segunda-feira, 9 de março de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: A grande irritação - [c]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
A grande irritação 


     Durante o regresso e mais tarde, Hans Castorp teve momentos em que se sentia tomado de vertigens diante da monstruosidade daquilo que tinham à sua frente; sobretudo quando se manifestou que Naphta não queria saber de floretes ou de sabres, senão insistia num duelo a pistola, e que realmente lhe cabia escolher as armas, já que, segundo os conceitos do código de honra, era ele o ofendido. Houve, pois, momentos em que o jovem conseguiu até certo ponto libertar-se daquele espírito que lavrava no ambiente, envolvendo e perturbando a todos. Dizia-se então que aquilo era rematada loucura e devia ser evitado. 

– Se, pelo menos, houvesse uma ofensa real! – exclamou numa conversa com os senhores Settembrini e Ferge, e com Wehsal, a quem Naphta, já durante a viagem de volta, escolhera para padrinho e que servia de intermediário entre as partes. – Um insulto de caráter meramente convencional! Se o nome honrado de um fosse enxovalhado pelo outro, se se tratasse de uma mulher ou de qualquer outro ponto vital, de uma situação em que não se visse nenhuma outra possibilidade de compensação! Bem, num caso desses existe o duelo como último recurso. Depois, quando se lavou a honra, quando tudo terminou sem grandes danos e se verifica que “os adversários se separaram reconciliados”, pode-se até opinar que se trata de uma boa instituição, de uma coisa salutar e prática em certos casos complicados. Mas que fez Naphta, afinal? Absolutamente não quero defendê-lo. Pergunto apenas: que fez ele para ofender o senhor? Ele derrubou as categorias. Privou, segundo a sua própria expressão, as ideias da sua dignidade acadêmica. O senhor sentiu-se ofendido por isso. Com razão, vamos admiti-lo... 
– Admiti-lo? – repetiu o Sr. Settembrini, encarando-o. 
– Com razão, com razão! Ele ofendeu o senhor com isso. Mas não o insultou. Aí está a diferença, permita-me que o diga! Trata-se de coisas abstratas, espirituais. Com coisas espirituais pode-se ofender, mas não insultar uma pessoa. Esse é um axioma que todos os tribunais de honra aceitariam, posso lhe garantir. E pelo mesmo motivo não há tampouco um insulto naquela resposta do senhor, em que falou de “infâmia” e de “castigar devidamente”, já que também esses termos estavam sendo empregados em sentido espiritual. Tudo se mantinha na esfera espiritual e nada tinha que ver com a esfera pessoal. O espiritual nunca pode ser pessoal; este é o complemento e a interpretação do axioma, e por isso... 
– O senhor está enganado, caro amigo – replicou o Sr. Settembrini com os olhos fechados. – Está enganado em primeiro lugar ao afirmar que o espiritual não pode assumir caráter pessoal. O senhor não deveria pensar assim – continuou com um sorriso singularmente frouxo e doloroso. – Antes de tudo, porém, equivoca-se na apreciação que faz do espírito em geral, que evidentemente considera demasiado fraco para provocar conflitos e paixões da mesma intensidade daqueles que acarreta a vida real e que não toleram outra solução que não a luta armada. All’ incontro! O elemento abstrato, purificado, ideal, é ao mesmo tempo o absoluto, é o que há de realmente rigoroso e encerra em si possibilidades muito mais profundas e mais radicais de ódio, de oposição irrestrita e irreconciliável, do que a vida social. Admira-se o senhor ao ver que o abstrato conduz, por caminhos mais diretos e mais inelutáveis do que esta, à situação em que se trata de “um de nós dois, tu ou eu”, a situação propriamente radical, a do duelo, da luta corporal? O duelo, meu amigo, não é uma “instituição” como qualquer outra. É um último recurso, é a volta ao estado primevo da natureza, apenas levemente suavizada por certo código cavalheiresco que não deixa de ser superficial. O característico dessa situação é o seu cunho totalmente primitivo, a luta corporal, e cabe a todo homem, por mais que se distancie da natureza, manter-se preparado para essa emergência. Ela pode ocorrer a qualquer instante. Quem não é capaz de arriscar a vida, o braço, o sangue na defesa de um ideal não é digno dele. Em que pese a nossa espiritualização, cumpre sermos homens.
     Dessa forma, Hans Castorp recebera uma lição. Que se podia opor a isso? O jovem permaneceu calado, meditando com o coração opresso. As palavras do Sr. Settembrini fingiam ser calmas e lógicas, e todavia soavam estranhas, pouco naturais na sua boca. Esses pensamentos não eram seus, como tampouco fora ele quem tivera a idéia do duelo, senão a aceitara daquele terrorista que era o pequeno Naphta. Eram, sim, a expressão da mentalidade reinante em toda parte, e que se apossara também de Settembrini, reduzindo a sua bela inteligência ao papel de seu servo e instrumento. Mas como? O espírito, por ser rigoroso, deveria conduzir, inexoravelmente, à bestialidade, à solução encontrada por meio da luta corporal? Hans Castorp.revoltava-se contra essa concepção, ou melhor, tentava revoltar-se; e para maior espanto seu, verificava que também ele era incapaz de fazê-lo. Também no seu próprio íntimo, ela se mostrava forte, essa mentalidade, e ele tampouco era talhado para distanciar-se dela. Daquela zona das suas recordações onde Wiedemann e Sonnenschein, desnorteados, se revolviam numa contenda bestial, vinha-lhe uma inspiração tremenda, definitiva, e com horror percebia Hans Castorp que ao fim de todas as coisas não restavam outros meios a não ser os do corpo, as unhas e os dentes. Sim, sim, parecia necessário bater-se, porquanto assim se podia garantir aquela suavização do estado primevo por meio do código cavalheiresco... E o jovem ofereceu ao Sr. Settembrini seus serviços como padrinho.
     Sua oferta foi rejeitada. Não, isso não convinha; não podia ser, foi a resposta que recebeu, primeiramente do próprio Settembrini com um sorriso macio e doloroso, e, a seguir, após um momento de reflexão, também de Ferge e de Wehsal, sem que ninguém justificasse essa opinião. Achavam impossível Hans Castorp assistir ao duelo nessa função. Talvez pudesse ele comparecer ao campo de luta como árbitro, pois a presença de uma pessoa com esse encargo estava prevista nas regras cavalheirescas, destinadas a suavizar a bestialidade. O próprio Naphta, pela boca de Wehsal, seu representante em assuntos de honra, manifestou-se nesse sentido, e Hans Castorp conformou-se com isso. Padrinho ou árbitro, fosse o que fosse, em todo caso teria uma oportunidade para exercer influência sobre as modalidades do combate, coisa que se manifestou sumamente necessária.
     As propostas de Naphta ultrapassavam todos os limites. Exigiu ele cinco passos de distância e três trocas de balas, no caso de se tornar preciso. Na mesma noite do incidente mandou transmitir essa loucura por Wehsal, que se identificava por completo com a tarefa de ser porta-voz e representante dos caprichos selvagens do jesuíta e se aferrava a tais condições ora porque recebera ordem de agir assim, ora porque correspondiam ao seu próprio gosto. Settembrini, naturalmente, nada tinha que objetar, mas Ferge, como seu padrinho, e Hans Castorp, o árbitro, mostraram-se indignados. Este chegou mesmo a ralhar com o desgraçado Wehsal. Não tinha vergonha – perguntou – de trazer à baila essas sugestões desumanas e antipáticas, embora se tratasse de um duelo puramente convencional, sem base em nenhum insulto real? A exigência das pistolas já era muito forte, mas esses pormenores sanguinários eram o cúmulo. Aí não se podia mais falar em espírito cavalheiresco. Por que não atirariam logo à queima-roupa? Para Wehsal era fácil manifestar tamanha sede de sangue, porque não seria contra ele que se daria um tiro de cinco metros de distância. E assim por diante. Wehsal encolheu os ombros, indicando pelo seu silêncio que se achavam numa situação radical, e desarmando dessa forma os seus oponentes, inclinados a esquecer esse fato. Mesmo assim conseguiram estes, no decorrer das negociações do dia seguinte, reduzir as três trocas de tiros a uma única e chegar a um acordo na questão da distância: os combatentes ficariam separados um do outro por quinze passos e teriam o direito de avançar cinco passos antes de atirar. Mas também essa concessão não foi obtida senão pela promessa de que não se fariam tentativas de reconciliação. Descobriram então que nenhum deles possuía pistolas.
     O Sr. Albin, porém, tinha. Além do pequeno e lustroso revólver, com o qual gostava de assustar as senhoras, dispunha ainda de um par de pistolas de oficial, fabricadas na Bélgica e guardadas num estojo comum. Eram Brownings automáticas com coronhas de madeira marrom, que continham os depósitos das balas, com um mecanismo de aço azulado e com canos polidos, sobre cujas bocas se achavam as miras. Em outra ocasião, Hans Castorp vira essas armas nas mãos do fanfarrão, e contra as suas próprias convicções, por puro senso de imparcialidade, ofereceu-se para pedi-las emprestado. E assim fez, não escondendo a finalidade em si, mas envolvendo-a naquele segredo peculiar aos casos de honra e invocando, com êxito fácil, a discrição cavalheiresca do rapaz. O Sr. Albin mesmo lhe ensinou como carregar as armas e disparou-as diversas vezes ao ar livre, a título de experiência.
     Tudo isso requereu tempo, e assim sucedeu que até a data do encontro transcorreram dois dias e três noites. O lugar do duelo tinha sido proposto por Hans Castorp: era aquele sítio pitoresco, que no verão se cobria de flores azuis, e onde o jovem costumava retirar-se para “reinar”. Era ali que; na terceira manhã após a desinteligência, se liquidaria a querela, logo que houvesse bastante luz. Somente na véspera, a altas horas da noite, Hans Castorp, que andava muito nervoso, teve a ideia de que era necessário levar um médico ao campo de luta.
     Foi imediatamente deliberar com Ferge sobre esse problema cuja solução se apresentou bem difícil. Verdade era que Radamanto pertencera a um grêmio de estudantes que mantinha o código de duelo, mas parecia impossível pedir ao chefe do estabelecimento que desse o seu apoio a semelhante ato ilegal, tanto mais que se tratava de doentes. De modo geral, havia pouca esperança de encontrar em Davos um médico que se dispusesse a assistir a um duelo a pistola entre dois homens gravemente enfermos. No que se referia a Krokowski, não se sabia ao certo se esse espírito refinado tinha muita prática na medicação de ferimentos.
     Wehsal, igualmente consultado, declarou que Naphta já se opusera à presença de um médico, alegando que não ia ao lugar do duelo para ser untado e pensado, mas para bater-se e fazê-lo seriamente. Pouco se lhe dava o que acontecesse depois. Isso ficaria para mais tarde. Embora essas palavras parecessem sinistras, Hans Castorp esforçou-se por interpretá-las no sentido de que Naphta era intimamente de opinião que não haveria necessidade de um médico. Não respondera também Settembrini, interpelado por Ferge, que achava melhor abandonar a idéia, uma vez que não lhe interessava? Não era totalmente insensato esperar que os adversários, no fundo do coração, tivessem ambos a intenção de não causar derramamento de sangue. Haviam dormido duas noites desde aquela rixa, e tinham à sua frente uma terceira. O tempo aclara o ambiente e arrefece os ânimos. Não há exaltação que resista à corrente das horas, sem sofrer alterações. Amanhã de madrugada, com a arma na mão, nenhum dos dois brigões seria o mesmo homem que fora na tarde do incidente. Agiriam automaticamente, sob o ditame da honra, e não por viva e espontânea vontade, como teriam feito se tivessem agido na própria ocasião. Deveria ser possível evitar que renegassem o seu espírito atual, a favor daquilo que pertencia ao passado.
     Hans Castorp não se enganava nessas suas reflexões; quer dizer que não se enganava num sentido que jamais poderia ter imaginado. Tinha até perfeitamente razão no que tocava ao Sr. Settembrini. Porém, se houvesse previsto em que sentido Leo Naphta no decorrer do tempo ou no próprio momento decisivo modificaria os seus desígnios, nem sequer a situação íntima em que tudo isso tinha a sua origem teria sido capaz de induzi-lo a admitir o que estava se preparando.
     Às sete horas da manhã, o sol estava longe de surgir atrás da sua montanha, mas o dia raiava penosamente por entre as brumas, quando Hans Castorp, após uma noite inquieta, saía do Sanatório Berghof, a fim de se encaminhar ao lugar do encontro. As criadas que limpavam o vestíbulo olharam-no com surpresa. No entanto achou aberto o portão principal. Ferge e Wehsal, juntos ou separadamente, já o tinham transposto, um para guiar Settembrini e o outro para acompanhar Naphta ao campo de combate. Hans Castorp ia sozinho, visto a sua função de árbitro não lhe permitir associar-se a nenhuma das partes.
     Ia maquinalmente, sob a coação da honra, forçado pelas circunstâncias. Era natural e necessário que ele assistisse ao duelo. Seria impossível manter-se afastado a aguardar o resultado na cama, em primeiro lugar porque... Mas o jovem, ao invés de desenvolver o primeiro motivo, logo acrescentou o segundo: não se devia deixar que as coisas chegassem a seu termo. Por enquanto não acontecera nada de grave, graças a Deus, e não era inevitável, era até mesmo inverossímil que algo de grave acontecesse. Tiveram de se levantar à luz artificial e de sair, sem terem tomado café, para reunir-se ao ar livre, no frio cortante da madrugada, já que assim havia sido combinado. Mas Hans Castorp pensava que depois, sob o influxo da sua própria presença, tudo tomaria rumos mais favoráveis e menos tristes, não se podia antever de que modo, e que era melhor não querer adivinhar, porquanto a experiência ensinava que mesmo os mais simples dos acontecimentos sempre transcorriam de forma diferente à antecipada pela imaginação.
     Ainda assim, era a manhã mais desagradável de todas de que se recordava. Hans Castorp sentia-se lasso e tresnoitado; seus dentes tendiam a bater nervosamente. Não precisava inquirir seu íntimo para desconfiar dos pensamentos com que acabava de tranquilizar-se. Os tempos que corriam eram tão invulgares... A senhora de Minsk, arruinada pela cólera, o colegial enfurecido, Wiedemann e Sonnenschein, a história das bofetadas polacas – tudo isso se revolvia confusamente no seu cérebro. Não podia imaginar que à sua frente, na sua presença, dois homens fossem trocar tiros e derramar o sangue um do outro. Mas quando se lembrava do que, ante os seus olhos, ocorrera entre Wiedemann e Sonnenschein, desconfiava de si próprio e do seu mundo e arrepiava-se sob o casaco forrado de peles, não obstante a sensação do extraordinário e do patético do momento, que o exaltava e animava, da mesma forma que os elementos vivificadores do ar da manhã.
     Tomado de sentimentos contraditórios, que variavam a cada instante, o jovem saía da “aldeia”, através do lusco-fusco que lentamente se aclarava. Partindo do fim da pista de trenó, galgava a encosta, subindo por uma vereda muito estreita. Alcançou o bosque oculto por espessa camada de neve. Atravessou as pontes de madeira, por baixo das quais se estendia a pista, e avançou, por entre as árvores, num caminho aberto antes pelos pés dos transeuntes do que pelas pás. Como caminhasse velozmente, passou depois de pouco tempo por Settembrini e Ferge. Este levava a caixa de pistolas sob a ampla capa. Hans Castorp não vacilou em unir-se a eles. Mal chegara a seu lado, deparou com Naphta e Wehsal, que se achavam a pouca distância na frente. 

– Que manhã fria! Menos dezoito graus – disse na melhor das intenções, mas, assustando-se ele mesmo com a frivolidade das suas palavras, acrescentou: – Senhores, estou convencido...

     Os outros permaneceram silenciosos. Os bigodes joviais de Ferge subiam e desciam. Alguns segundos após Settembrini estacou e, tomando a mão de Hans Castorp entre as suas, disse: 

– Meu amigo, eu não matarei. Não farei isso. Vou me expor à bala dele. É tudo o que a honra pode exigir de mim. Mas eu não matarei, fique sossegado!

     Soltou a mão do jovem e prosseguiu o caminho. Hans Castorp estava profundamente emocionado, mas, depois de alguns passos, objetou: 

– Acho maravilhoso da sua parte, Sr. Settembrini, mas... Se ele, da sua parte...

     O Sr. Settembrini limitou-se a menear a cabeça. Hans Castorp, ponderando que, quando um não atirava, o outro de modo algum poderia atrever-se a fazê-lo, chegou à conclusão de que os auspícios eram felizes e suas esperanças começavam a confirmar-se. Sentiu-se bastante aliviado. 
     Transpuseram a passadeira que cruzava a ravina, onde no verão caía a pitoresca cachoeira, congelada e muda a essa época do ano. Naphta e Wehsal iam de cá para lá, pela neve, diante do banco escondido sob espessa, camada branca. Era o mesmo banco em que Hans Castorp, certa vez, se vira acossado por recordações singularmente vivas, enquanto esperava o fim de uma hemorragia do nariz. Naphta fumava um cigarro, e Hans Castorp perguntou a si mesmo se não sentia vontade de imitá-lo, mas verificou que absolutamente não estava disposto a fazê-lo e deduziu disso que a atitude do outro tinha um fundo de afetação. Com a sensação de agrado que sempre o invadia ali, contemplou a intimidade fria desse sítio que lhe pertencia e não era menos formoso sob aquele aspecto glacial do que na época em que aparecia inundado de flores azuis. O tronco e a ramagem do pinheiro, que formava uma linha diagonal através do quadro, dobravam se sob a carga de neve. 

– Bom dia! – exclamou o jovem com voz alegre, inspirado pelo desejo de introduzir no ambiente, desde o começo, um tom natural, destinado a dissipar as nuvens. Mas teve pouca sorte com essa intenção, pois ninguém respondeu. As saudações trocadas consistiam em reverências mudas, tão cerimoniosas que se tornavam quase imperceptíveis. Mesmo assim, Hans Castorp continuou decidido a lançar mão, sem demora, da emoção inicial, do aceleramento cordial da sua respiração, do calor originado pela caminhada rápida através da manhã de inverno, e a aproveitá-los em prol da finalidade boa. Por isso começou dizendo: 
– Senhores, estou convencido... 
– O senhor tratará das suas convicções em outra oportunidade – atalhou-lhe Naphta friamente a palavra. – As armas, por favor – acrescentou com a mesma arrogância. E Hans Castorp, como se tivesse levado um tapa na boca, teve de ver Ferge tirar o estojo fatal de sob a capa. Wehsal, que se aproximara dele, recebeu das suas mãos uma das pistolas, a fim de passá-la a Naphta. A seguir, Ferge entregou a outra a Settembrini. Feito isso, pediu em voz baixa que desembaraçassem o lugar e pôs-se a medir a passos o terreno e a marcar a distância. Riscou na neve os limites externos com o tacão e assinalou as barreiras internas com duas bengalas, a sua e a de Settembrini.

     Que fazia ali o sofredor bonachão? Hans Castorp mal podia dar crédito a seus olhos. Ferge tinha as pernas compridas e dava largas passadas, de maneira que os quinze passos resultaram numa extensão considerável. Mas havia ainda as malditas barreiras, que realmente não distavam muito uma da outra. Sem dúvida, Ferge estava bem intencionado. E todavia – que perturbação forçava-o a dedicar-se a esses preparativos monstruosos?
     Naphta atirara na neve a peliça, de modo que se via o forro de pele de marta do Canadá. Com a pistola na mão, pôs o pé numa das marcações externas, logo que esta foi traçada, enquanto Ferge ainda tratava das demais. Quando terminou, também Settembrini, com a jaqueta surrada, amplamente aberta, ocupou a sua posição. Hans Castorp despertou da sua letargia e apressadamente tornou a avançar. 

– Senhores – disse em voz opressa –, não se precipitem! Apesar de tudo é do meu dever... 
– Cale-se! – gritou Naphta em tom imperioso. – Exijo o sinal.

     Mas ninguém dava o sinal. Haviam esquecido de se pôr de acordo sobre esse ponto. Era lógico que alguém ordenasse: “Fogo!”, mas não tinham pensado, ou pelo menos não tinham declarado que caberia ao árbitro pronunciar o comando terrível. Hans Castorp permaneceu silencioso, e ninguém fez menção de substituí-lo. 

– Vamos começar! – declarou Naphta. – Avance e atire, senhor! – gritou ao adversário, e começou a avançar ele mesmo, com o braço estendido, apontando a pistola para o peito de Settembrini. Foi um espetáculo fantástico. Settembrini fez o mesmo. Ao terceiro passo – o outro, sem disparar, já alcançara a barreira – levantou a pistola muito alto e apertou o gatilho.

     A detonação provocou um eco múltiplo. As montanhas repercutiram sucessivamente o som. O vale encheu-se de vibrações com o choque, e Hans Castorp pensou que aquilo devia alarmar os habitantes. 

– O senhor atirou para o ar – disse Naphta, controlando-se, enquanto baixava a arma.

     Settembrini replicou: 

– Eu atiro como quero. 
– Atire o senhor novamente. 
 – Nem penso nisso. Agora é a sua vez. – Com a cabeça erguida, o Sr. Settembrini olhava o céu. Colocara-se quase de lado, não expondo o peito em cheio ao outro, o que era comovente de se ver. Evidentemente alguém lhe aconselhara não oferecer ao adversário toda a largura do corpo, e ele se inspirava por essa advertência. 
– Covarde! – bradou Naphta, e com esse grito humano admitiu que era preciso maior coragem para atirar do que para servir de alvo. Levantou então a pistola de um modo que nada mais tinha em comum com um combate, e descarregou-a na própria cabeça.

     Que cena trágica, inesquecível! Enquanto os cumes jogavam bolas com o ruído seco da sua façanha medonha, Naphta cambaleou ou precipitou-se alguns passos para trás, arremessando as pernas para o alto. Deu bruscamente meia-volta à direita e caiu com o rosto na neve.
     Todos permaneceram imóveis durante um momento. Settembrini, depois de arrojar a pistola para longe de si, foi o primeiro a aproximar-se de Naphta.

– Infelice! – exclamou. – Che cosa fai, per l’amor di Dio

     Hans Castorp ajudou-o a virar o corpo. Via-se o buraco vermelho, enegrecido, ao lado da têmpora. Cobriram-lhe o rosto com o lenço de seda cuja ponta sobressaía do bolsinho do casaco de Naphta. 

continua pág 466...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
A grande irritação - [c] /     
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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