Apolodoro[1] e um Companheiro
De Fedro foi mais ou menos este o discurso que pronunciou, no
dizer de Aristodemo; depois de Fedro houve alguns outros de
que ele não se lembrava bem, os quais deixou de lado, passando a contar o de Pausânias. Disse este:
“Não me parece
bela, ó Fedro, a maneira como nos foi proposto o discurso, essa
simples prescrição de um elogio ao Amor. Se, com efeito, um
fosse o Amor, muito bem estaria; na realidade porém, não é ele
um só; e não sendo um só, é mais acertado primeiro dizer qual
o que se deve elogiar. Tentarei eu portanto corrigir este senão,
e primeiro dizer qual o Amor que se deve elogiar, depois fazer
um elogio digno do deus. Todos, com efeito, sabemos que sem
Amor não há Afrodite. Se portanto uma só fosse esta, um só
seria o Amor; como porém são duas, é forçoso que dois sejam
também os Amores. E como não são duas deusas? Uma, a mais
velha sem dúvida, não tem mãe e é filha de Urano, e a ela é
que chamamos de Urânia, a Celestial; a mais nova, filha de
Zeus e de Dione, chamamo-la de Pandêmia, a Popular. É
forçoso então que também o Amor, coadjuvante de uma, se
chame corretamente Pandêmio, o Popular, e o outro Urânio, o
Celestial. Por conseguinte, é sem dúvida preciso louvar todos os
deuses, mas o dom que a um e a outro coube deve-se procurar
dizer. Toda ação, com efeito, é assim que se apresenta: em si
mesma, enquanto simplesmente praticada, nem é bela nem
feia. Por exemplo, o que agora nós fazemos, beber, cantar,
conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira
como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito
fica belo, o que não o é fica feio. Assim é que o amar e o Amor
não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que
leva a amar belamente.
Ora pois, o Amor de Afrodite Pandêmia é realmente popular e
faz o que lhe ocorre; é a ele que os homens vulgares amam. E
amam tais pessoas, primeiramente não menos as mulheres que
os jovens, e depois o que neles amam é mais o corpo que a
alma, e ainda dos mais desprovidos de inteligência, tendo em
mira apenas o efetuar o ato, sem se preocupar se é decente
mente ou não; daí resulta então que eles fazem o que lhes
ocorre, tanto o que é bom como o seu contrário. Trata-se com
efeito do amor proveniente da deusa que é mais jovem que a
outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho. O
outro porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da
fêmea mas só do macho - e é este o amor aos jovens - e depois
é a mais velha, isenta de violência; daí então é que se voltam
ao que é másculo os inspirados deste amor, afeiçoando-se ao
que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência. E
ainda, no próprio amor aos jovens poder-se-iam reconhecer os
que estão movidos exclusivamente por esse tipo de amor; não amam eles, com efeito, os meninos, mas os que já começam a
ter juízo, o que se dá quando lhes vêm chegando as barbas.
Estão dispostos, penso eu, os que começam desse ponto, a
amar para acompanhar toda a vida e viver em comum, e não a
enganar e, depois de tomar o jovem em sua inocência e
ludibriá-lo, partir à procura de outro. Seria preciso haver uma
lei proibindo que se amassem os meninos, a fim de que não se
perdesse na incerteza tanto esforço; pois é na verdade incerto o
destino dos meninos, a que ponto do vicio ou da virtude eles
chegam em seu corpo e sua alma. Ora, se os bons amantes a si
mesmos se impõem voluntariamente esta lei, devia-se também
a estes amantes populares obrigá-los a lei semelhante, assim
como, com as mulheres de condição livre, obrigamo-las na
medida do possível a não manter relações amorosas. São estes,
com efeito, os que justamente criaram o descrédito, a ponto de
alguns ousarem dizer que é vergonhoso o aquiescer aos
amantes; e assim o dizem porque são estes os que eles
consideram, vendo o seu despropósito e desregramento, pois
não é sem dúvida quando feito com moderação e norma que um
ato, seja qual for, incorreria em justa censura.
Aliás, a lei do amor nas demais cidades é fácil de entender, pois
é simples a sua determinação; aqui porém ela é complexa. Em
Élida, com efeito, na Lacedemônia, na Beócia, e onde não se
saiba falar, simplesmente se estabeleceu que é belo aquiescer
aos amantes, e ninguém, jovem ou velho, diria que é feio, a fim
de não terem dificuldades, creio eu, em tentativas de persuadir
os jovens com a palavra, incapazes que são de falar; na Jônia,
porém, e em muitas outras partes é tido como feio, por quantos
habitam sob a influência dos bárbaros. Entre os bárbaros, com
efeito, por causa das tiranias, é uma coisa feia esse amor,
justamente como o da sabedoria e da ginástica; é que, imagino,
não aproveita aos seus governantes que nasçam grandes ideias
entre os governados, nem amizades e associações inabaláveis,
o que justamente, mais do que qualquer outra coisa, costuma o
amor inspirar. Por experiência aprenderam isto os tiranos desta
cidade; pois foi o amor de Aristogitão e a amizade de Harmódio
que, afirmando-se, destruíram-lhes o poder. Assim, onde se
estabeleceu que é feio o aquiescer aos amantes, é por defeito
dos que o estabeleceram que assim fica, graças à ambição dos
governantes e à covardia dos governados; e onde simplesmente
se determinou que é belo, foi em consequência da inércia dos
que assim estabeleceram. Aqui porém, muito mais bela que
estas é a norma que se instituiu e, como eu disse, não é fácil de entender. A quem, com efeito, tenha considerado que se diz ser
mais belo amar claramente que às ocultas, e sobretudo os mais
nobres e os melhores, embora mais feios que outros; que por
outro lado o encorajamento dado por todos aos amantes é
extraordinário e não como se estivesse a fazer algum ato feio, e
se fez ele uma conquista parece belo o seu ato, se não, parece
feio; e ainda, que em sua tentativa de conquista deu a lei ao
amante a possibilidade de ser louvado na prática de atos
extravagantes, os quais se alguém ousasse cometer em vista de
qualquer outro objetivo e procurando fazer qualquer outra coisa
fora isso, colheria as maiores censuras da filosofia -- pois se,
querendo de uma pessoa ou obter dinheiro ou assumir um
comando ou conseguir qualquer outro poder, consentisse
alguém em fazer justamente o que fazem os amantes para com
os amados, fazendo em seus pedidos súplicas e prosternações,
e em suas juras protestando deitar-se às portas, e dispondo-se
a subserviências a que se não sujeitaria nenhum servo, seria
impedido de agir desse modo, tanto pelos amigos como pelos
inimigos, uns incriminando-o de adulação e indignidade, outros
admoestando-o e envergonhando-se de tais atos — ao amante
porém que faça tudo isso acresce-lhe a graça, e lhe é dado pela
lei que ele o faça sem descrédito, como se estivesse praticando
uma ação belíssima; e o mais estranho é que, como diz o povo,
quando ele jura, só ele tem o perdão dos deuses se perjurar
pois juramento de amor dizem que não é juramento, e assim
tanto os deuses como os homens deram toda liberdade ao
amante, como diz a lei daqui - por esse lado então poder-se-ia
pensar que se considera inteiramente belo nesta cidade não só
o fato de ser amante como também o serem os amados amigos
dos amantes. Quando porém, impondo-lhes um pedagogo, os
pais não permitem aos amados que conversem com os
amantes, e ao pedagogo é prescrita essa ordem, e ainda os
camaradas e amigos injuriam se vêm que tal coisa está
ocorrendo, sem que a esses injuriadores detenham os mais
velhos ou os censurem por estarem falando sem acerto, depois
de por sua vez atentar a tudo isso, poderia alguém julgar ao
contrário que se considera muito feio aqui esse modo de agir. O
que há porém é, a meu ver, o seguinte: não é isso uma coisa
simples, o que justamente se disse desde o começo, que não é
em si e por si nem belo nem feio, mas se decentemente
praticado é belo, se indecentemente, feio. Ora, é
indecentemente quando é a um mau e de modo mau que se
aquiesce, e decentemente quando é a um bom e de um modo
bom. E é mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que
também não é constante. Com efeito, ao mesmo tempo que
cessa o viço do corpo, que era o que ele amava, “alça ele o seu
voo”, sem respeito a muitas palavras e promessas feitas. Ao
contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda
a vida, porque se fundiu com o que é constante. Ora, são esses
dois tipos de amantes que pretende a nossa lei provar bem e
devidamente, e que a uns se aquiesça e dos outros se fuja. Por
isso é que uns ela exorta a perseguir e outros a evitar,
arbitrando e aferindo qual é porventura o tipo do amante e qual
o do amado. Assim é que, por esse motivo, primeiramente o se
deixar conquistar é tido como feio, a fim de que possa haver
tempo, que bem parece o mais das vezes ser uma excelente
prova; e depois o deixar-se conquistar pelo dinheiro e pelo
prestigio político é tido como feio, quer a um mau trato nos
assustemos sem reagir, quer beneficiados em dinheiro ou em
sucesso político não os desprezemos; nenhuma dessas
vantagens, com efeito, parece firme ou constante, afora o fato
de que delas nem mesmo se pode derivar uma amizade nobre.
Um só caminho então resta à nossa norma, se deve o bem
amado decentemente aquiescer ao amante. É com efeito norma
entre nós que, assim como para os amantes, quando um deles
se presta a qualquer servidão ao amado, não é isso adulação
nem um ato censurável, do mesmo modo também só outra
única servidão voluntária resta, não sujeita a censura: a que se
aceita pela virtude. Na verdade, estabeleceu-se entre nós que,
se alguém quer servir a um outro por julgar que por ele se
tornará melhor, ou em sabedoria ou em qualquer outra espécie
de virtude, também esta voluntária servidão não é feia nem é
uma adulação. É preciso então congraçar num mesmo objetivo
essas duas normas, a do amor aos jovens e a do amor ao saber
e às demais virtudes, se deve dar-se o caso de ser belo o
aquiescer o amado ao amante. Quando com efeito ao mesmo
porto chegam amante e amado, cada um com a sua norma, um
servindo ao amado que lhe aquiesce, em tudo que for justo
servir, e o outro ajudando ao que o está tornando sábio e bom,
em tudo que for justo ajudar, o primeiro em condições de
contribuir para a sabedoria e demais virtudes, o segundo em
precisão de adquirir para a sua educação e demais competência,
só então, quando ao mesmo objetivo convergem essas duas
normas, só então é que coincide ser belo o aquiescer o amado
ao amante e em mais nenhuma outra ocasião. Nesse caso,
mesmo o ser enganado não é nada feio; em todos os outros
casos porém é vergonhoso, quer se seja enganado, quer não.
Se alguém com efeito, depois de aquiescer a um amante, na
suposição de ser este rico e em vista de sua riqueza, fosse a
seguir enganado e não obtivesse vantagens pecuniárias, por se
ter revelado pobre o amante, nem por isso seria menos
vergonhoso; pois parece tal tipo revelar justamente o que tem
de seu, que pelo dinheiro ele serviria em qualquer negócio a
qualquer um, e isso não é belo. Pela mesma razão, também se
alguém, tendo aquiescido a um amante considerado bom, e
para se tornar ele próprio melhor através da amizade do
amante, fosse a seguir enganado, revelada a maldade daquele e
sua carência de virtude, mesmo assim belo seria o engano; pois
também nesse caso parece este ter deixado presente sua
própria tendência: pela virtude e por se tornar melhor, a tudo
ele se disporia em favor de qualquer um, e isso é ao contrário o
mais belo de tudo; assim, em tudo por tudo é belo aquiescer em
vista da virtude. Este é o amor da deusa celeste, ele mesmo
celeste e de muito valor para a cidade e os cidadãos, porque
muito esforço ele obriga a fazer pela virtude tanto ao próprio
amante como ao amado; os outros porém são todos da outra
deusa, da popular. É essa, ó Fedro, concluiu ele, a contribuição
que, como de improviso, eu te apresento sobre o Amor”. continua página 11...
___________________
Apolodoro e um Companheiro(c)
Apolodoro e um Companheiro(d)
___________________
___________________
Platão (428/7-348/7 a.C.)
Nasceu em Atenas, por volta de 428/7, e era membro de uma aristocrática e ilustre família. Descendia dos antigos reis de Atenas, de Sólon e era também sobrinho de Crítias (460/403) e Cármides, dois dos "Trinta Tiranos" que governaram Atenas em -404. Lutou na Guerra do Peloponeso entre 409 e 404, e a admiração por Sócrates, que conheceu em algum momento desse período, foi decisiva em sua vida.
O seu verdadeiro nome era Arístocles, mas devido à sua compleição física recebeu a alcunha de Platão (significa literalmente "ombros largos"). Frequentou com assiduidade os ginásios, obtendo prêmios por duas vezes nos Jogos Istímicos. Começou por seguir as lições de Crátilo, discípulo de Heraclito, e as de Hermógenes, discípulo de Parménides. Em princípio, por tradição familiar deveria seguir a vida política. Contudo, a experiência do governo dos trinta tiranos que governaram Atenas por imposição de Esparta (404-403 a.C.), e da qual fazia parte dois dos seus tios Crístias e Cármides, distanciaram-no desta opção de vida, pelo menos do modo como a política era exercida. O fato que mais o marcou foi a influência que sobre ele exerceu Sócrates, tendo-se feito seu discípulo por volta de 408, quando contava vinte anos. Nele encontrou o mestre, que veio a homenagear na sua obra, fazendo-o interlocutor principal da quase totalidade dos seus diálogos.
Após a morte de Sócrates, em 399 a.C., Platão realizou inúmeras viagens, travando contato com importantes filósofos e escolas de pensamento suas contemporâneas. Em Megara, travou contato com Euclides e sua escola; no Egito, Sicília e Magna Grécia, aprofundou seus conhecimentos através do contato com a sabedoria egípcia e os ensinamentos eleáticos e pitagóricos, este último especialmente através do encontro com Arquitas de Tarento. De passagem por Siracusa, ligou-se a Díon e Dionísio, tirano de Siracusa. Estas duas personagens desempenharam papel fundamental na posterior vida política de Platão.
De volta a Atenas, fundou em 387 a Academia, passando a dedicar-se ao ensino e à composição de sua obra filosófica.
Em 365 e em 361 esteve novamente em Siracusa, a pedido do amigo Díon, numa tentativa inútil de transformar o jovem Dionísios II (-367/-342), filho e sucessor de Dionísios I, no "reifilósofo" que idealizara.
Desiludido com a dificuldade de colocar em prática suas idéias filosóficas, Platão não mais saiu de Atenas.
Durante o ultimo período da sua vida continuou a dirigir a Academia, e escreveu o Timeu, O Crítias e As Leis ,que não chegou a acabar falecendo por volta de 347.
___________________
[1] O interlocutor de Sócrates não está só (N.T.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário