Não teria medo de tentar a aventura! Ela me empurrava à viagem, eu a quem ela amava tanto! Estava desconcertado, e por que não dizer, envergonhado.

- Grauben - tornei -, vamos ver se amanhã você dirá a mesma coisa.

- Com toda a certeza, Axel querido.

De mãos dadas, mas mudos, Grauben e eu continuamos andando. Estava alquebrado pelas emoções do dia.

"Afinal de contas", pensei, "ainda falta muito tempo para as calendas de julho, e daqui até lá talvez os acontecimentos façam com que meu tio se cure de sua mania de viajar sob a terra".

A noite já caíra quando chegamos à Königstrasse. Esperava encontrar a casa sossegada, meu tio deitado de acordo com seus hábitos e a boa Marthe dando suas últimas espanadas da noite na sala de jantar.

Esquecera-me, contudo, da impaciência do professor. Encontrei-o gritando e agitando-se no meio de uma tropa de carregadores que descarregava certas mercadorias na rua; a velha criada não sabia o que fazer.

- Ande, Axel, venha de uma vez, infeliz! - gritou meu tio quando me viu ao longe. - Ainda não fez sua mala, meus papéis não estão em ordem, não acho a chave de minha sacola de viagem, e minhas polainas que não chegam!

Fiquei pasmo. Perdi a voz. Mal consegui articular estas palavras:

- Então estamos de partida?

- Claro, infeliz, que vai passear em vez de ficar por aqui!

- Estamos de partida? - repeti, a voz mais fraca.

Não quis ouvir mais nada; fugi para o meu quartinho. Não havia mais dúvidas. Meu tio empregara sua tarde comprando uma parte dos objetos e utensílios necessários à sua viagem; a calçada estava atulhada de escadas de corda, cordas com nós, tochas, cantis, ganchos de ferro, picaretas, bastões de ferro, pás, carregamento para, no mínimo, dez homens.

Passei uma noite horrorosa. No dia seguinte, acordaram-me muito cedo. Tinha decidido não abrir a porta. Mas como resistir à voz suave que dizia: "Meu querido Axel"?

Saí do quarto. Achei que meu ar desfigurado, minha palidez e meus olhos vermelhos pela falta de sono iriam comover Grauben e fazê-la mudar de ideia.

- Ah, meu querido Axel - disse-me ela -, estou vendo que você está melhor e que a noite o acalmou. - Acalmou! - exclamei.

Corri para o espelho e constatei... que meu aspecto não estava tão ruim quanto supunha. Era inacreditável.

- Axel - disse-me Grauben -, conversei muito com meu tutor. É um cientista ousado, homem de muita coragem, e você deve lembrar-se de que o sangue dele corre em suas veias. Contou-me sobre seus planos, suas esperanças, por que e como pretende alcançar seu objetivo. Tenho certeza de que conseguirá! Ah! Caro Axel, como é bonito dedicar-se à ciência com tanto empenho! Quanta glória aguarda o senhor Lidenbrock e seu companheiro! Quando voltar, Axel, você será um homem, seu igual, livre para falar, livre para agir, livre enfim para...

A jovem, corando, não conseguiu concluir. Suas palavras reanimaram-me. Contudo, ainda não queria acreditar em nossa partida. Arrastei Grauben para o gabinete do professor.

- Tio - disse -, então iremos mesmo?

- O quê? Você ainda tem dúvidas?

- Não - disse para não o contrariar. - Só quero saber o porquê de tanta pressa.

- O tempo urge! O tempo corre com uma velocidade irreparável.

- Mas hoje é apenas 26 de maio, e até o fim de junho...

- E você acha, seu ignorante, que é tão fácil assim chegar à Islândia? Se você não tivesse saído correndo como um louco, teria me acompanhado à Representação de Copenhague, Liffender e Cia., e teria constatado que o único transporte de Copenhague a Reykjavik parte todo mês, no dia 22.

- E então?

- E então, se esperássemos o dia 22 de junho, chegaríamos tarde demais para ver a sombra do Scartaris acariciar a cratera do Sneffels. Temos que ir a Copenhague o mais rápido possível para tentar achar por lá um outro meio de transporte. Vá arrumar sua mala!

Não havia o que responder. Voltei a subir para o meu quarto. Grauben acompanhou-me e encarregou-se de arrumar numa malinha os objetos necessários à minha viagem. Ela agia como se eu estivesse partindo para um passeio em Lübeck ou Heligoland. Suas mãozinhas iam e vinham sem precipitação. Conversava com a maior calma. Dava razões das mais sensatas para nossa expedição. Enfeitiçava-me e eu sentia a maior raiva dela. Por vezes, fiz menção de enfurecer-me, mas ela não deu a menor atenção e continuou a executar sua tarefa com a maior tranqüilidade. Finalmente fechou a última fivela da mala. Desci para o térreo.

No decorrer daquele dia, os fornecedores de instrumentos de física, de armas, de aparelhos elétricos multiplicaram-se. A boa Marthe estava atordoada.

- O patrão enlouqueceu? - perguntou-me.

Fiz um sinal afirmativo.

- E vai levar o senhor com ele?

Mais uma afirmação.

- Para onde? - quis saber.

Indiquei o centro da Terra com o dedo.

- Ao porão? - exclamou a velha criada.

- Não - disse finalmente -, ainda mais para baixo!

A noite caiu. Nem havia percebido o tempo passar.

- Até amanhã - disse meu tio. - Partiremos às seis em ponto.

Às dez horas caí na cama como uma massa inerte. Durante a noite voltei a ficar apavorado. Só sonhei com abismos! Estava à beira do delírio. Sentia a mão vigorosa do professor apertar-me, arrastar-me, afundar-me, enterrar-me! Caía no fundo de precipícios insondáveis na velocidade crescente dos corpos abandonados no espaço. Minha vida não passava de uma queda interminável. Acordei às cinco horas, morto de cansaço e de emoção. Desci para a sala de jantar. Meu tio estava sentado à mesa e devorava a refeição. Olhei-o com um sentimento de horror. Grauben estava ali. Não disse nada. Não consegui comer. Às cinco e meia, ouvi o ruído de um veículo na rua. Chegava para levar-nos à estação de Altona. Logo estava atulhado de pacotes de meu tio.

- E a sua mala? - perguntou-me.

- Está pronta - respondi desfalecendo.

- Então ande logo, senão perderemos o trem!

Pareceu-me impossível lutar contra o destino. Subi até meu quarto e, deixando a mala escorregar pelos degraus da escada, corri atrás dele. Naquele momento, meu tio passava às mãos de Grauben as "rédeas" da casa. Minha bela Virlandesa estava calma como de hábito. Deu um beijo em seu tutor e não conseguiu evitar uma lágrima que roçou meu rosto através de seus lábios suaves.

Marthe e a jovem deram-nos um último adeus.

- Grauben! - gritei.

- Vá, meu querido Axel - disse-me -, você está abandonando sua noiva, mas, quando voltar, encontrará sua mulher.

Apertei Grauben em meus braços e entrei no carro. Da porta, Marthe e a moça deram-nos o último adeus. Depois, os dois cavalos, excitados pelo assobio do cocheiro, lançaram-se a galope pela estrada de Altona.




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