quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O Brasil nação - v1: adsequência 2 - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1




adsequência 2




Há castas espirituais. Os dirigentes dessa política formam uma casta, instituída sob a pressão de necessidades que desapareceram, desde que a inteligência, bem nutrida na ciência, multiplicou os recursos, e as vontades se disciplinaram para apurar a produção e sistematizar a distribuição. Infelizmente, porém, quer a natureza que as castas não progridam: são o que são, e, por isso, têm de desaparecer, com as condições que as criaram. Vêm daí as grandes crises da humanidade socializada: quando, na evolução dos espíritos, a sociedade já avançou bastante, os respectivos dirigentes não podem mais corresponder a essas novas condições, a respectiva classe-casta tem de ser substituída, uma vez que não sabe renovar a mentalidade para ajustar-se ao momento. E como a velha casta resiste, a substituição exige um esforço especial, verdadeira luta de renovação. O Ocidente, e, com ele, o mundo todo, está num desses momentos. Sucedem-se as revoluções e lutas, sem maior resultado, porque, transigindo, ou resistindo, os dirigentes conseguem manter-se, refazendo-se nas tradições essenciais, sem modificação sensível das respectivas gentes. É o que se nota agora mesmo. Terminada a guerra, que eles armaram e não souberam conduzir, voltaram à ação política de sempre, e, senhores exclusivos dos respectivos Estados, coube-lhes tratar a paz, e organizar as condições da nova existência das nações, combalidas, esgotadas. Foi quando se mostraram no que realmente valem: infinitamente abaixo do que esperavam os mais inveterados pessimistas. A paz que eles fizeram foi maior desgraça que a própria guerra. Todos os males se agravaram, para que, agora, o mundo pareça, mais do que nunca, votado à miséria pela afrontosa exploração dos que trabalham. Aproveitando a natural exaustão de heroísmo, após 51 meses de sacrifícios; explorando as paixões inferiores e bárbaras, que a vida em combates torna toleráveis; abusando da força material e do poder que as necessidades da guerra lhes deixaram em mãos; eles se apressaram em riscar todos os resultados que as experiências socializadoras patentearam, voltaram sofregamente às formas de política administrativa e diplomática que lhes são necessárias, e só pensaram em anular o pouquíssimo que, de bom, os transes da guerra lhes impuseram. 

Num mundo dividido em vencedores e vencidos, para estes não houve mercê. Mais do que na guerra crua, os princípios de humanidade foram condenados. Com a derrota, como consequência necessária e legítima, a voragem da guerra eliminou os regimes políticos já condenados. Foi-se o tzarismo, foi-se o caezerismo... mas os dirigentes dos vencedores não permitiram que tais movimentos fossem realmente redenções. Na mentalidade de espoliadores verdugos, gozando torpemente a vitória, os estadistas das grandes potências tudo fizeram para reduzir o mundo aos seus interesses baixos, de pura espoliação. Unidos para combater, no repartir dos despojos, ei-los vis salteadores, largando-se uns dos outros, deixando ao ridículo a pobre liga de nações que fizeram. Isolaram-se nos seus covis, para recomeçar mais tarde a diplomacia secreta, cada um no esforço ignóbil de abocanhar o melhor pedaço, na partilha das indenizações, dos mandatos e protetorados... A Inglaterra retalha continentes, para catar e guardar poços de petróleo, e só pensa, como futuro, manter o seu aparelho de força sobre os mares: a Itália deu voz a todos os despeitos, até acabar na redenção fascista, bem simbolizada no negrume da blusa uniforme, e na organização militar dos dominantes; a França, tonta da vitória, sob a fórmula de democracia aceita ter o Estado mais reacionário da Europa atual, e pertence a estes quatro intuitos: tirar da Alemanha o máximo do que ela produza, a título de indenizações, recuperar os empréstimos feitos à Rússia tzarista, cercar-se de satélites que garantam o prestígio de grande potência, e arredondar o seu império colonial – com Marrocos e Síria. Desta sorte, a nação que só teve razão contra o alemão porque declamava contra o militarismo prussiano, veio a ser o país mais militarista e imperialista do continente europeu, e, com o prestígio de uma vitória que foi de muitos, está agravando a situação de toda a Europa, como o fazia a Alemanha nos piores dias das pretensões prussianas. 

Note-se: a política dos dominantes europeus envenena assim a vida social, ao mesmo tempo que os conceitos correntes nos condenam, a nós outros, como bárbaros e incultos. No entanto, bastou o desequilíbrio da guerra, e, na Alemanha, multiplicaram-se os covardes assassínios políticos; na Itália um torvo condotierismo de gozadores espezinhou justiça e liberdade, e toda a farandulagem da gasta democracia para fazer-se o polícia de todos os privilégios capitalistas; na Espanha, um levantamento sem brilho ostentou e ostenta a soldadesca contra o pensamento. E, de par com isto, por toda parte, nos que venceram, a vitória é explorada como força e como saque em proveito dos dirigentes; nos que perderam, os efeitos da derrota são deixados exclusivamente à massa dos já explorados. De tal sorte naquele mundo, desgraçado pela constante política dos dirigentes, o mal se agrava e se exaspera em egoísmo feroz, inexorável, de gozadores, em quem a guerra desatou todas as peias.

Dirigentes... malfeitores... é uma evolução infalível, em todo regime, desde que a respectiva classe se consolida. Eis a razão por que, em todos os grupos nacionais, as lutas político-sociais têm sido, sempre, para afastar os que, como uma casta, vêm a privilegiar-se nas funções de governo, já convertido em exploração. Os ataques às instituições estabelecidas são, de fato, respostas a reações, porque as mesmas instituições, como os regimes estabilizados, só existem e só têm significação como emanação dos espíritos que se imobilizaram para conservar e permanecer. Então, são essas próprias mentalidades, no seu modo de ser, que devem ser combatidas e renovadas. Daí, a relativa superioridade dos regimes democratas, apesar do paradoxo em que se realizam. A superioridade vem da facilidade de renovação, do pessoal governante, e das possibilidades de iniciativas. Com isto, evita-se a perversão conservadora, em que decaem e se corrompem todos os outros regimes políticos. O paradoxo está na própria qualidade do pessoal que a maioria escolhe. Dir-se-ia que a eleição escolhe e apura no sentido do pior. Por quê? Porque a maioria não pode ser de ótimos critérios, mas da mediania rasa. Além disto, para captar os sufrágios da mesma maioria, os candidatos têm de recorrer a processos que correspondam a esse critério raso, com recursos que lisonjeiem os respectivos gostos. Nada disto é escol, e isto é assim, mesmo nos países em que se respeita religiosamente a verdade eleitoral. Nos outros, onde só há ficção tudo não passa de conluio, tudo não passa de porcaria. 

A democracia afasta um pouco o grande mal, mas não o elimina e não dá a forma definitiva de direção política. Nos modos correntes de organização social, a função de direção e de orientação é, praticamente, uso do poder político-administrativo como meio de vida; a classe governante se congrega em agrupamento de interesses entrelaçados, e que, forte pela situação que alcançou, vai levando a nação no sentido desses interesses. O Estado resume e encarna a coerção, mediante a qual o interesse dos dirigentes explora o país e os povos. A renovação do pessoal se faz, apenas, no agrupamento deles, os políticos, sempre possuídos de uma mesma mentalidade geral, com inteira solidariedade de destinos. A incorporação, aí – a entrada para o agrupamento dos governantes, equivale à adoção dessa mentalidade e à aceitação da respectiva equivalência moral e mental. O indivíduo se faz político, e se propõe a dirigente, em esforços de quem procura fazer a sua situação pessoal na vida, como o candidato a médico, engenheiro ou burocrata... com a diferença que estes têm de realizar a sua pretensão em apurar a competência e os recursos técnicos, ao passo que o pretendente a governante há de fazer a sua situação pessoal entregando-se ao agrupamento, dissolvendo a inteligência na mentalidade geral dele, quebrando o caráter, para ceder em tudo que se exige, numa solidariedade de destinos e de transigências. 

O Estado atual, coercitivo aparelho de força, remanescente desse passado em que a nação só podia existir entregue a um grupo capaz de defendê-la pelas armas, e que, por isso mesmo, impunha o seu mando sob o nome de ordem; o Estado, assim, realiza-se numa política que é de fato conquista e exploração do poder. As crises violentas, as lutas armadas entre as ações, foram substituídas pelos processos de conquista eleitoral. E, como permanece a essência exploradora; como a política é, praticamente, para uma coligação de interesses, vencem e prevalecem os que melhor se ajustam a essa coligação de interesses, com os recursos subsidiários para cortejar os baixos instintos demagógicos, para a conquista da popularidade. No íntimo dos grupos, como melhor recurso, há a insídia, o perjúrio, a penúria de caráter... todo o preciso para manter-se em vedeta um renome, quando os critérios flutuam, quando o pouco de inteligência se esvai no gargarejo de uma ideologia de feitor, e, oscilantes, variam os motivos de prestígio. Destarte, é natural que, muitas vezes, seja escolhido o pior. O caso vale mais do que simples lamentações, e pede as reações precisas para redimir a vida social, eliminando as castas políticas em que ela se perverte. 

O tempo já fez a sua obra: para nações conscientes dos seus destinos, num mundo implicitamente solidarizado, com a posse do poder científico, quando a guerra é a exceção detestada, pede-se ao Estado alguma coisa mais do que a aptidão coercitiva. Por isso, instituíram-se os serviços gerais: o apuro das energias naturais a boa formação das capacidades pessoais, a defesa dos organismos... Mas, com a política que é de índole nos dirigentes, tais serviços organizam-se, de fato, no interesse deles, e são novos campos e motivos de proveitos para eles. Finalmente, a política tradicional, em formas democráticas, converte os dirigentes em maus apóstolos, que precisam cultivar intensamente todos os motivos baixos, em que os ânimos se aviltam, a ponto de aceitar-se a direção dos que só podem viver da exploração. Tas d’avachis, menés par des coquins... era a legenda de um cartaz revoltado, com o intuito de desiludir o povo francês da política tradicional, num momento de eleições. Sem ser um julgamento, ele dizia muita verdade, a esse respeito. A bem considerar, os desfechos das conquistas eleitorais oferecem-nos, muita vez, esse aspecto de desbriados, explorados por velhacos e canalhas. 

Se o Estado fosse, como deveria ser, a organização eficiente das energias gerais da Nação, a política seria, apenas, a fórmula inteligente de solidariedade, na realização dos serviços públicos, onde explicitamente se refletiriam as necessidades gerais e as aspirações permanentes. Quando estas páginas chegarem a conclusões, serão explícitas nessas mesmas afirmações, para, desenvolvidamente, mostrar como numa política, conscientemente humana, se podem harmonizar para satisfação completa e justa, os interesses individuais e as necessidades gerais. O pretenso antagonismo que por aí se aponta é invenção dos dirigentes, que o exploram, para justificar a inexorável tirania com que sacrificam a felicidade dos indivíduos, e os mais preciosos direitos pessoais, aos interesses do Estado, de que eles se fizeram senhores. Na realidade das condições naturais, nada justifica que, em oposição à consciência do indivíduo, tenha ele de opor-se à coletividade, e a ela seja sacrificado, quando essa coletividade é um mero conceito, pura virtualidade, que só existe na consciência dos indivíduos. Acontece, porém, que se dentro da coletividade, uma classe se organiza para dominar o resto da nação, subordinando-a aos seus interesses, hão de repetir-se as exigências e exações, por parte da classe dominante, já antagônica com o perfeito desenvolvimento das outras gentes, que formam o povo propriamente dito. Há antagonismo, mas é, apenas, esse mesmo, entre a existência da nação, como solidariedade de interesses e necessidades, e a forma de organização social em que os dirigentes, incapazes de uma ação realmente produtora, têm de existir como parasitas, e, que, por isso, armam-se em dominadores, para viver na exploração do resto da nação. 

No caso dos dirigentes brasileiros, encontramo-los tão abaixo da função, que a situação já vem a ser de alarme. Conhecemo-nos mal, julgamo-nos mal desviados por essa direção incapaz e criminosa, de si mesma retida por estultos preconceitos, peiada numa ideologia que nem ao cretino convenceria, alheia à realidade do resto do mundo e do próprio Brasil, e que, assim, nos leva aos trancos de cego desorientado e que já desistiu de conhecer a rota em que prossegue. A que estalão de vida corresponde, hoje, a nação brasileira, como pensamento, distribuição de justiça, padrão moral organização de trabalho, valor econômico, efetividade de poder, acúmulo de riqueza?... Pouco, infinitamente pouco, e esse mesmo pouco, disforme. Por quê? No íntimo dos motivos, a razão é sempre... Vejamos. 

A lucidez e o apuro da consciência humana são propriedades relativamente recentes. Tal se reconhece se interpretamos devidamente o passado, mesmo nos períodos históricos. A própria filosofia grega: são jorros esparsos, de espíritos potentes, mas que ainda não se apossaram devidamente de si mesmos, para análise lúcida e nutrida, indispensável às construções ideais harmônicas e completas, como em Hegel, ou Kant, ou Rousseau... Nunca terá havido mais patentes fulgurações de gênio a iluminar a sabedoria do que naquele mundo – de Heráclito a Plotin, culminando em Aristóteles; e tudo se tracejou em esboços ou puras formalísticas, porque tudo assentava num pensamento realmente incompleto, uma vez que lhe faltava a intensidade de consciência refletida, em que se iluminam as filosofias modernas. E assim se explica que o domínio explícito do homem sobre a vida e a socialização solidária da espécie sejam concepções absolutamente modernas. São aspectos mentais derivados diretamente dessa plena extensão e intenso poder de consciência, que permitem ao homem examinar, em múltiplas possibilidades e desenvolvidos fins, as condições completas da sua existência. Com isto, assenhoreou-se ele dos próprios destinos. E como a essência da psique humana é ser social, ei-lo que tenta, lucidamente, determinadamente, a plena realização social – a solidariedade pela justiça... 

Seria tão fácil, uma vez que a compreendêssemos!... Fácil, se não estivera a civilização dividida entre exploradores e explorados, pois tanto vale dizer – dirigentes e dirigidos. Em verdade, aqueles dizem-se representantes de cada grupo nacional prendendo-o aos seus interesses, no entanto, têm destinos à parte, tão à parte, e tão distintos, relativamente aos destinos dos explorados e dirigidos, que finalmente se acham em oposição, com desenvolvida luta. Por toda parte, os dirigentes encarnam uma tradição própria, em filiação direta da barbaria guerreira, e que, assim, ficou distante das legítimas aspirações humanas, alheias às necessidades mais frisantes da vida moderna, no que não é dinheiro, automóvel e telefone. A humanidade evoluiu, subiu de valor, menos nos governantes. Se tivéramos uma escala para tal aferição, verificaríamos que, antissociais, vis, incapazes, eles não correspondem, talvez, nem a 10% do valor que deviam possuir. Se se guardasse a mesma relação de mérito – entre as exigências da função e a qualidade das gentes, dada a situação do Brasil no círculo das nações, o valor absoluto dos seus dirigentes seria apenas computável. Pensemos agora que, mesmo num cotejo relativo, o desvalor dos nossos governantes é infinitamente mais acentuado. Se as cifras fossem expressão bastante para tal complexidade, poder-se-ia garantir: não valem 10% dos outros, que só cobrem 10% do que se pede a respectiva função. Não há nação, a não ser o Portugal dos Braganças, nem mesmo a infame Rússia tzarista, cujos dirigentes sejam tão demonstradamente incapazes e improbos como os desta terra. 

Por isso, chegamos a essa inexplicável situação de miséria – por sobre a abundância, a frescura e a pujança de energias quais são as do Brasil. Há maravilhosas condições naturais, o povo é bom; há atividade, trabalha-se; há desejo de progresso, há produção, há riqueza... E tudo se esvai, tudo se resolve no deplorar de uma irremediável e renovada falência, espetáculo de espanto e repugnância: monstruosa lepra, em que apodrecem as carnes palpitantes de vida, num organismo de pleno viço, e que tanto cresce e se refaz, como se consome no esfacelo dos tecidos mortificados. Portento é em vida, no entanto, este Brasil! Nasce, e é, desde logo, votado à gula dos dirigentes mais vorazes e torpes, em que se degradou um heroísmo torvo, gerado em mercancia. E o milagre se repete, pois é milagre que subsista uma nação sugada, por dentro e por fora, retida, anulada em todos os seus bons impulsos, aviltada sempre pelos que a representam, feita na atividade má, e na ignomínia do trabalho escravo, devorada, em vez de ser dirigida... e que, apesar de tudo, cresceu, e trabalhou, e produziu, num trabalho que deu para todos que a exploram... 

Indaguemos, agora: donde vieram, que valem os que conduzem esta pátria

Antes que uma nação exista em plena vida, tem que ser edificada. Como foi feito o Brasil? Por quem foi edificado?... Qualquer que seja o valor dos materiais usados, as normas e os destinos da nação dependem essencialmente dos ânimos orientadores e dos processos em realização. Achamo-nos incorporados nesta pátria; perscrutando-lhe os veios do passado, e eles nos trazem diretamente até a miséria do presente. Sobre a energia renascente de gérmens vivaces, a deprimente influência de uma direção que foi, desde logo, contaminação, estiolamento, corrupção irresistivelmente operante, diabolicamente perversa, porque vem de cima. Recebendo, em fatalidade de herança, o que de útil pudesse haver na alma portuguesa, o Brasil teve de herdar a tradição e as normas dos dirigentes dali; e a sorte de uma nação feita com a direção de tão mesquinhos governantes, teve de ser o fermentar de misérias, em que se resume a nossa vida nacional. O Brasil, dispensado de conquistar a sua independência, foi, por isso, levado a guardar a infâmia do Estado Português, e a degradação dos seus governantes. 

E o mal parece não ter cura. Por toda parte, o regime atual do Estado é, já o vimos, não só arbitrário e corruptor, mas egoísta, antieconômico, incoerente e injusto. Aqui, estes vícios essenciais se agravam na universal insuficiência, intelectual e moral, do mundo político, continuador direto dos fugidos de 1808, e que repetem, até hoje, a mentalidade e os intuitos com que aqueles aqui se acoitaram. Contemplemo-los: nos mais alevantados de inteligência, o pensamento é a pulhice literatada, indigesta, sem influxo de realidades, nem critério de ciência; a vontade, mera avidez de apetites grosseiros, mesquinhos, ou o empenho de gloríolas, de popularidade, no fogaréu efêmero. E a nação, desamparada, vê passar, assim, as sucessivas gerações de governantes – sem fé, sem segurança de pensamento, sem relação de estímulo com as necessidades reais do país, sem possibilidade de concorrer para uma perpetuidade brasileira. Superficiais, vazios e desbriados, seriam mendigos, numa sociedade de verdadeira seleção humana. A obra que lhes sai das mãos, e que exigiria união de espíritos, convergência de esforços, é, finalmente, o que se pode produzir numa cooperação tirada da falsidade, o interesse vil, a charlatanice, para a proteção da incompetência e desonestidade. 

Na realidade, monarquia ou república, o Brasil sempre foi a senzalaria anti-higiênica, de uma oligarquia degradada, ontem incompetente, servil hoje, podre e rapace, inepta e torpemente gozadora. Os grandes lances nacionais, festanças patrióticas, sem heróis, sem iluminados, sem chama de ideal... Nem sinceros, sequer... Independência, pelo fico de José Clemente... Abdicação, pelo batalhão do imperador... para Hermetos, Vasconcelos e Araújos Limas... E, 1817... 24...? Lampejos de fogo fátuo... Domingos Martins, Feijó, Floriano?... Amostras do que poderíamos ser, se a crosta purulenta não mantivesse a ulceração. Deu-se a marcha fatal: a evolução para a repugnância exaustiva do presente, a infecção de um paul na treva. Da política, venha de onde vier, só se tem para nota o que é vileza, estupidez, sem-vergonhice, em tal forma que, apesar de tudo não pode haver, aqui, maior desgraça, para maior crime, que um levante de redenção política: toda a turbação de uma luta facciosa, com a permanência da reconhecida miséria dos homens. É a política eficaz, somente, para perpetuar o Brasil nas condições de ser dominado, entorpecido, devorado... pelos profissionais da governança. 

Essa política, eles não na fazem num programa meditado. Seriam incapazes, como inteligências involuídas, de uma forma de ação lucidamente sistemática. Vão pelo puro instinto; mas, como todo instinto, é, o deles, uma atividade perfeita, para o determinado fim. Tão perfeita como o instinto da varejeira... Como fim de toda a vida, têm o ideal, apenas – a prosperidade material, a afirmação em riqueza, a expansão da força... Como achar, então, sinceridade, coragem moral, pundonor, e os mais valores humanos?... Só têm visão para o que reluz, e, por isso, aceitam como fins os mais precários dos meios, e a eles se escravizam. Não refletem, sequer, quando se lhes diz que ordem material, poder, riqueza, força armada... não impediram que ruíssem grandes impérios quando os dirigentes se degradaram nessa corrupção em que eles pululam. 

Até agora, neste levantar do assunto complexo a que se entregará o pensamento da obra, não houve documentação explícita, nem demonstrações em sequências desenvolvidas, se não o tracejar dos conceitos necessários para que os espíritos se ajustem no plano que será o dos capítulos coordenados até a necessária conclusão. Quando não se pretende fazer erudição; quando, ao assunto, não convêm os processos impassíveis e tépidos dos registradores, o mais honesto e legítimo é deixar que o pensamento vá ao termo da ideia, que assim não haverá ilusões. Apanhando os antecedentes históricos da nação brasileira, seguindo-os até a atualidade, temos, por eles, a explicação de toda a miséria que nos acabrunha, e em que se confirma uma herança onde o péssimo já ameaça suplantar as grandes virtudes com que o Brasil se anunciou ao mundo.



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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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Leia também:

O Brasil nação - v1: adsequência 1 - Manoel Bomfim


O Brasil nação - v1: § 1 / A “túnica” e a nossa Dejanira - Manoel Bomfim


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