Mostrando postagens com marcador OSolparaTodos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador OSolparaTodos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de março de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (31)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

31

     Quando Boo Radley se levantou, a luz que vinha das janelas da sala brilharam na testa dele. Todos os seus movimentos eram inseguros, como se ele não tivesse certeza de que as mãos e os pés podiam fazer contato com as coisas que tocavam. Tossiu a sua horrível tosse seca e ficou tão abalado que precisou sentar-se de novo. Enfiou a mão no bolso da calça e pegou um lenço. Tossiu nele e secou a testa.
     Eu estava tão acostumada com a ausência dele que achei incrível que estivesse sentado ao meu lado o tempo todo, presente. Em absoluto silêncio.
     Ele se levantou de novo. Virou-se para mim e fez sinal com a cabeça indicando a porta. 

— Quer se despedir de Jem, não é, sr. Arthur? Venha.

     Fui andando com ele pelo corredor. Tia Alexandra estava sentada ao lado da cama de Jem. 

— Entre, Arthur — ela convidou. — Jem ainda está dormindo. O dr. Reynolds deu um sedativo forte para ele. Jean Louise, seu pai está na sala? 
— Acho que sim, senhora. 
— Vou falar com ele um instante. O dr. Reynolds deixou algumas… — a voz dela desapareceu na distância.

     Boo tinha se esgueirado para um canto do quarto e estava com o queixo levantado, olhando Jem de longe. Peguei a mão dele, que era muito quente, apesar de tão branca. Puxei-a de leve e ele deixou que o levasse até a cama de Jem.
     O dr. Reynolds tinha feito uma espécie de armação no braço de Jem para que ficasse isolado, acho. Boo se debruçou sobre a armação e olhou; em seu rosto havia uma curiosidade tímida, como se ele nunca tivesse visto um menino. Abriu de leve a boca e olhou Jem dos pés à cabeça. Levantou a mão, mas deixou-a cair ao lado do corpo. 

— Pode fazer carinho nele, sr. Arthur, ele está dormindo. Se estivesse acordado, ele não deixaria… Vá em frente — expliquei.

     A mão de Boo pairou sobre a cabeça de Jem. 

— Vá em frente, ele está dormindo.

     Eu estava começando a entender a linguagem corporal dele. Ele apertou a minha mão, o que significava que queria ir embora.
     Levei-o até a varanda da frente, onde seus passos inseguros pararam. Continuava segurando a minha mão e parecia que não ia soltar. 

— Pode me levar em casa?

     Ele praticamente sussurrou, com a voz de uma criança com medo do escuro.
     Pisei no primeiro degrau da escada e parei. Eu podia conduzi-lo pela nossa casa, mas não podia conduzi-lo até a casa dele. 

— Sr. Arthur, dobre o braço assim. Isso, muito bem.

     Enfiei minha mão na dobra do braço dele.
     Ele teve de curvar-se um pouco para me dar o braço, mas se a srta. Stephanie Crawford estivesse olhando da janela dela, veria Arthur Radley me acompanhando pela calçada, como qualquer cavalheiro faria.
      Chegamos ao poste da esquina e pensei em quantas vezes Dill tinha ficado ali agarrado naquele mastro gordo, olhando, esperando, imaginando. E quantas vezes Jem e eu tínhamos feito aquele caminho, mas era a segunda vez na vida que eu entrava no portão dos Radley. Boo e eu subimos a escada da varanda. Ele segurou na maçaneta. Soltou minha mão delicadamente, abriu a porta, entrou e fechou a porta. Nunca mais o vi.
     As pessoas levam flores quando alguém morre e comida quando alguém adoece, e pequenos presentes em outras ocasiões. Boo era nosso vizinho. Ele nos deu dois bonecos esculpidos em sabão, um relógio quebrado com a corrente, duas moedas da sorte e nossas vidas. Mas os vizinhos retribuem. Nós nunca colocamos de volta na árvore o que tínhamos tirado de lá: não demos nada para ele em troca, e isso me entristecia.
     Virei-me para fazer o caminho de volta. Os postes piscavam na rua até a cidade. Eu nunca tinha visto o nosso bairro por aquele ângulo. Ali estavam a casa da srta. Maudie, a da srta. Stephanie... a nossa casa. Vi o balanço da varanda, a casa da srta. Rachel depois da nossa, perfeitamente visível. Dava para ver até a casa da sra. Dubose. Olhei para trás. À esquerda da porta marrom havia uma janela comprida, com venezianas. Fui até lá, fiquei na frente dela e me virei. De dia, pensei, dava para ver a esquina do correio.
      De dia… na minha cabeça, a noite desapareceu. Era dia e o bairro estava movimentado. A srta. Stephanie atravessava a rua para contar as últimas novidades para a srta. Rachel. A srta. Maudie estava debruçada sobre suas azáleas. Era verão e duas crianças iam pela calçada ao encontro de um homem. O homem acenou e as crianças correram até ele.
     Ainda era verão e as crianças se aproximaram. Um menino veio pela calçada equilibrando uma vara de pescar no ombro. Um homem ficou olhando, com as mãos na cintura. Verão, e os filhos dele brincavam no jardim com um amigo, encenando uma estranha peça que tinham inventado.
     Era outono e os filhos brigavam na calçada na frente da casa da sra. Dubose. O menino ajudou a irmã a se levantar e foram para casa. Outono, e os filhos iam e voltavam pela esquina, no rosto as derrotas e as vitórias do dia. Pararam num carvalho, encantados, confusos, apreensivos.
     Inverno, e os filhos dele tremiam de frio no portão da frente, as silhuetas recortadas contra uma casa consumida pelas chamas. Inverno e um homem veio andando pela rua, tirou os óculos e atirou num cachorro.
     Verão, e ele viu os filhos ficarem de coração partido. Outono de novo, e as crianças de Boo precisavam dele.
     Atticus tinha razão. Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá um tempo. Ficar parada na varanda dos Radley foi o suficiente.
     A luz dos postes estava difusa sob a chuva fina que caía. Enquanto ia para casa, me senti muito velha, então olhei para a ponta do meu nariz e vi gotas minúsculas, mas fiquei tonta e parei com aquilo. Enquanto ia para casa, pensei em todas as coisas que tinha para contar a Jem no dia seguinte. Ele ia ficar com tanta raiva de ter perdido tudo que ia passar dias sem falar comigo. Enquanto ia para casa, pensei que Jem e eu íamos crescer mas não tínhamos mais muita coisa para aprender, a não ser, talvez, álgebra.
     Subi a escada correndo e entrei em casa. Tia Alexandra tinha ido dormir e o quarto de Atticus estava escuro. Fui ver se Jem tinha acordado. Atticus estava lá, sentado na cama de Jem. Estava lendo um livro. 

— Jem ainda não acordou? 
— Está dormindo tranquilo. Só vai acordar de manhã. 
— Ah. Você vai ficar aí com ele? 
— Só por uma hora, mais ou menos. Vá dormir, Scout. O dia foi longo. 
— Acho que vou ficar um pouco com você. 
— Como quiser — disse Atticus. Devia ser mais de meia-noite, e fiquei surpresa por ele ter concordado. Mas ele era mais esperto que eu: mal me sentei e comecei a ficar com sono. 
— O que você está lendo? — perguntei.

     Atticus me mostrou a capa do livro. 

— Um livro de Jem. Chama-se O fantasma cinzento.

     De repente, despertei. 

— Por que escolheu esse? 
— Querida, não sei. Só peguei. É um dos poucos livros que ainda não li — ele disse, direto. 
— Por favor, leia alto, Atticus. Esse livro dá muito medo. 
— Não, você já levou muito susto. O livro é bem… 
— Atticus, eu não tive medo.

     Ele franziu o cenho e eu protestei: 

— Só tive medo quando comecei a contar tudo para o sr. Tate. Jem não teve medo. Perguntei e ele respondeu que não estava com medo. Além do mais, só nos livros é que as coisas são assustadoras de verdade.

     Atticus abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou de novo. Desmarcou a página que estava segurando com o dedo e voltou para a primeira página. Encostei a cabeça no joelho dele. 

— Hum, vejamos: O fantasma cinzento, de Seckatary Hawkins, Capítulo Um…

     Fiz um esforço para ficar acordada, mas a chuva estava tão fina, o quarto tão acolhedor, a voz dele tão agradável e o joelho tão confortável que adormeci.
     Segundos depois, ou pelo menos foi o que me pareceu, o sapato dele tocou de leve nas minhas costelas. Ele me levantou e me levou para o meu quarto. 

— Ouvi tudo o que você leu… não estava dormindo… é a história de um navio, Fred Três Dedos e o menino Stoner… — eu disse.

     Ele desabotoou o meu macacão, me encostou nele e tirou-o. Me segurou com uma das mãos e pegou o meu pijama com a outra. 

— E todos pensavam que era o menino Stoner que fazia bagunça no clube deles e jogava tinta por toda parte e…

     Ele me levou até a cama e me fez sentar. Levantou minhas pernas e me colocou embaixo das cobertas. 

— Eles o perseguiram, mas nunca conseguiam pegá-lo porque não sabiam como ele era e depois, Atticus, quando finalmente o encontraram viram que ele não tinha feito nada daquilo… Atticus, ele era muito bom…

     As mãos dele estavam embaixo do meu queixo, puxando as cobertas e ajeitando-as em volta de mim. 

— A maioria das pessoas é, Scout, quando enfim as conhecemos.

     Ele apagou a luz e foi para o quarto de Jem. Ele ia ficar lá a noite toda, e estaria lá quando Jem acordasse de manhã.

***

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (31).   
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

sexta-feira, 13 de março de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (30)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

30

— Ele se chama sr. Arthur, querida — corrigiu Atticus com delicadeza. — Jean Louise, esse é o Sr. Arthur Radley. Acho que ele já conhece você.

     Só Atticus para, num momento como aquele, me apresentar a Boo Radley— Atticus era assim mesmo.
     Boo me viu correr instintivamente para a cama onde Jem dormia, pois o mesmo sorriso tímido se insinuou no rosto dele. Vermelha de constrangimento, tentei disfarçar cobrindo Jem. 

— Ah-ah, não mexa nele — disse Atticus.

     O sr. Tate olhava fixamente para Boo com os óculos de aro de tartaruga. Ia dizer alguma coisa, quando ouvimos o dr. Reynolds vindo pelo corredor. 

— Saiam todos — disse, ao chegar à porta. — Boa noite, Arthur, não vi que você estava aí.

     A voz do médico era tão jovial quanto o andar, como se ele tivesse feito aquele cumprimento todas as noites da sua vida, o que me deixou ainda mais perplexa do que estar no mesmo cômodo que Boo Radley. Claro… até Boo Radley às vezes ficava doente, pensei. Mas, por outro lado, não tinha tanta certeza.
     O dr. Reynolds estava carregando um grande pacote enrolado em jornal. Colocou-o sobre a escrivaninha de Jem e tirou o paletó.

— Então, está convencida de que ele está vivo? Vou dizer como eu sabia. Quando fui examiná-lo ele reagiu com um chute. Precisei colocá-lo fora de combate para conseguir tocá-lo. Agora vá — ele disse para mim. 
Ah… — fez Atticus, olhando para Boo. — Heck, vamos para a varanda da frente. Lá tem cadeiras suficientes e ainda está fazendo calor.

     Fiquei pensando por que Atticus tinha nos convidado para ir para a varanda e não para a sala, então entendi: as luzes da sala eram muito fortes.
     Saímos em fila, primeiro o sr. Tate.... Atticus ficou esperando na porta para que passássemos na frente dele, mas mudou de ideia e foi atrás do sr. Tate.
     As pessoas têm a mania de manter as rotinas diárias até nas situações mais estranhas. Eu não era exceção. 

— Venha, sr. Arthur, sei que não conhece bem a casa. Vou levá-lo até a varanda — ouvi eu mesma dizer.

     Ele olhou para mim e concordou com a cabeça.
     Levei-o através do corredor e da sala de visitas. 

— Não quer sentar, sr. Arthur? Esta cadeira de balanço é muito confortável.

     Lembrei da minha pequena fantasia com ele: ele estaria sentado na varanda… “Que dias bonitos tem feito, não, sr. Arthur?” “Sim, muito bonitos.” Sentindo-me um pouco irreal, levei-o para a cadeira mais distante de Atticus e do sr. Tate. Ficava bem no escuro. Boo se sentiria melhor assim.
     Atticus estava sentado no balanço e o sr. Tate numa cadeira ao lado. A luz forte que vinha da janela da sala incidia sobre eles. Sentei-me ao lado de Boo. 

— Bom, Heck — Atticus estava dizendo. — Acho que o melhor a fazer é… Meu Deus, estou perdendo a memória… — Atticus empurrou os óculos para cima e apertou os olhos com as mãos. — Jem ainda não fez treze anos… não, ele já tem treze... Não me lembro. De todo jeito, o caso vai ter que ser apresentado ao tribunal… 
— Que caso, Sr. Finch? — o sr. Tate descruzou as pernas e se inclinou para a frente. 
— É claro que foi legítima defesa, mas tenho de ir ao escritório e procurar… 
— O senhor acha que foi Jem que matou Bob Ewell, sr. Finch? Acha mesmo? 
— Você ouviu o que Scout disse, não há dúvida. Ela disse que Jem se levantou e tirou Ewell de cima dela… Deve ter pego a faca de Ewell no escuro… Bem, saberemos amanhã. 
— Espere um momento, sr. Finch. Jem não esfaqueou Bob Ewell — disse o sr. Tate.

     Atticus ficou em silêncio por um instante. Olhou para o sr. Tate como se gostasse do que tinha ouvido. Mas balançou a cabeça. 

— Heck, é muita gentileza sua, e sei que está falando isso porque tem um bom coração, mas não faça isso.

     O sr. Tate se levantou e foi até a beira da varanda. Cuspiu nos arbustos, pôs as mãos nos bolsos e olhou para Atticus. 

— Não faça o quê? — perguntou o sr. Tate. 
— Desculpe se fui ríspido, Heck, mas esse caso não vai ser abafado. Não sou assim. 
— Ninguém vai abafar nada, sr. Finch.

     O sr. Tate falava calmamente, mas suas botas estavam tão solidamente plantadas nas tábuas da varanda que pareciam ter crescido ali. Havia uma curiosa disputa sendo travada entre meu pai e o xerife cuja natureza eu não conseguia saber. 
     Foi a vez de Atticus levantar-se e ir até a beira da varanda. Pigarreou e deu uma cuspida no jardim. Pôs as mãos nos bolsos e olhou para o sr. Tate. 

— Heck, você não disse nada, mas sei o que está pensando e agradeço. Jean Louise… — ele se virou para mim —, você disse que Jem tirou o sr. Ewell de cima de você? 
— Sim, senhor, foi o que pensei… Eu… 
— Está vendo, Heck? Agradeço do fundo do meu coração, mas não quero que meu filho comece a vida com um peso desses nas costas. O melhor é deixar tudo às claras. Deixar que os moradores do condado venham para assistir e tragam seus sanduíches. Não quero que ele cresça com gente cochichando pelas costas dele: “Jem Finch? O pai pagou uma nota para abafar a história.” Quanto antes acabarmos com isso, melhor. 
— Sr. Finch, Bob Ewell caiu em cima da faca. Ele se matou.

     Atticus foi até o canto da varanda e olhou as glicínias. Cada um a seu modo, pensei, um era tão teimoso quanto o outro. Não dava para saber quem ia entregar os pontos primeiro. A teimosia de Atticus era tranquila e raras vezes evidente, mas de certa maneira ele era tão cabeça-dura quanto os Cunningham. O sr. Tate era menos culto e mais direto, mas era igual ao meu pai. 

— Heck — Atticus estava de costas para nós —, se isso for abafado, vai contradizer tudo o que sempre ensinei a Jem. Às vezes acho que sou um completo fracasso como pai, mas sou tudo o que eles têm. Antes de olhar para qualquer pessoa, Jem olha para mim, e procuro viver de modo que eu possa olhar diretamente para ele… Se eu for conivente com uma coisa dessas, não poderei olhá-lo nos olhos, e no dia em que não puder fazer isso, vou perdê-lo. Não quero perder nem ele nem a Scout, porque eles são tudo o que eu tenho. 
— Sr. Finch — o sr. Tate continuava com os pés plantados no chão da varanda —, Bob Ewell caiu em cima da faca, posso provar.

     Atticus girou nos calcanhares. As mãos se enterraram ainda mais nos bolsos. 

— Heck, pode ao menos tentar ver as coisas do meu ponto de vista? Você também tem filhos, mas sou mais velho. Quando os meus crescerem, serei um homem velho, se é que chegarei lá, mas agora… se eles não confiarem em mim, não vão confiar em ninguém. Jem e Scout sabem o que aconteceu. Se eles souberem que eu disse outra coisa na cidade, Heck, vou perdê-los. Não posso ser uma pessoa na cidade e outra em casa.

     O sr. Tate balançou-se nos calcanhares e disse, paciente: 

— Ele derrubou Jem, tropeçou na raiz da árvore e veja… posso mostrar.

     O sr. Tate procurou no bolso do paletó e tirou um longo canivete. Nesse momento, o dr. Reynolds apareceu na porta. 

— O filho da… O morto está embaixo daquela árvore, doutor, no pátio da escola. Tem uma lanterna? Se não tem, é melhor levar esta. 
— Posso ir de carro e ligar os faróis — disse o dr. Reynolds, mas pegou a lanterna do sr. Tate. — Jem está bem, vai dormir até amanhã, acredito, portanto, não se preocupem. Foi essa faca que o matou, Heck? 
— Não, senhor, a faca ainda está enfiada nele. Pelo cabo, parece faca de cozinha. Ken deve estar chegando lá com o rabecão, doutor. Boa noite.

     O sr. Tate abriu o canivete e disse: 

— Foi assim.

     Ele empunhou o canivete e fingiu tropeçar; quando caiu, o braço esquerdo ficou na frente dele. 

— Está vendo? Ele se apunhalou e a faca entrou no espaço entre as costelas. O peso dele enterrou a faca no corpo.

     O sr. Tate fechou o canivete e guardou-o no bolso outra vez. 

— Scout tem oito anos, estava muito assustada para saber o que aconteceu exatamente — ele concluiu. 
— Você ficaria surpreso — disse Atticus, entredentes. 
— Não estou dizendo que ela inventou, só que estava assustada demais para saber o que aconteceu exatamente. Estava escuro como breu. Precisava ser alguém muito acostumado com o escuro para ser uma boa testemunha… 
— Não estou convencido — disse Atticus baixinho. 
Pelo amor de Deus, não estou pensando em Jem!

     O sr. Tate bateu com tanta força as botas no chão que as luzes do quarto da srta. Maudie se acenderam. As da srta. Stephanie Crawford também. Atticus e o sr. Tate olharam para o outro lado da rua, depois se entreolharam. Esperaram.
     Quando o sr. Tate voltou a falar, mal dava para ouvir a voz dele. 

— Sr. Finch, não gosto de discutir com o senhor no estado em que se encontra agora. Nenhum homem deveria passar pela tensão pela qual o senhor passou esta noite. Não sei como ainda não está de cama, mas sei que pela primeira vez não está conseguindo juntar dois mais dois e temos de resolver isso agora, porque amanhã será tarde demais. Bob Ewell tem uma faca de cozinha enfiada na barriga.

     O sr. Tate disse ainda que papai não ia insistir que um garoto do tamanho de Jem, com um braço quebrado, teria força para atacar e matar um homem adulto, na escuridão total. 

— Heck, você mostrou um canivete. Onde arrumou? — perguntou Atticus. 
— Tirei de um bêbado — respondeu o sr. Tate, calmo.

     Tentei me lembrar: o sr. Ewell estava em cima de mim… Ele caiu… Jem deve ter se levantado. Pelo menos foi o que pensei… 

— Heck? 
— Eu disse que peguei de um bêbado na cidade esta noite. Ewell deve ter encontrado aquela faca no lixão. Pegou e esperou uma oportunidade… só isso.

     Atticus foi até o balanço e sentou-se. As mãos ficaram caídas no meio das pernas. Olhava para o chão. Mexia-se com a mesma lentidão daquela noite na frente da cadeia, quando achei que ele levou uma eternidade para dobrar o jornal e colocá-lo na cadeira.
     O sr. Tate continuava andando pesado pela varanda. 

— A decisão não é sua, Finch, é minha. A decisão e a responsabilidade são minhas. Pela primeira vez, se não conseguir ver as coisas como eu, não poderá fazer nada. Se tentar, vou chamá-lo de mentiroso na sua cara. Seu filho não esfaqueou Bob Ewell — disse, devagar. — Longe disso, e agora o senhor sabe. Ele só queria chegar em casa em segurança com a irmã.

     O sr. Tate parou de andar. Ficou de frente para Atticus e de costas para nós. 

— Posso não ser o melhor dos homens, mas sou o xerife do condado de Maycomb. Moro aqui desde que nasci e já vou fazer quarenta e três anos. Sei de tudo que aconteceu aqui desde antes de eu nascer. Um rapaz negro foi morto sem motivo e o responsável por isso também está morto. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos desta vez, sr. Finch. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos.

     O sr. Tate foi até o balanço e pegou o chapéu que estava ao lado de Atticus. Puxou os cabelos para trás e pôs o chapéu na cabeça. 

— Não sabia que era contra a lei alguém fazer todo o possível para evitar que um crime seja cometido, e foi exatamente isso que ele fez. Talvez o senhor ache que tenho a obrigação de contar tudo para a cidade inteira e não abafar nada. Sabe o que vai acontecer então? Todas as senhoras da cidade, inclusive a minha mulher, vão bater na porta dele levando bolos. Eu acho, sr. Finch, que colocar holofotes sobre um homem tímido e recluso que prestou um grande serviço ao senhor e à cidade… é um erro. E não quero ter esse erro na minha consciência. Se fosse outro homem, seria diferente. Mas não esse, sr. Finch.

     O sr. Tate tentava cavar um buraco no piso com o salto da bota. Passou a mão no nariz depois massageou o braço esquerdo. 

— Posso não ser grande coisa, sr. Finch, mas continuo sendo o xerife do condado de Maycomb e Bob Ewell caiu em cima da faca. Boa noite, senhor.

     O sr. Tate saiu pisando forte pela varanda e atravessou o jardim. Bateu a porta do carro e foi embora.
     Atticus ficou olhando para o chão por um bom tempo. Finalmente, levantou a cabeça. 

— Scout, o sr. Ewell caiu em cima da faca, consegue entender isso? — perguntou.

     Tive a impressão de que Atticus precisava de ânimo. Fui até ele, e o abracei e o beijei com força. 

— Consigo, sim. O sr. Tate está certo — garanti.

     Atticus desvencilhou-se do abraço e me encarou. 

— O que você quer dizer com isso? 
— Bom, seria como matar um rouxinol, não?

     Atticus enfiou o rosto nos meus cabelos e acariciou-os. Quando se levantou e foi até a parte escura da varanda, seus passos joviais tinham voltado. Antes de entrar em casa, parou na frente de Boo Radley. 

— Obrigado pelo que fez pelos meus filhos, Arthur — disse.

continua página 197...
___________________

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) / O Sol é para todos: 2ª Parte (30) / 
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

sábado, 7 de março de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (29)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

29

      Tia Alexandra levantou-se e apoiou-se na cornija da lareira. O sr. Tate levantou-se para ajudá-la, mas ela o dispensou. Pela primeira vez na vida, a cortesia instintiva de Atticus não funcionou e ele continuou sentado.
     Eu só conseguia pensar no sr. Bob Ewell dizendo que ia se vingar de Atticus, mesmo que fosse a última coisa que faria. Quase conseguiu e foi a última coisa que fez. 

— Tem certeza? — perguntou Atticus, desolado. 
— Ele está morto — garantiu o sr. Tate. — Mortinho da silva. Não vai mais fazer mal a essas crianças. 
— Não foi isso que eu quis dizer — apartou Atticus, como um sonâmbulo. Ele estava começando a mostrar a idade, seu único sinal de inquietação: a linha forte do queixo tinha perdido um pouco a força, dava para notar rugas reveladoras se formando e as mechas grisalhas nas têmporas se destacavam em meio aos cabelos pretos. 
— Não acham melhor irmos para a sala? — perguntou finalmente tia Alexandra. 
— Se me permite e se não incomodar Jem, prefiro ficar aqui. Quero dar uma olhada nos ferimentos dele enquanto Scout… nos conta como foi — disse o sr. Tate. 
— Posso me retirar? Acho que estou sobrando aqui — disse tia Alexandra. — Se precisar de mim, estou no meu quarto, Atticus. — Ela se encaminhou para a porta mas parou e disse: — Atticus, tive um pressentimento sobre essa noite… Eu… A culpa é minha, eu devia…

     O sr. Tate levantou a mão. 

— Pode ir, srta. Alexandra, sei que foi um choque para a senhora. E não se preocupe com nada; se fossemos ouvir os nossos pressentimentos toda vez que temos um ficaríamos como gatos correndo atrás do próprio rabo… Srta. Scout, veja se consegue nos contar o que houve enquanto as lembranças estão frescas. Acha que consegue? Viram Bob seguindo vocês?

     Fui até Atticus e ele me abraçou. Enfiei o rosto no colo dele. 

— Nós estávamos voltando para casa quando avisei a Jem que eu tinha esquecido os sapatos na escola. Íamos voltar para pegar, mas as luzes se apagaram e Jem disse para eu pegar amanhã… 
— Scout, fale mais alto para o sr. Tate ouvir — pediu Atticus. Sentei no colo dele. 
— Jem disse para ficarmos quietos um instante. Achei que ele estava pensando, sempre pede silêncio para pensar. Ele então disse que tinha ouvido algo. Pensamos que fosse Cecil. 
— Quem é Cecil? 
— Cecil Jacobs. Ele já tinha nos dado um susto hoje à noite, achamos que era ele de novo Apareceu coberto com um lençol. Eles premiaram a melhor fantasia com uma moeda de vinte e cinco centavos, mas não sei quem ganhou… 
— Onde estavam quando pensaram que era Cecil? 
— Perto da escola. Gritei uma coisa para Cecil… 
— Gritou o quê? 
— Cecil Jacobs é uma galinha gorda, acho. Não ouvimos nada, então Jem gritou olá ou alguma outra coisa tão alto que era capaz de despertar os mortos… 
— Só um instante, Scout. Sr. Finch, o senhor os ouviu? — perguntou o sr. Tate.

     Atticus disse que não, estava com o rádio ligado. Tia Alexandra também estava com o rádio ligado no quarto dela. Ele se lembrava porque a tia tinha pedido para ele abaixar um pouco o som para ela poder ouvir o rádio dela. Atticus sorriu. 

— Sempre ouço o rádio alto demais. 
— Será que os vizinhos ouviram alguma coisa… — supôs o sr. Tate. 
— Duvido, Heck. Quase todos ouvem rádio ou vão dormir com as galinhas. Maudie Atkinson podia estar acordada, mas duvido. 
— Continue, Scout — pediu o sr. Tate. 
— Bom, depois que Jem gritou, continuamos andando. Eu estava de fantasia, mas dessa vez dava para ouvir os passos; eles andavam e paravam junto conosco. Jem disse que conseguia me ver porque a sra. Crenshaw passou uma tinta que brilha na minha fantasia de presunto. 
— Fantasia de quê? — perguntou o sr. Tate, pasmo.

     Atticus então explicou o meu personagem e a armação da fantasia. 

— Você precisava ver quando ela chegou, a fantasia estava toda amassada, uma maçaroca — disse ele.

     O sr. Tate coçou o queixo. 

— Agora entendo por que ele tinha aquelas marcas nos braços. E as mangas tinham pequenos furos que coincidem com as marcas. Deixe-me ver a fantasia, senhor.

     Atticus foi buscar o que restava da minha fantasia. O sr. Tate virou-a do avesso e ajeitou a armação de arame para ter uma ideia do formato original. 

— Essa roupa provavelmente salvou a vida dela — disse ele. — Veja.

     Ele apontou com o longo dedo. Uma linha brilhante e nítida se destacava no arame opaco. 

— Bob Ewell não estava de brincadeira — murmurou o sr. Tate. 
— Ele estava fora de si — acrescentou Atticus. 
— Não gosto de contradizer o senhor, sr. Finch, mas ele não estava maluco, ele era ruim como o diabo. Era um patife da pior espécie com a cabeça cheia de bebida o suficiente para ter coragem de matar crianças. Ele nunca teria coragem de enfrentar o senhor cara a cara.

     Atticus balançou a cabeça. 

— Não posso conceber um homem que… 
— Sr. Finch, há um tipo de homem em quem devemos dar um tiro antes mesmo de cumprimentá-los. Mesmo assim, eles não valem a bala que gastamos. Ewell era um desses.

     Atticus disse: 

— Achei que ele tinha colocado tudo para fora com a ameaça que me fez aquele dia. Mesmo que não tivesse me ameaçado, achei que ele viria atrás de mim. 
— Ele teve a coragem de perseguir uma pobre negra, de ir atrás do juiz Taylor quando pensou que a casa estava vazia. Você acha que ele ia atrás de você à luz do dia? — o sr. Tate suspirou. — É melhor continuarmos o relato. Scout, você o ouviu atrás de vocês… 
— Foi. Quando chegamos embaixo da árvore… 
— Como sabia que estava embaixo da árvore se não dava para enxergar um palmo diante do nariz lá fora? 
— Eu estava descalça e Jem diz que a terra é mais fria embaixo das árvores. 
— Vamos ter de nomeá-lo assistente de investigação. Continue. 
— Então, de repente, alguma coisa me agarrou e amassou a minha fantasia… Acho que caí no chão… Ouvi… uma luta embaixo da árvore… Parecia que estavam se chocando contra a árvore. Jem me achou e foi me empurrado para a estrada. Alguém… o sr. Ewell o derrubou. Eles lutaram mais e ouvi um barulho estranho… Jem gritou.

     Parei de falar. O barulho era do braço de Jem se quebrando. 

— De todo jeito, Jem gritou e não ouvi mais nada, depois… O sr. Ewell estava tentando me estrangular, acho… Então alguém derrubou ele. Acho que Jem deve ter se levantado. É só isso que sei... 
— E aí? — o sr. Tate me olhava, atento. 
— Alguém veio tropeçando, ofegante, tossindo muito. Achei que era Jem, mas não parecia, então comecei a procurar por ele no chão. Pensei que Atticus tinha vindo nos ajudar e tinha ficado cansado… 
— Quem era? 
— Ora, aquele ali, sr. Tate. Ele pode dizer como se chama.

     Enquanto falava fiz menção de apontar para o homem que estava no canto, mas abaixei o braço rápido, pois Atticus podia me dar uma bronca por fazer isso. Era falta de educação apontar para as pessoas.
     O homem continuava encostado na parede, de braços cruzados. Já estava assim quando entrei no quarto e, quando apontei, ele descruzou os braços e espalmou as mãos na parede. As mãos eram brancas, mãos doentiamente brancas, que nunca tinham visto o sol, tão brancas que se destacavam na parede creme na penumbra do quarto de Jem.
     Percorri com o olhar as mãos dele, as calças cáqui sujas de terra, o corpo magro, a camisa rasgada. O rosto era tão branco quanto as mãos, exceto por uma sombra no queixo pontudo. As maçãs do rosto eram encovadas, a boca grande e nas têmporas havia marcas leves, quase delicadas; os olhos cinzentos eram tão opacos que pensei que ele fosse cego. O cabelo era sem brilho e fino, quase uma penugem no alto da cabeça.
     Quando apontei para ele, as mãos escorregaram um pouco na parede, deixando marcas de suor, e ele enfiou os polegares no cinto. Teve um pequeno tremor estranho, como se ouvisse alguém raspar as unhas numa lousa, mas quando olhei para ele admirada, a tensão foi sumindo do seu rosto. A boca se abriu num sorriso tímido e a imagem do nosso vizinho ficou borrada com as lágrimas que, de repente, encheram meus olhos. 

— Oi, Boo — eu disse.


continua página 193...
___________________

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) / O Sol é para todos: 2ª Parte (30) /    
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

28

      Eu disse isso mais para convencer a mim mesma do que a Jem, porque, quando começamos a andar, ouvi o som do qual ele tinha falado. Não era da minha fantasia. 

— É só o palerma do Cecil. Dessa vez não vai nos dar um susto. Não vamos deixar ele pensar que estamos nos apressando por medo — disse Jem, por fim.

     Diminuímos o passo. Perguntei a Jem como Cecil podia nos seguir naquela escuridão; eu achava que ele ia esbarrar com a gente por trás. 

— Consigo ver você, Scout — disse Jem. 
— Como? Eu não consigo ver você. 
— As marcas de gordura da sua fantasia estão brilhando. A sra. Crenshaw pintou a sua fantasia com aquelas coisas brilhantes para reluzirem sob os holofotes. Estou vendo você, o Cecil também deve estar, pelo menos o suficiente para manter a distância.

     Resolvi mostrar a Cecil que sabíamos que ele estava atrás de nós e estávamos prontos para enfrentá-lo. 

— Cecil Jacobs é uma galinha molhada! — berrei, virando para trás de repente.

     Paramos. Não houve resposta, a não ser o final de molhada ecoando no muro da escola. 

— Vou pegar ele. Ei! — disse Jem.

Ei, respondeu o muro da escola.

     Era pouco provável que Cecil se segurasse por tanto tempo. Quando ele inventava uma brincadeira, repetia sem parar, já devia ter pulado em cima de nós. Jem fez sinal para eu parar de novo. Perguntou baixinho: 

— Scout, você consegue tirar esse negócio? 
— Acho que sim, mas estou quase sem roupa por baixo. 
— Eu trouxe o seu vestido. 
— Não consigo vestir no escuro. 
— Tudo bem, deixa pra lá. 
— Jem, você está com medo? 
— Não, acho que estamos quase chegando na árvore. Mais alguns metros e chegamos na estrada. Então teremos a luz dos postes.

     Jem falava em um tom lento e inexpressivo, e fiquei pensando por quanto tempo ele ia tentar manter a farsa de Cecil. 

— Jem, acha que devemos cantar? 
— Não, fique bem quieta de novo, Scout.

     Seguíamos no mesmo passo. Jem sabia tanto quanto eu que, se corrêssemos, podíamos dar uma topada, tropeçar em pedras e ter outros inconvenientes. Além do mais, eu estava descalça. Vai ver que o som era do vento batendo nas árvores. Mas não estava ventando, nem havia árvores, só o grande carvalho.
     A pessoa que nos seguia arrastava os pés, como se usasse sapatos pesados. Quem quer que fosse, usava calças de algodão grosso; o que eu tinha achado que eram folhas de árvores era o ruído suave de algodão roçando em algodão, uíque, uíque a cada passo.
     Senti a areia ficar mais fria sob meus pés e soube que estávamos perto do grande carvalho. Jem apertou o alto da minha fantasia. Paramos e escutamos.
     Dessa vez, os pés arrastados continuaram andando. As calças roçavam suaves e firmes. Depois, pararam. Ele vinha correndo, correndo na nossa direção, e não eram passos de criança. 

— Corra, Scout, corra! Corra! — berrou Jem

     Dei um passo enorme e cambaleei: no escuro e sem poder estender os braços, perdi o equilíbrio. 

— Jem, Jem, me ajude, Jem!

     Alguma coisa amassou o arame da minha fantasia. Ouvi o barulho de metal batendo em metal, caí e fui rolando, tentando escapar da minha prisão de arame. De algum lugar próximo veio o som de luta, chutes, sapatos e corpos se arrastando contra a terra e as raízes. Alguém rolou para cima de mim e vi que era Jem. Rápido, ele se levantou e me puxou junto, mas, apesar de estar com a cabeça e os ombros livres, meus movimentos estavam tão restritos que não conseguimos ir muito longe.
     Estávamos quase na estrada quando senti a mão de Jem me soltar e ouvi ele cair de costas. Mais barulho de luta, depois alguma coisa estalou e Jem deu um grito.
     Corri na direção do grito dele e bati na barriga flácida de um homem. O dono da barriga fez uf! e tentou me segurar, mas meus braços estavam presos sob o arame. A barriga dele era macia, mas os braços eram duros como aço. Lentamente ele começou a apertar a minha garganta e me sufocar. Eu não conseguia me mexer. De repente, ele caiu para trás, se esparramou no chão e quase me levou junto. Pensei: Jem se levantou.
     Às vezes, a mente de uma pessoa funciona bem devagar. Atordoada, fiquei lá, sem dizer nada. Os sons de luta foram diminuindo, alguém respirava pesado e a noite voltou a ficar silenciosa.
     Silenciosa exceto pela respiração ofegante de um homem aos tropeços. Achei que ele tinha ido até a árvore e se apoiado nela. Ele tossia violentamente, uma tosse soluçante, que fazia os ossos tremerem.

— Jem?

     A única resposta foi a respiração pesada do homem. 

— Jem?

     Jem não respondeu.
     O homem começou a se mover como se estivesse procurando algo. Ouvi-o grunhir e arrastar uma coisa pesada pelo chão. Aos poucos, fui me dando conta de que havia quatro pessoas embaixo da árvore. 

— Atticus…?

     O homem andava pesado e desnorteado em direção à estrada.
     Fui até onde achei que ele estivesse e tateei o chão com os pés. Toquei em alguém. 

— Jem?

     Meus pés tocaram numa calça, numa fivela de cinto, em botões, em algo que não consegui identificar, num colarinho, num rosto. O rosto barbado me disse que não era Jem. Senti cheiro de uísque barato.
     Fui andando na direção que eu achava que era a estrada. Não tinha certeza, porque tinha dado várias voltas. Mas achei a estrada e olhei em direção ao poste. Um homem estava passando embaixo dele. Andava com os passos incertos de quem carregava alguma coisa muito pesada. Ia virar a esquina. Estava carregando Jem, cujo braço balançava de forma estranha à sua frente.
     Quando cheguei à esquina, o homem estava atravessando nosso jardim. Atticus ficou emoldurado pela luz da porta por um instante, desceu a escada e, junto com o homem, carregou Jem para dentro.
     Cheguei na porta da frente quando eles entravam pelo corredor. Tia Alexandra correu ao meu encontro. 

— Chame o dr. Reynolds! — disse Atticus, ríspido, do quarto de Jem. — Onde está Scout? 
— Está aqui — respondeu tia Alexandra, me puxando com ela até o telefone. Ela me apalpava, preocupada. 
— Estou bem, tia. É melhor você telefonar — eu disse.

     Ela tirou o fone do gancho e disse: 

— Eula May, me ligue com o dr. Reynolds, rápido! 
— Agnes, seu pai está em casa? Ah, meu Deus, aonde ele foi? Por favor, diga para ele vir aqui o mais rápido possível. Por favor, é urgente!

     Tia Alexandra não precisou se identificar, em Maycomb todo mundo conhecia a voz de todo mundo.
     Atticus saiu do quarto de Jem. Assim que tia Alexandra desligou, Atticus pegou o fone da mão dela. Bateu no gancho e disse: 

— Eula May, me ligue com o xerife, por favor. 
— Heck? Aqui é Atticus Finch. Alguém atacou meus filhos, Jem está ferido. No caminho da escola para casa. Tenho de ficar com meu filho. Por favor, vá ver se a pessoa ainda está por lá. Não creio que esteja, mas gostaria de vê-lo, se você o encontrar. Preciso desligar. Obrigado, Heck. 
— Atticus, Jem está morto? 
— Não, Scout. Irmã, cuide dela — pediu, saindo pelo corredor.

     As mãos de tia Alexandra tremiam enquanto ela tirava minha fantasia amassada e retorcida. 

— Está se sentindo bem, querida? — perguntou várias vezes enquanto me libertava.

     Foi um alívio tirar aquela roupa. Meus braços estavam começando a formigar e estavam cobertos de pequenas manchas vermelhas. Esfreguei-as e melhorou. 

— Tia, Jem morreu? 
— Não… não, querida, só está inconsciente. Só vamos saber o estado dele depois que o dr. Reynolds chegar. Jean Louise, o que aconteceu? 
— Não sei.

     Ela não insistiu. Trouxe uma roupa para mim e, se minha cabeça estivesse funcionando naquela hora, eu nunca a teria deixado esquecer: distraída, ela me levou o meu macacão. 

— Vista isso, querida — ela disse, me entregando a roupa que mais detestava.

     Foi rápido até o quarto de Jem, depois voltou, me deu um tapinha carinhoso e foi para o quarto de Jem outra vez.
     Um carro parou na frente da casa. Eu conhecia os passos do dr. Reynolds quase tão bem quanto os do meu pai. Ele tinha nos trazido ao mundo, Jem e eu, nos tratou de todas as doenças infantis conhecidas pelo homem, inclusive quando Jem caiu da casa na árvore, e nunca deixou de ser nosso amigo. O dr. Reynolds dizia que, se tivéssemos tendência a ter pústulas, furúnculos e coisas do gênero, nossa relação seria diferente, mas nós não acreditávamos.
     Ele entrou pela porta e exclamou: 

— Meu Deus. — Veio na minha direção, disse “você ainda está de pé” e virou as costas. Conhecia a casa toda e sabia que, se eu estava mal, Jem também estava.

     Séculos depois, o dr. Reynolds voltou: 

— Jem está morto? — perguntei. 
— Longe disso — ele respondeu, se agachando diante de mim. — Está com um galo na cabeça como você e com o braço quebrado. Scout, olhe para lá; não, sem virar a cabeça, mexa só os olhos. Olhe para longe. Ele teve uma fratura grave, acho que no cotovelo. Como se alguém tivesse tentado arrancar o braço dele… Agora, olhe para mim. 
— Então ele não morreu? 
— Nã-ã-ão! — o dr. Reynolds se levantou. — Não podemos fazer muito agora à noite além de deixá-lo confortável. Vamos ter que radiografar o braço, acho que vai ter de engessar por um tempo. Mas não se preocupe, ele vai ficar novo em folha. Meninos da idade dele se recuperam logo.

     Enquanto falava, o dr. Reynolds olhava bem para mim, tocando de leve o galo na minha testa. 

— Você não está se sentindo quebrada em nenhum lugar, está?

     Ri da piadinha dele. 

— Então, você não acha que Jem morreu? — insisti.

     Ele colocou o chapéu. 

— Claro que posso estar enganado, mas acho que está bem vivo. Tem todos os sinais vitais. Vá lá dar uma olhada nele e, quando eu voltar, nós nos reunimos para dar o diagnóstico.

     O dr. Reynolds tinha um andar jovem e rápido. Já o sr. Heck Tate, não. As pesadas botas dele castigaram o assoalho da varanda. Ele abriu a porta, desajeitado, e entrou perguntando a mesma coisa que o dr. Reynolds: 

— Você está bem, Scout? 
— Está. Vou ver o Jem. Atticus está lá com ele. 
— Vou com você — disse o sr. Tate.

     Tia Alexandra tinha colocado uma toalha em cima do abajur de Jem e o quarto estava na penumbra. Jem estava deitado e tinha uma marca feia no rosto. O braço esquerdo estava afastado do corpo e o cotovelo estava meio dobrado, mas na direção errada. Jem estava de cenho franzido. 

— Jem…?

     Atticus respondeu por ele: 

— Ele não pode ouvir você, Scout, está apagado como uma luz. Estava voltando à consciência, mas o dr. Reynolds tirou-o do ar novamente. 
— Sei — eu disse, dando um passo atrás.

     O quarto de Jem era grande e quadrado. Tia Alexandra estava numa cadeira de balanço ao lado da lareira. O homem que tinha levado Jem para casa estava num canto, encostado na parede. Era um camponês que eu não conhecia. Devia ter ido ver o desfile e estava por perto quando tudo aconteceu. Provavelmente ouviu os gritos e foi correndo ajudar.
     Atticus estava ao lado da cama de Jem.
     O sr. Heck estava parado na porta, com o chapéu na mão e uma lanterna saindo do bolso da calça. Usava uniforme de xerife. 

— Entre, Heck — disse papai. — Descobriu alguma coisa? Não entendo como alguém pode ser tão desprezível a ponto de fazer uma coisa dessas. Espero que você o encontre.
    
     O sr. Tate fungou. Olhou rapidamente para o homem no canto, cumprimentou-o com a cabeça e olhou em volta, para Jem, tia Alexandra, depois Atticus. 

— Sente-se, sr. Finch — ele disse, afável.

     Atticus convidou: 

— Vamos todos nos sentar. Fique com aquela cadeira, Heck. Vou pegar outra na sala.

     O sr. Tate sentou-se na cadeira da escrivaninha de Jem. Esperou Atticus voltar da sala e se acomodar. Fiquei pensando por que papai não tinha levado uma cadeira para o homem que estava no canto, mas ele conhecia as pessoas do campo melhor do que eu. Atticus tinha alguns clientes que eram do campo; amarravam seus cavalos orelhudos embaixo dos cinamomos do quintal e Atticus se reunia com eles na escada dos fundos. Aquele homem devia se sentir mais à vontade como estava. 

— Sr. Finch, vou dizer o que achei — disse o sr. Tate. — Um vestido de menina… está lá no carro. É seu, Scout? 
— Sim, senhor, se for cor-de-rosa, bordado com casinhas de abelha — respondi.

     O sr. Tate parecia estar no banco de testemunhas. Gostava de falar as coisas do jeito dele, sem ser interrompido pela defesa ou pela acusação, e às vezes isso demorava. 

— Encontrei também uns pedaços de pano marrons esquisitos… 
— Eram da minha fantasia, sr. Tate.

     O sr. Tate passou as mãos pelas coxas, esfregou o braço esquerdo e observou a cornija da lareira de Jem, depois a lareira. Passou os dedos pelo nariz comprido. 

— O que foi, Heck? — perguntou Atticus.

     O sr. Heck levou a mão ao pescoço e coçou-o. 

— Bob Ewell está estirado embaixo da árvore, com uma faca de cozinha enfiada nas costelas. Ele está morto, sr. Finch.

continua página 190...
___________________

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) /   
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (28a)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

28

      O tempo estava estranhamente quente para o último dia de outubro. Nem sequer precisamos de casacos. O vento estava ficando mais forte e Jem disse que talvez chovesse antes de chegarmos em casa. Não havia lua.
     O poste da esquina projetava sombras estranhas sobre a casa dos Radley. Jem riu baixinho. 

— Aposto que esta noite ninguém vai incomodar os Radley — ironizou.

     Jem carregava minha fantasia de presunto, meio desajeitado, já que era pesada para eu levar. Achei uma gentileza da parte dele. 

— Mas é um lugar assustador, não acha? Boo não quer fazer mal a ninguém, mas fico contente por você estar comigo — eu disse. 
— Você sabe que Atticus não deixaria você ir até a escola sozinha — disse Jem. 
— Não sei por que, é só virar a esquina e passar pelo pátio. 
— É um pátio enorme para uma menininha atravessar à noite. Não tem medo de assombrações? — perguntou, para me irritar.

     Rimos.

— Assombrações, vapores quentes, encantamentos, sinais secretos, aquela coisa toda — lembrou Jem. — Anjo da luz, vivo na morte, saia da estrada, não leve a minha sorte
— Pare com isso agora — mandei. Estávamos na frente da casa dos Radley. 
— Boo não deve estar em casa. Ouça — Jem disse.

     No escuro, bem lá no alto, um solitário rouxinol exibia satisfeito seu repertório, sem saber quem era o dono da árvore onde se empoleirava. Passava do agudo qui-qui-qui do pássaro-girassol para o irritante qua-ack de um gaio, terminando no lamento solitário do noitibó, puu-i, puu-i.
     Quando viramos a esquina, tropecei numa raiz na calçada. Jem tentou me ajudar, mas acabou derrubando minha fantasia no chão. Recuperei o equilíbrio e continuamos nosso caminho.
     Saímos da estrada e entramos no pátio da escola. Estava escuro como breu. 

— Como você sabe onde estamos, Jem? — perguntei, após avançarmos alguns passos. 
— Sei que estamos embaixo do grande carvalho porque estamos passando por um lugar frio. Cuidado para não tropeçar de novo.

     Tínhamos reduzido o passo e estendíamos as mãos à nossa frente para não batermos nas árvores. A árvore era um velho e solitário carvalho com um tronco tão largo que duas crianças juntas não conseguiriam abraçá-lo. Ficava longe dos professores, dos espiões deles e dos vizinhos curiosos e perto do quintal dos Radley, mas eles não eram curiosos. Em um pequeno espaço embaixo do carvalho a terra era mais compactada e firme devido às inúmeras brigas e jogos de dados realizados ali às escondidas.
     As luzes no auditório do ginásio brilhavam ao longe, mas em vez de nos ajudarem nos cegavam.

— Não olhe para a frente, Scout, olhe para o chão para não cair — recomendou Jem. 
— Você devia ter trazido a lanterna, Jem. 
— Não sabia que estava tão escuro. De tarde, não parecia que ia ficar assim. É porque está bem nublado, mas acho que passa logo.

     Alguém pulou diante de nós. 

— Santo Deus! — exclamou Jem.

     Um círculo de luz iluminou nosso rosto e, atrás dele, Cecil Jacobs dava pulos de satisfação. 

— Peguei vocês! Achei que vinham por aqui! — ele berrou. 
— O que faz sozinho nesse lugar, garoto? Não tem medo de Boo Radley?

     Cecil tinha ido para o auditório de carro com os pais e, como não nos viu, foi até lá porque tinha certeza de que passaríamos por ali. Mas pensou que o sr. Finch estaria conosco. 

— Ora, é só virar a esquina — disse Jem. — Quem tem medo de dobrar a esquina?

     Mas tínhamos de reconhecer que Cecil tinha se saído muito bem. Conseguiu nos dar um belo susto e tinha o direito de contar isso para a escola inteira. 

— Ei, você não vai fazer o papel de vaca? Cadê a sua fantasia? — perguntei. 
— Está no camarim. A sra. Merriweather disse que o desfile ainda vai demorar um pouco para começar. Você pode guardar a sua fantasia com a minha e podemos ir ficar com os outros.

     Jem achou a ideia excelente. Também achou ótimo que Cecil e eu ficássemos juntos, assim ele podia ficar com os meninos da idade dele.
     Quando chegamos ao auditório, a cidade inteira estava lá, menos Atticus, as senhoras exaustas de tanto decorar o palco, os párias e os reclusos de sempre. Parecia que o condado inteiro tinha ido: o saguão estava lotado de camponeses com suas melhores roupas. O prédio do ginásio tinha um amplo corredor no térreo, onde as pessoas circulavam por barracas instaladas dos dois lados. 

— Ah, Jem, esqueci de trazer dinheiro — lastimei, quando vi as barracas. 
— Mas Atticus não esqueceu. Tome trinta centavos, dá para fazer seis coisas. A gente se encontra mais tarde — disse Jem. 
— Tudo bem — aceitei, muito satisfeita com trinta centavos e a companhia de Cecil. Fomos para o auditório, entramos por uma porta lateral e chegamos ao camarim. Livrei-me da minha fantasia de presunto e saí correndo, pois a sra. Merriweather estava num pódio na frente da primeira fila, fazendo mudanças de última hora no roteiro, frenética. 
— Quanto dinheiro você tem? — perguntei a Cecil.

     Ele também tinha trinta centavos, estávamos na mesma. Gastamos os primeiros centavos na Casa dos Horrores, que não nos assustou nada: entramos na sala escura do sétimo ano e fomos conduzidos pelo fantasma em exercício, que nos mandou tocar em vários objetos que, segundo ele, eram partes do corpo humano. 

— Estes são os olhos — disse uma voz quando tocamos em duas uvas sem casca num pires. 
— Este é o coração — disse diante de uma coisa que parecia fígado cru. 
— Estas são as tripas. — E nossas mãos foram enfiadas num punhado de espaguete frio.

     Cecil e eu passamos por várias barracas. Cada um comprou um saco de suspiros feitos pela esposa do juiz Taylor. Eu queria brincar de pegar com a boca maçãs boiando na tigela, mas Cecil disse que não era higiênico. A mãe dele tinha dito que aquela brincadeira podia transmitir doenças. 

— Ah, mas não tem nenhuma doença para pegar na cidade — reclamei, mas a mãe de Cecil tinha dito também que era anti-higiênico colocar a boca no mesmo lugar que outras pessoas. Perguntei depois para tia Alexandra e ela disse que gente que pensava assim costumava ser novos-ricos.

     No camarim, Cecil e eu entramos no corredor estreito e cheio: adultos usavam chapéus de três pontas feitos em casa, bonés confederados, boinas da guerra hispano-americana e capacetes da Primeira Guerra. As crianças fantasiadas de produtos agropecuários se amontoavam em volta de uma pequena janela. 

— Amassaram a minha fantasia — reclamei, aborrecida. A sra. Merriweather veio correndo, ajeitou o arame de galinheiro e me enfiou dentro da fantasia de presunto. 
— Está tudo bem aí dentro, Scout? — perguntou Cecil. — Sua voz está tão longe que parece que você está do outro lado de uma colina. 
— A sua voz também está longe.

     A banda tocou o hino nacional e ouvimos a plateia se levantar. Os tambores rufaram. A sra. Merriweather, no estrado ao lado da banda, declarou: 

Condado de Maycomb: ad astra per aspera.

     Os tambores rufaram de novo. 

— Isso quer dizer — traduziu a sra. Merriweather para os menos letrados — “por caminhos difíceis, chegamos às estrelas”. — E acrescentou, o que achei desnecessário: — Um desfile. 
— Se ela não dissesse, eles não saberiam — cochichou Cecil e imediatamente alguém mandou ele ficar quieto. 
— A cidade inteira sabe — sussurrei. 
— Mas os camponeses também vieram — lembrou Cecil. 
— Fiquem quietos — mandou uma voz masculina. E nós nos calamos.

     O tambor rufava a cada frase da sra. Merriweather. Num tom lamentoso, ela contou que o condado Maycomb era mais antigo que o estado, que tinha sido parte dos territórios do Mississippi e do Alabama; que o primeiro branco a pôr os pés naquelas florestas virgens tinha sido um antepassado do juiz de sucessões, cinco gerações antes, e nunca mais se teve notícia dele. Depois veio o destemido coronel Maycomb, que deu nome ao condado.
     Andrew Jackson nomeou o coronel para um cargo importante, mas o excesso de autoconfiança e seu péssimo senso de orientação foram um desastre para todos que o acompanharam nas batalhas contra os índios creek. O coronel perseverou em seus esforços para tornar a região segura para a democracia, porém sua primeira campanha foi também a última. As ordens, levadas até ele por um mensageiro índio de confiança, eram para que o coronel se deslocasse para o sul. Depois de examinar o líquen de uma árvore para saber em que direção ficava o sul e sem dar ouvidos aos subordinados que ousaram contradizê-lo, o coronel partiu em uma jornada resoluta para acabar com o inimigo, embrenhando suas tropas de tal forma na floresta primitiva a noroeste que acabaram sendo resgatados por colonos que iam para o interior.
     A sra. Merriweather passou meia hora descrevendo as proezas do coronel. Descobri que, se dobrasse as pernas, podia enfiá-las dentro da fantasia e me sentar. Sentei, fiquei ouvindo a lenga-lenga da sra. Merriweather, o rufar do tambor e em pouco tempo estava dormindo.
     Depois me disseram que a sra. Merriweather deu tudo de si no final apoteótico e chamou, suave, “Por-co” com a segurança de quem tinha sido prontamente atendida por pinheiros e feijões-manteiga, que entraram em fila no palco. Esperou alguns segundos e repetiu: “Poor-co?” Como nada aconteceu, ela berrou: “Porco!”
     Eu devo tê-la ouvido no meu sono, ou acordei com a banda tocando Dixie, mas foi só quando a sra. Merriweather subiu ao palco, carregando, vitoriosa, a bandeira do Estado, que decidi entrar. Decidir não é o termo apropriado: achei que era melhor me juntar aos outros.
     Mais tarde me disseram que o juiz Taylor foi para o fundo do auditório e ficou lá rindo e batendo nos joelhos com tanta força que a mulher dele teve de levar um copo d´ água e uma de suas pílulas.
     A apresentação da sra. Merriweather parecia ter sido um sucesso, pois todo mundo batia palmas entusiasmadas, mas ela me pegou no camarim e disse que eu tinha arruinado o desfile. Fiquei me sentindo mal, mas quando Jem veio me pegar, ele foi compreensivo. Disse que, do lugar onde estava, não via direito a minha fantasia. Não sei como Jem descobriu que eu estava chateada dentro da fantasia, mas ele disse também que minha atuação tinha sido boa, só tinha entrado um pouco atrasada, mais nada. Jem estava ficando quase tão bom quanto Atticus em matéria de fazer eu me se sentir melhor quando as coisas davam errado. Quase, porque nem ele podia me fazer enfrentar aquele monte de gente, então aceitou esperar comigo no camarim até todo mundo ir embora. 

— Quer tirar a fantasia, Scout? — ele perguntou. 
— Não, vou ficar com ela. — assim eu podia esconder o meu constrangimento. 
— Querem uma carona para casa? — alguém perguntou. 
— Não, senhor, obrigado, é perto — Jem respondeu. 
— Cuidado com as assombrações. Ou melhor, diga às assombrações para tomarem cuidado com a Scout. 
— Já foi quase todo mundo embora. Vamos — disse Jem para mim.
  
     Passamos pelo auditório até a entrada e descemos a escada. Continuava escuro como breu. Os faróis dos carros estacionados do outro lado do prédio iluminavam pouco. 

— Se alguns desses carros fossem na mesma direção que nós, enxergaríamos melhor. Vem, Scout, deixa eu segurar na sua… perna de porco. Você pode se desequilibrar. 
— Estou enxergando bem. 
— Tudo bem, mas pode perder o equilíbrio.
Senti uma leve pressão na cabeça e achei que Jem tinha segurado no alto do presunto. 

— Está me segurando? 
Rã-rã.

     Começamos a atravessar o pátio escuro da escola, fazendo um esforço para enxergar nossos pés. 

— Jem, esqueci os sapatos no camarim atrás do palco. 
— Vamos buscar, então.

     Mas quando nos viramos, as luzes do auditório se apagaram. 

— Você pode pegar amanhã — disse ele. 
— Mas amanhã é domingo — protestei quando Jem me virou na direção de casa. 
— Pode pedir ao vigia para deixar você entrar… Scout? 
— O que foi? 
— Nada.

     Jem fazia isso há tempos. Eu me perguntei no que ele devia estar pensando. Quando quisesse, ele me diria o que era, provavelmente quando chegássemos em casa. Senti os dedos dele apertarem o topo da minha fantasia com muita força. Balancei a cabeça. 

— Jem, não precisa… 
— Fica quieta um minuto, Scout — ele disse, me dando um beliscão.

     Andamos em silêncio. 

— O minuto passou — avisei. — O que você está pensando?

     Virei-me para ele, mas mal dava para ver sua silhueta. 

— Acho que ouvi algo. Pare um minuto.

     Paramos. 

— Está ouvindo alguma coisa? — ele perguntou. 
— Não.

     Mal demos cinco passos e ele me obrigou a parar de novo. 

— Jem, está querendo me assustar? Você sabe que não tenho mais idade… 
— Quieta — ele disse, e vi que estava falando sério.

     A noite estava silenciosa. Dava para ouvir a respiração dele ao meu lado. De vez em quando, uma brisa leve batia nas minhas pernas nuas, embora fosse tudo que restava da previsão de ventania. Era a calmaria antes da tempestade. Ficamos ouvindo. 

— Ouço um cachorro latindo — eu disse. 
— Não é isso. Ouvi alguma coisa enquanto estávamos andando, mas quando paramos não ouvi mais — disse Jem. 
— É o farfalhar da minha fantasia. E está impressionado porque é Dia das Bruxas...
     
continua página 185...
___________________

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / O Sol é para todos: 2ª Parte (27) / O Sol é para todos: 2ª Parte (28a) / 
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (27)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

27

      Depois de um tempo, as coisas se acalmaram, como Atticus tinha previsto. Até meados de outubro, só duas coisas fora do comum aconteceram em Maycomb. Duas não, três, e não estavam diretamente ligadas a nós, os Finch, mas de certa maneira nos diziam respeito.
     A primeira foi que o sr. Bob Ewell foi contratado e demitido em questão de dias e certamente virou um caso único nos anais da década de 1930: foi o único homem que conheci despedido da Liga para o Progresso por indolência. Creio que seu curto período de fama levou a outro, mais curto ainda, de produtividade, mas o emprego durou o tempo da fama e ele acabou tão esquecido quanto Tom Robinson. Depois disso, voltou a ir semanalmente ao escritório da assistência social para receber seu seguro-desemprego, resmungando sobre os desgraçados que achavam que mandavam na cidade e não deixavam um homem honesto ganhar a vida. Ruth Janes, a funcionária da assistência social, disse que o sr. Ewell acusava abertamente Atticus de tirar o emprego dele. Ela ficou tão indignada que foi ao escritório de Atticus contar tudo a ele. Atticus disse a ela para não se preocupar: se Bob Ewell quisesse reclamar com ele por ter lhe “tirado” o emprego, sabia o endereço do escritório.
     O segundo fato ocorreu com o juiz Taylor. Ele não costumava ir à igreja aos domingos, mas a sra. Taylor sim. Ele então aproveitava a noite de domingo sozinho no casarão onde moravam para se enfurnar no escritório e ler os textos de Bob Taylor (que não era seu parente, mas o juiz ficaria orgulhoso se fosse). Numa dessas noites, o juiz estava perdido em metáforas saborosas e frases floreadas, quando sua atenção foi desviada para um irritante ruído de alguém arranhando uma superfície. “Quieta”, disse para Ann Taylor, sua gorda cadela vira-lata, e só então se deu conta de que estava sozinho no escritório, e o ruído vinha dos fundos da casa. O juiz foi até lá para soltar Ann e encontrou a porta telada aberta. Notou uma sombra em um canto e isso foi tudo que viu do visitante. Quando a sra. Taylor chegou da igreja, encontrou o marido sentado na cadeira, imerso nos escritos de Bob Taylor, com uma espingarda no colo.
     O terceiro fato ocorreu com a viúva de Tom, Helen Robinson. Se o sr. Ewell tinha caído no esquecimento como Tom Robinson, Tom tinha caído no esquecimento como Boo Radley. Mas não para o patrão dele, o sr. Link Deas, que arrumou um emprego para Helen. Na verdade, ele não precisava dos serviços dela, mas disse que se sentia mal com a forma como tudo tinha acabado. Nunca soube quem cuidava das crianças enquanto Helen ia trabalhar. Calpúrnia disse que a situação de Helen era complicada, pois ela precisava dar uma volta de quase dois quilômetros para não passar pela casa dos Ewell, que, segundo Helen, “atiraram coisas nela” a primeira vez que tentou passar por lá. O sr. Link acabou percebendo que todos os dias Helen chegava ao trabalho pelo caminho inverso do que deveria, e perguntou a ela por quê. 

— Deixa para lá, sr. Link, por favor — pediu Helen. 
— Deixo nada — retrucou o sr. Link. E mandou que ela fosse à loja dele naquela tarde, antes de voltar para casa. Ela foi e o sr. Link fechou a loja, pôs o chapéu com firmeza na cabeça e levou Helen para casa. O sr. Link fez o caminho mais curto, passando pela casa dos Ewell. Quando voltou, ele parou no portão bizarro. 
— Ewell. Venha cá, Ewell! — chamou.

     As janelas, que costumavam estar cheias de crianças, estavam vazias. 

— Eu sei que vocês estão todos aí deitados no chão! Ouça bem, Bob Ewell: se eu souber que a minha funcionária Helen está tendo alguma dificuldade para passar por aqui, boto você na cadeia antes do dia terminar! — O sr. Link deu uma cuspida no chão e foi para casa.

     Helen foi trabalhar na manhã seguinte e passou pela casa dos Ewell. Ninguém mexeu com ela mas, quando estava um pouco mais longe, viu que o sr. Ewell vinha atrás. Ela se virou e continuou andando e o sr. Ewell manteve a mesma distância até ela chegar na casa do sr. Link. Durante o caminho, disse, ouviu o tempo todo uma voz suave atrás dela, dizendo palavrões. Aterrorizada, telefonou para o sr. Link na loja, que era perto de onde ele morava. O sr. Link saiu da loja e encontrou o sr. Ewell encostado na cerca da casa. Ele disse: 

— Não fique me olhando como se eu fosse lixo, Link Deas. Eu não fiz nada... 
— Antes da mais nada, Ewell, tire a sua carcaça fedorenta da minha propriedade. Está encostado na minha cerca e não tenho dinheiro para pintar de novo. E mantenha distância da minha cozinheira, ou vou acusá-lo de assédio… 
— Não encostei um dedo nela, Link Deas, e não sou de ficar atrás de pretas! 
— Não precisa tocar nela, basta que ela se sinta acuada, e se assédio não for o suficiente para você ficar preso por um bom tempo, vou enquadrá-lo por desrespeito à Lei das Senhoras, então dê o fora daqui! Se acha que não estou falando sério, dirija-se a ela outra vez!

     Obviamente o sr. Ewell percebeu que ele estava falando sério, porque Helen não reportou mais nenhum incidente. 

— Essas coisas não me agradam, Atticus, não me agradam nem um pouco — foi o que tia Alexandra disse sobre o fato. — Esse homem parece ter uma obsessão permanente por se vingar de todos os que estiveram envolvidos naquele caso. Essa gente não descansa enquanto não se vinga, mas não entendo por que tanto ressentimento: ele conseguiu o que queria no tribunal, não foi? 
— Acho que eu entendo — disse Atticus. — No fundo, ele sabe que poucas pessoas em Maycomb acreditam no que ele e Mayella disseram. Ele pensou que fosse virar um herói, mas a única coisa que conseguiu foi: “Está bem, vamos condenar esse negro, mas volte para o seu lixão.” Ele já brigou com todo mundo, devia estar satisfeito. Vai sossegar quando mudar a estação. 
— Mas por que ele ia querer assaltar a casa do juiz Taylor? Ele obviamente não sabia que o juiz estava em casa, senão não teria tentado. Nos domingos, as únicas luzes que John deixa acesas são as da varanda da frente e a do escritório… 
— Você não sabe se Bob Ewell cortou mesmo a tela daquela porta, ninguém sabe quem foi — disse Atticus. — Mas posso imaginar. Mostrei que ele é um mentiroso, mas John Taylor fez ele parecer um idiota. Durante todo o depoimento de Ewell, eu não conseguia olhar para John sem ter vontade de rir. John olhava para ele como se ele fosse uma galinha de três pernas saída de um ovo quadrado. Não venha me dizer que os juízes não tentam influenciar os jurados… — concluiu Atticus, rindo.

     No final de outubro, nossa vida voltou à rotina de sempre: ir à escola, brincar, estudar. Jem parecia ter tirado da cabeça o que quer que fosse que queria esquecer e nossos colegas tiveram a bondade de não nos lembrar das excentricidades de nosso pai. Um dia, Cecil Jacobs me perguntou se Atticus era um radical. Quando perguntei a Atticus, ele achou tanta graça que fiquei irritada, mas ele explicou que não estava rindo de mim: 

— Diga a Cecil que sou tão radical quanto Cotton Tom Heflin.

     Tia Alexandra prosperava. Parecia que a srta. Maudie tinha silenciado toda a Sociedade Missionária de um golpe só, pois tia Alexandra voltou a reinar no galinheiro. Os refrescos que ela oferecia ficaram ainda mais deliciosos. E aprendi mais sobre a vida social dos pobres mrunas com a sra. Merriweather: eles tinham tão pouca noção de família que a tribo inteira era uma grande família. As crianças eram filhas de todos os homens e de todas as mulheres da comunidade. J. Grimes Everett estava fazendo o possível para mudar isso e precisava desesperadamente de nossas orações.
     Maycomb tinha voltado a ser como sempre foi. Exatamente a mesma que no ano anterior e no outro, com apenas duas pequenas mudanças. Primeiro, as pessoas tinham retirado das vitrines das lojas e dos vidros dos carros o adesivo PLANO DE RECUPERAÇÃO NACIONAL - NÓS FAZEMOS A NOSSA PARTE. Perguntei o motivo para Atticus e ele respondeu que o Plano de Recuperação Nacional tinha acabado. Perguntei quem tinha acabado com ele e ele disse que foram nove velhos.
     A segunda mudança em Maycomb desde o ano anterior não teve abrangência nacional. Até então, o Dia das Bruxas em Maycomb era um evento totalmente desorganizado. Cada criança fazia o que bem entendesse e se ajudavam quando havia alguma tarefa pesada, como colocar uma pequena charrete no telhado da cocheira municipal. Mas os pais tinham chegado à conclusão de que as coisas tinham ido longe demais no ano anterior, depois que as crianças tiraram o sossego das srta. Tutti e da srta. Frutti.
     As srtas. Tutti e Frutti Barber eram duas irmãs solteironas que moravam na única casa da cidade que tinha porão. Dizia-se que as Barber eram republicanas, tendo vindo de Clanton, no Alabama, em 1911. Tinham hábitos diferentes dos nossos e ninguém sabia para que queriam um porão, mas quiseram, construíram um e passaram o resto da vida expulsando de lá gerações sucessivas de crianças.
     Além de terem hábitos ianques, as duas (que na verdade se chamavam Sarah e Francis) eram surdas. A srta. Tutti negava e vivia em um mundo de silêncio, mas a srta. Frutti não queria perder nada do que acontecesse e usava uma corneta acústica tão grande que Jem dizia que era como o alto-falante de uma daquelas vitrolas de uma marca cujo desenho era um cachorro ouvindo num megafone.
     Considerando tudo isso e com a proximidade do Dia das Bruxas, alguns garotos levados esperaram as duas irmãs irem dormir, entraram na sala (só os Radley trancavam a porta de casa à noite) e levaram todos os móveis para o porão. Juro que não participei disso. 

— Eu ouvi tudo! — foi o grito que acordou os vizinhos delas na manhã seguinte. — Ouvi quando pararam um caminhão na porta da frente! Fizeram um barulho dos infernos. A essa hora já devem estar em Nova Orléans!

     A srta. Tutti tinha certeza que os móveis tinham sido levados pelos vendedores ambulantes de peles que chegaram à cidade dois dias antes. 

— Eram morenos, deviam ser sírios — disse ela.

     O sr. Heck Tate foi chamado. Olhou a área e concluiu que o autor era da região. A srta. Frutti disse que reconheceria a voz de um nativo de Maycomb em qualquer lugar e que as vozes na sala na noite anterior não eram de gente dali, pois tinham um sotaque bem carregado. E que só com cães treinados poderiam localizar a mobília delas. Insistiu e o sr. Tate se viu obrigado a percorrer quinze quilômetros para buscar os cães farejadores e colocá-los na trilha dos meliantes.
     O sr. Tate soltou-os nos degraus da escada das duas irmãs, mas eles apenas correram para trás da casa e começaram a latir na porta do porão. Depois de soltar os cães três vezes, o sr. Tate finalmente entendeu. Lá pelo meio-dia, não havia uma só criança descalça na cidade e todo mundo ficou de sapato até os cachorros irem embora.
     Por isso, as senhoras da cidade disseram que naquele ano as coisas iam ser diferentes. O auditório do ginásio seria aberto e haveria um desfile para os adultos e brincadeiras para as crianças, como pegar maçã com a boca, puxar massa de bala puxa puxa e espetar o rabo no burro. Também haveria um prêmio de vinte e cinco centavos para quem criasse e desfilasse a melhor fantasia de Dia das Bruxas.
     Jem e eu reclamamos. Não porque tivéssemos feito nada de errado, mas por uma questão de princípio. De qualquer modo, Jem se considerava velho demais para Dia das Bruxas e garantiu que não chegaria nem perto do ginásio. Bem, pensei, Atticus ia me levar.
     Mas logo fiquei sabendo que meus serviços tinham sido solicitados no palco. A sra. Grace Merriweather concebeu um desfile intitulado Condado de Maycomb: ad astra per aspera, no qual eu faria o papel de presunto. Ela achou que seria maravilhoso se as crianças desfilassem fantasiadas dos produtos agropecuários do condado. Assim, Cecil Jacobs iria de vaca, Agnes Boone seria uma adorável feijão-manteiga, outra criança seria um amendoim e assim por diante até a imaginação da sra. Merriweather e o número de crianças se esgotarem.
     Pelo que entendi nos dois ensaios, nossa única atribuição seria entrar no palco pela esquerda, enquanto a sra. Merriweather (autora e apresentadora do texto) identificava cada um. Quando ela dissesse “porco”, era a minha deixa. Depois que todos estivessem no palco, cantaríamos Condado de Maycomb, condado de Maycomb, a ti seremos sempre fiéis como o grand finale, e a sra. Merriweather entraria no palco com a bandeira do Alabama.
     Minha fantasia não chegou a ser problema. A costureira da cidade, sra. Crenshaw, era tão criativa quanto a sra. Merriweather. Pegou um arame de galinheiro e dobrou-o na forma de um presunto defumado. Depois, cobriu com um pano marrom e pintou-o conforme o original. Eu entraria na armação por baixo e alguém me ajudaria a ajustar o negócio cabeça abaixo. A fantasia ia quase até os meus joelhos. A sra. Crenshaw teve a excelente ideia de deixar dois buracos para eu enxergar. Ela fez um ótimo trabalho: Jem disse que eu estava igualzinha a um presunto com pernas. Mas havia alguns desconfortos: a roupa era quente e apertada; eu não poderia coçar o nariz se precisasse e só conseguiria sair da roupa com ajuda.
     No Dia das Bruxas, achei que toda a família iria assistir a minha apresentação, mas me enganei. Atticus disse, com o maior tato possível, que não aguentaria assistir um desfile naquela noite, estava muito cansado. Tinha passado a semana em Montgomery e chegara no final da tarde. Jem poderia me levar, se eu pedisse.
     Tia Alexandra explicou que precisava dormir cedo, pois tinha passado a tarde arrumando o cenário da apresentação e estava exausta — parou no meio da frase. Fechou a boca, abriu para dizer alguma coisa, mas não encontrou as palavras. 

— O que foi, tia? — perguntei. 
— Ah, nada, nada. Só tive um arrepio de pressentimento — ela respondeu. Deixou de lado a causa do arrepio e sugeriu que eu fizesse uma prévia do espetáculo para a família na sala. Então, Jem me enfiou na fantasia, ficou na porta da sala e chamou “poooor-co” exatamente como a sra. Merriweather faria. Entrei em cena. Atticus e tia Alexandra adoraram.

     Repeti tudo na cozinha e Calpúrnia disse que eu estava maravilhosa. Eu quis atravessar a rua para mostrar à srta. Maudie, mas Jem disse que ela certamente estaria no auditório.
     Depois disso, já não me importava se eles iam ou não. Jem disse que ia me levar. E esse foi o começo da nossa mais longa jornada juntos.

continua página 181...
___________________

Leia também:

__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.