sábado, 24 de janeiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (26)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

26

      As aulas começaram, assim como nossas passagens diárias em frente à casa dos Radley. Jem estava no sétimo ano e ia para o ginásio, que ficava atrás do prédio do primário. Eu estava no terceiro ano e nossas rotinas eram tão diferentes que eu só via Jem de manhã, quando íamos juntos para a escola, e na hora das refeições. Ele entrou para o time de futebol, mas era magro e jovem demais, então apenas carregava o balde de água do time. Mas fazia isso com entusiasmo e costumava chegar em casa só depois de anoitecer.
     A casa dos Radley não me aterrorizava mais, porém continuava sombria, fria sob os grandes carvalhos e pouco acolhedora. O sr. Nathan Radley ainda era visto em dias claros, indo e voltando da cidade; sabíamos que Boo ainda estava lá, pelo mesmo motivo de sempre: ninguém o tinha visto sair carregado num caixão. De vez em quando, eu sentia uma pontada de remorso ao passar pela velha casa, arrependida de ter participado do tormento que devíamos ter causado a Arthur Radley. Que pessoa sensata e reclusa quer crianças espiando pelas janelas, entregando bilhetes na ponta de varas de pescar ou andando pelas plantações de couve à noite?
     E, no entanto, eu me lembrava. Duas moedas cunhadas com cabeças de índios, goma de mascar, bonecos esculpidos em sabão, uma medalha enferrujada, um relógio quebrado com a corrente. Jem devia ter guardado tudo aquilo em algum lugar. Uma tarde, parei e olhei para a árvore: o tronco estava crescendo por cima do cimento, que estava amarelando.
     Nós quase vimos Boo duas vezes, uma boa marca para qualquer pessoa.
     Mas eu continuava olhando quando passava por lá. Talvez um dia o víssemos. Eu imaginava como seria: ele estaria sentado no balanço e eu cumprimentaria: “Oi, sr. Arthur”, como se tivesse feito isso todas as tardes da minha vida. “Boa tarde, Jean Louise”, ele responderia, como se tivesse dito isso todas as tardes da minha vida. “Que dias bonitos tem feito, não acha?” “É verdade, bonitos mesmo”, eu concordaria, e seguiria em frente.
     Mas isso não passava de uma fantasia. Nós jamais o veríamos. Ele provavelmente saía de casa quando a lua estava baixa e ia espiar a srta. Stephanie. Eu teria escolhido espiar outra pessoa, mas isso era problema dele. Ele nunca ia nos espiar. 

— Não vão começar com esse negócio outra vez, vão? — perguntou Atticus uma noite, quando confessei meu desejo de dar pelo menos uma olhada em Boo Radley antes de morrer. — Se estiverem pensando nisso, já vou avisando: podem parar. Estou velho demais para ficar atrás de vocês no quintal dos Radley. Além do mais, é perigoso. Podem levar um tiro. Vocês sabem que o sr. Nathan atira em qualquer sombra, mesmo naquelas que deixam pegadas do tamanho de um pé de criança descalça. Tiveram sorte de não terem sido mortos.
     Calei a boca na hora. Ao mesmo tempo, fiquei admirada com Atticus. Era a primeira vez que ele nos mostrava que sabia muito mais do que pensávamos. E aquilo tinha acontecido anos antes. Não, tinha sido apenas no verão passado; não, no retrasado, quando… o tempo estava me pregando peças. Eu precisava perguntar a Jem.
     Tantas coisas aconteceram conosco que Boo Radley era o menor dos nossos temores. Atticus disse que não ia acontecer mais nada, que as coisas iam se acalmar e, com o tempo, as pessoas iam esquecer que um dia Tom Robinson tinha existido.
     Atticus podia ter razão, mas os acontecimentos daquele verão continuavam a pairar sobre nós como fumaça num quarto fechado. Os adultos de Maycomb jamais comentavam o caso com Jem e comigo, mas deviam conversar com os filhos, dizendo que não tínhamos culpa de sermos filhos de Atticus, e que, apesar disso, deviam ser gentis conosco. As crianças jamais teriam essa atitude por iniciativa própria: se nossos colegas de classe tivessem agido como bem entendessem, Jem e eu teríamos nos metido em algumas boas brigas e o assunto teria acabado de uma vez. Mas em vez disso éramos obrigados a erguer a cabeça e nos comportar como um cavalheiro e uma dama, respectivamente. De certa forma, era como no tempo da sra. Henry Lafayette Dubose, mas sem todos aqueles berros dela. Havia um detalhe estranho, porém, que eu nunca entendi: apesar das restrições feitas a Atticus como pai, as pessoas não tiveram escrúpulos em reelegê-lo para a Câmara estadual naquele ano, como de costume, sem oposição. Cheguei à conclusão de que as pessoas eram estranhas. Por isso, mantinha distância e só pensava nelas quando era obrigada.
     Um dia, na escola, fui obrigada. Uma vez por semana tínhamos uma atividade chamada Atualidades, em que cada aluno devia escolher uma notícia no jornal, ler e levar o recorte para a escola, onde tinha de relatar o fato para a classe. Isso, supostamente, corrigia uma série de problemas: ao ficar de pé na frente da classe o aluno adquiria boa postura e segurança; manter um pequeno diálogo estimulava a comunicação; discorrer sobre um fato recente fortalecia a memória; por fim, seu isolamento diante da classe faria com que desejasse mais do que nunca voltar ao grupo.
     A ideia era profunda, mas, como sempre, não funcionou direito em Maycomb. Primeiro, porque poucas crianças do campo tinham acesso a jornais e a tarefa passou a ser feita pelas crianças da cidade, o que fazia com que as crianças do campo tivessem ainda mais certeza de que as da cidade recebiam mais atenção. As crianças do campo que conseguiam, geralmente levavam recortes do que elas chamavam de The Grit Paper, uma publicação que a srta. Gates, nossa professora, considerava abominável. Nunca entendi porque ela não gostava quando um aluno lia algo desse jornal, mas de alguma forma isso era associado a gostar de tocar rabeca, comer biscoito de melado no almoço, ser um fanático religioso e cantar Sweetly Sings the Donkey pronunciando dunkey, todos comportamentos que o Estado pagava os professores para desencorajarem.
     Mesmo assim, poucos alunos sabiam o que era um fato atual. Chuck Little, que sabia tudo sobre os hábitos e os costumes das vacas, já estava na metade da história sobre Uncle Natchell, personagem que era garoto-propaganda de um fertilizante, quando a professora interrompeu: 

— Charles, isso que você está contando não é um fato atual, é um anúncio.

     Mas nosso colega Cecil Jacobs sabia o que era um fato atual. Quando chegou a vez dele, foi para a frente da classe e começou: 

— O velho Hitler… 
— Adolf Hitler, Cecil — corrigiu a srta. Gates. — Ninguém começa uma exposição dizendo “o velho fulano”. 
— Sim, senhora. O velho Adolf Hitler anda prosseguindo os judeus… 
— Perseguindo, Cecil… 
— Não, srta. Gates, está escrito aqui… Bem, o velho Adolf Hitler anda atrás dos judeus, prendendo eles e tirando os bens deles. Não deixa eles saírem do país e está lavando os débeis mentais e… 
— Lavando os débeis mentais? 
— Sim, srta. Gates, acho que eles não têm capacidade de se lavar, um débil mental não consegue cuidar da higiene. De todo jeito, Hitler iniciou um programa para pegar todos os meios judeus também e quer que sejam registrados para o caso de quererem causar algum problema. Acho tudo isso muito errado e esse é o meu fato atual. 
— Muito bem, Cecil — disse a professora. Ofegante, Cecil voltou para sua carteira.

     No fundo da sala, alguém levantou a mão. 

— Como ele pode fazer uma coisa dessa? 
— A que você se refere? — perguntou a srta. Gates, paciente. 
— Quer dizer, como Hitler pode prender um monte de gente assim, o governo não faz nada? — perguntou o dono da mão. 
— Hitler é o governo — respondeu a professora e, aproveitando a chance para dinamizar a aula, foi até o quadro-negro. Escreveu DEMOCRACIA em letras maiúsculas. — Alguém sabe o que é democracia? — perguntou. 
— Somos nós — respondeu alguém.

     Levantei a mão, lembrando-me de um antigo lema de campanha que Atticus uma vez me disse. 

— O que você acha que é, Jean Louise? 
— “Direitos iguais para todos, privilégios para ninguém!” — citei. 
— Muito bem, Jean Louise, muito bem — elogiou a srta. Gates, sorrindo. — Na frente da palavra DEMOCRACIA, ela escreveu NÓS SOMOS UMA. — Agora, leiam todos juntos: “Nós somos uma democracia.”

     Lemos. Depois, a professora disse: 

— Essa é a diferença entre os Estados Unidos e a Alemanha. Nós somos uma democracia e a Alemanha é uma ditadura. Di-ta-du-ra — disse, separando as sílabas. — Em nosso país ninguém é perseguido. A perseguição acontece em países onde há preconceito. Pre-con-cei-to — enunciou cuidadosamente. — Os judeus são o melhor povo do mundo, não entendo por que Hitler não acha o mesmo.

     Uma alma inquiridora no meio da sala perguntou: 

— Então, por que a senhora acha que eles não gostam dos judeus, srta. Gates? 
— Não sei, Henry. Os judeus contribuem para todas as sociedades em que vivem e são, sobretudo, um povo profundamente religioso. Hitler está querendo acabar com a religião, então pode ser que não goste deles por isso.

     Cecil se manifestou: 

— Não tenho certeza, mas eles não vivem de emprestar dinheiro ou algo assim? Só que isso não é motivo para serem perseguidos. São brancos, não são?

     A srta. Gates disse: 

— Quando você entrar no ensino médio, Cecil, vai aprender que os judeus são perseguidos desde o começo do mundo, foram expulsos até do próprio país. É um dos fatos mais terríveis da história. Está na hora de estudarmos matemática, meninos.

     Como jamais gostei de matemática, passei a aula olhando pela janela. A única vez em que eu via Atticus irritado era quando o radialista Elmer Davis dava as últimas notícias sobre Hitler. Papai desligava o rádio e dizia: “Humpf!” Uma vez, perguntei a ele por que não gostava de Hitler e ele respondeu: “Porque ele é um maníaco.”
     Isso não era suficiente, pensei enquanto a classe continuava fazendo somas. Um maníaco e milhões de alemães. Eles é que deviam trancá-lo numa cela, em vez de deixar que ele saísse prendendo as pessoas. Tinha alguma coisa errada, eu ia perguntar ao meu pai.
     Perguntei mesmo e ele disse que não podia responder porque não sabia a resposta. 

— Mas tudo bem odiar Hitler? 
— Não. Não é bom odiar ninguém. 
— Atticus, não entendi uma coisa — eu disse. — A srta. Gates disse que Hitler faz coisas horríveis, ela pareceu muito irritada com isso… 
— Tem razão em ficar. 
— Mas… 
— Mas o quê? 
— Nada, não.

     Fui embora, sem saber se conseguiria explicar a Atticus o que estava passando pela minha cabeça, sem ter certeza se poderia explicar o que não passava de um sentimento. Talvez Jem pudesse responder. Ele entendia as coisas da escola melhor do que Atticus.
     Jem estava exausto depois de passar o dia todo carregando baldes de água. Ao lado da cama dele tinha no mínimo uma dúzia de cascas de banana e uma garrafa de um litro de leite vazia. 

— Por que está comendo tanto? — perguntei. 
— O técnico do time disse que, se eu engordar dez quilos por ano, daqui a dois anos posso jogar. É a maneira mais rápida de conseguir — respondeu ele. 
— Se você não vomitar, né? Jem, quero perguntar uma coisa. 
— Manda — disse ele, largando o livro e esticando as pernas. 
— A srta. Gates é legal, não é? 
— Claro. Eu gostava de ser aluno dela. 
— Mas ela detesta Hitler… 
— E qual é o problema? 
— Bom, ela disse que ele trata os judeus muito mal. Jem, é errado perseguir alguém, não é? Quer dizer, não se deve nem pensar mal dos outros, não é? 
— Claro que não, Scout. Qual é o problema? 
— Naquela noite, quando saímos do tribunal, a srta. Gates estava descendo a escada na nossa frente, você com certeza não a viu, ela estava conversando com a srta. Stephanie Crawford. Ouvi quando ela disse que estava na hora de alguém dar uma lição neles, que estavam indo longe demais, daqui a pouco iam querer casar com brancos. Jem, como uma pessoa pode detestar tanto Hitler e depois falar isso de alguém daqui mesmo…?

     De repente, Jem ficou uma fera. Pulou da cama, agarrou a gola da minha blusa e me sacudiu. 

— Nunca mais quero ouvir falar naquele julgamento, entendeu? Entendeu? Não diga mais uma palavra sobre isso, entendeu? Agora dá o fora!

     Fiquei tão assustada que nem consegui chorar. Saí de mansinho e fechei a porta com cuidado, para o barulho não irritá-lo outra vez. De repente, me senti cansada e precisava de Atticus. Ele estava na sala, fui até lá e tentei sentar no colo dele.
     Atticus sorriu. 

— Você está tão grande que só dá para eu abraçar uma parte. — Ele me abraçou e disse, carinhoso: — Scout, não fique chateada com Jem. Ele está passando por uma fase difícil. Ouvi vocês dois.
 
     Atticus explicou que Jem estava querendo muito tirar uma coisa da cabeça, mas, na verdade, estava guardando tudo dentro dele mesmo até que passasse o tempo necessário. Então ele poderia refletir e entender o que tinha acontecido. Quando conseguisse pensar naquilo tudo, ele voltaria a ser quem era.

continua página 177...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / 
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

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