sexta-feira, 4 de abril de 2025

A Montanha Mágica - Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo (c)

Thomas Mann


A Montanha Mágica 


Capítulo IV

Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo

continuando...

     Fosse como fosse – continuou ele na marcha dos seus pensamentos –, era impossível que o advogado Settembrini, ao levar uma vida dessas e em face de tão vastas atividades, houvesse chegado a ser um grande jurisconsulto. Mas, segundo as afirmações plausíveis de seu neto, fora o princípio geral da justiça o que o animara desde a infância até o fim da vida. Hans Castorp, embora não tivesse, nesse momento particular, a cabeça sobremodo lúcida e sentisse o seu organismo ocupado com a digestão dos seis pratos de uma refeição do Berghof, procurou compreender o que Settembrini queria dizer ao chamar esse princípio de “fonte da liberdade e do progresso”. Essa última palavra significara para Hans Castorp, até então, qualquer coisa parecida com o desenvolvimento dos guindastes no decorrer do século XIX. Agora verificava que o Sr. Settembrini não desprezava essas coisas, seguindo nesse ponto, evidentemente, o exemplo do avô. O italiano rendia à pátria dos seus dois ouvintes uma grande homenagem em vista do fato de terem sido inventados ali a pólvora, que fizera ferro-velho das armaduras do feudalismo, e o prelo, que possibilitara a difusão democrática das ideias, quer dizer, a difusão das ideias democráticas. Quanto a isso, elogiava a Alemanha, e também pelo que se referia ao passado dela, se bem que lhe parecesse de justiça conceder a palma ao seu próprio país, uma vez que este fora o primeiro a desfraldar a bandeira do esclarecimento, da cultura e da liberdade, enquanto os demais povos ainda vegetavam presos na superstição e na servidão. Porém, se Settembrini tratava a técnica e o tráfego – o campo de trabalho propriamente dito de Hans Castorp – com tanta reverência como já demonstrara por ocasião do primeiro encontro com os primos, junto ao banco na encosta da montanha, aparentemente não o fazia por amor a essas forças, senão por causa da importância que elas tinham para o aperfeiçoamento moral dos homens, e que ele constatava com satisfação. A técnica – expôs Settembrini – subjugava cada vez mais a natureza, pelas comunicações que criava, pelas redes de estradas e telégrafos que construía, e pelas vitórias que conquistava sobre as diferenças de clima; dessa forma apresentava-se como o meio mais seguro para aproximar os povos, para favorecer o contato entre eles, para levá-los a acordos humanos, para destruir os preconceitos existentes, e, finalmente, para estabelecer a união universal. A raça humana tinha a sua origem na escuridão, no medo e no ódio, mas avançava e subia por um caminho brilhante, rumo a um estado terminal de simpatia, luminosidade íntima, bondade e felicidade. O veículo mais apropriado para transpor esse caminho era a técnica, declarou Settembrini. Mas, ao falar assim, associava, num abrir e fechar de olhos, categorias que Hans Castorp até então imaginara separadas por um largo abismo. “Técnica e moral”, disse o italiano, e a seguir entrou mesmo a falar do Salvador cristão, que fora o primeiro a revelar o princípio da igualdade e da união; depois, o prelo viera favorecer poderosamente a divulgação desse princípio, e por fim a grande Revolução Francesa fizera dele uma lei. Por razões pouco definíveis, mas muito reais, parecia isso sumamente confuso ao jovem Hans Castorp, se bem que o Sr. Settembrini o formulasse em palavras tão claras e tão belas. Uma vez – contou o italiano – uma única vez na vida, ao começo da sua maturidade, o avô sentira-se plenamente feliz: foi ao receber a notícia da Revolução de Julho em Paris. Em altos brados e publicamente proclamara então que todos os homens, um dia, equiparariam aqueles três dias de Paris aos seis dias da Criação. Nesse instante, Hans Castorp não pôde evitar bater com o punho na mesa e experimentar uma surpresa extraordinária. Achava um pouco forte colocar os três dias de verão do ano de 1830, durante os quais os parisienses haviam dado a si próprios uma nova Constituição, ao lado dos seis dias no decorrer dos quais Deus, Nosso Senhor, separara a terra firme da água e criara as luzes eternas do firmamento, bem como as flores, as árvores, as aves, os peixes e tudo quanto vive; e ainda mais tarde, ao conversar a sós com seu primo Joachim, disse expressamente que essa afirmação lhe parecia muito forte e até mesmo chocante.
     Mas estava disposto a deixar-se influenciar, no sentido do provérbio segundo o qual era agradável experimentar. Assim refreou o protesto que sua piedade e seu bom gosto faziam contra a concepção settembriniana das coisas, ponderando que aquilo que se lhe afigurava blasfêmia podia ser qualificado de audácia, e que as aparentes banalidades talvez tivessem sido manifestações de generosidade e nobre entusiasmo, pelo menos naquele país e naquela época, como, por exemplo, quando o avô de Settembrini chamara as barricadas “o trono do povo” e declarara que cumpria “consagrar a lança do cidadão sobre o altar da humanidade”.
     Hans Castorp sabia por que escutava os discursos do Sr. Settembrini; não que fosse capaz de explicar os motivos com clareza, mas sabia-os. Havia entre eles uma espécie de senso do dever, além daquela ausência de responsabilidade, peculiar às férias de um viageiro e visitante, que não se fecha a nenhuma impressão e deixa as coisas se aproximarem, na certeza de que amanhã ou depois abrirá as asas e voltará à ordem habitual. Era, por conseguinte, como que uma voz da consciência, e para ser exato, o preceito e a exortação da sua consciência pesada, o que o induzia a prestar atenção ao italiano -sentado de pernas cruzadas, a fumar o Maria Mancini, ou subindo com ele e o primo pela estrada que conduzia do bairro inglês ao Berghof.
     Segundo as digressões de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a força e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e a ciência, o princípio da estagnação e o do movimento efervescente, do progresso. Podia-se chamar a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da atividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso inerte. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da luz, a do aperfeiçoamento guiado pela razão. Pois a humanidade arrastava mais e mais povos pelo seu caminho brilhante; ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões também naqueles países que na verdade nunca tinham gozado o seu século XVIII nem seu ano de 1789.
     Mas esse dia haveria de chegar, disse Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegasse pelos pés das pombas, chegaria sobre as asas das águias. Nasceria como a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da razão, da ciência e do direito. Acarretaria a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal foi o avô Giuseppe; numa palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objetivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, o princípio servil da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar desforra das suas façanhas do passado, e depois para encaminhar o reino da justiça e da felicidade sobre a terra.
     Esse último rumo e essa conclusão das altissonantes expansões de Settembrini já não interessavam a Hans Castorp. Causavam-lhe desagrado e até o chocavam porque via neles a expressão de um rancor pessoal ou nacional, cada vez que se repetiam. No que tocava a Joachim Ziemssen – quando ele ouvia o italiano discorrer dessa forma, voltava mesmo a cabeça, de cenho carregado, e cessava de escutar; às vezes também dizia que estava na hora do repouso ou tentava mudar de assunto. Hans Castorp tampouco se sentia obrigado a prestar atenção a ideias tão extravagantes, que, evidentemente, ultrapassavam os limites das influências que a voz da sua consciência lhe aconselhava admitir, a título de experiência; e essa voz era todavia tão forte que ele próprio se punha a pedir ao Sr. Settembrini lhe explanasse as suas ideias, sempre que o italiano ia sentar-se à mesa dos primos ou os acompanhava durante um passeio.
     Essas ideias, esses ideais e essas aspirações, observou Settembrini, faziam parte das tradições da sua família. Pois os três lhe haviam consagrado a vida e as forças do espírito: o avô, o pai e o neto, cada qual à sua maneira, o pai não menos que o avô, se bem que não tivesse sido, como este, um agitador político e um paladino da liberdade, senão um sábio quieto e delicado, um humanista que vivia amarrado à sua escrivaninha. Mas, que era afinal o humanismo? Era o amor aos homens, nada mais, nada menos, e por isso mesmo implicava também a política, a insurreição contra tudo quanto mancha e desonra a dignidade humana. .Haviam censurado ao humanismo o apreço exagerado da forma; mas ele cultivara a bela forma unicamente por amor à dignidade humana, em esplêndida oposição à Idade Média, que vivia não só entregue à misantropia e à superstição, como também enfeada por uma ignominiosa falta de forma. Desde os seus inícios, defendera a causa do homem, os interesses terrenos, a liberdade do pensamento e o prazer de viver, opinando que o céu, por motivos de equidade, pertencia aos pardais. Ah, Prometeu! Fora ele o primeiro humanista e idêntico àquele Satã, ao qual Carducci dedicara o seu hino... Oh, meu Deus, se os primos pudessem ouvir como o velho inimigo da Igreja, em Bolonha, maldizia e zombava da sensibilidade cristã do Romantismo! Dos hinos sacros de Manzoni! Da poesia de sombras e luares dos românticos, que ele comparava à “Lua, a pálida monja celeste!” Per Bacco, que prazer sublime, escutar esse homem! E também deveriam ter ouvido Carducci interpretando Dante: celebrara-o como cidadão de uma metrópole, que defendia, contra a ascese e a negação do mundo, a força ativa que revolucionava e melhorava o mundo. Ora vejam, não era a sombra enfermiça e mística de Beatriz a quem o poeta honrava sob o nome de “donna gentile e pietosa”; pelo contrário, assim designava a esposa que no poema representava o princípio do conhecimento das coisas deste mundo e da atividade prática na vida.
     Dessa maneira, Hans Castorp aprendia isto e aquilo sobre Dante, e da melhor das fontes. Não se fiava irrestritamente nesses seus novos conhecimentos, dado o espírito estouvado de quem lhe servia de intermediário. Mesmo assim, valia a pena saber que Dante fora um cidadão de uma metrópole e tivera um espírito vivaz. E a seguir, Hans Castorp prestava atenção ao que Settembrini contava de si próprio. Declarava o italiano que no neto Lodovico, isto é, em sua pessoa, se haviam combinado as tendências dos seus ascendentes imediatos, a cívica do avô e a humanística do pai. Assim ele se tornara um literato, um escritor livre. Pois a literatura não era outra coisa senão isto: a associação de humanismo e política, associação que se realizava com a maior naturalidade, visto o próprio humanismo ser política e a política significar humanismo... A essa altura das explanações, Hans Castorp escutava com grande atenção, esforçando-se por compreender tudo direitinho; pois esperava aprender finalmente em que consistia a crassa ignorância do cervejeiro Magnus e ficar sabendo por que a literatura era outra coisa que não “belos caracteres”. Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar de Brunetto, Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre as virtudes e os vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do verbo, da eloquência, que qualificou de humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e só ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura... (– Está vendo? – disse Hans Castorp mais tarde ao primo. – Está vendo que na literatura o que importa são as belas palavras? Eu percebi logo...) – E dessa forma, prosseguiu o italiano, achava-se também a política ligada à literatura, ou melhor, tinha a sua origem na aliança, na fusão de humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. Faz dois séculos, disse Settembrini, vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conservador, que atribuía suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Devia ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. Pois escrever bem já era quase pensar bem, e daí a agir bem não havia muita distância. Toda moralidade e todo aperfeiçoamento moral derivava do espírito da literatura, desse pundonor humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde.
     O jovem Hans Castorp achava tudo isso digno de ser escutado -sem compromisso e a título de experiência apenas, mas em todo caso digno de atenção. Foi nesse sentido que falou com Joachim Ziemssen, o qual, porém, por andar com o termômetro na boca, não podia responder senão indistintamente, e que a seguir se mostrou por demais ocupado em decifrar os graus e inscrevê-los na papeleta, para que pudesse formular uma opinião acerca dos pontos de vista de Settembrini. Hans Castorp, porém, inteirava-se, cheio de boa vontade, dessas opiniões e abria-lhes o seu íntimo, a fim de estudá-las; o que deixa ver quanta vantagem leva o homem acordado sobre o homem que dorme estupidamente – pois, nos seus sonhos, já acontecera diversas vezes a Hans Castorp tratar o Sr. Settembrini, à queima-roupa, de tocador de realejo, e procurar empurrá-lo com toda a força, porque “era demais ali”. Mas, como homem acordado, ouvia-o atenta e cortesmente e esforçava-se com muita imparcialidade por suavizar e diminuir a oposição que nele desejava levantar-se contra as ideias e as exposições do seu mentor. Não se pode negar que tal oposição existia na sua alma; baseava-se em resistências antigas que sempre haviam operado ali e também em outras, resultantes da situação presente, das experiências ora indiretas ora secretas que Hans Castorp fazia ali em cima.
     Que é o homem, e com quanta facilidade pode ser ludibriada a sua consciência! Como é perito na arte de perceber na própria voz do dever a licença para se entregar à paixão! Era por um senso de dever, por equidade, pela necessidade de um contrapeso, que Hans Castorp escutava os discursos do Sr. Settembrini, examinando, com muita complacência, as suas considerações quanto à razão, à república e à beleza do estilo, e dispondo-se a deixar-se influenciar por elas. Tanto mais lícito lhe parecia depois dar livre curso aos seus pensamentos e aos seus sonhos, a fim de que rumassem numa direção diferente e até oposta – e para formularmos desde já o resultado total do que suspeitamos ou adivinhamos, seja dito que escutava o Sr. Settembrini com a finalidade exclusiva de obter da sua consciência plenos poderes que esta primitivamente não lhe quisera outorgar. Mas, o que ou quem é que se encontrava do lado oposto ao patriotismo, à dignidade humana e às belas-letras, desse lado onde Hans Castorp pensava ter reconquistado o direito de dirigir seus pensamentos e seus atos? Ali se achava Clávdia Chauchat, indolente, carcomida, com seus olhos de quirguiz, e enquanto Hans refletia sobre ela – a palavra “refletir” é, aliás, muito mansa para expressar o modo como, no seu íntimo, se ocupava com ela –, era novamente como se andasse de barca por aquele lago de Holstein e dirigisse os olhos deslumbrados e confundidos pela luminosidade vítrea da margem ocidental, para a noite de luar, entremeada de brumas, dos céus do Oriente.

continua pág 104...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo (c)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Stendhal - O Vermelho e o Negro: (XLII)

Livro II 


Ela não é galante,
não usa ruge algum.

Sainte-Beuve

Capítulo XLII


     AO SER LEVADO DE VOLTA À PRISÃO, Julien foi introduzido numa peça destinada aos condenados à morte. Ele que, de costume, observava até as menores circunstâncias, não percebera que não o faziam subir até o torreão. Pensava no que diria à sra. de Rênal se, antes do último momento, tivesse a felicidade de vê-la. Pensava que ela o interromperia, e ele queria desde a primeira palavra manifestar-lhe todo o seu arrependimento. Depois de tal ação, como convencê-la de que a amo exclusivamente? Pois, afinal, quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde.
     Ao deitar na cama, sentiu que os lençóis eram de um tecido grosseiro. Seus olhos entreabriram-se. Ah! Estou na masmorra, pensou, como condenado à morte. É justo.
      O conde Altamira contou-me que, na véspera de sua morte, Danton dizia com sua voz grossa: É estranho, o verbo guilhotinar não pode se conjugar em todos os tempos; pode-se dizer: serei guilhotinado, serás guilhotinado, mas não se diz: fui guilhotinado.
      Por que não, continuou Julien, se há uma outra vida?... Mas, se encontro o Deus dos cristãos, estou perdido: é um déspota e, como tal, está cheio de ideias de vingança; sua Bíblia fala apenas de punições cruéis. Nunca o amei; nunca pude sequer acreditar que o amassem sinceramente. Ele é impiedoso (e Julien lembrou-se de várias passagens da Bíblia), irá punir-me de uma forma abominável...
     Mas se eu encontrasse o Deus de Fénelon? Talvez ele me dissesse: muito te será perdoado, porque amaste muito...
     Amei muito? Ah! Amei a sra. de Rênal, mas minha conduta foi atroz. Nisso, como em tudo, o mérito simples e modesto foi abandonado em troca do que é brilhante...
     Mas também, que perspectiva!... Coronel dos hussardos, em caso de guerra; secretário diplomático em tempos de paz; depois embaixador... pois logo conheceria os assuntos do Estado... e, mesmo que eu fosse apenas um tolo, o genro do marquês de La Mole teria alguma rivalidade a temer? Todas as minhas tolices teriam sido perdoadas, ou melhor, vistas como méritos. Homem de mérito, e desfrutando da mais bela existência em Viena ou em Londres...

– Não exatamente, senhor, guilhotinado daqui a três dias.

     Julien riu de bom grado desse gracejo de seu espírito. Em verdade, o homem possui duas criaturas dentro dele, pensou. Que diabo lhe soprava essa reflexão maligna?
     Sim, meu amigo, guilhotinado daqui a três dias, ele respondeu ao interruptor. O sr. de Cholin alugará uma janela, em sociedade com o padre Maslon. Pois bem, pelo preço do aluguel dessa janela, qual dessas duas dignas figuras roubará a outra?
     Uma passagem do Venceslau, de Rotrou, veio-lhe de repente à memória.
     LADISLAU – ...Minha alma está preparada.
     O REI, pai de Ladislau – O cadafalso também; leve até lá sua cabeça.
     Bela resposta!, pensou, e adormeceu. Foi despertado de manhã por alguém que o apertava com força.

– O quê! já?, disse Julien, abrindo os olhos, apavorado. Julgava-se entre as mãos do carrasco. 

    Era Mathilde. Felizmente ela não me compreendeu. Essa reflexão devolveu-lhe todo o sangue-frio. Achou Mathilde mudada, como que por seis meses de doença; de fato, ela estava irreconhecível.

– Aquele infame Frilair traiu-me, ela dizia, torcendo as mãos; a fúria a impedia de chorar.
– Não foi bonito ontem quando tomei a palavra?, disse Julien. Eu improvisava, e pela primeira vez na vida! Mas receio que tenha sido também a última.

    Naquele momento, Julien brincava com o caráter de Mathilde com toda a frieza de um hábil pianista ante o teclado... A vantagem de um nascimento ilustre me falta, é verdade. Mas a grande alma de Mathilde, ele acrescentou, elevou seu amante até ela. Imagina que Boniface de La Mole tenha agido melhor diante de seus juízes?
    Mathilde, naquele dia, estava comovida sem nenhuma afetação, como uma pobre criada que habita um quinto andar; mas ela não pôde obter dele palavras mais simples. Ele devolvia lhe, sem que o soubesse, o tormento que ela com frequência lhe infligira.
    Não se conhecem as nascentes do Nilo, pensava Julien; não foi dado aos olhos humanos ver o rei dos rios no estado de simples riacho: assim, nenhum olho humano verá Julien fraco, primeiro porque ele não o é. Mas meu coração é fácil de comover; a palavra mais comum, se for dita com um acento verdadeiro, pode embargar minha voz e mesmo fazer correr minhas lágrimas. Quantas vezes os corações secos não me desprezaram por esse defeito? Acreditavam que eu pedia misericórdia: eis o que não devo admitir.
    Dizem que a lembrança de sua mulher comoveu Danton ao pé do cadafalso; mas Danton havia dado força a uma nação de homens frívolos, e impedira que o inimigo chegasse a Paris... Quanto a mim, só eu sei o que teria podido fazer... Para os outros, não sou senão, quando muito, um TALVEZ.
    Se a sra. de Rênal estivesse aqui neste cárcere, em vez de Mathilde, teria eu podido responder por mim? O excesso de meu desespero e de meu arrependimento seriam vistos, pelos Valenod e os patrícios da região, como o ignóbil medo da morte; são tão orgulhosos esses corações fracos, cuja situação pecuniária os coloca acima das tentações! Vejam o que é nascer filho de um carpinteiro! Diriam os srs. de Moirod e de Cholin, que acabam de condenar-me à morte. É possível tornar-se sábio, fino, mas a coragem... a coragem não se aprende. Mesmo com esta pobre Mathilde que agora chora, ou melhor, que não consegue mais chorar, disse a si mesmo, vendo os olhos vermelhos dela... e a estreitou nos braços: o aspecto de uma dor verdadeira o fez esquecer seu silogismo... Ela chorou a noite inteira, talvez; mas um dia, pensou, que vergonha não lhe causará esta lembrança! Ela se verá como tendo sido desencaminhada, em sua primeira juventude, pela maneira baixa de pensar de um plebeu... O Croisenois é bastante fraco para desposá-la, e acho que faz bem. Ela o fará desempenhar um papel,

Pelo direito que um espírito firme e vasto em seus propósitos 
Tem sobre sobre o espírito grosseiro dos vulgares humanos.

    Ah! como é curioso! Desde que devo morrer, todos os versos que eu nunca soube na vida voltam-me à memória. Deve ser um sinal de decadência...
    Mathilde repetia-lhe com uma voz apagada: Ele está aí, na peça ao lado. Finalmente, Julien prestou atenção a essas palavras. Sua voz é fraca, pensou, mas o caráter imperioso ainda está presente no acento. Ela baixa a voz para não se irritar.

– E quem está aí?, ele disse de um modo suave.
– O advogado, para fazê-lo assinar a apelação.
– Não apelarei.
– Como não apelará?, disse ela, erguendo-se e com os olhos faiscando de cólera. Pode me dizer por quê?
– Porque neste momento sinto a coragem de morrer sem fazer com que riam à minha custa. E quem me diz que dentro de dois meses, após uma longa temporada neste cárcere úmido, estarei assim tão bem-disposto? Prevejo conversas com padres, com meu pai... Nada no mundo seria tão desagradável. Morramos.

     Essa contrariedade imprevista despertou toda a parte orgulhosa do caráter de Mathilde. Ela não pudera ver o abade de Frilair antes do horário de visita à prisão de Besançon; sua fúria recaiu sobre Julien. Ela o adorava, mas durante um bom quarto de hora reencontrou, em suas imprecações contra o caráter dele, em seus lamentos de tê-lo amado, toda aquela alma altaneira que outrora o acabrunhara de injúrias tão dolorosas, na biblioteca da mansão de La Mole.

– O céu devia à glória de tua raça ter feito nasceres homem, disse ele.

     Mas quanto a mim, ele pensava, seria uma tolice viver mais dois meses neste lugar repulsivo, exposto a tudo o que a facção patrícia pode inventar de infame e de humilhante, e tendo por único consolo as imprecações desta louca... Pois bem, depois de amanhã bato-me em duelo com um homem conhecido por seu sangue-frio e sua habilidade notável... Muito notável, diz o partido mefistofélico; ele nunca erra o golpe. Que assim seja, e bem depressa (Mathilde prosseguia com sua eloquência). Está decidido, disse a si mesmo, não apelarei.
    Tomada essa resolução, ele entrou num devaneio... O entregador trará o jornal às seis horas da manhã, como de costume; às oito, depois que o sr. de Rênal o tiver lido, Elisa, andando na ponta dos pés, o depositará sobre o leito dela. Mais tarde, ela despertará: ao ler, ficará de repente abalada; sua linda mão irá tremer; lerá até estas palavras... Às dez horas e cinco minutos, ele deixou de existir.
    Ela chorará copiosamente, eu a conheço; em vão quis assassiná-la, tudo será esquecido. E a pessoa a quem quis tirar a vida será a única que sinceramente irá chorar minha morte.
    Ah! Isso é uma antítese!, disse a si mesmo, e durante o quarto de hora que durou a cena que lhe fazia Mathilde, só pensou na sra. de Rênal. Contra sua vontade, e embora respondendo com frequência ao que Mathilde lhe dizia, ele não conseguia afastar sua alma da lembrança do quarto de dormir de Verrières. Via a gazeta de Besançon sobre a colcha de tafetá cor de laranja. Via aquela mão tão delicada que a apertava com um movimento convulsivo; via a sra. de Rênal chorar... Seguia o trajeto de cada lágrima naquele rosto encantador.
     Nada podendo obter de Julien, a srta. de La Mole mandou entrar o advogado. Era, felizmente, um ex-capitão do exército da campanha da Itália, de 1796, quando fora companheiro de Manuel.
    Por formalidade, ele combateu a resolução do condenado. Julien, querendo tratá-lo com estima, expôs-lhe minuciosamente suas razões.

– De fato, pode-se pensar como o senhor, acabou por dizer-lhe o sr. Félix Vaneau, era o nome do advogado. Mas o senhor tem três dias para apelar, e é meu dever voltar diariamente. O senhor estaria salvo se um vulcão se abrisse sob a prisão daqui a dois meses. Ou poderia morrer de doença, disse, olhando para Julien.

    Julien apertou-lhe a mão. – Agradeço-lhe, o senhor é um homem de valor. Pensarei nisso.
    E, quando Mathilde saiu finalmente com o advogado, ele sentia muito mais amizade pelo advogado do que por ela.

continua página 341...

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Leia também:

O Vermelho e o Negro: Uma Hora da Madrugada (XVI)
O Vermelho e o Negro: Uma Velha Espada (XVII)
O Vermelho e o Negro:  (XLII)
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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.

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Henri-Marie Beylemais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.
Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.
Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.
"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.
Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.
Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.
Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.
Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.
O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.

Muito estranho

Cuida bem de mim


Deixa essa água no corpo
Lembrar nosso banho
Deixa essa noite saber
Que um dia foi pouco

Cuida bem de mim
Então misture tudo
Dentro de nós
Porque ninguém vai dormir
Nosso sonho

Só quero te amar e te amar
E te amar muitos anos
Como se fosse uma lua
A brincar no teu rosto







Hum!
Mas se um dia eu chegar
Muito estranho
Deixa essa água no corpo
Lembrar nosso banho

Hum!
Mas se um dia eu chegar
Muito louco
Deixa essa noite saber
Que um dia foi pouco

Cuida bem de mim
Então misture tudo
Dentro de nós
Porque ninguém vai dormir
Nosso sonho

Hum!
Minha cara, pra que
Tantos planos
Se quero te amar e te amar
E te amar muitos anos

Hum!
Tantas vezes eu quis
Ficar solto
Como se fosse uma lua
A brincar no teu rosto

Cuida bem de mim
Então misture tudo
Dentro de nós
Porque ninguém vai dormir
Nosso sonho

Cuida bem de mim
Então misture tudo
Dentro de nós
Porque ninguém vai dormir
Nosso sonho

Composição: Claudio Rabello / Dalto


Muito estranho 
e suas histórias com Dalto





Dalto 
no programa A História da Música





Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - l)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(l)

continuando...

      O Sr. Bloch pai, que só conhecia Bergotte de longe, e a sua vida só ouvira contar de voz pública, tinha uma forma também muito indireta de tomar conhecimento de sua obra, com o auxílio de julgamentos aparentemente literários. Vi no mundo do mais ou menos, onde se saúda no vazio e se julga em falso, a imprecisão e a incompetência não diminuem a autossuficiência; pelo contrário é um milagre benéfico do amor-próprio que, como pouca gente pode ter amizades importantes e profundo conhecimento, faz com que pessoas a quem faltara coisas se julguem ainda as mais favorecidas, pois a ótica das escalas sociais todos a supõem que a melhor posição é a que ocupam; portanto, acham, menos favorecidos, menos aquinhoados, dignos de compaixão, os superiores a quem nomeiam e caluniam sem conhecer, e julgam e desprezam por não compreendê-los; e, mesmo nos casos em que a multiplicação das poucas vantagens pessoais pelo amor-próprio não bastaria para assegurar a cada um a dose de felicidade, superior à concedida aos outros, e que lhe é necessária, a inveja comparecer para preencher a diferença. É verdade que, se a inveja se exprime em frases desdenhosas, é mister traduzi-las: "Não quero conhecê-lo" por "Não posso conhecê-lo". É este o sentido intelectual, mas o sentido passional da frase é, de fato: "Não quero conhecê-lo". Sabe-se que isto não é verdade e, no entanto, não é dito por simples artifício, e sim porque desse modo é sentido, e basta isso para suprimir a distância, ou seja, para tornar feliz. 
     O egocentrismo, permitindo que todo ser humano veja o universo a seus pés, leva-o a ser um rei. O Sr. Bloch dava-se ao luxo de ser um rei implacável quando, de manhã, tomando sua taça de chocolate, vendo a assinatura de Bergotte no fim de um artigo no jornal mal entreaberto, lhe concedia com desdém uma breve audiência, pronunciava sua sentença e se outorgava o confortável prazer de repetir, depois de cada gole da bebida fervente:

"Este Bergotte se tornou ilegível. Como pode ser tão aborrecido! Vou cancelar a assinatura. Nada mais enfeitado que essa obra de confeitaria!"

     E pegava outra fatia de pão com manteiga.
     Essa importância ilusória do Sr. Bloch pai se estendia, aliás, um pouco além do círculo de sua própria percepção. Em primeiro lugar, os filhos o consideravam um homem superior. Os filhos têm sempre uma tendência, seja a depreciar, seja a exaltar os pais; e, para um bom filho, seu pai é sempre o melhor dos pais, mesmo sem contar todas as razões objetivas para admirá-lo. E razões bastantes havia no caso do Sr. Bloch, que era instruído, fino, afetuoso com os seus. Entre os parentes mais próximos, todos achavam agradável o seu convívio, pois, embora a sociedade julgue as pessoas conforme um padrão, aliás absurdo, e de acordo com regras falsas porém fixas, e em comparação com a totalidade das outras pessoas elegantes, em compensação, na vida fragmentada dos burgueses, os jantares e saraus em família giram em torno de personalidades declaradas agradáveis, divertidas, e que, nas rodas elegantes, não ficariam duas noites em cartaz. Enfim, nesse ambiente em que as grandezas artificiais da aristocracia inexistem, elas são substituídas por distinções ainda mais desvairadas. Assim e que, na sua família e mesmo num grau de parentesco bastante afastado, todos chamavam o pai do meu camarada de "falso duque de Aumale", devido a uma pretensa identidade no formato do nariz e no feitio do bigode. (No mundo dos moços de recado de um clube, se acontece a um deles usar o gorro de lado e a jaqueta bem justa de modo a se parecer, segundo julga, com um oficial estrangeiro, não é para seus companheiros uma celebridade?) A semelhança era das mais vagas, mas os outros diriam que se tratava de um título. Repetiam: 

"Bloch? Qual? O duque de Aumale?" como se dissessem: "A princesa Murat? Qual? A rainha de Nápoles?" Um certo número de indícios ínfimos acabavam de lhe dar, aos olhos da parentela, uma pretensa distinção. Embora não chegasse a ter uma carruagem, o Sr. Bloch alugava em determinados eventos uma vitória descoberta tirada por dois cavalos, na Companhia de Transportes e atravessava o Bois de Boulogne languidamente estendido no veículo, a cabeça apoiada na mão, de forma que dois dedos tocassem a têmpora e outros ficassem sob o queixo; e, se as pessoas que não o conheciam o tomassem por pretensioso ao vê-lo assim, todos na família estavam convencidos de que, era assunto de coisas chiques, o tio Salomon teria podido dar lições a Gramottt Caderousse. Era dessas pessoas que, quando morrem, e por terem muitas vezes sentado à mesa do redator-chefe de O Radical, num restaurante das alamedas, são consideradas "figuras bem conhecidas dos parisienses" pela crônica social de jantar na mesma folha. O Sr. Bloch disse-nos, a mim e a Saint-Loup, que Bergotte sabia muito bem por que ele, Bloch, não o cumprimentava, que Bergotte evitava olhá-lo quando o via no teatro ou no clube. Saint-Loup enrubesceu, pois pensara que no clube não podia ser o Jockey, do qual seu pai fora presidente, conquanto deveria ser um clube relativamente fechado, pois o Sr. Bloch havia dito que Bergotte ali seria mais recebido agora. Assim, com medo de "subestimar o adversário", foi que Saint-Loup perguntou se aquele clube era o da rua Royale, considerado como "desqualificador" por sua família, e onde sabia que eram recebidos alguns judeus.

- Não. - respondeu com ar negligente o Sr. Bloch, entre orgulhoso e envergonhada é um pequeno clube, mas muito mais agradável, o Clube dos Palermas. Ali se junta com muita severidade a galeria.
- O presidente não é o Sr. Rufus Israel? - perguntou Bloch filho ao pai, para lhe proporcionar a ocasião de uma mentira honrosa e se dar conta de que esse financista não tinha o mesmo prestígio para Saint-Loup que para ele. Na realidade, não era Sir Rufus Israel quem fazia parte do Clube Palermas, e sim um de seus empregados. Mas, como esse empregado tinha excelentes relações com o patrão, dispunha dos cartões do grande financistas, e dava um ao Sr. Bloch quando este precisava viajar em algumas das linhas férreas, que Sir Rufus era administrador; assim é que o pai Bloch dizia: 
- Vou passar no clube para pedir uma recomendação de Sir Rufus. - E aquele cartão poderia deixar deslumbrados os chefes de trem. As Srtas. Bloch estavam mais interessadas em Bergotte e, voltando a ele ao invés de continuarem no tema dos "Palermas''. A caçula indagou ao irmão, no tom mais sério do mundo, pois achava que designar pessoas de talento, não existiam outras expressões senão as que empregava: 
- É mesmo um sujeito formidável esse Bergotte? É da categoria caras de primeira, como Villiers ou Catulle?
- Vi-o muitas vezes entre as estrelas - o Sr. Nissim Bernard. - É canhoto, é uma espécie de Schlemihl.

     Essa alusão à novela de Chamisso nada tinha de grave, mas o epíteto de Schlemihl fazia desse dialeto semi-alemão, semi-judeu, cujo emprego encantava o Sr. Blotch intimidade, mas este o julgava deslocado e vulgar diante de estranhos. De modo que lançou um olhar severo ao tio.

- Sim, tem talento. - disse Bloch. 
-Ah! - disse gravemente a irmã, como se desse a entender que nesse caso era desculpável a minha admiração.
-Todos os escritores têm talento. - comentou o pai Bloch com desprezo. 
- Parece até que vai se candidatar à Academia - disse o filho erguendo o garfo e piscando o olho com ar diabolicamente irônico. 
- Ora, ora, ele não tem bagagem suficiente. Falta-lhe o calibre necessário. - respondeu o Sr. Bloch, que parecia não sentir pela Academia o desprezo do filho e das filhas. -Além disso, a Academia é um salão aristocrático e Bergotte não tem brilho algum declarou o tio Bernard, sujeito rico e herança futura da Sra. Bloch, pessoa inofensiva e doce, cujo nome de Bernard teria por si só despertado os dons de diagnóstico de meu avô, nome aliás que não estava à altura daquele rosto que parecia ter sido arrancado do palácio de Dario e reconstituído pela Sra. Dieulafoy, se, no caso de ser escolhido por algum amador desejoso de dar um remate oriental a essa figura de Susa, o nome de Nissim não tivesse estendido sobre sua pessoa as asas de algum touro androcéfalo de Khorsabad. 

     Porém o Sr. Bloch não cessava de insultar o tio, fosse porque o irritava a bonacheirice indefesa de sua vítima, fosse porque, sendo a villa de Balbec paga pelo Sr. Nissim Bernard, quisesse mostrar que conservava sua independência e, sobretudo, que não procurava garantir com bajulações a futura herança do ricaço. Este sentia-se constrangido principalmente por se ver tratado de modo tão grosseiro diante do mordomo. Murmurou uma frase ininteligível onde apenas se entendia:

"Quando os Mexores estão presentes." O termo Mexores designa na Bíblia os servos de Deus. Os Bloch se serviam desse nome para designar os criados e se divertiam com a certeza de não serem compreendidos pelos cristãos e pelos próprios criados, e assim se exaltava nas pessoas dos Srs. Nissim Bernard e Bloch a sua dupla particularidade de "patrões" e "judeus". Mas este último motivo de satisfação se transformava em descontentamento na presença de estranhos. Então o Sr. Bloch, ouvindo o tio dizer "Mexores", imaginava que revelara demais o seu lado oriental, assim como uma cocote, que convida para uma reunião suas colegas acompanhadas de pessoas distintas, se irrita se elas aludem ao ofício que lhes é comum ou empregam frases pesadas. De modo que a súplica do tio não só não produziu efeito algum sobre o Sr. Bloch, como este, fora de si, não pôde mais se conter. Não perdeu a oportunidade de injuriar o pobre Nissim.

- Na verdade, quando há uma asneira pretensiosa para dizer, pode-se ter certeza que o senhor não deixará de soltá-la, não é? 
- E seria o primeiro a lamber os pés de Bergotte se ele estivesse aqui! - gritou o Sr. Bloch, enquanto o Sr. Nissim Bernard, mortificado, inclinava para o prato sua barba anelada de rei Sargão. Meu colega Bloch, desde que deixara crescer a barba, que também era crespa e azulada, parecia-se muito ao tio-avô. 
- Como? O senhor é filho do marquês de Marsantes? Conheci-o muito bem -, disse o Sr. Nissim Bernard a Saint-Loup. Julguei que dizia "conheci-o" no sentido em que o pai Bloch afirmava que conhecia Bergotte, isto é, de vista. Mas ele acrescentou: - Seu pai era um dos meus bons amigos. - Entretanto Bloch ficara muito vermelho, seu pai se mostrava bastante contrariado, as senhoritas sufocavam o riso. É que, no Sr. Nissim Bernard, o gosto pela ostentação contido no Sr. Bloch pai e nos seus filhos, chegara a criar o hábito da mentira permanente. Por exemplo, em viagem, quando se hospedava num hotel, o Sr. Nissim Bernard como o teria feito o Sr. Bloch pai, mandava que o criado lhe trouxesse todos os jornais à sala de jantar, em pleno almoço, quando todos estavam reunidos, para que vissem bem que viajava com um criado de quarto. Mas, aos hóspedes do hotel era ele quem travava amizade, dizia o tio uma coisa que o sobrinho jamais diria: senador. Sabia perfeitamente que acabariam descobrindo que usurpara o título; no entanto, era-lhe impossível, naquele instante, resistir à necessidade de intitular-se senador. O Sr. Bloch sofria muito com as mentiras do tio e os aborrecimentos que lhe causavam. 
- Não lhe dê atenção, é muito amigo de lorotas -, disse ele a meia voz à Saint-Loup, que se interessou ainda mais pelo velho, pois sentia curiosidade pela psicologia dos mentirosos. 
- Mais mentiroso ainda que o itacense Odisseus, no entanto, Atena denominava o maior mentiroso dos homens - completou nosso companheiro Bloch.
- Ah! Por exemplo! - exclamou o Sr. Nissim Bernard - diria que eu haveria de jantar com o filho de meu amigo! Na minha casa, em Paris tenho uma fotografia do senhor seu pai e muitas cartas dele. Ele sempre me chamava "meu tio", nunca soube por quê. Era um homem encantador, deslumbrante. Lembro-me de um jantar em minha casa, em Nice, onde compareceram Sardoy- Labiche, Augier...
- Moliere, Racine, Comeille - continuou ironicamente o Sr. Bloch, pai, cujo filho terminou a enumeração, acrescentando: 
- Plauto, Menandro, Calidasaa - O Sr. Nissim Bernard, ofendido, interrompeu bruscamente a narrativa e, privando asceticamente de um grande prazer, permaneceu mudo até o fim do jantar.
- Saint-Loup, do bronze de capacete - disse Bloch-, coma mais um pouco deste pato de gordurosas coxas, sobre as quais o ilustre sacrificador derramou numerosas libações de vinho tinto.

     Geralmente o Sr. Bloch, depois de tirar do fundo da gaveta para um companheiro notável do filho as anedotas relativas sobre Sir Rufus Israel e outros, percebendo que o filho estava já satisfeito e comovido, retirava-se da conversa para se "rebaixar" aos olhos do estudante. Entretanto, se havia um motivo especial como, por exemplo, quando seu filho foi aprovado no exame de agrégation, o Bloch acrescentava à série costumeira de anedotas esta reflexão reservada de preferência aos amigos íntimos, de que o jovem Bloch se mostrou extremamente orgulhoso por vê-la trazida à luz para seus amigos:

- O Governo mostrou-se imperdível. Não consultou o Sr. Coquelin! O Sr. Coquelin fez saber que está muito descontente. (Pois o pai de Bloch se fazia de reacionário e aparentava desprezo pessoas de teatro.)

     Mas as senhoritas Bloch e seu irmão enrubesceram até as orelhas de emoção, quando Bloch pai, para se mostrar sinceramente régio para com os companheiros do filho, mandou trazer champanha e anunciou, como quem não quer nada, que, para nos regalar, adquirira três poltronas de primeira para a representação que uma companhia de operetas dava aquela mesma noite no cassino. Lamentava não ter conseguido camarote. Estavam todos reservados. Além disso, sabia por experiência própria que ficariam melhor perto da orquestra. Unicamente, se o defeito do filho, isto é, que seu filho julgava invisível aos outros, era a grosseria, o do pai era a avareza. Assim, serviu numa jarra o que chamava de champanha e não passava de um vinhozinho espumante; e as poltronas de primeira se transformaram de fato em assentos comuns da plateia que custavam a metade; e, milagrosamente convencido pela intervenção divina de seu defeito, achava que nem à mesa nem no teatro (onde todos os camarotes estavam vazios) nenhum de nós perceberia a diferença. Quando o Sr. Bloch nos deixou molhar os lábios nas taças de champanha que o filho adornara com o apelido de "crateras de flancos profundamente abertos", nos fez admirar um quadro que apreciava tanto que o trouxera consigo a Balbec. Disse que era um Rubens. Saint Loup, ingenuamente, perguntou se estava assinado. O Sr. Bloch respondeu, enrubescendo, que mandara cortar a assinatura do pintor por causa do encaixe da moldura, o que aliás não tinha importância, visto que não desejava vendê-lo. E logo se despediu de nós para mergulhar na leitura do Diário Oficial, cujos números enchiam a casa e cuja leitura lhe era necessária, disse nos, "por causa de sua situação parlamentar", e de cuja natureza não nos deu explicações.

- Vou pegar um lenço para o pescoço - disse Bloch, pois Zéfiro e Bóreas lutam furiosamente pelo mar piscoso, e por pouco que nos atrasemos após o espetáculo, só voltaremos aos primeiros clarões de Eos, a de dedos cor de púrpura. 
- A propósito - perguntou a Saint-Loup quando saímos (e eu tremia, pois compreendi logo que era do Sr. de Charles que Bloch falava em tom irônico) quem é aquele excelente fantoche, de roupa escura, com quem você passeava pela praia anteontem de manhã?
- Meu tio - respondeu Saint-Loup irrita.

     Infelizmente, uma gafe era algo que Bloch nem sonhava impedir. Torceu-se de riso:

- Meus cumprimentos, deveria ter adivinhado; é muito chique; tem uma impagável cara de bobo da mais alta linhagem.
- Você se engana de ponta a ponta. - retrucou Saint-Loup furioso -; ele é muito inteligente. - - Lamento-o, pois então é menos completo. De resto, gostaria muito de conhecê-lo; estou certo que escreveria coisas adequadas sobre esse tipo de gente. Quanto a ele, só o vê-lo passar é de morrer de riso. Mas deixaria de lado a parte caricata, no fundo bem desprezível para um artista apaixonado pela beleza plástica das frases, dessa cara ridícula, desculpe, que me fez rir a bandeiras despregadas, e poria em destaque o lado aristocrático de seu tio, que em suma produz um efeito incrível, e, passado o primeiro instante de riso, impressiona pelo grande estilo. Porém continuou, desta vez dirigindo-se a mim o que eu desejava lhe perguntar era algo inteiramente diverso, e, sempre que nos encontramos, algum deus, venturoso habitante do Olimpo, me varre da cabeça a ideia, e esqueço totalmente de pedir essa informação que já teria podido ser certa ainda me será útil. Quem é aquela senhora tão bonita com quem o encontrara no Jardim da Aclimação e que estava acompanhada de um senhor que julgo conhecer de vista, e de uma mocinha de cabelos compridos? 

     Naquela ocasião, eu não havia percebido que a Sra. Swann não se lembrara do nome de Bloch, visto que dissera um outro nome e havia caracterizado o meu companheiro como adidos ao ministério, dado esse que jamais pensei em verificar se era exato. Mas como era Bloch, que, segundo a Sra. Swann me dissera então, se fizera apresentar a ela, podia ignorar seu nome? Fiquei tão espantado que estive um momento sem responder.

- De qualquer maneira, meus parabéns - disse Bloch ; certamente não se aborrece com ela. Eu a encontrara alguns dias antes no trem do Contorno. Ela houve por bem ser amável com este seu criado aqui; nunca passei tão bons momentos; e já estamos combinando tudo para um novo encontro, quando alguém que ela conhece teve o mau gosto de subir para o nosso compartimento na antepenúltima estação.

     Meu silêncio parece não ter sido muito agradável a Bloch.

- Graças a você, esperava obter o endereço dela e ir gozar, várias vezes por semana, em sua casa os prazeres de Eros, grato aos deuses. Mas não insisto, pois queres bancar o discreto quanto a uma profissional, que se entregou a mim três vezes seguidas e de modo refinadíssimo, entre Paris e o Point-du-Jour. Hei de encontrá-la uma noite dessas.

     Fui visitar Bloch depois desse jantar, e ele me fez também uma visita também, só que eu havia saído e, perguntando por mim no hotel, foi avistado por Françoise que, por acaso, nunca o vira até então, embora ele tivesse ido muitas vezes a Combray. De modo que ela sabia apenas que "um dos senhores" que eu conhecia havia passado para me ver, ignorando "com que objetivo", vestido de forma comum e sem causar maior impressão. Por mais que soubesse que certas ideias sociais de Françoise seriam sempre impenetráveis para mim, pois talvez se baseassem, em parte, nas confusões que fazia entre palavras ou nomes que trocava sempre, que pude evitar, eu que há muito deixara de me preocupar com esse tipo de coisa perguntar a mim mesmo, aliás em vão, que coisa enorme o nome de Bloch poderia significar para Françoise. Pois mal lhe disse que aquele rapaz que avistara era o Sr.Bloch, ela recuou alguns passos, tão grande tinham sido seu espanto e sua admiração.

- Como, aquilo é que é o Sr. Bloch! - exclamou com ar apavorado, como, uma personalidade de tanto prestígio devesse ter uma aparência que "deste conhecer" de imediato a presença de um grande homem; e, como alguém um personagem histórico não está à altura de sua fama, ela repetia, num tom impressionado que revelava germes de um ceticismo universal:
- Como, é aqui Sr. Bloch! Ah, na verdade ninguém diria ao vê-lo! -Dava a impressão de me guardar rancor como se eu tivesse "falsificado" Bloch. No entanto, teve a bondade de acrescentar: - Pois bem, por mais Sr. Bloch que ele seja, o senhor pode estar certo que não é tão distinto quanto ele.

     Em breve, a respeito de Saint-Loup a quem adorava, teve uma desilusão de outra espécie, e que durou menos: descobriu que era republicano. Ora, ainda que, ao falar por exemplo da rainha de Portugal, dissesse: "Amélia, a irmã de Filipe", com o desrespeito que, para o povo, é o maior respeito, Françoise era monarquista. Mas que, acima de tudo, um marquês, e um marquês que a deixara deslumbrada, fosse republicano, isso para ela era algo inconcebível. E a punha de mau humor, exatamente como se eu lhe houvesse feito presente de uma caixa supostamente de ouro e que ela a seguir, depois de me haver agradecido com efusão, descobrisse, por meio de um joalheiro, que era apenas folheada. Retirou sua estima a Saint-Loup, porém logo voltou a concedê-la, pois refletiu que ele, sendo marquês de Saint-Loup, não podia ser republicano, estava apenas fingindo, por interesse, pois, com o governo atual, assim tiraria maior proveito. Desde então cessaram a sua frieza em relação a ele e o seu despeito para comigo. E, quando falava de Saint-Loup, dizia:

"É um hipócrita" com um grande e generoso sorriso que dava a entender que o "considerava" de novo tanto quanto no primeiro dia, e que o havia perdoado.

     Ora, pelo contrário, a sinceridade e o desinteresse de Saint-Loup eram absolutos; e era essa grande pureza moral que, não podendo satisfazer-se inteiramente em um sentimento egoísta como o amor, e que, por outro lado, não se achava na impossibilidade, como, por exemplo, ocorria comigo, de encontrar alimento espiritual fora de si próprio, tornava-o verdadeiramente capaz de amizade, tanto quanto eu era incapaz desse sentimento.
      Françoise também se enganava sobre Saint-Loup quando dizia que ele dava impressão de não desdenhar o povo, mas que aquilo não era verdade, e bastava vê-lo quando se encolerizava com o seu cocheiro. De fato, ocorrera às vezes a Robert ralhar asperamente com ele, coisa que, no seu caso, indicava antes o sentimento de igualdade que de diferença entre as classes. - Mas disse-me em resposta às censuras que lhe fiz por ter tratado o cocheiro com certa rudeza - por que motivo irei fingir cortesia com ele? Não é meu igual? Não está à mesma distância de mim que meus tios e primos? Você parece achar que eu deveria tratá-lo com considerações, como se fosse um ser inferior. Está falando como se fosse um aristocrata - concluiu com desprezo.
     Com efeito, se havia uma classe contra a qual mostrava prevenção e parcialidade, essa era a aristocracia, a ponto de só dificilmente admitir a superioridade de um homem da sociedade, superioridade que mais facilmente atribuiria a um homem do povo. Como lhe falasse da princesa de Luxemburgo, a quem encontrara com sua tia:

- É uma tola - disse -, como todas as suas iguais. Aliás, é minha prima distante. 

     Tendo prevenção contra as pessoas que frequentavam a sociedade, Saint-Loup raramente ia às reuniões aristocráticas e, quando comparecia, adotava uma atitude desdenhosa ou hostil, o que aumentava ainda mais, na família, o desgosto provocado por sua ligação com uma mulher "de teatro", ligação que diziam lhe ser fatal e, principalmente, de ser responsável por haver desenvolvido nele aquele espírito de difamação, aquela má tendência que já o tinha "desviado" e que iria levá-lo a "se afastar" inteiramente de sua classe. Desse modo, alguns levianos do faubourg Saint-Germain eram impiedosos ao falarem da amante de Robert.

"As meretrizes fazem o seu ofício. - diziam -, valem tanto quanto as outras; mas esta, não! Não lhe perdoaremos! Fez muito mal a alguém que é nosso amigo." 

continua na página 150...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Primeira Parte
Segunda Parte
À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - l)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Quarto - O Casebre de Gorbeau / IV - No que repara a principal inquilina

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Quarto — O Casebre de Gorbeau

IV - No que repara a principal inquilina
     
     Jean Valjean tinha a prudência de nunca sair de dia. Todos os dias, porém, ao descer do crepúsculo, passeava uma ou duas horas, às vezes só, muitas vezes com Cosette, procurando as áreas laterais dos boulevards mais solitários e entrando nas igrejas ao cair da noite. Jean Valjean gostava de ir a S. Médard, que é a igreja mais próxima. Quando não levava Cosette consigo, esta ficava com a velha, mas o maior prazer da criança era sair com o velho, preferindo até uma hora com ele aos deliciosos diálogos com Catarina, a preciosa boneca. Quando Jean Valjean saía com ela conduzia-a pela mão, dizendo-lhe coisas agradáveis. 
     Era então que Cosette estava no auge da alegria.
     A velha tratava do arranjo doméstico, cozinhava e ia às compras.
     Viviam sobriamente, tendo sempre o fogão aceso, mas como pessoas pouco abastadas. Jean Valjean em nada alterara a mobília do primeiro dia; só mandara substituir por uma porta a vidraça do quarto em que Cosette dormia.
     O seu trajo consistia ainda no mesmo casacão amarelo, nos mesmos calções pretos e no mesmo chapéu velho. Na rua tomavam-no por um pobre, acontecendo às vezes voltarem-se algumas boas mulheres e darem-lhe um soldo. Jean Valjean recebia o soldo e saudava profundamente. Sucedia também outras vezes ele encontrar algum miserável implorando a caridade, e então olhava para trás a ver se alguém o via, acercava-se furtivamente do infeliz e metia-lhe na mão uma moeda de cobre, e às vezes de prata, e afastava-se rapidamente. Isto, porém, tinha os seus inconvenientes. Jean Valjean principiava a ser conhecido no bairro pelo nome do pobre que dá esmolas.
     A velha, principal locatária, criatura rabugenta e invejosamente curiosa das vidas alheias, examinava muito Jean Valjean, sem ele dar fé. Era um tanto surda, e isto tornava-a tagarela. Restavam-lhe do seu passado dois dentes, um de baixo outro de cima, que de contínuo batia um contra o outro. A velha fizera minuciosas perguntas a Cosette, porém como esta não sabia nada, nada lhe pôde dizer, senão que vinha de Montfermeil. Um dia, pela manhã, vendo a curiosa velha entrar Jean Valjean para um dos compartimentos desabitados do casebre, com um ar que lhe pareceu particular, seguiu-o com o passo de uma gata matreira e pôde observá-lo, sem ser vista, pela fenda da porta, em frente da qual ele se achava de costas voltadas, sem dúvida para maior precaução. Viu-o meter a mão no bolso e tirar um agulheiro, umas tesouras e linhas, pôr se depois a descoser a costura de uma das abas do casacão e tirar da abertura um bocado de papel amarelado, que desdobrou, A velha reconheceu espantada que era uma nota de mil francos, a segunda ou terceira que via em dias de sua vida e deitou a fugir aterrada.
     Um momento depois, Jean Valjean chegou ao pé dela e pediu-lhe que lhe fosse trocar a nota de mil francos, acrescentando que era o semestre da sua renda, o qual tinha recebido na véspera.

«Onde», disse consigo a velha, «se ele não saiu senão às seis horas da tarde? A essa hora já a pagadoria não está de certo aberta».

     A velha foi trocar a nota, fazendo pelo caminho as suas conjecturas. Esta nota de mil francos, comentada e multiplicada, produziu muitas e animadas conversas entre as senhoras vizinhas da rua das Vinhas de S. Marçal.
     Num dos seguintes dias, Jean Valjean pôs-se a serrar um pau no corredor, em mangas de camisa. A velha andava a arrumar o quarto e achava-se só, porque Cosette estava entre da a vê-lo serrar. Como avistasse o casacão dependurado de um prego, aproveitou o ensejo e revistou-o. A costura tornara a ser cosida. A boa mulher apalpou-a com atenção e julgou sentir nas abas e nas cavas grossura de papel. Mais notas de mil francos decerto!
      Notou mais a velha que os bolsos coti nham uma variedade de objetos. Não só as agulhas, as tesouras e as linhas, que ela vira, mas uma grande carteira, uma enorme navalha, e circunstância suspeita, grande número de cabeleiras de variadas cores. Cada bolso daquele casacão parecia um como depósito de recursos para acontecimentos imprevistos.
      Assim chegaram aos últimos dias de Inverno os moradores do casebre.

continua na página 340...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Quarto - IV - No que repara a principal inquilina
Os Miseráveis: Cosette, Livro Quarto - V - Barulho que faz uma moeda de cinco francos caindo no chão
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira