quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Curta: Cães não são permitidos

No Dogs


Design de som: Tendo como pano de fundo os tumultos raciais de Watsonville que incendiaram a região central da Califórnia em 1930, a filipino-americana Marisol busca abrigo na lanchonete de Carl. Nenhum dos dois consegue prever aonde aquela noite violenta os levará, ou quais segredos serão revelados.






"No Dogs" é dirigido por Randal Kamradt 
escrito e estrelado por Georgina Tolentino 
co-escrito por Alex Fabros 
também estrelado por Ian Coleman 
compositor e produtor executivo Tangelene Bolteon 
produção executiva de Daniel Berhane, Ryan Bever e Jeremy Nocon
direção de fotografia de Frederick Duarte 
operador de câmera Daniel Berhane 
edição de Roy Rutngamlug 
design de som por Jan Domino e Alain Le Godornes

DIRETOR: Randal Kamradt
Randal é um roteirista/diretor filipino-americano de filmes premiados exibidos em festivais ao redor do mundo. Seus filmes variam de filmes de monstros a dramas históricos, com foco constante em visuais dinâmicos e temas socialmente relevantes.

ROTEIRISTA/ATRIZ/PRODUTORA: Georgina Tolentino
Georgina Tolentino é uma atriz e cineasta americana de ascendência filipina e europeia. Ela estrelará como Victoria Manalo Draves em um longa-metragem biográfico sobre a primeira mulher a ganhar duas medalhas de ouro no salto ornamental olímpico nos Jogos de Londres de 1948.

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Jogos Olímpicos de Verão de 1948 (em inglês: 1948 Summer Olympics), conhecidos oficialmente como Jogos da XIV Olimpíada, foram os Jogos Olímpicos realizados pela segunda vez em Londres de 29 de julho a 14 de agosto daquele ano, doze anos depois da última edição devido à Segunda Guerra...


Vicki DRAVES

Medalhas Olímpicas : 2
10m Plataforma Feminina
Trampolim 3m Feminino
Participações: 1
Primeira Participação: Londres 1948
Ano de nascimento: 1924


Victoria Manalo Draves 
(Nasceu em 31 de dezembro de 1924, São Francisco, Califórnia, EUA - Faleceu em 11 de abril de 2010 (aos 85 anos), Palm Springs, Califórnia, EUA).
Foi uma mergulhadora competitiva filipino-americana que ganhou medalhas de ouro tanto na plataforma quanto no trampolim nos Jogos Olímpicos de Verão de 1948 em Londres. Draves tornou-se a primeira mulher a receber medalhas de ouro tanto na plataforma de dez metros quanto no trampolim de três metros. Em uma conquista pioneira, ela foi a primeira mulher americana a ganhar duas medalhas de ouro no mergulho e a primeira asiático-americana a ganhar medalhas de ouro olímpicas. Ela nasceu em São Francisco.

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Brichot convenceu-se de que estava errado)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Brichot convenceu-se de que estava errado. O trem parou. Estávamos na Sogne. Este nome intrigava-me. 

- Como gostaria de saber o que significavam todos esses nomes - disse eu a Cottard, 
- Ora, pergunte a Brichot, ele talvez saiba. 
- Mas a Sogne é a Cegonha, Siconia - respondeu Brichot, a quem eu ardia por fazer perguntas acerca de muitos outros nomes.

     Esquecendo-se de que fazia questão do seu "canto", a Sra. Sherbatoff ofereceu-me amavelmente trocar de lugar comigo para que eu pudesse conversar melhor com Brichot, a quem desejava indagar sobre outras etimologias que me interessavam, e assegurou ser-lhe indiferente viajar na frente, atrás, de pé, etc. Permanecia na defensiva enquanto ignorava as intenções dos recém-chegados, mas, quando reconheceu que eles eram amáveis, buscou de todas as formas agradar a cada um. Por fim o trem parou na estação de Douville-Féterne, que, estando situada mais ou menos à mesma distância das aldeias de Féterne e de Douville, trazia seus dois nomes devido a essa particularidade. 

- Caramba! - exclamou o doutor Cottard, quando chegamos à barreira onde nos tomavam as passagens e mal fingindo só então perceber a coisa. - Não consigo encontrar o meu tíquete, devo tê-lo perdido. -

     Mas o empregado, tirando o seu casquete, garantiu que aquilo não tinha importância e sorriu respeitosamente.
     A princesa (dando explicações ao cocheiro, como o faria uma espécie de dama de honra da Sra. Verdurin, a qual, por causa dos Cambremer, não pudera comparecer à gare, o que aliás era raro que fizesse) levou-me consigo para um dos carros, assim como a Brichot. Para no outro subiram o doutor, Saniette e Ski.
     O cocheiro, embora muito jovem, era o principal cocheiro dos Verdurin, o único a ter verdadeiramente o título de cocheiro; levava-os a todos os passeios de dia, pois conhecia todos os caminhos, e de noite ia buscar e trazer de volta os fiéis. Era acompanhado por cocheiros extras (que ele próprio escolhia) para caso de necessidade. Era um rapaz excelente, sóbrio e despachado, mas com um desses rostos melancólicos em que o olhar muito fixo mostrava que por uma ninharia punha-se bilioso e até mesmo com idéias negras. Mas, naquele momento, sentia-se muito feliz, pois conseguira colocar o irmão, outro excelente modelo de homem, na casa dos Verdurin. Primeiro atravessamos Douville. Pequenos outeiros relvados desciam até o mar em amplas pastagens, às quais a saturação da umidade e o sal davam uma espessura, uma suavidade, uma viveza de tons extremamente As ilhotas e chanfraduras de Rivebelle, muito mais aproximadas aqui do que em Balbec, davam a essa parte do mar o aspecto, novo para mim, de plano em relevo. Passamos por pequenos chalés, quase todos alugados por pintores; tomamos por uma vereda onde vacas, em liberdade, tão assustadiças como nossos cavalos, nos barraram a passagem por dez minutos; nos metemos pela estrada. 

- Mas em nome dos céus - disse Brichot de repente -, voltemos ao pobre Dechambre; acham que a Sra. Verdurin sabe? Por acaso lhe disseram? -

     A Sra. Verdurin, como quase todas as pessoas da sociedade, justamente porque necessitava da sociedade dos outros, não pensava mais nelas nem um só dia depois de mortas, pois não mais podiam comparecer às quartas, nem aos sábados, nem jantar de chambre. E não se podia dizer do pequeno clã, que nisso era a imagem de todos os salões, que se compunha mais de mortos que de vivos, visto que, desde que alguém morria, era como se nunca houvesse existido. Mas, para evitar aborrecimento de ter de falar dos defuntos, e até de suspender os jantares devido a um luto, coisa impossível para a Patroa, o Sr. Verdurin fingia que a morte dos fiéis afetava de tal modo a esposa que, no interesse de sua saúde, não convinha falar nisso. Além disso, e talvez justamente porque a morte dos outros lhe parecia um acidente tão vulgar e definitivo, a idéia de sua própria morte lhe causava horror e ela evitava toda reflexão que pudesse relacionar-se com isto. Quanto a Brichot, como era um homem excelente, e perfeitamente iludido com o que o Sr. Verdurin dizia da esposa, receava para a amiga as emoções de semelhante desgosto. lhe. 

- Sim, ela sabe de tudo desde hoje de manhã - disse a princesa; não foi possível ocultar-
- Ah, com mil diabos! - gritou Brichot. - Ah, deve ter sido um choque terrível, um amigo de vinte e cinco anos! Eis um que era dos nossos! 
- É claro, é claro, mas o que quer? - disse Cottard. - São circunstâncias sempre penosas; mas a Sra. Verdurin é uma mulher forte, mais cerebral ainda do que emotiva. 
- Não sou inteiramente da opinião do doutor - disse a princesa, a quem decididamente seu modo rápido de falar, seu acento murmurado, davam um aspecto a um tempo amuado e rebelde. - A Sra. Verdurin, sob uma aparência fria, esconde tesouros de sensibilidade. O Sr. Verdurin me disse que teve muito trabalho para impedir que ela fosse a Paris para a cerimônia fúnebre; foi obrigado a fazê-la acreditar que tudo se realizaria no campo. 
- Ah, diabo! Ela queria ir a Paris. Mas sei muito bem que é uma mulher de coração, talvez até de coração demais. Pobre Dechambre! Como dizia a Sra. Verdurin há menos de dois meses: "Perto dele, Planté, Paderewski, e até Risler, nada fica de pé." Ah! Ele pôde afirmar, mais justamente do que aquele insignificante do Nero, que achou meios de lograr a própria ciência alemã: Quais artifex pereo!'' Mas ele, Dechambre, pelo menos deve ter morrido no cumprimento do sacerdócio, em odor de devoção beethoveniana; e corajosamente, não tenho dúvidas; em boa justiça, esse oficiante da música alemã teria merecido morrer celebrando a Missa em ré. Porém, de outra parte, era homem de acolher a morte com um trinado, pois esse intérprete de gênio encontrava às vezes, em sua ascendência de natural da Champagne aparisianado, audácias e elegâncias de garde-française.[“Meu artista morre comigo!". Segundo Suetónio, em suas Vidas dos Doze Césares, palavras do imperador romano Nero, ao ver que sua morte era inevitável.]

     Das alturas em que já estávamos, o mar não mais aparecia, assim como de Balbec, semelhante a ondulações de montanhas sublevadas, mas, ao contrário, como aparece de um pico, ou de uma estrada que contorna a montanha, uma geleira azulada, ou um planalto ofuscante, situados a uma altitude inferior. O recorte dos redemoinhos parecia imobilizado e ter desenhado para sempre os seus círculos concêntricos; e até o esmalte do mar, que insensivelmente mudava de cor, tomava, para o fundo da baía, onde se cavava um estuário, a brancura azulada de um leite onde pequenos barcos negros, que não andavam, pareciam presos como moscas. Achava eu que seria impossível descobrir em algum lugar um quadro mais amplo. Mas a cada volta uma parte nova se lhe acrescentava e, quando chegamos ao posto alfandegário de Douville, o espigão de rocha, que até então nos ocultara metade da baía, recolheu-se, e de súbito vi à minha esquerda um golfo tão profundo como aquele que tivera até o momento diante dos olhos, mas alterando-lhe as proporções e multiplicando-lhe a beleza. Naquele ponto tão elevado, o ar se tornava de uma vivacidade e de uma pureza que me embriagavam. Eu amava os Verdurin; que eles nos houvessem mandado um carro me parecia de uma bondade enternecedora. Desejaria beijar a princesa. Disse-lhe que jamais vira algo tão belo. Ela declarou amar também aquela região mais que qualquer outra. Mas eu percebia perfeitamente que para ela, como para os Verdurin, o importante era não contemplá-la como turistas, mas ali fazer boas refeições, receber uma sociedade que lhes agradasse, escrever cartas, ler, em suma viver, deixando passivamente a sua beleza banhá-los, em vez de fazerem dela o objeto de suas preocupações.
     Na alfândega, tendo o carro ali parado por um instante àquela tamanha altitude acima do mar, que, como de um pico, a vista do abismo azulado quase dava vertigens, abri a janela; o rumor, distintamente ouvido de cada onda que se quebrava, possuía, em sua doçura e nitidez, algo de sublime. Pois não era como um índice de medida que, invertendo nossas impressões habituais, nos mostra que as distâncias verticais podem, assimiladas às distâncias horizontais, ao contrário da representação que nosso espírito faz habitualmente delas; e que, aproximando assim de nuvens do céu, não são grandes; que são até menores para um rumor que as franquezas como fazia o daquelas pequenas ondas, pois o meio que precisa atravessar é mais puro? E com efeito, se recuamos apenas dois metros para trás da alfândega, não distinguimos mais esse rumor das ondas, a que duzentos metros de rocha não tinham roubado sua delicada, minuciosa e suave precisão. Dizia comigo que minha avó teria por ele aquela admiração que lhe inspiravam todas as manifestações da natureza ou da arte, em cuja simplicidade se lê a grandeza. Sentia-me enternecido pelo fato de que os Verdurin nos tivessem mandado buscar na gare. Disse-o à princesa, que pareceu achar que eu exagerava demais uma simples cortesia. Sei que mais tarde confessou a Cottard que me julgava muito entusiasta; ele lhe respondeu que eu era emotivo em excesso e que precisaria de calmantes e de fazer retiro. Eu mostrava à princesa cada árvore, cada casinha desabando sob suas casas; fazia com que admirasse tudo, gostaria de apertar ela própria contra meu coração. Disse-me ela que via que eu era dotado para a pintura, que deveria desenhar, que estava surpresa de que ainda não me houvessem dito. E confessou que de fato aquela região era pitoresca. Atravessamos a encarapitada no alto, a pequena aldeia de Englesqueville (Engleberti at disse-nos Brichot). 

- Mas tem certeza de que vai haver o jantar desta noite, princesa, apesar da morte de Dechambre? - acrescentou ele, sem pensar que a vinda dos carros em que estávamos já era uma resposta. 
- Sim! - disse a princesa -, o Sr. Veldulin até fez questão de que não fosse adiado, justamente para impedir sua mulher de "pensar". E depois, passados tantos anos em que ela nunca deixou de receber às quartas-feiras, essa mudança nos seus hábitos poderia impressioná-la. Está muito nervosa atualmente. O Sr. Verdurin estava particularmente feliz porque os senhores vinham jantar esta noite, pois sabia que isso seria uma grande distração para a Sra. Verdurin disse a princesa, esquecendo o seu fingimento de não ter ouvido falar em mim. - Creio que os senhores farão bem em não falar de nada diante da Sra. Verdurin - acrescentou a princesa. 
- Ah! A senhora faz muito bem em avisar-me - respondeu ingenuamente Brichot: Transmitirei a recomendação a Cottard. -

     O carro parou por um instante. Tornou a partir, mas o ruído que as rodas faziam na aldeia havia cessado. Tínhamos entrado na aléia de honra de La Raspeliere, onde o Sr. Verdurin nos esperava no patamar. 

- Fiz bem em pôr o smoking - disse ele, constatando com prazer que os fiéis trajavam o seu - visto que recebo honra tão elegantes. -

     E, como eu me desculpasse pelo meu jaquetão: 

- Ora, é perfeito. Aqui são jantares entre camaradas. Eu poderia oferecer-lhe um de meus smokings, mas não lhe serviria. -

     O shake-hand cheio de emoção que, ao penetrar no vestíbulo da La Raspeliere, e à maneira de condolências pela morte do pianista, Brichot deu ao Patrão não causou nenhum comentário da parte deste. Falei-lhe da minha admiração por aquela terra. 

- Ah! Tanto melhor, e o senhor não viu nada, nós lhe mostraremos. Por que não passa algumas semanas aqui? O ar é excelente. -

     Brichot receava que seu aperto de mão não tivesse sido compreendido. 

- Pois bem! Esse pobre Dechambre! - disse, mas à meia-voz, temendo que a Sra. Verdurin não estivesse longe. 
- É horrível - respondeu alegremente o Sr. Verdurin. 
- Tão jovem - continuou Brichot. Irritado em perder tempo com essas inutilidades, o Sr. Verdurin replicou num tom apressado e com um gemido extremamente agudo, não de desgosto, mas de impaciência irritada: 
 - Pois bem, sim, mas o que é que o senhor quer, não podemos fazer nada contra isso, não serão nossas palavras que haverão de ressuscitá-lo, não é mesmo? - E, voltando-lhe a ternura com a jovialidade: - Vamos, meu caro Brichot, largue depressa as suas coisas. Temos uma bouillabaisse que não pode esperar. Principalmente, em nome do céu, não vá falar de Dechambre à Sra. Verdurin! O senhor sabe que ela oculta muito o que sente, mas tem uma verdadeira doença de sensibilidade. Não, mas eu lhe juro que, quando soube que Dechambre estava morto, quase chorou - disse o Sr. Verdurin num tom profundamente irônico. Ouvindo-o, dir-se-ia ser necessária uma espécie de loucura para lamentar a morte de um amigo de trinta anos, e, por outro lado, a união perpétua do Sr. Verdurin com a esposa não ia, da parte dele, sem que ele sempre a julgasse, e que ela frequentemente o irritava. 
- Se lhe falar nele, ainda vai acabar doente. É deplorável, três semanas depois de sua bronquite. Nesses casos, eu é que sou o enfermeiro. Compreenda que evito tais situações. Aflija se no íntimo com o destino de Dechambre, o quanto quiser. Pense nisso, mas não fale no assunto. Eu gostava de Dechambre, mas não pode me querer mal por gostar ainda mais da minha mulher. Olhe, aí está Cottard, pode lhe perguntar. -

     E, de fato, ele sabia que um médico da família sabe prestar pequenos serviços, como, por exemplo, prescrever que não é preciso sentir desgostos. Cottard, dócil, dissera à Patroa: 

- Agite-se desse modo, e amanhã me fará 39 graus de febre como teria dito à cozinheira: "Amanhã, você vai me preparar miúdos de vitela." À falta de curar, a medicina se ocupa em mudar o sentido dos verbos e dos pronomes.

     O Sr. Verdurin ficou feliz em constatar que Saniette, apesar das respostas grosseiras que havia sofrido na antevéspera, não desertara o pequeno núcleo. De fato, a Sra. Verdurin e seu marido tinham adquirido, na ociosidade, instintos cruéis a que não mais bastavam as grandes circunstâncias, muito raras. De fato, haviam conseguido indispor Odette com Swann, Brichot com a amante. Era claro que recomeçariam com outros. Na ocasião não se apresentava todos os dias. Ao passo que, devido à sua sensibilidade fremente e à sua timidez receosa e logo assustada, Saniette lhes oferecia um bode expiatório cotidiano. Assim, de medo que ele abandonasse, tinham o cuidado de convidá-lo com palavras amáveis e persuasivas, como fazem no liceu os veteranos e no regimento os antigos, em relação a um calouro a que desejam aliciar para agarrá lo, com o fim único de o lisonjear e então pregar-lhe peças, quando ele não mais poderá escapar. 

- Principalmente - lembrou à Brichot Cottard, que não ouvira o Sr. Verdurin motus [mudo] diante da Sra. Verdurin. 
- Não tenha receio, Cottard, está lidando com um sábio, como diz Teócrito. Além disso, o Sr. Verdurin tem razão; para que servem nossos queixumes? - acrescentou; pois, capaz de assimilar as formas verbais e as idéias que elas lhe traziam; não tendo porém finura, admirara nas palavras do Sr. Verdurin o mais corajoso estoicismo. - Não importa, é um grande talento que desaparece. 
- Como, ainda estão falando de Dechambre? - indagou o Sr. Verdurin, que nos havia precedido e que, vendo que não o seguíamos, voltara para trás - Escute - disse ele a Brichot -, não é preciso exagerar em nada. Não é porque está morto que devemos transformá-lo no gênio que ele não era. Está entendido que ele tocava bem, estava principalmente bem adaptado aquele transplantado, não existe mais. Minha mulher entusiasmou-se por ele e foi a sua fama. Sabem como ela é. Direi mais, no interesse mesmo de sua reputação ele morreu no momento adequado, no ponto, como as lagostas de Caen, grelhadas conforme as receitas incomparáveis de Pampille, vão-se, espero (a menos que se eternizem com suas jeremíadas neste casbahaterto a todos os ventos). Não há de querer, no entanto, que todos nós rebentemos porque Dechambre está morto, e ainda por cima quando, há mais de um ano, via-se obrigado a fazer escalas antes de dar um concerto para reencontrar momentaneamente, bem momentaneamente, a sua agilidade. Aliás, irão ouvir esta noite, ou pelo menos encontrar, pois esse velhaco abandona muitas vezes, após o jantar, a arte pelas cartas, alguém que é um artista diferente de Dechambre, um rapazinho que minha mulher descobriu (como tinha descoberto Dechambre, e Paderewski, e o resto): Morel. Ele ainda não chegou, esse bugre. Vou ser obrigado a enviar um carro para esperar o último trem. Vem com um velho amigo de família com quem se encontrou a que o mata de aborrecimento, mas sem o qual, para não ter queixas do pai, seria obrigado a ficar em Doncieres para lhe fazer companhia: o barão de Charlus.

     Os fiéis entraram.
     O Sr. Verdurin, tendo ficado para trás comigo, enquanto eu me desfazia de minhas coisas, tomou-me pelo braço de brincadeira, como faz num jantar o dono da casa que não tem convidada para lhe oferecer o braço: 

- Fez boa viagem? 
- Sim, o Sr. Brichot ensinou-me coisas que me interessaram muito - disse eu, pensando nas etimologias, e porque ouvira dizer que os Verdurin sentiam muita admiração por Brichot. 
- Ficaria espantado se ele não lhe tivesse ensinado coisa alguma - disse o Sr. Verdurin; - é um homem tão apagado, que pouco fala das coisas que sabe. -

     Esse cumprimento não me pareceu muito justo. 

- Ele tem um ar encantador - disse eu. 
- Requintado, delicioso, nada de coisas malfeitas, fantasista, leve, minha mulher o adora, eu também! - respondeu o Sr. Verdurin num tom exagerado e como se recitasse uma lição. Só então compreendi que o que me dissera de Brichot era irônico. E me perguntei se o Sr. Verdurin, desde os tempos antigos de que ouvira falar, já não havia se livrado da tutela da mulher.

     O escultor ficou muito espantado ao saber que os Verdurin consentiam em receber o Sr. de Charlus. Ao passo que no faubourg Saint-Germain, onde o Sr. de Charlus era tão conhecido, jamais se falava dos seus costumes (ignorados da maioria, objeto de dúvida da parte de outros que preferiam acreditar em amizades exaltadas, mas platônicas, em imprudências e, por fim, cuidadosamente dissimulados pelos poucos bem informados, que davam de ombros quando alguma Gallardon malévola arriscava uma insinuação); tais costumes, conhecidos apenas por alguns íntimos, eram, ao contrário, diariamente censurados longe do meio em que ele vivia, como certos tiros de canhão que a gente só escuta após a interferência de uma zona de silêncio. Aliás, nesses meios burgueses e artísticos, onde ele passava por ser a própria encarnação da inversão sexual, sua grande posição mundana e suas altas origens eram totalmente ignoradas, por um fenômeno análogo ao que faz com que, entre o povo romeno, o nome de Ronsard seja conhecido como o de um grão-senhor, ao passo que sua obra poética é desconhecida. Mais ainda: na Romênia, a nobreza de Ronsard repousa num erro. Da mesma forma, se, no mundo dos pintores e dos comediantes, o Sr. de Charlus tinha tão má reputação, isto se dava porque o confundiam com um certo conde Leblois de Charlus, com quem não tinha o menor parentesco, ou era um parente muito distante, e que fora detido, talvez por engano, numa batida de polícia que ficou famosa. Em suma, todas as histórias que contavam acerca do Sr. de Charlus aplicavam-se ao falso. Muitos profissionais juravam ter tido relações com o Sr. de Charlus e o faziam de boa-fé, julgando que o falso Charlus era o verdadeiro, e o falso talvez favorecesse, meio por ostentação de nobreza, meio por dissimulação de vício, uma confusão que, para o verdadeiro (o barão que conhecemos), foi por muito tempo prejudicial e, a seguir, quando ele decaiu, tornou-se cômodo pois também lhe permitiu que dissesse: 

"Não sou eu."

     De fato, atualmente não era dele que falavam. Por fim, o que acrescentava à falsidade dos comentários um fato verdadeiro (os gostos do barão) era que ele fora amigo íntimo e totalmente puro de um autor que, no mundo teatral, tinha, não se sabe por quê, essa reputação e absolutamente não a merecia. Quando os viam juntos numa estréia, diziam: 

- Estamos sabendo - da mesma forma que se julgava que a duquesa de Guermantes tinha relações imorais com a princesa de Parma; lenda indestrutível, pois só se desvaneceria com uma aproximação à essas duas grandes damas, a que nunca verossimilmente haveriam de atingir as pessoas que a repetiam, senão contemplando-as no teatro e caluniando-as para o ocupante da poltrona ao lado. Dos costume do Sr. de Charlus, o escultor concluía, com tanto menos hesitação, que, a situação mundana do barão devia ser bastante ruim, visto que não possuía sobre a família a que pertencia o Sr. de Charlus, sobre seu título e sobre seu nome, nenhum tipo de informação. Da mesma forma que Cottard achava que todo mundo sabe que o título de doutor não significa nada, e o de interno dos hospitais alguma coisa, as pessoas da sociedade se enganam ao pensar que todos possuem, sobre a importância social de seus nomes as mesmas noções que têm eles próprios e as pessoas de seu meio. O príncipe de Agrigento passava por um resto aos olhos de um empregado de clube ao qual devia vinte e cinco luíses, só readquirindo sua importância no faubourg Saint-Germain, onde possuía três irmãs duquesas, pois não é sobre as pessoas modestas, a cujos olhos vale pouco, mas sobre as pessoas brilhantes, que estão a par do que ele é, que produz algum efeito o grão-senhor. Aliás, o Sr. de Charlus ia verificar, naquela mesma noite, que o Patrão possuía noções pouco aprofundadas sobre as mais ilustres famílias ducais. Convencido de que os Verdurin iam dar um passo em falso deixando que se introduzisse num salão tão "seleto" um indivíduo tarado, e escultor julgou dever chamar à parte a Patroa. 
- O senhor está totalmente enganado; aliás, não acredito nunca nessas coisas; e depois, mesmo que fossem verdadeiras, digo-lhe que não seriam comprometedoras para mim, - retrucou a Sra. Verdurin, furiosa, pois, sendo Morel o principal elemento das quartas-feiras, ela fazia acima de tudo questão de não contrariá-lo.

     Quanto a Cottard, não podia dar opinião, pois pedira licença para subir e "dar um recado" no bom retiro e em seguida escrever, no quarto do Sr Verdurin, uma carta urgente para um enfermo.
     Um grande editor de Paris, que viera de visita e pensara que haveriam de retê-lo, foi-se embora brutalmente, às pressas, compreendendo que não era suficientemente elegante para o pequeno clã. Era um homem alto e forte, muito moreno, estudioso, com algo de cortante. Dava a impressão de uma espátula de ébano.
     A Sra. Verdurin, que, para nos receber no seu salão imenso, onde troféus de gramíneas, de papoulas, flores do campo, colhidas no próprio dia, alternavam com o mesmo motivo pintado em camafeu, dois séculos antes, por um artista de gosto refinado, se levantara por um momento de uma partida que jogava com um velho amigo, pediu licença para terminá-la em dois minutos, sempre conversando conosco. Aliás, o que eu lhe disse acerca das minhas impressões só parcialmente lhe agradou. Primeiro, eu estava escandalizado de ver que ela e seu marido se recolhiam, todos os dias, muito tempo antes da hora daqueles ocasos, que passavam por ser tão lindos vistos daquele rochedo, e mais ainda do terraço de La Raspeliere, e pelos quais eu teria viajado léguas. 

- Sim, é incomparável - disse rapidamente a Sra. Verdurin, lançando uma olhada às imensas janelas que faziam de vidraças. - Por mais que olhemos isso o tempo todo, nunca nos cansamos - e voltou a absorver-se nas cartas.

     Ora, o meu próprio entusiasmo me fazia exigente. Lastimava não ver do salão os rochedos de Darnetal, que Elstir me assegurara serem adoráveis naquele momento em que refratavam tantas cores. 

- Ah, o senhor não pode vê-los daqui, seria necessário ir até a extremidade do parque, à "vista da baía". Do banco que ali se encontra, o senhor abrangerá todo o panorama. Mas não pode ir sozinho; acabaria se perdendo. Vou conduzi-lo até lá, se quiser - acrescentou languidamente. 
- Mas não, ora, já não bastam as dores que apanhaste no outro dia, queres ainda mais? Ele vai voltar outro dia e então verá a vista da baía - disse o Sr. Verdurin.

     Não insisti, compreendendo que bastava aos Verdurin saberem que aquele sol poente era, mesmo no seu salão ou na sua sala de jantar, uma pintura magnífica, como um precioso esmalte japonês, justificando o preço elevado que pagavam pelo aluguel de La Raspeliere toda mobiliada, mas para o qual raramente erguiam os olhos; seu grande negócio aqui era viver de maneira agradável, passear, comer bem, conversar, receber amigos agradáveis, aos quais proporcionavam divertidos jogos de bilhar, boas refeições, alegres merendas. Entretanto, mais tarde, vi com que inteligência eles tinham aprendido a conhecer aquela região, fazendo os hóspedes darem passeios tão "inéditos" como a música que faziam com que escutassem. O papel que as flores da Raspeliére, os caminhos à beira-mar, as velhas casas, as igrejas desconhecidas representavam na vida do Sr. Verdurin era tão grande, que aqueles que somente o viam em Paris e que substituíam a vida à beira-mar e no campo pelos luxos citadinos mal podiam compreender a ideia que ele próprio se fazia de sua vida e a importância que suas alegrias lhe davam a seus próprios olhos. Essa importância ainda era acrescida pelo fato de que os Verdurin estavam persuadidos de que La Raspeliere, que pretendiam comprar, era uma propriedade única no mundo. Essa superioridade, que o seu amor-próprio lhes atribuía à Raspeliere, justificou a seus olhos o meu entusiasmo que, sem isso, os teria irritado um pouco, por causa das decepções que ele comportava (como as que a audição da Berma me provocara outrora) e de que eu lhes fazia sincera confissão. 

- Ouço o carro que está voltando. Esperemos que ele os tenha encontrado - murmurou a Patroa de repente.

     Digamos, numa palavra, que a Sra. Verdurin, afora até as mudanças inevitáveis da idade, já não se parecia mais à que era no tempo em que Swann e Odette ouviam em sua casa o pequeno trecho de Vinteuil. Mesmo quando o tocavam, ela já não se obrigava a mostrar o aspecto extenuado de admiração que assumia antigamente, pois este se tornara a sua própria fisionomia. Sob a ação de inumeráveis nevralgias, causadas pela música de Bach, de Wagner, de Vinteuil e de Debussy, a testa da Sra. Verdurin adquirira enormes proporções, como os membros que um reumatismo termina por deformar. Suas têmporas, semelhantes a duas belas esferas ardentes, doloridas e leitosas, onde imortalmente rola a Harmonia, repeliam de cada lado mechas prateadas e proclamavam da parte da Patroa, sem que esta precisasse falar: 

"Sei o que me espera esta noite."

     Suas feições não mais se davam ao trabalho de formular sucessivamente impressões estéticas muito fortes, pois elas próprias eram como que sua expressão permanente em um rosto soberbo e devastado.

ontinua na página 140...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Brichot convenceu-se de que estava errado)
Volume 6
Volume 7

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cinema: 1900

Novecento


1900 (italiano: Novecento, "Vigésimo Século") é um filme épico de drama histórico de 1976 dirigido por Bernardo Bertolucci, com um elenco internacional incluindo Robert De Niro, Gérard Depardieu, Dominique Sanda, Francesca Bertini, Laura Betti, Stefania Casini, Ellen Schwiers, Sterling Hayden, Alida Valli, Romolo Valli, Stefania Sandrelli, Donald Sutherland e Burt Lancaster. 
     Ambientado na região ancestral de Bertolucci, Emilia, na Itália, o filme narra a vida e a amizade de dois homens — o proprietário de terras Alfredo Berlinghieri (De Niro) e o camponês Olmo Dalcò (Depardieu) — enquanto presenciam e participam dos conflitos políticos entre fascismo e comunismo que ocorreram na Itália na primeira metade do século XX. 
     O filme estreou fora de competição no Festival de Cinema de Cannes de 1976. Com duração de 317 minutos em sua versão original, 1900 é conhecido por ser um dos filmes mais longos lançados comercialmente na história. Seu grande tempo de duração levou a que fosse apresentado em duas partes quando originalmente lançado em muitos países, incluindo Itália, Alemanha Oriental e Ocidental, Dinamarca, Bélgica, Noruega, Suécia, Colômbia, Paquistão e Japão. Em outros países, incluindo os Estados Unidos, uma versão única editada do filme foi lançada.
     O filme1900 tornou-se amplamente considerado um clássico cult e recebeu várias edições especiais em vídeo doméstico de diferentes distribuidores. Uma restauração do filme estreou fora de competição no 74º Festival Internacional de Cinema de Veneza em 2017. 
     Em 2008, o filme foi incluído na lista de 100 filmes italianos a serem salvos pelo Ministério do Patrimônio Cultural da Itália, uma lista de 100 filmes que "mudaram a memória coletiva do país entre 1942 e 1978".



1900 DE BERTOLUCCI (Novecento, 1976) - Trailer






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MAS você pode Assistir no YouTube! Então, clique e assista!







Elenco: 
Robert De Niro é Alfredo Berlinghieri
Paolo Pavesi é o jovem Alfredo
Gérard Depardieu é Olmo Dalcò
Roberto Maccanti é o jovem Olmo
Dominique Sanda as Ada Chiostri Polan
Francesca Bertini é Irmã Desolata
Laura Betti é Regina
Donald Sutherland é Attila Mellanchini
Stefania Sandrelli  é Anita Foschi
Werner Bruhns [de] é Ottavio Berlinghieri
Stefania Casini é Neve
Sterling Hayden é Leo Dalcò
Anna Henkel [de] é Anita Dalcò, filha de Olmo
Ellen Schwiers é Amelia
Alida Valli é Signora Pioppi
Burt Lancaster é Alfredo the Elder
Romolo Valli é Giovanni Berlinghieri
Giacomo Rizzo é Rigoletto
Pippo Campanini é Don Tarcisio
Antonio Piovanelli é Turo Dalcò
Paulo Branco é Orso Dalcò
Liù Bosisio é Nella Dalcò
Maria Monti é Rosina Dalcò
Anna Maria Gherardi é Eleonora
Demesio Lusardi é Montanaro
Pietro Longari Ponzoni é Pioppi
José Quaglio é Aranzini
Clara Colosimo é Giovanna
Vittorio Fanfoni é Fanfoni
Edda Ferronao é Stella's Daughter


Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Braços Baratos para o Café(12)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     23. Braços Baratos para o Café
          Há quem garanta que o café, no mercado internacional, é tão importante quanto o petróleo. No princípio da década de 50, a América Latina abastecia quatro quintas partes do café que se consumia no mundo; a concorrência do café robusta, da África, de inferior qualidade, mas de preço mais baixo, reduziu a participação latino-americana nos anos seguintes. No entanto, a sexta parte das divisas que a região obtém atualmente no exterior provém do café. As flutuações dos preços afetam quinze países ao sul do rio Bravo. O Brasil é o maior produtor do mundo; do café, obtém cerca de metade de suas receitas oriundas de exportações. El Salvador, Guatemala, Costa Rita e Haiti também dependem em grande medida do café, que além disso provê dois terços das divisas da Colômbia.
     O café trouxe consigo a inflação para o Brasil; entre 1824 e 1854, o preço de um homem se multiplicou por dois. Nem o algodão do Norte nem o açúcar do Nordeste, esgotados já os ciclos de prosperidade, podiam pagar aqueles caros escravos. O Brasil se deslocou para o Sul. Além da mão de obra escrava, o café usou os braços dos imigrantes europeus, que entregavam aos proprietários metade de suas colheitas, num regime a meias que ainda hoje prevalece no interior do Brasil. Os turistas que hoje em dia atravessam os bosques da Tijuca para ir nadar nas águas da Barra ignoram que ali, nas montanhas que cercam o Rio de Janeiro, houve grandes cafezais já faz mais de um século. Pelos flancos da serra, as plantações, em sua desesperada busca do húmus de novas terras virgens, rumaram para São Paulo. Já agonizava o século quando os latifundiários cafezistas, convertidos na nova elite social do Brasil, apontaram os lápis e fizeram as contas: os salários de subsistência eram mais baratos do que a compra e a manutenção dos escassos escravos. Aboliu-se a escravidão em 1888, e assim se inauguraram as formas combinadas de servidão feudal e trabalho assalariado que persistem nos dias atuais. Legiões de braceiros “livres” acompanhariam, desde então, a peregrinação do café. O vale do rio Paraíba se tornou a zona mais rica do país, mas logo foi devastado por essa planta perecedoura que, cultivada num sistema destrutivo, ia deixando em seu rastro matas arrasadas, reservas naturais esgotadas e uma decadência geral. A erosão arruinava sem piedade as terras anteriormente intatas, e de saque em saque ia baixando seus rendimentos, debilitando as plantas e tornando-as vulneráveis às pragas. O latifúndio cafezista invadiu a vasta meseta purpúrea a ocidente de São Paulo; com métodos de exploração menos bestiais, transformou-a num “mar de café”, e continuou avançando para oeste. Chegou às ribeiras do Paraná; colidindo com as savanas do Mato Grosso, desviou-se para o sul e, nos últimos anos, retomou a marcha para o oeste, já ultrapassando as fronteiras do Paraguai.
     Atualmente, São Paulo é o estado mais desenvolvido do Brasil, é o centro industrial do país, mas em suas plantações de café ainda abundam os “moradores vassalos”, que pagam com seu trabalho e o de seus filhos o aluguel da terra.
     Nos anos prósperos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, a voracidade dos cafeicultores determinou a virtual abolição do sistema que permitia aos trabalhadores das plantações cultivar alimentos por conta própria. Agora, só podem fazê-lo em troca de valores que pagam trabalhando sem receber. Além disso, o latifundiário conta com colonos contratados que têm permissão para plantar e em troca têm de iniciar novos cafezais. Quatro anos depois, quando os grãos amarelos colorem a plantação, a terra já multiplicou seu valor e chega para o colono a hora de ser mandado embora.
     Na Guatemala as plantações de café pagam ainda menos do que as do algodão. Nas encostas do sul, os proprietários dizem que retribuem com quinze dólares mensais o trabalho de milhares de indígenas que a cada ano descem do altiplano rumo ao sul para vender seus braços nas colheitas. As fazendas contam com segurança privada; ali, como alguém me explicou, “um homem é mais barato que sua tumba”, e o aparato da repressão cuida para que continue sendo. Na região de Alta Verapaz, a situação é ainda pior. Ali não há caminhões nem carroças, os fazendeiros não precisam: sai mais barato transportar o café no lombo do índio.
     Para a economia de El Salvador, pequeno país nas mãos de um punhado de famílias oligárquicas, o café tem uma importância fundamental: a monocultura obriga à compra no exterior de feijões, única fonte de proteínas para a alimentação popular, milho, hortaliças e outros alimentos que, tradicionalmente, o país produzia. A quarta parte dos salvadorenhos morre vítima de avitaminose. O Haiti, por sua vez, tem a mais alta taxa de mortalidade da América Latina; mais de metade de sua população infantil padece de anemia. O salário legal, no Haiti, pertence aos domínios da ficção; nas plantações de café, o salário real oscila entre sete e quinze centavos de dólar por dia.
     Na Colômbia, o café desfruta da hegemonia. Segundo um informe publicado pela revista Time em 1962, os trabalhadores recebem, em salários, 5 por cento do preço total que o café obtém em sua viagem da mata aos lábios do consumidor norte-americano [1]. Diferentemente do Brasil, o café da Colômbia, em sua maior parte, não é produzido nos latifúndios, mas em minifúndios que tendem cada vez mais a pulverizar-se. Entre 1955 e 1960, surgiram 100 mil novas plantações, na maioria com áreas ínfimas, menos de um hectare. Pequenos e muito pequenos agricultores produzem três quartas partes do café que a Colômbia exporta; 96 por cento das plantações são minifúndios [2]. Juan Valdés sorri nos anúncios, mas a atomização da terra derruba o nível de vida dos agricultores, de rendimentos cada vez menores, e facilita as manobras da Federação Nacional de Cafeicultores, que representa os interesses dos grandes proprietários e virtualmente monopoliza a comercialização do produto. As parcelas de menos de um hectare geram uma renda de fome: em média, 130 dólares por ano [3].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Braços Baratos para o Café(12)
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[1] ARRU LA, Mario. Estudios sobre el subdesarrollo colombiano. Medellín, 1969. O preço assim se estrutura: 40 por cento para os intermediários, exportadores e importadores; 10 por cento para os impostos dos dois governos; 10 por cento para os transportadores; 5 por cento para a propaganda do Escritório Panamericano do Café, em Washington; 30 por cento para os donos da plantações e 5 por cento para os salários dos trabalhadores.
[2]  anco Cafetero. La industria cafetera en Colombia. Bogotá, 1962.
[3Panorama económico latinoamericano. La Habana (87), setembro de 1963.

Pensando Educação

LITERATURA



     Estamos fugindo de autores densos e profundos como Machado de Assis, Clarice Lispector, Dostoiévski, Joyce, Victor Hugo, Cecília Meireles, Lobo Antunes, Simone de Beauvoir, Saramago, Hannah Arendt, e tantos e tantas mais, preferindo as páginas que nos distraem sem abismos ou labirintos éticos?

      Parece-me que sim, mas com a palavra os livreiros e livreiras, afinal, recebem e abastecem a demanda dos leitores em suas livrarias.

     Mas vou arriscar alguns pressentimentos superficiais, bacorejos da minha pequena vivência de bibliotecário escolar. Então, isto posto, sigo em frente, o risco faz parte do jogo de viver com livros entre as pessoas e se lançar, vez ou outra, na aventura do papel, lápis e pensamentos confusos – para mim, escrever é a tentativa de organizar minimamente essa confusão.

     Não acredito que exista apenas um único argumento para confirmar a tendência desta busca dos leitores e leitoras por livros que distraem ao invés de preferirem livros que nos revelam.

     Talvez a resposta possa estar no excesso de estímulos e decisões rápidas que somos provocados e incitados a mergulhar nosso cérebro. Os livros de distração oferecem a dopamina rápida, ativando nosso sistema de recompensa e satisfação com atividades prazerosas, gerando sensação de satisfação e impulsionando a repetição deste comportamento, enquanto a literatura profunda exige um esforço que sentimos não ter energia nem disposição para despender em análises emocionais dos sentimentos de felicidade, descontentamento ou fracasso, por exemplo.

     Talvez seja uma fuga existencial frente a verdades desconfortáveis, traumas ou dilemas éticos. Num mundo globalizado de incertezas, usamos a literatura como anestesia, acreditando que evitando o confronto com nossas crises mais íntimas estamos nos protegendo.

     Talvez estejamos economizando nossa atenção para plataformas digitais e redes sociais que fragmentam nossa concentração. Literatura densa exige atenção profunda, enquanto o mercado editorial nos oferece o fast food com suas estruturas descomplicadas, entre o bem e o mal, simples e sem as complexidades humanas da nossa existência.

     Talvez o mercado editorial reflita que procuramos o autocuidado como uma mercadoria de conforto, evitando o desconforto intelectual na busca do relaxamento imediato em detrimento da transformação pessoal.

     A percepção que busca o lucro.

     Minha intuição – gostaria muito de estar desacertado e confuso, o que não seria nenhuma novidade – sussurra sem alardes que estamos evitando o silêncio e a solitude da literatura profunda não só dos livros, mas da música, poesia, cinema - não esqueci de citar o teatro, é omissão -, fugimos do espelho da nossa coragem ou covardia.

     Mas enfim, são pensamentos superficiais assombrados com a exposição de tantos títulos de autoajuda espiritual, sentimental e monetária.

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