sábado, 1 de abril de 2017

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Cambiantes I

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




CAMBIANTES







EXTREMOS

À minha doce mãe, que desses trilhos vastos
Da vida racional, tem sido o meu bom guia.
Dedico, preso à garra atroz da nostalgia,
O meu bouquet de versos, dentre uns beijos castos.

A ela que, orgulhosa, impávida, resplende,
Seu filho dá-lhe a alma inteira nos olhares.
A ela que aprimora as curvas singulares
Do amor que unicamente a mãe só compreende.

A ela que, dos sonhos flavos que eu adoro,
É sempre esse ideal querido e mais sonoro
Mais alvo que o luar, mais brando que os arminhos.

Embora sob a cúpula azúlea de outros espaços
Dedico os versos meus – atiro-os ao regaço
Assim como um punhado imenso de carinhos.



SUPREMO ANSEIO

Esta profunda e intérmina esperança
Na qual eu tenho o espírito seguro,
A tão profunda imensidade avança
Como é profunda a ideia do futuro.

Abre-se em mim esse clarão, mais puro
Que o céu preclaro em matinal bonança:
Esse clarão, em que eu melhor fulguro,
Em que esta vida uma outra vida alcança.

Sim! Inda espero que no fim da estrada
Desta existência de ilusões cravada
Eu veja sempre refulgir bem perto

Esse clarão esplendoroso e louro
Do amor de mãe – que é como um fruto de ouro,
Da alma de um filho no eternal deserto.



APÓS O NOIVADO

Em flácido divã ela resvala
Na alcova – bem feliz, alegremente,
E o fresco penteador alvinitente,
De nardo e benjoim o aroma exala.

E o noivo todo amor, assim lhe fala,
Por entre vibrações do olhar ardente:
Pertences-me afinal, pomba dormente,
Parece que a razão de gozo, estala.

Mas eis – corre-se então nívea cortina:
E a plácida, a ideal, a branca lua
Derrama nos vergéis a luz divina...

Depois... Oh! Musa audaz, ousada, e nua,
Não rompas esse véu de gaze fina
Que encerra um madrigal – Vamos... recua!...




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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Cambiantes I
Cruz e Sousa - Poesias Completas: Cambiantes II
Cruz e Sousa - Poesias Completas: Cambiantes III

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'João da Cruz e Sousa (1861 - 1898), conhecido como o "Cisne Negro" de nosso Simbolismo, seu "esteta sofredor", foi o poeta que por excelência procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros contrastes provocados pelas discriminações sociais.
Era negro e filho de escravos. como escritor, permaneceu incompreendido pela crítica, não chegando a conhecer a glória. Morreu aos 37 anos, devido à doença que lhe marcou a vida - a tuberculose. Com o passar do tempo tornou-se conhecido como o grande mestre do Simbolismo brasileiro.
A dimensão cósmica de sua obra, a presença nela dos pobres e deserdados e a grandeza da visão transcendental com que busca poeticamente redimir as limitações da condição humana constituem alguns dos traços estéticos que o tornam inconfundível. O impalpável, o raro o inexprimível: em exxência, o sentido profundo de todo fazer poético.'

"No Brasil, é disto que, principalmente, precisamos: de que o estrangeiro nos venha dizer, surpreso, que em nós encontrou algo de surpreendente e admirável. Sem o que não acreditaremos nunca." Tasso da Silveira


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Sousa, João da Cruz e, 1861-1898
            Poesias completas: broquéis, faróis, últimos sonetos / Cruz e sousa; introdução de Tasso da Silveira. - Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997.


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Sousa, Cruz e, 1861-1898 Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008. v. 1 (612 p.)

Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.


O diferencial mais arrojado desta organização reside na opção por buscar maior aproximação ao evoluir poético do instaurador do Simbolismo no Brasil. Seus poemas inéditos, na absoluta maioria anteriores à sua fase simbolista, foram aos poucos sendo recolhidos e publicados sob o título O Livro Derradeiro, que muitas vezes tem provocado interpretações errôneas. Se o livro foi o derradeiro na sua organização, os poemas não pertencem à última fase do poeta e não representam a madureza do pensamento e da arte poética do autor. Optamos, então, por colocar esse livro em primeiro lugar, antes da sua trilogia de livros simbolistas, que, estes sim, representam a arte madura do poeta.



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