Thomas Mann
A Montanha Mágica
Capítulo IV
Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
continuando...
Fosse como fosse – continuou ele na marcha dos seus pensamentos –, era impossível que
o advogado Settembrini, ao levar uma vida dessas e em face de tão vastas atividades, houvesse
chegado a ser um grande jurisconsulto. Mas, segundo as afirmações plausíveis de seu neto, fora o
princípio geral da justiça o que o animara desde a infância até o fim da vida. Hans Castorp,
embora não tivesse, nesse momento particular, a cabeça sobremodo lúcida e sentisse o seu
organismo ocupado com a digestão dos seis pratos de uma refeição do Berghof, procurou
compreender o que Settembrini queria dizer ao chamar esse princípio de “fonte da liberdade e do
progresso”. Essa última palavra significara para Hans Castorp, até então, qualquer coisa parecida
com o desenvolvimento dos guindastes no decorrer do século XIX. Agora verificava que o Sr.
Settembrini não desprezava essas coisas, seguindo nesse ponto, evidentemente, o exemplo do
avô. O italiano rendia à pátria dos seus dois ouvintes uma grande homenagem em vista do fato de
terem sido inventados ali a pólvora, que fizera ferro-velho das armaduras do feudalismo, e o
prelo, que possibilitara a difusão democrática das ideias, quer dizer, a difusão das ideias
democráticas. Quanto a isso, elogiava a Alemanha, e também pelo que se referia ao passado dela,
se bem que lhe parecesse de justiça conceder a palma ao seu próprio país, uma vez que este fora
o primeiro a desfraldar a bandeira do esclarecimento, da cultura e da liberdade, enquanto os
demais povos ainda vegetavam presos na superstição e na servidão. Porém, se Settembrini tratava
a técnica e o tráfego – o campo de trabalho propriamente dito de Hans Castorp – com tanta
reverência como já demonstrara por ocasião do primeiro encontro com os primos, junto ao
banco na encosta da montanha, aparentemente não o fazia por amor a essas forças, senão por
causa da importância que elas tinham para o aperfeiçoamento moral dos homens, e que ele
constatava com satisfação. A técnica – expôs Settembrini – subjugava cada vez mais a natureza,
pelas comunicações que criava, pelas redes de estradas e telégrafos que construía, e pelas vitórias
que conquistava sobre as diferenças de clima; dessa forma apresentava-se como o meio mais
seguro para aproximar os povos, para favorecer o contato entre eles, para levá-los a acordos
humanos, para destruir os preconceitos existentes, e, finalmente, para estabelecer a união
universal. A raça humana tinha a sua origem na escuridão, no medo e no ódio, mas avançava e
subia por um caminho brilhante, rumo a um estado terminal de simpatia, luminosidade íntima,
bondade e felicidade. O veículo mais apropriado para transpor esse caminho era a técnica,
declarou Settembrini. Mas, ao falar assim, associava, num abrir e fechar de olhos, categorias que
Hans Castorp até então imaginara separadas por um largo abismo. “Técnica e moral”, disse o
italiano, e a seguir entrou mesmo a falar do Salvador cristão, que fora o primeiro a revelar o
princípio da igualdade e da união; depois, o prelo viera favorecer poderosamente a divulgação
desse princípio, e por fim a grande Revolução Francesa fizera dele uma lei. Por razões pouco
definíveis, mas muito reais, parecia isso sumamente confuso ao jovem Hans Castorp, se bem que
o Sr. Settembrini o formulasse em palavras tão claras e tão belas. Uma vez – contou o italiano –
uma única vez na vida, ao começo da sua maturidade, o avô sentira-se plenamente feliz: foi ao
receber a notícia da Revolução de Julho em Paris. Em altos brados e publicamente proclamara
então que todos os homens, um dia, equiparariam aqueles três dias de Paris aos seis dias da
Criação. Nesse instante, Hans Castorp não pôde evitar bater com o punho na mesa e
experimentar uma surpresa extraordinária. Achava um pouco forte colocar os três dias de verão
do ano de 1830, durante os quais os parisienses haviam dado a si próprios uma nova
Constituição, ao lado dos seis dias no decorrer dos quais Deus, Nosso Senhor, separara a terra
firme da água e criara as luzes eternas do firmamento, bem como as flores, as árvores, as aves, os
peixes e tudo quanto vive; e ainda mais tarde, ao conversar a sós com seu primo Joachim, disse
expressamente que essa afirmação lhe parecia muito forte e até mesmo chocante.
Mas estava disposto a deixar-se influenciar, no sentido do provérbio segundo o qual era
agradável experimentar. Assim refreou o protesto que sua piedade e seu bom gosto faziam contra
a concepção settembriniana das coisas, ponderando que aquilo que se lhe afigurava blasfêmia
podia ser qualificado de audácia, e que as aparentes banalidades talvez tivessem sido
manifestações de generosidade e nobre entusiasmo, pelo menos naquele país e naquela época,
como, por exemplo, quando o avô de Settembrini chamara as barricadas “o trono do povo” e
declarara que cumpria “consagrar a lança do cidadão sobre o altar da humanidade”.
Hans Castorp sabia por que escutava os discursos do Sr. Settembrini; não que fosse capaz
de explicar os motivos com clareza, mas sabia-os. Havia entre eles uma espécie de senso do
dever, além daquela ausência de responsabilidade, peculiar às férias de um viageiro e visitante, que
não se fecha a nenhuma impressão e deixa as coisas se aproximarem, na certeza de que amanhã
ou depois abrirá as asas e voltará à ordem habitual. Era, por conseguinte, como que uma voz da
consciência, e para ser exato, o preceito e a exortação da sua consciência pesada, o que o induzia
a prestar atenção ao italiano -sentado de pernas cruzadas, a fumar o Maria Mancini, ou subindo
com ele e o primo pela estrada que conduzia do bairro inglês ao Berghof.
Segundo as digressões de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do
mundo: a força e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e a ciência, o princípio da
estagnação e o do movimento efervescente, do progresso. Podia-se chamar a um o princípio
asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da atividade
transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso inerte.
Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por
triunfar; só poderia ser a da luz, a do aperfeiçoamento guiado pela razão. Pois a humanidade
arrastava mais e mais povos pelo seu caminho brilhante; ganhava cada vez mais terreno na
própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a
sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa
vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as
monarquias e as religiões também naqueles países que na verdade nunca tinham gozado o seu
século XVIII nem seu ano de 1789.
Mas esse dia haveria de chegar, disse Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva
do bigode. Se não chegasse pelos pés das pombas, chegaria sobre as asas das águias. Nasceria
como a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da razão, da ciência e do direito.
Acarretaria a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três
vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal foi o avô Giuseppe; numa
palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objetivo final era, antes de mais nada,
necessário ferir o princípio asiático, o princípio servil da inércia, no centro e no nervo vital da sua
resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar
desforra das suas façanhas do passado, e depois para encaminhar o reino da justiça e da felicidade
sobre a terra.
Esse último rumo e essa conclusão das altissonantes expansões de Settembrini já não
interessavam a Hans Castorp. Causavam-lhe desagrado e até o chocavam porque via neles a
expressão de um rancor pessoal ou nacional, cada vez que se repetiam. No que tocava a Joachim
Ziemssen – quando ele ouvia o italiano discorrer dessa forma, voltava mesmo a cabeça, de cenho
carregado, e cessava de escutar; às vezes também dizia que estava na hora do repouso ou tentava
mudar de assunto. Hans Castorp tampouco se sentia obrigado a prestar atenção a ideias tão
extravagantes, que, evidentemente, ultrapassavam os limites das influências que a voz da sua
consciência lhe aconselhava admitir, a título de experiência; e essa voz era todavia tão forte que
ele próprio se punha a pedir ao Sr. Settembrini lhe explanasse as suas ideias, sempre que o
italiano ia sentar-se à mesa dos primos ou os acompanhava durante um passeio.
Essas ideias, esses ideais e essas aspirações, observou Settembrini, faziam parte das
tradições da sua família. Pois os três lhe haviam consagrado a vida e as forças do espírito: o avô, o
pai e o neto, cada qual à sua maneira, o pai não menos que o avô, se bem que não tivesse sido,
como este, um agitador político e um paladino da liberdade, senão um sábio quieto e delicado,
um humanista que vivia amarrado à sua escrivaninha. Mas, que era afinal o humanismo? Era o
amor aos homens, nada mais, nada menos, e por isso mesmo implicava também a política, a
insurreição contra tudo quanto mancha e desonra a dignidade humana. .Haviam censurado ao
humanismo o apreço exagerado da forma; mas ele cultivara a bela forma unicamente por amor à
dignidade humana, em esplêndida oposição à Idade Média, que vivia não só entregue à
misantropia e à superstição, como também enfeada por uma ignominiosa falta de forma. Desde
os seus inícios, defendera a causa do homem, os interesses terrenos, a liberdade do pensamento e
o prazer de viver, opinando que o céu, por motivos de equidade, pertencia aos pardais. Ah,
Prometeu! Fora ele o primeiro humanista e idêntico àquele Satã, ao qual Carducci dedicara o seu
hino... Oh, meu Deus, se os primos pudessem ouvir como o velho inimigo da Igreja, em
Bolonha, maldizia e zombava da sensibilidade cristã do Romantismo! Dos hinos sacros de
Manzoni! Da poesia de sombras e luares dos românticos, que ele comparava à “Lua, a pálida
monja celeste!” Per Bacco, que prazer sublime, escutar esse homem! E também deveriam ter
ouvido Carducci interpretando Dante: celebrara-o como cidadão de uma metrópole, que
defendia, contra a ascese e a negação do mundo, a força ativa que revolucionava e melhorava o
mundo. Ora vejam, não era a sombra enfermiça e mística de Beatriz a quem o poeta honrava sob
o nome de “donna gentile e pietosa”; pelo contrário, assim designava a esposa que no poema
representava o princípio do conhecimento das coisas deste mundo e da atividade prática na vida.
Dessa maneira, Hans Castorp aprendia isto e aquilo sobre Dante, e da melhor das fontes.
Não se fiava irrestritamente nesses seus novos conhecimentos, dado o espírito estouvado de
quem lhe servia de intermediário. Mesmo assim, valia a pena saber que Dante fora um cidadão de
uma metrópole e tivera um espírito vivaz. E a seguir, Hans Castorp prestava atenção ao que
Settembrini contava de si próprio. Declarava o italiano que no neto Lodovico, isto é, em sua
pessoa, se haviam combinado as tendências dos seus ascendentes imediatos, a cívica do avô e a
humanística do pai. Assim ele se tornara um literato, um escritor livre. Pois a literatura não era
outra coisa senão isto: a associação de humanismo e política, associação que se realizava com a
maior naturalidade, visto o próprio humanismo ser política e a política significar humanismo... A
essa altura das explanações, Hans Castorp escutava com grande atenção, esforçando-se por
compreender tudo direitinho; pois esperava aprender finalmente em que consistia a crassa
ignorância do cervejeiro Magnus e ficar sabendo por que a literatura era outra coisa que não
“belos caracteres”. Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar de Brunetto,
Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre as
virtudes e os vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar
lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está,
meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do
verbo, da eloquência, que qualificou de humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e só
ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a
humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles
sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura... (– Está
vendo? – disse Hans Castorp mais tarde ao primo. – Está vendo que na literatura o que importa
são as belas palavras? Eu percebi logo...) – E dessa forma, prosseguiu o italiano, achava-se
também a política ligada à literatura, ou melhor, tinha a sua origem na aliança, na fusão de
humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. Faz dois séculos, disse
Settembrini, vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conservador, que atribuía
suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do
estilo. Devia ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. Pois
escrever bem já era quase pensar bem, e daí a agir bem não havia muita distância. Toda
moralidade e todo aperfeiçoamento moral derivava do espírito da literatura, desse pundonor
humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno
e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era
esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os
primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar
essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde.
O jovem Hans Castorp achava tudo isso digno de ser escutado -sem compromisso e a
título de experiência apenas, mas em todo caso digno de atenção. Foi nesse sentido que falou
com Joachim Ziemssen, o qual, porém, por andar com o termômetro na boca, não podia
responder senão indistintamente, e que a seguir se mostrou por demais ocupado em decifrar os
graus e inscrevê-los na papeleta, para que pudesse formular uma opinião acerca dos pontos de
vista de Settembrini. Hans Castorp, porém, inteirava-se, cheio de boa vontade, dessas opiniões e
abria-lhes o seu íntimo, a fim de estudá-las; o que deixa ver quanta vantagem leva o homem
acordado sobre o homem que dorme estupidamente – pois, nos seus sonhos, já acontecera
diversas vezes a Hans Castorp tratar o Sr. Settembrini, à queima-roupa, de tocador de realejo, e
procurar empurrá-lo com toda a força, porque “era demais ali”. Mas, como homem acordado,
ouvia-o atenta e cortesmente e esforçava-se com muita imparcialidade por suavizar e diminuir a
oposição que nele desejava levantar-se contra as ideias e as exposições do seu mentor. Não se
pode negar que tal oposição existia na sua alma; baseava-se em resistências antigas que sempre
haviam operado ali e também em outras, resultantes da situação presente, das experiências ora
indiretas ora secretas que Hans Castorp fazia ali em cima.
Que é o homem, e com quanta facilidade pode ser ludibriada a sua consciência! Como é
perito na arte de perceber na própria voz do dever a licença para se entregar à paixão! Era por um
senso de dever, por equidade, pela necessidade de um contrapeso, que Hans Castorp escutava os
discursos do Sr. Settembrini, examinando, com muita complacência, as suas considerações
quanto à razão, à república e à beleza do estilo, e dispondo-se a deixar-se influenciar por elas.
Tanto mais lícito lhe parecia depois dar livre curso aos seus pensamentos e aos seus sonhos, a fim
de que rumassem numa direção diferente e até oposta – e para formularmos desde já o resultado
total do que suspeitamos ou adivinhamos, seja dito que escutava o Sr. Settembrini com a
finalidade exclusiva de obter da sua consciência plenos poderes que esta primitivamente não lhe
quisera outorgar. Mas, o que ou quem é que se encontrava do lado oposto ao patriotismo, à
dignidade humana e às belas-letras, desse lado onde Hans Castorp pensava ter reconquistado o
direito de dirigir seus pensamentos e seus atos? Ali se achava Clávdia Chauchat, indolente,
carcomida, com seus olhos de quirguiz, e enquanto Hans refletia sobre ela – a palavra “refletir” é,
aliás, muito mansa para expressar o modo como, no seu íntimo, se ocupava com ela –, era
novamente como se andasse de barca por aquele lago de Holstein e dirigisse os olhos
deslumbrados e confundidos pela luminosidade vítrea da margem ocidental, para a noite de luar,
entremeada de brumas, dos céus do Oriente.
continua pág 104...
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Leia também:
Capítulo II
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III
Capítulo IV
Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo (c)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.