Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”
continuando...
onde me acolhe o potente Peleu com benévolo espírito.
Teve-me grande afeição, como pai poderoso a filho único,
único herdeiro de infinita riqueza para ele acervada,
e cumulou-me de bens, sobre dar-me o comando de gentes,
pois sobre os Dólopes tive o governo, no extremo de Ftia.
Qual és, Aquiles divino, nesta hora, por mim foste feito,
por mim, com terna afeição. Ninguém mais ao teu lado querias,
tanto como hóspede, fora, ou à mesa, nos nossos banquetes,
té que em meus joelhos, alfim, te pusesse, e cortasse os assados
em pedacinhos, com o que te saciasses e vinho te desse.
que borrifavas por cima de mim, com capricho de criança.
Por tua causa vê só que trabalhos sofri, que de incômodos!
Considerando que os deuses um filho me haviam negado,
como se filho me fosses, Aquiles divino, criei-te,
para que um dia amparar-me pudesses da ruína e do opróbrio.
“Vamos, Aquiles, o orgulho domina; aspereza tão grande
não fica bem para ti, pois se deixam dobrar até os deuses,
com terem mais dignidade, poder superior e virtude.
Apesar disso, conseguem os homens obter-lhes as graças
do arco, por causa da noiva estimada, de artelhos venustos.
Ilíada, de Homero - Canto IX
com libações e gordura queimada, com preces e vítima,
se, porventura, cometem qualquer infração ou pecado.
Pois são as Preces, nascidas do Crônida Zeus poderoso,
coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado,
as quais se afanam no encalço da Culpa, tentando alcançá-la.
Esta é, porém, vigorosa e de pés mui velozes; por isso
a todas elas se adianta, causando, onde quer que se encontre,
dano aos mortais, ao que as Preces procuram, depois, dar remédio.
Quem, a estas filhas de Zeus, ao chegarem, demonstra respeito,
delas obtém só vantagens, por serem seus votos ouvidos.
Mas se, obstinados, os homens ouvidos, acaso, lhes negam,
as Preces, logo, a Zeus Crônida sobem e, instantes, suplicam
que sempre a Culpa os torture e que tenham, com o dano, o castigo.
Por isso, Aquiles, concede a essas filhas de Zeus o devido
acatamento, que heróis valorosos já têm conquistado.
Se não te houvesse Agamémnone dons ofertado, além de outros
que te promete, mas ainda insistisse em mostrar-se zangado,
não te viria exortar, certamente, a suster a tua cólera
para ajudar os Acaios, embora careçam de auxílio.
Dá-te, porém, muitas coisas, e dons mais valiosos promete,
e te mandou, com pedido, em seu nome, os varões mais conspícuos
do acampamento, escolhendo os Argivos que mais estimavas.
Não menosprezes, portanto, seus passos e quanto disseram,
que, antes, a tua atitude nós todos assaz a exculpávamos.¹
“As próprias gestas de heróis das idades corridas nos dizem
que, quando, acaso, ficavam possuídos de cólera grande,
eram sensíveis a brindes, dobrando-se à força suasória.
Ora, meus caros amigos, me ocorre contar-vos um caso
nada recente, bem velho, tal como se deu, em verdade.
De certa vez os Curetes e os fortes Etólios, à volta de
Calidona lutavam, causando recíproco estrago.
Estes, lutando em defesa da bela cidade; os Curetes,
só desejosos de que Ares entrar as muralhas lhes desse.
Foi provocada a contenda por Ártemis do trono de ouro,
que se indignara por não ter de Eneu recebido as primícias
dos agros pingues, quando este ofertou hecatombes aos deuses
todos do Olimpo, excetuando-se a filha de Zeus, tão somente,
ou por descuido, ou de caso pensado, o que a fez irritar-se.
Por isso, pois, agastada, a donzela que flechas dispara,
um javali de alvos dentes, selvagem, envia contra ele,
que, destruidor habitual, as culturas de Eneu danifica.
Árvores grandes fazia tombar pelo solo e, com elas,
suas raízes, no tempo em que a flor prometia sementes.
Foi por Meléagro, filho de Eneu, o animal, então, morto,
pós haver feito reunir caçadores de muitas cidades
e seus mastins; impossível a poucos seria vencê-lo,
tão grande ele era, pois muitos já à pira funesta mandara.
Entre os Etólios galhardos e os homens Curetes valentes
a deusa, então, suscitou clamorosa contenda, por causa
da pele hirsuta do grande javardo e da enorme cabeça.
“Enquanto o forte Meléagro esteve a lutar, o Destino
para os Curetes foi sempre contrário, pois fora dos muros,
ainda que em número grande, lhes era impossível manter-se.
Mas, quando o peito do herói foi tomado pela ira que a muitos
outros, também, já turvara, dotados, embora, de siso,
contra Alteia, sua mãe, irritado ficou o guerreiro,
foi para junto da esposa legítima, a bela Cleópatra,
filha da filha de Eveno, Marpessa, dos belos artelhos,
e do grande Idas, o herói mais robusto de quantos outrora
na terra extensa viveram, que até contra Febo tomara
do arco, por causa da noiva estimada, de artelhos venustos.
A esta, por isso, no belo palácio, o apelido de Alcíone
os próprios pais lhe puseram, porque o sofrimento dessa ave
à mãe coubera, também, que profundos lamentos soltava,
quando se vira raptada por Febo, o frecheiro infalível.
Junto da esposa, agastado, deixou-se ficar, por motivo
das maldições de sua mãe, que do irmão tendo a morte sentido,
aos deuses todos do Olimpo, sem pausa, orações dirigia.
Vezes sem conta à alma Terra com a mão percutiu, invocando
o nome de Hades escuro e Perséfone, a deusa tremenda,
posta de joelhos e o seio banhado de lágrimas quentes,
para que o filho fizessem morrer. Pelas duras Erínias,
que andam nas trevas, desde o Érebo, foi, logo, a súplica ouvida.
“Em torno às portas, entanto, o barulho e o clamor recrudescem;
as torres foram forçadas. Os velhos Etólios, nessa hora,
e os sacerdotes sagrados de mais reverência lhe pedem
que a defendê-los se ponha, ofertando-lhe muitos presentes.
Em Calidona aprazível, lhe dizem, um campo escolhesse,
onde terreno mais fértil achasse, podendo cinquenta
jeiras, ao todo, marcar; para vinha, do chão a metade;
a outra metade, sem árvores, só de terreno lavrável.
O velho Eneu picador também fez insistentes pedidos.
De pé, no umbral do aposento de teto elevado, sacode
as folhas firmes da porta, a chamar pelo nome do filho.
Muito, também, as irmãs lhe pediram e a mãe veneranda.
Mais firmemente, porém, se negava Meléagro. Pedem-lhe
os companheiros, com muita insistência, e os mais caros amigos.
O coração no imo do peito, porém, ninguém pôde abalar-lhe,
antes de o fogo lhe haver atingido o aposento e os Curetes
às altas torres subido e iniciado a conquista dos muros.
Foi nesse instante que a esposa do herói, de cintura bem-feita,
por entre choro lhe exora, fazendo relato completo
dos sofrimentos dos homens, se viesse a cair a cidade:
da morte vil e cruel que teriam, do incêndio das casas,
a servidão em que iriam ficar as mulheres e as crianças.
À relação desses males, alfim, comovido se mostra.
Sem mais detença correu a envergar a armadura brilhante.
Dessa maneira, afastou dos Etólios o dia funesto,
por próprio impulso levado. Sem paga os livrou do perigo,
pois dos presentes de grande valia nenhum lhe foi dado.
“Essa maneira de ver, caro amigo, não deve ser tua.
“Essa maneira de ver, caro amigo, não deve ser tua.
Nenhum demônio te instigue. Seria, sem dúvida, inglório
ir em defesa das naus incendiadas. Aceita os presentes
que te ofertaram. Os Gregos ter-te-ão como um deus do alto Olimpo.
Pois se enfrentasses a guerra homicida sem dádivas grandes,
honra menor te coubera, ainda mesmo que o imigo afastasses.”
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte:
“Velho Fenice, nutrido por Zeus, de tais honras não curo;
são dispensáveis. Confio, isso sim, nos favores do Crônida,
que me farão demorar junto às naves recurvas, enquanto
sopro no peito tiver e os joelhos puderem mover-se.
sopro no peito tiver e os joelhos puderem mover-se.
Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito:
o coração não me venhas turvar com lamentos e queixas,
para ao Atrida agradares. Não deves amá-lo desta arte,
se não quiseres em ódio mudar a afeição que te voto.
Fica-te bem retribuir com ofensa a quem vier a ofender-me.
Vem partilhar do comando comigo; iguais honras te caibam.
Estes dirão a resposta. Aqui, pois, permanece, e ao macio
leito recolhe-te. Logo que a Aurora surgir, pensaremos
no que convém escolher; se ficar, se voltar para a pátria.”
Com o sobrecenho, depois, sem falar, fez a Pátroclo aceno
para que o leito mandasse aprontar, de Fenice, que, logo,
os outros dois no retorno pensassem, Ajaz Telamônio,
de forma igual à de um deus, proferiu as seguintes palavras:
“Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
vamos! Não creio que nosso propósito alcance algum êxito
por esta via. Ora cumpre, sem perda de tempo, a resposta
comunicar aos Argivos, embora bem ruim ela seja,
que eles, por certo, ainda estão reunidos, à espera. O Pelida,
de ira selvagem, somente inundou o magnânimo peito.
Homem cruel, que não preza a amizade dos fidos consócios,
essa com que o distinguíamos, junto de nossos navios!
Sem compaixão! É comum aceitar-se o resgate, até mesmo
pelo assassínio do irmão, pela morte do filho querido.
Fica o ofensor no país, quando multa adequada se acorda,
pois o ofendido refreia no peito a paixão excruciante
com receber os presentes. Rancor implacável e duro
no coração te puseram os deuses por causa, tão somente,
de uma cativa. No entanto, te damos sete outras, belíssimas,
e muitas dádivas mais. Assossega, portanto, o teu peito,
e tua casa respeita; encontramo-nos sob este teto
por comissão dos Acaios. Julgávamos, todos, te fôssemos
os mais prezados amigos no grande arraial dos Argivos.”
Disse-lhe Aquiles, dos rápidos pés, em resposta, o seguinte:
“Dominador poderoso de povos, Ajaz Telamônio!
Com quase todas as tuas palavras meu peito concorda.
O coração, porém, sinto indignar-se ao lembrar-me do insulto
que me atirou Agamémnone, em face do exército Aquivo,
como se eu fosse adventício de todo o valor destituído.
Ora fazei-vos de volta, e a resposta, que dei, transmiti-lhe.
Não tomarei decisão de tornar para a guerra cruenta,
antes que Heitor, o divino, de Príamo sábio nascido,
chegue até perto das tendas e naus dos heroicos Mirmídones,
e, a dizimar os guerreiros Aquivos, as naus incendeie.
Mas quero crer que aqui perto da tenda em que me acho e da nave
de cor escura há de Heitor valoroso refrear seus propósitos.”
Isso disse ele. Então, todos, tomando dos copos, libaram
junto das naus, regressando; servia Odisseu como guia.
Pátroclo, então, disse às servas e a seus companheiros que fossem
o leito cômodo, logo, aprontar para o velho Fenice.
Obedientes às ordens, o leito aprontaram, forrando-o
Obedientes às ordens, o leito aprontaram, forrando-o
com velo e colcha macia e coberta de linho finíssimo.
O velho ilustre deitou-se, aguardando a chegada da Aurora.
Deita-se Aquiles, também, no recesso da tenda bem-feita,
com uma jovem ao lado, que havia trazido de Lesbo,
filha do grande Forbante, Diomeda de faces rosadas.
Pátroclo, no lado oposto, também se deitou, tendo ao lado
Ífis, de bela cintura, que Aquiles divino lhe dera
quando a cidade de Enieu valoroso, a alta Esciro, saqueara.
Logo que os dois emissários chegaram à tenda do Atrida,
viram-se pelos Argivos cercados, que, alçando-se prestes,
viram-se pelos Argivos cercados, que, alçando-se prestes,
com taças de ouro os saudavam, ansiosos por tudo saberem.²
Foi o primeiro a falar Agamémnone, rei poderoso:
“Dize-me logo, Odisseu meritíssimo, glória da Acaia,
se ele consente em livrar os navios do fogo inimigo,
ou se se nega, por ter ainda o peito tomado pela ira?”
Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu sofredor de trabalhos:
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso.
não só persiste na cólera, como se mostra tomado
pelo furor, recusando os presentes e tuas propostas.
Acha que deves, com os outros Argivos, pensar na maneira
de as naus e o exército Acaio salvar do perigo iminente.
Sim, chegou mesmo a ameaçar de que, logo que a Aurora se eleve,
há de puxar para as ondas as naves de boa coberta.
Acrescentou que aconselha aos demais que se façam de volta
para o torrão de nascença, que o termo jamais acharemos
de Ílio escarpada, que a mão protetora, sobre ela, Zeus, grande,
de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo.
Meus companheiros, aqui, poderão confirmar o que digo,
o Telamônio e os arautos dotados de grande prudência.
O venerando Fenice ficou, a conselho de Aquiles,
para partir, juntamente com ele, amanhã muito cedo,
caso deseje, que contra a vontade, não há de levá-lo.”
Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram,
estupefatos perante a violência de suas palavras.
Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos,
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso!
Antes nenhuma proposta tivesses ao grande Pelida
apresentado, nem feito tão grandes promessas. Se já era
insuportável, tornou-se ainda mais insolente com isso.
Não mais devemos com ele ocupar-nos, quer volte, realmente,
quer se decida a ficar. Há de, alfim, reingressar nos combates,
quando lhe o peito ordenar ou algum deus o incitar a fazê-lo.
Satisfaçamos, primeiro, o desejo, com vinho e alimentos,
para irmos, logo, dormir, que isso as forças restaura e a coragem.
E, quando a Aurora, de dedos de rosa, surgir no horizonte,
a postos põe, junto às naves, os homens e os carros de guerra,
e para a luta os incita; tu próprio lhes sê alto exemplo.”
Todos os chefes presentes romperam em francos aplausos
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.
As libações completadas, às tendas, depois, se acolheram,
onde gozaram, deitados, dos gratos presentes do Sono
[1] Versos 496 a 523, traduzidos de forma clássica.
continua página 258...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /
Canto VI.a / Canto VI.b /
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c /
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________[1] Versos 496 a 523, traduzidos de forma clássica.
Esta passagem do Canto IX da Ilíada (conhecida como a "Alegoria das Preces", ou Litai) é uma das joias filosóficas e retóricas mais fascinantes de toda a poesia homérica. Nela, o velho Fênix tenta dobrar o orgulho irredutível de Aquiles. Nesse trecho, Fênix, o velho mestre e figura paterna de Aquiles, tenta persuadir o herói a abandonar sua ira implacável contra Agamemnon e a aceitar os presentes de reconciliação tr azidos pela embaixada grega.
* O Mito das Preces (Litai) e da Culpa (Até)
- A Culpa (Até): É descrita como vigorosa, rápida e de pés ligeiros. Ela se adianta e espalha o mal e o dano entre os homens. Representa a impulsividade, a arrogância (hubris) ou o erro que irrompe de forma súbita.
- As Preces (Litai): São filhas de Zeus, mas são retratadas de forma paradoxal — "coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso". Elas caminham devagar, arquejando no encalço da Culpa, tentando reparar o estrago.
Fênix está argumentando que o erro e o conflito (representados pelo atrito entre Agamemnon e Aquiles) são inevitáveis na condição humana. No entanto, o que define a grandeza de um herói não é a infalibilidade, mas sim a capacidade de ceder ao remédio da reconciliação.
- Se o homem acolhe as Preces (as ofertas de paz e pedido de perdão), ele é abençoado.
- Se o homem é obstinado e orgulhoso, recusando-as, as Preces recorrem ao próprio Zeus, fazendo com que a Culpa (Até) retorne para esmagar o transgressor com o castigo.
Fênix está, na prática, fazendo um alerta profético: a recusa cega de Aquiles em aceitar os presentes e perdoar o comandante grego deixará de ser uma defesa de sua honra e passará a ser uma desmedida (hubris), o que acabará por atrair a desgraça sobre os próprios gregos e sobre o próprio Aquiles (culminando na morte de Pátroclo).
[2] A resposta de Aquiles, contida neste trecho, marca o clímax e o fracasso absoluto da Embaixada a Aquiles.
* O Mito das Preces (Litai) e da Culpa (Até)
- A Culpa (Até): É descrita como vigorosa, rápida e de pés ligeiros. Ela se adianta e espalha o mal e o dano entre os homens.
- As Preces (Litai): São filhas de Zeus, mas são retratadas de forma paradoxal — "coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso".
Fênix está argumentando que o erro e o conflito (representados pelo atrito entre Agamemnon e Aquiles) são inevitáveis na condição humana.
- Se o homem acolhe as Preces (as ofertas de paz e pedido de perdão), ele é abençoado.
- Se o homem é obstinado e orgulhoso, recusando-as, as Preces recorrem ao próprio Zeus, fazendo com que a Culpa (Até) retorne para esmagar o transgressor com o castigo.
Fênix está, na prática, fazendo um alerta profético: a recusa cega de Aquiles em aceitar os presentes e perdoar o comandante grego deixará de ser uma defesa de sua honra e passará a ser uma desmedida (hubris), o que acabará por atrair a desgraça sobre os próprios gregos e sobre o próprio Aquiles (culminando na morte de Pátroclo).
[2] A resposta de Aquiles, contida neste trecho, marca o clímax e o fracasso absoluto da Embaixada a Aquiles.
Enquanto Ájax Telamônio (que fala logo antes desse trecho) tenta apelar para a solidariedade de Aquiles com os companheiros em sofrimento, Aquiles demonstra que sua ferida é, acima de tudo, narcísica e profunda: o insulto público de Agamemnon fferiu sua honra (timé) de forma irreparável diante de todo o exército.
* A Resposta Irredutível e a Estética da Honra
- O orgulho ferido: Aquiles admite que o raciocínio de Ájax faz sentido, mas o rancor ("o coração... sinto indignar-se") é mais forte. Ele não aceita ser tratado como um pária ("como se eu fosse adventício de todo o valor destituído").
- O orgulho ferido: Aquiles admite que o raciocínio de Ájax faz sentido, mas o rancor ("o coração... sinto indignar-se") é mais forte. Ele não aceita ser tratado como um pária ("como se eu fosse adventício de todo o valor destituído").
- O limite traçado por Aquiles: Ele cede apenas parcialmente à pressão dos amigos, estabelecendo uma linha vermelha tática e psicológica. Ele não voltará a lutar agora, mas impõe uma condição quase fatal para os gregos: só entrará no combate se Heitor e os troianos avançarem a ponto de incendiar as frotas dos mirmidões e ameaçar suas próprias tendas.
* A Ironia Trágica
- Ao desejar que Heitor avance até as naus para só então agir, Aquiles está, sem saber, selando o destino de seu melhor amigo, Pátroclo (que aparece logo depois mandando preparar a cama para Fênix).
- É justamente quando os troianos chegam às naus e começam a incendiá-las que Pátroclo pedirá a armadura de Aquiles emprestada para conter o inimigo — o que resultará na morte de Pátroclo pelas mãos de Heitor, o evento que finalmente trará Aquiles de volta à guerra sedento de vingança.
* A Calmaria Doméstica em Contraste com a Crise Épica
* A Calmaria Doméstica em Contraste com a Crise Épica
É fascinante notar a transição cinematográfica que Homero faz no final do trecho:
- De um lado, temos a alta política, a guerra iminente e a diplomacia frustrada entre os maiores heróis da Hélade.
- De um lado, temos a alta política, a guerra iminente e a diplomacia frustrada entre os maiores heróis da Hélade.
- De outro, o texto desce para o interior das tendas, mostrando os detalhes cotidianos e humanos daquela noite de trégua tensa: Pátroclo preparando o leito para o velho Fênix, e os heróis recolhendo-se com suas companheiras cativas (como Diomeda e Ífis). Esse contraste realça a tragédia — o silêncio e o repouso antes da tempestade devastadora que o Canto XVI trará.
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Ilíada, de Homero - Canto IX
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