quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Moby Dick: 32 - Cetologia (c)

Moby Dick

Herman Melville

32 - Cetologia

continuando...

      I. A BALEIA IN-FÓLIO; II. A BALEIA IN-OCTAVO; III. A BALEIA IN-DUODECIMO.
 
     Começa o LIVRO II. (In-octavo)

IN-OCTAVOS.  Abrange as baleias de dimensões medianas, entre as quais se podem enumerar atualmente as seguintes: – I. A Orca; II. O Peixe preto; III. O Narval; IV. A Assassina; V. A Flageladora

     LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO I. (Orca). – Embora este peixe, cuja alta e sonora respiração, ou melhor, sopro, deu origem a um provérbio dos homens da terra seja um habitante tão conhecido das profundezas, ele não é geralmente classificado entre as baleias. Mas por ter todas as características importantes do Leviatã, a maior parte dos naturalistas o reconhece como tal. Tem um tamanho moderado, in-octavo, variando de quinze a vinte e cinco pés de comprimento, e dimensões correspondentes em volta da cintura. Sempre nada em bandos; nunca é objeto de caça sistemática, embora tenha uma quantidade considerável de óleo, bom para a iluminação. Para alguns pescadores, sua presença é considerada premonitória da aproximação de cachalotes maiores.
     LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO II. (Peixe preto). – Dou os nomes comuns que os pescadores usam para todos esses peixes, porque em geral são os melhores. Quando um desses nomes parecer vago ou inexpressivo, mencionarei o fato e sugerirei um outro. É o que vou fazer agora com o assim chamado Peixe preto, já que em regra predomina a cor preta entre quase todas as baleias. Por isso, se lhe aprouver, trate-o por Baleia hiena. Sua voracidade é bem conhecida e, pelo fato de os ângulos internos de seus lábios serem curvados para cima, sempre porta um sorriso Mefistofélico. Essa baleia costuma medir entre dezesseis e dezoito pés de comprimento. É encontrada em quase todas as latitudes. Quando está nadando, tem um jeito peculiar de mostrar sua barbatana dorsal em forma de gancho, que se parece com um nariz romano. Quando não estão ocupados com uma atividade mais lucrativa, os pescadores de cachalotes capturam às vezes a Baleia hiena, para abastecer-se com o óleo barato de uso doméstico – do mesmo modo que donas-de-casa parcimoniosas, quando estão sós, utilizam sebo comum em lugar de cera aromatizada. Embora sua camada de gordura seja muito fina, algumas dessas baleias chegam a fornecer trinta galões de óleo.
      LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO III. (Narval), ou seja, Baleia de narina. – Outro caso de uma baleia com um nome estranho. Imagino que foi assim chamada por confundirem seu chifre peculiar com um nariz comprido. A criatura tem mais ou menos dezesseis pés de comprimento, e seu chifre mede cerca de cinco pés, embora alguns tenham mais de dez, podendo chegar até quinze pés. A rigor, esse chifre não passa de uma presa prolongada, que se projeta do maxilar, numa linha um pouco abaixo da horizontal. Mas só se encontra no lado esquerdo, o que produz um efeito desagradável, conferindo ao portador um aspecto semelhante ao de um canhoto desajeitado. Qual é o propósito exato desse chifre ou lança de marfim é difícil de dizer. Não parece ser usado como a lâmina do peixe-espada e do marlim; mas alguns marinheiros me contaram que o Narval usa o chifre como ancinho para procurar comida no fundo do mar. Charles Coffin disse que era usado como quebra-gelo; porque o Narval, ao subir para a superfície do mar Polar, encontrando-o congelado, investe com o chifre e quebra-lhe o gelo. Mas não se pode provar se essas conjeturas estão corretas. Minha opinião é de que embora esse chifre de um lado possa realmente ser usado pelo Narval – não importa como –, com certeza seria muito conveniente usá-lo como apoio para a leitura de panfletos. Já ouvi chamarem o Narval de baleia-de-presa, baleia-de-chifre e baleia-unicórnio. Com certeza é um exemplo curioso de Unicornismo que se encontra em quase todo reino de natureza animada. Em alguns antigos autores enclausurados encontrei que o chifre desse unicórnio do mar era antigamente considerado o grande antídoto para veneno e, por isso, seus preparados alcançavam preços altíssimos. Também era destilado em um sal volátil para as senhoras que desmaiavam, do mesmo modo que dos chifres de um veado se faz o amoníaco. Originalmente era em si um objeto de grande curiosidade. Leio em letra gótica que Sir Martin Frobisher, ao voltar de sua viagem, recebeu da rainha Bess um aceno com a mão ornada de joias de uma das janelas do palácio de Greenwich, quando seu navio audaz descia o Tâmisa; “quando Sir Frobisher voltou daquela viagem”, reza o antigo, “ajoelhado ofereceu à Sua Alteza um prodigiosamente longo chifre do Narval, que durante muito tempo ficou dependurado no castelo de Windsor”. Um autor Irlandês assevera que o conde de Leicester, de joelhos, presenteou do mesmo modo Sua Alteza com um outro chifre, este pertencente a um monstro terrestre de natureza unicórnia.
O narval tem uma aparência muito pitoresca, parecida com a do leopardo, de cor branca leitosa, pontilhada de manchas pretas redondas e alongadas. Seu óleo é muito superior, límpido e bom; porém, é escasso, e raramente eles são pescados. São mais comumente encontrados nos mares circumpolares.
      LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO IV. (Assassina). – Sobre esta baleia, pouco os pescadores de Nantucket sabem com exatidão, e nada, em absoluto, os ditos naturalistas. Pelo que observei a distância, posso dizer que é mais ou menos da grandeza de uma orca. É muito selvagem – uma espécie de peixe de Fiji. Às vezes, ela ataca as grandes baleias do in-fólio pela boca e se agarra a elas como uma sanguessuga, até que o poderoso animal morra. As Assassinas nunca são caçadas. Não sei que tipos de óleo têm. Pode-se fazer objeção ao nome dado a essa baleia, em razão de sua obscuridade. Porque somos todos assassinos, na terra e no mar; incluindo Bonapartes e Tubarões.
      LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO V. (Flageladora). – Esta dama é famosa por sua cauda, que usa como férula para fustigar seus inimigos. Sobe no dorso da baleia do in-fólio e, enquanto esta nada, abre caminho dando-lhe chicotadas; da mesma forma que agem certos mestres-escolas para progredir. Sabe-se menos ainda sobre a Flageladora do que sobre a Assassina. Ambas são fora-da-lei, mesmo nos mares sem lei.
      Assim termina o LIVRO II. (In-octavo)

Continua na página 139...
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Leia também:

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Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 32 - Cetologia (c)
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851,
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

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