Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto
Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB
SEGUNDA PARTE
25
— Não faça isso, Scout. Coloque-a na escada dos fundos.
— Jem, você ficou louco?
— Eu disse para pôr ela na escada dos fundos.
Com um suspiro, peguei a criaturinha, coloquei-a no primeiro degrau e voltei para a minha cama de campanha. Setembro
tinha chegado, mas nem sinal de frio e nós continuávamos dormindo na varanda dos fundos. Os vagalumes ainda estavam
circulando, os insetos noturnos e voadores que batiam na tela o verão inteiro ainda não tinham ido para onde quer que iam no
outono.
Uma centopeia tinha conseguido entrar em casa. Concluí que o bichinho tinha subido a escada e entrado por baixo da porta.
Estava pousando meu livro no chão, ao lado da cama de campanha, quando a vi. Essas criaturas têm uns três centímetros de
comprimento e quando tocamos nelas, se enrolam feito uma bola cinzenta.
Deitei de barriga no chão e cutuquei-a. Ela se enrolou. Depois, acho que se sentiu segura e se desenrolou. Andou alguns
centímetros com suas centenas de pernas e toquei-a de novo. Ela se enrolou. Eu estava com sono, então resolvi acabar com
aquela história. Estava prestes a esmagá-la quando Jem se manifestou.
Ele ficou zangado. Com certeza, fazia parte da fase pela qual ele estava passando e desejei que essa bendita fase passasse
rápido. É verdade que ele nunca tinha sido cruel com animais, mas eu não sabia que sua bondade se estendia ao mundo dos
insetos.
— Por que não posso esmagá-la? — perguntei.
— Porque ela não está incomodando — respondeu Jem, no escuro. Tinha desligado a luz do abajur.
— Acho que você deve estar na fase de não matar moscas e mosquitos — falei. — Me avise quando passar. Só vou dizer
uma coisa: não vou ficar parada e deixar de esmagar um inseto.
— Ah, fica quieta — ele disse, sonolento.
Era Jem que estava ficando cada dia mais parecido com uma moça, não eu. À vontade, estiquei-me na cama e esperei o
sono chegar, e enquanto esperava pensei em Dill. Ele tinha ido embora no primeiro dia do mês, com a promessa de voltar
assim que as aulas terminassem. Ele achava que os pais tinham entendido que ele gostava de passar os verões em Maycomb. A
srta. Rachel nos levou de táxi até o entroncamento de Maycomb e Dill acenou para nós da janela do trem até sumir de vista.
Ele não saía da minha cabeça: sentia falta dele. Nos dois últimos dias que ele passou conosco, Jem o ensinou a nadar…
Ensinou a nadar. Eu estava bem desperta, lembrando do que Dill tinha me contado.
O riacho Barker fica no final de uma estrada de terra que sai da estrada de Maycomb, a um quilômetro e meio da cidade. É
fácil pegar carona num vagão de algodão ou num carro na estrada e andar até o rio, que fica perto, mas a perspectiva de voltar
a pé para casa no final do dia, quando não há mais muito trânsito na estrada, é cansativa. Por isso, as pessoas que vão nadar no
rio tomam o cuidado de não ficar lá até muito tarde.
Segundo Dill, os dois tinham acabado de chegar na estrada quando viram Atticus vindo de carro na direção deles. Ele não
parecia estar vendo os dois, então eles acenaram e Atticus finalmente reduziu a velocidade. Quando parou o carro ao lado
deles, papai disse:
— É melhor arrumarem carona de volta. Vou demorar a voltar para casa.
Calpúrnia estava no banco de trás.
Jem reclamou, depois pediu para ir junto com Atticus e ele concordou:
— Está bem, podem vir conosco, se ficarem no carro.
No caminho para a casa de Tom Robinson, Atticus contou a eles o que tinha acontecido.
O carro saiu da estrada principal, rodou devagar ao lado do lixão, passando pela casa de Ewell e pelo caminho estreito
que levava aos barracos dos negros. Dill disse que tinha um monte de negrinhos jogando bola de gude no jardim da frente da
casa de Tom. Atticus estacionou o carro e saltou. Calpúrnia seguiu-o e entraram pelo portão da frente.
Dill ouviu quando ele perguntou a uma das crianças:
— Onde está sua mãe, Sam?
E o menino respondeu:
— Está na casa da irmã Stevens, sr. Finch. Quer que eu vá chamar?
Dill contou que Atticus ficou indeciso, depois aceitou e Sam saiu correndo. Atticus disse às crianças:
— Podem continuar jogando.
Uma menina pequena apareceu na porta do barraco e ficou olhando para Atticus. Dill disse que os cabelos dela eram uma
barafunda de trancinhas amarradas com fitas coloridas. Ela sorriu de uma orelha a outra e foi até o nosso pai, mas era muito
pequena para descer a escada. Dill contou que Atticus foi até ela, tirou o chapéu e ofereceu-lhe um dedo. Ela agarrou o dedo e
ele a ajudou a descer a escada. Depois, Atticus entregou-a a Calpúrnia.
Sam veio correndo atrás da mãe. Dill disse que Helen cumprimentou:
— Boa tarde, sr. Finch. Não quer sentar? — E não disse mais nada. Nem Atticus.
— Scout — contou Dill —, ela caiu no chão. Simplesmente desmoronou, como se um gigante tivesse aparecido e pisado
nela. Assim… — O pé gorducho de Dill pisou na terra. — Como quem amassa uma formiga.
Dill contou que Calpúrnia e Atticus levantaram Helen do chão e que ela foi meio carregada meio andando para o barraco.
Ficaram lá dentro bastante tempo e Atticus saiu sozinho. Na volta de carro, quando passaram pelo lixão, alguns Ewell gritaram
coisas para eles, mas Dill não entendeu o que era.
O interesse de Maycomb pela morte de Tom durou talvez uns dois dias, tempo suficiente para a notícia se espalhar pela
região. “Você soube? Não? Bem, disseram que ele corria mais rápido que um raio...” Para Maycomb, a morte de Tom foi
típica. Era típico de um negro ficar desesperado e correr; não ter um plano, um projeto para o futuro, só correr sem direção
quando via uma chance. Engraçado, Atticus Finch podia ter conseguido a liberdade para ele, mas esperar? Nem pensar. Você
sabe como eles são. Assim como vêm vão. Veja só, o tal Robinson era legalmente casado, dizem que era asseado, frequentava
a igreja e tudo, mas no fim das contas o verniz era fino demais. Os negros sempre acabam aprontando.
Mais alguns detalhes, que permitiam ao ouvinte dar sua própria versão do caso, depois nada mais a dizer até o Maycomb
Tribune sair na quinta-feira seguinte, com um pequeno obituário na seção de notícias dos negros. Mas havia também um
editorial.
O sr. B.B. Underwood nunca tinha escrito de forma mais amarga, pouco se importando se anúncios ou assinaturas fossem
cancelados. (Mas as coisas não funcionavam assim em Maycomb: o sr. Underwood podia esbravejar até ficar rouco e
escrever o que bem entendesse que continuaria com seus anunciantes e assinantes. Se ele queria fazer papel de bobo no jornal,
o problema era dele.) No editorial, o sr. Underwood não falou em descalabros da justiça, escreveu de maneira que até as
crianças pudessem entender. Disse apenas que era um pecado matar um aleijado, não importava se ele estivesse de pé, sentado
ou fugindo. Comparou a morte de Tom à matança cruel de pássaros canoros pelos caçadores e pelos meninos e os leitores de
Maycomb acharam que ele queria fazer um editorial poético para ser republicado no Montgomery Advertiser.
Quando li o editorial do sr. Underwood, fiquei pensando: como assim, matança cruel? Tom teve direito a um processo de
acordo com os ditames da lei até o dia de sua morte; teve um julgamento público e foi condenado por doze homens sensatos e
direitos; meu pai lutou por ele o tempo todo. Então, entendi o que o sr. Underwood queria dizer: Atticus lançou mão de todos
os meios ao alcance dos homens livres para salvar Tom Robinson, mas no tribunal secreto do coração dos homens, ele não
tinha chance. Tom era um homem morto no momento em que Mayella Ewell abriu a boca e gritou.
O nome Ewell me causava um enjoo imediato. Maycomb não perdeu em saber a opinião do sr. Ewell sobre a morte de
Tom e transmiti-la através do verdadeiro Canal da Mancha da fofoca que era a srta. Stephanie Crawford. Ela disse à tia
Alexandra, na presença de Jem (“Ora, ele já tem idade para ouvir isso”), que o sr. Ewell tinha dito que um já estava morto,
agora só faltavam dois. Jem disse para eu não ter medo, que as ameaças do o sr. Ewell eram papo-furado. Também disse que
se eu dissesse uma palavra daquilo a Atticus, se Atticus ficasse sabendo que eu sabia, ele nunca mais falava comigo.
ontinua página 173...
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Leia também:
O Sol é para todos: 1ª Parte (1a) /O Sol é para todos: 1ª Parte (2) / O Sol é para todos: 1ª Parte (3)
O Sol é para todos: 1ª Parte (4) /O Sol é para todos: 1ª Parte (5) / O Sol é para todos: 1ª Parte (6)
O Sol é para todos: 1ª Parte (7) / O Sol é para todos: 1ª Parte (8a) / O Sol é para todos: 1ª Parte (9a)
O Sol é para todos: 1ª Parte (10a) / O Sol é para todos: 1ª Parte (11a) / O Sol é para todos: 2ª Parte (12a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (13) / O Sol é para todos: 2ª Parte (14) / O Sol é para todos: 2ª Parte (15a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (16) / O Sol é para todos: 2ª Parte (17a) / O Sol é para todos: 2ª Parte (18a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (18b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (19) / O Sol é para todos: 2ª Parte (20)
O Sol é para todos: 2ª Parte (21) / O Sol é para todos: 2ª Parte (22) / O Sol é para todos: 2ª Parte (23a) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (23b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (24) / O Sol é para todos: 2ª Parte (25) /
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês
TO KILL A MOCKINGBIRD
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.
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