quarta-feira, 21 de março de 2012

O Amor

Gal Costa





Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
        numa alameda do zoo,
sorridente,
      tal como agora está
         no retrato sobre a mesa.










O Amor
Caetano Veloso
(Sobre um poema de Vladimir Maiakovski)

Talvez quem sabe um dia 
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará 
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está 
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita 
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá 
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta 
E ansiava o futuro
Ressuscita-me 
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me 
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me 
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra




O Amor

Maiakovski


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
        numa alameda do zoo,
sorridente,
      tal como agora está
         no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
      que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
  que dilaceravam o coração.
Então,
       de todo amor não terminado
seremos pagos
     em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
     nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
      nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
      Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
     concupiscência,
       salários.
Para que, maldizendo os leitos,
   saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
   que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
      livre dos nichos das casa.
Para que
   doravante
a família
     seja
o pai,
     pelo menos o Universo;
a mãe,
     pelo menos a Terra.


(1923)



Nenhum comentário:

Postar um comentário